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A igreja que explicita sua crença

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“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15)

Introdução:

Neste estudo estaremos abordando o fato de que, principalmente as igrejas históricas e reformadas, como a Igreja Presbiteriana, adotam credos e confissões de fé, que lhe servem de balizamento para aquilo que creem e professam como sendo a doutrina bíblica essencial. Isto fazem para que seus membros possam ter mais fácil acesso e compreensão da doutrina e ensino bíblicos, de modo a blindá-los e preservá-los das heresias e toda a sorte de ventos de doutrina estranhos à Bíblia.

1. OS TRÊS PILARES DE UMA RELIGIÃO/SEITA

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RELIGIÃO: Instituição social com crenças e ritos.
SEITA: Ramo dissidente de uma religião, cujas doutrinas e métodos divergem do tronco principal, considerado herético.

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cristianismo

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Dos esquemas acima, percebe-se a importância do Fundador e das Crenças sobre os seus Seguidores.

2. TRÊS PALAVRAS IMPORTANTES: Crença, Confissão e Balizamento

“Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.” (Jo 7.38)
“e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Fp 2.11)

Durante certo tempo o livro sagrado dos cristãos, a Bíblia, era acessado por poucos. A igreja católica romana permitia que apenas uns poucos, do clero, lessem, interpretassem e ministrassem a Palavra. Os leigos não tinham esse privilégio. Com o advento da imprensa em 1455, da tradução da Bíblia para o Alemão, por Lutero, em 1534, e de outras traduções, bem como da Reforma Protestante [1], o povo passou a ter acesso a Bíblia. Com esse livre acesso e incentivo à leitura bíblica pelo povo, dá para imaginar a dificuldade que surge quanto ao entendimento do ensino e doutrina bíblicos. Portanto, era necessário unificar a visão e entendimento dos cristãos, de modo que todos tivessem a mesma crença. Parece que nestes Séculos 20 e 21 os cristãos estão vivenciando essas mesmas dificuldades, considerando as múltiplas interpretações que têm surgido a respeito do ensino e doutrinas bíblicas, agravado pelo descaso aos credos e confissões.

CRENÇA:

No geral, é a firme convicção sobre ideias, conceitos e fatos que se julga verdadeiros. Particularmente, neste estudo, é a firme convicção sobre as verdades e doutrinas bíblicas.

CONFISSÃO:

No geral, é o ato de confessar, declarar algo, que se pensa, que se crê ou que se fez.
Particularmente, neste estudo, é a declaração que se faz sobre a crença ou fé cristã.

BALIZAMENTO:

No geral, é o ato ou efeito de balizar, de demarcar com balizas; balizagem.
Particularmente, neste estudo, é o ato ou efeito de estabelecer ou demarcar os limites da crença ou fé cristã.

“A melhor maneira de manter em evidência aquilo em que cremos e confessamos é através do registro documental de nossa fé, o que é feito através dos credos e confissões da História da Igreja.”[2]

3. CREDOS E CONFISSÕES

3.1 PROPÓSITOS

a) Expressar, com clareza, aquilo em que cremos como Igreja de Cristo, a fim de manter firme a nossa profissão de fé.

b) Blindar a igreja de Cristo das heresias que geram confusão, insegurança e desvios da fé. “A comunidade dos santos sem o balizamento de suas crenças fieis à Escritura é como aquele que é agitado ‘de um lado para outro’, sendo vitimado por ‘todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.’ (Efésios 4.14).”[2]

c) Enfim, “Credos e confissões são documentos humanos, elaborados com a finalidade de nos conduzir a uma boa interpretação da Escritura e a nos auxiliar a manter vida santa e digna diante de Deus. Eles nos auxiliam a manter em evidência e clareza os ensinamentos bíblicos, a demonstrar que estamos em sintonia com os principais credos da Igreja de Cristo e a manter nossas posições e doutrinas distintas em relação às doutrinas de todos os demais grupos cristãos ou pseudocristãos afastados da sã doutrina.” [2]

3.2 PRINCIPAIS DOCUMENTOS

“Nossos documentos históricos são os credos, os catecismos, as confissões e os cânones, sendo os principais de linha reformada:

  • Credos[3]: dos Apóstolos (data indefinida), Niceno (325), Atanasiano (séc. IV), Calcedônia (451), Constantinopolitano (c. 381), 39 Artigos de Fé (1563).
  • Catecismos[4]: Genebra (1537), Heidelberg (1563), Westminster (Maior e Breve, 1647).
  • Confissões[5]: Genebra (1537), Guanabara (1557), Galicana (1559), Escocesa (1560), Belga (1561), Segunda Helvética (1566), Westminster (1646).
  • Cânones[6]: Dort (1619).

Dos documentos acima, cabe ressaltar que a Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1563) e os Cânones de Dort (1619), três dos mais antigos tratados reformados, compõem o que se conhece como As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas que, desde então, em todo o mundo, se adotam nas igrejas reformadas em particular e cristãs em geral, promovendo unidade mínima nos elementos centrais da fé cristã. Mais tarde, a Confissão e os Catecismos de Westminster foram influenciados por esses importantes documentos.” [2]

3.3 SÍMBOLOS DE FÉ (IPB)

“Igrejas reformadas são lembradas por serem extremamente bíblicas em suas doutrinas, e isso se dá exatamente pelo apoio que recebem dos documentos. Então, uma igreja reformada, como a Igreja Presbiteriana do Brasil, é igreja bíblica e igreja confessional, o que quer dizer que a base do que essa igreja crê sai diretamente da Palavra de Deus e é registrado de forma documental em credos e confissões que servem para o presente e o futuro da igreja, ao mesmo tempo que nos remete à nossa origem de fé.” [2]

A IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL adota os seguintes símbolos:

  • A Confissão de Fé de Westminster (a exposição dos 35 temas).
  • O Catecismo Maior de Westminster (os 35 temas em 196 perguntas).
  • O Breve Catecismo de Westminster (33 dos 35 temas em 107 perguntas).

4. AUTORIDADE E DESAFIOS

4.1 A AUTORIDADE DA BÍBLIA

Cremos que a Bíblia é a nossa única e infalível regra de fé e prática. Ela tem e terá sempre a primazia sobre qualquer outro livro ou documento. Quanto mais a lemos, não apenas uma parte, mas todo o seu conteúdo, mais conhecemos a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, bem como seu plano e propósito para cada pessoa e para sua igreja.

“Pessoas há que estranham adotar a Igreja presbiteriana uma Confissão de Fé e Catecismos como regra de fé, quando sustenta sempre ser a Escritura sua única regra de fé e de prática. A incoerência é apenas aparente. A Igreja Presbiteriana coloca a Bíblia em primeiro lugar. É ela só que deve obrigar a consciência.

É também princípio fundamental da Igreja Presbiteriana que toda autoridade eclesiástica é ministerial e declarativa; que todas as decisões dos concílios devem harmonizar-se com a revelação divina. A consciência não deve se sujeitar a essas decisões se elas forem contrárias à Palavra de Deus.”[7]

4.2 A AUTORIDADE DOS CREDOS E CONFISSÕES

Os credos e confissões “não são, no entanto, inerrantes e nem compõem nossa única regra de fé e prática, que é exclusivamente a Bíblia Sagrada. A autoridade desses documentos é relativa e com limitações, mas, nem por isso devemos desprezar seu valor de formação e unidade para a fé cristã reformada. Na própria Escritura encontramos diversas declarações de fé, credos e confissões, como a de Filipenses 2.5-11.” [2]

“Admitir-se a falibilidade dos concílios não é depreciar a autoridade da Confissão de Fé e dos Catecismos para aqueles que de livre vontade os aceitem. Admitindo tal, a Igreja somente declara que depende do Autor da Escritura, e recebe a direção do seu Espírito na interpretação da Palavra e nas fórmulas de aplicar suas doutrinas. A Igreja Presbiteriana sustenta que a Escritura é a suprema e infalível regra de fé e prática; e também que a Confissão de Fé e os Catecismos contém o sistema de doutrina ensinado na Escritura, e dela deriva toda a sua autoridade e a ela tudo se subordina.”[8]

4.3 O DESAFIO PERMANENTE

a) Combater a leviandade espiritual

“Dentro da própria Igreja de Cristo, inclusive nas igrejas históricas, vivemos dias em que os credos e confissões sofrem grande rejeição, mas isso precisa ser detido e revertido. Parte considerável dos desvios e da leviandade espiritual contemporâneos são decorrentes de não se terem em alta conta as verdades expressas nos antigos documentos da cristandade.” [2]

b) Combater os modismos teológicos

Vivemos um tempo em que lideranças de igreja vão estabelecendo novas interpretações da bíblia, de forma a harmonizar ou acomodar situações contemporâneos ou de conduta, ao sabor de suas opiniões pessoais. “Com o passar do tempo, o afastamento da centralidade da Escritura se torna inevitável. Em outras palavras, se mantivermos fidelidade aos credos e confissões, teremos mais chance de manter a nossa fé clara e bem compreendida, enquanto temos liberdade de manter diálogo e debate teológico de alto nível, ao passo que as igrejas que não são fieis a tais documentos incorrem em nítidos perigos de manipulação da fé.” [2]

c) Preservar a liturgia do Culto

“Nas igrejas reformadas, nós não confessamos apenas o Sola Scriptura, nós também incrementamos a autoridade da Escritura em nossa adoração, em nossa música, na forma e conteúdo de nossos sermões e ensinamentos, o que é guiado pelas conceituações apreendidas em nossos credos e confissões reformados, que demonstram para nós a continuidade da aliança de Deus conosco, mesmo em meio a variações de costumes e tempos.” [2]

Conclusão:

“Não podemos ser como crianças na fé, instáveis, levados de um lado a outro por qualquer coisa que leiamos e ouçamos por aí. Nossa fé é baseada na Escritura e é alimentada pelos estudos e observações aos nossos documentos confessionais.”[2] Precisamos ter sempre em mente que somos igreja e, como tal, precisamos conhecer, viver, praticar e testemunhar nossa Crença, nossa Fé: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15)

Você conhece, pelo menos, a essência da sua fé em Cristo?

[1] Reforma Protestante: 31/10/1517 – Fixadas as 95 teses na porta da igreja do Castelo de Wittenberg.
[2] EBD – Módulo 5 – Aula 1 – A igreja que sabe no que crê – Pr. Joel Theodoro
[3] Credo: Fórmula doutrinária.
[4] Catecismo: Exposição de fé e de doutrina da Igreja.
[5] Confissão: documento que expressa consenso doutrinário entre as diversas Igrejas Reformadas.
[6] Cânone: Regra geral, preceito, norma.
[7] Símbolos de Fé, pág. 15 (Editora Cultura Cristã)
[8] Símbolos de Fé, pág. 16 (Editora Cultura Cristã)

Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 1 (A igreja que sabe no que crê) – Módulo 5 – EBD Catedral 2016, de modo a atender a temática proposta no material elaborado pelo Pr. Joel Theodoro para os alunos. Foram feitas algumas alterações para divulgação neste blog.

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Tempos de Milagres

1Tempos de Milagres

A intervenção de Deus na história humana é contínua, mas não é linear; é pontual, oportuna, necessária e impactante, ocorrendo mais intensamente em épocas específicas. É comparável ao pulsar vivificador de Deus na história humana.

No dizer de Philip Schaff, “Há uma tríplice revelação de Deus:

1- A revelação interna da razão e da consciência, em cada indivíduo (Rm 2.15; Jo 1.9);

2- Há uma revelação externa, na criação, a qual proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus (Rm 1.20; Sl 19);

3- Há uma revelação especial, através das Santas Escrituras, como também na pessoa e na obra de Cristo, que confirma e completa as outras duas revelações, exibindo a justiça, a santidade e o amor de Deus”.

Milagres, intervenções e revelações são manifestações sobrenaturais de Deus. Se acontece todo o dia, reduz seu impacto, como no caso da revelação externa, através da natureza, por exemplo. O sol nasce diariamente, o oxigênio se renova, as chuvas regam a terra, os rios nascem nos lugares mais imprevisíveis levando vida por onde passam, e nada disso nos surpreende. E o que dizer do milagre da renovação da vida humana? Um espermatozoide fecunda um óvulo. Essa minúscula substância informe se desenvolve, sem qualquer intervenção humana, orientado por um código genético, dando origem a um ser complexo, que pode alcançar mais de 2 metros, com todos os seus sistemas, células e tecidos os mais variados, pele, cartilagem, ossos, líquidos etc. Olhos que enxergam em 3 dimensões e em cores. Um cérebro capaz de produzir coisas inimagináveis. Entretanto, quem se surpreende com esses milagres tão extraordinários?

No desenvolvimento da história bíblica, podem ser facilmente identificados três períodos de grande intervenção divina. Cada um desses períodos durou menos de um século e foi marcado por milagres, que são acontecimentos que não têm uma explicação natural. São eles:

– Quando da formação da nação de Israel, sob Moisés e Josué.

– Quando o culto a Baal ameaçava destruir toda a adoração a Deus, sob Elias e Eliseu.

– Quando do estabelecimento da igreja, sob Cristo e os apóstolos (predominantemente).

Considerando os principais milagres registrados na Bíblia, chegamos à seguinte estatística:

2Tempos de Milagres

                                                               (Boyer, O. S.  – Pequena Enciclopédia Bíblica)

Depois da maior e mais intensa manifestação de Deus, da mais intensa luz da revelação divina, em Jesus, o registro bíblico traz indicações de um provável desvanecimento ainda na era apostólica. Em cerca de 54-57dC, há o registro surpreendente: “E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam.” (At 19.11-12). Cerca de dez anos mais tarde, 64-67dC, encontramos outros registros igualmente surpreendentes, nos seguintes escritos do mesmo apóstolo Paulo a Timóteo: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades.” (1Tm 5.23 – 64dC); “Erasto ficou em Corinto. Quanto a Trófimo, deixei-o doente em Mileto.” (2Tm 4.20 – 67dC).

O desvanecimento continua, ao ponto da história registrar um extenso período conhecido como “Idade das Trevas” que coincide com a Idade Média, período compreendido entre a deposição do último soberano do Império Romano do Ocidente, Rômulo Augusto (476, século 5), até a conquista da cidade de Constantinopla, pelos turcos (1453, século 15), pondo fim ao Império Bizantino. Um período de inúmeras invasões territoriais, frequentes guerras e ampla intervenção da Igreja, mas pobre de grandes manifestações de Deus.

No contexto da Reforma (séculos 14 a 16), quando o afastamento da igreja oficial também ameaçava destruir o verdadeiro culto a Deus, aparecem em cena homens enviados por Deus como: João Wyclif (1324-84), Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-64) e João Knox (1515-72).

Passados dois séculos, mais uma vez Deus vem em socorro da sua igreja. Nos séculos 18 e 19, marcados por grandes avivamentos e expansão missionária destacam-se: Jônatas Edwards (1703-58), João Wesley (1703-91), Guilherme Carey (1761-1834), Carlos Finney (1792-1875), Jorge Müller (1805-98), Davi Livingstone (1813-73), Hudson Taylor (1832-1905); Carlos Spurgeon (1834-92) e Dwight L. Moody (1837-99).

O século 20 foi marcado pelo Movimento Pentecostal, que é visto com muita desconfiança pelos cristãos das igrejas históricas e tradicionais. Na prática, isso produziu uma macro divisão na igreja, entre pentecostais e não pentecostais. No Brasil, pentecostal é o segmento que congrega a maioria dos protestantes, segundo o Censo do IBGE. O desenvolvimento deste movimento é classificado em três ondas. A primeira onda teve início em dois eventos, em 1901 e 1906, este último conhecido como o Avivamento da rua Azusa, nos Estados Unidos, noticiando-se a ocorrência de fenômenos como batismo com o Espírito Santo e o falar em línguas. Daí procurou-se associar tais eventos aos ocorridos no Pentecostes de Atos 2. A segunda onda, ocorrida por volta do ano de 1960, recebeu o nome de Renovação Carismática. Havia muita ênfase nas manifestações sobrenaturais, principalmente nos dons de línguas e cura divina. Muitas igrejas de denominações tradicionais, como metodistas, batistas, presbiterianos, luteranos, congregacionais etc foram afetadas por esse movimento de “renovação espiritual”, ocorrendo muitas divisões, com saída de grupos para organizarem novas igrejas. Algumas igrejas como Maranata, Nova Vida etc surgiram nesta época. O movimento também alcançou a Igreja Católica Romana, dando origem aos Católicos Carismáticos. Interessante é o relato de católicos carismáticos, naquela ocasião, dizendo que após terem sido batizados com o Espírito Santo passaram a se devotar com muito mais ardor à virgem Maria. A terceira onda ou Neopentecostalismo surgiu cerca de duas décadas depois (1977), com pessoas oriundas das igrejas pentecostais, das carismáticas e, também, das tradicionais. No Brasil, a maior e mais representativa igreja dessa corrente é a Igreja Universal do Reino de Deus, seguida pela Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Renascer em Cristo, a Igreja Mundial do Poder de Deus, dentre outras. O neopentecostalismo, além de manter as mesmas ênfases do movimento pentecostal, supervaloriza e enfatiza a operação de maravilhas e curas; a busca da prosperidade como sinal da aprovação divina; “objetos ungidos” e rituais. Até que ponto todos esses fenômenos vivenciados e noticiados pelo segmento pentecostal e neopentecostal do século 20 podem ser consideradas legítimas manifestações divinas? Pentecostais e não pentecostais têm suas próprias visões sobre assunto. Entretanto, acima de tudo, vale ressaltar a importância de se preservar o amor cristão, o respeito e a tolerância, mútuos!

Enfim, após toda essa abordagem no tempo, fica aqui demonstrado o que foi dito no início deste artigo: A intervenção de Deus na história humana é contínua, mas não é linear; é pontual, oportuna, necessária e impactante, ocorrendo mais intensamente em épocas específicas.

Cremos num Deus que continua a manifestar-se no meio da Igreja, quando e como ele quer. “É tão temerário dizer que Deus nada mais opera, quase limitando o poder de Deus, quanto dizer que ele tudo opera, quase limitando a soberania de Deus.” Cremos que Jesus Cristo, o Filho de Deus é a maior manifestação da revelação de Deus à humanidade. Cremos que a Bíblia é a maior fonte de revelação escrita de Deus ao seu povo e precisa ser estudada e praticada.

Cremos que Deus nos chamou para viver num mundo natural e que o sobrenatural de Deus virá ao nosso encontro, sempre que necessário, na medida da nossa fé, subordinado à vontade de Deus e para cumprir um fim proveitoso que, acima de tudo, glorifique a Deus. Para aqueles que somente se impressionam com sinais e prodígios, tomando posse de uma promessa que Jesus fez diretamente aos onze: “Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados.” (Mc 16.18), recomendamos que considerem essa outra fala de Jesus: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20.29). Já em tom de despedida, Jesus declarou em certa ocasião: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai.” (Jo 14.12). É difícil imaginar alguém operando sinais e prodígios maiores do que os de Jesus. Enquanto uns colocam tanto foco nas manifestações sobrenaturais, muitas vezes com vida pessoal e conduta reprováveis, queremos nos alinhar àqueles que celebram, juntamente com os anjos no céu, outro verdadeiro milagre: pecadores arrependidos e transformados pelo poder do Evangelho, vivendo uma nova vida.  

Finalmente, não podemos deixar de manifestar nossa tristeza e repulsa aos que, se dizendo cristãos evangélicos, são mercadores da fé, distorcem e exploram os dons espirituais, fabricam e propagam falsos milagres, iludindo e enganando os neófitos e rasos na fé cristã (2Co 2.17). Cremos em “Tempos” de Milagres e não em “Templos” de Milagres. Verdadeiramente não podemos ser ignorantes quanto à operação e mover do Espírito Santo, nem aos princípios básicos da fé cristã. É preciso conhecer bem e praticar a Palavra de Deus, não se deixando levar por ventos de doutrinas e modismos de última hora. Jesus nos deixou advertência explícita quanto a esse tipo de gente: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mt 7.21-23).

Paradoxos e desdobramentos do Primeiro Natal

Paradoxos

A vinda de Jesus Cristo, há mais de dois mil anos atrás, está repleta de paradoxos e desdobramentos, como, por exemplo:

01. Fez-se descendente de Adão, para inaugurar uma nova descendência que não procede de Adão.

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais.” (1Co 15.45,47-48)

02. Habitou na terra, para que os seus remidos habitassem no céu.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.” (Jo 14.2-3)

03. Fez-se ovelha – Cordeiro de Deus – para se tornar o Bom Pastor.

 “No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29)

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (Jo 10.11)

04. Veio para os que estavam longe, mas foi traído pelo que estava perto – Judas.

 “Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá. Então, aquele discípulo, reclinando-se sobre o peito de Jesus, perguntou-lhe: Senhor, quem é? Respondeu Jesus: É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado. Tomou, pois, um pedaço de pão e, tendo-o molhado, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.” (Jo 13.21, 25-26)

05. Veio para os que o esperavam (judeus), mas foi achado pelos que não o procuravam (gentios).

“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1.11-13)

 “Fui buscado pelos que não perguntavam por mim; fui achado por aqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome, eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui.” (Is 65.1; comp. Rm 10.20)

06. Veio como luz, para um mundo que estava em trevas.

 “O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz.” (Is 9.2)

07. Veio como Rei dos judeus e Rei dos reis, mas viveu como servo de Deus.

“E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo.” (Mt 2.2)

“antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,” (Fp 2.7)

08. Foi obediente até a morte, para que pudéssemos ter uma vida abundante e a vida eterna.

 “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (Fp 2.8)

“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados,” (Ef 2.1)

09. Deixou a glória eterna, fez-se desprezível, para tornar-nos honrados e participantes da glória eterna.

 “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (Fp 2.5-8)

“e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.” (Ef 2.6-7)

10. Assumiu as limitações da natureza humana, sem pecar, para que participássemos da natureza divina.

 “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (2Co 5.21)

“pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo,” (2Pe 1.4)

11. Tomou sobre si as nossas enfermidades e dores, em troca nos oferece um jugo suave e um fardo leve.

 “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido.” (Is 53.4)

“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (Mt 11.29-30)

12. Morreu a nossa morte, para vivermos sua vida.

 “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)

13. A Palavra (verbo divino) se fez carne, para que a carne (seus remidos) vivessem a Palavra.

 “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14)

“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.6)

14. Viveu como justo, morreu como malfeitor.

 “Vendo Pilatos que nada conseguia, antes, pelo contrário, aumentava o tumulto, mandando vir água, lavou as mãos perante o povo, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo; fique o caso convosco!” (Mt 27.24)

“Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda. E cumpriu-se a Escritura que diz: Com malfeitores foi contado.” (Mc 15.27-28)

15. Sendo rico, se fez pobre, para enriquecer a muitos.

 “pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.” (2Co 8.9)

16. Mesmo sendo o Filho de Deus, referiu-se a si mesmo como o Filho do Homem.

 “E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt 14.33)

“Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45)

17. Oferece aos seus seguidores a perda da vida, para encontrarem a verdadeira vida.

 “Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á.” (Mt 10.39)

O pastoreio da igreja na atualidade

pastoreio atual

Nos últimos três artigos e no atual, estamos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos trouxemos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. Neste quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante.

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Os termos usados

Ao fazermos a ponte entre os primeiros tempos da igreja e a época atual, vamos começar apresentando os nomes dados a esses líderes da igreja que sucederam os apóstolos. Todos os nomes se aplicam ao mesmo tipo de oficial e líder da igreja, sendo que cada um destaca e ressalta um aspecto peculiar da pessoa ou do ofício.

i. PRESBÍTERO ou ANCIÃO (At 11.30 – 1ª vez)

Termo de Dignidade: sugere Maturidade e Experiência
Homem maduro, experimentado, criterioso e respeitado que dá sábios conselhos para orientação dos membros da igreja.

ii. BISPO (“episkopos”, grego) (At 20.28; Fp 1.1)

Termo de Superintendência: sugere Direção
Homem diligente que preside os trabalhos, as reuniões, organiza e supervisiona tudo

iii. PASTOR

Termo de Ternura: sugere Cuidado
Homem zeloso que apascenta o rebanho de Deus, preparando-lhe pastagens verdejantes (mensagens espirituais e práticas vitais) e guiando-o às águas tranquilas, isto é, proporcionando-lhe um ambiente espiritual, agradável e alegre.

Tais termos frequentemente aparecem no plural, fazendo referência à liderança plural de cada igreja local.

Ofício e Dom

Em segundo lugar é importante reafirmar que este ofício de Presbítero ou Ancião ou Bispo ou Pastor (1Pe 5.2) é diferente do Dom de Pastor (Ef 4.11).

O significado de ofício é o mesmo de profissão, ou seja, “Profissão é um trabalho ou atividade especializada dentro da sociedade, geralmente exercida por um profissional. Algumas atividades requerem estudos extensivos e a masterização de um dado conhecimento, tais como advocacia, biomedicina ou engenharia, por exemplo. Outras dependem de habilidades práticas e requerem apenas formação básica (ensino fundamental ou médio), como as profissões de faxineiro, ajudante, jardineiro. No sentido mais amplo da palavra, o conceito de profissão tem a ver com ocupação, ou seja, que atividade produtiva o indivíduo desempenha perante a sociedade onde está inserido.” (Wikipédia)

Já o significado de dom pode ser expresso na sociedade como aquela capacitação ou talento natural; e, na igreja, como aquela capacitação ou habilidade especial concedida pelo Espírito Santo, “… com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.12). O que o apóstolo Paulo menciona em Efésios são os cinco dons ministeriais, dons que concedem capacitação sobrenatural para o exercício dos ministérios: Apóstolo / Profeta / Evangelista / Pastor / Mestre.

As etapas do planejamento divino

O que Deus planejou para a liderança e governo da sua igreja?

Tudo começou com o “Seminário de Jesus” treinando e preparando os apóstolos para a era da igreja. Se considerarmos 10h/dia, 365 dias/ano e 3 anos teremos uma carga horária de 10.950h/aula. Se considerarmos um curso de teologia de 4h/dia, 20 dias/mês, 9 meses/ano e 5 anos teremos 3.600h/aula. Portanto, o “Seminário de Jesus” teve a carga horária mais do que o triplo de um curso de teologia convencional. Os apóstolos foram treinados pelo Mestre dos mestres, com aulas teóricas e práticas insuperáveis.

Na segunda fase do planejamento divino, tudo isso foi potencializado no Pentecostes, com a unção e capacitação dos apóstolos e dos primeiros discípulos pelo Espírito Santo. Também o apóstolo Paulo foi chamado e designado por Deus para fortalecer o grupo.

Na terceira fase, a liderança da igreja foi assumida apenas por presbíteros, eleitos em cada igreja local, sempre no plural (At 14.23). Os primeiros foram instruídos, pessoalmente, pelos apóstolos, e pelas cartas doutrinárias ou epístolas que percorriam as igrejas, pois as Escrituras do NT ainda estavam sendo escritas.

As características das igrejas locais do primeiro século

A simples leitura do NT nos mostra que tais igrejas locais:

i. Se reuniam com simplicidade nos espaços e locais onde pudessem ser acomodados, até mesmo nas casas (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 1.2).

ii. Naturalmente começaram com poucos membros e foram crescendo dia após dia.

iii. Tinham governo próprio e independente, porém com o compromisso de manter a doutrina: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42)

iv. Também estavam comprometidas com evangelismo, missões e ação social.

Os desafios das igrejas locais de ontem, de hoje e de sempre

Enquanto o número de membros é pequeno, a organização e governo da igreja local é mais simples. Na medida em que o grupo local cresce, dois caminhos podem ser trilhados. O primeiro é o de dividir o grupo, formando novas igrejas locais, o que possibilitará manter a simplicidade de organização e governo. O desafio desse caminho é encontrar um novo espaço e convencer parte do grupo a migrar para a nova igreja local. O segundo caminho é manter todo o grupo junto e partir para um novo espaço, capaz de acomodar o grupo atual e com folga suficiente para acomodar muitos outros membros, no caso do espaço atual não poder ser ampliado. O desafio desse segundo caminho passa a ser organização, administração e governo de uma igreja tão numerosa. Para dar conta de tudo isso, é preciso criar uma estrutura de pessoal para cuidar das questões administrativas e atividades meio da igreja. Por outro lado, é preciso estabelecer uma estrutura de pessoal para orientar e liderar a atividade fim da igreja.

Na história da igreja, ambos os caminhos ou modelos têm sido trilhados ou adotados. Isso tem gerado dois grandes e permanentes desafios para a Igreja de Cristo, a saber:

  1. Manter as igrejas locais no trilho da sã doutrina bíblica, considerando a multiplicidade de igrejas locais e de líderes.
  2. Manter uma estrutura de pessoal e liderança que dê conta de todas as demandas “materiais” e “espirituais” de uma igreja local mais numerosa.

O que parecia tão simples: um só Deus e Pai; um só Mediador e Salvador, Jesus Cristo; um só Espírito Santo, unindo, ungindo e capacitando todos os remidos; uma única igreja, a de Cristo; com um só livro, a Bíblia, Única Regra Infalível de fé e prática; sim, o que parecia tão simples tem se tornado um grande desafio de unidade.

Entendo que, por conta disso e com a vontade permissiva de Deus, surgiram as denominações, tentando, cada uma, estabelecer sua solução para esses dois grandes desafios. Cada uma, então, apresenta a sua própria visão doutrinária da Bíblia e sua forma de governo (episcopal, presbiteriano ou congregacional).

As pequenas igrejas não teriam dificuldade para manter o modelo de liderança da igreja primitiva, através de presbíteros. Aliás, no mundo inteiro, ainda hoje existem muitas igrejas locais que seguem esse modelo, isto é, são lideradas por presbíteros e não têm a figura de um pastor como oficial líder. Certamente esses líderes deveriam ter o preparo necessário para o exercício do ofício, ou seja, atender as qualificações neotestamentárias estabelecidas. Entretanto, parece que já no segundo século da igreja surgiu a necessidade de líderes de igrejas locais que dedicassem mais tempo ao ministério eclesiástico. Afinal, os presbíteros tinham suas famílias e suas obrigações de trabalho secular para sustenta-las. É, assim, que surgem os pastores das igrejas locais para assumirem maior responsabilidade de liderança, compartilhando o governo da igreja com os presbíteros, dependendo da forma de governo adotada. É interessante verificar a defesa de Paulo a favor do sustento dos que vivem para o evangelho (1Co 9.1-14).

Finalmente, concluímos estes quatro artigos dizendo que Pastorear o Rebanho de Deus” é simples assim! É preciso ter muito cuidado com a perigosa TEOLOGIA REVERSA; aquela que parte do HOJE para a BÍBLIA, isto é, estabelece hoje algumas linhas de pensamento, conceitos, estruturas e doutrinas, muitas vezes copiando e acompanhando a sociedade secular, o mundo, e, então, tentam construir algum respaldo bíblico para isso, normalmente bizarro e fora do contexto. Os defensores da TEOLOGIA LIBERAL se encaixam nesta mesma linha de ação. Por outro lado, o que apresentamos aqui e o que defendemos é a TEOLOGIA DIRETA, onde procuramos partir da Bíblia para estabelecer o que fazer e como fazer HOJE. Se, por conta disso, os liberais quiserem nos taxar de fundamentalistas, fiquem à vontade. O que mais nos importa é viver e “defender” as Sagradas Escrituras!

 

Sete coisas que todo pai precisa saber e praticar

Sete coisas que todo pai precisa saber e praticar (Gênesis 34; 35.1-15)

1ª) Você é imperfeito e incapaz de evitar todo o mal que possa ser produzido contra ou por tua família. (Gn 34)

Só pra lembrar….

Você não é totalmente responsável:

a) Por tudo de bom que acontece com teus filhos ou por todas as suas boas ações e práticas; ou,

b) Por tudo de mal que acontece com teus filhos ou por todos os seus maus comportamentos.

Porém, você tem muita influência nisso, quer através do teu exemplo pessoal, quer através da forma com que você se relaciona com eles!

Diná[1] (Gn 30.21; 46.15) é a personificação do mal do mundo sobre a tua família.

“Ora, Diná, filha que Lia dera à luz a Jacó, saiu para ver as filhas da terra. Viu-a Siquém, filho do heveu Hamor, que era príncipe daquela terra, e, tomando-a, a possuiu e assim a humilhou.” (Gn 34.1-2)

Depois de Jacó e sua família viajarem cerca de 800 Km chegaram à cidade de Siquém, uma terra estrangeira com gente desconhecida. Ali habitando, a curiosidade ingênua da jovem Diná resultou em uma tragédia inesperada.

De quem é a culpa de tragédias familiares como essa? Falta de orientação dos pais? Imprudência dos filhos?

– O jovem Siquém serve de alerta para o perigo de gente movida por impulso, que primeiro faz e depois pensa como remediar a situação.

– A jovem Diná serve para alertar que gente nova precisa saber que a curiosidade às vezes mata ou deixa sequelas indeléveis.

– Essa tragédia serve para alertar que gente madura precisa ajudar a formar anticorpos sociais nos mais novos.

Os riscos da nossa época são menores?

– Creio que não. Nossos filhos nem precisam sair para ver; os maus comportamentos e armadilhas entram, sem pedir licença, nas nossas casas, pela porta da TV, Telefone, Internet etc.

Simeão e Levi (Gn 34.25-27) são a personificação do mal da tua família sobre o mundo.

“Ao terceiro dia, quando os homens sentiam mais forte a dor, dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, tomaram cada um a sua espada, entraram inesperadamente na cidade e mataram os homens todos. Passaram também ao fio da espada a Hamor e a seu filho Siquém; tomaram a Diná da casa de Siquém e saíram. Sobrevieram os filhos de Jacó aos mortos e saquearam a cidade, porque sua irmã fora violada.” (Gn 34.25-27)

Inconformados com o estupro da irmã, Simeão e Levi tramaram uma terrível vingança. Convenceram, maliciosamente, o jovem estuprador e seu pai de que dariam sua irmã em casamento se ele, seu pai e todos os homens da sua cidade fossem circuncidados, como os judeus. Eles não somente concordaram, como também conseguiram convencer os seus patrícios a se circuncidarem. No terceiro dia após, a circuncisão, os dois filhos de Jacó atacaram, conforme relata o texto bíblico acima.

De quem é a culpa de comportamentos como esse? Falha na criação dos filhos?

Às vezes a culpa é mesmo dos pais!

– Filhos criados com excesso de atenção tendem a se tornar parasitas e eternos dependentes.

– Filhos criados sem atenção e sem limites tendem a se tornar verdadeiros monstrengos.

Entretanto, quem pode dominar a natureza humana?

– Diná era a filha caçula de Lia, primeira esposa de Jacó, e tinha seis irmãos. Se Absalão não sossegou enquanto não vingou o estupro de sua irmã Tamar pelo seu meio irmão Amnon, imagina o estado de revolta desses seis irmãos mais velhos de Diná e dos seus outros meio irmãos, com Siquém?

– A vingança foi praticada com requintes de crueldade. Por isso, eles perderam o direito a herança, por ocasião da divisão das terras conquistadas (Gn 49.5-7; 48.22).

2ª) Você precisa viver em comunhão com Deus. (Gn 35.1, etc)

Vejamos alguns flashes do relacionamento de Jacó com Deus:

Em Betel, indo para Harã, fugindo de Esaú:

“Perto dele estava o SENHOR, e lhe disse:…” (Gn 28.13)

Em Harã, passando por momentos difíceis no relacionamento com seus cunhados e sogro:

“E disse o SENHOR a Jacó: Torna à terra de teus pais e à tua parentela; e eu serei contigo.” (Gn 31.3)

“E o Anjo de Deus me disse em sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui!” (Gn 31.11)

Em Peniel, voltando para Berseba, a terra de seus pais:

“Também Jacó seguiu o seu caminho, e anjos de Deus lhe saíram a encontrá-lo.” (Gn 32.1)

“ Àquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva.” (Gn 32.30)

Em Siquém, depois da atrocidade cometida pelos seus filhos:

“Disse Deus a Jacó:…” (Gn 35.1)

Jacó não é exatamente um modelo de pai ou de conduta. Antes, porém, é alguém humano e imperfeito como qualquer outro ser, com altos e baixos na sua história de vida. Entretanto, é interessante observar o seu relacionamento com Deus. É certo que se quisermos manter comunhão com Deus precisamos dizer não ao pecado. “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça.” (Is 59.2).

3ª) Você precisa ser guiado pela Palavra de Deus. (Gn 35.1; Jr 15.16)

“Disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; faze ali um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão.” (Gn 35.1)

Quem vive em comunhão com Deus, necessariamente é impelido a se orientar pela sua santa palavra. Jacó tinha o privilégio de ouvir diretamente a voz de Deus. Nós, temos hoje o grande privilégio de ouvir a voz de Deus através da Bíblia, a revelação completa de Deus aos homens.

Mais uma vez Jacó vivia um momento crítico em sua vida, devido à desgraça provocada por seus filhos, massacrando os moradores de Siquém. Algo precisava ser feito e não podia ser adiado. Naquelas circunstâncias, a palavra de Deus chegou até aquele pai e, perpassando os séculos, chega também até nós com as seguintes instruções (versículo 1):

a) Levanta-te: Saia imediatamente desse atoleiro ou dessa zona de conforto. Abandone esse estado de inércia, de acomodamento, de conformismo, como se você fosse uma estátua no cume de um monte ou um carro com os quatro pneus arriados. Mexa-se! Faça o que vou te dizer!

b) Sobe a Betel: Betel é o lugar do encontro com Deus. Lugar onde você chega extenuado da caminhada da vida, cansado dos seus próprios esforços, impossibilitado de continuar a caminhar pela densa escuridão da noite existencial que te envolve e te aperta e te sufoca. É o lugar onde você se prostra diante de Deus,  com todas as tuas crises e frustrações, fobias e apreensões, e ali, o Senhor estende uma escada de escape que liga o teu inferno existencial ao céu da graça e glória de Deus-Pai. E essa escada tem nome: Jesus Cristo, o Filho de Deus, Senhor e Salvador. Jacó tinha passado por ali em situação aflitiva, quando fugia do seu irmão Esaú e feito um voto. Esse voto precisava ser agora cumprido (Gn 28.20-22).

c) Habita ali: Deus não quer que Betel seja apenas um lugar de passagem. Betel não pode ser apenas lugar de abrigo e refúgio temporários em momentos de turbulência na caminhada da vida. Betel tem que ser lugar para estar sempre, para morar ali, pois “é a casa de Deus, a porta do céu” (Gn 28.16).

d) Faze um altar: O lugar onde Deus está e onde Deus quer que também nós estejamos é lugar de adoração. Não é possível imaginar estar com Deus e não adorá-lo em espírito e em verdade.

Betel ficava aproximadamente a 24 Km ao sul de Siquém. Para os caminhantes daquela época era logo ali. Quando Jacó foi para Harã ele viajou aproximadamente 90 Km de Berseba a Betel e 830 Km de Betel a Harã. Betel é lugar de confirmação de aliança e renovação de promessas; lugar de bênçãos (Gn 28.10-19). É muito perto de onde você está agora! Muito mais perto do que todos os caminhos que muitos pais têm trilhado na tentativa de fazer o melhor para a sua família confiando apenas no seu próprio esforço.

4ª) Você precisa exercer os papéis de profeta, sacerdote e pastor da tua família. (Gn 35.2)

“Então, disse Jacó à sua família e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes;” (Gn 35.2)

Profeta no AT era aquele que ouvia a palavra de Deus e a transmitia ao povo. Portanto, ele ficava de costas para Deus e de frente para o povo. Era um mensageiro de Deus em nome de Deus: “Assim diz o SENHOR…..”

Sacerdote no AT era aquele que levava as transgressões das pessoas diante de Deus e intercedia por elas com vistas ao  perdão divino. Portanto, ele ficava de costas para o povo e de frente para Deus. Além de mediador e intercessor era também um ensinante (ver também Ml 2.6-7).

Pastor no AT, o de ovelhas era aquele que guiava e cuidava do rebanho.

Quando Jacó ouviu as palavras de Deus e a transmitiu à sua família ele estava desempenhando o seu papel de profeta. Além de revelar os mistérios de Deus, um profeta denuncia o pecado. Vejamos as ações de um profeta, sacerdote e pastor na sua família:

a) Santificação: É a decisão de separação efetiva de qualquer outra divindade ou objeto de culto, para uma dedicação e entrega, totais e incondicionais, ao Deus único, vivo e verdadeiro.

b) Purificação: É o processo de limpeza, de retirada da nossa vida de tudo aquilo que contamina o nosso ser e, além de desagradar e nos afastar de Deus, nos é prejudicial. Começa com a confissão de pecados por pensamentos, obras, ações e omissões. Continua com o firme propósito de não viver pecando (1 Jo 3.9). Se efetiva com a expiação pelo sangue e o perdão de Deus.

c) Mudar as vestes: É a atitude de substituir o velho pelo novo, o sujo pelo limpo. Veste, na bíblia, é símbolo de justiça. Então, mudar as vestes é substituir a velha justiça e as velhas práticas, pela nova justiça de Cristo e por novas obras “preparadas por Deus para que andássemos nelas antes da fundação do mundo”. Não basta romper com o erro; é preciso praticar o que é certo!

Essas três etapas eram necessárias e seriam complementadas pelo profeta-sacerdote-pastor Jacó diante do altar, lá em Betel.

5ª)  Você precisa saber conduzir tua família a obedecer a Deus (Gn 35.4)

“Então, deram a Jacó todos os deuses estrangeiros que tinham em mãos e as argolas que lhes pendiam das orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém.” (Gn 35.4)

Isso deve ser feito com muita sabedoria, dedicação e oração, nunca por decreto ou por força ou por violência. Não é eficaz obrigar os filhos pequenos a participar de culto doméstico, ler a bíblia e ir à igreja. Conduzir não é obrigar! Antes de tudo é preciso viver uma vida cristã tão linda que contagie os outros membros da família a amar a Deus, obedecê-lo e fazer sua vontade. É preciso respeitar sempre a individualidade de cada um.

6ª) Você e tua família são protegidos pelo Senhor quando obedecem à sua voz (Gn 35.5-7)

“E, tendo eles partido, o terror de Deus invadiu as cidades que lhes eram circunvizinhas, e não perseguiram aos filhos de Jacó.” (Gn 35.5)

Por temor ou por tremor a família de Jacó obedeceu à voz de Deus. Então, o Senhor infundindo terror, impediu que os cananeus vingassem o massacre do povo de Siquém. Lembre-se: Deus não tem compromisso com ímpios!

7ª) Você é alguém que é alvo de um propósito de Deus. (Gn 35.9-15)

Deus tinha um propósito grandioso na vida de Jacó. Dele sairia a nação de Israel, o povo escolhido de Deus. Dessa nação nasceria Jesus Cristo, o salvador do mundo. Nele, em Jesus, todas as famílias da terra seriam abençoadas, conforme sua promessa a Abraão (Gn 22.18).

Eu não sei, você talvez não saiba, mas Deus sabe de todas as coisas. “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais.” (Jr 29.11). Ele tem um propósito para cada vida e para cada família. Cuide de realizar a tua parte, o teu papel, na liderança da tua família e o Senhor cumprirá o seu propósito.

Você que é Pai, anda na presença do Senhor e sê perfeito! Sê tu uma bênção! Toma posse dessa palavra a Jacó:

“Mas tu, ó Israel, servo meu, tu, Jacó, a quem elegi, descendente de Abraão, meu amigo,  tu, a quem tomei das extremidades da terra, e chamei dos seus cantos mais remotos, e a quem disse: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei,  não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel.” (Is 41.8-10)


[1] Diná (Hb.): seu nome no hebraico significa “justiça” ou “julgamento” ou “julgado”.

Princípios de tradução da Bíblia

Há dois princípios de tradução da Bíblia que quero mencionar aqui:  “equivalência formal” e “equivalência funcional ou dinâmica”.

Na tradução literal ou por  equivalência formal orienta-se basicamente pelo texto na língua fonte ou original, preservando-se a mensagem e aspectos  gramaticais.

Na tradução por  equivalência funcional ou dinâmica orienta-se basicamente pelo entendimento do leitor. Procura-se interpretar a mensagem ou ideia do texto original e comunicá-la em linguagem contemporânea.

E, então, qual desses dois princípios produz uma tradução mais fiel ao texto original? Qual o melhor? Está aí mais um daqueles assuntos polêmicos, que dividem opiniões, como alguns outros: predestinação e livre arbítrio; batismo por aspersão ou imersão; milenismo e amilenismo etc. Por se tratar de algo tão relevante, que mexe diretamente com a única regra infalível de fé e pratica do cristão, isto é, a Bíblia Sagrada, a Revelação Escrita de Deus à humanidade, é que não posso deixar de ter e defender uma opinião própria – “Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente”. (Rm 14.5b). Não é a opinião de um especialista nas ciências da linguística e outras. É a opinião de um cristão zeloso, com algum conhecimento bíblico-teológico. No que diz respeito a este e aos outros assuntos polêmicos acima citados, creio que é desperdício de energia ficar tentando mudar a opinião contrária do outro, com debates, réplicas, tréplicas etc.

Nos artigos publicados neste blog (lista no final deste artigo), já me expressei bastante sobre o “Novo Testamento na Linguagem de Hoje” (NTLH), que segue o princípio da equivalência funcional ou dinâmica, comparando-o com a “Almeida Revista e Atualizada” (ARA) que é uma tradução literal ou de equivalência formal. Vejamos mais alguns aspectos interessantes:

Tomemos, como exemplo, a tarefa mais fácil de traduzir para outro idioma a letra da famosa canção brasileira de Chico Buarque “Cálice” (1973), portanto, algo da história recente. Fixemo-nos apenas no seu refrão:

“Pai, afasta de mim esse cálice (3x)
De vinho tinto de sangue”

A letra desta canção é estruturada com duplos sentidos, ambiguidades e metáforas, inteligentemente elaboradas para despistar a censura da ditadura militar brasileira da sua época e comunicar sua mensagem ao povo.  Como ficariam os textos traduzidos pelos dois princípios já mencionados?

1ª tradução: Equivalência formal – tradução literal (usada na ARA):

“Pai, afasta de mim esse cálice (3x)
De vinho tinto de sangue”

2ª tradução: Equivalência funcional ou dinâmica (usada na NTLH):

“Deus, acaba com essa censura imposta pela ditadura (3x)
Manchada pelo sangue das vítimas da repressão e das torturas”

As traduções seriam aproximadamente isso que você está vendo. Na primeira tradução, permanece o mesmo texto original, só que  usando as palavras e a gramática da língua de destino. No segundo caso, cria-se essa espécie de paráfrase usando a linguagem de destino. E, então, qual dos textos expressa com mais precisão a mensagem original de Chico Buarque? O leitor superficial e apressado talvez dissesse que é o segundo texto. Será, mesmo?

Vamos às considerações:

a) A ambiguidade aqui empregada pelo compositor, que explora a semelhança fonética entre as palavras “cálice” e “cale-se”, onde o sentido velado que se deseja transmitir está na segunda palavra, é praticamente impossível de ser reproduzido em outro idioma.

b) Em casos como este só há dois caminhos a seguir. O primeiro, que procura manter a metáfora original que, neste caso,  remeterá o pensamento do leitor para a oração de Cristo nos momentos aflitivos pelos quais passou antes da sua morte (se este leitor tiver alguma afinidade com o Cristianismo), o que era a intenção do compositor, porém, não faz qualquer associação dessa situação com o padecimento do povo sob a ditadura militar brasileira (1964-1985), o que era sua intenção comunicar, mas que nem de longe expressou. Esse é o caminho trilhado na 1ª tradução acima. O segundo caminho, trilhado na 2ª tradução, desconsidera completamente a metáfora original, subtraindo do leitor, neste caso, a inteligência e beleza literárias da ambiguidade e a similaridade com o padecimento de Jesus, aspectos esses que o compositor tinha a intenção de comunicar; e, procura interpretar e comunicar aquilo que entende que o compositor queria expressar. Neste caso, foi fácil redigir a paráfrase porque o texto original é recente e a mensagem original bem difundida. Mas, o que dizer de textos escritos há 4000 anos atrás?

c) Ah, só pra lembrar. Qual das duas traduções da canção você acha que poderia ser cantada na língua de destino. A primeira, é claro. Simples assim.

Sejamos honestos e práticos. Deixemos, por enquanto, a questão da tradução de lado e façamos o seguinte teste: entreguemos uma cópia da letra original dessa canção a um brasileiro que não a conheça e não conheça o seu compositor.  Certamente, pela simples leitura do texto ele não conseguirá captar tudo o que o compositor pretendia veladamente comunicar. Quem poderia entender que os “caracóis dos cabelos” da música de Roberto Carlos seria uma referência a Caetano Veloso se o compositor não revelasse?

Para tranquilidade dos tradutores, os duplos sentidos e ambiguidades encontradas nesta e em outras tantas canções produzidas durante a ditadura militar (“Apesar de você” e “Tanto mar” – Chico Buarque; “Alegria, Alegria” – Caetano Veloso; “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” – Roberto Carlos, em homenagem a Caetano Veloso; “Pra não dizer que não falei das flores” – Geraldo Vandré; etc) não constituem a essência do texto bíblico. Na Bíblia temos muita linguagem direta (Livros históricos, Evangelhos, Atos, Epístolas etc). Mas há também as poesias, os cânticos, as parábolas, as profecias, as metáforas etc. Traduções interpretativas e paráfrases, nem pensar!

Vale ressaltar que, numa tradução literal como a ARA já houve certa flexibilização para facilitar o entendimento. Por exemplo, em Gênesis 34.30 uma tradução mais próxima ao hebraico original diria “…Tendes-me turbado, fazendo-me cheirar mal entre os moradores desta terra,…”, pois “cheirar mal” significava naquela cultura “odiar”, “atrair o ódio”. Então a ARA traduziu assim: “…Vós me afligistes e me fizestes odioso entre os moradores desta terra,…”

Por outro lado, vejam agora o texto de Eclesiastes 11.1:

“Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás.” (ARA)
“Atire o seu pão sobre as águas, e depois de muitos dias você tornará a encontrá-lo.” (NVI*)

(*NVI = Nova Versão Internacional)

Compare com:

“Empregue o seu dinheiro em bons negócios e com o tempo você terá o seu lucro.” (NTLH)
“Seja generoso porque o que você der a outros acabará voltando para você.”(A Bíblia Viva)

Vejam só o desserviço à verdade, a imprudência, o desatino, a estreiteza de mensagem, a divergência, quando se quer traduzir a suposta ideia original!!! Os comentaristas dizem que não há uma explicação certa e definitiva sobre este “provérbio”. Então, eles apresentam algumas sugestões de interpretações:

  1. Uma referência à maneira de semear sobre áreas alagadas, que se encarregam de espalhar a semente. Quando as águas escoavam, aqueles grãos soterrados e esquecidos transformam-se numa boa colheita.
  2. Possivelmente, uma referência ao comércio de cereais que Salomão fazia por meio marítimo.
  3. Uma exortação à liberalidade ou generosidade, que parece perda, mas que no tempo certo dará o seu retorno, o seu ganho.

Vejam como os textos da ARA e NVI são muito mais amplos transmitindo, juntamente com os textos dos versículos 2 a 6, a mensagem da chamada “lei da colheita, conforme a semeadura”. As ideias centrais são de trabalho persistente, investimento, generosidade, repartir; para, no futuro, colher o resultado dessa farta semeadura.

Então, que tal acabar com algumas falácias?

1ª) Sem essa de achar que o texto bíblico baseado em algum princípio de tradução irá, por si só, promover o seu completo entendimento. Toda a produção humana, intelectual ou material, precisa ser analisada à luz do contexto da época em que foi produzida para ser entendida. No mundo secular, toda a produção literária precisa ser analisada à luz do contexto da época e da vida do autor (sua história, personalidade, ideologias, frustrações, influências recebidas etc). Jamais iremos prescindir de livros de apoio ou referência (dicionários etc) para ajudar no entendimento do texto bíblico, pela explicação detalhada do seu contexto. Isso está cada vez mais próximo do leitor através de arquivos digitais e páginas na internet. No caso da Bíblia, ainda que muitos textos lancem luz sobre outros é essencial a iluminação do Espírito Santo para o seu entendimento. Jesus ordenou: “Fazei discípulos”. Sempre houve e sempre haverá a necessidade de ensinadores da Bíblia!

No caso da canção “cálice”, vejam como há recursos disponíveis para se saber melhor o que o compositor quis dizer, conforme expresso pelos autores da matéria contida no link abaixo.

http://www.webartigos.com/artigos/chico-buarque-de-hollanda-e-sua-influencia-na-sociedade-brasileira/56458/

“A análise é extensa, por conta de que todos os versos vêm impregnados de metáforas utilizadas para narrar o drama da tortura no Brasil no período da ditadura militar.
(Pai, afasta de mim esse cálice)
Resume uma súplica por algo que se quer ver bem distante. Uma fração da música se faz análoga à Paixão de Cristo e o padecer vivido pelo povo aterrorizado pelo regime autoritário. O refrão faz uma alusão à agonia de Jesus Cristo no calvário, mas há ambiguidade na palavra “cálice” em relação ao imperativo “cale-se”, levando-se à atuação da censura.
(De vinho tinto de sangue)
O “cálice” é um utensílio que contém algo em seu interior. Nas Sagradas Escrituras esse conteúdo é o sangue de Cristo, na música é o sangue derramado pelas vítimas da repressão e das torturas.”

2ª) Sem essa de empobrecer o texto bíblico, com essas traduções por equivalência funcional ou dinâmica, alegando que o povo é ignorante e só entende uma linguagem popular. O maior problema do cristianismo atual é o analfabetismo bíblico por desinteresse na leitura e estudo da Bíblia. Tem muita gente culta, que se diz cristã, que tem tempo pra ler jornais, revistas, livros, internet etc. Só não lê a Bíblia.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (Gn 1.1)(ARA) tem muito mais força e tanta clareza quanto “No começo Deus criou os céus e a terra.” (Gn 1.1)(NTLH). Nesta troca aqui do “seis” por “meia dúzia” eu prefiro ficar com o “seis”! Se você preferir “meia dúzia”, vai na paz….

3ª) Sem essa de taxar de fundamentalistas e preconceituosos os que não concordam com algumas “modernidades”. Se o mundo vai de mal a pior e o mundo influencia a igreja, temos sim que manter a vigilância. A história do povo de Deus é uma história de contínuas degradações e eventuais restaurações e avivamentos, para não degringolar de vez.

Finalmente, entendo que traduções devem ser revistas continuamente. A tradução ARA tem algumas palavras fora de uso há várias décadas (talante, simulacro etc etc). Espero que algum dia surja na SBB um projeto para substituir essas palavras ou, pelo menos, colocar uma referência de “pé de página” ou ”margem de página” com os respectivos sinônimos.

Veja, também, os seguintes artigos, neste blog:

Hino Nacional na Linguagem de Hoje (HNLH)

“Bonde” sem freio….

NTLH – A “bola” murcha!

Vem aí uma nova atualização da Bíblia (Nova ARA)

 

Propostas capciosas

“Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele; pois disto depende a tua vida e a tua longevidade; para que habites na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.” (Dt 30.19-20)

Introdução

Negociação é uma prática muito comum em regimes democráticos. É uma espécie de troca. É o exercício do livre arbítrio. A negociação se desenvolve na base de “propostas” e “contrapropostas”. Vivemos num mundo de propostas, qualquer que seja a área considerada: afetiva, profissional, comercial, religiosa, etc..

De quem recebemos propostas?

Dos homens: Os homens fazem propostas entre si, cada um visando os seus próprios interesses. Precisamos de muita prudência neste sentido;

De Deus: A grande “proposta” de Deus em Cristo está Mateus 11.28-30. A trágica consequência da rejeição em Marcos 16.16. A necessidade de uma decisão pessoal em Deuteronômio 30.19- 20. Lembre-se que cada salvo é um porta-voz da proposta divina;

De Satanás: Usando diferentes meios e métodos, o diabo tenta destruir o relacionamento do homem com Deus (Eva – Gn 3.4,5 / Cristo – Mt 4.8,9; Mc 15.31,32). É muito perigoso negociar com ele, pois ele é sutil, astuto e mentiroso. Sua estratégia consiste em seduzir com propostas atraentes e perigosas.

Segundo o texto de Hebreus 3.1-2, devemos atentar para os exemplos de fidelidade a Deus e à sua palavra, encontrados no Senhor Jesus e em Moisés. Para tanto, faz-se necessário resistir a todas as propostas capciosas (que induzem ao erro) e comprometedoras, do mundo e de Satanás (Tg 4.7).

A título de alerta, consideremos a situação vivida por Moisés. Vejam só a sutileza das propostas feitas a ele, por Faraó:

1. NÃO É NECESSÁRIO SAIR

 “Ide, oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra..” (Ex 8.25b) (Após 4ª praga).

Moisés fora chamado por Deus para liderar a libertação do povo de Israel do Egito e da escravidão penosa a que estava submetido (Ex 3.7-8). A fala de Moisés a Faraó não era tão explícita; reivindicava a saída do povo ao deserto (caminho de três dias) com o fim de celebrarem uma festa ao Senhor (Ex 3.18; 5.1). Naturalmente que Faraó não concordava com tal pleito, o que já havia sido previsto, tudo fazendo para desarticular a liderança de Moisés. Entretanto, após a 4ª praga enviada por Deus, Faraó se vê forçado a negociar e, então, faz sua primeira contraproposta capciosa. Ao longo da história e ainda hoje, ele continua fazendo esta mesma proposta aos seres humanos, através de muitas seitas, falsas igrejas e filosofias humanas: sirva a Deus como você é, e onde você está. É puro engano; é cilada conhecida (Sl 50.16-17; 2Co 6.15-18; Gl 1.3-4).

EVANGELHO SEM CONVERSÃO é a sutileza desta 1ª proposta:

Cuidado! Egito é figura do “mundo sem Deus”, do mundanismo. Faraó é figura de Satanás, que se apresenta aos humanos de várias formas. Não existe salvação eterna e libertação da escravidão do pecado sem o Evangelho de Jesus Cristo e sem o Salvador Jesus Cristo do Evangelho! Evangelho sem conversão, sem transformação, sem novo nascimento, sem rompimento com o passado e com o pecado é qualquer coisa, menos o Evangelho de Cristo! É preciso sair sim, “caminho de 3 dias” – “da paixão e morte de Cristo à sua ressurreição”!!!

2. NÃO É NECESSÁRIO IR MUITO LONGE

“..saindo, não vades muito longe..” (Ex 8.28) (Após 4ª praga).

Moisés não aceita a contraproposta, nem está disposto a negociar o que foi estabelecido pela palavra de Deus. A palavra de Deus não é negociável! Faraó, então, aparenta ceder, mas sutilmente saca outra das suas propostas capciosas. Esta, também, foi e continua sendo muito usada.

EVANGELHO SEM CONSAGRAÇÃO é a sutileza desta 2ª proposta:

Esse é o perigo da “pequena distância” entre o cristão e o mundo (mundanismo). Trata-se da sutil “doutrina do equilibrismo”: um pé na igreja e o outro no mundo. Em outras palavras, a voz de Satanás continua ressoando: “não sejam muito diferentes do mundo”. Satanás tem conseguido incutir nos incrédulos a ideia de que não vale a pena “perder as coisas do mundo”; e em muitos crentes, a ideia de que é perfeitamente possível aproveitar os dois lados. Entretanto, o Senhor Deus jamais aceitará obediência pela metade (Tg 4.4-5; 1Jo 2.15; Rm 8.9,11). É preciso ir longe sim! É preciso buscar consagração e santificação, “sem a qual ninguém verá o Senhor”!

3. NÃO É NECESSÁRIO INCLUIR A FAMÍLIA

“..ide somente vós os homens, e servi ao Senhor..” (Ex 10.11) (Após 7ª praga).

Faraó mudou sua decisão de deixar o povo ir e o Egito teve que passar por mais três pragas. Após a sétima praga ocorre mais um embate entre Moisés e Faraó, quando este apresenta sua terceira proposta capciosa.

EVANGELHO SEM COERÊNCIA é a sutileza desta 3ª proposta:

Evangelho sem coerência é o evangelho que se vive solitário, sem testemunho, sem compartilhar com o próximo o amor de Deus, principalmente quando esse próximo é a própria família de sangue. Manter parte da família no mundo é o grande trunfo do inimigo. É uma espécie de garantia de retorno daqueles que “saíram para servir ao Senhor”. Quantos têm caído nesta cilada? Em seu egoísmo espiritual têm abandonado a família. A salvação é individual, mas Deus quer ver cada família salva e servindo-o. Nossas prioridades precisam ser: 1º) Deus, 2º) A Família e 3º) A Igreja. É preciso incluir a família sim, não por força, nem por violência, mas pela operação do Espírito Santo nos corações! Não queremos, nem podemos aceitar a ideia de deixar parte da família fora do projeto salvador de Deus!

4. NÃO É NECESSÁRIO ENVOLVER OS BENS

“Fiquem somente os vossos rebanhos e o vosso gado..” (Ex 10.24) (Após 9ª praga).

Faraó não aceitou a recusa de Moisés e o Egito teve que passar por mais duas pragas. Após a nona praga Faraó tenta sua última e igualmente astuta investida.

EVANGELHO SEM COMPROMISSO é a sutileza desta 4ª proposta:

Quando o tentador não consegue reter o homem, procura reter a sua família. Quando não consegue reter nem o homem e nem a sua família, procura, então, reter os seus bens. Com que finalidade? Para que os seus bens não sejam investidos no desenvolvimento da Obra de Deus ou, para subjugá-lo através desses bens, deixando-o inoperante no serviço do reino. Quando nos convertemos a Deus, passamos a pertencer a ele, juntamente com os nossos bens. Ele passa a ser o Senhor de tudo e nós seus servos. Deus não precisa dos nossos recursos financeiros, mas sua igreja sim. É claro que vamos colocar esses recursos nos lugares certos, para não cometer a ingenuidade de enriquecer determinados “donos de igreja” que existem por aí. É preciso compromisso sim na obra de Deus; compromisso de vida, serviço e bens!

Conclusão

Moisés não se deixou enganar (Ex 12.31,32,36). E nós, o que faremos?

Vamos dizer sempre um firme e sonoro não ao:

  • EVANGELHO SEM CONVERSÃO
  • EVANGELHO SEM CONSAGRAÇÃO
  • EVANGELHO SEM COERÊNCIA
  • EVANGELHO SEM COMPROMISSO
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