O “padre protestante”

José Manoel da Conceição

Introdução

José Manuel da Conceição, nasceu na cidade de São Paulo em 11 de março de 1822 e faleceu no Vale do Paraíba, em 25 de dezembro de 1873. Filho de Manuel da Costa Santos (português) e de Cândida Flora de Oliveira Mascarenhas (brasileira). Foi um ex-sacerdote católico-romano que ingressou na Igreja Presbiteriana do Brasil e tornou-se o primeiro brasileiro ordenado pastor evangélico.

1. Linha do Tempo (alguns eventos importantes)

11/03/1822 – Nascimento de J. M. da Conceição (São Paulo – SP).

1840 a 1842 – [18 a 20 anos] Estudou teologia na cidade de São Paulo – SP.

29/09/1844 – [22 anos] Ordenado diácono na Igreja Católica Romana.

29/06/1845 – [23 anos] Ordenado presbítero (padre) na Igreja Católica Romana.

12/08/1859 – Chega ao Brasil, no porto do Rio de Janeiro, o Rev. A. G. Simonton e, com ele o Presbiterianismo.

24/07/1860 – Chega ao Brasil, no porto do Rio de Janeiro, o Rev. A. L. Blackford e sua esposa Elizabeth (cunhado e irmã do Rev. A. G. Simonton, respectivamente).

12/01/1862 – Neste domingo é organizada a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro.

06/10/1863 – O Rev. A. L. Blackford e sua esposa deixam o Rio de Janeiro para fixar residência na cidade de São Paulo, após algumas viagens de reconhecimento e sondagem, visando à abertura de um segundo campo da missão.

22/10/1863 – [41 anos] O Rev. A. L. Blackford viaja para o interior de São Paulo e mantém o primeiro contato com o Pe. J. M. da Conceição. Seis meses depois, o Pe. J. M. da Conceição vai à cidade de São Paulo e durante cinco dias teve a oportunidade de conversar com o Rev. A. L. Blackford e, também, com o Rev. A. G. Simonton, nascendo ali uma grande amizade entre eles.

25/09/1864 – [41 anos] Neste domingo, participou pela primeira vez de um culto evangélico.

28/09/1864 – [41 anos] Entregou o cargo de padre ao Bispo de São Paulo, D. Sebastião Pinto do Rego.

09/10/1864 – [41 anos] Pregou pela primeira vez na Igreja presbiteriana do Rio, atraindo a atenção de muitos.

23/10/1864 – [41 anos] Fez a sua pública profissão de fé e foi batizado pelo Rev. A. L. Blackford, na Igreja Presbiteriana do Rio. Sendo culto e eloquente, a sua conversão causou consternação no clero católico.

05/03/1865 – É organizada a Igreja Presbiteriana em São Paulo, pelo Rev. A. L. Blackford.

13/11/1865 – É organizada a Igreja Presbiteriana de Brotas – SP, a primeira do interior do Brasil, graças ao trabalho evangelístico de J. M. da Conceição e à colaboração dos missionários.

16/12/1865 – Com três igrejas presbiterianas organizadas (Igreja do Rio, de São Paulo e de Brotas), é organizado o primeiro Presbitério no Brasil, o Presbitério do Rio de Janeiro (PRJN), na sede da Igreja Presbiteriana em São Paulo, sob a liderança de três pastores: Rev. A. G. Simonton, Rev. A. L. Blackford e Rev. Francis J. C. Schneider.

16/12/1865 – [43 anos] J. M. da Conceição é examinado pelo Presbitério, no dia da sua organização, acerca das suas convicções e considerado apto.

17/12/1865 – [43 anos] J. M. da Conceição pregou o seu sermão de prova (em Lucas 4.18-19) diante do Presbitério, sendo aprovado e ordenado ao Sagrado Ministério. Essa é a origem do Dia do Pastor Presbiteriano.

19/02/1867 – [45 anos] Foi decretada a sentença condenatória de excomunhão do ex-padre J. M. da Conceição, enviada às paróquias por uma Circular.

09/12/1867 – Falece o pioneiro Rev. A. G. Simonton, bem pouco antes de completar 35 anos, vítima de febre amarela.

25/12/1873 – [51 anos] Falece o Pastor J. M. da Conceição.

2. Destaques de sua vida

ANTES (como católico):

a) Compromisso inarredável com as Escrituras Sagradas e sentimento de que a Igreja Romana se deteriorou, desviando-se da simplicidade do Evangelho.

b) Processo crescente de inquietação, insatisfação e angústia espiritual, ao perceber o contraste e divergência entre as Escrituras Sagradas (Bíblia) e a doutrina e práticas da Igreja Católica Romana.

c) Suas pregações traziam incômodo à hierarquia católico-romana, razão pela qual era transferido de cidade em cidade.

DEPOIS (como presbiteriano):

d) Abraçou a fé reformada, pela influência dos primeiros missionários do presbiterianismo do Brasil, sendo ordenado pastor presbiteriano.

e) Não foi pastor de uma igreja fixa. Dedicou-se ao trabalho de “evangelista itinerante”, um “bandeirante da fé”, no interior da então província de São Paulo, visitando as cidades onde havia servido como padre, onde o zelo pelo ensino da Bíblia lhe rendeu o apelido de “padre protestante”. Encontrou nesses lugares o ambiente preparado para a formação de comunidades evangélicas. Nessas cidades e em muitas outras, plantou as sementes de futuras igrejas.

f) Foi bastante perseguido em suas peregrinações, não poucas vezes sendo alvo de agressões físicas.

g) Como fruto de seu trabalho, foram estabelecidas igrejas em Brotas, Americana, Santa Bárbara e várias outras cidades.

3. A síntese do seu ministério

O relato de Alderi Souza de Matos(*) sintetiza de forma eloquente e comovente o seu curto, mas impactante ministério pastoral (oito anos):

“O Rev. Conceição exerceu o seu ministério de maneira sacrificial e abnegada. Seu método era ir de vila em vila e de casa em casa, pregando, lendo e expondo a Bíblia. Vivia como um nômade, pregando em toda parte e experimentando toda sorte de privações, que lhe prejudicaram a saúde. Passava a noite em qualquer lugar que lhe oferecessem e, em sinal de reconhecimento, servia de enfermeiro a algum doente ou prestava pequenos serviços, como varrer e lavar. Alimentava-se de maneira frugal e o seu único vestuário era o que lhe cobria o corpo. Nas longas peregrinações, ocupava as horas vagas escrevendo a lápis sermões, traduzindo artigos e fazendo anotações curiosas sobre tudo o que observava. Quando se demorava por algum tempo em algum local onde podia dispor de comodidade, passava a limpo os seus sermões, hinos, notas e traduções, empregando em tudo muito método, clareza e uma bela caligrafia. Todos esses papéis ele levava consigo embrulhados em um pano, até poder dar-lhes o destino apropriado, enviando uns aos amigos e outros à redação da Imprensa Evangélica. Tinha uma presença nobre e atraente, voz harmoniosa, grande eloquência e pureza de vida. O pouco que possuía, dava aos pobres.”

(*) Alderi Souza de Matos é um professor, teólogo, historiador, pastor, escritor e apresentador televisivo presbiteriano brasileiro, que é atualmente o historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.

4. Dia do Pastor Presbiteriano

A Palavra de Deus nos admoesta a lembrarmo-nos de algumas “coisas” que não devem ser esquecidas. O termo “lembrai-vos” ocorre cerca de 9 vezes no NT. Em uma delas: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram.” (Hb 13.7).

Em lembrança ao legado de José Manoel da Conceição, foi estabelecido o dia 17 de dezembro como “o Dia do Pastor Presbiteriano” sendo celebrado na Igreja Presbiteriana do Brasil no domingo mais próximo a esta data. Essa data nos remete à ordenação desse primeiro pastor presbiteriano brasileiro ao sagrado ministério, em 17/12/1865.

Um dia para os presbiterianos (pastores e pastoreados) celebrarem a bênção de poderem servir ao Supremo Pastor que nos comprou com o precioso sangue de Cristo, seu Filho. Um dia, também, para os membros da Igreja Presbiteriana do Brasil expressarem a gratidão e apreço aos seus pastores pelo trabalho realizado. Naturalmente que essa lembrança não deve ficar restrita apenas a este dia comemorativo. Em todos os dias os pastores devem ser lembrados pelo rebanho de Deus, nas suas orações. E, seus ensinamentos e conselhos, fundamentados na bíblia, devem ser guardados e praticados, para bênção individual, da família e da igreja de Cristo.

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Bibliografia:

(1) Lições da História da Igreja 3. Revista expressão. Lição 7. Editora Cultura Cristã.
(2) História da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (1862-2012). Livro comemorativo do Sesquicentenário.
(3) Matos, Alderi Souza de.  Instituto Presbiteriano Mackenzie.
      https://web.archive.org/web/20130117115941/http://www.mackenzie.br/10177.html
(4) Wikipédia.

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Os pioneiros:

Rev. Ashbel Green Simonton (20/01/1833 – 09/12/1867)(34 anos)
     Esposa: Helen Murdoch  (1834–1864)(30 anos)
     Filha: Helen Murdoch Simonton (1864–1952)(88 anos)

Rev. Alexander Latimer Blackford (09/01/1829 – 14/05/1890)(61 anos)
     Esposa: Elizabeth Wiggins Simonton (1822–1879)(56 anos)

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Ofícios, Encargos e Ministérios

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Introdução:

O termo “ofício” pode ser definido como a atividade específica que se exerce em instituições, que pode ser ou não temporária; “trabalho”, “ocupação”, “cargo”, “função”. Enquanto “cargo” diz respeito a posição da pessoa na organização, o termo “encargo” tem mais a ver com a “tarefa”, o “dever”: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais:” (At 15.28). Nesta mesma linha temos os termos “incumbência”, “missão”: “Barnabé e Saulo, cumprida a sua missão, voltaram de Jerusalém, levando também consigo a João, apelidado Marcos.” (At 12.25). E, de certa forma, o termo “obrigação”: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16). Outro termo muito familiar no meio eclesiástico é “ministério”, frequentemente usado como tradução do grego “diakonia” (diaconia). Trata-se do desempenho de um serviço, neste caso, um serviço religioso, como, por exemplo, o do apóstolo Paulo: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério,” (1Tm 1.12). De fato, Deus tem um ministério ou serviço para cada crente, na igreja local e fora dela.

Na igreja presbiteriana, “o Ministro do Evangelho é o oficial consagrado pela Igreja, representada no Presbitério, para dedicar-se especialmente à pregação da Palavra de Deus, administrar os sacramentos, edificar os crentes e participar, com os presbíteros regentes, do governo e disciplina da comunidade.” (CI/IPB, Art. 30). Há que se falar, também, em designações ou títulos atribuídos aos que servem a Cristo na igreja, encontrados no Novo Testamento: apóstolo, presbítero ou ancião ou bispo, pastor, diácono, embaixador de Cristo, evangelista, pregador, mestre, despenseiro dos mistérios de Deus etc.

1. Presbíteros ou anciãos (pastores / bispos)

Além dos apóstolos, havia dois outros ofícios importantes na igreja primitiva: o de presbítero e o de diácono.

a) Havia três títulos, mas um só ofício: i) Presbítero ou ancião: termo que expressava dignidade e maturidade na fé; ii) Bispo(1): termo que expressava direção, superintendência; e, iii) Pastor: termo que expressava ternura, cuidado do rebanho.

b) A pluralidade de presbíteros era o padrão do NT (At 14.23; 20.7; Tt 1.5; Tg 5.14; 1Pe 5.1-2). Na epístola aos Hebreus estes são chamados de Guias (Hb 13.17). Não importava quão pequena fosse a igreja, esse era o padrão.

c) Esses presbíteros tinham a responsabilidade de dirigir / governar e ensinar a igreja, pastorear e zelar por ela (At 20.28; Tt 1.9; 1Tm 5.17; Hb 13.17; 1Pe 5.2-5).

d) Para poderem desempenhar bem o seu ofício, os presbíteros precisam ter algumas qualificações. São listados cerca de 21 requisitos, sendo cinco apenas em 1 Timóteo 3.1-7, sete em Tito 1.5-9 e, nove comuns aos dois textos.

e) Embora o NT não especifique um processo de seleção de presbíteros, pode-se dizer que Deus constitui os presbíteros (At 20.28), a igreja os reconhece e elege (At 14.23) e os mesmos desempenham o ofício.

2. Diáconos

a) A palavra “diácono” é a transliteração da palavra grega diákonos, que significa “servo”. Se considerarmos que Jesus enalteceu o servir, temos aqui um ofício efetivamente nobre (Mt 20.28; Jo 12.26).

b) A pluralidade de diáconos era o padrão do NT (Fp 1.1; 1Tm 3.8). Na comunidade de Jerusalém foram escolhidos 7 homens para “servir às mesas” (At 6.5). Ainda que ali não estivesse plenamente caracterizado o ofício de diácono, certamente foi o seu embrião.

c) No NT não há uma clara especificação de sua função na igreja, exceto que sua função é diferente da do presbítero. Inicialmente eles absorveram, por delegação dos apóstolos, algumas responsabilidades administrativas ou materiais (At 6.2), enquanto aqueles se consagrariam à oração e ao ministério da palavra (At 6.4). Estariam mais voltados a atender às necessidades físicas da comunidade cristã, a algum tipo de visitação e ação social, juntamente com suas esposas, daí terem sido estabelecidas algumas qualificações para as esposas destes (1Tm 3.11). Portanto, os diáconos não têm autoridade de liderança e governança sobre a igreja, como tem os presbíteros e devem atuar sob sua orientação e direção.

d) Para poderem desempenhar bem o seu ofício, os diáconos precisam ter algumas qualificações. Cremos que os ofícios de diácono e de presbítero, devem ser exercidos por homens, cujas qualificações são descritas na Bíblia em duas únicas listas: 1Timóteo 3.1-13 e Tito 1.5-9. E não é por acaso que tais instruções aparecem na Bíblia, lado a lado: “Semelhantemente…” (1Tm 3.8). Vale observar que não há que se exigir que os diáconos sejam aptos a ensinar a Bíblia ou a sã doutrina. Se o forem, tanto melhor!

3. A escolha de oficiais

Existem duas práticas principais sendo utilizadas para a seleção dos oficiais da igreja: por uma autoridade superior, ou pela igreja reunida em assembleia. No NT há diversas ocasiões em que os oficiais foram, aparentemente, escolhidos por toda a congregação. Embora o NT não especifique um processo de seleção de oficiais, pode-se dizer que Deus constitui os presbíteros e diáconos (At 20.28), a igreja os reconhece e elege (At 6.3; 14.23) e os mesmos desempenham os seus respectivos ofícios. Não deve haver precipitação nas indicações de oficiais (1Tm 5.22) e a igreja deve cumprir o seu papel, observando o exemplo de vida e as qualificações(2) dos candidatos.

Conclusão:

Cremos na diaconia universal dos crentes, homens e mulheres, ao lado do sacerdócio universal dos crentes. Todos os remidos foram chamados pelo Senhor para servir, para realizar as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). Servo, no grego, “doulos” (escravo, aquele que deve cumprir a vontade do seu Senhor, sem se importar com sua própria vontade) ou “diakonos” (aquele que realiza tarefas para ajudar os outros) é a nobre missão de cada crente, pois o Senhor Jesus é o exemplo maior. “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45). Para servir não é necessário ter um cargo ou um ofício. Assim é que o termo servir é empregado em todo o NT no sentido não-técnico, referindo-se a homens e mulheres que serviam a essa ou àquela igreja local.

Referências:

(1)  “Embora em algumas partes da igreja, do segundo século em diante, a palavra bispo tenha sido usada para referir-se a um indivíduo com autoridade sobre diversas igrejas, este é um desdobramento do termo e não é encontrado no Novo Testamento.” (Wayne Grudem)

(2)  “Aqueles que escolhem presbíteros nas igrejas de hoje fariam bem se analisassem os candidatos à luz dessas qualificações e procurassem esses traços de caráter e padrões de vida piedosa e não realizações terrenas, fama ou sucesso.” (Wayne Grudem). Cremos que o mesmo se aplica na escolha de diáconos.

Bibliografia:

. Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil (CI/IPB).
. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Vida Nova, 1999.


Veja também: As qualificações dos presbíteros

Veja também: As qualificações dos diáconos

Os 20 Dons Espirituais

Os Dons Espirituais

Introdução:

Enquanto os ofícios e encargos dizem respeito às atividades ou serviços desenvolvidos na igreja, os dons (naturais e espirituais) nos remetem à questão da capacitação ou habilidade ou qualificação para a realização desses serviços. Não se pode deixar de mencionar aqui a relevância, para a igreja, daqueles dons espirituais ou sobrenaturais concedidos aos crentes, pelo Espírito Santo, bem como a importância daqueles dons naturais ou talentos que cada crente possui. Ao considerarmos os apóstolos Pedro e Paulo, ambos homens de Deus e cheios do Espírito Santo, constatamos que o serviço desenvolvido por cada um deles foi, até certo ponto diferente: Pedro foi bastante usado por Deus na expansão do Evangelho, principalmente entre os judeus; enquanto Paulo, entre os gentios, sendo que coube, principalmente a Paulo, a sistematização e ensino da doutrina cristã. Certamente, porque os nossos talentos naturais e capacitações pessoais, quando submetidos a Deus, depositados ao pé da cruz de Cristo, podem e serão usados por ele.

Desenvolvimento:

1. DOM NATURAL ou TALENTO

Dom natural ou talento é a capacitação que nos permite usar, de forma excepcional, as competências que cada um de nós tem ou adquire ao longo da vida e, assim, gerar resultados diferenciados e significativos. Todos nascemos com competências, ou aptidões para certos tipos de trabalhos ou atividades. Precisamos identificá-las, desenvolvê-las e empregá-las, para o bem da família, da igreja e da sociedade.

2. DOM ESPIRITUAL ou SOBRENATURAL

“A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes.” (1Co 12.1). Não há dúvida de que precisamos conhecer as doutrinas bíblicas, tais como: da Redenção, da forma de atuação do Espírito Santo na igreja, da atualidade dos dons espirituais e a da Escatologia Bíblica ou da Doutrina das Últimas Coisas, dentre outras. Então, comecemos por não confundir “FRUTO DO ESPÍRITO”, com seus “9 gomos” (Gl 5.22-23), que são manifestações do caráter do crente regenerado pelo Espírito, com os “DONS DO ESPÍRITO” que são capacitações do Espírito Santo para as realizações na igreja. Também é necessário distinguir “dom natural ou talento”, de “dom espiritual ou sobrenatural”, em que pese o valor e utilidade de ambos a serviço de Deus, na igreja e fora dela. Os salvos (nascidos de novo) recebem o dom, que é o próprio Espírito. Os carismas do Espírito são dados para habilitar o crente – aquele que tem o Espírito Santo – a servir a Deus de modo útil.

Podemos dizer que há cerca de 20 dons espirituais, os quais são mencionados nas Escrituras Sagradas em Romanos 12.6-8, 1Coríntios 12.8-10, 1Coríntios 12.28 e Efésios 4.11. Este assunto sempre foi e será importante e sensível para igreja. Há algumas décadas atrás agitou o mundo eclesiástico e dividiu algumas igrejas. Há igrejas ou denominações que supervalorizam os dons espirituais, enquanto outras têm medo de lidar com o assunto. Há, também, crentes fascinados por tudo o que diz respeito a poder sobrenatural, mas pouco se importam com o amor cristão e com o discipulado que paga o preço de um autêntico estilo de vida cristão. Os extremos são prejudiciais à igreja.

Independentemente se todos esses dons continuam, se alguns deles cessaram ou quase não se manifestam, atualmente (Continuísmo, Cessacionismo e Cessacionismo moderado), são estes os 20 dons mencionados no Novo Testamento:

2.1 Dons Ministeriais:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para o exercício dos ministérios.)

1º) O dom de APÓSTOLO (Ef 4.11a; 1Co 12.28a)

No sentido de apóstolo de Jesus ficou restrito aos doze (ou treze – Paulo 1Co 9.1), conforme credenciais do apostolado (2Co 12.12; At 1.21-22). No sentido da palavra (gr, apostolov ou apostolos) é um enviado, conhecido pela igreja de hoje como um missionário.

2º) O dom de PROFETA (Ef 4.11b; 1Co 12.28b)

No sentido bíblico do AT (gr. profhthv ou prophetes) os profetas eram a boca de Deus aos homens para denunciar o pecado, advertir, anunciar o julgamento divino, a restauração futura e, finalmente, o julgamento dos povos usados como instrumento divino para aplicar o castigo a Israel. E, também, para exortar, consolar, ensinar e aconselhar, com toda a autoridade de quem representa e fala em nome de Deus ao povo. Este ministério findou com João Batista, conforme as palavras de Jesus em Mt 11.13. Mas, Jesus foi e é o ápice deste ministério: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 11.1-2). Portanto, em termos de igreja, os profetas de hoje são os pregadores da Palavra de Deus. “Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.” (1Co 14.3)

3º) O dom de EVANGELISTA (Ef 4.11c)

O dom de evangelista se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para anunciar o evangelho; expor com clareza e persuasão o caminho da salvação em Jesus. Exemplo disso é o diácono Filipe, o evangelista (At 21.8). Não podemos perder de vista que todo o cristão é chamado a pregar o evangelho e não apenas os que recebem uma capacitação especial.

4º) O dom de PASTOR (Ef 4.11d)

O dom de pastor se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para “cuidar”, “apascentar” o rebanho de Deus. O dom de pastor não deve ser confundido com o ofício de pastor de uma igreja. Enquanto o dom de evangelista é usado para alcançar os não convertidos, o dom de pastor para cuidar dos convertidos.

5º) O dom de MESTRE (Ef 4.11; Rm12.7b; 1Co 12.28c)

O dom de mestre se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para “ensinar” a Palavra de Deus – a Bíblia – a Sã Doutrina. O mestre é aquele que conhece e pratica a Bíblia e é apto, hábil, para transmitir aos outros as verdades bíblicas.

2.2 Dons Operacionais:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para o funcionamento da Igreja.)

6º) O dom de PROFECIA (Rm 12.6; 1Co 12.10b)

O dom de profecia (gr, Propheteia) é a proclamação e exposição de algo novo e importante recebido de Deus, das Sagradas Escrituras, mediante o poder do Espírito Santo, para edificar, exortar e consolar um irmão ou a igreja (1Co 14.3).

7º) O dom de EXORTAÇÃO (Rm 12.8a)

O dom de exortação se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para convencer, persuadir, aconselhar, animar, encorajar alguém a seguir determinada conduta, principalmente os valores da vida cristã.

8º) O dom de GOVERNO (Rm 12.8c; 1Co 12.28g)

O dom de governo se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para presidir e liderar.

9º) O dom de MINISTÉRIO ou SERVIÇO (Rm 12.7a)

O dom de ministério ou serviço (gr, diakonia) se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para servir a igreja, os irmãos ou o próximo, nas múltiplas oportunidades e situações que se nos oferecem no cotidiano.

10º) O dom de MISERICÓRDIA (Rm 12.8d)

O dom de misericórdia se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para exercer misericórdia, aliviando a aflição e o sofrimento, perdoando os faltosos.

11º) O dom de SOCORROS (1Co 12.28f)

O dom de socorros se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para auxiliar, ajudar, suportar a carga de outros.

12º) O dom de CONTRIBUIR (Rm 12.8b)

O dom de contribuir se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para dar, repartir, recursos financeiros e outras bênçãos recebidas de Deus. Vale lembrar que“Deus dá! O Diabo rouba! O homem retém!” (quanto ao homem, essa é a sua tendência).

2.3 Dons de Revelação:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para saber.)

13º) O dom da PALAVRA DE SABEDORIA (1Co 12.8a)

O dom da Palavra de Sabedoria (gr, Logos Sophia) se caracteriza pela comunicação de uma palavra (logos) de sabedoria a outros, revelada mediante a operação sobrenatural do Espírito Santo. Tal palavra aplica a sabedoria da Palavra de Deus ou a sabedoria do Espírito Santo a uma situação ou problema específicos.

14º) O dom da PALAVRA DE CONHECIMENTO (1Co 12.8b)

O dom da Palavra de Conhecimento (gr, Logos Gnôsis) se caracteriza pela comunicação de uma palavra (logos) a outros, mediante a operação sobrenatural do Espírito Santo, revelando conhecimento a respeito de pessoas, de fatos, de circunstâncias, ou de verdades bíblicas.

15º) O dom de DISCERNIMENTO DE ESPÍRITOS (1Co 12.10c)

O dom de discernimento de espíritos (gr, Diakriseis Pneumaton) é a capacidade sobrenatural, conferida pelo Espírito Santo, para identificar se determinada manifestação tem origem divina ou satânica ou humana.

2.4 Dons de Poder:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para agir.)

16º) O dom da FÉ (1Co 12.9a)

O dom da fé (gr, Pistis) se caracteriza por uma profunda e sobrenatural convicção e certeza, inoculadas pelo Espírito Santo, de algo a ser realizado que seja proveitoso para a igreja, para o reino de Deus ou para pessoas que Deus queira abençoar.

17º) Os dons de CURAR (1Co 12.9b; 1Co 12.28e)

Os dons de curar (gr, Carismata Iamaton) se caracterizam por um poder sobrenatural, outorgado pelo Espírito Santo, para o restabelecimento imediato da saúde de pessoas enfermas alcançadas pela misericórdia de Deus, para a glória de Deus, para testemunho do Evangelho e para bênção da Igreja de Cristo.

18º) O dom de OPERAÇÃO DE MILAGRES (1Co 12.10a; 1Co 12.28d)

O dom de operação de milagres (gr, Energemata Dynameon) é uma intervenção sobrenatural nas leis da natureza ou no mundo, mediante o poder do Espírito Santo.

2.5 Dons de Comunicação:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para se comunicar.)

19º) O dom de LÍNGUAS (1Co 12.10d; 1Co 12.28h)

O dom de variedade de línguas é a capacidade sobrenatural, conferida pelo Espírito Santo, para falar em outra língua desconhecida para quem fala.

20º) O dom de INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS (1Co 12.10e)

O dom de interpretação de línguas é a capacidade sobrenatural, conferida pelo Espírito Santo, para se interpretar outra língua, desconhecida para quem fala e para que a interpreta.

Conclusão:

A presença de sinais e prodígios não é garantia da manifestação do poder do Espírito Santo: “porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.” (Mt 24.24). Por outro lado, a ausência de sinais também não é garantia de um status espiritual superior, de mais equilíbrio, de doutrina correta.  Pode ser até um sintoma de apostasia, de vida em pecado e consequente afastamento de Deus. De fato, a questão é que a igreja não pode prescindir da ação e do poder do Espírito Santo!

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Síntese: Os 20 dons do Espírito Santo.pdf

A santidade e a misericórdia

Textos Base: Levíticos 20.26; Colossenses 1.21-23

Introdução:

O tema deste estudo é interessante e desafiador, como sempre. Mas, o que o cristão tem a ver com palavras como “santo ou santa”, “santidade”, “santificar” e “santificação”, de um lado, e, “misericórdia”, do outro?  Desde o início da história da religião, expressões como “santo” e “sagrado” denotavam, por parte do ser humano, a esfera do “poder” (superior ou divino), o que era considerado por ele, de certa forma, como algo ameaçador e temível. O oposto a “santo” era, e é, o “profano”, ou seja, aquilo que ficava fora do âmbito divino, a esfera da vida humana. Então, as raízes da religião se acham nos esforços despendidos pelo homem para agradar esse poder superior e temível, bem como para separar o que é “santo”, mediante práticas cultuais e rituais, da profanação e contaminação causadas por coisas profanas.

Os gregos empregavam três grupos de palavras diferentes para expressar aquilo que é “santo”: hieros, com seus numerosos derivados, denota aquilo que é essencialmente “santo”, o “poder divino”, ou aquilo que era consagrado àquele – “santuário”, “sacrifício” e “sacerdote”; diferentemente, hagios (o grupo de palavras mais frequente no NT e que vamos abordar aqui) contém um elemento ético; e, hosios, nesta mesma linha, de um lado, indica o mandamento e a providência divinos, do outro, a obrigação e moralidade humanas. Os gregos também empregavam três palavras diferentes para expressar misericórdia, compaixão, dó e “dor no coração”: eleos, oiktirmos e splanchna.

Neste estudo aula vamos examinar a questão da santidade, no Antigo Testamento (AT) e no Novo Testamento (NT), bem como o lugar da misericórdia no plano de Deus. Inicialmente é importante nos familiarizamos com algumas definições. Santo ou santa, como substantivos, se referem a seres e pessoas diferenciados e especiais, que se elevam acima dos demais, bem como a coisas e lugares sagrados ou consagrados ao culto ou à divindade; como adjetivos, se referem a qualidades ou virtudes. Santidade é o estado do que é santo. Santificar é tornar(-se) santo. Santificação é o ato ou efeito de santificar, de tornar(-se) santo. Santuário é o lugar sagrado, santo, dedicado ao culto ou cerimônias de uma religião (templo etc).

Desenvolvimento:

1. A SANTIDADE NO AT

Nossos primeiros pais tiveram contato direto com esse “ser santo”, o poder criador e sustentador de todas as coisas. Ao desobedece-lo, experimentaram seu poder, seu juízo e a separação dele (morte espiritual). No AT percebe-se a intenção explícita de ensinar que o “santo” deve ser tratado diferentemente do “profano”: “para fazerdes diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo” (Lv 10.10; comp. Ez 22.26; 42.20 e 44.23). Algumas vezes, pessoas tiveram que pagar com a vida, por não distinguirem o santo do profano, como no caso dos 70 homens de Bete-Semes, que olharam para dentro da arca do Senhor. “Então, disseram os homens de Bete-Semes: Quem poderia estar perante o SENHOR, este Deus santo? E para quem subirá desde nós?” (1Sm 6.19-20). A relação sexual, no âmbito do casamento, não é imoral ou impura, em si; pelo contrário, é um presente de Deus para o casal. Entretanto, havia o entendimento de que deveria ser evitada, como forma de preparo para se entrar em contato com aquele ou aquilo que é santo (Êx 19.15; 1Sm 21.4).

São mencionados no AT como sendo “santo(s)” ou “santa(s)”:

a) O próprio Deus – “este Deus santo” (1Sm 6.19-20). Também é chamado de o “Santo de Israel” (Is 31.1). Nenhum outro deus é santo como ele (1Sm 2.2). O seu nome era santo e não devia ser pronunciado em vão (Êx 20.7; Lv 20.3).

b) Os seres celestiais são santos (Jó 5.1; Dn 4.13, 23; 8.13).

c) A terra onde se pisa, na presença divina ou celestial é santa (Ex 3.5; Js 5.15). Onde o Senhor habita é santo lugar (Sl 24.3-4).

d) O profeta Eliseu foi identificado, pela sunamita, como “santo homem de Deus” (2Rs 4.9). Arão, foi chamado “o santo do Senhor” (Sl 106.16). Sansão, como “nazireu de Deus”, neste mesmo sentido é santo (Jz 13.7; 16.17; Nm 6.5, 8).

e) O povo de Israel é considerado como o “povo santo ao Senhor”, por ele mesmo escolhido e separado dos demais (Dt 7.6; 14.2, 21; 26.19). Entretanto, nem todos, do povo, eram santos, como Coré, Datã e Abirão tentaram argumentar (Nm 16.3-5). Essa santidade demandava a guarda dos mandamentos e o andar nos caminhos do Senhor (Dt 28.9).

f) Os primogênitos (homem, gado, ovelha, cabra) são santos (Ex 13.2; Nm 18.17).

g) Havia lugares santos (Sl 74.8; Ez 7.24) e montes santos (Sl 87.1).

h) Tudo quanto pertence ao âmbito do culto ou é apresentado a Deus é santo:

  • O santo templo do Senhor (Sl 5.7).
  • O sacerdote é santo (Lv 21.7-8).
  • O pão da proposição do tabernáculo e do templo é chamado de pão sagrado ou santo (1Sm 21.4); bem como os animais e as carnes consagradas (Êx 29.34; Lv 23.20; 27.9-10).
  • A arca, os altares e seus utensílios (2Cr 8.11).
  • O óleo da unção, o incenso, a água santa (Êx 30.32; 30.34-35; Nm 5.17).
  • O dinheiro do templo é santo (Êx 28.2; Ed 8.28).
  • As vestes santas dos sacerdotes (Êx 28.2; 29.29);
  • A lâmina no peitoral do sumo sacerdote, continha a inscrição: “Santidade ao Senhor”.
  • O sábado do descanso e dedicação ao Senhor é santo (Êx 16.23; 31.14-15; 35.2). O jubileu é santo (Lv 25.120.
  • A colheita a ser ofertada ao Senhor é santa (Lv 19.24).
  • O dízimo é santo (Lv 27.32).
  • O santo jejum (Jl 1.14; 2.15).

Havia, também, o processo de se “tornar santo” ou “santificar(-se)”:

a) Após ter sido excluído da comunidade por causa da impureza (2Sm 11.4).

b) Quando se entrava em contato com Deus (Êx 19.10; 1Sm 21.5; 1Sm 16.5).

c) Na consagração de levitas ao sacerdócio (1Sm 7.1).

d) Na consagração de coisas a Deus (prata – Js 6.19; Jz 17.3; o átrio do templo – 1Rs 8.64).

e) Havia a “transferência da santidade” pelo tato (Êx 29.37; 30.29; Lv 6.18). Da mesma forma, a impureza também é transferível (Ag 2.11).

É no livro do profeta Isaías que encontramos a tríplice aclamação dos Serafins ao Deus três vezes Santo: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” (Is 6.3). Diante da visão dessa perfeita santidade divina, qualquer ser humano, inclusive o profeta Isaías, não tem como deixar de reconhecer sua impureza e pequenez. Assim, resta-lhe clamar e submeter-se ao processo de purificação que procede do altar. (Is 6.3-7).  A santidade de Deus requer a santidade da pessoa que dele se aproxima e do povo chamado pelo seu nome: “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou santo.” (Lv 19.2; comp. Lv 11.44-45; 20.7, 26). É através da Lei Mosaica que Deus outorga, também, a “Lei da Santidade”. Visto que a pureza é a característica apropriada de tudo quanto é santo, é dever de todo participante do culto ser puro (santificar-se).

2. A SANTIDADE NO NT

Quando examinamos esse assunto no NT constatamos que a ênfase na santidade continua, porém, com contornos diferentes do AT. O Deus Criador e Deus de Israel, referido no AT como “o Santo” (Is 5.16; 40.25; Os 11.9, 12 e Hc 3.3 – 5 vezes) ou o “Santo de Israel/Jacó” (33 vezes), raramente é descrito assim no NT (Jo 17.11; 1Pe 1.15-16; Ap 4.8 e 6.10 – 4 vezes). Numa dessas citações, também ele é aclamado continuamente pelos quatro seres viventes, como Santo, Santo, Santo (Ap 4.8; comp. Is 6.3). As expressões “Santo nome” ou “nome Santo”, atribuídas a Deus, ocorrem cerca de 23 vezes, no AT; enquanto nenhuma, no NT. Entretanto, no NT, Deus, a primeira pessoa da trindade, é apresentado como “Pai” (cerca de 259 vezes), contrastando com o AT, quando assim foi referido menos de 20 vezes. Da mesma forma, o “Espírito Santo”, a segunda pessoa da trindade, no NT é citado cerca de 104 vezes (Espírito Santo, Santo Espírito ou Espírito de Deus), enquanto no AT, cerca de 17 vezes. Por sua vez, Jesus, a terceira pessoa da trindade, o Deus encarnado, é mencionado no NT, como o “Santo” (de Deus) cerca de 6 vezes (Mc 1.24; Lc 4.34; Jo 6.69; At 3.14; Ap 3.7; 16.5).

Outros aspectos de contraste interessantes, envolvendo a palavra “santo” no AT e no NT, são:

a) “santo monte” ou “monte santo”, o lugar da “habitação do Deus Santo”, é citado 24 vezes, no AT e 1 vez, no NT (2Pe 18). É notável como no NT Jesus se desloca frequentemente para os montes, principalmente para orar.

b) “lugar santo” ou “santo lugar”, é mencionado 31 vezes, no AT e, 4 vezes, no NT, normalmente citando o AT.

c) “templo santo” ou “santo templo” é citado 10 vezes, no AT e nenhuma, no NT. “Santuário” é uma palavra que ocorre cerca de 161 vezes no AT, se referindo ao Tabernáculo, ao Templo de Jerusalém ou ao celestial ou a um novo templo, mas não a uma pessoa. Já no NT a palavra santuário aparece apenas 46 vezes, sendo que por 9 vezes referindo-se a pessoas (Jesus, 3 vezes e os cristãos, 6 vezes). Portanto, no NT, a principal habitação de Deus não é mais um monte, ou um lugar ou um templo físico. O lugar em que Deus deseja habitar e tornar santo é o coração humano e, por extensão a igreja, como o corpo de Cristo: “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada.” (Jo 14.23); “no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” (Ef 2.22); “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16; ver tb 1Co 3.17; 6.19; 2Co 6.16).

Do exposto acima, já se pode deduzir que o conceito neotestamentário de santidade é determinado em conformidade com o Espírito Santo, a dádiva da Nova Aliança. Em decorrência disso, a esfera apropriada daquilo que é santo, no NT, não é a ritual e física. O sagrado já não pertence a coisas, a lugares ou a ritos, mas, sim, às manifestações da vida que o Espírito Santo produz. A santificação, no NT, não se dá pelo “tato” (tocar objetos “santos”), mas, pode ocorrer pelo convívio com pessoas santas (1Co 7.14). Tudo isso porque o AT serviu como figura e sombra das coisas que haviam de vir (Cl 2.16-17).

São mencionados no NT como sendo “santo(s)” ou “santa(s)”, quando não estão se referindo ao AT:

a) O nome de Deus é chamado “santo” (Lc 1.49).

b) Os anjos são santos (Mc 8.38; Lc 9.26; At 10.22; Jd 14; Ap 14.10).

c) Os profetas são santos (Lc 1.70; At 3.21; 2Pe 3.2).

d) Os apóstolos são santos (Ef 3.5).

e) A sua Aliança é santa (Lc 1.72). A lei é santa (Rm 7.12).

f) As Escrituras são sagradas (santas) (Rm 1.2; 2Tm 3.15).

g) Mãos santas (1Tm 2.8).

h) Igreja santa (Ef 5.27).

i) Santa vocação (2Tm 1.9).

A Igreja Católica Romana preserva muito da tradição vétero-testamentária (judaísmo), dando ênfase a santificação de coisas e determinadas pessoas; canonizando “santos” em face das suas obras e enfatizando as obras como meio de graça (sacramentos, confissão auricular, penitências, indulgências, relíquias, formas de piedade e purgatório). Contrariamente a tudo isso, no NT, o Deus Santo e quase inatingível, que está no seu alto e sublime trono, vem ao encontro e se aproxima do pecador, em Cristo, o Deus encarnado. Este traz o Evangelho, as boas novas de salvação e graça. Assim, através da redenção e dos méritos de Cristo, os pecadores arrependidos são regenerados e habitados pelo Espírito Santo, tornando-se santos. Além da designação de “irmãos” (225 vezes), é significativo que os remidos por Cristo são mencionados, predominantemente, no NT (a partir do Livro de Atos), individualmente ou coletivamente, não como os “do caminho” (1 vez), ou “cristãos” (3 vezes), ou “fiéis” (7 vezes), ou “eleitos” (8 vezes), ou “crentes” (9 vezes), ou “chamados” (14 vezes), ou “servos” (30 vezes), ou “amados” (31 vezes) mas, para surpresa de muitos, como “santos” (66 vezes)! E, Jesus, foi chamado “santo Servo” (At 4.27, 30), tornando-se, assim, o nosso paradigma.

Infelizmente, alguns grupos chamados de cristãos, ainda não entenderam a eclesiologia do NT, alicerçada no sacerdócio universal dos crentes (santos), cuja governança é exercida pelos presbíteros (docentes e regentes). Antes, preservam a estrutura “hierárquica” do judaísmo do AT, com seu “sumo sacerdote” (“o santíssimo”), os sacerdotes (“os super santos”), os levitas (“os mais santos”) e o povo de Deus (“os santos”). É relevante assinalar aqui, que no Apocalipse, os crentes são considerados sacerdotes no reino de Deus (Ap 1.6; 5.10; 20.6). Fala-se da Nova Jerusalém, a cidade santa, onde não há templo: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro.” (Ap 21.22).

3. A MISERICÓRDIA

Como nosso assunto é santidade e misericórdia, o objetivo aqui é tratar, em primeiro plano, da misericórdia de Deus para com os homens, e em segundo, a misericórdia entre os homens. Vale lembrar que:

GRAÇA – É Deus nos dar o bem que não merecemos.

MISERICÓRDIA – É Deus não nos imputar o castigo que merecemos.

“Dizer que Deus tem como atributo a santidade é dizer que ele é separado do pecado e dedica-se a buscar a sua própria honra.” (2). Essa sua santidade requer a nossa santidade, a nossa separação do pecado: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48). Sobre essa misericórdia podemos fazer as seguintes afirmações, com base na Bíblia:

a) A misericórdia é um dos atributos ou características da natureza divina (Ex 34.6; Sl 103.8): “Deus é espírito, em si e por si infinito em seu ser, glória, bem-aventurança e perfeição; todo-suficiente, eterno, imutável, insondável, onipresente, infinito em poder, sabedoria, santidade, justiça, misericórdia e clemência, longânimo e cheio de bondade e verdade.” (3)

b) Por nossos próprios esforços e obras não podemos atender as exigências da santidade divina e nos aproximarmos de Deus: “Então, Josué disse ao povo: Não podereis servir ao SENHOR, porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados.” (Js 24.19); “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,” (Tt 3.5).

c) Diante da limitação e fraqueza humanas, deixando de alcançar e se manter no padrão divino de pureza e perfeição, entra em cena a misericórdia divina: “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” (Lm 3.22-23)

d) O ápice da manifestação da misericórdia divina se deu no sacrifício de Cristo, na cruz do Calvário: “No Evangelho Deus proclama o seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e creem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do Seu Espírito, a aceitem como dádiva da graça.” (4)

e) A misericórdia de Deus não significa sua renúncia à justiça e juízo: “mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” (Jr 9.24)

f) Para a alegria e consolo dos remidos do Senhor, a misericórdia de Deus dura para sempre: “Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre.” (Sl 136)

g) Assim como Deus é misericordioso para com os que, em Cristo, se aproximam dele, devemos ser misericordiosos para com o nosso próximo: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.” (Cl 3.12).

Conclusão:

A santidade e a misericórdia de Deus se manifestam desde a criação e acompanharão o seu povo até o final dos tempos. Somos chamados e desafiados a viver essa vida santa num mundo tão corrompido; a ser sal, fora do saleiro, e luz, em lugar alto. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação!” (2Co 1.3)

Bibliografia:

(1) Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova, 1983.
(2)  GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Vida Nova, 1999.
(3) O Catecismo Maior de Westminster. Editora Cultura Cristã, 2005. (Pergunta e resposta 7).
(4)  A Confissão de Fé de Westminster. Editora Cultura Cristã, 2011. (cap. 35, item II).

 

 

Quanto vale uma pessoa?

Se há um assunto que nunca sai da pauta é o do valor ou importância de uma pessoa. Muito se tem discutido, também, sobre o relacionamento entre os seres humanos ao longo do tempo: governantes e governados, senhores e escravos, ricos e pobres, patrões e empregados, marido e esposa, pais e filhos, nativos e estrangeiros, brancos e negros, homens e mulheres etc.

Em relação a este assunto, nas últimas décadas, parece que o foco das atenções tem sido:

– a questão da liberdade (estado democrático de direito),
– a questão racial (combate ao racismo),
– a questão trabalhista (a defesa do trabalhador),
– a questão da mulher (feminismo: igualdade, empoderamento e violência) e,
– a questão sexual (liberalismo, homossexualidade e transexualidade).

Ainda que muitas dessas causas possam ser vistas como legítimas, pela sociedade, e alguns resultados positivos tenham sido alcançados, constata-se que a sociedade pós-moderna vive debaixo do jugo do politicamente correto. Há, em certas causas, a tentativa explícita de combater e desconstruir conceitos e padrões absolutos e irrevogáveis estabelecidos por Deus, nosso Criador, principalmente no que tange à questão sexual. Alguns grupos militantes têm se levantado e feito muito barulho e pressão, com o apoio da mídia e de determinados segmentos que estão mais interessados em promover um estado ou ambiente de anarquia para tomarem o poder e ditarem as regras do jogo, do que em promover o bem comum e o desenvolvimento da sociedade.

Desta forma:

– a liberdade tem sido confundida com libertinagem (“para uma geração sem limites, obedecer regras torna-se uma ditadura”);
– o patrão e empresário que gera empregos e movimenta a economia virou vilão e opressor;
– o empregado se coloca como vítima e os sindicatos como os defensores do trabalhador;
– fala-se muito em direitos e não querem saber de deveres;
– tem que se ter muito cuidado com o que se diz para não ser processado por racismo, homofobia, transfobia, misoginia, xenofobia;
– querem empurrar goela abaixo da sociedade um equivocado sistema de cotas com o falso discurso da promoção da igualdade e justiça social.

Tudo isso, tendo como pano de fundo uma diabólica estratégia de promoção da divisão entre as pessoas, na intenção velada de “dividir para conquistar”.

Num tempo em que se defende tanto a valorização das pessoas, principalmente das minorias, infelizmente constata-se, cada vez mais, a degradação do ser humano. Gente que se expõe ao ridículo por causas absurdas. Gente que arrisca a vida por robbies extravagantes. Gente que se entrega às drogas, à bebedeira, à promiscuidade. Gente que estraga sua saúde física, mental e emocional porque não consegue estabelecer limites para os seus atos.

Entretanto, você, eu, nós temos valor. E, qual é esse valor?

1. Valor absoluto (ou básico)

Por que há obras de arte tão bem avaliadas? Normalmente, por causa da obra e do seu criador. Há quem defenda que o toque do criador, a complexidade do quadro e o requinte dos materiais, não são os fatores que elevam o preço de uma obra. O principal critério é o renome do artista, a marca que sua assinatura atribui ao quadro. Quando falamos em valor absoluto, estamos nos referindo ao valor que a pessoa tem em si mesma, na condição de um ser humano. Deus é simplesmente o maior “artista” que existe e o gênero humano, a sua obra prima, o clímax da sua extraordinária criação, sendo criado à sua imagem, conforme a sua semelhança (Gn 1.26-27; 5.1-2; 9.6). Esse valor absoluto pode ser expresso assim:

a) Cada ser humano é único e incrivelmente dotado pelo Criador.

b) Valemos muito mais do que as aves (Mt 6.26b; Lc 12.7b) e do que todos os seres criados na terra, tendo recebido de Deus o mandato de domínio sobre a sua criação.

c) Somos todos criaturas e iguais diante de Deus. Um exemplo disso se encontra na lei mosaica do recenseamento, em que pobres e ricos deveriam dar o mesmo valor: “metade de um siclo de prata” – cerca de 14g (Êx 30.11-16). Isso independe do que nós pensamos ou fazemos, pois Deus ama o pecador, embora odeie o pecado. Deus não faz acepção de Pessoas (tratamento desigual de pessoas, com favoritismo, parcialidade e injustiça) e nos ensina a agir assim (Dt 16.19; At 10.34)

d) Pela redenção em Cristo e pelo novo nascimento a “criatura” se torna “filho de Deus” (1Jo 3.1-2). E, estes, filhos de Deus são iguais diante do Pai Celestial, pois foram remidos pelo mesmo sangue de Cristo: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl 3.28). O valor absoluto dos crentes é igual diante de Deus, independentemente de nacionalidade, de condição socioeconômica, sexo etc. Isso nada tem a ver com igualdade de papéis, principalmente no que tange a sexo, pois conflitaria com outros ensinos bíblicos.

2. Valor relativo (ou agregado)

Quando falamos em valor relativo, estamos nos referindo ao valor que a pessoa tem em face do seu potencial e poder de realização. A ideia de valor agregado é no sentido de que essa capacidade de realização pode ser adquirida e incorporada no seu ser. Assim sendo, essa incorporação pode se dar de forma NATURAL, ESTIMULADA ou SOBRENATURAL.

i) NATURAL: Quando adquirida por herança genética; portanto de forma independente da pessoa.

ii) ESTIMULADA: Quando adquirida através de aprendizagem teórica e prática; portanto dependente do empenho e oportunidade da pessoa.

iii) SOBRENATURAL: Quando adquirida da parte de Deus.

 “Disse Moisés aos filhos de Israel: Eis que o SENHOR chamou pelo nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o Espírito de Deus o encheu de habilidade, inteligência e conhecimento em todo artifício, e para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, em prata, em bronze, e para lapidação de pedras de engaste, e para entalho de madeira, e para toda sorte de lavores. Também lhe dispôs o coração para ensinar a outrem, a ele e a Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã. Encheu-os de habilidade para fazer toda obra de mestre, até a mais engenhosa, e a do bordador em estofo azul, em púrpura, em carmesim e em linho fino, e a do tecelão, sim, toda sorte de obra e a elaborar desenhos.” (Bezalel: Êx 35.30-35)

Este valor relativo também pode ser considerado levando-se em conta o tipo de valor, como, por exemplo:

a) Valor Intelectual

Este valor reflete a competência da pessoa em termos de cultura geral e cultura específica. Um exemplo clássico desse valor é o próprio rei Salomão. A rainha de Sabá ficou como fora de si ao visitar, provar com perguntas e constatar a grandeza do seu conhecimento e sabedoria (2Cr 9.1-12).

b) Valor laboral

Este valor reflete a competência da pessoa em termos de realizar um trabalho específico. Em termos de mercado de trabalho, os profissionais costumam ter o seu valor laboral traduzido em termos de remuneração salarial e benefícios. Assim, cada profissão tem seu nível de exigência e complexidade na realização laboral, o que, em princípio, determina o valor da remuneração.

c) Valor estético

Este valor reflete a competência da pessoa em termos de cuidar de si, da sua aparência, modo de vestir, modo de falar e agir etc. É fato que todos nós devemos cuidar da forma como nos apresentamos para os outros. Entretanto, precisamos ter cuidado, para não julgar e avaliar as pessoas em função do seu exterior (Tg 2.2-7).

Conclusão:

Por quais causas devemos lutar? Nada mais justo e nobre do que lutar as verdadeiras causas que busquem promover o respeito e a dignidade de todos os seres humanos. Cautela, moderação, sensatez e coerência são alguns dos aspectos que devem balizar essa luta. Também é preciso ficar muito atento a grupos dissimulados que, hasteando a bandeira da luta pela valorização de determinado grupo, o fazem, apenas com o propósito de implantar suas diabólicas ideologias socialistas e comunistas. Não nos iludamos, pois o progresso é resultado de muito trabalho, justiça e ordem!

O cristão é convocado a seguir o exemplo de Jesus, seu Mestre: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10.10). Assim, além de lutar pela valorização das pessoas na vida terrena, o mais importante mesmo é lutar para ajuda-las a encontrarem a vida eterna, por meio de Cristo Jesus, nosso Salvador.

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Dinâmica sugerida: (Estudo em Grupo)

Segue arquivo intitulado “ABRIGO SUBTERRÂNEO” que pode ser usado para uma dinâmica de grupo antes de iniciar o estudo deste tema.

Clique no link ao lado para abrir o arquivo: Abrigo Subterrâneo.pdf

 

Cristãos num mundo tecnológico

Adoração virtual?

Introdução:

O tema proposto é atual e oportuno. Ao longo deste estudo, algumas palavras e expressões merecerão nossa atenção. Ciência e Tecnologia são conceitos ou áreas próximas, porém distintas. A ciência busca as explicações sobre os fenômenos que ocorrem na natureza, mas a tecnologia tem seu foco na aplicação prática do conhecimento, de modo a atender às necessidades do ser humano, nas coisas que se tornam essenciais à vida cotidiana. Como se diz, por aí: “Ciência é aquilo que você sabe, Tecnologia é aquilo que você usa.”. No entender de Jack Challoner: “Ciência e tecnologia são interdependentes. A ciência é nossa maneira de revelar as leis da natureza por meio de teoria e experimentação. A tecnologia é a aplicação prática da nossa compreensão do mundo para alcançar aquilo que precisamos ou queremos fazer. Ela vai além de “coisas” como computadores ou bicicletas: inclui técnicas e processos como, por exemplo, o alfabeto, os sistemas numéricos e a extração de metais.”. A ciência diz ao homem que a carne de peixe é excelente alimento, mas é a tecnologia que fez surgir, há milhares de anos atrás, o anzol para fisgar o peixe. Após a queda, nossos primeiros pais perceberam que estavam nus. Então, o instinto inventivo tecnológico entrou em cena e eles fabricaram suas primeiras vestes: “coseram folhas de figueira” (Gn 3.7). Desde então, quantas invenções tecnológicas aconteceram, tais como: ferramentas de pedra, domínio do fogo, construção de abrigos, armas e talhas e lâminas de pedra, arco e flecha, corda trançada, lampião a óleo, utilização do metal, calçado, tecido, mapa, carpintaria, canoa, barco a vela, roda com eixo, carro etc etc. E, agora, depois de tantas invenções tecnológicas, vivemos num mundo dominado pela tecnologia. O mesmo Jack Challoner acrescenta, num tom de êxito, mas, também, de preocupação: “As invenções tiveram um papel crucial na história da humanidade, nos transformando de caçadores-coletores primitivos em uma espécie sofisticada, estável e autossuficiente. O mundo atual conta com inúmeras tecnologias de vários calibres que enriquecem nossa vida. Entretanto, nem todas as invenções foram para o bem; algumas causam males, de forma intencional ou não. E há o persuasivo argumento de que o processo tecnológico em si poderia ameaçar nossa sobrevivência por causa do irrestrito crescimento da população e do desequilíbrio natural do planeta.”

Neste estudo consideraremos alguns aspectos envolvendo a tecnologia e suas implicações na vida do cristão e da igreja.

Desenvolvimento:

1. A QUESTÃO DO VIRTUAL E DO REAL

O termo “virtual” vem do latim medieval virtuale ou virtualis, cujo radical virtus foi mantido e significa: virtude, força ou potência. De um modo geral, virtual é algo existente como possibilidade, porém, sem efeito real; tem a virtude de produzir um efeito, apesar de não o produzir verdadeiramente. O virtual, mesmo não sendo o real, tem a força e o poder de afetar a mente. E, em termos psicossomáticos, o imaginário subjetivo pode afetar diretamente o corpo.

Com o avanço tecnológico nas áreas de telecomunicações e computação, e o advento das redes de computadores e internet, na década de 1980, a utilização da palavra virtual ficou fortemente associada à simulação, com o sentido de “fisicamente não existente, mas simulado por software”. Cada vez mais, a realidade que está sendo vivenciada em qualquer ambiente, está sendo gravada e disponibilizada na internet ou em outros meios, ou está sendo transmitida ao vivo, para quem estiver online. Como se isso fora pouco, cada vez se tornam mais populares dois outros inventos:

a) Realidade Virtual (RV): É uma tecnologia de interface avançada entre um usuário e um sistema operacional. O objetivo dessa tecnologia é recriar ao máximo a sensação de realidade para um indivíduo, levando-o a adotar essa interação como uma de suas realidades temporais. Assim, com os óculos de Realidade Virtual (VR – virtual reality), você vai se sentir dentro da cena do vídeo, o que provoca reações incríveis no cérebro, e, ainda, o não desejado efeito colateral de sensação de náusea (enjoo e tontura).

b) Realidade Aumentada (RA): É uma tecnologia que permite que o mundo virtual seja misturado ao real, possibilitando maior interação e abrindo uma nova dimensão na maneira como nós executamos tarefas, ou mesmo as que nós incumbimos às máquinas. Na Realidade Aumentada você pulará para dentro do mundo virtual para interagir com objetos que só estão limitados à sua imaginação.

2. IGREJA E TECNOLOGIA

A tecnologia e o avanço tecnológico afetam e impactam direta e cotidianamente a vida das pessoas e das igrejas. De um modo geral, os inventos tecnológicos sempre serão vistos como oportunidade de melhoria de alguma coisa, bem como, ameaça de produzir algum efeito negativo. Uma panela de pressão é ótima para cozinhar o feijão, mas, eventualmente, pode explodir, se não for bem fabricada ou bem manuseada. Inventos tecnológicos com potencial de influenciar usos e costumes são vistos com muita desconfiança e preocupação por certa parcela da população evangélica.

2.1 O impacto das grandes invenções tecnológicas

a) A Imprensa

Quando em 1450 dC Johannes Gutenberg inventou a Máquina de Impressão com tipos móveis de liga metálica, e a Bíblia passou a ser impressa e disponibilizada para mais pessoas, certamente que os reformadores ficaram em estado de graça. Entretanto, quando começaram a ser publicados outros livros, religiosos ou não, com conteúdo contrário ao ensino bíblico, dá para imaginar a preocupação e desconforto de muitos cristãos, com o receio da corrupção dos valores cristãos.

b) A Televisão

Em 1949 já havia 10 milhões de aparelhos de TV preto e branco nos Estados Unidos. Alguns anos depois, com a chegada da TV no Brasil, a reação de alguns evangélicos ou, até mesmo, de determinadas denominações evangélicas, foi de repulsa. A TV foi taxada, por estes, como um instrumento de Satanás dentro da casa. A explicação é a de que os telespectadores cristãos seriam corrompidos por conteúdo impróprio ou contrário ao ensinamento bíblico. Até hoje, há uma grande discussão quanto à questão das novelas e determinados programas: a TV imita a vida ou a vida imita a TV? Não sejamos ingênuos; Satanás não deixaria de usar pessoas e programações, para influenciar sutilmente pessoas e famílias, afastando-os dos valores e princípios cristãos.

c) A internet, o Computador Pessoal, o Smartphone e as Redes Sociais

A partir da década de 1980, o foco de atenção e preocupação de muitos cristãos se volta para esses novos inventos. A facilidade de acesso a conteúdos com potencial de corromper princípios e valores cristãos, de afetar usos e costumes é o grande motivo de desconfiança e desconforto.

Analisando os efeitos e impacto das grandes invenções tecnológicas, pode-se afirmar:

i) Como já foi expresso logo no início, sempre haverá resultados positivos e negativos como consequência do avanço tecnológico.

ii) É preciso ter em mente que, a tecnologia, em si mesma, não é boa nem ruim para o caráter dos crentes ou das pessoas. A forma como ela é usada sim, pode produzir consequências benéficas ou danosas.

iii) Considerando o seu uso, é preciso ter sempre respeito e paciência com aqueles irmãos que são mais conservadores, não aceitam ou demoram a aceitar as inovações tecnológicas, com medo de possíveis danos no caráter dos crentes mais fracos na fé.

iv) É preciso ter em mente que não é possível deter o avanço tecnológico.

v) Considerando que é necessário conviver com as tecnologias, devemos concentrar nossos esforços no sentido de tirar o melhor proveito delas. Isso tem tudo a ver com a produção e disponibilização, em escala crescente, de conteúdo saudável, capaz de facilitar a vida, edificar os crentes e evangelizar os perdidos.

vi) Considerando que os maus conteúdos sempre existirão, seja qual for a tecnologia considerada, revistas, livros, CDs, DVDs, Rádio, TV, Computador, Internet, Smartphone etc, cabe à liderança (eclesiástica ou familiar) manter orientação segura e permanente, e a todos nós, crentes em Cristo, vigiar e orar para não nos deixarmos contaminar com certas coisas deste mundo ímpio.

3. CULTO E TECNOLOGIA

3.1 O uso da tecnologia no local do culto

Se a humanidade como um todo se beneficia da tecnologia, a igreja não é uma exceção. Um templo bem construído e com boas instalações hidráulicas, elétricas e de refrigeração, é apenas o começo. Banco de igreja confortável também é fruto da tecnologia. Um bom sistema de sonorização é essencial para que todos ouçam a pregação da Palavra. E os instrumentos musicais são tecnologias que vêm sendo criados e aperfeiçoados desde a antiguidade. O instrumento musical em si mesmo, também não é, nem sacro, nem profano. Entretanto, como os hinos cantados são em adoração e louvor a Deus, sempre haverá instrumentos que combinam melhor com o repertório sacro. Hinos e Cânticos espirituais são constituídos de Letra e Música. A Letra deve exaltar a Deus e ser coerente com o ensino bíblico. A Música é composta de Melodia, Harmonia e Ritmo. Dizem que “a Melodia é para o espírito, a Harmonia é para a alma e o Ritmo é para o corpo. A música sacra litúrgica que agrada a Deus é eminentemente melódica, secundariamente harmônica e o ritmo nela só existe, exclusivamente o necessário, para ordená-la e dar-lhe sequência e pausa”. É claro que a cultura de cada povo tem tudo a ver com essa questão.

Considerando a diversidade que é a comunidade dos santos – a igreja de Jesus Cristo – é preciso ter em mente, quando construímos e equipamos um templo, ou quando nos reunimos nele para adorar ao Senhor, que não há espaço para a ditadura do gosto pessoal.

3.2 Culto virtual

O avanço tecnológico tem ocasionado determinados debates na igreja que não existiam até o Século 19. É o caso do debate sobre o Culto à distância, ou o Culto virtual. Com o advento da Radiodifusão e a transmissão de Cultos pelo Rádio, começou a discussão se tal iniciativa não afastaria os crentes das igrejas. Com o surgimento da TV a discussão continuou. Atualmente, com a facilidade e custo reduzido da transmissão dos cultos pela Internet, a discussão ficou ainda mais acirrada. Será que essa iniciativa, de muitas igrejas, está mesmo afastando os crentes dos cultos? Alguns acham que sim, outros acham que não, e o debate não tem prazo para acabar. Entretanto, o que temos de concreto mesmo é que algumas pessoas idosas ou enfermas, impossibilitadas de se locomoverem até ao templo, estão tendo a bênção de acompanhar a liturgia do culto, de casa ou até mesmo de um quarto de hospital. O mesmo pode ser dito de membros da igreja que estão viajando; ali onde estão, podem acompanhar os cultos da sua igreja. E aquelas pessoas que, porventura, estejam morando em uma cidade que não tenha sequer uma igreja evangélica, também podem fazê-lo agora, gratuitamente.

3.3 A importância do Culto presencial

A ideia e iniciativa de um local de Culto e Adoração partiu do próprio Deus: “E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles.” (Êx 25.8). E, Davi, expressando o sentimento do povo de Israel, diz assim: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do SENHOR.” (Sl 122.1, ver também Sl 22.22; 26.12). Jesus nos convida a congregar e confirma sua presença, dizendo: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.” (Mt 18.20). O autor de Hebreus ressalta a importância de nos estimularmos, uns aos outros, a nos congregarmos: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hb 10.25)

Não há nada que possa substituir o Culto real e presencial. Nem mesmo o avanço e popularização da Realidade Virtual ou Realidade Aumentada, dando a sensação de que você está dentro do ambiente de culto. Nada substitui o calor humano do contato pessoal. É como diz o cântico:

Como é precioso irmão
Estar bem junto a ti
E Juntos lado a lado
Andarmos com Jesus
E expressarmos o amor
Que um dia Ele nos deu
Pelo sangue no calvário
Sua vida trouxe a nós.

Conclusão:

Desde o início da sua existência, o ser humano passou a ser alvo de apelos e chamamentos: bons, não tão bons e maus. Jesus, antes de iniciar o seu ministério, recebeu várias propostas de Satanás, mas fez sempre a escolha certa. A vida é repleta de opções e as escolhas que fazemos determinam nosso presente e futuro. Educar filhos, ou orientar os membros de uma igreja, não se faz blindando-os das más propostas, dos maus apelos, dos maus conteúdos. Antes, porém, é necessário investir para forjar neles princípios e valores que os permitam resistir às más propostas, fazendo, por si próprios as decisões certas (1Ts 5.21-22).

Não há como impedir os avanços tecnológicos. A Bíblia, o Hinário, e tantos outros aplicativos estão ou estarão no aparelho celular (smartphone). Em vez de combater, vamos sim, fazer o melhor uso da tecnologia; administrar bem o seu uso. Precisamos adotar uma postura de protagonista das boas práticas, a favor do bem e do Reino, para não nos tornarmos meros figurantes ou plateia, consumindo os maus conteúdos propostos pelos ímpios de qualquer tempo. Por exemplo, um simples estudo, guardado numa pasta, não produz qualquer efeito, porém, quando publicado hoje, num site ou blog, pode ser acessado e lido por milhares de pessoas, no mundo inteiro, edificando vidas.

Os avanços tecnológicos vieram para ficar e mudar o status quo. Não há como deter a circulação da informação, seja ela fato ou fake. As redes sociais, os grupos de relacionamento estão por aí desempenhando este papel. Decisões de Concílios Superiores circulam imediatamente. Infelizmente, alguns chamados crentes, se utilizam de espaços virtuais públicos para externarem suas críticas à igreja ou à sua liderança. O desafio é grande, de saber lidar com tudo isso, de forma adequada. Que o Senhor nos dê sabedoria.

Finalmente, há outras questões sérias, que surgiram como consequência desse avanço tecnológico, que, de tão relevantes e complexas, mereceriam um estudo à parte: Dependência Virtual e Isolamento Virtual. Países com muita tecnologia, como o Japão, estão enfrentando problemas graves nesse sentido. Já há lá empreendimentos sendo desenvolvidos para proporcionar algum tipo de convivência entre pessoas que se isolaram no seu mundinho virtual e tratamentos para curar a dependência tecnológica. Vamos nos mobilizar para estar em comunhão real com Deus e com os irmãos, para não nos sentirmos sozinhos na multidão.

Limpos no meio da lama

Apocalipse 22.10-11; Efésios 5.1-17

Introdução:

Viver com integridade, diante de Deus e dos homens, é um desafio que acompanha o ser humano desde a sua criação. Será que, nos dias atuais, está mais difícil vencer este desafio? Uns acham que sim, outros acham que não e, cada um tem as suas razões para fundamentar o seu ponto de vista. No Salmo 15, Davi descreve, em termos muito práticos, o perfil ou características do cidadão dos céus: “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade; o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho; o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR; o que jura com dano próprio e não se retrata; o que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.” O nível de exigência é muito elevado; quem poderá atende-lo, sem vacilar? Ainda bem, que não é por nossos méritos que alcançamos a salvação eterna, mas, mediante a retidão e redenção que há em Cristo Jesus, nosso Salvador!

A lama mais comum é o resultado da mistura de terra com água. Quem vive andando ou transitando sobre o asfalto, já não se dá conta do quão desagradável e complicado é fazê-lo em ruas enlameadas. Para o salmista Davi, o livramento do Senhor é poeticamente descrito assim: “Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos.” (Sl 40.2). O crente autêntico e consciente tem a mesma sensação de ter sido tirado do lamaçal que é uma vida sem Deus e sem Jesus, a rocha da nossa salvação.  Dali ele jamais sairá. Somente aqueles que nunca foram de Deus retornam e têm prazer em viver na lama (2Pe 2.20-22).

Neste estudo vamos considerar a importância de um viver limpo, no meio de uma geração suja e perversa (Is 57.20), com a indispensável ajuda do Senhor: “O SENHOR firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o SENHOR o segura pela mão.” (Sl 37.23-24).

Desenvolvimento:

1. O INJUSTO, CONTINUE NA PRÁTICA DA INJUSTIÇA

“Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo;” (Ap 22.11a)

O leitor apressado e superficial, quando se depara com um texto como este, no último capítulo da Bíblia, pode até ficar um tanto quanto desconfortável ou, até mesmo, perplexo. Não há no texto bíblico qualquer incentivo ao injusto, quanto a este continuar no seu caminho mau. Porém, se é isso que ele quer fazer, que o faça, sem deixar de considerar as consequências dos seus atos. Não há aqui qualquer contradição bíblica e há de permanecer, até o último dia, a vontade de Deus para o pecador: “Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.” (Is 55.7)

Esse texto de Apocalipse foi escrito na perspectiva da consumação dos séculos e dos juízos que antecedem a volta de Cristo. Não há como negar que esse dia está muito próximo. Não é difícil perceber que o contexto de apostasia e impiedade em que vivemos é bem característico dos tempos que precederam os grandes juízos de Deus, no passado. Então, vejamos os seguintes julgamentos registrados na Bíblia e como se vivia, nessas épocas:

1.1 As circunstâncias do juízo do Dilúvio
       (maldade generalizada e desenfreada)

“Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração; (Gn 6.5). A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência.” (Gn 6.11). A descrição da conduta humana naquele tempo é impressionante. Nos transmite a ideia de maldade desenfreada, de proporções globais; uma pandemia incontrolável. Uma espécie de metástase social que dizimava qualquer senso de piedade e moralidade de uma civilização com cerca de 1656 anos (3975–2319aC). A solução divina foi destruir a todos (Gn 6.7), pelo Dilúvio, preservando, apenas, uma família, cujo cabeça e líder, Noé, foi descrito como “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.” (Gn 6.9). Então, a partir desta família, a terra foi repovoada. E, Jesus, emite o alerta profético: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem.” (Mt 24.37). Quando contemplamos o que acontece, dentro e fora da nossa nação, a sensação que temos também é de maldade generalizada e desenfreada; fora de controle.

1.2 As circunstâncias do juízo da Torre de Babel
(culto ao homem – antropocentrismo)

“Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer.” (Gn 11.5-6). Havia transcorrido cerca de 175 anos (2319–2144 aC), desde o Dilúvio, e a nova civilização humana já estava outra vez corrompida. Deixando de tributar toda a glória e honra devidas a Deus, deslocaram o seu foco para as realizações humanas (Gn 11.4). A confusão da linguagem e dispersão das pessoas foi o remédio aplicado por Deus para conter o avanço dos maus intentos humanos. Podemos dizer que estamos vivendo o tempo da reversão do fenômeno da Torre de Babel. Os meios de transportes, a tecnologia de comunicação e de informação, e o idioma inglês universal, aproximou os seres humanos de forma surpreendente. Cumpriu-se a profecia de Daniel – a ciência se multiplicou (Dn 12.4). A grande questão agora é a mesma daquela época: “Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer.”. O que temos visto, então, na civilização atual, é Deus colocado de lado, a Bíblia sendo considerada um livro antiquado e ultrapassado, e o ser humano sendo cultuado pelos seus grandes feitos.

1.3 As circunstâncias do juízo sobre Sodoma e Gomorra
(depravação sexual, soberba, arrogância, descaso e prostituição)

“Disse mais o SENHOR: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito.” (Gn 18.20). O texto deixa claro que os graves pecados dos seres humanos chegam aos céus, em forma de clamor por justiça, exigindo o juízo divino (ver Gn 4.10). Se houvesse ali dez justos, as cidades teriam sido poupadas (Gn 18.32). No registro bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 18 e 19), não se explicita quais eram os graves pecados deles. Com exceção do episódio em que os homens de Sodoma, rejeitaram as filhas virgens de Ló e preferiram abusar dos dois anjos por ele hospedados (Gn 19.4-9). E esse abuso se traduz em violência e depravação sexual. A palavra sodomia tem origem neste acontecimento e o apóstolo Paulo usa o termo “sodomita” referindo-se à homossexualidade (1Tm 1.10). Foi o profeta Ezequiel quem descreveu a iniquidade de Sodoma: soberba, descaso com o necessitado, arrogância e práticas abomináveis (Ez 16.49-50); e, Judas registra que havia ali prostituição (Jd 1.7). A homossexualidade é considerada uma abominação (Lv 18.22).

2. O JUSTO, CONTINUE NA PRÁTICA DA JUSTIÇA

“o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se.” (Ap 22.11b)

Por que temer a Deus e perseverar no bom caminho da justiça e da santificação?

2.1 Porque há um Deus que tudo vê

“Os olhos de Deus estão sobre os caminhos do homem e veem todos os seus passos. Não há trevas nem sombra assaz profunda, onde se escondam os que praticam a iniquidade.” (Jó 34.21-22). Ainda que a maldade humana se alastre por toda a terra e a impunidade reine em muitas sociedades, há um Deus que tudo vê, ao qual todos haverão de prestar contas. Nos três juízos divinos acima mencionados, fica claro que nada escapa aos olhos de Deus; que ele ouve o clamor da perversidade humana.

2.2 Porque há um Deus que tudo julga

Em tempos remotos, Jó, no meio do seu sofrimento, olha para a sua integridade e se sente injustamente castigado pelo Altíssimo. Ele, também olha ao seu redor e vê a perversidade dos ímpios e estes aparentemente impunes; se condói com o sofrimento dos pobres e injustiçados, sem que haja quem os socorra. Então faz um desabafo: “Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento? E por que os que o conhecem não veem tais dias?” (Jó 24.1). A história responde a esse questionamento de Jó. São muitos os julgamentos de Deus:

a) Os julgamentos importantes relatados no Antigo Testamento, são: do Dilúvio, da Torre de Babel, de Sodoma e Gomorra, de Faraó e dos egípcios, de Israel no deserto, de Israel no exílio, de várias pessoas, reis e nações.

b) Outros julgamentos, citados no Novo Testamento, são:

– Autojulgamento, pelo qual o crente melhora suas relações tanto com Deus, como com os homens (1Co 11.31)

– Julgamento no seio da igreja, mediante a disciplina de crentes que laboram em erro (1Co 5.1-5; Mt 18.15-17);

– Julgamento das obras dos crentes (Rm 14.10; 1Co 3.11-15; 2Co 5.9-10);

– Julgamento futuro de Israel (Ez 20.33-44; Rm 11.15, 25-29; Ap 7.1-8; ver Sl 50.1-7).

– Julgamento das nações (Mt 25.31-46);

– Julgamento de Satanás (Ap 20.10);

– Julgamento dos anjos que caíram (Jd 1.6; 1Co 6.3; 2Pe 2.4);

– Julgamento dos ímpios, também chamado de Julgamento do Grande Trono Branco (Jo 5.29; Ap 11.18; 20.11-15).

2.3 Porque a intensidade da luz recebida determina o nível de rigor do julgamento divino

Sodoma e Gomorra se tornaram símbolo e referência, de pecado e juízo, na boca dos profetas: Isaías – Is 1.9-10; Jeremias – Jr 23.14; Lm 4.6; Ezequiel – Ez 16.46-48; Amós – Am 4.11; Sofonias – Sf 2.9. No Novo Testamento, isso também não passa em branco para Jesus (Lc 17.29), Paulo (Rm 9.29), Pedro (2Pe 2.6), Judas (Jd 1.7) e João (Ap 11.8). Entretanto, Jesus fez uma declaração surpreendente: “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo.” (Mt 11.23-24). Jesus mostrou que, nem mesmo Sodoma e Gomorra, mereciam julgamento tão severo, como aqueles que rejeitam o Messias, o seu Reino e os seus discípulos. O ensino de Jesus, neste ponto, inclui ideias de que a rejeição da luz, quanto mais brilhante ela for, trará julgamento mais severo; e que, quanto maior for a luz recebida, maior será a responsabilidade do indivíduo. Sodoma contou apenas com o fraco testemunho de Ló. Mas, as cidades da Galileia, gozaram do testemunho dado pelo próprio Messias. Provavelmente os pecados dos habitantes de Sodoma e Gomorra eram mais graves e numerosos do que os dos habitantes da Galileia. Mas o julgamento dos habitantes da Galileia seria mais severo, em face de terem ouvido a mensagem mais ampla do mensageiro divino. É possível que, nesses ensinos, Jesus tenha incluído a ideia de Julgamentos terrestres, isto é, tipos de juízo como os que foram sofridos por Sodoma e Gomorra, e não somente um juízo vindouro. Alguns intérpretes acham só este último sentido no texto, mas a verdade é que Jesus pode ter indicado mais do que isto.

2.4 Porque precisamos ter uma conduta diferenciada

O texto de Efésios 5.1-17 é autoexplicativo e nos instrui, de forma muito prática, como deve ser o nosso proceder diante do mundo caído e atolado no lamaçal do pecado.

Conclusão:

É preciso ter plena consciência de que estamos, a cada dia que passa, mais próximos da Segunda Vinda de Cristo. É preciso ter plena consciência de que o mundo vai de mal a pior (2Tm 3.13) e que as circunstâncias se tornam cada vez mais parecidas com aquelas que antecederam aqueles três grandes juízos de Deus, no passado, acima mencionados. É preciso ter plena consciência de que toda a perversidade humana, multiplicada nesses últimos tempos, não ficará impune. É preciso ter plena consciência de que, nesses dias difíceis, nos quais vivemos, muitos serão influenciados e levados pela multidão dos que desprezam a Deus, a sua Palavra, a família nos moldes por ele instituída e a sua igreja; mas haverá um remanescente que se conservará fiel ao Senhor.

Tendo plena consciência de tudo isso, vamos nos manter firmes no Senhor, nas suas promessas, alicerçados na sua Palavra, com foco na missão e nas boas práticas, sem perder tempo com questões de menor importância, unidos como igreja para resistirmos no dia mau, enquanto aguardamos a gloriosa manifestação do Senhor Jesus. Amém!

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