
Introdução
Nos últimos anos, o termo misoginia tornou-se um dos conceitos mais debatidos no cenário social, político, jurídico e cultural. Originalmente tinha um conceito e significado que foi ampliado. Essa ampliação fez com que a palavra deixasse de ser empregada apenas para identificar casos evidentes de hostilidade feminina, tornando-se também um elemento central nos debates sobre família, educação, religião, política, linguagem, relações de trabalho e direitos civis. Como consequência, surgiram intensas controvérsias quanto aos limites do conceito. Assim sendo, consideramos importante e oportuno refletir sobre este assunto.
1. Conceito de misoginia
O conceito mais aceito atualmente, tanto em dicionários quanto em estudos acadêmicos, é que misoginia é o desprezo, aversão, hostilidade ou preconceito contra mulheres por serem mulheres.
Por exemplo:
⊳ A Encyclopaedia Britannica define misoginia como ódio, aversão ou preconceito contra mulheres.
⊳ Em estudos contemporâneos, o termo costuma ser ampliado para incluir comportamentos, discursos ou estruturas sociais que desvalorizam, humilham, discriminam ou subordinam mulheres em razão do sexo feminino.
Entretanto, há uma distinção importante que costuma gerar debates:
Misoginia ≠ Patriarcado ≠ Complementarismo
Esses conceitos não são sinônimos; têm significados distintos, a saber:
Misoginia
⊳ Pressupõe hostilidade, desprezo ou preconceito contra mulheres.
Exemplo: afirmar que mulheres são intelectualmente inferiores por natureza ou que merecem menos dignidade que homens.
Patriarcado[1]
⊳ Refere-se a uma estrutura social em que os homens ocupam predominantemente posições de autoridade e liderança – política, econômica, religiosa e familiar.
⊳ A palavra patriarcado tem origem no grego antigo e, originalmente, não possuía o significado sociológico ou político que muitas vezes recebe hoje.
⊳ Uma sociedade patriarcal pode ou não ser considerada misógina, dependendo da definição adotada.
Complementarismo
⊳ Visão teológica segundo a qual homens e mulheres possuem igual valor diante de Deus, mas exercem funções diferentes na família e na igreja.
⊳ Seus defensores argumentam que não há misoginia porque a dignidade é igual.
⊳ Seus críticos argumentam que qualquer sistema de autoridade exclusivamente masculina produz desigualdade prática.
É justamente nesse ponto que ocorre grande parte da controvérsia moderna.
2. Origem e popularização do termo misoginia
Quando surgiu o termo misoginia? Isso tem a ver com o movimento feminista?
O termo misoginia surgiu muito antes do movimento feminista organizado que iniciou no final do século XIX (1848).
A palavra vem do grego antigo:
- misos (μῖσος) = ódio
- gynē (γυνή) = mulher
Literalmente, significa “ódio às mulheres” ou “aversão às mulheres”. (Dicionário de Etimologia Online)
Quando a palavra surgiu?
A palavra já existia na antiguidade grega em formas derivadas, mas entrou no inglês e em outras línguas modernas, por volta do século XVII (anos 1600). Registros apontam o uso de “misogynist” no início do século XVII e de “misogyny” por volta de 1650–1656. (Dicionário de Etimologia Online)
Portanto, ela surgiu cerca de 300 anos antes do feminismo organizado moderno.
Há alguma relação com o feminismo?
O que aconteceu foi que o feminismo, especialmente a chamada segunda onda feminista (décadas de 1960 e 1970), resgatou e popularizou o termo. Antes disso, a palavra era relativamente rara no uso comum. (Encyclopedia Britannica)
Foi nesse período que muitas feministas passaram a usar “misoginia” para descrever não apenas o ódio explícito às mulheres, mas também comportamentos, práticas e instituições que consideravam prejudiciais às mulheres. (Encyclopedia Britannica)
O significado mudou?
Sim, em certa medida. Historicamente, a definição era mais próxima de: “ódio às mulheres”. Hoje, em muitos ambientes acadêmicos, jornalísticos e políticos, o termo costuma ser usado de forma mais ampla: “ódio, aversão, desprezo ou preconceito contra mulheres”. Alguns autores feministas ampliam ainda mais o conceito para incluir estruturas sociais que produzam subordinação feminina, mesmo sem haver ódio explícito. (Encyclopedia Britannica)
3. As controvérsias atuais
Muitas controvérsias sobre Bíblia, família, papéis de homens e mulheres, liderança masculina, complementarismo e feminismo decorrem justamente do fato de que diferentes grupos usam definições diferentes de misoginia.
Por exemplo:
⊳ Se misoginia significa ódio ou desprezo às mulheres, muitas pessoas dirão que não é possível chamar a Bíblia de misógina, pois ela contém inúmeros exemplos de honra, proteção e valorização das mulheres.
⊳ Se misoginia significa qualquer estrutura em que homens exerçam autoridade exclusiva sobre mulheres, então muitos críticos considerarão patriarcais e misóginos diversos textos bíblicos.
Assim, uma parte considerável do debate contemporâneo não é apenas sobre os textos bíblicos, mas sobre qual definição de misoginia está sendo adotada.
Historicamente, porém, o significado original da palavra está muito mais próximo de hostilidade, aversão ou ódio às mulheres do que de uma simples diferença de funções ou papéis sociais. (Dicionário de Etimologia Online)
Por isso, afirmar que a Bíblia é patriarcal é uma observação histórica amplamente aceita. Já afirmar que ela é misógina depende de demonstrar não apenas liderança masculina, mas efetivo desprezo ou desvalorização das mulheres – algo muito mais debatido entre estudiosos.
Resumo dos conceitos:
| Conceito | Elemento central |
| Misoginia | Hostilidade, desprezo ou preconceito contra mulheres |
| Sexismo | Tratamento desigual baseado no sexo |
| Patriarcado | Predominância masculina na autoridade social |
| Complementarismo | Igual dignidade, papéis distintos |
| Igualitarismo | Igual dignidade e iguais funções/autoridade |
4. O patriarcado na bíblia e na história
Na Bíblia, o termo patriarca é usado para designar os grandes pais da nação de Israel, especialmente Abraão, Isaque e Jacó. No Novo Testamento, o termo também é aplicado a Davi (At 2.29) e aos doze filhos de Jacó (At 7.8-9). Ou seja, patriarca designava originalmente o ancestral ou chefe de uma família, tribo ou povo.
O substantivo patriarcado apareceu posteriormente para indicar:
– O governo ou autoridade de um patriarca.
– A dignidade ou jurisdição de um patriarca, especialmente na Igreja antiga (por exemplo, os patriarcados de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma). Nesse uso eclesiástico, “patriarcado” significa simplesmente o território ou a jurisdição de um patriarca.
Foi principalmente a partir do século XIX e, sobretudo, durante o século XX, que o termo ganhou um significado sociológico mais amplo. Hoje, em ciências sociais, costuma designar: um sistema social em que os homens detêm predominância nas posições de autoridade política, econômica, religiosa e familiar.
Em muitos estudos feministas, o conceito é ampliado para descrever um sistema estrutural de poder masculino que produziria desigualdades entre homens e mulheres.
Ainda que homens e mulheres desfrutem da mesma dignidade, do mesmo valor intrínseco e de igual capacidade intelectual, entendemos que eles não são idênticos. Existem diferenças entre ambos que são amplamente reconhecidas e comprovadas pela biologia e por diversas áreas do conhecimento científico. Essas distinções não implicam superioridade ou inferioridade de um em relação ao outro, mas revelam características próprias que contribuem para a complementaridade entre os sexos.
Há consenso sobre esse conceito?
Não. Existem pelo menos três formas principais de utilização da palavra “patriarcado”:
a) Sentido histórico
Uma sociedade organizada em torno da autoridade do pai ou do chefe da família.
Esse é o sentido normalmente empregado para descrever Israel, Roma, Grécia e praticamente todas as civilizações antigas, durante milênios.
b) Sentido antropológico
Um modelo de organização familiar baseado na descendência, herança e autoridade paternas.
Esse uso é descritivo e não implica, por si só, um juízo moral.
c) Sentido feminista contemporâneo
Um sistema estrutural de dominação masculina que perpetua privilégios dos homens e a subordinação das mulheres.
Esse é o sentido predominante em muitos estudos de gênero e debates políticos atuais.
Relação com a Bíblia
Quando se afirma que a Bíblia foi escrita em um contexto de sociedade patriarcal, geralmente está se reconhecendo um fato histórico: as famílias, tribos, genealogias, reinos e sacerdócios eram predominantemente organizados sob liderança masculina. A controvérsia começa quando se pergunta como interpretar esse fato. Há, pelo menos, três posições principais:
1ª) Alguns entendem que a Bíblia apenas descreve a estrutura patriarcal existente em seu contexto histórico.
2ª) Outros sustentam que Deus instituiu certos aspectos dessa liderança masculina, especialmente na família e na comunidade da aliança, sem implicar inferioridade da mulher.
3ª) Outros ainda argumentam que a Bíblia reflete e reforça uma cultura patriarcal que deveria ser reinterpretada ou superada à luz de princípios contemporâneos de igualdade.
Assim, é importante distinguir entre a origem etimológica de “patriarcado”, ligada ao governo ou liderança do pai, e o significado ideológico que a palavra adquiriu em parte do debate contemporâneo. Essa distinção evita que diferentes usos do termo sejam confundidos.
Particularmente defendemos a segunda posição, isto é, que Deus instituiu certos aspectos dessa liderança e autoridade masculina, especialmente na família e na comunidade da aliança, sem implicar inferioridade da mulher. Homens e mulheres, se completam, possuem igual valor diante de Deus, mas exercem papéis e funções diferentes na família e na igreja.
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5. Reflexão final
Nas últimas décadas, o termo misoginia passou por uma significativa ampliação conceitual no debate público. Originalmente empregado para designar o ódio, a aversão ou o desprezo às mulheres, hoje o vocábulo é frequentemente utilizado, em determinados contextos acadêmicos, políticos, jurídicos e midiáticos, para abranger também estruturas sociais, práticas culturais e discursos considerados promotores da desigualdade entre homens e mulheres. Essa ampliação tem gerado intenso debate, pois, para muitos, o conceito deixou de identificar apenas manifestações claras de hostilidade contra a mulher e passou a alcançar visões de mundo que simplesmente afirmam diferenças de funções, responsabilidades ou autoridade entre os sexos.
Esse novo cenário produz importantes implicações sociais e culturais. Em diversos países, posições fundamentadas em convicções religiosas ou filosóficas tradicionais passaram a ser alvo de forte contestação pública e, em alguns casos, de questionamentos jurídicos ou institucionais. Defensores da compreensão histórica da família e dos papéis masculinos e femininos argumentam que há uma crescente tendência de equiparar qualquer discordância em relação às modernas teorias de gênero ou aos modelos igualitaristas a manifestações de preconceito, discriminação ou misoginia. Como consequência, afirmam que o espaço para o diálogo tende a ser reduzido, substituído, por vezes, pela desqualificação moral de quem sustenta convicções diferentes.
No contexto cristão, essa discussão assume contornos ainda mais delicados. Diversos textos bíblicos apresentam distinções entre homem e mulher na família, na liderança espiritual e na organização da comunidade de fé. Ao longo de quase dois mil anos de história da Igreja, essas passagens foram interpretadas, em diferentes tradições cristãs, como ensinamentos normativos sobre responsabilidades complementares entre homens e mulheres, preservando a igualdade de dignidade diante de Deus, mas reconhecendo diferenças de funções em determinadas esferas da vida. Entretanto, críticos dessas interpretações sustentam que tais leituras perpetuam estruturas patriarcais incompatíveis com os valores contemporâneos de igualdade de gênero.
Diante disso, surge uma questão central: seria correto classificar automaticamente como misoginia toda compreensão que atribui papéis distintos a homens e mulheres? Ou seria necessário distinguir entre o verdadeiro desprezo ou hostilidade contra a mulher – que deve ser rejeitado em qualquer sociedade civilizada – e concepções religiosas ou filosóficas que, embora proponham funções diferentes para cada sexo, afirmam igualmente a dignidade, o valor e a imagem de Deus presentes em ambos?
Esse debate não envolve apenas questões semânticas. Trata-se de uma discussão sobre liberdade religiosa, liberdade de expressão, hermenêutica bíblica, direitos fundamentais e os limites entre o combate legítimo à discriminação e o respeito ao pluralismo de convicções. Compreender a origem, a evolução e os diferentes usos do conceito de misoginia é, portanto, essencial para que o diálogo seja conduzido com rigor intelectual, honestidade e respeito mútuo, evitando tanto a banalização do termo quanto a tolerância com atitudes verdadeiramente hostis ou violentas contra as mulheres.
Novo projeto de lei da misoginia
Até o momento, o PL 896/2023, aprovado pelo Senado e em tramitação na Câmara, busca tipificar a misoginia como crime de discriminação, definindo-a como conduta baseada no ódio ou aversão às mulheres e na crença da supremacia do gênero masculino.
As principais preocupações manifestadas por juristas, parlamentares, religiosos e comentaristas críticos da proposta podem ser resumidas assim:
⚠️ A possibilidade de discussões mais acaloradas entre um homem e uma mulher serem interpretadas como motivadas por misoginia, caso se conclua que houve discriminação em razão da condição feminina.
⚠️ O receio de que sermões, aulas ou publicações religiosas que defendam a liderança masculina no lar ou restrições ministeriais baseadas em determinados textos bíblicos venham a ser questionados, se forem entendidos como manifestação de preconceito contra mulheres.
⚠️ A preocupação de que opiniões favoráveis ao modelo complementarista de família e igreja sejam confundidas com afirmações de inferioridade feminina.
⚠️ O temor de que a ampliação do conceito de misoginia produza um efeito inibidor sobre a liberdade de expressão e a liberdade religiosa, levando pessoas e instituições a evitarem determinados temas por receio de investigações ou processos.
⚠️ Outra preocupação manifestada por alguns juristas e críticos da proposta diz respeito ao ambiente de trabalho. Argumenta-se que decisões legítimas de gestão – como uma avaliação de desempenho desfavorável, a aplicação de medidas disciplinares, a negativa de uma promoção ou até a demissão de uma empregada – poderiam dar origem a acusações de misoginia caso a trabalhadora alegasse que a decisão foi motivada por preconceito contra mulheres. Ainda que a mera alegação não seja suficiente para caracterizar o crime, os críticos sustentam que redações legais excessivamente amplas podem aumentar a judicialização dessas situações e gerar insegurança jurídica para empregadores.
Enfim, os tempos em que vivemos são difíceis e não se pode descartar a hipótese ou realidade de intenção de cerceamento e perseguição aos cristãos, por mais que os defensores do projeto expressem rejeitar essas interpretações e possibilidades.
Que Deus nos ajude!
[1] A palavra patriarcado deriva de dois termos gregos:
- πατήρ (patḗr) = pai.
- ἀρχή (archḗ) = princípio, origem, governo, autoridade, comando.
Assim, patriárquēs (πατριάρχης) significava literalmente: “chefe da família”, “pai de uma linhagem” ou “governante de uma família ou clã”.
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