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Culto Individual, Familiar e Comunitário

Introdução

Com a intenção de testar Jesus e coloca-lo em dificuldade, o intérprete da Lei pergunta: – Mestre, qual é o principal, o primeiro, de todos os mandamentos? Considerando a imensa quantidade de mandamentos, abrangendo tantas áreas e aspectos importantes, a tarefa de escolher um ou fazer um resumo de todos, parecia simplesmente impossível. Para os homens comuns, sim; mas para Jesus, não. De forma magnífica Jesus responde: “…O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mc 12.29-31).

Na nossa curta existência terrena precisamos levar muito a sério essas palavras de Jesus, priorizando-as acima de tantas outras que chegam até nós, ou seja:

  • Há um só Deus e Senhor, sobre tudo e sobre todos. Ele é o Deus criador e sustentador de toda a criação e deve ser distinguido e cultuado em espírito e em verdade.
  • Em decorrência desta primeira e sublime realidade, nossos pensamentos e ações precisam estar intimamente ligados a ele, distinguindo-o acima de tudo e de todos. Somente ele é digno de receber a maior manifestação do nosso amor, devoção e obediência.
  • E, complementando a síntese, Jesus nos ensina que, abaixo de Deus, o nosso próximo deve ser alvo de nosso amor, na mesma medida com que amamos a nós mesmos e, ainda mais, na medida que Cristo nos amou (Jo 13.34).

Então, de forma prática e efetiva, nossa vida precisa ser um contínuo culto a Deus, cuja liturgia se desenvolve através de atitudes e ações direcionadas diretamente a ele ou, indiretamente, quando amamos e servimos ao nosso próximo. É o que veremos a seguir:

1. CULTO INDIVIDUAL
(O Alicerce da vida cristã)

Assim como na biologia existem vários níveis hierárquicos de organização dos seres vivos, começando pelos átomos, depois moléculas e terminando no corpo vivo; de igual forma, a igreja, o corpo vivo de Cristo é constituída por indivíduos e famílias. Podemos afirmar que igreja saudável é uma igreja que agrada a Deus. Para uma igreja ser saudável, os indivíduos e famílias que a compõem também precisam ser espiritualmente saudáveis. Igreja também é comparada a um edifício. Um edifício sólido e estável é aquele edificado sobre a rocha, que é Cristo, o alicerce sólido sobre o qual as pedras vivas (os crentes) são colocadas (Ef 2.19-22; Cl 2.6-7). Essas e outras figuras metafóricas expressam a estreita ligação entre Deus e sua igreja.

É na intimidade com Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo que a vida cristã se fundamenta e se desenvolve: “A intimidade do SENHOR é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.” (Sl 25.14); “porque o SENHOR abomina o perverso, mas aos retos trata com intimidade.” (Pv 3.32). Esse estreito relacionamento entre o crente e o Senhor é que produz crentes “Alegres na Esperança, Fortes na fé, Dedicados no Amor, Unidos no trabalho”, como diz o moto da UMP (União de Mocidade Presbiteriana).

É no Culto Individual que desenvolvemos esta intimidade com Deus. Temos belíssimos exemplos, na bíblia e na história, de servos de Deus que fizeram a diferença em seu tempo por conta de seu estreito relacionamento com Deus: Enoque andava com Deus (Gn 5.22-24); Moisés tratava com Deus face a face (Dt 34.10-12); Ana, na sua intimidade com o Senhor foi atendida (1Sm 1 e 2); Samuel, em tempos de apagão espiritual foi usado por Deus para a restauração espiritual do povo de Israel, pois o Senhor se manifestava a ele (1Sm 3.21). Davi, apesar de suas fraquezas era um homem segundo o coração de Deus (At 13.22). Os salmos de autoria de Davi são testemunhas da sua intimidade com Deus, onde ele expressa louvores, ações de graças, sua confiança em Deus, mas, também, suas perplexidades e clamor. E, o que dizer de Daniel? O registro bíblico já diz tudo: “Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer.” (Dn 6.10). Mesmo sob ameaça e correndo o risco de perder a sua vida, ele não alterou sua rotina cotidiana.

Jesus nos ensina que precisamos buscar um momento a sós com Deus: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mt 6.6). Além de orar, em hora apropriada e lugar sossegado, precisamos, primariamente, nos enriquecer com a leitura da bíblia[1], e, complementarmente com a leitura de bons textos devocionais, livros etc. O cântico de louvores é parte integrante e relevante do culto a Deus (Sl 34.1; Mt 26.30; At 16.25).   Finalmente, é bom deixar claro que o culto individual não fica restrito a um momento reservado e isolado. O servo de Deus deve cultuar a Deus em todo o tempo e em todo o lugar, com seus pensamentos, palavras, atitudes e ações.

2. CULTO FAMILIAR
(O Alicerce da família cristã)

Famílias cristãs espiritualmente fortalecidas são bênção para a igreja. Ao invés de drenar recursos e esforços da liderança, na solução de seus problemas, elas contribuem para ampliar os recursos a serem utilizados para alcançar os perdidos. Para que isso aconteça, os pais ou responsáveis precisam desempenhar o seu papel, ao invés de querer delegar ou terceirizar o que é seu dever. Isso deve ser feito com muita sabedoria, dedicação e oração, nunca por decreto ou por força ou por violência. Não é eficaz obrigar os filhos pequenos a participar de culto doméstico, ler a bíblia e ir à igreja. Conduzir não é obrigar! Antes de tudo é preciso viver uma vida cristã tão linda que contagie os outros membros da família a amar a Deus, obedecê-lo e fazer a sua vontade. É preciso respeitar sempre a individualidade de cada um e usar de sabedoria para conduzi-los.

Vejamos alguns aspectos importantes do culto doméstico ou familiar:

a) É mandato de Deus para os pais (Dt 6.6-9)

“Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.6-7).

É preciso ensinar, primeiramente com o exemplo pessoal, mas também com as palavras; repetindo quantas vezes for necessário e insistindo até a absorção e prática natural.

b) Proporciona a oportunidade de transmissão de valores para a formação de caráter (Gn 35.2; Js 24.15; Ml 2.6)

“Então, disse Jacó à sua família e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes;” (Gn 35.2)

“Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: …. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR. (Js 24.15)

“A verdadeira instrução esteve na sua boca, e a injustiça não se achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão e da iniquidade apartou a muitos.” (Ml 2.6)

O pai, e na sua ausência a mãe ou outro responsável, precisa exercer os papéis de profeta, sacerdote e pastor da sua família. Como profeta, ele recebe a palavra de Deus e a transmite para a sua família. Como sacerdote, ele zela pela pureza e santidade da sua família. Como pastor, ele guia e cuida da sua família.

c) Tem a promessa de resultado duradouro (Pv 22.6)

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv 22.6)

Para que o resultado seja alcançado é preciso observar cuidadosamente o início do texto: “ensina a criança”. É a partir da mais tenra idade que o processo deve começar. A criança é uma verdadeira esponja, absorvendo tudo o que ouve e vê na sua família. Inicialmente ela reage por imitação; depois, por sua própria vontade e decisão. Vale ressaltar que o ensino se dá “no caminho”, isto é, durante a caminhada e convivência.

d) Tem a promessa de prolongamento da vida (Dt 6.2)

“para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados.” (Dt 6.2)

No período do AT, aquele que se desviava dos mandamentos divinos, sendo rebelde e transgressor, não vivia muito tempo, inclusive porque a tolerância divina era mínima para com os ímpios. Observando-se a história humana, não será difícil constatar que, de um modo geral, aquelas pessoas que foram bem cuidadas e orientadas quando crianças tiveram vida mais longa. E, essa constatação é muito mais evidente e tangível quando essa orientação familiar se dá a partir de princípios e valores cristãos.

d) Proporciona a oportunidade de um prazeroso convívio familiar.

Há muitos momentos de convívio familiar prazeroso. Família é bênção de Deus em nossas vidas! Entretanto, esse momento em que a família se reúne para cultuar a Deus é especialmente prazeroso. Apenas quem já o vivenciou pode testemunhar essa realidade. São momentos de deleite e edificação: na leitura e meditação na Palavra de Deus, no ouvir aquela oração simples e sincera da criança, no compartilhar as vivências do dia, no esclarecimento de dúvidas. São momentos de plantar memórias que servirão de esteio para os filhos para o resto de suas vidas. São momentos temporários, mas com desdobramentos eternos.

e) Deve ser feito com criatividade e de forma lúdica.

Há que usar de sabedoria e criatividade para tornar esse momento tão atrativo que a criança fique na expectativa de chegar a hora do próximo “cultinho”. Os pais não precisam ser teólogos ou professores para conduzir esse momento. Basta buscarem um conhecimento básico daquilo que será ensinado e compartilhado. Certamente o conteúdo bíblico será a base. Além da Bíblia, as livrarias evangélicas (físicas ou virtuais) oferecem inúmeros materiais ou recursos de apoio para serem utilizados no culto familiar ou doméstico (livros, cadernos, jogos, CDs, DVDs etc). Na internet podem ser encontradas muitas dicas sobre o assunto.

Finalmente, a pergunta que não quer calar é: por que o culto familiar é tão negligenciado, se há pleno conhecimento, tanto da sua importância, quanto do estrago causado quando não é praticado? A influência dos pais sobre os filhos pode ser impactante e duradoura, como aquela de Jonadabe, filho de Recabe, usada por Deus como exemplo de obediência (Jr 35.1-19). Por que não aproveitar esse momento para exercer influência benéfica sobre a família?

3. CULTO COMUNITÁRIO
(O Alicerce da igreja cristã)

Longe de ser uma rotina dominical ou uma obrigação religiosa, o culto comunitário deve ser algo muito esperado e desejado por todos (2Cr 20.13), algo que gera alegria e júbilo (Ne 12.43), algo a ser preservado (At 2.42; Hb 10.25). Qualquer que seja a forma de culto – individual, familiar ou comunitário – o culto bíblico deve ser norteado por alguns princípios.

Vejamos alguns aspectos importantes do culto comunitário:

a) Princípio da destinação

“….Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4.10)

O culto bíblico é oferecido única e exclusivamente a Deus, portanto, é teocêntrico e não antropocêntrico.

b) Princípio da autoridade

“ Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo.” (1Co 11.3)

Considerando a presença de muitas pessoas no culto comunitário, há que se ter pessoas responsáveis pela liderança da programação. Não é razoável que cada um resolva fazer o que tiver vontade. A autoridade de gênero estabelecida por Deus não deve ser desprezada.

c) Princípio da comunhão

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.3)

Além da adoração a Deus, o culto deve promover a comunhão e unidade do corpo de Cristo, a igreja.

d) Princípio da decência e ordem

“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.” (1Co 14.40)

Deus merece o nosso melhor, tanto em termos de forma como de conteúdo.

e) Princípio da participação

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26)

Ainda que alguns atuem mais diretamente na liturgia do culto – orando, pregando, cantando no coral ou tocando um instrumento musical – não podemos nos comportar como meros espectadores ou, muito menos, como quem frequenta o culto apenas para avaliar e criticar. Somos parte integrante daquilo que está sendo realizado, associando nossas mentes e emoções.

f) Princípio da edificação

“Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua.” (1Co 14.19)

Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26b)

No culto se exalta a Deus e se promove o crescimento espiritual dos crentes, rumo à maturidade cristã.

g) Princípio da reverência

“Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá.” (Jo 2.17)

É preciso manifestar respeito profundo ao cultuarmos a Deus. Ele está presente para receber o culto que lhe oferecemos. Enquanto se desenvolve a programação litúrgica: onde estão os nossos pensamentos? Cantamos refletindo sobre a letra? Acompanhamos cada palavra da oração que está sendo feita? Prestamos atenção na mensagem? Ou: conversamos com quem está perto a qualquer tempo, nos distraímos com a criança que está à nossa frente, consultamos o celular a todo instante.

h) Princípio do amor

“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais,…” (1Co 14.1)

Quando o amor a Deus e ao próximo se torna a base de tudo em nossas vidas, inclusive a base do culto que prestamos a Deus, tudo flui melhor. Ainda que as nossas imperfeições pessoais sejam fatores de limitação na realização do culto comunitário, esse amor vem preencher as lacunas (1Pe 4.8).

Conclusão:

Esclarecidos a respeito dessas três formas de culto (individual, familiar e comunitária), quanto ao que consiste e quanto à sua importância, resta a todos nós o desafio permanente de praticá-las e incentivar outros a fazerem o mesmo.


[1] Sugerimos o uso do Plano de Leitura Bíblica em 2 anos disponibilizado neste blog:
https://pauloraposocorreia.com.br/category/leitura-biblica/portugues/

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A espiritualidade no culto do NT

Introdução          

Neste estudo, abordaremos a espiritualidade no culto do Novo Testamento (NT), no período que precede o nascimento da igreja e, principalmente, no período da igreja.

É relevante lembrar aqui alguns aspectos relacionados ao culto. Adoração e culto são termos fortemente entrelaçados. A adoração é a essência do culto, porém o culto vai além da adoração. O culto envolve o(s) cultuador(es) e o(s) objeto(s) de culto (At 17.23). O culto bíblico é a resposta do povo de Deus, ao Deus único e verdadeiro que a ele se revela, através da Bíblia, tributando-lhe adoração, louvor, honra e glória por aquilo que ele é; louvando e agradecendo por aquilo que ele tem feito. Culto é mais do que um evento; é orgânico, é visceral, é vida com Deus que se expressa em todo o tempo e no lugar onde estivermos. Assim sendo, pode ser considerado como culto pessoal, familiar e público. A base deste culto não é a livre vontade e espontaneidade do cultuador, mas os termos estabelecidos por Deus naquela aliança que liga o Criador às criaturas. Assim, em cada uma das alianças de Deus com os homens, havia elementos específicos para o culto. Nessas alianças, Deus fazia promessas de bênçãos que eram condicionadas à obediência desses aos seus decretos.

No AT, a principal aliança, a Mosaica ou da Lei ou Antiga Aliança continha elementos para o culto a Deus, pelo povo de Israel, que serviram de referência para o culto na Nova Aliança, pela Igreja:

a) Um dia separado para o culto;
b) Um local para o ajuntamento;
c) Um sistema sacrificial e rituais de purificação etc.

Nosso objetivo, neste estudo, não é investigar a espiritualidade no NT, mas como ela se expressava e se desenvolvia no culto:

1. Antes do Ministério Público de Cristo

Pode-se dizer que a rebeldia do povo de Israel, na Antiga Aliança, chegou a níveis insuportáveis, acarretando o exílio e cativeiro; primeiramente do Reino do Norte e, depois, do Reino do Sul. Vale ressaltar que, no início, no meio e no final do AT encontramos recados explícitos de Deus aos cultuadores e ofertantes, a saber (dentre outros):

  • Tanto o ofertante, quanto a sua oferta precisam agradar a Deus (Abel e Caim – Gn 4.3-5).
  • Obedecer é melhor do que sacrificar (Samuel disse isso a Saul – 1Sm 15.22).
  • Deus não suporta iniquidade associada ao Culto (Is 1.10-15; Am 5.21-23).
  • O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento. (Pv 15.8).

Com a destruição do principal local de culto, o Templo de Jerusalém, e o exílio, o povo começou a cultuar nas sinagogas. O NT começa com o povo de Israel cultuando a Deus no Templo reconstruído por Zorobabel (516 aC) e remodelado por Herodes (1º Séc. dC), bem como nas Sinagogas, nas mesmas bases da Antiga Aliança (Lc 1.8-10; 2.22-23; 2.41-50).

2. Durante o Ministério Público de Cristo

Precedendo o ministério público de Jesus entra em cena João Batista, o precursor predito pelos profetas (Mc 1.2-3; Ml 3.1; Is 40.3). Que tipo de culto ele prestava a Deus? O que sabemos é que ele atuava fora das quatro paredes e extramuros, pregando e realizando o batismo de arrependimento, anunciando Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele começa a fazer a ponte entre a Antiga e a Nova Alianças.

A primeira menção a culto no NT saiu da boca de Jesus, no deserto da tentação (Mt 4.10).

“Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” (Lc 4.16)

Ele tinha o costume de frequentar o templo e as sinagogas (Lc 4.16; 4.31-37; 21.37-38; Mc 1.21-22; Mt 12.9) e, ainda, o Monte das Oliveiras (Lc 22.39).

Desde o início Jesus declarou que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas para cumprir (Mt 5.17). Ele começou a fazer uma releitura da Lei: “eu porém vos digo”. E, assim, deu continuidade à ponte entre a Antiga e a Nova Alianças. O seu campo de ação preferido eram as áreas externas, sempre cercado de multidões. Também se reunia em casas. Na sua conversa com a mulher samaritana, que estava tão confusa quanto a um lugar específico para adoração ou culto a Deus, ele esclarece que o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.19-24). Pode-se dizer que isso era uma verdadeira quebra de paradigma. Para Jesus, o templo de Jerusalém não tinha a relevância que os religiosos lhe davam (Mt 24.1-2).

Que informações temos de espiritualidade e culto neste período? O que Jesus leu na sinagoga sintetiza sua missão e forma de cultuar a Deus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18). Evangelizar, pregar, ensinar, curar e operar milagres era parte desse culto (Mc 1.32-34; 2.13; 4.1-2; Mc 9.35; Lc 5.17; 8.1). Ele também tinha o hábito de orar (Mc 1.35; Mt 14.23; 26.36; Lc 6.12; Jo 17.1-26) e cantar (Mt 26.30). Jesus também tinha o costume de participar das festas judaicas, principalmente da páscoa. Na sua última páscoa, instituiu a ceia memorial (Mc 14.22-25; Mt 26.26-29; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26) que haveria de ser observada pela igreja.

3. Na igreja do Novo Testamento (neotestamentária)

No período de “gestação da igreja”, o Senhor ressurreto diz aos seus discípulos: “…permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder.” (Lc 24.49b). Após a ascensão, Lucas registra: “e estavam sempre no templo, louvando a Deus.” (Lc 24.53). No Livro de Atos, este mesmo Lucas diz que eles subiram para o Cenáculo (salão construído em cima do andar térreo de uma casa) (At 1.13), lugar provável onde nasceu a igreja, no dia de Pentecostes (At 2.1).

Como o Templo de Jerusalém estava muito atrelado ao judaísmo, a igreja nascente se expande para além dele, na mesma linha de João Batista e de Jesus: “o campo é o mundo”, isto é, espaços ao ar livre (outdoor) (praças – At 17.17b; praia – At 21.5; junto ao rio – At 16.13) e em ambientes fechados (indoor)(Ainda no Templo – At 3.1; 5.25; 5.42; Cenáculos – At 20.8; Casas – At 2.46; 5.42; 20.20; Rm 16.5; Sinagogas – At 13.14; 14.1; 17.1-9; 17.10-15 etc).

3.1 O paralelo entre o culto no AT e no NT

Há três aspectos importantes a se considerar, quando se compara o culto nos AT e o culto no NT:

 a) O Templo (o lugar)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava um local e construção específicos (Dt 12.13-14), como o Tabernáculo e, depois, o Templo; na era da igreja ela se desloca para o santuário do corpo do salvo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16; ver tb 1Co 6.19). Isso significa que este deve prestar um culto contínuo a Deus, na liturgia da vida. Numa analogia bastante modesta, o culto no Antiga Aliança (AT) está para o telefone fixo, assim como o culto na Nova Aliança (NT) está para o telefone móvel. No primeiro caso era necessário ir ao “telefone fixo” (templo) para falar (cultuar); no segundo, o “telefone móvel” (corpo-templo) para falar (cultuar) vai conosco.

b) O Sacerdócio (o mediador)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a intermediação de um Sumo Sacerdote, da linhagem de Levi; na era da igreja ela se desloca para o nosso eterno Sumo Sacerdote – Jesus Cristo – um Sumo Sacerdote perfeito (santo, inculpável e sem mácula) (Hb 7.26-28). Nenhuma figura ou líder humano deve se atrever a tentar ocupar este lugar de mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), tanto no que diz respeito a salvação eterna, quanto no que diz respeito ao acesso a Deus; pois o Espírito Santo foi dado a todos os remidos do Senhor.

c) O Sacrifício (o sistema de expiação)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a utilização de um sistema de sacrifícios; na era da igreja o sacrifício de Jesus na cruz foi único, eficaz, perfeito e definitivo, para expiar o pecado e nos reconciliar com Deus (Hb 9). Os povos pagãos cultuavam seus deuses oferecendo-lhes seus filhos em sacrifício; mas o Deus único revela a todos os seres humanos que apenas o sacrifício do seu Filho Unigênito pode aplacar a sua ira e conceder-lhes eterna salvação (Rm 5.9; 1Ts 1.10). Nenhuma obra ou sacrifícios pessoais (penitências) são requeridos do cristão com vistas a aproximá-lo de Deus; mas espera-se que as suas obras e seu viver diário testemunhem a todos sua nova vida em Cristo.

3.2 Expressões da espiritualidade no culto, nas epístolas e Apocalipse:

a) Culto racional (Rm 12.1)

Na epístola aos romanos encontramos o seguinte apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm 12.1). Na graça devemos comparecer diante de Deus não com animais (para sacrifício e morte), mas com o nosso corpo ou ser, muito vivo e lhe dizer: “Eis-me aqui, envia-me, a mim” (Is 6.8); “usa-me, Senhor”. Templo sempre foi lugar de santidade e nós somos o templo do Espírito Santo, santuário de Deus que também precisa ser santo (1Co 3.16). Este culto racional é realizado para agradar a Deus. Para tanto, tem que ser em conformidade com as suas exigências.

b) Culto com ordem (1Co 14.26-40)

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26). A igreja de Corinto, tinha muitos problemas, que foram tratados pelo apóstolo Paulo. Ele também teve que orientá-la quanto à liturgia do culto, particularmente quanto ao uso dos dons espirituais (1Co 14.26-40). Também teve que orientá-la quanto à “Ceia do Senhor” (1Co 11.20-29). Tudo isso porque culto tem que ser prestado com ordem e visando a edificação.

c) Culto com conteúdo (Ef 5.19-21)

À igreja de Éfeso Paulo instrui: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais,” (Ef 5.19).

À igreja de Colossos Paulo recomenda: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16).

Na epístola de Tiago somos instruídos que, de certa forma, também cultuamos a Deus quando servimos ao nosso irmão, ao nosso próximo (Tg 2.14-26). Cultuar a Deus não pode ser algo teórico e abstrato, da boca pra fora; mas algo muito concreto que afeta a nossa vida a tal ponto que redunde na glorificação de Deus e bênção na vida dos que nos cercam.

No culto público, a essência precisa prevalecer sobre a forma, assim como a espiritualidade sobre a religiosidade. Portanto, na Nova Aliança, fazem parte do culto neotestamentário: a pregação da Palavra (At 20.7), a leitura das Escrituras (1Tm 4.13), a oração (1Tm 2.8), os cânticos de louvor (Ef 5.19) e as ofertas (1Co 16.1-2), além do Batismo (At 2.37-41) e da Ceia do Senhor (1Co 11.23-29) e o serviço cristão (Tg 2.14-26).

d) Culto dominical

No AT, os israelitas suspiravam pela chegada do dia de participarem das festividades em Jerusalém e irradiavam alegria enquanto peregrinavam rumo ao Templo (Sl 122.1). O ajuntamento do povo da cruz, para cultuar a Deus, deve ser motivo alegria. A igreja neotestamentária também se reunia no primeiro dia da semana, no domingo (At 20.7). O autor de Hebreus ressalta a importância de nos estimularmos, uns aos outros, a nos congregarmos: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hb 10.25)

e) Culto eterno

O Cordeiro de Deus que é cultuado e adorado pela igreja, na terra, no livro de Apocalipse é adorado eternamente (Ap 5.8-14; 15.2-4).

Conclusão:

Que Deus nos ajude a compreender essa espiritualidade no culto bíblico que deve nortear o culto na igreja de Cristo em qualquer época. Que tenhamos sempre em mente que culto não é show, beleza estética ou ritual para animar uma plateia; mas algo orientado por Deus e centrado em Deus, portanto, teocêntrico e cristocêntrico. Que compreendamos que culto é algo contínuo, pois quando termina a liturgia do templo, começa a liturgia da vida; sendo que a liturgia do templo só será aceita se tiver lastro numa consistente e santa liturgia da vida. Que, sejamos encontrados por Deus como aqueles que o adoram e o cultuam em espírito e verdade.

Família e Igreja


Relação entre a família humana e a família da fé

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus,….” (Mt 6.9)

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19)

“Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.” (Gl 6.10)

Introdução          

Família é algo tão singular que se manifesta originalmente, de forma misteriosa, na Trindade; se reproduz na esfera dos seres humanos; e, também se expressa, de forma mística, na instituição Igreja: “Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra,” (Ef 3.14-15).

No sentido humano, não é qualquer agrupamento de pessoas que caracteriza uma família tradicional ou consanguínea, nos moldes instituídos por Deus. Ela começa com uma união (casamento, aliança) heterossexual, pois sem o concurso de um homem e de uma mulher, como se daria a reprodução e consequente preservação da espécie humana?

A própria Constituição Federal, no seu Artigo 226, estabelece a família como base da sociedade:

“§3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. §4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.”

A confissão de Fé de Westminster estabelece (Cap. XXIV):

“I. O casamento deve ser entre um homem e uma mulher; ao homem não é licito ter mais de uma mulher nem à mulher mais de um marido, ao mesmo tempo. (Ref. Gen. 2:24; Mat. 19:4-6; Rom. 7:3).  II. O matrimônio foi ordenado para o mútuo auxílio de marido e mulher, para a propagação da raça humana por uma sucessão legítima e da Igreja por uma semente santa, e para impedir a impureza. (Ref. Gen. 2:18, e 9:1; Mal.2:15; I Cor. 7:2,9).”

É no convívio familiar do lar que se realiza a primeira socialização do ser humano. Além da família desfrutar do abrigo físico da casa, é no exercício dos seus papéis que os pais providenciam o suprimento das necessidades de todos os seus membros, provendo, ainda, para os filhos, proteção e educação para a vida, por meio da transmissão de valores éticos, morais e espirituais: “Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na vossa alma; atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontal entre os olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentados em vossa casa, e andando pelo caminho, e deitando-vos, e levantando-vos.” (Dt 11.18-19). Essa é a tarefa primeira e indelegável dos pais ou responsáveis. É certo que a igreja pode e deve contribuir na formação espiritual dos membros da família, bem como as instituições escolares na sua formação geral e profissional para a carreira.

A Trindade Santa nos provê o modelo e referência de pessoas relacionadas, não isoladas, que mantém comunhão e harmonia. Na oração do “Pai Nosso” Jesus estende o conceito de família, ampliando os seus limites, quando nos ensina que há um Pai Celestial comum e todos somos irmãos (Mt 6.9; 23.8). Em outra ocasião ele acrescenta: “Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Mt 12.50). Nesta mesma linha, o apóstolo Paulo denomina a igreja como a “família da fé” (Gl 6.10) ou “família de Deus” (Ef 2.19).

Desenvolvimento              

Neste estudo, desenvolveremos o tema proposto, identificando e explicitando o que há de comum, ou a relação entre família humana e família da fé – a igreja. Vejamos, então, alguns desses elementos comuns:

1. Constituição (Formação)

Em se tratando de constituição ou formação, família e igreja tem muitos elementos comuns, sendo que mencionaremos apenas alguns:

1.1 Origem divina

A família origina-se na vontade soberana de Deus que percebeu que não era bom para o homem viver só (Gn 2.18; Mt 19.4). A igreja, também, origina-se na vontade soberana de Deus que se dispõe a entrar em aliança com o homem (2Co 5.19).

1.2 Separação efetiva

Tanto para a família quanto para a igreja se requer separação e renúncia. No caso da família é preciso cortar o “cordão umbilical” que nos liga à “placenta familiar”, para permitir a formação de uma nova “placenta familiar”. “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn 2.24). Igreja é ECCLESIA (lat.) ou EKKLESIA (gr.). “EK”, que significa “movimento para fora” e “KLESIA”, do verbo KALEO (gr.), chamar. Logo, “ekklesia” é a assembleia dos “chamados para fora” do sistema mundano que aí está, para viverem como filhos de Deus, na casa do Pai Celeste (Mt 10.37; 16.24).

1.3 União com exclusividade

A nova família se consuma na união do casal, pelo casamento: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn 2.24); “De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mt 19.6). Tendo Cristo por cabeça, a igreja constitui-se um só corpo: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Ef 4.4-6). A amizade do mundo constitui-se uma quebra dessa união com exclusividade e, consequentemente, provoca a inimizade de Deus (Tg 4.4).

1.4 Declarações e Promessas

Uma nova família se inicia com declarações e promessas feitas entre os cônjuges. Na cerimônia de casamento são feitas declarações de amor e promessas de companheirismo, apoio e cuidado: “– Prometes amá-la(lo), honrá-la(lo), consolá-la(lo) e cuidar dela(e), tanto na saúde como na enfermidade, na prosperidade e na escassez, e te conservares exclusivamente para ela(e)?”; “– SIM PROMETO!” Isso demanda fé e confiança de que a outra parte honrará as promessas feitas.

Em se tratando da igreja, há expressas manifestações de amor e promessas preciosas da parte de Deus que abrangem o tempo presente e o porvir. “Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.” (Mc 10.29-30); “..Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”  (1Co 2.9). Ainda que possamos falhar, ele permanecerá fiel ao que prometeu e disposto a nos restaurar, se arrependidos, confessarmos os nossos pecados: “se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” (2Tm 2.13).

1.5 Mudança de vida

Com o casamento e a formação de uma nova família muita coisa tem que mudar na vida dos cônjuges:

a) Nova identidade: além da mudança do estado civil dos cônjuges, normalmente, a nova família passa a ser identificada por um sobrenome comum.

b) Nova agenda: os cônjuges deixam de lado a “vida de solteiro” para dedicarem-se prioritariamente, um ao outro e à família. A declaração de Rute à sua sogra exemplifica bem o tipo de compromisso que deve haver entre marido e esposa no casamento (Rt 1.16-17).

c) Novo compromisso: o compromisso de caminhar juntos, em plena comunhão, sem segredos entre si, provendo o sustento e bem-estar um do outro, dedicando-se totalmente a fazer o outro feliz.

d) Novo sinal externo: o anel (aliança) no dedo anelar esquerdo torna visível, para memória dos pactuantes e para a sociedade, o compromisso assumido: “– Com este anel eu selo a minha aliança contigo, unindo a ti meu coração e minha vida, e te faço participante de todos os meus bens.”

Ao nos tornarmos seguidores de Cristo e membros da sua igreja, muita coisa tem que mudar em nosso estilo de vida:

a) Nova identidade: passamos a ser identificados com um nome comum, derivado do nome daquele a quem seguimos: cristão (At 11.26)

b) Nova agenda: que consiste em buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33), deixando para trás a “vida antiga” (2Co 5.17), para nos dedicarmos, prioritariamente, a Deus, à família sanguínea e à igreja, na sua missão.

c) Novo compromisso: o compromisso de caminharmos juntos, em plena comunhão com os irmãos na fé, provendo o sustento da igreja, dedicando-nos totalmente a fazer a vontade de Deus.

d) Novo sinal externo: A pública profissão de fé e o batismo são sinais externos iniciais de uma fé interna. Entretanto, o sinal externo permanente e relevante é o testemunho cristão, para os de dentro e os de fora da igreja. O exemplo de Jesus: “contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou.” (Jo 14.31a)

1.6 Celebração da Comunhão

Não há momento mais íntimo do que aquele da família reunida à mesa para a sua refeição cotidiana, trocando olhares e compartilhando suas vivências. No início da igreja os cristãos se reuniam para celebrar a comunhão com a festa do amor (ágape), juntamente com a Ceia do Senhor. Esse segundo rito observado pela igreja – A Ceia do Senhor – será sempre um momento de celebração da Nova Aliança, em memória do Senhor e da sua redenção no Calvário, até que ele volte, e de celebração da comunhão da família da fé.

1.7 Duração

Todo pacto ou aliança estabelece não só os benefícios decorrentes de seu cumprimento, como também as consequências negativas para a parte que não se mantiver fiel. O casamento que dá origem à família é para toda a vida – “Até que a morte os separe”: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher.” (1Co 7.10-11). Os membros da família e a sociedade têm colhido frutos amargos devido à quebra da aliança conjugal e consequente desestruturação familiar. A igreja está inserida num pacto ou aliança de Deus com seus remidos de duração eterna: “Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém!” (Hb 13.20-21).

Vale lembrar que a família consanguínea está limitada e restrita a este mundo terreno e transitório: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.” (Mt 22.30). Já a família da fé, a igreja militante, transpõe essa dimensão terrena e se transforma na igreja triunfante, no outro lado da eternidade.

2. Reprodução (Crescimento)

“E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.” (Gn 1.28)

Sem reprodução a família humana se extingue na face da terra. Então, pode-se afirmar que esta é a missão primeira e básica da família. É fato que, por uma questão biológica de infertilidade e de esterilidade, nem todo casal consegue cumprir essa missão familiar. Obviamente, há outras razões e motivações que levam um casal a não gerar filhos; não cabe aqui apresentá-las ou discuti-las.

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19)

Sem reprodução espiritual, sem novos discípulos, a igreja se extingue na face da terra. Então, por analogia, pode-se afirmar que esta é a missão primeira e básica da igreja. É o que se denomina de Evangelismo e Missões. É fato que, por razões diversas, tais como – apostasia, conformismo com o mundo, pecado encoberto, falta de compromisso e empenho com sua missão – uma igreja não cresce ou não cresce, quantitativamente, como deveria.

3. Organização (Funcionamento)

Para uma família funcionar bem, há que ter governança e seus membros precisam desempenhar seus respectivos papéis. A bíblia não se omite e fornece muitos ensinamentos sobre o assunto. O Pr. Ariovaldo Ramos desdobra esses papéis pelos três princípios ou elementos basilares da família: Paternidade, Maternidade e “Filidade”, a saber:

PATERNIDADE (Pai): Provisão, Proteção e Direção.
MATERNIDADE (Mãe): Inspiração, Acolhimento, Consolo e Nutrição.
FILIDADE (Filho): Alinhamento, Obediência e Continuidade.

A sociedade secular pode até ter outra visão sobre o papel do homem e da mulher na liderança da família, o que não é de se estranhar porque ela não está alinhada com os padrões divinos expressos na bíblia: “porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo.” (Ef 5.23). Não importa que pensem que esse princípio bíblico seja machista, retrógrado e ultrapassado.

A paternidade na Família Igreja emerge, espiritualmente, de Deus-Pai; e flui, efetivamente, através dos seus líderes. Essa liderança visível da Igreja foi instituída por Deus para exercer as funções de provisão, proteção e direção; através de homens segundo o coração de Deus que, naturalmente, precisam contar com o auxílio indispensável das mulheres.

A maternidade na Família Igreja emerge, espiritualmente, de Deus-Espírito Santo; e flui, efetivamente, através do mesmo Espírito, derramado sobre todos os remidos do Senhor, pertencentes à Nova Aliança. Portanto, o Espírito Santo e a Palavra de Deus, além da regeneração e crescimento, produzem inspiração, acolhimento, consolo e nutrição.

A “filidade” na Família Igreja emerge, espiritualmente, através de Deus-Filho; e flui, efetivamente, pelos filhos de Deus, membros do corpo de Cristo. Jesus é o nosso exemplo e modelo de “filidade”, isto é, de alinhamento com o propósito e a vontade do Pai, obediência aos valores do Pai e continuidade da missão (1Pe 2.21).

4. Preservação (Sobrevivência)

Por último, vale lembrar que é tarefa dos pais cuidar e zelar, por eles mesmos e pelos filhos, no que diz respeito ao sustento e desenvolvimento intelectual, social e espiritual. Nesse estilo de vida pós-moderno, homem e mulher, precisam ser mais do que pais provedores. Quer pela necessidade de buscar recursos financeiros, quer pelo glamour de uma carreira tentadora, eles podem sonegar o precioso tempo e dedicação, tão necessários ao investimento na família, de modo a preservá-la. Esse estar junto, cuidando e zelando, inclui também o estabelecer limites e exercer a disciplina preventiva e corretiva.

“ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20)

Assim como na família dinheiro não é tudo e não há a figura de cliente ou expectador, na igreja, o que se espera é o compromisso e participação de todos. O sacerdócio universal dos crentes não pode ser apenas retórica, um discurso vazio e utópico. A liderança da igreja jamais dará conta sozinha de tudo o que precisa ser feito e não pode descuidar da disciplina preventiva e corretiva (1Co 11.32). Somos um organismo vivo, constituído por muitos membros, sendo cada um chamado a desempenhar a sua função. É o Espírito Santo quem capacita a cada um, mas cabe à liderança espiritual da igreja ser instrumento facilitador para que toda essa engrenagem funcione bem (Ef 4.15-16). E, assim, cada um desempenhando o seu papel, como crente-servo e não como crente-cliente, estaremos contribuindo para a preservação e crescimento da igreja, sustentados, sobretudo, pelo Senhor da Igreja, “até à consumação do século”.

Conclusão:

Que Deus nos ajude a compreender essas semelhanças entre família e igreja, duas instituições que nasceram no coração de Deus. Que, entendendo o papel de cada parte, possamos ser bênção e receber as bênçãos, ao participar de ambas.

 

Uma síntese da igreja local

Texto base: Jo 12.1-8 (comp. Mt 26.6-13 e Mc 14.3-9)

Introdução

Deixando a Peréia rumo a Jerusalém Jesus anuncia aos doze, pela terceira vez, que lá ele será condenado e morto (Lc 18.31-34). Atravessando o Jordão, perto de Jericó, demora-se um pouco na cidade. Cura o cego Bartimeu (Lc 18.35-43) e encontra-se com Zaqueu (Lc 19.1-10). Continua a sua viagem em companhia dos doze e das multidões de peregrinos que, em verdadeira romaria, subiam a Jerusalém para participarem da festa da páscoa.

Jesus e os doze deixam a multidão e entram numa aldeia chamada Betânia, a uns 3 km de Jerusalém, onde morava uma família muito especial para ele – Lázaro, Marta e Maria. Eles tinham as portas de sua casa sempre abertas para receber e hospedar o Mestre e seus discípulos. Jesus os amava e tinha grande prazer nesse convívio. Jesus chega na sexta-feira à tarde, passa o sábado (judaico) em Betânia e parte para Jerusalém no domingo, onde é aclamado pelas multidões. Os comentaristas bíblicos que buscam harmonizar os Evangelhos identificam esta ceia com a narrada por Mateus e Marcos, 2 dias antes da páscoa, em casa de Simão, o leproso, ali mesmo em Betânia, apesar de existirem muitas diferenças entre elas.

Uma reflexão mais demorada sobre o cenário descrito neste texto por João poderá levar a percepções variadas, como, por exemplo, UMA SÍNTESE DA IGREJA LOCAL. A ceia oferecida a Jesus, certamente com o objetivo maior de expressar gratidão pelos seus feitos, principalmente a ressurreição de Lázaro, reforça esta ideia de igreja, pois na Santa Ceia nos reunimos para estarmos em comunhão com ele, lembrando e rendendo graças pelo seu sacrifício na cruz a nosso favor.

Tomando por base este cenário e as particularidades de cada personagem envolvido, isto é, daqueles que foram mencionados nominalmente, podemos entender melhor a composição e os ministérios da igreja local. Conhecer esses aspectos da igreja é progredir na maturidade cristã.

1. O SIGNIFICADO DE JESUS

 Jesus sozinho não constitui a igreja. Da mesma forma, uma associação de pessoas, sem Jesus, pode ser qualquer coisa, menos uma igreja local. A igreja nasceu no dia do Pentecostes pela ação de Jesus, enviando sobre aquela “assembleia ou grupo de pessoas chamadas para fora (do mundo) – no grego, ekklesiaEk + Kaléo (Jo 17.14; Fp 3.20; 1Pe 2.13)”, seu alter-ego (outro igual), o Espírito Santo. Portanto, Jesus é o fundamento e o cabeça da igreja.

 2. O SIGNIFICADO DE LÁZARO

 Lázaro nos é descrito como sendo alguém que fora ressuscitado dentre os mortos e “..um dos que estavam à mesa..”, desfrutando de comunhão com Jesus. Seu nome era muito comum entre os Judeus e significa “Deus ajudou“.

Quem era este Lázaro, além de irmão de Marta e Maria?

a) Era alguém que trazia em seu corpo a sentença de morte (Jo 11.1, 14 => Rm 6.23 “o salário do pecado é a morte”);

b) Era alguém amado por Jesus (Jo 11.3,5; 33-36 => Jo 3.16);

c) Era alguém que esteve morto e reviveu, porque atendeu ao chamado de Jesus (Jo 11.44a => Ef 2.1; Jo 6.37);

d) Era alguém que recebeu a graça de Deus, sem nada fazer para isso (Jo 11.39 => Ef 2.8);

e) Era alguém que experimentou a libertação das coisas que o impedia de andar, de fazer, de ver e de ouvir, o que aponta para a santificação (Jo 11.44b => Rm 6.6);

f) Era alguém que testemunhou silenciosamente do poder vivificador de Deus, levando outros a crerem em Jesus (Jo 12.10-11 => 1 Co 6.11).

Lázaro, portanto, representa aqueles que compõem a igreja local. As informações sobre sua pessoa falam, figuradamente, do ingresso na igreja e, por extensão, do MINISTÉRIO DE EVANGELIZAÇÃO, operado naqueles que compõem a igreja e através destes a muitos outros, quer pelo testemunho de vida, quer pela Pregação do Evangelho.

3. O SIGNIFICADO DE MARTA

Marta é apresentada por João como aquela que participava da ceia, servindo. Em uma visita anterior de Jesus a esta família, somos informados por Lucas (Lc 10.38-42) que Marta também estava envolvida com os serviços materiais:

– hospedou-o em sua casa;

– Agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviços.

Naquela ocasião, sua preocupação em servir bem era tanta que chegou a cobrar de Jesus sua intervenção para que Maria a ajudasse, sendo por ele advertida. Seu grande erro foi o de não fazer sua parte com moderação, satisfação e espontaneidade. Infelizmente, através dos tempos, Marta tem levado a fama de mulher materialista, por causa desse incidente com Maria. É pena que essa sua fraqueza tem chamado mais a atenção do que as suas virtudes de mulher prática e serviçal.

Agora vemos uma Marta fazendo o que melhor ela sabia fazer – servir – porém com espírito diferente, sem aquele ativismo onde o foco é “o fazer” e não “para que fazer”. Não se trata de querer colocar a sua parte como a mais importante. Entretanto, era igualmente necessária.

A quem era dedicado o serviço de Marta?

a) A Jesus. Servimos a Jesus indiretamente quando servimos ao nosso próximo (Mt 25.35-40);

b) A sua família. Servimos aos domésticos da fé, porque somos membros de um só corpo;

c) Aos demais. Servimos ao nosso próximo, porque o amamos como a nós mesmos.

Um jovem perguntou a um sábio sobre as coisas mais importantes: 1ª) Qual é o Tempo mais importante? Ele respondeu: o “agora”; 2ª) Qual a Pessoa mais importante? Ele respondeu: a que está à sua frente; 3ª) Qual a Tarefa mais importante? Ele respondeu: fazer esta pessoa feliz, agora!

Marta, portanto, representa o MINISTÉRIO DE SERVIÇOS da igreja (Social, Assistencial, Material etc.), que é um ministério de caráter horizontal, isto é, na direção do próximo, porém, indiretamente é como se o estivéssemos fazendo ao Senhor (Mt 25.40).

4. O SIGNIFICADO DE MARIA

De Maria não poderíamos esperar outra apresentação, senão como “aquela que estava aos pés de Jesus fazendo alguma coisa”. Muitos se colocaram aos pés do Senhor apenas para serem atendidos em suas necessidades; este porém não era o caso de Maria.

Maria não encontrava lugar melhor para ficar, senão aos pés de Jesus. Ela tinha, pelo menos, três razões para estar ali:

a) Ouvir os ensinamentos de Jesus (Lc 10.39)

Para aprender a respeito das coisas espirituais e da vida prática.

b) Expressar sua angústia e suplicar bênçãos (Jo 11.32)

c) Louvar e Adorar ao Senhor (Jo 12.3)

    Louvor – Por tudo o que Deus é em si mesmo, seus atributos;

    Adoração – É render-lhe um verdadeiro culto pelo que ele é e pelo que ele tem feito a nosso favor, em Cristo.

A maneira que ela encontrou de cultuar a Jesus foi ungir-lhe os pés com um perfume muito caro. E nós, como temos cultuado a Deus? Um dos indicadores da maturidade cristã é o nível de investimento na obra de Deus. A igreja, em qualquer tempo, tem muito a aprender com Maria sobre a “TEOLOGIA DOS PÉS DE JESUS”.

Maria, finalmente, representa três ministérios da igreja: MINISTÉRIO DE ENSINO, DE ORAÇÃO E DE ADORAÇÃO, que são ministérios de caráter espiritual e, de certa forma, vertical, isto é, na direção de Deus: trazendo as verdades e ensinos de Deus, até nós; conduzindo-nos à presença de Deus.

5. O SIGNIFICADO DE JUDAS ISCARIOTES

Seria bom se a igreja local pudesse ser totalmente representada pelos quatro personagens comentados anteriormente. É bom ter em mente que a igreja local se diferencia da igreja universal, invisível, por abranger aqueles que não são verdadeiros discípulos de Cristo e não incluir no seu rol aqueles que ainda não tiveram o ensejo de professar a sua fé em Jesus, além, é claro,  dos salvos que já partiram para a eternidade.

Na verdade, ainda que supostamente em menor escala, a igreja local tem os seus Judas Iscariotes. Eles estão no meio do povo de Deus, embora não façam parte dele. É o joio no meio do trigo, que um dia será separado. Quem são estes? São aqueles que jamais passaram por uma experiência de regeneração, de novo nascimento. São aqueles estão na igreja buscando a satisfação de seus próprios interesses ou porque se sentem confortáveis, protegidos e seguros no ambiente cristão. São aqueles que não permitem que Cristo viva através de suas vidas.

Conclusão

Assim, temos aqui sintetizada a igreja local:

Jesus – Seu fundamento e cabeça

Lázaro – Composição e Ministério de Evangelização (Kerigma);

Marta  – Ministério de Serviços;

Maria  – Ministérios de Ensino, de Oração e de Adoração.

Judas Iscariotes – Os falsos crentes (o joio).


Catedral Presbiteriana do Rio
19/01/1997 – Culto Vespertino (19h)
Esboço da Mensagem pregada pelo então Diácono Paulo Raposo Correia

O desafio de ser igreja

o-desafio-de-ser-igreja

E partiu Barnabé para Tarso à procura de Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.” (Atos 11.25-26)

Introdução:

O tema e assunto têm o propósito de nos despertar para o servir, promovendo o bem de todos, por causa do amor de Deus derramado em nós. Nos estudos anteriores temos refletido sobre a bênção de participar da igreja de Cristo, de adorar a Deus e do risco de ser um desigrejado. Entretanto, não podemos nos acomodar dentro das quatro paredes, somente recebendo bênçãos. Precisamos desempenhar um papel relevante na sociedade; precisamos ser canais de bênçãos.

 1. SOMOS ENVIADOS A PREGAR O EVANGELHO

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19)

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Mc 16.15-16)

A Evangelização é ordem de Cristo, missão da igreja e necessária a todos. Isso é facilmente depreendido dos versículos acima. O evangelho é chamado de “boas novas” de Deus aos homens. No entendimento do apóstolo Paulo é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego;” (Rm 1.16)

1.1 A evangelização é ordem de Cristo

O verbo que inicia a grande comissão está no modo verbal “imperativo” – IDE (“Ir Diariamente Evangelizando” – segundo a Profª. Pâmela). Não se trata de recomendação, nem de sugestão, nem tampouco de uma opção; mas de uma ordem: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16).

a) O conteúdo da ordem.

Jesus e sua obra redentora realizada na cruz do Calvário é o conteúdo dessa ordem. Ele morreu, mas ressuscitou, por nós, pecadores: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Rm 4.25)

b) Os receptores da ordem.

Inicialmente, os discípulos de Jesus receberam essa ordem, depois, todos os alcançados pela salvação, os salvos. Todo alcançado passa a ser também um enviado! “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus;” (Mt 10.32)

c) Os que devem ser alcançados pela ordem

A grande comissão direciona os ordenados a irem por todo o mundo, numa abrangência territorial global, ao mesmo tempo que precisa alcançar a cada criatura, individualmente. “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Rm 10.9)

d) A capacitação e o roteiro para o cumprimento da ordem

Não é possível cumpri-la sem estar devidamente capacitado por Deus e não seria realizada de qualquer forma: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.” (At 1.8)

e) O senso de urgência no cumprimento da ordem.

Essa urgência é determinada pela necessidade de alcançar o máximo de pessoas antes da morte delas. Depois da morte, só resta o juízo, assim, o tempo é agora. O apóstolo Paulo declarou que fez de tudo para ganhar o maior número de pessoas (1Co 9.19-23). E acrescentou: “Portai-vos com sabedoria para com os que são de fora; aproveitai as oportunidades.” (Cl 4.5)

Portanto, não cumprir a ordem é uma demonstração de rebeldia contra Deus. Deus nos amou e nos deu o seu Filho Unigênito. Por que não corresponderíamos ao seu amor, obedecendo-o? Por que não cumprir essa ordem, de boa vontade, por amor aos nossos semelhantes? “O universo inteiro ouve a voz de Cristo e a obedece. O vento ouve sua voz e se aquieta. O mar escuta a sua ordem e se acalma. Os demônios obedecem sua ordem e batem em retirada. Seríamos nós, seu povo, os únicos no universo a nos rebelarmos contra sua autoridade e nos insurgirmos contra suas ordens?” (Rev. Hernandes Dias Lopes)

1.2 A evangelização é missão da igreja

A responsabilidade e tarefa de pregar o evangelho foi entregue a nós, sua igreja. Nós temos a missão de ser testemunha do Senhor Jesus, de proclamar a sua tão grande salvação. Na verdade, essa tarefa intransferível e exclusiva deve ser encarada como um alto privilégio que foi vedado aos anjos: “A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar.” (1Pe 1.12)

Assim como Jesus foi enviado ao mundo com a missão estabelecida pelo Pai Celeste e cumpriu-a integralmente, entregando sua própria vida, nós também fomos enviados a evangelizar os perdidos, se necessário perdendo a nossa própria vida e não podemos falhar. Nossa missão se assemelha à do atalaia (Ez 33.7-9, 11):

a) O desejo explícito de Deus é a conversão do pecador.

“Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?” (Ez 33.11).

b) A tarefa do atalaia é receber a mensagem da boca de Deus e transmiti-la ao pecador.

“A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca e lhe darás aviso da minha parte.” (Ez 33.7)

c) Se o perverso não der ouvidos…

“Mas, se falares ao perverso, para o avisar do seu caminho, para que dele se converta, e ele não se converter do seu caminho, morrerá ele na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma.” (Ez 33.9)

d) Mas, se o atalaia não cumprir sua missão….

“Se eu disser ao perverso: Ó perverso, certamente, morrerás; e tu não falares, para avisar o perverso do seu caminho, morrerá esse perverso na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o demandarei de ti.” (Ez 33.8)

Assim sendo, esse tamanho privilégio está atrelado a uma grande responsabilidade que será cobrada de cada um de nós pelo Senhor!

1.3  A evangelização é necessária a todos

Não há qualquer outra opção de salvação para o pecador, senão através da cruz de Cristo: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (At 4.12). Suas boas obras, autoflagelação, religiosidade, esforços próprios, não poderão salvá-lo; nada disso o absolverá dos seus pecados, reconciliando-o com Deus.  Então, por amor às almas perdidas, precisamos sair da nossa zona de conforto e parar de acalmar nossa consciência com a falsa ilusão de que Deus vai dar um jeito, mesmo que eu, ou a igreja, não cumpramos nosso papel. Ainda que esses perdidos pareçam estar bem de saúde e bem financeiramente; pareçam estar curtindo sua família, amigos e bens; se não se renderem e confessarem a Cristo como Salvador e Senhor, irão diretamente para o inferno.

A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. A prova disso é a visão profética da grande multidão, em pé, diante do Cordeiro, composta de salvos provenientes de todas as nações, tribos, povos e línguas (Ap 7.9).

2. SOMOS ENVIADOS A FAZER O BEM

“E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos.” (Gl 6.9)

Não resta a menor dúvida de que o melhor que podemos fazer por alguém é leva-lo aos pés de Cristo. Apesar de ser essa a principal tarefa da igreja, de cada crente, não é a única. Também somos enviados a fazer o bem. O Novo Testamento nos lembra e nos ensina isso:

a) No ministério de Jesus (Lc 4.18)

“Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.” (Mt 4.23)

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18-19)

b) Nos primórdios da igreja (At 4.32, 34-35; 6.1-3)

“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.” (At 4.32, 34-35).

c) Nas epístolas (Tg 2.15-17; 1Jo 3.16)

“Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.” (Tg 2.15-17)

“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.” (1Jo 3.16)

Aqueles irmãos mais necessitados que convivem conosco, na igreja, precisam merecer a nossa atenção e cuidado. No ensino do apóstolo Paulo, eles devem ser cuidados com prioridade, em relação aos de fora, que, por sua vez, não devem ser esquecidos, na nossa generosidade: “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.” (Gl 6.10)

REGRA GERAL: Mais importante do que dar o que a pessoa pede é dar o que ela necessita.

Finalmente, é bom deixar claro a diferença entre: Assistência Social, Ação Social e Política Social. Vejamos o que expôs o Pr. Carlos Alberto Chaves, na Igreja Presbiteriana da Tijuca, em 22/11/1997, num encontro de diáconos, a seguir resumido:

………..

NÍVEIS DE ATUAÇÃO

ILUSTRAÇÃO: No caso de um escravo recapturado e açoitado pelo seu senhor, como seriam esses níveis de atuação?

  • ASSISTÊNCIA SOCIAL

Cuidar das feridas do escravo ferido.

  • AÇÃO SOCIAL

Recolher donativos da comunidade para comprar a liberdade dele.

  • AÇÃO POLÍTICA

Lutar pela abolição da escravatura, pois o problema não é somente deste escravo.

……………..

Não podemos perder de vista que a igreja não é uma ONG e não foi chamada para resolver todos os problemas do mundo. Por outro lado, ela não pode se alienar totalmente, fazendo de conta que nada tem a ver com os males que nos afligem. Seu chamado é para atuar no campo espiritual e não no político-social, empresarial etc. Entretanto, isso não a impede de promover ou participar de pequenas ações, visando a melhoria da qualidade de vida, dos de dentro ou dos de fora. Individualmente, cada um de seus membros, tem a oportunidade e responsabilidade de fazer a diferença onde quer que for colocado, profissionalmente ou não.

Conclusão:

Precisamos ter sempre em mente que somos igreja e, como tal, fomos convocados para pregar o evangelho com exclusividade, através da nossa vida e testemunho; e, se preciso for, também usando as palavras. Também fomos chamados por Deus, em Cristo, para ajudar ao nosso irmão e ao próximo: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). A igreja precisa mostrar a face de Deus.

Você tem sido proativo na evangelização e zeloso em fazer o bem aos necessitados, por amor a Cristo e ao próximo?


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 7 (A igreja somos nós) – Módulo 5 – EBD Catedral 2016, de modo a atender a temática proposta no material elaborado pelo Pr. Joel Theodoro para os alunos. Foram feitas algumas alterações para divulgação neste blog.

Desigrejado, a ovelha solitária

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“O solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria.” (Pv 18.1)

Introdução:

O assunto diz respeito aos chamados desigrejados, pessoas que caminhavam com a igreja, conosco, mas mudaram de ideia e passaram a trilhar uma carreira solo. Como entender esse fenômeno? Quais as causas disso? Até que ponto condenar ou aprovar tal iniciativa?

1. QUE TIPOS DE SITUAÇÕES CONSEGUIMOS IDENTIFICAR?

O apóstolo Paulo faz uma macro classificação da humanidade em “homem natural” (1Co 2.14) e “homem espiritual” (1Co 2.15). O “homem natural” é o ser humano não salvo por Cristo; o “homem espiritual” é o salvo, regenerado pelo Espírito Santo de Deus.

Ambos habitam um corpo natural, até à sua morte física; mas ressuscitarão num corpo espiritual (1Co 15.44).

Escrevendo, ainda, à igreja de Corinto, o mesmo apóstolo faz uma distinção entre os irmãos, denominando-os de espirituais e carnais (1Co 3.1-3), sendo estes últimos, pessoas que não amadureceram na fé, antes, porém, vivem na carne: “Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?” (1Co 3.3).

No que se refere ao seu vínculo, ou quebra de vínculo, com uma igreja local, podemos classifica-los, conceitual e didaticamente, como:

a) Membro “Ativo”

É o membro que participa ativamente da sua igreja local, inclusive ocupando funções e cargos, quando eleito ou indicado para tais. A CI/IPB descreve assim os deveres dos membros da igreja:

“Art.14 – São deveres dos membros da Igreja, conforme o ensino e o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo:

a) viver de acordo com a doutrina e prática da Escritura Sagrada;
b) honrar e propagar o Evangelho pela vida e pela palavra;
c) sustentar a Igreja e as suas instituições, moral e financeiramente;
d) obedecer às autoridades da Igreja, enquanto estas permanecerem fiéis às Sagradas Escrituras;
e) participar dos trabalhos e reuniões da sua Igreja, inclusive assembleias.”

b) Membro “Nominal”

É aquele membro que faz parte do rol, mas que não participa efetivamente do cotidiano da igreja. Raramente comparece às reuniões e está alheio a tudo o que está acontecendo. É uma espécie de “crente não praticante”, ou a versão evangélica do que ouvimos falar como “católico não praticante”. Podemos considera-los como os “desigrejados de dentro da igreja”. Se olharmos bem para as igrejas evangélicas, iremos descobrir, por exemplo, que há crentes seletivos: aparecem em determinadas atividades da igreja, selecionam o que gostam, escolhem certos tipos de culto para frequentar etc. Nosso desafio permanente é fazê-los coparticipantes da vida da igreja.

c) Desigrejados

Vamos considerar este grupo ou segmento, como sendo formado por pessoas que se declaram evangélicas, consideram-se salvas por Jesus; entretanto, por algum motivo, desligaram-se do rol de membros ou optaram por não se arrolarem como membros de uma igreja local.

Inicialmente, poderíamos identifica-los como:

  • Os sem teto da fé.
  • Mochileiros da fé.
  • Caçadores de emoções da fé.
  • Refugiados da fé (caminhantes sem destino certo).
  • Nômades religiosos.
  • As ovelhas sem curral.

O texto da lição traz a seguinte estatística do fenômeno no Brasil[1]:

  • “4 milhões são os brasileiros que se declaram evangélicos, mas não têm vinculação eclesiástica; o percentual de evangélicos nesta situação é de 10%.
  • 62% dos desigrejados são egressos de denominações neopentecostais, cuja ênfase é a teologia da prosperidade;
  • 63% dos respondentes declararam que voltariam a se vincular a uma comunidade que não apresentasse os vícios e malversações que os afastaram da comunhão;
  • 29% dizem que não pretendem manter vínculo com outra igreja novamente;
  • 5,6 anos é o tempo médio de conversão dos desigrejados.”

Após a divulgação do Censo do IBGE em 2010, dando conta do número elevado de evangélicos nominais, isto é, sem vínculo eclesiástico, uma série de reportagens, livros e sites começou a circular, repercutindo a matéria, tentando entender, explicar ou polemizar o fenômeno. “Longe de ser um movimento isolado manifesto apenas em nosso país, o que vem ocorrendo é uma expressão nacional de onda de deserção institucional de grandes proporções que alcança o mundo inteiro.” [1]

“Eugene Peterson coloca na boca dos desigrejados nos Estados Unidos e por aí afora a seguinte confissão: ‘Senhor, tenho assumido a mentalidade de um consumidor. Saio à procura de religião como quem sai para comprar mantimento revirando as prateleiras (as Igrejas!) para encontrar o que combina com o meu gosto. Perdoa-me!’” (Revista Ultimato – JUL/AGO 2016)

O desafio da Igreja de Cristo é trazer de volta esses irmãos, tratar deles e inseri-los de novo na comunidade.

d) Desviados ou Descristianizados

Podemos identificar neste grupo ou segmento, aquelas pessoas que um dia professaram a fé cristã, chegaram a ser batizadas e se tornaram membros, ou não; entretanto, abandonaram a fé cristã e deixaram de frequentar uma igreja evangélica. É um fenômeno que se espalha pela Europa e Estados Unidos.

2. QUE RAZÕES LEVARIAM UMA PESSOA A SE TORNAR UM DESIGREJADO?

Na aula 2 aprofundamos o estudo sobre as razões para sermos membros ativos de uma igreja local, bem como as muitas bênçãos advindas desta vinculação e, ainda, os riscos a que são submetidos os que se isolam do corpo de Cristo. Não ignoramos a realidade inegável de existirem muitas pessoas na condição de desigrejadas, podendo haver crescimento numérico, pois há líderes que estimulam tal opção. Depois de um bom exercício mental e teórico, estamos sugerindo as prováveis causas e motivações para alguém adotar tal opção:


a) TRAUMA, FRUSTRAÇÃO, DECEPÇÃO

Certos membros caminhavam bem, na igreja, até que sofreram traumas e/ou frustrações, foram profundamente decepcionados pela liderança da igreja ou por outros membros.

  • Se frustraram com promessas (de cura, libertação, bem-estar pessoal/familiar ou prosperidade financeira) proferidas em nome de Deus e que nunca se cumpriram. Sofreram abuso espiritual e decepção, por parte daqueles que agiam mais como empresários da fé do que como legítimos pastores, despenseiros da graça de Deus.
  • Ou, então, não puderam tolerar determinadas condutas e comportamentos dentro de uma igreja que deveria ser sem mácula e muito diferente dos de fora, aqueles que não são remidos do Senhor. Daí resolveram sair e não mais se arrolarem a qualquer igreja local.

Reflexão: “Quem sai da igreja por causa de pessoas, nunca entrou lá por causa de Jesus.”

b) INTOLERÂNCIA ECLESIÁSTICA

São pessoas que acham que as igrejas são complicadas, cheias de regras e amarras burocráticas. Não acreditam na relevância da igreja institucional. Consideram tudo uma chatice e uma mesmice. Assim sendo, alegam ter optado por viver sozinhos a simplicidade do Evangelho de Jesus.

Em vários momentos da história da Igreja surgiram movimentos de contestação e repulsa à Suntuosidade de Templos, à Centralidade Pastoral e aos Sermões esvaziados de poder espiritual). Defendem locais de reunião simples, o Sacerdócio Universal dos Crentes e a espontaneidade das mensagens, focadas no cotidiano dos crentes.

Niilismo é um termo que significa “redução a nada” (o que se aproxima da anarquia). Niilismo eclesiástico: “advogam um cristianismo totalmente despido de formas, estruturas e concretude institucional”. Aí vai uma dica: não se deixe arrastar por delírios anarquistas. Onde há ajuntamento formal de pessoas torna-se necessário estabelecer uma estrutura de liderança e regras de convivência.

c) INDIVIDUALISMO E AUTOSSUFICIÊNCIA

Não se pode descartar a hipótese de que certos membros, tentaram caminhar entre os demais irmãos, mas se sentiram incomodados com esse convívio de grupo, pois preferem viver isolados. Pensam que sobrevivem bem sozinhos. Podem assistir cultos de diversas igrejas, transmitidos pela internet ou pela TV, leem sua bíblia e outros livros, ouvem músicas evangélicas e, tudo isso lhes basta. Na teoria, isso pode até ter alguma consistência, mas, na prática, não se sustenta. É uma brasa isolada da fogueira, prestes a se apagar.

d) INDECISÃO NA FÉ

São aquelas pessoas indecisas e inseguras que nunca conseguem decidir qual é a melhor igreja, com a mais correta linha doutrinária. Assim sendo, preferem não se arrolarem a qualquer uma. Há um provérbio popular que diz: “o ótimo é inimigo do bom”. Precisamos tomar decisão pelo bom, sem nunca deixar de perseguir o ótimo.

e) CONDUTA LIBERTINA

Pode acontecer que certos membros caminhavam entre os demais irmãos, mas quando começaram a adotar certas práticas e condutas pecaminosas que foram reprovadas pela igreja, em vez de confessar e deixar, preferiram sair da igreja, para se livrarem das críticas. Enfim, preferem viver um padrão moral e ético reprovável! Certamente, aqueles que são regenerados pelo Espírito Santo não podem viver acomodados na prática do pecado (1Jo 3.6).

f) FUGA DO DÍZIMO

Quem sabe se algumas pessoas não se arrolam a uma igreja local por questões financeiras, para “economizarem” no dízimo? Quando o “bolso” não se converte é difícil acreditar que o “coração” se converteu!  Sem dúvida, esses precisam se preocupar com o devorador (Ml 3.11). Aquele que retém o que é de Deus, há de prestar contas diretamente a ele.

Conclusão:

  1. Não precisamos substituir ou reinventar a igreja! A forma pode e deve sempre ser modificada, com criatividade, equilíbrio e sensatez; porém, sua essência e conteúdo, não! Há coisas que a gente faz na vida cuja essência não muda, embora a forma possa mudar, assim também acontece com a igreja local. Veja, por exemplo:

a) O tipo de alimento, o local onde encontra-lo ou a forma de se alimentar, mudam, mas a necessidade de ingerir alimentos é permanente.

b) O lugar e a forma de tomar banho, mudam, mas a necessidade de manter o corpo limpo é permanente.

c) Casar-se, procriar, estudar, aprender, trabalhar, trocar de roupa, se comunicar, se locomover, enfim, tudo que fazemos no intervalo entre o nascer e o morrer, o que denominamos de vida, pode ser feito de maneiras e formas diferentes, modificadas e melhoradas à cada geração, mas a essência não muda. E, Jesus, diz “… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10.10b). Não exatamente em número de anos, mas, em termos de qualidade, e que faça a diferença.

  1. Na verdade, o que precisamos fazer é rever nossos conceitos e atitudes para com Deus e sua igreja. Somos servos e não clientes. Formamos um só rebanho, de um só pastor. Crente isolado do corpo de Cristo é como ovelha desgarrada; torna-se presa fácil dos predadores de plantão. “Subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa; dela me agradarei e serei glorificado, diz o SENHOR.” (Ag 1.8)
  1. Finalmente, é preciso deixar claro que Deus não tem um “Plano B” para a sua Igreja, a família da fé; assim como não tem um “Plano B” para a família consanguínea! Relembrando a essencialidade da igreja: ADORAÇÃO, EVANGELIZAÇÃO, EDUCAÇÃO CRISTÃ, COMUNHÃO e SERVIÇO. Ainda que haja desigrejados, dentro e fora da igreja; ainda que haja imitações falsas ou até profanas da igreja; a genuína igreja de Cristo há de permanecer neste mundo até o grande e esperado dia do seu arrebatamento!

“Qual será o futuro dos desigrejados? É provável que muitos permaneçam desiludidos e reticentes em retornar à frequência eclesial. Preferirão permanecer no ceticismo comunitário. Outros, talvez encontrem modelos mais espontâneos e informais para compartilhar a fé cristã. Há ainda aqueles que retornarão às comunidades históricas. Após um período de desilusão institucional e de passarem por experiências sofríveis no anseio de praticar o cristianismo, é provável que cheguem à conclusão de que a igreja, mesmo com seus defeitos (expressão de nossa pecaminosidade), é o melhor lugar para congregar, compartilhar e defender a fé.” [2]

Você tem consciência do risco de viver separado do corpo de Cristo?

……………………………….
[1] FERNANDES, Carlos. “Desigrejados, fenômeno que cresce”. Cristianismo Hoje. Niterói, edição 37, ano 7, 2013. p. 23. Informações complementares quanto à pesquisa aplicada pelo BEPEC poderão ser encontradas nos sites: http://www.bepec.com.br ou http://www.genizahvirtual.com.br.

[2] Revista Teologia Brasileira – Niilismo eclesiástico: uma análise do movimento dos desigrejados (17/06/2014)

http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=390


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 6 (A ovelha solitária) – Módulo 5 – EBD Catedral 2016, de modo a atender a temática proposta no material elaborado pelo Pr. Joel Theodoro para os alunos. Foram feitas algumas alterações para divulgação neste blog.

O vídeo desta aula está disponível abaixo:
(Escola Bíblica Dominical – 13/11/2016)

Refletindo sobre a adoração

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“Celebrarei as benignidades do SENHOR e os seus atos gloriosos, segundo tudo o que o SENHOR nos concedeu e segundo a grande bondade para com a casa de Israel, bondade que usou para com eles, segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benignidades. Porque ele dizia: Certamente, eles são meu povo, filhos que não mentirão; e se lhes tornou o seu Salvador.” (Isaías 63.7-8)

Introdução:

“Adoração” é um, entre tantos outros termos que passam a fazer parte da vida dos cristãos regenerados por Cristo e nem sempre são entendidos de forma correta. Assim, vamos estudar melhor o assunto, com vistas a aprimorarmos nosso relacionamento com Deus. Afinal, nós fomos regenerados para o “louvor da glória de sua graça” (ver Ef 1.3-6 e Pergunta 1 dos Catecismos de Westminster).


1. O QUE É ADORAÇÃO? “QUEM” OU “O QUE” PODE SER ADORADO?

Podemos dizer que adoração é um termo que denomina a forma mais significativa de expressar apreço, homenagem, honra e glória a poderes superiores, sejam eles seres humanos, anjos ou Deus. Desta forma, somente caberia aqui, como alvo e objeto de adoração uma divindade, um ser supremo. Esse também seria objeto de devoção, temor, reverência, veneração etc. No decorrer da história, muitos têm desejado ocupar ou usurpado esse lugar, tais como faraós, monarcas, imperadores, presidentes, líderes populistas, líderes religiosos etc, muitas vezes num contexto de fanatismo idolátrico ou ideológico.

Equivocadamente, pessoas e coisas são efetivamente adoradas por seres humanos. Frequentemente este termo tem sido banalizado no cotidiano como se fosse sinônimo de “gostar muito”: Eu “adoro” essa música; eu “adoro” meu pai(mãe), ou meu filho(a), ou meu marido(esposa), ou outra determinada pessoa; eu “adoro” esse canal de TV, esse filme, meu emprego etc.   Entretanto, esse lugar tão especial está reservado para ser ocupado por apenas um ser, o Deus Criador e Mantenedor do Universo. Isso está claramente definido nos três primeiros mandamentos (Ex 20.1-7; Dt 5.6-11) e foi ratificado por Jesus: “Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4.10; Lc 4.8). E, o Salmo 96 expressa um lindo tributo à glória e majestade de Deus.


2.
COMO ADORAR?

 A adoração requer a expressão, a comunicação do cristão com Deus. Então, vejamos como acontece a comunicação humana, no nível horizontal e no nível vertical, isto é, com os outros seres humanos e com Deus.

a) Comunicação Horizontal (meios):

Como nos comunicamos com os outros?

i.      Com a boca: – Falando
  – Cantando
  – Emitindo sons (risos, choros, assobio etc.)
ii.      Com o corpo: – Através de gestos, de ações, das emoções etc.
iii.      Com a vida: – Pelo conjunto da obra


b) Comunicação Vertical (meios):

Como nos comunicamos com Deus?

i.      Com a boca: – Falando  (Oração)
  – Cantando (Louvores)
  – Emitindo sons (risos, choros etc.)
ii.      Com a mente: – Com pensamentos
iii.      Com o corpo: – Através de gestos, de ações, das emoções etc.
iv.      Com a vida: – Pelo conjunto da obra


3. A ADORAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO (AT)

a) A primeira vez em que a bíblia registra algo nessa linha é quando Abel toma a iniciativa de apresentar uma oferta ao Senhor (Gn 4.3)

b) A segunda vez é no nascimento de Enos, filho de Sete, filho de adão: “…daí se começou a invocar o nome do SENHOR.” (Gn 4.26b)

c) No recomeço da história humana, após o dilúvio, há o seguinte registro: “Levantou Noé um altar ao SENHOR e, tomando de animais limpos e de aves limpas, ofereceu holocaustos sobre o altar.” (Gn 8.20)

d) Os patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) adoravam construindo altares e oferecendo sacrifícios (Gn 12.7-8; 26.25; 33.20).

e) Com a outorga da Lei[1] veio a adoração no Tabernáculo e, posteriormente, no Templo, com um sistema completo de Sacrifícios. Os sacrifícios do AT eram provisórios (Hb 10.4) e apontavam para o Cordeiro de Deus (Jo 1.29; Hb 9.9-15), cujo sangue (sua morte na cruz) nos limpa de todo pecado (1Jo 1.7). Esse sistema do AT pode ser assim sintetizado:

Sacrifícios de expiação – Oferta pelo pecado
– Oferta pela culpa
Ofertas de Consagração – Ofertas queimadas
– Ofertas de grãos (com ofertas de manjares)
Ofertas de Comunhão – Ofertas pacíficas (ato voluntário de adoração, agradecimento e ação de graças)

f) A adoração nas Sinagogas começou durante o Cativeiro de Israel.

No início, no meio e no final do AT encontramos recados explícitos de Deus aos ofertantes:

i. Tanto o ofertante, quanto a sua oferta precisam agradar a Deus (Abel e Caim – Gn 4.3-5).

ii. Obedecer é melhor do que Sacrificar (Samuel disse a Saul – 1Sm 15.22).

iii. Deus não suporta iniquidade associada ao Culto (Is 1.10-15; Am 5.21-23).

iv. O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento. (Pv 15.8).


4. A ADORAÇÃO NO NOVO TESTAMENTO (NT) E NA IGREJA

a) A adoração no templo e nas sinagogas continua no NT.

b) Na conversa de Jesus com a mulher samaritana, que estava tão confusa quanto a um lugar específico para adoração, ele esclarece que o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.19-24).

c) Na epístola aos romanos temos o seguinte apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm 12.1)

d) A igreja de Corinto, tinha muitos problemas, que foram tratados pelo apóstolo Paulo. Ele também teve que orientá-la quanto a liturgia do culto, particularmente quanto ao uso dos dons espirituais (1Co 14.26-40).

e) À igreja de Éfeso Paulo instrui: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais,” (Ef 5.19)

f) À igreja de Colossos Paulo recomenda: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16)

g) Enfim, da adoração cristã fazem parte a pregação da Palavra (At 20.7), a leitura das Escrituras (1Tm 4.13), a oração (1Tm 2.8), os cânticos de louvor (Ef 5.19) e as ofertas (1Co 16.1-2), além do Batismo (At 2.37-41) e da Ceia do Senhor (1Co 11.23-29).

h) O Cordeiro de Deus que é adorado pela igreja, na terra, no livro de Apocalipse é adorado eternamente (Ap 5.8-14; 15.2-4).


5. A ADORAÇÃO INDIVIDUAL

a) Cultuando a Deus (Nós em Deus).

  • Confessando: para que eu obtenha o perdão dos pecados cometidos (por comissão – pensamentos, palavras e ações; ou, por omissão) e assim possa me aproximar dele.
  • Agradecendo: pelas bênçãos recebidas, desde o alimento até as bênçãos espirituais, mas, também, pelas provações.
  • Louvando: por sua grandeza, pelos seus atributos – Onipotência, Onipresença, Onisciência, Eternidade, Amor, Perfeição, Santidade, Verdade, Justiça, Fidelidade, Misericórdia etc.
  • Adorando: por quem ele é, por seus poderosos feitos e por tudo o que ele tem feito por nós, em Cristo.
    • Só a Deus (Mt 4.10);
    • Fruto de um compromisso de vida (Mt 15.7-9);
    • “Em espírito” (não exatamente com expressões externas) e “em verdade” (com sinceridade) (Jo 4.20-24)

b) Em Comunhão com Deus (Deus em Nós).

  • Falando abertamente com Deus sobre as nossas coisas. “Trazendo” o Senhor para o nosso cotidiano.
  • Esperando por sua resposta: “De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico esperando.” (Sl 5.3)

c) Intercedendo.

  • Pelo Reino de Deus:

Para que sejam instrumentos da realização da vontade de Deus na terra.

  • Pelo nosso Próximo:

Na Família, na Vizinhança, na Igreja, na Escola, no Trabalho etc.

  • Pelas Autoridades constituídas:

Para que exerçam com sabedoria e competência as suas respectivas funções.

d) Com Petições e Súplicas (Por mim).

“Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes.”(Jr 33.3)

“com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18)

Conclusão:

Precisamos ter sempre em mente a grandeza de Deus e de sua graça e tributar-lhe a verdadeira adoração. Precisamos estar atentos ao fato de nossos cultos serem realizados para adorar e agradar a Deus, ou a homens e seus modismos de última hora. Por mais belos que sejam os templos, os cenários, as músicas, as coreografias etc, nada disso pode nos afastar do foco de glorificar e adorar a Deus. Finalmente, precisamos assegurar que a nossa adoração, individual ou coletiva, encontra lastro numa vida santificada.

Você tem adorado a Deus em espírito e em verdade?
……………………………….

[1] As três dimensões da lei mosaica:
– Lei Moral (os dez mandamentos) – A que manda fazer o bem e evitar o mal;
– Lei Civil ou Social – A que regula as mútuas relações entre os cidadãos;
– Lei Cerimonial ou Religiosa – A que determina as regras de culto a Deus.


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 5 (A adoração no corpo) – Módulo 5 – EBD Catedral 2016, de modo a atender a temática proposta no material elaborado pelo Pr. Joel Theodoro para os alunos. Foram feitas algumas alterações para divulgação neste blog.

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