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Pastores e Estrelas

Pastores e Estrelas

Os seres humanos têm alguns comportamentos interessantes. Um deles é o exibicionismo, aquela necessidade de se mostrar para os outros. Acho que todos têm um pouco disso, uns mais, outros menos. Isso se manifesta das formas mais variadas possíveis e você sabe muito bem como é, ou como isso acontece. Pode ser aquele sobrenome diferenciado, imponente, ou o bairro nobre onde mora. Pode ser aquela faculdade de renome, os títulos que possui ou os idiomas que fala. Pode ser aquele parente importante que tem, ou aquele vestuário de grife. Podem ser aquelas viagens internacionais ou aquele carrão, no qual desfila. Pode ser o luxo da festa de 15 anos da filha ou do casamento ou das bodas e, até mesmo, o cemitério e jazigo onde a família sepulta seus mortos. Enfim, pode ser tanta coisa… E, onde isso acontece? Antigamente era no mundo real, mas hoje, com a tecnologia disponível, até virtualmente, nas redes sociais e aplicativos. Aliás, antes de postar alguma coisa no facebook deveríamos nos fazer as seguintes perguntas: 1) Isso vai glorificar a Deus? 2) Isso é útil e vai abençoar as pessoas? 3) Estou apenas expressando aqui o meu contentamento ou estou querendo me exibir? “Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade, e vivifica-me no teu caminho.” (Sl 119.37)

Alguém já te fez aquelas solenes perguntas: De que igreja você é? Quem é o teu pastor? Pois é, para se sair bem nessas horas, tem gente que faz questão de fazer parte de uma igreja com templo majestoso, com pastor famoso. Tudo isso tem a mesma origem: a necessidade de ser visto pelo outro como alguém muito importante, especial.

Não há nenhum mal em buscar o melhor para as nossas vidas, porém não podemos perder de vista aquilo que realmente tem valor, agora e eternamente. Não devemos nos encantar apenas com aquelas coisas que impactam a visão, mas, principalmente, com as que trazem significado profundo à existência.

Como Jesus reagiu ao que era o motivo de orgulho dos judeus, o Templo de Jerusalém? “Tendo Jesus saído do templo, ia-se retirando, quando se aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrar as construções do templo. Ele, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” (Mt 24.1-2). Certamente não foi com o mesmo entusiasmo dos discípulos. Muitos, ainda hoje, não entenderam o que o Filho e o Pai pensam sobre templos bonitos: “Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (At 7.48-50). Os discípulos estavam diante do Deus encarnado que “tabernaculou” (habitou) entre eles (Jo 1.14), varão aprovado por Deus diante deles com milagres, prodígios e sinais (At 2.22) e estavam tão impressionados com construções humanas. Poucos entendem que nesse tempo da Graça, nós é que somos templo de Deus (Jo 14.23), morada do Espírito Santo (Jo 14.17), ou conforme disse o apóstolo Paulo: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim;” (Gl 2.20a).

E, o que dizer de Pastores e Estrelas?

 1. Os pastores de Belém e a Estrela

Quando você leu o título, talvez tenha vindo, imediatamente, à sua mente a história do nascimento de Jesus. A narrativa bíblica fala de uma estrela diferente que brilhou no céu e de pastores no campo. O curioso disso é que, segundo essas narrativas, os pastores de Belém nada têm a ver com essa estrela! Se você prestar bastante atenção verá que: a) Essa estrela diferente é citada apenas por Mateus (quatro vezes), servindo de guia para conduzir os magos do oriente até Jesus (Mt 2.1-12). Esses magos eram estudiosos dos astros. b) Já os pastores de Belém foram citados apenas por Lucas (Lc 2.8-20). Em parte alguma da narrativa bíblica é mencionado que esses pastores viram ou foram guiados ao menino nascido, por essa estrela. Os anjos lhes anunciaram o nascimento de Jesus e lhes deram todas as dicas de como encontrá-lo. c) Ambos os grupos, magos e pastores, foram até Jesus (a verdadeira Estrela) e o encontraram.

Vamos refletir um pouco sobre Estrela.

a) Por definição, estrela é um astro que tem luz própria. O apóstolo Paulo, escrevendo sobre o corpo ressurreto, ilustra a diferença de esplendor, assim: “Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor.” (1Co 15.41). É claro que a lua não é uma estrela, pois reflete a luz do sol.

b) Estrelas e astros não devem ser adorados, como muitos povos faziam, pois não são deuses, mas criação do único Deus vivo e verdadeiro: “Guarda-te não levantes os olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejas seduzido a inclinar-te perante eles e dês culto àqueles, coisas que o SENHOR, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus.” (Dt 4.19)

c) Na simbologia bíblica, estrela pode ser interpretada como:

  • Sinal ou aviso, como a estrela vista pelos magos (Mt 2.1-12).
  • As doze tribos de Israel (Ap 12.1).
  • Pessoas importantes, como os onze irmãos, no sonho de José (Gn 37.9).
  • Pessoas sábias, iluminadas: “Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas, sempre e eternamente.” (Dn 12.3).
  • Uma referência aos anjos caídos na rebelião de Lúcifer (Ap 12.4, 9). Por extensão, os falsos líderes que agem na mesma linha (Jd 13).
  • Uma referência a Jesus Cristo, o Messias prometido: “Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá um cetro que ferirá as têmporas de Moabe e destruirá todos os filhos de Sete.” (Nm 24.17)

d) Estrela da alva ou da manhã:

  • Uma referência a Vênus, o segundo planeta do Sistema Solar, a partir do Sol. Depois da Lua, é o objeto mais brilhante do céu noturno. Como Vênus se encontra mais próximo do Sol do que a Terra, ele pode ser visto aproximadamente na mesma direção do Sol. Vênus atinge seu brilho máximo algumas horas antes da alvorada ou depois do ocaso, sendo por isso conhecido como a estrela da manhã (Estrela d’Alva) ou estrela da tarde (Vésper) (Wikipédia).
  • Uma referência a Satanás, o “luminoso”: “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.” (Is 14.12-14). Endossada por Cristo: “Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago.” (Lc 10.18; ver tb Ap 20.3 e 1Tm 3.6). E, como diz Paulo: “E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz.” (2Co 11.14).
  • Uma referência a Jesus, a brilhante Estrela, com “E” maiúsculo: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas. Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã.” (Ap 22.16).
  • Uma dádiva de Jesus “ao vencedor”, referindo-se, talvez, a poder real ou autoridade: “assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã.” (Ap 2.28).
  • Uma referência aos vários estágios de luz da revelação divina: “Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração,” (2Pe 1.19). As profecias do Antigo Testamento simbolizando a candeia; o cumprimento da profecias na primeira vinda de Cristo, simbolizando a estrela da alva; por fim, a segunda vinda de Cristo, nosso Sol da Justiça (Ml 4.2), trazendo toda a claridade.

Retornando aos pastores de Belém (Lc 2.8-20), temos de admitir que algumas coisas nos impressionam na narrativa:

1ª) O fato de Deus ter se importado com aqueles humildes e simples pastores, homens do campo, enviando-lhes o seu anjo (acompanhado de uma multidão da milícia celestial) para anunciar o nascimento do Deus-homem, do Salvador, do Bom Pastor (Jo 10.11), do Supremo Pastor (1Pe 5.4), do descendente de Davi (Mt 1.1) o pastor de ovelhas que se tornou o pastor de Israel; na cidade de Davi.

2ª) O fato desses pastores terem ido, apressadamente a Belém, para terem um encontro com aquele que é o Pastor dos pastores.

3ª) O fato desses pastores, depois do encontro com Jesus, proclamarem a todos a revelação que receberam a respeito de Jesus.

4ª) O fato desses pastores glorificarem e louvarem a Deus pelo que ouviram e viram de Jesus.

Que belo exemplo para todos aqueles líderes de igreja, pastores e presbíteros, seguirem!!! Centralidade total em Jesus! Satisfação completa em Jesus!

2. Estrelas na mão direita de Jesus

 7 estrelas

“Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.” (Ap 1.16)

“Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.” (Ap 1.20)

A primeira grande revelação do Apocalipse refere-se à visão que João teve do Senhor, ressurreto, no meio dos sete candeeiros de ouro, isto é, as sete igrejas da Ásia Menor, interpretação essa declarada no próprio texto. A igreja sofredora carecia de uma nova visão do Senhor, uma esplendorosa visão do Jesus Glorificado, para seu alento. Na visão tudo tem significado. Os elementos vistos e a posição de Jesus transmitem a mensagem de um Jesus presente, soberano, governante e protetor da sua igreja. A descrição do “Filho do Homem” e suas vestes, entretecem uma imagem de inigualável resplendor e majestade que deveria causar nos leitores uma sensação de confiança e segurança, restaurando-lhes a esperança e encorajando-os na luta pela causa da fé.

Entre as interpretações sugeridas pelos comentaristas bíblicos para essas “sete estrelas” ou “sete anjos” na mão direita de Jesus, citamos duas:

1ª) É uma referência a anjos literais. A palavra grega (aggeloi), traduzida por anjos, ocorre, pelo menos, 23 vezes no Novo Testamento. Em todas as outras 22 ocorrências fica claro tratar-se de referências literais a seres angelicais, por que aqui seria diferente? Assim como na Bíblia há a ideia de anjos guardando crianças (Mt 18.10) e outras pessoas (Sl 91.11; At 12.15); anjos e arcanjos guardando nações (Dn 12.1); não seria um absurdo considerar anjos guardiões de igrejas locais, aqui figuradamente citados.

2ª) É uma referência a pastores, líderes das referidas igrejas locais. Afinal, não faria sentido o apóstolo João ser orientado a escrever cartas para anjos literais.

Vale ressaltar que naquela ocasião, ainda não existia a figura de pastor de igreja, como temos hoje. Cada igreja local era liderada por presbíteros. Temos que tomar cuidado com teologia reversa. Mas, admitamos, por hipótese, que a referência seja a pastores de igreja. Então, consideremos esses pastores, não como estrelas, astros que têm luz própria, mas autoridades constituídas para pastorearem igrejas locais. Assim, podemos identificar através da visão que, na perspectiva divina, o lugar de um pastor é na mão direita de Jesus. Certamente, isso fala de um lugar de honra, mas também de dependência e submissão ao Senhorio de Cristo. Ele não está livre e solto para fazer o que quer!

 

3. Pastores-estrela

Concluindo esta abordagem, sem perder de vista as colocações iniciais sobre exibicionismo, na minha singela opinião, considero que nenhuma igreja local deveria se encantar com Pastores-estrela. Pastores-estrela são aqueles líderes de igreja famosos que querem brilhar mais do que Jesus, que querem ter luz própria. Apresento, a seguir, pelo menos sete razões para isso:

1ª) Eles apascentam a si mesmos e não as ovelhas do Senhor.

2ª) Eles estão mais interessados nos seus projetos pessoais, do que nos projetos de Deus para a igreja.

3ª) Eles custam muito caro para a igreja, quer pelas elevadas côngruas ou remunerações que recebem, quer pelos recursos que demandam e drenam da organização (humanos, materiais e financeiros).

4ª) Eles não têm tempo para pastorear o rebanho, para estar junto com as ovelhas, pois sua agenda de compromissos externos à igreja é imensa.

5ª) O foco deles não é pastorear ovelhas, cuidar delas, mas se apresentar em público.

6ª) Eles não têm cheiro de ovelha, mas podem até ter cheiro de enxofre, quando intentam subtrair a Glória que somente a Deus é devida.

7ª) Eles podem até manter a igreja cheia de gente e de religiosidade, mas zelar pela santidade dos membros não é o forte deles.

Finalmente, vale ressaltar:

– Jesus é o nosso Verdadeiro e Supremo Pastor. Não perca Jesus na caminhada! Somente ele é “O” Cabeça (relação hierárquica) e “A” Cabeça (relação de dependência) da Igreja!

– Não se anule, idolatrando líderes eclesiásticos. Idolatria é pecado! O Espírito Santo foi derramado sobre toda a igreja, distribuindo dons aos remidos do Senhor. Líderes e liderados, todos somos membros e parte do Corpo de Cristo – a Igreja.

– Além de ser parte do Corpo de Cristo, a igreja local também é uma instituição, com CNPJ, Estatutos etc. Como tal, requer de todos nós respeito e obediência às autoridades ali legalmente instituídas.

– Precisamos sim, de pastores de almas, vocacionados, chamados e capacitados por Deus para tão nobre missão: apascentar as ovelhas do Senhor Jesus Cristo.

“Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.7, 17)

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A “PARÁBOLA DO PASTOR SAMARITANO”

“Então lhe disse: Vai, e procede tu de igual modo.” (Lc 10.37b)

Então lhes contou a seguinte parábola(*): “Certo grupo de ovelhas havia se separado do rebanho e pastava próximo a estrada que desce de Jerusalém para Jericó. Casualmente descia um homem negociante por aquele mesmo caminho e, vendo-as, aproximou-se, porque percebeu haver ali uma oportunidade de lucro. Passou ele a saquear aquele pequeno rebanho, comendo da sua gordura, vestindo-se de sua lã e fazendo lucro com os mercadores que passavam naquele caminho. Apascentava a si mesmo e não às ovelhas. A ovelha fraca não fortalecia, a doente não curava, a quebrada não ligava, a desgarrada e perdida não  buscava e não trazia de volta. Consumido pela fome da terra, pelas feras do campo e pelo descaso daquele homem, o pequeno rebanho se enfraquecia e minguava. Assim, dominava sobre elas com rigor e dureza até o dia em que foi morto e despedaçado por uma raposa faminta que o atacou. Tempos depois, semelhantemente, um religioso descia por aquele lugar e, vendo aquele pequeno rebanho abandonado, aproximou-se com reservas para avaliar o que podia ser feito. Com seu pudor e vaidade exacerbados não se aproximava muito por causa do cheiro das ovelhas. Muito menos ousava tocá-las para limpar-lhes as feridas e ligar as quebradas. Às fracas e doentes não fazia chegar à boca alimento e água. Preferia manter-se numa atitude de contemplação daquele quadro que estava ali, diante dos seus olhos, elaborando lições de vida que pudesse compartilhar, mais tarde, com os religiosos e a sociedade. Não pensava em ficar ali muito tempo e rogava aos céus que viesse outro para assumir o seu lugar. Foi assim que, distraído com suas elucubrações sobre a religião e a dor da criatura  foi tomado de assalto por um lobo faminto e morreu. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, vendo aquele pequeno rebanho desamparado, fraco e doente, compadeceu-se dele. Apressando-se, chegou perto e, apeando do seu cavalo, começou a cuidar de todas as ovelhas. Examinando-as, uma a uma, fazia conforme a situação o exigia. Assim, tomando do vinho e do óleo que trazia, limpava e aplicava sobre os ferimentos delas. As fracas e doentes, tomou em seus braços e carregou para a sombra das árvores,  fazendo-lhes chegar à boca alimento e água. As menos debilitadas levou para pastagens próximas. Assim fazendo, cotidianamente, o pequeno rebanho foi rapidamente revitalizado. Então levou-as para um lugar seguro, fazendo-as pastar em pastos verdejantes e chegar às águas claras e tranqüilas. O rebanho estava agora protegido e saudável e, começou a se multiplicar. Aconteceu que, passado algum tempo, cuidando aquele samaritano daquele rebanho como quem cuida para o proprietário das ovelhas, a quem tem que prestar contas, chegou até ali um poderoso proprietário de terras e de gado, vindo de Jerusalém, a procura das suas ovelhas extraviadas. Sabedor de que suas ovelhas estavam sendo cuidadas pelo samaritano foi ao seu encontro. Quando o samaritano o avistou, também dirigiu-se ao encontro do proprietário e, aproximando-se, lhe relatou a situação em que encontrou e o que fez pelo rebanho desgarrado e que estava pronto a entregar-lhe as ovelhas, sem exigir qualquer recompensa em troca. O proprietário admirou-se sobremaneira ao ouvir o relato do samaritano e sua liberalidade. Então, com grande alegria, o convidou para ir com ele, a fim de pastorear, não apenas aquele pequeno rebanho, mas todo o rebanho de onde aquelas ovelhas haviam se desgarrado. E, assim, caminharam juntos na direção de Jerusalém.“

Estando, com eles, à parte lhe perguntaram o significado da parábola. Então, passou a interpretá-la, dizendo:  Nunca percam de vista que parábolas são narrações alegóricas com o propósito de destacar aspectos importantes, verdades que edificam ou que alertam os ouvintes ou leitores e que devem ser fixados na memória destes. Na sua interpretação, não tentem procurar ou produzir doutrinas dos seus detalhes. Muitos desses detalhes servem apenas para compor e dar sentido a estória ou história apresentada. O foco nesta parábola é o pequeno rebanho e os seus três “pastores”.  O pequeno rebanho pode ser uma igreja local. Os três homens, seus líderes ou pastores. Assim sendo, temos aqui três tipos de liderança, representados por cada um dos homens da parábola:

1º) PASTORES MATERIALISTAS: São eles orientados pelo conceito: O QUE É TEU É MEU, SE EU PUDER TIRAR DE VOCÊ! O foco destes está no conforto e nos bens materiais. São negociantes da fé: usam a fé para auferirem lucros materiais. Preferem estar no foco dos holofotes a estarem à sombra da Cruz. Preferem dirigir igrejas-empresas à igrejas-comunidades. São pastores que apascentam a si próprios e preenchem bem as características dos falsos pastores descritas em Ezequiel 34.1-10 e, retratadas,  nas atitudes do primeiro homem da parábola. Em nome de Deus e usando a Bíblia chegam quase a ameaçar as ovelhas, coagido-as a dar ofertas e dízimos, sem prestarem contas do que é feito com esses recursos. Outros preferem o discurso da prosperidade utópica, enquanto vão enchendo suas contas bancárias com moeda bem REAL e outras moedas também. Abram bem seus olhos, ovelhas!!!

2º) PASTORES RELIGIOSOS: São eles orientados pelo conceito: O QUE É MEU É MEU E O QUE É TEU É TEU! Enquanto o tipo anterior vive para o material, este tipo se fixa na religiosidade e na espiritualidade, no conhecimento e na teoria, na teologia contemplativa.  Alienado do mundo que o cerca, se esconde das ovelhas, imerso no seu próprio mundo intelectual e celibatário. Estes também não têm o DNA de pastor. Não gostam do cheiro do povo de Deus. Não gostam de chegar junto.

3º) PASTORES SAMARITANOS: São eles orientados pelo conceito: O QUE É MEU É TEU, SE VOCÊ PRECISAR! Opostos aos dois tipos anteriores, estes têm o foco na ovelha, em gente. Se doam e se deixam gastar pelas ovelhas do Senhor. Seguindo o exemplo do Supremo Pastor, Jesus, fazem como o “pastor samaritano da parábola”. Estão nos púlpitos, pregando o Evangelho, orientando e ensinando a palavra; mas, também, nos gabinetes ao lado dos que necessitam de aconselhamento. Estão junto às ovelhas nas suas celebrações e ações de graças; mas, também, nos lares, nas enfermarias, nos  CTIs, orando com os enfermos e levando-lhes uma palavra de conforto e esperança.  Ao invés de saquear, ou se alienar, disponibilizam a si próprios e, a tudo que têm, no ministério que receberam do Senhor das ovelhas. Fazem a obra como quem tem que prestar contas ao Senhor das ovelhas. Graças a Deus pelos “pastores samaritanos” que serviram, servem e ainda servirão ao Senhor aqui na nossa igreja e, nas demais igrejas locais. Um dia ouvirão do Pai Celeste,  “foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor.” O galardão de um verdadeiro pastor já está assegurado para eles: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4). Queridos pastores, a vocês que têm dado a vida pelo rebanho de Deus, nossa sincera gratidão e apreço. Que o Senhor fortaleça, ilumine e abençoe a vocês! A paz seja com todos.

(*) Criei esta parábola apenas para ilustrar algumas verdades.

Presb. Paulo Raposo Correia
Editorial do Boletim de 12/07/2009
Dia do Pastor – Catedral Presbiteriana do RJ

PASTORES QUE DEIXAM SAUDADE

PASTORES QUE DEIXAM SAUDADE

“Então, o povo se lembrou dos dias antigos, de Moisés, e disse: Onde está aquele que fez subir do mar o pastor do seu rebanho? Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo?” (Is 63.11)

Saudade…. É mais fácil sentir do que explicar. É um sentimento de vazio pela ausência de alguém ou de alguma circunstância que deveria estar “aqui e agora”, e não “lá e então”, distante, no doce recanto cativo da memória. Quem são esses pastores que deixam saudade? Cada um de nós tem sua própria lista. A questão é, por que eles deixam saudade? A partir da investigação histórica de três pastores, que estão na lista de todos aqueles que amam a Bíblia, poderemos encontrar a resposta: Moisés, representando Israel (AT), Paulo, representando a Igreja (NT) e Jesus, o autor e consumador da fé, a ponte entre a Lei e a Graça, o único mediador entre Deus e os homens. Há três processos básicos pelos quais passaram esses e tantos outros grandes vultos da história e das páginas sagradas: ESVAZIAMENTO, ENCHIMENTO e TRANSBORDAMENTO.

1º) Esvaziamento é o processo de renúncia do “eu”, daquilo que somos ou possuímos, inclusive a cultura secular, tendo a certeza de que nada disso se constitui em elemento indispensável para o êxito da missão que Deus quer realizar através de nós, admitindo, entretanto, que estas coisas, quando subordinadas a Deus, podem ser acessórios úteis. Moisés passou os primeiros 40 anos de sua vida na corte egípcia aprendendo a ser alguém (At 7.22). Teve que ser arrancado do pináculo do poder real, despojado de todos os títulos e riquezas terrenas, quando, por conta própria, tentou fazer alguma coisa pelo seu povo e fracassou (At 7.23; Hb 11.24-26). Paulo, o apóstolo dos gentios, enquanto Saulo, caiu por terra, onde deixou ficar sua alta posição social e tudo aquilo que era valorizado pela sociedade (Fp 3.4-11). Jesus, que deve ser visto de uma forma diferenciada em toda essa abordagem, de certa forma “a si mesmo se esvaziou” (Fp 2.7) da Glória que tinha junto ao Pai (Jo 17.5).

2º) Enchimento é o processo de crucificação do “eu”, através da identificação ou união mística do crente regenerado com Deus, pela operação do Espírito Santo. Para ser cheio do Espírito é preciso primeiro esvaziar-se de si mesmo. Moisés passou o segundo período de 40 anos de sua vida aprendendo que não era nada e que nada poderia fazer de si mesmo. Na terra de Midiã, depois de atravessar o deserto abrasador, ele aprendeu a pastorear os rebanhos do seu sogro, como preparação para pastorear o rebanho de Deus. E foi assim que no final desses 40 anos, ele teve a visão, o chamado e a capacitação de Deus, que lhe falou do meio da sarça ardente (At 7.30-35). Após sua conversão e batismo, Paulo voltou a Jerusalém, mas foi impelido pelo Senhor para as regiões da Arábia, para estar a sós com Deus, se preparando para sua nova missão (At 22.17; Gl 1.17). Jesus, após o seu batismo e unção pelo Espírito do Senhor, foi conduzido ao deserto para ser tentado e para estar a sós com Deus, antes de iniciar o seu ministério público (Mt 4.1-11).

3º) Transbordamento é o processo de submissão do “eu”, é o direcionamento do “eu” a serviço de Deus e do próximo, para que a vontade de Deus seja feita na terra, assim como é feita no céu. Quando se está cheio, se transborda em todas as direções. Moisés, que já tinha apreendido a ter humildade, passa o terceiro e último período de 40 anos de sua vida aprendendo a ter fé e a depender de Deus, aprendendo que Deus é tudo. Paulo e Jesus também experimentaram isso (Gl 2.19-20; Fp 2.8; Hb 5.8-9).

Esses três pastores deixaram saudade por aquilo que foram e pelo que Deus realizou através deles: Moisés, cooperou com Deus na libertação de Israel da escravidão do Egito e no estabelecimento da nação livre, proclamando a Lei Moral, a Lei Civil ou Social e a Lei Cerimonial ou Religiosa. Jesus, cooperou com Deus na obra de libertação dos eleitos da escravidão de Satanás e do pecado e no estabelecimento de um novo reino, proclamando e ensinando um novo modo de vida. Paulo, cooperou com Deus na libertação dos homens da escravidão do judaísmo (legalismo) e das falsas crenças e no estabelecimento da Igreja, sistematizando as doutrinas da fé cristã.

Finalmente, é preciso alertar que não raramente você encontrará pastores que estão vivendo na contramão de tudo o que foi escrito acima. Alguns podem até ter começado com sinceridade e humildade, comprando livros com dificuldade, vestindo roupas surradas, dependendo da ajuda dos irmãos para concluírem seus cursos teológicos. Infelizes são aqueles que, no decorrer dos anos, passam a ver o ministério pastoral como profissão e não mais como vocação. Passam a dar foco no seu sustento e não no sustento da obra de Deus; na organização eclesiástica e não no corpo vivo de Cristo. Enchem-se de teologia e de vãs filosofias humanas, passando a pregá-las em lugar da Bíblia, que deixa de ser texto para se tornar pretexto. Suas vidas e pregações são como “o bronze que soa” ou como o “címbalo que retine”; pastores “que se apascentam a si mesmos” (Ez 34.2). Chegam a se considerarem indispensáveis e insubstituíveis, do tipo que pensa, “sem mim eles nada poderão fazer”. Ao invés de promoverem libertação e edificação, trazem escravidão e destruição. Certamente esses, em vez de deixarem saudade, trarão alívio ao povo de Deus quando deixarem o ofício.

Graças a Deus pelos pastores que deixaram saudade e pelos que ainda deixarão. Eles realizaram ou realizam seu trabalho sem a preocupação do aplauso humano, pois o fazem como para o Senhor e não para os homens. O galardão de um verdadeiro pastor já está assegurado: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4). Queridos pastores, a vocês que têm dado a vida pelo rebanho de Deus, nossa sincera gratidão e apreço. Que o Senhor te fortaleça, te ilumine e te abençoe! A paz seja com todos.

Presb. Paulo Raposo Correia
Editorial do Boletim de 08/12/2002
Dia do Pastor – Catedral Presbiteriana do RJ

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