Arquivo

Posts Tagged ‘pastorear’

O pastoreio da igreja na atualidade

pastoreio atual

Nos últimos três artigos e no atual, estamos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos trouxemos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. Neste quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante.

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Os termos usados

Ao fazermos a ponte entre os primeiros tempos da igreja e a época atual, vamos começar apresentando os nomes dados a esses líderes da igreja que sucederam os apóstolos. Todos os nomes se aplicam ao mesmo tipo de oficial e líder da igreja, sendo que cada um destaca e ressalta um aspecto peculiar da pessoa ou do ofício.

i. PRESBÍTERO ou ANCIÃO (At 11.30 – 1ª vez)

Termo de Dignidade: sugere Maturidade e Experiência
Homem maduro, experimentado, criterioso e respeitado que dá sábios conselhos para orientação dos membros da igreja.

ii. BISPO (“episkopos”, grego) (At 20.28; Fp 1.1)

Termo de Superintendência: sugere Direção
Homem diligente que preside os trabalhos, as reuniões, organiza e supervisiona tudo

iii. PASTOR

Termo de Ternura: sugere Cuidado
Homem zeloso que apascenta o rebanho de Deus, preparando-lhe pastagens verdejantes (mensagens espirituais e práticas vitais) e guiando-o às águas tranquilas, isto é, proporcionando-lhe um ambiente espiritual, agradável e alegre.

Tais termos frequentemente aparecem no plural, fazendo referência à liderança plural de cada igreja local.

Ofício e Dom

Em segundo lugar é importante reafirmar que este ofício de Presbítero ou Ancião ou Bispo ou Pastor (1Pe 5.2) é diferente do Dom de Pastor (Ef 4.11).

O significado de ofício é o mesmo de profissão, ou seja, “Profissão é um trabalho ou atividade especializada dentro da sociedade, geralmente exercida por um profissional. Algumas atividades requerem estudos extensivos e a masterização de um dado conhecimento, tais como advocacia, biomedicina ou engenharia, por exemplo. Outras dependem de habilidades práticas e requerem apenas formação básica (ensino fundamental ou médio), como as profissões de faxineiro, ajudante, jardineiro. No sentido mais amplo da palavra, o conceito de profissão tem a ver com ocupação, ou seja, que atividade produtiva o indivíduo desempenha perante a sociedade onde está inserido.” (Wikipédia)

Já o significado de dom pode ser expresso na sociedade como aquela capacitação ou talento natural; e, na igreja, como aquela capacitação ou habilidade especial concedida pelo Espírito Santo, “… com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.12). O que o apóstolo Paulo menciona em Efésios são os cinco dons ministeriais, dons que concedem capacitação sobrenatural para o exercício dos ministérios: Apóstolo / Profeta / Evangelista / Pastor / Mestre.

As etapas do planejamento divino

O que Deus planejou para a liderança e governo da sua igreja?

Tudo começou com o “Seminário de Jesus” treinando e preparando os apóstolos para a era da igreja. Se considerarmos 10h/dia, 365 dias/ano e 3 anos teremos uma carga horária de 10.950h/aula. Se considerarmos um curso de teologia de 4h/dia, 20 dias/mês, 9 meses/ano e 5 anos teremos 3.600h/aula. Portanto, o “Seminário de Jesus” teve a carga horária mais do que o triplo de um curso de teologia convencional. Os apóstolos foram treinados pelo Mestre dos mestres, com aulas teóricas e práticas insuperáveis.

Na segunda fase do planejamento divino, tudo isso foi potencializado no Pentecostes, com a unção e capacitação dos apóstolos e dos primeiros discípulos pelo Espírito Santo. Também o apóstolo Paulo foi chamado e designado por Deus para fortalecer o grupo.

Na terceira fase, a liderança da igreja foi assumida apenas por presbíteros, eleitos em cada igreja local, sempre no plural (At 14.23). Os primeiros foram instruídos, pessoalmente, pelos apóstolos, e pelas cartas doutrinárias ou epístolas que percorriam as igrejas, pois as Escrituras do NT ainda estavam sendo escritas.

As características das igrejas locais do primeiro século

A simples leitura do NT nos mostra que tais igrejas locais:

i. Se reuniam com simplicidade nos espaços e locais onde pudessem ser acomodados, até mesmo nas casas (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 1.2).

ii. Naturalmente começaram com poucos membros e foram crescendo dia após dia.

iii. Tinham governo próprio e independente, porém com o compromisso de manter a doutrina: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42)

iv. Também estavam comprometidas com evangelismo, missões e ação social.

Os desafios das igrejas locais de ontem, de hoje e de sempre

Enquanto o número de membros é pequeno, a organização e governo da igreja local é mais simples. Na medida em que o grupo local cresce, dois caminhos podem ser trilhados. O primeiro é o de dividir o grupo, formando novas igrejas locais, o que possibilitará manter a simplicidade de organização e governo. O desafio desse caminho é encontrar um novo espaço e convencer parte do grupo a migrar para a nova igreja local. O segundo caminho é manter todo o grupo junto e partir para um novo espaço, capaz de acomodar o grupo atual e com folga suficiente para acomodar muitos outros membros, no caso do espaço atual não poder ser ampliado. O desafio desse segundo caminho passa a ser organização, administração e governo de uma igreja tão numerosa. Para dar conta de tudo isso, é preciso criar uma estrutura de pessoal para cuidar das questões administrativas e atividades meio da igreja. Por outro lado, é preciso estabelecer uma estrutura de pessoal para orientar e liderar a atividade fim da igreja.

Na história da igreja, ambos os caminhos ou modelos têm sido trilhados ou adotados. Isso tem gerado dois grandes e permanentes desafios para a Igreja de Cristo, a saber:

  1. Manter as igrejas locais no trilho da sã doutrina bíblica, considerando a multiplicidade de igrejas locais e de líderes.
  2. Manter uma estrutura de pessoal e liderança que dê conta de todas as demandas “materiais” e “espirituais” de uma igreja local mais numerosa.

O que parecia tão simples: um só Deus e Pai; um só Mediador e Salvador, Jesus Cristo; um só Espírito Santo, unindo, ungindo e capacitando todos os remidos; uma única igreja, a de Cristo; com um só livro, a Bíblia, Única Regra Infalível de fé e prática; sim, o que parecia tão simples tem se tornado um grande desafio de unidade.

Entendo que, por conta disso e com a vontade permissiva de Deus, surgiram as denominações, tentando, cada uma, estabelecer sua solução para esses dois grandes desafios. Cada uma, então, apresenta a sua própria visão doutrinária da Bíblia e sua forma de governo (episcopal, presbiteriano ou congregacional).

As pequenas igrejas não teriam dificuldade para manter o modelo de liderança da igreja primitiva, através de presbíteros. Aliás, no mundo inteiro, ainda hoje existem muitas igrejas locais que seguem esse modelo, isto é, são lideradas por presbíteros e não têm a figura de um pastor como oficial líder. Certamente esses líderes deveriam ter o preparo necessário para o exercício do ofício, ou seja, atender as qualificações neotestamentárias estabelecidas. Entretanto, parece que já no segundo século da igreja surgiu a necessidade de líderes de igrejas locais que dedicassem mais tempo ao ministério eclesiástico. Afinal, os presbíteros tinham suas famílias e suas obrigações de trabalho secular para sustenta-las. É, assim, que surgem os pastores das igrejas locais para assumirem maior responsabilidade de liderança, compartilhando o governo da igreja com os presbíteros, dependendo da forma de governo adotada. É interessante verificar a defesa de Paulo a favor do sustento dos que vivem para o evangelho (1Co 9.1-14).

Finalmente, concluímos estes quatro artigos dizendo que Pastorear o Rebanho de Deus” é simples assim! É preciso ter muito cuidado com a perigosa TEOLOGIA REVERSA; aquela que parte do HOJE para a BÍBLIA, isto é, estabelece hoje algumas linhas de pensamento, conceitos, estruturas e doutrinas, muitas vezes copiando e acompanhando a sociedade secular, o mundo, e, então, tentam construir algum respaldo bíblico para isso, normalmente bizarro e fora do contexto. Os defensores da TEOLOGIA LIBERAL se encaixam nesta mesma linha de ação. Por outro lado, o que apresentamos aqui e o que defendemos é a TEOLOGIA DIRETA, onde procuramos partir da Bíblia para estabelecer o que fazer e como fazer HOJE. Se, por conta disso, os liberais quiserem nos taxar de fundamentalistas, fiquem à vontade. O que mais nos importa é viver e “defender” as Sagradas Escrituras!

 

Anúncios

A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

4 coroas

Nos últimos dois artigos, no atual e no próximo, estamos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos traremos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. No quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante. Vejamos, agora, o terceiro artigo.

 

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

4 Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.

Se há presbíteros que devem pastorear o rebanho, há um pastor acima deles. O Senhor Jesus é mencionado na Bíblia como pastor em quatro momentos ou tempos:

 

a) O Pastor (Prometido)(Mt 26.31; Zc 13.7)

O Messias prometido desde os tempos antigos, aquele pastor que viria para ser ferido de morte em prol do seu rebanho que ficaria momentaneamente disperso.

 

b) O Bom Pastor (Encarnado)(Jo 10.11)

Aquele pastor que veio e é capaz de dar a sua vida pelas ovelhas, diferentemente do mercenário que as abandona na hora do perigo.

 

c) O Grande Pastor (Ressuscitado)(Hb 13.20-21).

Aquele pastor que se foi, depois de dar a sua vida pelas ovelhas e de ser ressuscitado pelo Pai, estabelecendo por meio do seu sangue uma Eterna Aliança.

 

d) O Supremo Pastor (Glorificado)(1Pe 5.4).

Aquele pastor que há de voltar para reunir o seu rebanho e galardoar os que o serviram e realizaram a boa obra que lhes foi confiada.

 

Então, a forma que Pedro usa para motivar os presbíteros a desempenharem com dedicação e excelência o pastoreio é implantando em seus corações a viva esperança de que o Pastor dos pastores, o Supremo Pastor Jesus há de se manifestar outra vez entre os homens e irá recompensá-los com um coroa “imarcescível”, que não desaparece, que não se degrada com o tempo, que não perde o seu valor, em contraste com tudo que aqui é transitório e passageiro.

Já nos detivemos um pouco no sujeito da ação de recompensar, o Senhor Jesus Cristo e suas várias e interessantes referências como pastor. Pensemos, agora, naquilo que é o objeto da recompensa, a “coroa da glória”. Muitos não assimilam muito bem a ideia do galardão e muito menos das coroas.

Outra verdade bíblica irrefutável é a promessa de galardão. Aparece pela primeira vez em Gênesis 15.1 como promessa de Deus a Abrão e, pela última vez, em Apocalipse 22.12 – “E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras”. Não tem sentido algum imaginar os galardões como objetos materiais dentro de um mundo espiritual. Os galardões não estão ligados às coisas que “obteremos”, mas sim ao que “seremos”, aquilo em que nos “tornaremos”.

Um dos aspectos básicos e primordiais da fé Cristã é que, no mundo porvir, há duas recompensas prometidas: a recompensa devido a Graça – Vida Eterna – e a recompensa devido ao Serviço – Galardão.

 

1ª) A VIDA ETERNA é em si a grande recompensa dos filhos de Deus (Mc 10.30; Mt 19.29 e Lc 18.30). Essa é a recompensa geral e igual de todos os remidos por Cristo: “…para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)

2ª) GALARDÃO (recompensa, premio) é o segundo tipo de recompensa reservada aos servos de Deus. Vários são os textos bíblicos que mencionam os galardões:

O galardão é grande: Mt 5.12; Lc 6.23.

O galardão é condicional: Mt 6.1.

O galardão é diferenciado: Mt 10.41-42.

O galardão é recompensa por atitudes tomadas: Lc 6.35.

O galardão é segundo as obras praticadas: 1Co 3.8, 14; Ap 22.12.

Outros textos: Hb 11.26; Ap 11.18.

 

Em síntese, podemos afirmar que:

Graça é dádiva, de Deus. Galardão é recompensa, prêmio pelas obras dos homens.

A graça é imerecida; é dom gratuito de Deus, recebida pela fé, sem dinheiro e sem preço (Rm 6.23). O Galardão é merecido; é o salário pelo serviço prestado, recebido pelas obras através do labor e sacrifício.

A salvação é recebida de graça por meio do ESPÍRITO e as coroas são ganhas com esforço, por meio do CORPO: “Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.” (2Co 5.10)

 

É interessante que Jesus recebeu uma coroa de espinhos dos seus algozes (Mt 27.29; Mc 15.17; Jo 19.2, 5), porém tem reservado para os seus servos outros tipos de coroas. As quatro coroas prometidas aos servos de Deus são:

 

1ª) Coroa da Vida (Ap 2.10; Tg 1.12)

“Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” (Ap 2.10)

“Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam.” (Tg 1.12)

 

“Para os mártires

No amor pela pessoa de Cristo

Alcançada perante os inimigos

No testemunho em presença da morte” (*)

 

2ª) Coroa Incorruptível (1Co 9.25)

“Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível.”

 

“Para os vencedores

No amor pelas almas sem Cristo

Alcançada perante os descrentes

Na pregação do Evangelho.” (*)

Como? Sacrificando a vida (1Co 9.19-23), com eficácia (1Co 9.24-26) e mantendo o bom testemunho (1Co 9.27)

 

3ª) Coroa da Glória (1Pe 5.4)

Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.

 

“Para os servos fiéis

No amor pelas ovelhas de Cristo

Alcançada perante a Igreja

No apascentar do rebanho” (*)

 

4ª) Coroa da Justiça (2Tm 4.7-8)

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.”

 

“Para os vigilantes

No amor pela vinda de Cristo

Alcançada perante ele mesmo

No anseio pela sua vinda” (*)

 

Deixamos aqui duas palavras, uma de esclarecimento e a outra de advertência.

A primeira, de esclarecimento e motivação é a seguinte. Como pode ser observado na exposição acima das coroas, qualquer cristão poderá ser recompensado com uma dessas coroas, pois os requisitos são variados, elas não estão restritas apenas aos líderes. Podemos inferir que até mesmo esta coroa de glória poderá ser recebida por um servo ou uma serva de Deus que não exerceu uma função ou papel formal de liderança na igreja, pois essas não estão atreladas a títulos, mas aos serviços realizados.

A palavra de advertência tem por base o texto: “Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa.” (Ap 3.11). É preciso ficar atento ao que se realiza ou deixa-se de realizar por meio do corpo. O apóstolo Paulo acrescenta: “Contudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo.” (1Co 3.12-15). No Tribunal de Cristo não estará na pauta o julgamento para salvação ou condenação. Entretanto, serão julgadas as obras dos crentes, com vistas a galardão ou destruição pelo fogo da avaliação divina. Aquilo que realizarmos por meio do corpo que teve a aprovação de Deus será recompensado; enquanto que as coisas inúteis e irrelevantes, segundo o juízo divino, serão destruídas, ainda que possam ter grande valor para quem as realizou. Portanto, é importante avaliar a cada momento se o resultado do nosso esforço é para recompensa ou destruição. Porque se a Graça depende totalmente de Cristo, o Galardão depende “totalmente” do crente, que precisa estar em sintonia com o Pai: “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2.13).

 

(*) Pinto, José Boechat. As coroas dos crentes (Edições Cristãs)

 

_____________________

Leia nos artigos anteriores:

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

 

Leia no próximo artigo:

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

 

O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Jeito errado-certo

No último artigo, no atual e nos próximos dois, estamos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos traremos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. No quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante. Vejamos, agora, o segundo artigo.

 

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

 2 pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade;

3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.

 

O texto não só expressa o anseio e apelo de Pedro, mas também alguns ensinamentos importantes:

1º) Era tarefa e função dos presbíteros de cada igreja pastorear, ou seja, guiar, alimentar e cuidar do rebanho.

2º) Nunca se pode perder de vista que o rebanho é de Deus e não de algum líder. O recado velado é simples, preventivo e oportuno.

3º) O rebanho de Deus está espalhado por toda a parte, mas não está disperso, nem perdido. Está distribuído por aí em pequenos rebanhos que precisam ser pastoreados por seus respectivos presbíteros.

A tarefa de pastorear traz a reboque alguns requisitos e desafios. Três deles são aqui mencionados:

 

1. “não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer”

A palavra “constrangimento” traz em si mesma uma carga negativa; não combina com o ser humano e nem com o verbo fazer. Fazer algo por constrangimento é ser forçado a fazer, quando não se queria fazer; é fazer por obrigação. Isso nunca é bom para quem faz e produtivo para a missão ou tarefa ou obra a ser realizada. A tarefa de pastorear é verdadeiramente preciosa aos olhos de Deus e nobre diante dos olhos humanos; mas não é para qualquer pessoa. O apóstolo Paulo afirma: “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (1Tm 3.1). A obra é excelente, mas nem todos são vocacionados para realiza-la. Daí a probabilidade real de alguém ser constrangido ou “forçado” a realiza-la. Muitas são as razões ou circunstâncias que podem levar alguém a esse pastorear por constrangimento. Podemos citar aqui algumas delas, para exemplificar:

a) – Não tem ninguém melhor para fazer, então assuma você (necessidade);

b) – Isso pode me colocar numa posição de destaque e visibilidade, então vou assumir, mesmo não gostando (vaidade);

c) – Isso é uma tradição de família, então você tem que assumir (tradição);

d) etc etc

O pastorear não pode ser determinado pela imposição das circunstâncias, nem pela vontade dos outros, nem pela ambição humana, nem pelos caprichos do tradicionalismo. Antes, porém, precisa ser exercido espontaneamente, em atendimento ao nítido e inconfundível chamado de Deus. O padrão não é humano e nem negociável; tem que ser exatamente como Deus quer!

2. “nem por sórdida ganância, mas de boa vontade”

 Outra forma errada de pastorear é fazê-lo de forma gananciosa; aquele jeito sujo, nojento de se obter alguma vantagem financeira do rebanho de Deus se aproveitando do ofício. Imaginem o acerto de Pedro, inspirado pelo Espírito Santo, é claro, prescrevendo algo que na história da igreja tem sido uma lamentável realidade, principalmente neste século 21. Quantos falsos pastores, verdadeiros mercenários, estelionatários da fé, mercadejadores da Palavra de Deus, têm enriquecido manipulando e despojando aquelas ovelhas ingênuas do Senhor. Paulo insere este aspecto na qualificação de presbíteros, “… não cobiçoso de torpe ganância,…”(1Tm 3.3; Tt 1.7) e, também, na qualificação dos diáconos: “…, não cobiçosos de sórdida ganância,…” (1Tm 3.8). Na ocasião já havia indícios de que isso seria problema para a igreja (Tt 1. 10-12).

Ao contrário disso, o apelo do apóstolo é que o pastoreio seja exercido de boa vontade, sem exigir nada em troca. Pedro conhecia bem o exemplo do Mestre, que deu muito e pediu muito pouco. Deu pães e peixes com fartura e pediu apenas cinco pães e dois peixes (Mc 6.35-44). Nem para pagar o imposto de meio estáter (duas dracmas) pediu, antes, porém, enviou Pedro a pescar um estáter que estaria na boca do primeiro peixe fisgado (Mt 17.24-27). E, também disse: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At 20.35).

 

3. “nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho”

A figura que salta aos olhos neste terceiro caso é a de um mordomo. Aquele que pastoreia se assemelha ao mordomo a quem o dono da casa confia a administração dos seus bens e dos seus servos. O grande risco e equívoco de ambos, é pensar e agir como se fossem donos e não servos. Aquele que pastoreia não é dono do rebanho e o rebanho não é de animais, mas de gente. Gente salva por Cristo, com todo o direito de pensar com sua própria cabeça. Gente que não precisa ser dominada, nem mentalmente manipulada, mas que precisa ser orientada. Gente que, se não seguir a orientação de seus líderes, segundo a Palavra de Deus, colherá as consequências na sua vida e família. Gente que um dia terá que prestar contas dos seus atos diretamente a Deus. Aliás, também os presbíteros hão de prestar contas a Deus do seu ministério: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.17)

Em vez de dominar, o que se recomenda aos presbíteros é agir de tal forma que mais do que as palavras, suas vidas sirvam de modelo e exemplo a ser seguido pelos irmãos.

____________________

Leia no artigo anterior:

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

 

Leia nos próximos artigos:

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

 

A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Apóstolos-Presbíteros

Nestes próximos quatro artigos estaremos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos traremos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. No quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante.

 

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada:”

O apelo é dirigido “aos presbíteros que há entre vós”. A igreja neotestamentária era governada e pastoreada pelos presbíteros, que, por sua vez, eram auxiliados pelos diáconos. Os presbíteros eram os oficiais da igreja que se dedicavam prioritariamente à pregação, ao ensino da Palavra e à oração; enquanto os diáconos cuidavam em atender às necessidades materiais dos santos (At 6.2-4). E, todos os crentes, inclusive presbíteros e diáconos, tinham a responsabilidade e privilégio de testemunhar, falar da salvação em Jesus e, além disso, de praticar o amor e procurar com zelo os dons espirituais (1Co 14.1) para serem aplicados no serviço cristão: “… com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.12). A expressão “que há entre vós”, isto é, nas diversas igrejas locais para as quais a epístola foi escrita (1Pe 1.1), nos revela a normalidade do uso de tal ofício. Paulo, o apóstolo dos gentios e responsável pela organização da maioria dessas igrejas locais, não descuidava desse importantíssimo aspecto: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23); “Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi:” (Tt 1.5). Ressalte-se a preferência pela pluralidade de oficiais presbíteros em cada igreja. De certa forma, isso tinha em vista a garantia de continuidade e da ordem institucional e eclesiástica.

É interessante observar o posicionamento de Pedro ao se expressar assim: “…eu, presbítero como eles,…”. Há quem valorize a existência de hierarquia, castas, divisões, na sociedade e, até mesmo, na igreja. Parece que tal ideia não tinha muitos defensores entre os apóstolos. Pedro revela isso aqui e o apóstolo João prefere se identificar como “o presbítero” (2Jo 1.1; 3Jo 1.1). Em certos textos, nota-se que eles preferiam se identificar, prioritariamente, como servos: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus,” (Rm 1.1; Tt 1.1; 1Pe 2.1). Qual a diferença entre apóstolos e presbíteros?

a) Os apóstolos

A palavra “apóstolo” (gr. apostolov) significa “alguém enviado”, como um embaixador que leva uma mensagem e representa aquele que o enviou. O termo é composto do prefixo “apo” (afastamento, separação), mais gr. stelw (enviar). Entretanto, esse termo é empregado no Novo Testamento para qualificar dois grupos distintos de pessoas:

Como título oficial, que dá a entender poderes e autoridade especiais em referência aos alicerces da igreja (ver Ef 2.20), aplicava-se exclusivamente aos doze apóstolos originais, a Matias e a Paulo. São os doze mencionados em Apocalipse 21.14. As qualificações ou credenciais (ver 2Co 12.12) de um apóstolo incluem:

 i. Ter sido escolhido pessoalmente pelo Senhor ou pelo Espírito Santo (Mt 10.1-2; At 1.26; Gl 1.1);

 ii. Ter visto o Senhor e ser testemunha de sua ressurreição (At 1.22; 1 Co 9.1);

 iii. Ser investido com dons miraculosos, os “sinais”, “prodígios” e “maravilhas” (At 5.15-16; Hb 2.3- 4).

Contudo, há também um sentido não-técnico, secundário, da palavra “apóstolo”. Trata-se de uma aplicação mais abrangente do termo. Esse sentido secundário dá a entender essencialmente o que denominamos hoje de “missionários”, pessoas enviadas e dotadas de poder e autoridade especiais. Vale lembrar que o termo “missionário” não se encontra no NT. É desta forma que Barnabé é referido como “apóstolo”, juntamente com Paulo em Atos 14.4. O apóstolo Paulo aplica essa palavra, neste mesmo sentido, a Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.19). Neste mesmo sentido Epafrodito é citado, por ser “mensageiro” (gr. apostolon) da igreja em Filipos (Fp 2.25, ver ainda a citação de “mensageiros”, gr. apostoloi, em 2Co 8.23). Não se pode deixar de mencionar os falsos apóstolos mencionados e denunciados no NT (2Co 11.13 e Ap 2.2).

 

Na verdade, o ministério apostólico dos doze era temporário e transitório. Na Antiga Aliança, Deus chamou a Abraão e, através de seu neto Jacó (ou Israel), elegeu para si um povo, Israel, formado por doze tribos, que levavam os nomes dos seus filhos. Na Nova Aliança, Jesus foi enviado por Deus para reunir um novo povo eleito, os remidos pelo seu sangue. Assim como Moisés foi usado por Deus com autoridade e poder (Ex 7.3), para dar corpo e forma a este povo, Jesus, também foi usado e aprovado por Deus diante de todos para inaugurar um novo tempo (At 2.22). Como ele havia de morrer, ressuscitar e retornar ao pai, para que o Espírito Santo de Deus fosse derramado sobre todos os remidos, ele mesmo escolheu, chamou e capacitou doze discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos (Lc 6.13), sendo um deles (Judas Iscariotes) posteriormente substituído, para dar corpo e forma a este novo povo, que lhe aprouve chamar de sua igreja. Como o próprio nome indica, o livro de “Atos dos Apóstolos” registra um pouco do muito que o Espírito Santo realizou através deles.

Resumidamente, podemos dizer que os apóstolos:

  • Receberam mandamentos por intermédio do Espírito Santo (At 1.2);
  • Ensinaram a doutrina do Senhor (At 2.42; 2Pe 3.2; Jd 1.17);
  • Juntamente com os profetas do Antigo Testamento estabeleceram o fundamento sobre o qual a igreja seria edificada (Ef 2.20);
  • Realizaram muitos prodígios e milagres (At 2.43; 5.12);
  • Com grande poder, davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus (At 4.33);
  • Recebiam doações e providenciavam a distribuição aos mais necessitados (At 4.34-35);
  • Foram presos e castigados para que não falassem em o nome de Jesus (At 5.18; 5.40);
  • Orientaram a igreja a escolher homens para servir, os futuros diáconos, e impôs as mãos sobre eles (At 6.1-6);
  • Exerciam, juntamente com os presbíteros, o governo da igreja (At 15.2).

 b) Os presbíteros

O texto de Atos 8.1 nos apresenta um divisor de águas do ministério apostólico. A partir daquele momento a atuação apostólica ficou praticamente circunscrita a Jerusalém, com poucas incursões fora destes termos, realizadas principalmente pelo apóstolo Pedro (At 9.32) e, eventualmente, acompanhado por João (At 8.14); sendo Pedro aquele que havia recebido do Senhor as chaves para abrir a porta do Evangelho aos judeus e gentios (Mt 16.19). Entretanto, a partir de Atos 9, entra em cena o apóstolo Paulo, um “nascido fora de tempo” (1Co 15.8), o “apóstolo dos gentios” (Rm 11.13). Em tempo de muita perseguição aos apóstolos e a igreja de Jerusalém, ele se encarregou de levar o evangelho até aos confins da terra (At 1.8).

Assim, enquanto a participação dos onze, juntamente com Matias (At 1.26) diminuía, encerrando o ciclo apostólico, a presença dos novos líderes da igreja, os presbíteros, crescia. A primeira menção a eles, no NT, ocorre em Atos 11.30. Resumidamente podemos dizer do presbítero:

  • É um ofício plural exercido por homens, com ação no âmbito da própria igreja, a qual reconhece aqueles a quem Deus escolheu, debaixo de muita oração e jejuns (At 14.23). Diz o sábio: “Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança.” (Pv 11.14);
  • Juntamente com os apóstolos tinham a responsabilidade de analisar e deliberar sobre questões doutrinárias (At 15.2, 4, 6, 22), emitindo documento sobre a decisão tomada, para orientação da igreja (At 15.23; 16.4);
  • O apóstolo Paulo dedicou atenção especial a eles, pois os via como líderes e pastores do rebanho de Deus (At 20.17, 28; 21.17);
  • Há dois textos bíblicos principais que apresentam, em forma de instrução e prescrição, as qualificações necessárias dos presbíteros: 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9. São listados ali cerca de 21 requisitos ou qualificações, sendo 5 apenas em 1 Timóteo 3.1-7, 7 em Tito 1.5-9 e, 9 comuns aos dois textos. Para propiciar uma melhor visão didática, essas qualificações individuais e familiares, podem ser agrupadas sob os seguintes aspectos/segmentos: “caráter / temperamento”, “comportamento / hábito”, “habilidade / competência / maturidade” e, “situação conjugal e familiar”. Portanto, cada presbítero deve atender a essas qualificações, sendo que em algumas delas precisará contar com a colaboração da família (esposa e filhos).
  • Paulo escreve algo que tem a ver com honra, mas também com o eventual sustento financeiro desses líderes: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.” (1Tm 5.17)
  • Tiago destaca a importância dos presbíteros, orando e atendendo as necessidades da igreja (Tg 5.14).

Por que em Efésios 4.11 o apóstolo Paulo mencionou apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, e omitiu presbíteros e diáconos? Não me passa pela mente outra resposta senão que as cinco palavras citadas se referem aos cinco dons ministeriais concedidos pelo Espírito Santo. O texto diz assim: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.11-12). Já as palavras presbíteros e diáconos se referem a ofícios ou cargos instituídos desde os primórdios da igreja, para zelarem pelo seu bom funcionamento e ordem. Vale ressaltar que até mesmo o ofício de “pastor ou ministro do evangelho“, tão comum na igreja evangélica de hoje, é posterior ao primeiro século, não ocorrendo ainda na igreja neotestamentária. Assim sendo, os pastores mencionados em Efésios 4.11 se referem ao dom e não ao ofício de ministro do evangelho. Paulo considerava-se designado por Deus como pregador, apóstolo e Mestre (2Tm 1.11). Então, o melhor dos mundos seria aquele em que ministros do evangelho, presbíteros e diáconos exercessem seus respectivos ofícios cheios do Espírito Santo, manifestando os vários dons por ele concedidos.

Enfim, o que se via na igreja primitiva era a paridade entre apóstolos e presbíteros, ocorrendo o que sempre acontece quando pares conciliares se reúnem; uns se destacam mais do que outros. No famoso Concílio de Jerusalém, reunido para tratar da questão da circuncisão dos gentios (At 15), houve grande debate (At 15.7), o que sugere que muitos apóstolos e presbíteros expuseram suas opiniões. Lucas, inspirado pelo Espírito, de uma forma inteligente e objetiva, teve o cuidado de destacar a presença de uma multidão acompanhando os debates (At 15.12) e, a fala de quatro oradores, dentre tantos outros: Pedro (At 15.7), Barnabé e Paulo (At 15.12) e Tiago, irmão do Senhor (At 15.13). É fácil entender o porquê do registro desses quatro. Um eficiente secretário de atas de um concílio também teria seguido a linha de Lucas. Pedro, por sua proeminência entre os apóstolos, por ter sido designado pelo Mestre aquele que tinha a chave para abrir a porta do evangelho aos gentios e, como já vimos antes, pela sua experiência alcançada nas incursões que fazia entre os gentios. Barnabé e Paulo, porque na ocasião eram as maiores autoridades na evangelização e plantação de igrejas no mundo gentio. Esses três oradores defenderam muito bem a ideia de que na Nova Aliança não havia mais distinção entre judeus e gentios e espaço para as ordenanças da Antiga Aliança. Por fim, Tiago, porque ratificou o que os três anteriores falaram, acrescentando a citação do profeta Amós (Am 9.11-12); essa é a vantagem de quem fala por último, num concílio. A grande contribuição dele, como alguns conciliares que conheço costumam fazer, foi a de, com sabedoria, já encaminhar o debate para a decisão final, apresentando uma proposta que previa até a forma de comunicação e o texto a ser encaminhado para orientação dos irmãos. É digno de nota que a decisão final foi tomada pelos apóstolos e presbíteros, com toda a igreja ali reunida. Afirmar que, por conta dessa proposta final, pode-se considerar que Tiago era o “pastor da igreja de Jerusalém” é muita leviandade. Podemos, no máximo, supor que Tiago tinha alguma liderança entre seus pares, lucidez de raciocínio, facilidade de comunicação, conhecimento das Escrituras e, provavelmente, desfrutava de um certo prestígio por ser um meio-irmão do Senhor Jesus Cristo.

Leia nos próximos artigos:

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

%d blogueiros gostam disto: