Arquivo

Posts Tagged ‘falsos mestres’

Prioridades na Liderança

O Exemplo de Timóteo

Introdução          

A temática deste estudo é LIDERANÇA. Mas, a quem interessa ou diz respeito este assunto? A todos nós, pois, no mínimo, somos líderes de nós mesmos, da nossa missão, das nossas tarefas. Augusto Cury publicou um livro intitulado “Seja líder de si mesmo”. Está aí uma primeira dica para quem desejar se aprofundar no assunto. Mas, também, podemos ser líderes em nossa casa, no trabalho, em alguma área na igreja etc. Um líder, ainda que famoso, é gente como a gente. Líderes cristãos mundialmente conhecidos não surgem num estalar de dedos. Eles são forjados, pelo ferreiro divino, no calor do atrito das limitações humanas com os desafios da vida. Antes de analisar o “caso Timóteo”, vejamos como foi forjado um grande líder cristão do nosso tempo. Na sua autobiografia[1], que relata os acontecimentos da sua juventude, ele diz que alguém o descreve, e ele mesmo se vê, assim: “Um rapaz do campo, alto e magro, dotado de muita energia, com nível acadêmico medíocre e um enorme zelo para servir ao Senhor que excedia meus conhecimentos e habilidades.” (pg. 46). Como foi sua infância e juventude?

Resumindo:

– Muito trabalho, ordenhando vacas e limpando as baias, na fazenda do pai, em Charlotte – Carolina do Norte – USA.

– Trabalhou como vendedor de escovas, nas férias, para ajudar a custear seus estudos.

– Teve forte influência da mãe que o incentivava a ler livros, principalmente o Catecismo de Westminster e a Bíblia.

– Teve forte influência dos metodistas (por parte de pai) e dos presbiterianos (por parte de mãe).

– Teve forte influência de Evangelistas de Cruzadas. Eram montadas grandes tendas (algumas para 5000 pessoas sentadas) e eles pregavam diariamente, o Evangelho, por semanas.

– Teve forte influência de Evangelistas, Pregadores e Professores no Instituto Bíblico da Flórida.

Foi batizado na infância, na igreja presbiteriana (pg.53). Frequentava a igreja regularmente com a família, mas, somente aos 16 anos teve um encontro com Cristo, nascendo de novo, após a pregação de um daqueles evangelistas de tendas, um pastor batista (Dr. Mordecai Fowler Ham). Quando estava no Instituto, na Flórida, pediu para o deão batizá-lo por imersão, discretamente.

Seu chamado para pregar se deu no Instituto Bíblico da Flórida, aos 19 anos de idade. Durante os 18 meses anteriores, no Instituto, quando convidado a pregar, tinha uma atuação pífia; ficava inseguro, inibido, batia os joelhos, usava sermões emprestados. Numa dessas ocasiões, pregou em uma pequena igreja, 4 sermões em 8 minutos. Treinava suas pregações no quarto e no campo aberto. Um pouco antes do seu chamado, começou a pregar em um estacionamento de trailers para um público que variava de 200 a 1000 pessoas. Sentia uma enorme satisfação em transmitir para as pessoas as boas-novas da Salvação. No final de 1938, com 20 anos, aceitou ser batizado pela terceira vez, desta feita, por imersão e com algumas testemunhas, para evitar problemas nas igrejas batistas onde pregava. Afinal, ele era um jovem presbiteriano que aderira à igreja batista. No início de 1939, com vinte anos, foi ordenado pastor batista, na Igreja Batista de Peniel, antes de completar o curso no Instituto.

Estamos nos referindo a William Franklin Graham Jr (Billy[2] Graham)(07/11/1918 – 21/02/2018). Seu pai era de origem metodista e sua mãe de origem presbiteriana. Foi casado, por 64 anos, com Ruth Graham (1943–2007) e teve 5 filhos, 19 netos e 28 bisnetos. Seu sogro era um missionário e cirurgião presbiteriano que exerceu forte influência sobre ele. A partir de 1948, com cerca de 30 anos, começou suas Cruzadas Evangelísticas, alcançando 185 países e 210 milhões de pessoas. No Brasil: Rio de Janeiro -1960 e 1974; Recife-2000; São Paulo-2008 e Belo Horizonte-2010. Terminou seus 99 anos de vida com várias doenças: Parkinson, quadril quebrado, pélvis quebrada e câncer de próstata. (Fonte: Wikipédia)

Timóteo é um líder particularmente interessante no contexto da Igreja Primitiva. No NT, muito se diz “a” Timóteo ou “de” Timóteo, entretanto, ele mesmo nada diz. Ele não aparece na dianteira da história, mas realiza uma espécie de ministério âncora na equipe do apóstolo Paulo.

Que informações encontramos do jovem Timóteo no NT?

a) Primeiras referências:

i) Um discípulo com bom testemunho nas igrejas de Listra e Icônio (At 16.1-2).

ii) Filho de uma judia crente, mas de pai grego; por isso, foi circuncidado para poder acompanhar o apóstolo Paulo (At 16.1-3). Sua fé era sem fingimento, tal qual a da sua avó Lóide e da sua mãe Eunice (2Tm 1.5). Foi ensinado na Palavra desde a sua infância (2Tm 3.14-15).

iii) Passou a ter um contato direto com o apóstolo Paulo, a partir da sua Segunda Viagem Missionária (50-54 dC), acompanhando-o no seu ministério (At 16.3). É interessante ressaltar que, na introdução e saudação, de várias cartas do apóstolo, ele é citado, ora como servo de Cristo, ora como irmão em Cristo: “… e o irmão Timóteo“ (2Co 1.1; Fp 1.1; Cl 1.1; 1Ts 1.1; 2Ts 1.1).

b) Na Segunda Viagem Missionária:

Quando Paulo partiu para Atenas, Timóteo ficou em Beréia, na companhia de Silas (At 17.14-15).

Silas e Timóteo se encontraram com Paulo em Corinto, liberando Paulo para a pregação (At 18.5).

c) Na Terceira Viagem Missionária:

Timóteo, juntamente com Erasto, ministravam na equipe de Paulo e foram enviados à Macedônia (At 19.22).

Timóteo, juntamente com outros, acompanharam Paulo até a Ásia (At 20.4).

d) Outras referências:

Escrevendo aos crentes de Roma, Paulo menciona Timóteo como seu cooperador (Rm 16.21). Alguém que trabalhava na obra do Senhor, como também Paulo (1Co 16.10).

Timóteo foi enviado por Paulo à igreja de Corinto, para lembrá-los e confirmar os ensinos a eles pregados (1Co 4.17; comp. 2Co 1.19). O testemunho de Paulo a seu respeito é “meu filho amado e fiel no Senhor”. O cuidado que o apóstolo tinha para com Timóteo, recomendando-o às igrejas e zelando pelo seu bom acolhimento, fica evidente em vários textos bíblicos (1Co 16.10-11).

Timóteo também foi enviado à igreja de Tessalônica, como ministro (doulos – servo) de Deus no evangelho de Cristo (1Ts 3.1-8). Ao ser enviado, fazia parte, também, da sua missão, trazer notícias daquela igreja a Paulo (Fp 2.19; 1Ts 3.6). O prestígio de Timóteo, da parte de Paulo, para essa missão era imenso; não havia outro que se equiparasse a ele (Fp 2.20-21).

1. A IMPORTÂNCIA DA LIDERANÇA

Está mais do que provada e comprovada a realidade da influência dos líderes sobre as pessoas, principalmente em formação (crianças, adolescentes e jovens). E, essa influência da liderança, positiva e proativa, precisa começar em casa e continuar na igreja. No âmbito secular e social, é preciso ter muito cuidado com a escolha daquelas instituições (creche, escola etc.) onde nossos filhos serão matriculados. Pessoas em formação precisam estar em contato com lideranças diferenciadas, como os jovens Timóteo e Billy Graham. Desta forma, elas estarão sendo forjadas e motivadas para viver uma vida que faça a diferença em seu tempo e estarão preparadas para resistir aos descaminhos propostos em ambientes sociais anticristãos.

2. PRIORIDADES NA LIDERANÇA

A partir das orientações do apóstolo Paulo a Timóteo, nas duas epístolas pastorais a ele dirigidas, podemos identificar algumas prioridades a serem observadas:

2.1 Prioridades no âmbito pessoal e familiar

“– No caso de despressurização de uma aeronave, coloque primeiro sua máscara de oxigênio antes de ajudar os outros a colocarem as suas.” O líder não deve desconsiderar esta recomendação, mesmo não estando viajando de avião. Assim sendo, é preciso:

a) Cuidar do corpo

Esse cuidado inclui uma alimentação equilibrada e saudável. O que Deus criou é muito bem-vindo (1Tm 4.4-5), mas há que se tomar cuidado com aquilo que o ser humano cria. Também é preciso tratar das enfermidades, ingerindo ou aplicando o que é recomendável (1Tm 5.23). Nas palavras de Paulo, “o exercício físico para pouco é proveitoso” (1Tm 4.8), quando comparado à piedade, pois ele tem efeito limitado a esta vida terrena, enquanto aquela, tem desdobramentos para a eternidade. Entretanto, todos sabemos que o exercício físico é importante para uma vida saudável.

b) Cuidar da vida espiritual

Essa vida espiritual não é algo etéreo, abstrato, intangível e intocável. Antes, porém, tem tudo a ver com relacionamento conosco mesmo (consciência pura), com Deus e com o próximo. O apóstolo fala a Timóteo do dever de combater o bom combate, mantendo fé e boa consciência (1Tm 1.18-20; ver tb 1Tm 1.5; 3.9). A comunhão com Deus se estreita através das orações (1Tm 2.1-2) e do alimento espiritual, a Palavra de Deus: “…alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido.” (1Tm 4.6; ver tb 4.13, 15-16). E, essa vida espiritual, só tem significado se for gasta no serviço a Deus e ao nosso próximo.

c) Cuidar da família

Não se tem notícia de que Timóteo fosse casado e tivesse uma família para cuidar. Talvez, por conta disso, o Apóstolo Paulo não lhe tenha dirigido uma palavra específica sobre o assunto. Entretanto, isso é tão relevante para o apóstolo que, nas qualificações dos líderes e oficiais da igreja (1Tm 3), ele menciona alguns aspectos sobre família:

i) esposo de uma só mulher;
ii) e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?);

2.2 Prioridades no âmbito ministerial

Para o bom exercício do ministério eclesiástico, algumas prioridades podem ser identificadas nas orientações do apóstolo Paulo a Timóteo.

a) O testemunho pessoal (1Tm 1.12-17)

Reconhecendo o chamado de Deus para o ministério, o líder humildemente percebe sua fragilidade, demérito e inutilidade. Entretanto, está convicto de que, pela graça e misericórdia divinas, foi transformado em nova criatura, em Cristo Jesus. Assim, na força do Espírito Santo, se lança ao ministério, tendo como prioridade inadiável apresentar um bom testemunho, aos de dentro e aos de fora da igreja, sendo “modelo a quantos hão de crer” (1Tm 1.12-17) e “padrão dos fiéis”, na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza (1Tm 4.12; 2Tm 1.13-14). Um obreiro aprovado (2Tm 2.15)

b) Estimular a prática de orações (1Tm 2.1-8)

c) Zelar pela adequada participação da mulher na igreja (1Tm 2.9-15)

d) Zelar pela qualificação de oficiais na igreja (presbíteros e diáconos) (1Tm 3.1-16)

e) Combater os falsos mestres e seus falsos ensinos (1Tm 1.3-11; 4.1-5, 7, 16)

f) Lidar adequadamente com vários tipos de pessoas e situações:

  • Idosos e Jovens (1Tm 5.1-2)
  • Viúvas (1Tm 5.3-16)
  • Presbíteros (1Tm 5.17-22)
  • Senhores e Escravos (1Tm 6.1-2)
  • Falsos Mestres (1Tm 6.3-5)
  • Riquezas e Ricos (1Tm 6.6-19)
  • Discussões inúteis (1Tm 6.20-21; 2Tm 2.14-19)

g) Manter caráter e conduta irrepreensíveis

  • Fortalecendo-se e testemunhando de Cristo (2Tm 2.1-2)
  • Sofrendo, por amor a Cristo, e participando do sofrimento dos irmãos (2Tm 2.3)
  • Não perdendo o foco da missão (2Tm 2.4)
  • Sendo disciplinado e ético (2Tm 2.5-10)
  • Sendo fiel a Deus e perseverante (2Tm 2.11-13)
  • Fugindo das paixões infames (2Tm 2.20-23)
  • Sendo brando e manso (2Tm 2.24-26)

h) Resistir nos tempos difíceis (2Tm 3.1-17)

i) Perseverar firme na missão, até o fim (2Tm 4.1-8)

j) Nunca abandonar os companheiros de missão (2Tm 4.9-22)

Conclusão:

Igrejas precisam de líderes chamados e vocacionados por Deus, competentes e dedicados, que cuidem de si e das suas respectivas famílias, que além de fazer a obra, influenciem positivamente todos os que os cercam.


[1] Fonte: Billy Graham – Uma autobiografia – Ed. United Press – 1998
[2] Billy é o apelido ou abreviação de William

Anúncios

A Epístola de Judas

Epístola de Judas

E-Comentários GRATUITOS.

CLIQUE NO LINK AO LADO PARA ABRIR O ARQUIVO: A Epístola de Judas.pdf

O caminho de Caim

OCaminhodeCaim

“Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim,…” (Jd 11)

Em que tipo de estrada da vida Caim andava? Quais são as marcas desse caminho? O registro bíblico da história de Caim, o primeiro descendente humano, se encontra em Gênesis 4.1-17. Ele não ficou sozinho por muito tempo, logo recebeu a companhia do seu irmão Abel. Viver em família deveria e deve ser motivo de felicidade e gratidão a Deus, mas para Caim parece que não foi bem assim; pois a competição sobrepujou a fraternidade. É natural que na vida em família (ou na igreja) cada um desempenhe o seu papel. Assim, Caim se tornou um lavrador e Abel um pastor de ovelhas. Cada pessoa tem a sua importância e valor, naquilo que é e naquilo que faz, na família, na igreja e na sociedade. Há espaço para todos cumprirem seus papéis numa dimensão horizontal, mas, principalmente, dedicarem suas ofertas, honra e glória ao Criador, numa dimensão vertical. As quatro marcas desse caminho se revelam a partir do momento em que os dois irmãos se apresentam e se expressam diante de Deus. É fácil representar diante dos homens, mas quando nos aproximamos de Deus tudo é revelado. Essas marcas são:

1ª) Culto sem lastro

“Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” (Gn 4.3-5a)

Não se sabe ao certo qual foi a razão ou motivação que levou os dois irmãos a se apresentarem a Deus com ofertas. O fato concreto é que em determinado momento isso aconteceu. Cada um extraiu do que tinha uma porção e ofertou a Deus. Há muitos aspectos semelhantes aqui, mas um resultado bem diferente: ambos conheciam a Deus, ambos se apresentaram diante dele e ambos lhe ofertaram algo. Não vale a pena discutir o mérito da oferta, pois o texto deixa claro que Deus se agradou de Abel e de sua oferta e não se agradou de Caim e de sua oferta. Certamente alguns chamados cristãos, de uma linha mais progressista, não teriam dificuldade em vociferar que Deus foi o pivô de toda essa crise familiar. Diriam eles que faltou-lhe sensibilidade e benevolência para com alguém que se dispusera ofertar-lhe algo. Tais pessoas parecem desconhecer a essência santa e a onisciência do Soberano Deus. Avaliam a Deus tomando por base seus próprios valores e ética. Deus não está procurando bajuladores, mas adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23). Mais tarde, o povo de Israel entrou no automatismo dos sacrifícios e Deus declarou pela boca do profeta Samuel: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.” (1Sm 15.22b). Na área financeira de um país, lastro é o depósito em ouro que serve de garantia ao papel-moeda que circula. Assim, no que se refere aos valores espirituais, o “papel-moeda” representa a oferta apresentada a Deus que só terá valor se tiver como lastro uma vida santa e piedosa. Deus não se agradou da oferta ou culto sem lastro apresentado por Caim. Os dissimuladores denunciados por Judas prosseguiam no mesmo caminho de Caim: faziam de tudo para serem vistos no meio dos cristãos como quem cultua a Deus, como quem se apresenta diante dele com ofertas. Só que prestavam um culto de aparência, sem lastro, sem sinceridade e verdade, no estilo de Ananias e Safira. O que agrada a Deus é fazer como Abel: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas.” (Hb 11.4)

2ª) Amargura sem reparação

“Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn 4.5b-7)

Não se espera que alguém comemore uma repreensão ou uma frustração, nem mesmo de um cristão: “Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.” (Hb 12.11). Quando isto acontece, há, pelo menos, dois caminhos a seguir. O caminho da autoanalise, da introspecção, de rever tudo o que está errado, reparar e seguir em frente, agradando a Deus e fazendo a sua vontade. O outro caminho é se fazer de vítima, se sentir injustiçado, se irar contra Deus e contra aquele a quem ele escolheu e acolheu. O semblante se transfigura, o olhar destila ódio, de tal forma que até os animais de estimação evitam passar perto. Deus não o abandona e tenta pastoreá-lo com palavras mansas, cheias de misericórdia: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito?” Mas ele não quer ser pastoreado. Não aceita ser contrariado. Não aceita ter sido repreendido. O Senhor não desiste dele, chega junto, adverte-o a dominar o seu rancor, pois se perseverar teimosamente no caminho errado, dando vazão ao seu instinto pecaminoso, isso crescerá de maneira incontrolável e avassaladora trazendo sequelas irreparáveis. Mas ele está longe de dar ouvidos à voz da sabedoria divina. Não era seu hábito antes, muito menos agora, depois de ser repreendido.

3ª) Vingança sem piedade

“Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou.” (Gn 4.8)

Quem é que nunca se perguntou por que Deus permite tanta maldade e violência no mundo? Por que ele não impede que os ímpios pratiquem tanto mal? Alguns chegam até a negar a existência de Deus por conta dessa sua suposta inatividade diante desse estado de coisas. O salmista Asafe, no salmo 73, se dedica a tratar do problema da aparente prosperidade dos maus. A certa altura ele reconhece suas limitações e diz: “Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles.” (Sl 73.16-17). Certamente há um triste fim para os ímpios, embora agora pareça que estão prevalecendo. Repreendido por Deus, Caim permitiu-se ser possuído pela ira, esta ira gestou nele o desejo de vingança. Como não lhe era possível se vingar de Deus, destinou toda a força do seu ódio contra aquele que foi eleito e favorecido por Deus. Quer saber qual é o grande desafio que eu e você temos nesta vida? Então veja o que diz Davi: “Cantem de júbilo e se alegrem os que têm prazer na minha retidão; e digam sempre: Glorificado seja o SENHOR, que se compraz na prosperidade do seu servo!” (Sl 35.27). É isso mesmo, nos alegrarmos com a retidão de vida e prosperidade do nosso irmão! O ódio de Caim o levou a matar Abel muito antes do ato físico praticado, isto é, na sua mente. Não é sem razão que o apóstolo João diz: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si.” (1Jo 3.15). É preciso ficar muito atento a essa questão. Aquele que odeia a seu irmão em Cristo ou a outra pessoa qualquer, já cometeu o homicídio em sua mente e se tornou culpado desse pecado. Todo crime premeditado tem penas mais severas na legislação de um país. Assim se enquadra o crime de Caim: “Vamos ao campo”. Ali no campo, longe da família, ele, covardemente, descarregou toda a sua ira e todo o seu desejo de vingança sobre o seu irmão, desferindo sobre ele um violento golpe mortal; tudo premeditado.

4ª) Fuga da responsabilidade

“Disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão? E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim. És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão.” (Gn 4.9-11)

Pensar que a violência e assassinato já estavam presentes nos primórdios, quando só existia uma família humana na face da terra, nos causa perplexidade. Constatar que desde o início Deus procurou não interferir nos atos humanos pode nos causar grande desconforto. Mas é preciso confiar em Deus, pois ele está no controle de todas as coisas. Sendo Deus Onisciente, Onipresente e Onipotente, não interferiu nesse ato horrendo de Caim. Por outro lado, seu ato não passou despercebido aos olhos de Deus, tal como aconteceu com o pecado de Adão e Eva, no Éden. Deus vai ao seu encontro e o questiona sobre o paradeiro do seu irmão. Não porque não o soubesse, mas para confrontá-lo com o seu pecado, para chamá-lo à responsabilidade. Tal tipo de gente acha que pode pecar contra Deus e contra o seu irmão e sair impune. Acha que pode mentir para Deus ou fugir da responsabilidade dos seus atos: “Não sei.” Aliás, esse tipo de resposta, de tão comum, chega a estar desgastada e se tornar ridícula: “não vi”, “não sabia”, “não fui eu” etc. Não pense Caim e seus seguidores que ficarão impunes: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6.7). Assim, Deus vingou imediatamente o sangue de Abel; Caim foi amaldiçoado. No Antigo Testamento era assim, PECOU, PAGOU. Quando tratamos de fuga da responsabilidade, devemos considerar dois aspectos igualmente importantes e pecaminosos. O primeiro é a tentativa de fuga da responsabilidade dos atos errados que cometemos. O segundo é a fuga da responsabilidade dos atos corretos que deveríamos praticar e nos omitimos. O primeiro é o pecado por comissão e o segundo, o pecado por omissão. A nossa omissão pode ser considerada indiferença, o que é muito grave.

Finalizando, vale lembrar as admoestações do apóstolo João quanto ao amor entre os irmãos: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas. Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade.” (1Jo 3.11, 17 e 18). Diferentemente destes que andam no caminho de Caim, tirando a vida do seu irmão, devemos seguir o caminho de Cristo, que deu a sua vida pelos irmãos: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.” (1Jo 3.16)


Este é o primeiro artigo baseado no versículo abaixo:

“Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Coré. (Judas 11)

Veja, também, os seguintes artigos:

  • Balaão e o Jogo dos 7 Erros
  • A revolta de Coré
%d blogueiros gostam disto: