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“Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós.” (Mt 5.11) “Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos expulsarem da sua companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do Homem.” (Lc 6.22)
Não parece sensato que aqueles que se dispõe a seguir a Jesus, como Salvador e Senhor, como Mestre e Guia, os humildes de espírito, os que choram, os mansos, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores sejam objeto do ódio, da injúria e perseguição de tantos. Não deveriam ser estimados e prestigiados os que procuram alinhar sua conduta com o perfil traçado por Jesus? Que mal fazem eles à sociedade? A Bíblia traz a resposta: Quais os motivos dessa perseguição?
Porque o proceder correto dos fiéis crentes, aqueles que andam na luz, incomoda a consciência dos ímpios que jaz em densas trevas. “Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras.” (Jo 3.20)
Porque Jesus denunciou as obras más praticadas pelos homens. Sua palavra continua ainda hoje ecoando nas mentes ímpias através da pregação e modo de vida dos verdadeiros cristãos. Desta forma, tanto Jesus quanto aqueles que trazem a público a palavra de Deus são objetos do ódio do mundo. “Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más.” (Jo 7.7)
Porque o mundo ama os que lhe pertencem e os cristãos não pertencem ao mundo. “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.” (Jo 15.19) “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Tm 3.12)
“Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.”(Mt 5.12) “Regozijai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu; pois dessa forma procederam seus pais com os profetas.” (Lc 6.23)
No conceito do mundo perseguir os cristãos é fazê-los sofrer e amargar. É destituí-los do prazer oferecido pelo mundo e do prazer de viver. É reduzi-los a nada. No padrão divino ocorre exatamente o oposto; aquele que mais sofre por amor a Cristo tem mais motivos para regozijar-se e exultar ainda nesta vida, apropriando-se, pela fé, do grande galardão que terá nos céus. “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal. (1Pe 3.14-17)
Seguir a Jesus, observando fielmente os seus padrões e valores, denunciando o pecado, significa ter que pagar o alto preço da discriminação, perseguição e, muitas vezes, a morte. A história é testemunha disso:
“Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra.” (Hb 11.37-38)
Conclusão
Podemos assim concluir, resumindo essas nove bem-aventuranças:
1ª) Ser “humilde de espírito” – ou “pobre de espírito” – é reconhecer a nossa absoluta falência espiritual diante de Deus. Significa admitir que somos pecadores, sob a justa ira divina, e que nada merecemos além de seu juízo.
2ª) Os bem-aventurados choram pelo pecado cometido, em arrependimento sincero. O choro do quebrantamento espiritual é fruto de uma tristeza segundo Deus, que leva à vida.
3ª) Os mansos expressam uma mansidão que não é fraqueza, mas força domada pelo Espírito; é o autocontrole ou domínio próprio. Refletem a mansidão de Cristo e denota uma atitude humilde e gentil para com os outros.
4ª) Os bem-aventurados têm fome e sede imaterial, de justiça legal, moral e social. A justiça legal é a justificação em Cristo que nos reconcilia com Deus. A justiça moral é a interior, do coração, da mente e das motivações, é aquela de transformação de caráter e de conduta que agrada a Deus.
5ª) Os misericordiosos são aqueles que não apenas sentem piedade, mas agem para aliviar o sofrimento alheio. São aqueles cujos corações se comovem com a dor dos outros e cujas mãos estendem socorro.
6ª) Os limpos de coração são aqueles que foram purificados da imundície moral. Sua vida, tanto pública quanto privada, é transparente diante de Deus e dos homens. O interior do seu coração – seus pensamentos, intenções e motivações – é puro, livre de qualquer mistura com o que é falso, dissimulado ou indigno.
7ª) Os pacificadores são aqueles que promovem a paz e a concórdia, que atuam ativamente para restaurar ou manter a paz, especialmente em situações de conflito. Eles agem em nome de Deus para promover reconciliação entre os homens, e entre o homem e Deus, e isso requer confronto amoroso, arrependimento e mudança de vida, sem negociar a tolerância ao erro e ao pecado.
8ª) Os perseguidos por causa da justiça são aqueles que apesar de limpos de coração, mansos e pacificadores ousam defender a prática da justiça em uma sociedade corrupta, que jaz no maligno. Eles sofrem preconceito e discriminação religiosa, como resultado inevitável do confronto entre dois sistemas de valores que não podem coexistir pacificamente – o Reino de Deus e o sistema deste mundo.
9ª) Os bem-aventurados são aqueles odiados, injuriados, caluniados e rejeitados simplesmente por seguirem a Cristo e pautarem suas vidas pelos valores cristãos.
Enfim, esses são os bem-aventurados segundo a perspectiva de Cristo — aqueles que, por amor ao seu Mestre e Guia, estão dispostos a pagar um alto preço, vivendo de acordo com seus princípios e valores. Nenhuma dificuldade ou sofrimento será capaz de fazê-los recuar ou desanimar, pois serão sustentados pelo Pai Celestial e impulsionados pelo Espírito Santo. Seus corações e olhares estarão firmemente voltados para o maior de todos os galardões – fazer a vontade de Deus. Regozijam-se e exultam por terem o privilégio de viver e até sofrer por amor a Cristo, que entregou a própria vida como preço de sua redenção e salvação eterna.
Que assim Deus nos ajude!
Bibliografia
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada). 2. Bíblia Online – SBB. 3. Stott, John R. W. – Contracultura Cristã – A Mensagem do Sermão do Monte. 4. Moulton, Harold K. – The Analytical Greek Lexicon Revised 5. Internet / ChatGPT / IA.
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“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5.9)
Pacificadores são aqueles que promovem a paz e a concórdia. Não se deve confundir o pacificador com o pacifista. O pacificador é aquele que atua ativamente para restaurar ou manter a paz, especialmente em situações de conflito. Tem um sentido bíblico e prático: alguém que intervém com sabedoria, reconcilia partes em conflito, promove entendimento e reconciliação. O pacificador não foge do conflito – ele entra nele para curar, reconciliar, transformar. O pacifista é aquele que defende ideologicamente a não-violência e a oposição a qualquer guerra ou uso da força. É um termo mais filosófico ou político, comum em debates sobre ética, guerras, justiça social etc. Um pacifista geralmente rejeita o uso de armas, força militar ou violência sob qualquer circunstância. O pacifista recusa o conflito, por princípio.
Cada cristão, cada seguidor de Cristo, de acordo com esta bem-aventurança, deve ser um pacificador, onde quer que esteja. O texto de hebreus 12.14 expressa bem essa ideia e a vincula a bem-aventurança anterior: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,”. O apóstolo Paulo orienta: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18).
“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim;” (Mt 10.34-37)
Pode parecer que a declaração de Cristo, no texto acima, contradiga essa ideia de pacificação. Não, não contradiz! O fato é que quando Cristo entra numa vida, há transformação de princípios e valores, de comportamento, e, é comum a reação contrária daqueles que não aceitam essa mudança. Assim, o conflito é inevitável. Além disso, o seguir a Cristo, implica num compromisso de amor a ele superior ao dedicado a qualquer outra pessoa, inclusive pai, mãe, cônjuge e filhos, o que pode não ser entendido e aceito pelo outro e provocar o conflito.
Jesus é o “Príncipe da paz” (Is 9.6) e jamais ensinou os seus seguidores a procurar o conflito. Ele veio para promover a paz, para reconciliar o homem com Deus: “e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl 1.20; ver tb Ef 2.15)
Essa pacificação nada tem a ver com a tolerância ao erro e ao pecado! Jesus não está se referindo a uma paz a qualquer custo, nem sugerindo que se deve fechar os olhos diante do pecado, do erro ou da injustiça. Os profetas do Antigo Testamento falaram da parte de Deus denunciando o pecado. João Batista denunciou o pecado de Herodes e acabou sendo morto por isso. A paz do Reino de Deus não é a simples ausência de conflito, nem uma neutralidade que se cala diante do mal. Antes, trata-se de uma paz fundamentada na verdade, na justiça e na reconciliação com Deus.
O verdadeiro pacificador é um embaixador da paz divina – e não da conivência. Ele age em nome de Deus para promover reconciliação entre os homens, e entre o homem e Deus, e isso requer confronto amoroso, arrependimento e mudança de vida. A Escritura deixa claro que não pode haver paz verdadeira onde há pecado não tratado: “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o SENHOR.” (Is 48.22). “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6.14). O pacificador, portanto, não negocia princípios espirituais em nome de uma convivência harmoniosa artificial. Ele ama a verdade e busca a paz por meio dela, mesmo que isso implique exortar, corrigir ou denunciar o erro – sempre com espírito manso e objetivo de restauração.
Deus só nos perdoa quando nos arrependemos, e Jesus nos ensinou: “Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lc 17.3). Portanto, ser pacificador, à luz de Mateus 5.9, não é silenciar diante do pecado, mas ser um instrumento de Deus para que, por meio da verdade, a paz do Evangelho seja estabelecida onde hoje há conflito, rebelião ou distanciamento de Deus. Não existe pacificação e união no corpo de Cristo sem pureza de doutrina e de conduta!
Jesus é o nosso modelo de pacificador. Ele não foi conivente com os pecados dos fariseus nem tolerante com as injustiças dos poderosos. Denunciou o pecado, chamou ao arrependimento, e ainda assim é chamado o “Príncipe da Paz” (Is 9.6), pois trouxe ao mundo a paz verdadeira, que começa com a reconciliação do homem com Deus. Se seguirmos esse exemplo seremos chamados de filhos de Deus.
😊Oitava bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.10)
A oitava bem-aventurança diz respeito àqueles que são “perseguidos por causa da justiça”, isto é, por defenderem a justiça a qualquer preço. Qualquer pessoa piedosa que tenha apreço pela justiça, mesmo não sendo cristã, pode ser perseguida. Principalmente se defender a prática da justiça em uma sociedade corrupta. Entretanto, em se tratando de um cristão, defender a justiça parece resultar em maior perseguição devido a preconceito e discriminação religiosa.
É significativo que Jesus passe diretamente dos pacificadores à perseguição – da obra de reconciliação à experiência da hostilidade. Isso revela uma realidade profunda: nem sempre o esforço sincero pela paz resulta em paz com todos. Por mais que busquemos a reconciliação, algumas pessoas simplesmente se recusam a viver em paz conosco. Nem toda tentativa de harmonia encontra resposta favorável.
Na verdade, há aqueles que, longe de se abrirem ao diálogo, optam por nos rejeitar, insultar e perseguir. E isso não por causa de nossas falhas pessoais ou peculiaridades, mas, como Jesus explicou, “por causa da justiça” (Mt 5.10) e “por minha causa” (Mt 5.11) — ou seja, porque se opõem à justiça que desejamos com fome e sede (Mt 5.6), e rejeitam o Cristo a quem seguimos.
A perseguição, nesse contexto, é o resultado inevitável do confronto entre dois sistemas de valores que não podem coexistir pacificamente – o Reino de Deus e o sistema deste mundo. Onde o Evangelho avança, haverá resistência; onde a luz brilha, as trevas se incomodam. Por isso, ser perseguido por causa da justiça é, paradoxalmente, um selo de autenticidade da vida cristã e uma bem-aventurança diante de Deus.
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“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mt 5.7)
A palavra grega para o adjetivo plural “misericordiosos” é ελεημονες (elehmonev). Qualifica quem é compassivo, misericordioso, tem compaixão – isto é, aquele que não apenas sente piedade, mas age para aliviar o sofrimento alheio. O substantivo é ελεος (eleos) – misericórdia.
A misericórdia não se resume a um sentimento interno, mas a ações concretas de ajuda, perdão, socorro. Ela produz a reciprocidade divina, isto é, quem imita o coração compassivo de Deus será agraciado com a misericórdia divina. Misericordiosos são aqueles cujos corações se comovem com a dor dos outros e cujas mãos estendem socorro. Essa atitude reflete a própria natureza de Deus e garante ao discípulo participar da sua graça e perdão.
Vale lembrar que, no que se refere a Deus, misericórdia é Deus não nos dar o castigo que merecemos e, graça, é “favor imerecido”, é Deus nos dar o que não merecemos (perdão e bênçãos).
Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia. Jesus praticou e ilustrou a misericórdia. Ele curou enfermos, ressuscitou mortos, alimentou os famintos, acolheu os rejeitados pela sociedade. Ele ilustrou a misericórdia na parábola do bom samaritano, onde um desconhecido socorreu um viajante que ia de Jerusalém para Jericó, sendo assaltado e ferido, enquanto os religiosos passaram de largo (Lc 10.10-35).
Nada nos motiva mais a perdoar do que o maravilhoso entendimento de que nós mesmos fomos perdoados por Deus. E nada evidencia com maior clareza que fomos verdadeiramente perdoados do que a nossa disposição sincera em perdoar aos outros. Perdoar e ser perdoado, demonstrar misericórdia e receber misericórdia são realidades inseparáveis no Reino de Deus – como Jesus ilustrou de forma impactante na parábola do servo impiedoso (Mt 18.21-35).
😊Sexta Bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” (Mt 5.8)
Já vimos que os “humildes de espírito” são aqueles espiritualmente pobres – bem diferentes dos que são apenas pobres materialmente. Da mesma forma, aqui, ao dizer “limpos de coração”, Jesus está especificando o tipo de pureza a que se refere, assim como ao falar “humildes de espírito”, ele define o tipo de humildade que tem em vista. Trata-se daqueles que foram purificados da imundície moral.
O salmista Davi assim diz: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente.” (Sl 24.3-4). Davi também orou, dizendo: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (Sl 51.10).
Seguindo esta mesma linha, Jesus confrontou os fariseus obcecados pelo legalismo, pela aparência exterior e pela pureza cerimonial, comparando-os a sepulcros caiados: “O Senhor, porém, lhe disse: Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade.” (Lc 11.39). “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt 23.27).
Portanto, os limpos de coração são aqueles marcados por total sinceridade. Sua vida, tanto pública quanto privada, é transparente diante de Deus e dos homens. O interior do seu coração – seus pensamentos, intenções e motivações – é puro, livre de qualquer mistura com o que é falso, dissimulado ou indigno. Rejeitam a hipocrisia e detestam qualquer forma de engano; não abrigam malícia em seu ser. É fato que só Jesus Cristo, entre os homens, foi absolutamente limpo de coração, foi inteiramente sem malícia. Ele é o nosso modelo e referencial.
A promessa é que os limpos de coração verão a Deus – já agora, com os olhos da fé, e no porvir, contemplarão sua glória face a face. Somente os sinceros de todo o coração podem permanecer diante dessa visão deslumbrante, pois, à luz de sua santidade, as sombras da mentira se dissipam, e nas chamas de sua presença toda dissimulação é consumida.
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“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (Mt 5.5)
A palavra grega para “mansos” é πραεις (praeiv) uma declinação de πραυς (praus) significa “manso”, “gentil”, “humilde” (Mt 21.5), “espírito manso e tranquilo” (1Pe 3.4).
Mansidão não é fraqueza, mas força domada pelo Espírito; é o autocontrole ou domínio próprio. O apóstolo Paulo fala sobre a “mansidão e benignidade” de Cristo: “E eu mesmo, Paulo, vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo, eu que, na verdade, quando presente entre vós, sou humilde; mas, quando ausente, ousado para convosco,” (2Co 10.1). Esta mansidão de Cristo exige uma transformação interior dos seus discípulos. A mansidão denota uma atitude humilde e gentil para com os outros.
Imagine alguém que, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando pelo próprio pecado diante de Deus, reage com igual ou maior agressividade ao menor comentário negativo. Essa postura anula todo o testemunho anterior, pois revela a ausência de mansidão – virtude essencial para legitimar o arrependimento e a humildade professados. “A mansidão é, em essência, a verdadeira visão que temos de nós mesmos, e que se expressa na atitude e na conduta para com os outros.” (Dr. Lloyd-Jones)
A “herança da terra” é a bênção prometida conforme mencionado pelo salmista: “Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz.” (Sl 37.11). À primeira vista, esse cenário soa contraditório. Imaginamos que os “mansos” nada conquistam – são ignorados, tratados com descaso ou desprezo – enquanto os arrogantes e impetuosos triunfam na vida, e os tímidos acabam derrotados. Até o povo de Israel teve de guerrear bravamente para herdar a terra prometida, embora o Senhor a tivesse reservado para eles. Contudo, no plano espiritual de Cristo, a herança não se conquista pela força, mas pela mansidão. Pois, a nossa herança espiritual em Cristo já nos pertence se somos de Cristo.
Os mansos, ainda que sejam despojados e privados dos seus bens e direitos, pelos homens, no tempo presente, sabem o que é viver e reinar com Cristo, e podem desfrutar e até mesmo “possuir” a terra, a qual pertence a Cristo. Então, no dia da “regeneração”, haverá “um novo céu e uma nova terra” para herdar (Mt 19.28; 2Pe 3.13; Ap 21.1). Portanto, o caminho de Cristo é diferente do caminho do mundo, e cada cristão, mesmo sendo como Paulo e “nada tendo”, pode dizer-se “possuindo tudo”: “entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.” (2Co 6.10)
😊Quarta Bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”(Mt 5.6) “Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos.” (Lc 6.21a)
Assim como observado na primeira bem-aventurança, Mateus tem em vista uma fome e sede imaterial, enquanto Lucas, uma fome não qualificada, que pode ser a física, de alimento, (considerando que Lucas tem uma visão humanitária) ou, a mesma referida por Mateus. No cântico de Maria – o Magnificat – registrado apenas por Lucas, é declarado: “Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.” (Lc 1.51-53). Destaca-se aqui a rejeição de Deus aos soberbos e poderosos, e a exaltação aos humildes, bem como, o favorecimento dos famintos e a preterição dos ricos.
John Stott[1] entende que a justiça na Bíblia tem pelo menos três aspectos: o legal, o moral e o social, a saber:
A justiça legal é a justificação, um relacionamento certo com Deus. Os judeus “buscavam a lei da justiça”, escreveu Paulo mais tarde, mas não a alcançaram porque a buscaram pelo modo errado. Procuraram “estabelecer a sua própria” justiça e “não se sujeitaram à que vem de Deus”, que é o próprio Cristo (Rm 9.30 – 10.4). Alguns comentaristas acham que Jesus se refere a isso, mas é provável que não, pois Jesus está se dirigindo àqueles que já lhe pertencem.
A justiça moral é aquela justiça de caráter e de conduta que agrada a Deus. Jesus prossegue, depois das bem-aventuranças, contrastando essa justiça cristã com a do fariseu (Mt 5.20). Esta última era uma conformidade exterior às regras; a primeira é uma justiça interior, do coração, da mente e das motivações. É desta que devemos sentir fome e sede.
E a justiça social, conforme aprendemos na lei e nos profetas, refere-se à busca pela libertação do homem da opressão, junto com a promoção dos direitos civis, da justiça nos tribunais, da integridade nos negócios e da honra no lar e nos relacionamentos familiares. Assim, os cristãos estão empenhados em sentir fome de justiça em toda a comunidade humana para agradar a um Deus justo.
Entretanto, nesta vida nossa fome jamais será totalmente saciada, assim como nossa sede não será totalmente aplacada. Recebemos, de fato, a satisfação da esperança prometida pela bem-aventurança. Para além desta vida, aguardamos o dia do juízo, quando a justiça triunfará e a iniquidade será vencida. Então, Deus renovará todas as coisas, estabelecendo “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13). Essa certeza da vindicação final fortalece nossa esperança, e nela jamais seremos frustrados.
“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” (Mt 5.4) “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.” (Lc 6.21)
São inúmeros os motivos que nos levam às lágrimas:
A dor e o sofrimento, sejam físicos ou emocionais, que nos lembram da fragilidade humana;
A perda da saúde, que rouba liberdade e esperança;
A morte ou o afastamento de alguém querido, deixando um vazio profundo;
O desemprego ou o rebaixamento de padrão de vida, que abala nosso sustento e autoestima;
A injustiça sofrida, capaz de ferir o espírito e minar a confiança no próximo;
Decisões impulsivas ou inconsequentes, cujas consequências tardias pesam no coração;
O fracasso de sonhos e projetos, quando planos cuidadosamente traçados desmoronam;
O sentimento de abandono ou incompreensão, quando nos vemos isolados em nossa dor.
Em cada uma dessas situações, o choro surge como resposta humana – um alívio imediato para a alma, um sinal de que ainda nos importamos e cremos na possibilidade de restauração. Será que Jesus estaria se referindo a esses (ou, apenas a esses) motivos pessoais e particulares para chorar?
Jesus chorou por compaixão, diante do sofrimento humano e de tristeza, diante da incredulidade e do juízo que viria:
Mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, Jesus se comoveu e chorou com a dor de Marta, Maria e dos amigos, mostrando empatia profunda pela aflição alheia (Jo 11.35). Ao avistar a cidade de Jerusalém, Jesus “chorou por ela”, lamentando que não reconhecesse o tempo da visitação de Deus e prevendo o cerco e a destruição que viriam por sua rejeição (Lc 19.41-44).
Que motivos devem levar um cristão a chorar?
– Por compaixão diante do sofrimento alheio, mostrando solidariedade e amor verdadeiro. (Rm 12.15)
– Pelas almas perdidas, por aqueles que ainda não conhecem o Evangelho. É o choro missionário, que clama por salvação para os que estão longe de Deus.
– Pelas injustiças do mundo, à semelhança dos profetas, diante da opressão, violência e maldade, intercedendo para que Deus traga justiça e restauração (Lm 3.48; Ez 9.4).
– Pela dor dos irmãos. No corpo de Cristo, choramos juntos nas aflições e lutos, fortalecendo uns aos outros e reafirmando a esperança da glória futura (1Pe 5.10).
– O apóstolo Paulo se refere a um choro pela ação danosa de falsos mestres que perturbavam as igrejas do seu tempo (Fp 3.18).
Relacionando essa bem-aventurança com a anterior, podemos dizer que uma coisa é ser pobre ou humilde de espírito e reconhecer isso – confissão; outra é entristecer-se e chorar por causa disso – contrição. É chorar pelo pecado cometido, em arrependimento sincero. O choro do quebrantamento espiritual (2Co 7.10) é fruto de uma tristeza segundo Deus, que leva à vida. É quando se reconhece o peso do pecado e se busca a restauração pela graça. “Em minhas devoções matinais minha alma desfez-se em lágrimas, e chorou amargamente por causa da minha extrema maldade e vileza.” (missionário David Brainerd, 18/10/1740)
A bênção prometida é o consolo, no tempo presente e futuro!
Aqueles que choram e lamentam a própria maldade receberão o único consolo capaz de aliviar seu desespero: o perdão da graça de Deus. Nada há mais consolador do que a declaração de absolvição que repousa sobre o pecador contrito ainda em sua aflição. E há também uma consolação futura, para os que “vêm da grande tribulação, lavaram as suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7.14): Deus mesmo “lhe enxugará dos olhos toda lágrima.” (Ap 7.17b). Dessa forma, o consolo divino se estende do perdão presente até a plena restauração porvir, quando a própria presença de Deus secará todas as nossas dores.
É importante destacar que a “consolação”, segundo os profetas do Antigo Testamento, era missão central do Messias: ele viria como Consolador para curar os corações quebrantados e anunciar boas novas aos aflitos (Is 40.1; 61.1). Por isso, homens piedosos como Simeão aguardavam ansiosamente “a consolação de Israel” (Lc 2.25). Cristo, de fato, derrama óleo sobre nossas feridas e concede paz às consciências marcadas pela dor. Ainda assim, choramos pela devastação do sofrimento e da morte que o pecado espalha pelo mundo. Só no estado final de glória, quando o pecado tiver sido extirpado de vez, veremos o consolo de Cristo manifestado em sua plenitude.
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“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo:” (Mt 5.1-2) “Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes:” (Lc 6.20a)
A narrativa do Sermão do Monte é mais completa em Mateus (no monte – Mt 5.1) do que em Lucas (numa planura – Lc 6.17). A de Lucas pode ter ocorrido em outra ocasião. Após a chamada dos doze Jesus passa a instruí-los e prepará-los para a continuidade do seu ministério após sua ascensão.
A simplicidade das palavras e a profundidade das ideias contidas neste sermão continuam a atrair, geração após geração, não apenas cristãos, mas também muitos outros. Quanto mais nos aprofundamos em suas implicações, mais percebemos o quanto ainda há por descobrir. Suas riquezas são inesgotáveis, e suas profundezas, insondáveis.
O evangelista Mateus fez questão de registrar com esmero os discursos do Rei. São ao todo cinco discursos, identificados facilmente pela expressão de encerramento: “quando Jesus acabou de proferir estas palavras …”.
São eles:
1°) Sermão do monte (Mt 5-7; desfecho Mt 7.28-29) 2º) Discurso missionário (Mt 10.1–11.1; desfecho Mt 11.1) 3º) Discurso sobre os mistérios do reino (Mt 13.1-53; desfecho Mt 13.53) 4º) Discurso sobre vida comunitária (Mt 18.1–19.2; desfecho Mt 19.1-2) 5º) Discurso escatológico (Mt 24.1–26.2; desfecho Mt 26.1-2)
As multidões apertavam Jesus e ele então sobe ao monte e assenta-se como um Rabi. Os seus discípulos se aproximam para o ouvir. Jesus passa a ensiná-los, mais diretamente. O que vem a ser esse sermão? Jesus veio estabelecer um reino espiritual neste mundo. Este Sermão oferece as bases de conduta para os súditos desse reino.
Há quem procure estabelecer um paralelo entre Moisés e Jesus. Aliás, a ideia é bíblica: “Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser.” (At 3.22).
Quais são essas características que ligam os dois vultos da bíblia?
MOISÉS
JESUS
Moisés é o libertador de Israel.
Jesus o libertador do novo Israel, a Igreja.
Israel era formado por doze tribos.
Jesus chama doze apóstolos.
Moisés escreveu os cinco primeiros livros do AT (Pentateuco).
Jesus pronunciou cinco discursos, segundo Mateus.
Moisés estabeleceu a Lei de Deus.
Jesus estabeleceu os princípios e valores do reino de Deus.
O sermão é iniciado com as bem-aventuranças, sendo que Mateus registra oito e Lucas apenas quatro dessas nove. Mais adiante veremos o que elas têm em comum. A palavra grega traduzida por “bem-aventurados” é “μακάριοι” (makarioi). Este termo é uma declinação de “μακάριος” (makarios) que tem o significado de “feliz” ou “abençoado”, expressando um sentido muito maior do que a simples ideia de alegria ou contentamento passageiros. No uso secular, significava estado elevado de contentamento, favor ou sorte, especialmente reservado àqueles fora do alcance do sofrimento humano comum. No Novo Testamento (NT), μακάριος (bem-aventurados) aparece principalmente nos evangelhos, nas epístolas (Rm 4.7; 1Pe 3.14 e 4.14 etc.), e no Apocalipse (Ap 1.3; 14.13; 19.9; 22.14). Refere-se a alguém que é abençoado por Deus, aprovado e favorecido por ele, e por isso é pleno, realizado, satisfeito – mesmo em condições humanas desfavoráveis. No NT há muitas outras ocorrências do termo “bem-aventurado” (no singular).
Já no início do sermão, essas bem-aventuranças nos desafiam a responder algumas perguntas, tais como:
Para quem são essas bênçãos?
Que bênçãos são essas?
Elas são para o tempo presente ou pós-morte?
Será que as bem-aventuranças não ensinam uma doutrina de salvação pelos méritos humanos e pelas boas obras, o que é incompatível com o evangelho?
Em cada bem-aventurança será necessário identificar quem são as pessoas em foco e quais bênçãos lhes estão sendo prometidas.
😊Primeira Bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.3) “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lc 6.20b)
Mateus registra “os humildes de espírito” (gr. οἱ πτωχοι τω πνεύματι) e Lucas “os pobres” (gr, οἱ πτωχοι). A palavra πτωχοι (ptwcoi), pobres, aparece nos dois textos, por isso, algumas traduções de Mateus 5.3 registram “pobres de espírito”. De qualquer forma, “pobres de espírito” é diferente de “pobres”. Assim, ser “humilde de espírito” – ou “pobre de espírito” – é reconhecer a nossa absoluta falência espiritual diante de Deus. Significa admitir que somos pecadores, sob a justa ira divina, e que nada merecemos além de seu juízo. Não temos méritos a apresentar, direitos a reivindicar, nem recursos com que comprar o favor dos céus. Por outro lado, pobre, literalmente é “quem não tem”, “os desprovidos de”: riqueza, posição social, segurança material; elementos relevantes para a vida no Império Romano. Pobre é aquele que passa por necessidades materiais.
Então, estaria Mateus ressaltando a atitude interna de humildade e dependência de Deus, não apenas a miséria econômica? Estaria Lucas enfatizando mais o aspecto social? Na verdade, nos dois registros o sentido é semelhante: quem reconhece sua pobreza – seja material ou espiritual – e recebe o Reino como dom.
As palavras rico(s) ou riqueza(s) e pobre(s) ou pobreza, ocorrem nos quatro evangelhos, com a seguinte frequência:
Palavra
Mateus
Marcos
Lucas
João
Total
Rico(s)
3
2
12
–
17
Riqueza(s)
2
3
6
–
11
Pobre(s)
4
5
9
4
22
Pobreza
–
1
1
–
2
Total
9
11
28
4
52
Então, como pano de fundo, é necessário registrar que o evangelista Lucas (o médico amado) tem um olhar mais atento para a questão da riqueza e da pobreza, provavelmente por influência da sua formação e ocupação. A verdade é que tanto pobres quanto ricos necessitam igualmente da salvação em Cristo, pois a pobreza não confere mérito para a vida eterna, nem a riqueza constitui um impedimento absoluto à graça de Deus.
Quanto a “reino dos céus” e “reino de Deus” são designações sinônimas que qualificam o reino[1], com o sentido da esfera do domínio e governo de Deus[2].
Finalmente, fica claro que essa bênção é para o tempo presente: “porque deles é…”
[1]Reino dos céus – Mateus (31 vezes, e não aparece em outros livros do NT) Reino de Deus – Mateus (4 vezes); Marcos (14 vezes); Lucas (31 vezes); João (2 vezes)
[2] Resumindo: – Governo dos céus (Deus) sobre a terra (Dn 2.44; 4.25, 32) – Governo da soberania de Deus sobre tudo. – Esfera da Salvação (Jo 3.5-7)
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