As Bem-aventuranças (1ª)

Mateus 5.1-12; Lucas 6.17-23

Introdução

“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo:” (Mt 5.1-2)
“Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes:” (Lc 6.20a)

A narrativa do Sermão do Monte é mais completa em Mateus (no monte – Mt 5.1) do que em Lucas (numa planura – Lc 6.17). A de Lucas pode ter ocorrido em outra ocasião. Após a chamada dos doze Jesus passa a instruí-los e prepará-los para a continuidade do seu ministério após sua ascensão.

A simplicidade das palavras e a profundidade das ideias contidas neste sermão continuam a atrair, geração após geração, não apenas cristãos, mas também muitos outros. Quanto mais nos aprofundamos em suas implicações, mais percebemos o quanto ainda há por descobrir. Suas riquezas são inesgotáveis, e suas profundezas, insondáveis.

O evangelista Mateus fez questão de registrar com esmero os discursos do Rei. São ao todo cinco discursos, identificados facilmente pela expressão de encerramento: “quando Jesus acabou de proferir estas palavras …”.

São eles:

1°) Sermão do monte (Mt 5-7; desfecho Mt 7.28-29)
2º) Discurso missionário (Mt 10.1–11.1; desfecho Mt 11.1)
3º) Discurso sobre os mistérios do reino (Mt 13.1-53; desfecho Mt 13.53)
4º) Discurso sobre vida comunitária (Mt 18.1–19.2; desfecho Mt 19.1-2)
5º) Discurso escatológico (Mt 24.1–26.2; desfecho Mt 26.1-2)

As multidões apertavam Jesus e ele então sobe ao monte e assenta-se como um Rabi. Os seus discípulos se aproximam para o ouvir. Jesus passa a ensiná-los, mais diretamente. O que vem a ser esse sermão? Jesus veio estabelecer um reino espiritual neste mundo. Este Sermão oferece as bases de conduta para os súditos desse reino.

Há quem procure estabelecer um paralelo entre Moisés e Jesus. Aliás, a ideia é bíblica: “Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser.” (At 3.22).

Quais são essas características que ligam os dois vultos da bíblia?

MOISÉSJESUS
Moisés é o libertador de Israel.Jesus o libertador do novo Israel, a Igreja.
Israel era formado por doze tribos.Jesus chama doze apóstolos.
Moisés escreveu os cinco primeiros livros do AT (Pentateuco).Jesus pronunciou cinco discursos, segundo Mateus.
Moisés estabeleceu a Lei de Deus.Jesus estabeleceu os princípios e valores do reino de Deus.

O sermão é iniciado com as bem-aventuranças, sendo que Mateus registra oito e Lucas apenas quatro dessas nove. Mais adiante veremos o que elas têm em comum. A palavra grega traduzida por “bem-aventurados” é “μακάριοι(makarioi). Este termo é uma declinação de “μακάριος(makarios) que tem o significado de “feliz” ou “abençoado”, expressando um sentido muito maior do que a simples ideia de alegria ou contentamento passageiros. No uso secular, significava estado elevado de contentamento, favor ou sorte, especialmente reservado àqueles fora do alcance do sofrimento humano comum. No Novo Testamento (NT), μακάριος (bem-aventurados) aparece principalmente nos evangelhos, nas epístolas (Rm 4.7; 1Pe 3.14 e 4.14 etc.), e no Apocalipse (Ap 1.3; 14.13; 19.9; 22.14). Refere-se a alguém que é abençoado por Deus, aprovado e favorecido por ele, e por isso é pleno, realizado, satisfeito – mesmo em condições humanas desfavoráveis. No NT há muitas outras ocorrências do termo “bem-aventurado” (no singular).

Já no início do sermão, essas bem-aventuranças nos desafiam a responder algumas perguntas, tais como:

  • Para quem são essas bênçãos?
  • Que bênçãos são essas?
  • Elas são para o tempo presente ou pós-morte?
  • Será que as bem-aventuranças não ensinam uma doutrina de salvação pelos méritos humanos e pelas boas obras, o que é incompatível com o evangelho?

Em cada bem-aventurança será necessário identificar quem são as pessoas em foco e quais bênçãos lhes estão sendo prometidas.

😊Primeira Bem-aventurança

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.3)
“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lc 6.20b)

Mateus registra “os humildes de espírito” (gr. οἱ πτωχοι τω πνεύματι) e Lucas “os pobres” (gr, οἱ πτωχοι). A palavra πτωχοι (ptwcoi), pobres, aparece nos dois textos, por isso, algumas traduções de Mateus 5.3 registram “pobres de espírito”. De qualquer forma, “pobres de espírito” é diferente de “pobres”. Assim, ser “humilde de espírito” – ou “pobre de espírito” – é reconhecer a nossa absoluta falência espiritual diante de Deus. Significa admitir que somos pecadores, sob a justa ira divina, e que nada merecemos além de seu juízo. Não temos méritos a apresentar, direitos a reivindicar, nem recursos com que comprar o favor dos céus. Por outro lado, pobre, literalmente é “quem não tem”, “os desprovidos de”: riqueza, posição social, segurança material; elementos relevantes para a vida no Império Romano. Pobre é aquele que passa por necessidades materiais.

Então, estaria Mateus ressaltando a atitude interna de humildade e dependência de Deus, não apenas a miséria econômica? Estaria Lucas enfatizando mais o aspecto social? Na verdade, nos dois registros o sentido é semelhante: quem reconhece sua pobreza – seja material ou espiritual – e recebe o Reino como dom.

As palavras rico(s) ou riqueza(s) e pobre(s) ou pobreza, ocorrem nos quatro evangelhos, com a seguinte frequência:

PalavraMateusMarcosLucasJoãoTotal
Rico(s)321217
Riqueza(s)23611
Pobre(s)459422
Pobreza112
Total91128452

Então, como pano de fundo, é necessário registrar que o evangelista Lucas (o médico amado) tem um olhar mais atento para a questão da riqueza e da pobreza, provavelmente por influência da sua formação e ocupação. A verdade é que tanto pobres quanto ricos necessitam igualmente da salvação em Cristo, pois a pobreza não confere mérito para a vida eterna, nem a riqueza constitui um impedimento absoluto à graça de Deus.

Quanto a “reino dos céus” e “reino de Deus” são designações sinônimas que qualificam o reino[1], com o sentido da esfera do domínio e governo de Deus[2].

Finalmente, fica claro que essa bênção é para o tempo presente: “porque deles é…”


[1] Reino dos céus – Mateus (31 vezes, e não aparece em outros livros do NT) Reino de Deus – Mateus (4 vezes); Marcos (14 vezes); Lucas (31 vezes); João (2 vezes)

[2] Resumindo:
– Governo dos céus (Deus) sobre a terra (Dn 2.44; 4.25, 32)
– Governo da soberania de Deus sobre tudo.
– Esfera da Salvação (Jo 3.5-7)


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As Bem-aventuranças:
2ª Bem-aventurança.
3ª e 4ª Bem-aventuranças.
5ª e 6ª Bem-aventuranças.
7ª e 8ª Bem-aventuranças.
9ª Bem-aventurança e Conclusão.