As 7 “palavras” da cruz

Introdução

As sete “palavras” ou frases ou manifestações verbais de Jesus, pendurado na cruz do Calvário, não são mais nem menos importantes do que as demais proferidas por ele ao longo do seu ministério terreno. Suas palavras sempre merecem nossa atenção e sempre têm algo a nos revelar e ensinar. Os quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, nos legaram a biografia de Jesus. Neste ponto da sua trajetória, pendurado na cruz, nenhum deles registrou todas as sete falas de Jesus; por outro lado, nenhum deles deixou de registrar pelo menos uma delas. É interessante que Lucas mencionou três, João outras três e, finalmente, Mateus e Marcos registram a outra, totalizando, assim, as sete.

As três primeiras manifestações de Jesus, na cruz, foram feitas nas três primeiras horas da crucificação e antes do período das trevas. Verifica-se nelas o real e constante cuidado do Senhor com as pessoas!

1ª) Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.
(Amoroso e Perdoador) (Oração do Senhor pelos inimigos)

“Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes.” (Lc 23.34)

Essa declaração de Jesus, apenas registrada por Lucas, tem sido tradicionalmente aceita como a primeira das sete que ele fez na cruz, embora nenhuma certeza exista quanto à ordem cronológica delas. O fato é que essa expressão reflete o espírito perdoador que se sabe ter tido Jesus, declarado muitos anos antes pelo profeta Isaías: “… foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.” (Is 53.12b).

Jesus atribuiu a ignorância como a causa de suas atitudes hostis. A ignorância dos soldados foi circunstancial, porquanto foram envolvidos em acontecimentos que não haviam provocado e que não podiam controlar (At 3.17; At 17.30). A ignorância dos judeus, entretanto, foi judicial, porquanto haviam fechado os próprios olhos à realidade de Jesus. Os judeus, foram seduzidos pelos seus líderes religiosos que não quiseram admitir o caráter messiânico de Jesus.

Quanto ao perdão de Jesus, era de caráter universal, não excluindo, Pilatos, os escribas e fariseus etc. O perdão, portanto, é tão largo e profundo quanto o pecado. O pecado tem sido universal, e o perdão oferecido tem sido igualmente universal.

2ª) Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.
(Salvador)(Uma valorosa promessa)

“Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. (Lc 23.43)

Três cruzes foram erguidas no monte do Calvário. Cada uma delas traz uma mensagem objetiva aos corações dos homens:

a) A CRUZ DA REDENÇÃO (Lc 23.33; Ef 1.17)

Ali naquela cruz do centro havia um homem morrendo “pelos nossos pecados”(1Co 15.3)

b) A CRUZ DA REJEIÇÃO (Lc 23.39)

Ali naquela cruz do lado havia um homem morrendo “em pecado”.

c) A CRUZ DA RECEPÇÃO  (Lc 23.40-42)

Ali naquela cruz do outro lado havia um homem morrendo “para o pecado”. Era a cruz do triunfo da fé e da graça.

É impressionante o que se passou com aquele malfeitor arrependido (Lc 23.40-42):

– Temeu a Deus e reprovou o companheiro de infortúnio;
– Confessou a justiça do seu castigo;
– Reconheceu que Jesus era inocente;
– Creu num Cristo vivo além da sepultura;
– Creu num Reino além da cruz, com Jesus por seu futuro Rei;
– Pediu por si mesmo, e provou a verdade da palavra “Quem invocar o nome do Senhor será salvo”.

Desta forma ele foi acolhido por Jesus nos últimos instantes da sua vida.

Bem diferente foi a atitude do outro malfeitor. Não percebeu o seu erro nem se arrependeu. Não percebeu qualquer valor em Cristo. Seu coração estava voltado apenas para esta vida. Queria continuar no mesmo caminho largo que o conduziu até ali. Ele deixou escapar a maior e última oportunidade da sua vida.

3ª) Mulher, eis aí teu filho | … Eis aí tua mãe.
(Cuidadoso)(Entrega mútua – Maria x discípulo amado)

“Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa.” (Jo 19.26-27)

A cruz de Cristo estava envolvida por um clima de extrema hostilidade, contrastado por um pequeno grupo de mulheres e mais o discípulo amado, que estavam perto da cruz e, com amargura de alma, contemplavam o ultraje sofrido por aquele que lhes era tão querido. Em qualquer tempo isso tem acontecido: muitos são os que escarnecem da cruz, enquanto poucos são os que se solidarizam com o crucificado, buscando refúgio aos seus pés.

Ali estava, entre outras, a mãe de Jesus, cuja alma estava traspassada pela espada (Lc 2.35) e o discípulo amado, cujo nome não é revelado aqui, mas que sabemos se tratar do apóstolo João, conforme nos indicam outras referências neste mesmo evangelho de João (ver as seguintes referências a ele mas que não lhe mencionam o nome: Jo 1.35-40; 18.5; 20.3, 8; com o adjetivo “amado”: Jo 13.23; 19.26; 20.2 e 21.7, 20. O texto de João 21.24 definidamente vincula esse discípulo ao autor do quarto evangelho).

O Filho e Senhor, moribundo, uniu-os na mais terna das relações. Conforme sempre foi característico no Senhor Jesus, até mesmo nos momentos de suas mais duras provações, como neste caso, em que experimentou dores atrozes. Ele, assim mesmo, dedicou tempo a pensar em “seus semelhantes”, importando-se com o bem-estar deles em tudo quanto lhe era possível. Este caso parece comprovar a suposição de que José, marido de Maria, já havia falecido por essa altura dos acontecimentos, e que Maria já era viúva há algum tempo. José não é mais mencionado em atividade, em toda a narrativa dos quatro evangelhos, após as cenas de Jesus no templo, aos 12 anos de idade (Lc 2.41-50). Entendemos que sua menção em Mateus 13.54-58 é apenas uma referência biográfica ou de identificação – “filho do carpinteiro”. Portanto, se ele estivesse ainda vivo, Jesus não teria de deixar Maria, sua mãe, aos cuidados do seu discípulo João.

As quatro últimas manifestações de Jesus na cruz foram feitas no final das três últimas horas da crucificação e no final do período de trevas. Verifica-se que elas dizem respeito à própria pessoa de Jesus!

4ª) Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
(Desamparado)(Brado de aflição espiritual)

“À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mc 15.34)
“Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27.46)

Pode se dizer que os Salmos 22 a 24 formam uma espécie de Trilogia[1] Messiânica, escrita por Davi, uma vez que o personagem central é o Messias – Jesus Cristo, a saber:

– Salmo 22: [Passado]  O Messias encarnado – Sofrimento e Vitória.
– Salmo 23: [Presente] O Messias ressuscitado – O Bom Pastor.
– Salmo 24: [Futuro]    O Messias exaltado – O Rei da Glória.  

“Nos três Salmos, 22, 23 e 24, Cristo é reconhecido no seu ministério a favor dos remidos: no passado, no presente e no futuro. Na sua morte sobre a cruz ele é o substituto (22), na peregrinação ele é o Pastor (23), e no trono ele é o Salvador (24). Os três salmos chamam nossa atenção para a Cruz, o Cajado e a Coroa.” (Goodman)

O Salmo 22, versículo 1, diz assim: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Ainda que tal expressão possa ter algo a ver com a experiência de vida de Davi, certamente é uma referência profética ao sofrimento do Messias. Assim, depois de 3 horas de trevas e 6 horas pendurado no madeiro, Jesus bradou com essas palavras. Este capítulo 22 está repleto de referências proféticas à crucificação do Messias – Jesus!

Este clamor expressa a sensação de abandono experimentado por Jesus, na cruz, ao tomar o nosso lugar, levando sobre si os pecados da humanidade: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.6) “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (2Co 5.21; ver tb 1Pe 2.24). Jamais seremos capazes de avaliar a agonia física, emocional e espiritual que Jesus estava passando, cujo ápice se deu naquela hora nona ou 3 horas da tarde! Embora haja algumas teorias, é um grande mistério esse clamor de Jesus sobre o desamparo de Deus. Seria retórica ou literal a expressão de Jesus. Poderia Deus abandonar o seu Filho Unigênito? Poderia Deus se separar de Deus? Alguns defendem a teoria de que Deus jamais abandonaria seu Filho, mesmo que parecesse que sim. Outros defendem a teoria de que todos os pecados foram literalmente transferidos para Jesus, o Cordeiro de Deus, como acontecia nos sacrifícios do Antigo Testamento, para que fôssemos perdoados e justificados por Deus. Desta forma, Deus-Pai teve que se separar momentaneamente de Jesus, porque ele foi feito pecado e Deus não tem comunhão com o pecado.

5ª) Tenho sede!
(Humano)(Brado de carência física)

“Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede! (Jo 19.28)

Esta exclamação de Jesus expõe enfaticamente sua humanidade, pois Jesus, o Deus-Homem, também era o Homem-Deus! A Escritura profética do salmista sobre o lamento do Messias cumpre-se aqui (Sl 69.21). Nesta condição humana ele se iguala a qualquer outro ser humano, exceto que ele não cometeu pecado (Hb 4.15). Há que se ressaltar que Jesus, o Homem-Deus, experimentou tortura e sofrimento extremo nos seus dias finais, a partir do seu aprisionamento e até à sua morte. E foi por mim, por você, por nós!

Há vasta comprovação bíblica e histórica dessa humanidade.

Ele possuía um corpo humano:
– Nascido de mulher (Gl 4.4);
– Sujeito a crescimento (Lc 2.52);
– Visto e tocado pelas pessoas (1Jo 1.1; Mt 26.12);
– Sangrou (Jo 19.34);
– Sujeito à morte física (Jo 19.31).

Ele foi sujeito às limitações da natureza humana:
– Sentiu fome (Mt 4.12);
– Sentiu sede (Jo 19.28);
– Se cansou (Jo 4.6);
– Chorou (Jo 11.35);
– Dormiu (Mc 4.38);
– Foi tentado (Hb 4.15).

A encarnação e consequente humanidade de Jesus Cristo é um fato de extrema relevância para a fé cristã! “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Vale ressaltar que Jesus participou plenamente da nossa humanidade, para que nós pudéssemos participar da sua natureza divina, pela fé, através do Espírito Santo (2Co 3.18; 2Pe 1.4). Já no início da igreja esta teve que lidar com filosofias religiosas oriundas do gnosticismo e docetismo[2]. Isto levou o apóstolo João a alertar a comunidade da fé nestes termos: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;” (1Jo 4.2). “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo.” (2Jo 1.7). “Essas palavras se referem diretamente ao ‘docetismo` ou ao ‘quase-docetismo` dos gnósticos, mediante o que eles negavam: 1. A encarnação; 2. A validade dos sofrimentos e da morte de Jesus Cristo como expiação; 3. A identidade das naturezas divina e humana da pessoa de Jesus Cristo.”[3]

6ª) Está consumado!
(Consumador)(Brado de vitória – missão cumprida!)

“Quando, pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito.” (Jo 19.30)

O que parecia ser a completa derrota – a morte de Cristo – na verdade se revelou a maior vitória! A missão de expiação pelo pecado estava terminada (Rm 5.11). Era chegado o momento em que essas palavras anteriormente proferidas por Jesus se concretizam: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer;” (Jo 17.4). Também nos ensina a grande verdade, de que a nossa vida tem o sentido maior de glorificar a Deus através da nossa vida, da obra e missão que ele tem designado para cada um de nós (1Co 15.58; Fp 1.6; Cl 1.10; 2Ts 1.11).

Vale destacar algumas das declarações que Jesus mesmo deu a respeito da razão da sua vinda:

– Não veio para revogar a Lei ou os Profetas, mas para cumprir (Mt 5.17);
– Não veio para chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento (Mt 9.13; Mc 2.17; Lc 5.32);
– Não veio trazer paz à terra, mas espada (Mt 10.34 ), ou divisão (Lc 12.51);
– Veio causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra (Mt 10.35);
– Veio salvar o que estava perdido (Mt 18.11);
– Não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28; Mc 10.45);
– Veio para pregar a pessoas de vários lugares e povoações (Mc 1.38);
– Não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las (Lc 9.56);
– Veio para lançar fogo sobre a terra (Lc 12.49);
– Veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10);
– Veio em nome do Pai (Jo 5.43);
– Não veio por sua própria vontade (Jo 7.28);
– Ele sabe de onde veio (Jo 8.14);
– Veio de Deus (Jo 8.42);
– Veio a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos (Jo 9.39);
– Veio para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10.10);
– Veio para esta hora (sofrimento e morte)(Jo 12.27);
– Veio como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que nele crê não permaneça nas trevas (Jo 12.46);
– Não veio para julgar o mundo, e sim para salvá-lo (Jo 12.47);
– Veio da parte de Deus (Jo 16.27);
– Veio do Pai (Jo 16.28);
– Veio ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade (Jo 18.37).

E, o apóstolo João acrescentou:

– Veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele (Jo 1.7-8);
– Veio para o que era seu, e os seus não o receberam (Jo 1.11).

Finalmente, vale lembrar o resultado desse “Está consumado!” nessas palavras do apóstolo Paulo: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.” (Cl 2.13-15)

7ª) Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!
(Sacrifício)(Brado de Confiança e Entrega)

“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou.” (Lc 23.46)
“Mas Jesus, dando um grande brado, expirou.” (Mc 15.37)
“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito.” (Mt 27.50)

A primeira “palavra” iniciou com “Pai” e a última também. Além de Lucas, os evangelistas Mateus e Marcos também mencionaram que Jesus clamou ou bradou em alta voz, porém não registraram o que ele disse, antes do seu último suspiro de vida no seu corpo mortal. Essas palavras também se encontram no Salmo 31.5, Salmo de Davi: “Nas tuas mãos, entrego o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade.” Sabedor do limite do seu estado físico Jesus se despediu do seu ministério terreno e do seu corpo mortal se entregando e voltando para o Pai, de onde veio.

Estas palavras transmitem algumas mensagens:

– Ele faz sua última oração testemunhando a todos que o Pai estava e sempre está presente, no governo e controle de todas as coisas.
– Ele tinha plena convicção de que o Deus-Pai o ouviria e o atenderia.
– Ele cria na imortalidade do espírito: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Ec 12.7).
– Ele nos dá o exemplo, nos conforta, e desperta em nós a esperança de que, ao findar o labor desta vida, nós, os salvos, os remidos pelo seu sangue ali na cruz, podemos entregar o espírito ao Pai Celestial.

Vale lembrar que o primeiro mártir cristão – Estêvão – correspondeu a muitas coisas ensinadas pelo Mestre, inclusive a perdoar os seus algozes e a entregar seu espírito a Deus: “E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu.” (At 7.59-60). Quão importante é viver tendo a certeza de que, ao deixarmos este mundo, seremos recebidos pelo Pai Celestial! É como diz o hino 153 (HNC):

Com tua mão segura bem a minha,
E meu caminho, alegre, seguirei!
Mesmo onde as sombras caem mais escuras,
Teu rosto vendo, nada temerei.

E no momento de transpor o rio
Que Tu, por mim, vieste atravessar,
Com tua mão segura bem a minha,
E sobre a morte eu hei de triunfar.

Conclusão

É inegável que o “verbo” que se fez carne e habitou entre nós, comunicou eficazmente a mensagem divina, no decorrer de todo o seu ministério terreno, inclusive no ápice do seu sofrimento na cruz. Vimos anteriormente que nessas manifestações finais ele continuou expressando seu cuidado e amor pelas pessoas; as que o rejeitaram e as que o receberam como Messias e Salvador. Também expôs publicamente seus sentimentos, carências físicas, convicção da missão cumprida e entrega.

Finalmente, em face de tudo isso, a pergunta que ainda ecoa é aquela feita por Pilatos: “…. Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo? … “ (Mt 27.22). O que você responde? A minha resposta pode ser extraída de algumas estrofes do hino 184 (HNC):

Por meu Jesus eu vou viver
E minha luz farei brilhar.
De dia em dia hei de fazer
O que ao meu Salvador honrar.     

E seja o dia quando for
Que Deus me chame para lá,
Bem certo estou que o Salvador
Contente me receberá.  

A doce voz me soará
De Cristo, amável Redentor!
”Fiel, bom servo, bem está,
Entra no gozo do Senhor.”
E face a face vê-lo-ei,
Liberto e salvo cantarei!
E face a face vê-lo-ei,
Liberto e salvo cantarei.


[1] Trilogia é o conjunto de três trabalhos artísticos, geralmente em literatura ou cinema, que estão conectados, mas que podem ser vistos tanto como trabalho único quanto como obras individuais. (Wikipédia)

[2] Gnosticismo e docetismo. Basicamente o gnosticismo cristão era considerado, assim como o docetismo, seu antecessor, uma forma de heresia sobre a pessoa de Cristo. Enquanto o docetismo afirmava que o corpo humano de Cristo não passava de um fantasma e que o seu sofrimento e morte eram meras aparências (“ou sofria e então não podia ser Deus, ou era verdadeiramente Deus e então não poderia sofrer”), o gnosticismo tentava explicar Cristo em termos de filosofia pagã ou de teosofia. Sendo o mundo material mau, Cristo não poderia ter-se encarnado nele e tampouco o Deus do Velho Testamento poderia ser o mesmo Deus revelado por Cristo. A polêmica, porém, já estava presente nos tempos do Novo Testamento.”….“O gnosticismo exerceu sua maior influência sobre o cristianismo no período entre os anos 135 e 200 d.C. Constituindo a maior ameaça à fé historicamente fundada dos cristãos, sua existência se prolongou por muito mais tempo. Doutrinas gnósticas voltam várias vezes na história da teologia; hoje sobrevivem em teorias ocultistas e espíritas.” (Enciclopédia Mirador Internacional)

[3] Champlin, Ph. D., Russell Norman – O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo.


Veja, também o artigo: Crônica do Calvário

JOSÉ, exemplo de recomeço

“Há muitos planos no coração do ser humano, mas o propósito do Senhor permanecerá.” (Pv 19.21 NAA)
“Os passos de cada pessoa são dirigidos pelo Senhor; como poderá alguém entender o seu próprio caminho?” (Pv 20.24 NAA)

Introdução

O soneto “As Pombas”, de autoria do poeta brasileiro Raimundo Correia (1859-1911), é um dos destaques do movimento parnasiano brasileiro (final do século XIX).

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

O soneto menciona pombas e a Bíblia também. Ainda que Noé, dentro da Arca e depois do dilúvio, tenha soltado uma pomba por três vezes: a primeira retornou significando que era tempo de espera e paciência; a segunda retornou com uma folha nova de oliveira no bico, sinal de vida, recomeço e esperança; a terceira já não retornou, significando que era tempo de agir, de sair da Arca, de seguir em frente, de recomeçar  (Gn 8.8-12). Ainda que a pomba seja uma ave importante no cristianismo, uma representação do Espírito Santo – simplicidade e pureza (Mt 3.16; 10.16; Jo 1.32). Ainda que as pombas recebam certo protagonismo neste soneto, a intenção do poeta é outra; vai além das pombas e sua rotina de vida.

O soneto descreve, inicialmente, o revoar rotineiro das pombas, nas suas idas e vindas cotidianas. O poeta faz uma conexão entre estas e os sonhos. Sua intenção é a de trazer à tona e nos fazer refletir sobre a efemeridade da vida. No final estabelece uma relação com as fases da existência humana, sendo que, desde o alvorecer da vida, desde o azul da adolescência, cada dia que passa é um sonho ou uma ilusão que morre. Sem dúvida o soneto carrega uma preocupação existencial, uma visão pessimista da vida, com pensamentos que dão asas à imaginação, com sonhos que se projetam entre o céu e a terra, mas que nunca se concretizam. No crepúsculo da vida, não mais serão lembrados. Será que é assim mesmo? Será que foi assim na vida de José? Será que isso é determinante na vida humana?

Uma das histórias mais lindas,  emocionantes e impactantes da Bíblia é a de José, um dos doze filhos de Jacó. É justo considerar que José é a própria encarnação do conceito de recomeço e de resiliência após recorrentes situações pessoais trágicas e devastadoras. Pode-se afirmar que, diante das calamidades pelas quais ele passou, de forma humanamente solitária, o que de fato o sustentou e o fez sempre seguir com a vida foi a sua confiança e dependência de Deus. O que o salmista declarou era uma realidade em sua vida: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança. Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei jamais abalado.” (SI 62.5 e 6).

1. RESILIÊNCIA DIANTE DA REJEIÇÃO

“Ora, Israel amava mais a José que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice; e fez-lhe uma túnica talar de mangas compridas. Vendo, pois, seus irmãos que o pai o amava mais que a todos os outros filhos, odiaram-no e já não lhe podiam falar pacificamente.” (Gn 37.3-4)

O nascimento de José se deu em condições especiais, pois sua mãe Raquel era estéril. Depois de longa espera, humilhação e vergonha, em resposta ao seu clamor a Deus, Raquel concebeu (Gn 30.22-24). Sendo Raquel a esposa predileta de seu pai (Gn 29.30) e tendo ele vindo ao mundo por milagre divino, Jacó tratava José com predileção e distinção (Gn 37.3), o que provocava ciúme e rejeição por parte dos demais irmãos (Gn 37.4, 11).

A história de José é narrada a partir de Gênesis 37. Ainda muito jovem, com 17 anos, ele não estava isento do trabalho. Pastoreava os rebanhos da família com os demais irmãos. Desde o início temos a impressão de que a índole de José era piedosa, contrastando assim com a dos seus irmãos, bem conhecida principalmente no incidente com Diná (Gn 34). Como filho predileto, ele parece estar sempre disposto a defender os interesses do pai, denunciando corajosamente os erros de conduta dos irmãos, ainda que comprometendo o seu relacionamento com eles. No conceito dos irmãos José não devia passar de um sujeito mimado e “dedo duro”.

A vida de José é marcada por sonhos e interpretações de sonhos. As palavras “sonho” e “sonhos” aparecem aproximadamente 27 vezes (32 %) na história de José, 27 (32 %) em Daniel e 31 (36 %) outras vezes no restante da Bíblia, num total de 85 vezes.

Uma das definições de sonho é “conjunto de ideias e imagens que se apresentam ao espírito durante o sono” . Outra definição secular fala em “sequência de ideias vãs e incoerentes”.  Em Jó 33.14-24 Eliú, em seu discurso, diz que Deus fala aos homens por meio de sonhos (vv.15-16), por meio da dor (vv.19-22) e por meio de anjos (v.23). Quando o escritor de Hebreus diz que Deus falou de “muitas maneiras” certamente ele tinha em mente o “sonho”, canal bastante utilizado por Deus.

A mensagem profética contida nos dois sonhos de José estava muito além da compreensão deles e só fez agravar o  já crítico relacionamento familiar. De fato, Deus pretendia deixar bem claro que José haveria de ter proeminência sobre toda a casa de Jacó. No primeiro sonho, sobre seus irmãos, sendo cumprido em Gênesis 42.6, 9; 43.26; 44.14. No segundo, sobre seus  pais, sendo cumprido em Gênesis 47.11-12).

Não é difícil imaginar o quanto era aflitivo e angustiante para José ter que conviver, dia após dia, com o ódio e rejeição dos irmãos. Ódio esse tão exacerbado e ácido que os levaram a conspirar para o matar. Porém, Deus não o permitiu. Então, eles o lançaram numa cisterna e depois o venderam para uma caravana de ismaelitas que seguia para o Egito. Pode-se dizer que, nas suas mentes, eles o assassinaram.

Portanto, mesmo diante de tanto ódio e rejeição José não se deixou abater, não se tornou uma pessoa revoltada ou deprimida, não se prostrou derrotado diante das circunstâncias. Dia após dia ele procurava viver uma vida plena e em obediência ao seu pai. Quanto aos sonhos que tivera certamente ele não fazia ideia de que tudo aquilo fazia parte do plano de Deus para a sua realização.

Que tipo de rejeição você tem enfrentado em casa ou por causa da sua família? Não é o(a) filho(a) predileto(a) dos pais? Seu pai ou sua mãe ou ambos te abandonaram (literal ou emocionalmente)? São os erros ou a má fama de alguém de sua família? A condição social ou racial da sua família? Suas limitações ou deficiências ou deformidades físicas? Não encarne a posição de eterna vítima! Não viva murmurando! Firme-se em Deus e na força do seu poder. Mesmo quando você não estiver entendendo bem as circunstâncias adversas, siga em frente, espelhe-se em José!

2. RESILIÊNCIA DIANTE DA ESCRAVIDÃO

“José foi levado ao Egito, e Potifar, oficial de Faraó, comandante da guarda, egípcio, comprou-o dos ismaelitas que o tinham levado para lá. O SENHOR era com José, que veio a ser homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio.” (Gn 39.1-2)

Assim que chegou ao Egito José foi comprado, como escravo, por Potifar, um oficial de Faraó. Não é fácil se colocar no lugar de José e perceber o impacto psicológico e emocional de deixar a casa paterna, onde ele era livre e o predileto do pai, para viver essa nova e terrível condição de escravo numa terra estrangeira. Na casa deste oficial ele progrediu admiravelmente, a ponto de ser promovido como administrador e mordomo de tudo o que tinha o seu senhor (Gn 39.1-6a). Mais uma vez é notório que José ressurgiu das cinzas, não se deixou abater, buscou forças em Deus e seguiu em frente. E Deus abençoou a casa de Potifar, por amor a José (Gn 39.5).

Que tipo de dificuldade você tem enfrentado na escola ou no seu local de trabalho? Sua condição social ou racial? Suas limitações ou deficiências ou deformidades físicas? Sua fé em Cristo? Sua postura, princípios e valores, hábitos e conduta de vida? Assédio moral ou sexual? Não encarne a posição de eterna vítima! Não viva murmurando! Firme-se em Deus e na força do seu poder. Mesmo quando você não estiver entendendo bem as circunstâncias adversas, siga em frente, espelhe-se em José!

3. RESILIÊNCIA DIANTE DA INJUSTIÇA

“José era formoso de porte e de aparência.” (Gn 39.6b)

Não é incomum encontrar na narrativa bíblica alguma referência ao aspecto físico de uma pessoa. Sara (Gn 12.11, 14), Rebeca (Gn 24.16; 26.7) e Raquel (Gn 29.17); bisavó, avó e mãe de José, respectivamente, também foram mencionadas como formosas. Assim como a beleza dessas suas ascendentes representou perigo para seus maridos diante de governantes estrangeiros, parece que a beleza (física e intelectual) de José despertou a atenção e o interesse da mulher do seu senhor. Sendo cotidianamente assediado sexualmente pela pérfida e mentirosa mulher de Potifar, José resistiu firmemente. É digno de destaque o seu argumento dirigido a ela, demonstrando seu inegociável respeito ao seu senhor e, acima de tudo, sua determinação de não pecar contra Deus (Gn 39.10). Sua fidelidade a Deus e ao seu senhor fizeram com que a mulher de Potifar armasse uma cena típica da dramaturgia moderna que a colocou no papel de vítima inocente e a José no papel de vilão pervertido. Assim, ele foi parar no cárcere do rei (Gn 39.10-20).

“O SENHOR, porém, era com José, e lhe foi benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro; o qual confiou às mãos de José todos os presos que estavam no cárcere; e ele fazia tudo quanto se devia fazer ali.” (Gn 39.21-22)

Parece que a frase “não existe nada tão ruim que não possa piorar” foi cunhada a partir da história de José. Diante do descalabro e da injustiça sofrida será que José ainda se lembrava dos sonhos que tivera? De onde poderia ele tirar forças para se reerguer diante de sua condição de privação da liberdade de ir e vir e da reputação assassinada por uma mentirosa? Estando no fundo do poço será que valeria a pena lutar ou era melhor se entregar de vez, deixando-se dominar pelo desânimo, depressão até à morte. É relevante observar que o Senhor Deus nunca o desamparou e lhe renovou as forças para continuar. Mas, será que haveria algo que pudesse despertar seu interesse dentro de um cárcere? Com a bênção divina José encontrou favor e amizade da parte do carcereiro-mor e este usou as habilidades do escravo encarcerado para ajudá-lo na administração daquele lugar (Gn 39.21-23).

José não poderia imaginar que aquele lugar seria o trampolim para a sua ascensão ao ponto mais alto da sua vida. Ali ele interpretou os sonhos de dois encarcerados que serviam ao rei do Egito (copeiro-chefe e padeiro-chefe) que se cumpriram. Restaurado às suas funções no palácio, durante dois anos o copeiro-chefe esqueceu-se de apelar em favor de José, conforme este lhe pedira. Mas José, não se deixou abater e nunca perdeu a esperança no seu Deus! (Gn 40).

Que tipo de injustiça você tem enfrentado na vida? Foi ou está sendo acusado(a) ou punido(a) por algo que não fez? Está sendo preterido de uma promoção no trabalho? Está se sentindo desprestigiado na igreja apesar de se desgastar na obra de Deus? Foi vítima de alguém e os responsáveis não estão tomando qualquer providência? Estão dando mais atenção a outros do que a você? Não adote aquela postura de vitimização permanente! Não viva murmurando! Firme-se em Deus e na força do seu poder. Mesmo quando você não estiver entendendo bem as circunstâncias adversas, siga em frente, espelhe-se em José!

4. O TRIUNFO DA RESILIÊNCIA DE JOSÉ

“Disse Faraó aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus? Depois, disse Faraó a José: Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão ajuizado e sábio como tu. Administrarás a minha casa, e à tua palavra obedecerá todo o meu povo; somente no trono eu serei maior do que tu. Disse mais Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre toda a terra do Egito.” (Gn 41.38-41)

A fé é posta à prova nos inevitáveis e pedagógicos desafios da vida. Durante treze anos, dos 17 aos 30 anos,  José passou por uma série de tragédias pessoais (Gn 37.2; 41.46). Nas crises e angústias, as tentações são grandes; a tendência é queixar-se de Deus, acusar os outros e cair no desespero. José, porém, sofrendo injustamente e vivendo longe da casa paterna, continuava firme em sua fé e na fidelidade a Deus. E Deus estava com ele, na cisterna, na casa de Potifar e no cárcere.

A prosperidade e ascensão social podem ser consideradas outros tipos de tentação. Muitos crentes que progrediram na vida, intelectual e financeiramente, acabaram se desviando da fé. A promoção material induz a pessoa à ambição material, à negligência nos deveres espirituais e ao orgulho, julgando-se superior aos outros. José foi elevado ao posto de governador do Egito e não se afastou dos caminhos de Deus, conservando seu testemunho de fé e temor ao Senhor. É como disse Jesus: “….; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (Mt 25.21)

“Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito.” (Gn 45.8)

José recebeu a missão divina de conservar a vida (Gn 45.5). A nação egípcia foi abençoada pela sua administração, bem como muitos povos foram beneficiados. Seus irmãos foram perdoados e por sua influência encontraram um lugar onde puderam morar em paz e segurança. Ali a nação de Israel floresceu. Deus estava no controle conduzindo toda a sua trajetória! Aleluia!

Conclusão

José, sem dúvida, deve ter ficado atordoado e perplexo, diante de situações catastróficas ao longo da sua vida. Primeiramente, no poço ou cisterna vazia, esperando a morte; depois vendido para ser escravo; mais tarde colocado na prisão devido a uma acusação falsa da mulher do seu senhor. Enquanto estava na prisão foi esquecido por um homem que ele ajudou e, por fim, foi elevado para ser o governador em toda a terra do Egito no tempo duma crise alimentar iminente.

É notório que sua fé se mantinha viva ou aumentava a cada prova. Deus nunca dá spoiler da trajetória ou curso da nossa vida! É preciso viver pela fé e na sua dependência. Não havia qualquer possibilidade dele entender o plano divino e como aqueles sonhos seriam concretizados.

Confiança nas circunstâncias variadas e às vezes, devastadoras, é constantemente exigido dos filhos de Deus. Não entendemos e não podemos entender completamente os propósitos de Deus, mas somos admoestados a continuar perseverantes no conhecimento de que Deus está no controle e nunca vai nos deixar e nem nos desamparar. No caso de José, as experiências contribuíram para o aprimoramento da sua fé. Isto aconteceu somente porque ele confiou em Deus em todos os momentos e circunstâncias, por mais variadas e instáveis que fossem. Seu exemplo se toma uma inspiração para nós quando o caminho parece escuro e incerto. Deus ainda está operando entre nós e continuará a realizar os seus propósitos!

Algumas das virtudes de José devem marcar a nossa vida e caminhada cristã: Temor a Deus, Fé Inabalável, Paciência, Perseverança, Caráter ilibado, Coragem, Humildade, Honestidade, Espírito Perdoador, Amor, Generosidade e Misericórdia. José é um bom exemplo de pessoa que se tornou bênção nas mãos de Deus: no lar, na casa de Potifar, no cárcere e no governo. Deve inspirar o crente em qualquer circunstância: nos afazeres comuns, no exercício da profissão, nas provações ou circunstâncias adversas ou nas posições de maior destaque.

Finalmente, o que dizer dos seus sonhos? O poeta do soneto inicialmente mencionado tem ou não razão? Você teve ou tem sonhos? Os seus sonhos são apenas seus ou também são os sonhos de Deus? “Ninguém pode realizar grandes obras sem ser um sonhador. O espírito humano concebe as coisas do futuro. Os pais sonham carreiras para os seus filhos; eles sonham o que estes serão em suas vidas. Isto é bom, desde que seja para a glória de Deus.” (Jabes Lopes de Souza)

“Se você, meu irmão, é capaz de sonhar, como sonhou José, vendo o invisível e esperando o amanhã radiante que a próxima alvorada trará, mesmo que primeiramente tenha de passar pela provação, porém não permitindo que a fantasia, a utopia, se aninhem na mente, de tal maneira que os planos do Senhor se tornem secundários. Certamente você é um servo de Deus, e sobre você está a unção do Altíssimo.” (Pr. Amaury de Souza Jardim – adaptado)

………………………….

Para reflexão

Dentre as muitas lições que podemos extrair da história de José, mencionamos apenas algumas:

– Poligamia gera confusão e desarmonia.
– Predileção por filhos produz desagregação familiar.
– Deus é soberano para levantar líderes que cumpram uma missão específica.
– A inveja é voraz e destruidora.
– Os métodos de Deus desafiam a lógica humana.


Veja, também o Estudo: JOSÉ, um tipo de Cristo

Refletindo sobre a Fé

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb 11.1)

Vale lembrar que:

Somente crer: é assentimento ou concordância mental.

Somente obedecer: é automatismo ou irracionalidade.

: significa crer e obedecer.

Muito se pode falar sobre a fé. Nada mais oportuno e apropriado do que conferir diretamente na fonte. O que a Bíblia (Novo Testamento) nos ensina sobre a Fé?

01. Fé como crença num “sistema religioso” (1Co 16.13; Cl 2.7; Tt 1.4; Gl 1.23; Fp 1.27; Jd 1.3).

“Sede vigilantes, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos.” (1Co 16.13)

“nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças.” (Cl 2.7)

“a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador.” (Tt 1.4)

“Ouviam somente dizer: Aquele que, antes, nos perseguia, agora, prega a fé que, outrora, procurava destruir.” (Gl 1.23)

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;” (Fp 1.27)

“resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo.” (1Pe 5.9)

“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Jd 1.3)

02. Fé num sentido pessoal (Mt 15.28; Mc 11.22; Lc 17.5; Rm 14.22).

“Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.” (Mt 15.28)

“Ao que Jesus lhes disse: Tende fé em Deus;” (Mc 11.22)

“Então, disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé.” (Lc 17.5)

“A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova.” (Rm 14.22)

03. Fé e suas gradações:

– Ausente (Mc 4.40; 9.24)

“Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé?” (Mc 4.40)

“E imediatamente o pai do menino exclamou com lágrimas: Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Mc 9.24)

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.” (Hb 11.6)

– Débil (Rm 14.1)

  “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões.” (Rm 14.1)

– Pode crescer (2Co 10.15)

“não nos gloriando fora de medida nos trabalhos alheios e tendo esperança de que, crescendo a vossa fé, seremos sobremaneira engrandecidos entre vós, dentro da nossa esfera de ação,” (2Co 10.15)

– Oração para aumentar (Lc 17.5)

“Então, disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé.” (Lc 17.5)

– Pequena (Mt 8.26; 16.8; 17.20)

“Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança.” (Mt 8.26)

“Percebendo-o Jesus, disse: Por que discorreis entre vós, homens de pequena fé, sobre o não terdes pão?” (Mt 16.8)

“E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.” (Mt 17.20)

– Grande (Mt 8.10; 15.28; 1Co 13.2)

“Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta.” (Mt 8.10)

“Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.” (Mt 15.28)

“Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.” (1Co 13.2)

– Plena (At 6.5; 11.24)

“O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.” (At 6.5)

“Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor.” (At 11.24)

– Pode desfalecer (Lc 22.32; At 14.22)

“Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos.” (Lc 22.32)

“fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.” (At 14.22)

Morta (Tg 2.17)

“Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.” (Tg 2.17)

04. Fé e suas características/potencialidades:

– É “visível” (Mt 9.2 – paralítico levado por quatro; Tg 2.18)

“E eis que lhe trouxeram um paralítico deitado num leito. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho; estão perdoados os teus pecados.” (Mt 9.2)

“Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tg 2.18)

– Justifica (Rm 3.28, 30; 5.1; Gl 2.16; 3.8)

“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. visto que Deus é um só, o qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso.” (Rm 3.28, 30)

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1)

“sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.” (Gl 2.16)

“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos.” (Gl 3.8)

– Salva (Lc 17.19; Ef 2.8)

“E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.” (Lc 17.19)

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;” (Ef 2.8 – com certeza a salvação é dom ou dádiva de Deus)

– Nos torna filhos de Deus (Gl 3.26)

“Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus;” (Gl 3.26)

– Ressuscita para uma nova vida (Cl 2.12)

“tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.” (Cl 2.12)

– Purifica (At 15.9)

“E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé o coração.” (At 15.9)

– Santifica (At 26.18)

“para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.” (At 26.18)

– Alimenta (1Tm 4.6)

“Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido.” (1Tm 4.6)

– Protege (Ef 6.16)

“embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.” (Ef 6.16)

Cura (At 3.16; 14.9)

“Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós.” (At 3.16)

“Esse homem ouviu falar Paulo, que, fixando nele os olhos e vendo que possuía fé para ser curado,” (At 14.9)

– Vence o mundo (1Jo 5.4)

“porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.” (1Jo 5.4)

05. Fé em Jesus Cristo ou por meio de Jesus Cristo (At 3.16; Rm 5.2; Hb 12.2; Cl 1.4)

“Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós.” (At 3.16)

“por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus.” (Rm 5.2)

“olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.” (Hb 12.2)

“desde que ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos;” (Cl 1.4)

06. Fé pela pregação e pregação da fé (Rm 10.17; Gl 3.2)

“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17)

“Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gl 3.2)

07. Fé como dom espiritual repartido por Deus (Rm 12.3; 1Co 12.9)

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” (Rm 12.3)

“a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar;” (1Co 12.9)

08. Fé que se apoia no poder de Deus (1Co 2.5)

“para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.” (1Co 2.5)

09. Fé que é estilo de vida – “o justo viverá por fé” (Rm 1.17; 2Co 5.7; Gl 2.20; Gl 3.11; Hb 10.38)

“visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.” (Rm 1.17)

“visto que andamos por fé e não pelo que vemos.” (2Co 5.7)

“logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.20)

“E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé.” (Gl 3.11)

“todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma.” (Hb 10.38)

10. Fé que é única e que busca a unidade (Ef 4.5, 4.13)

“há um só Senhor, uma só fé, um só batismo;” (Ef 4.5)

“Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo,” (Ef 4.13)

11. Fé a ser imitada (Hb 13.7)

“Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram.” (Hb 13.7)

12. Fé que é provada e aprovada (1Pe 1.7)

“para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo;” (1Pe 1.7)

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(Última atualização: 05/01/2022)

A conversão de Cornélio (Parte 3)

Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

  • A reação ao ocorrido (vv.1-3)

1  Chegou ao conhecimento dos apóstolos e dos irmãos que estavam na Judéia que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus.

O que aconteceu na casa de Cornélio não passou despercebido, nem em Cesaréia, nem no restante da Palestina. Foi um acontecimento singular, incomum e sobrenatural; não foi o primeiro, nem seria o último. O livro de Atos registra cinco “derramamentos” ou “batismos” do Espírito Santo que testificam a participação divina na história do cristianismo, além de selar, desta forma, o progressivo avanço da igreja. São eles:

– O “Pentecostes apostólico” (At 2.1-13) (Línguas)
– O “Pentecostes eclesiástico” (At 4.31)
– O “Pentecostes samaritano” (At 8.14-17)
– O “Pentecostes gentílico” (At 10.44-47) (Línguas)
– O “Pentecostes efésio” (At 19.1-7) (Línguas)

Todos sabemos que o Pentecostes de Atos 2 foi único no sentido de marcar o início de uma nova época, o início da igreja de Cristo. Vale lembrar o que disse Merrill Unger: “Pentecostes não pode ser repetido assim como a criação do mundo ou do homem; é de uma vez para sempre, como a encarnação e morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Isto vem dos seguintes fatos: (1) O Espírito de Deus só poderia vir, chegar e fazer morada na igreja uma vez, o que fez no Pentecostes. (2) O Espírito de Deus só poderia ser dado, recebido e depositado na igreja uma vez e isso aconteceu no Pentecostes. (3) O evento ocorreu num tempo específico (Atos 2.1), cumprindo um tipo específico do Antigo Testamento (Levítico 23.15-22), num lugar específico (Jerusalém, cf.  Lucas 24.49), sobre uns poucos específicos (Atos 1.13-14), para um propósito específico (1Corintians 12.12-20), a fim de introduzir uma nova ordem. O evento não constituía de fatores contínuos e recorrentes da nova ordem uma vez instituída.”. Com a devida licença  teológica, estas cinco ocorrências parecem testificar a forma de avanço do evangelho expressa em Atos 1.8: “…e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Entretanto, parece que isto não estava muito claro na mente dos apóstolos e cristãos judeus.   

2  Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: 3  Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles.

O registro bíblico não deixa claro que Pedro tenha sido expressamente convocado a ir a Jerusalém para se explicar. O fato é que quando lá chegou ele foi questionado pelos legalistas e defensores da circuncisão. Pela pergunta feita a Pedro parece que aquilo que chegou até estes inquisidores foi uma versão reduzida ou recortada do ocorrido. Outra opção de interpretação é que, de tudo quanto tomaram conhecimento, o que mais lhes interessava ou importava ou incomodava foi a aproximação de Pedro de gentios, rompendo padrões ou tradições ou tabus judaicos.  

  • As explicações de Pedro (vv.4-17)

4  Então, Pedro passou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo:

Não há dúvida de que Pedro precisava contar toda a história para convencê-los de que não havia cometido qualquer transgressão. Pode-se dizer que a tarefa de Lucas, o escritor de Atos, neste ponto, veio bem ao encontro do seu estilo e vocação: “igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,” (Lc 1.3).

5  Eu estava na cidade de Jope orando e, num êxtase, tive uma visão em que observei descer um objeto como se fosse um grande lençol baixado do céu pelas quatro pontas e vindo até perto de mim.
6  E, fitando para dentro dele os olhos, vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu.
7  Ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come.
8  Ao que eu respondi: de modo nenhum, Senhor; porque jamais entrou em minha boca qualquer coisa comum ou imunda.
9  Segunda vez, falou a voz do céu: Ao que Deus purificou não consideres comum.
10  Isto sucedeu por três vezes, e, de novo, tudo se recolheu para o céu.
11  E eis que, na mesma hora, pararam junto da casa em que estávamos três homens enviados de Cesaréia para se encontrarem comigo.

A história contada aqui por Pedro é praticamente idêntica ao que foi narrado anteriormente, inclusive, no versículo 11, consta o detalhe de que ali chegaram exatamente aqueles três os homens que foram enviados por Cornélio: “dois dos seus domésticos e um soldado piedoso” (At 10.7).   

12  Então, o Espírito me disse que eu fosse com eles, sem hesitar. Foram comigo também estes seis irmãos; e entramos na casa daquele homem.

Temos aqui outro detalhe adicional que é o de Pedro ter sido acompanhado por seis irmãos ali de Jope, quantidade essa bastante significativa. Anteriormente não fora dito a quantidade desses irmãos (At 10.23).

13  E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro,
14  o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa.

Depreende-se, de toda a narrativa, que Lucas, o escritor deste Livro, deve ter tido a intenção de ir acrescentando os detalhes gradativamente. Na primeira menção ao que o anjo disse a Cornélio é revelado que ele apenas deveria mandar chamar Pedro (At 10.6). Ao relatar aquela visão, Cornélio ratifica essa versão (At 10.33). Agora, em sua exposição do que o anjo falou, Pedro traz à luz algo extremamente relevante, provavelmente já interpretando a verdadeira razão dele ter sido chamado para essa missão: “o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa”. Essa explicação de Pedro deixa muito claro o que já afirmamos anteriormente, a saber, que Cornélio era tão somente um homem piedoso e religioso que precisava de salvação, bem como as pessoas da sua casa – “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (1Pe 1.23); “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17). A salvação é individual, não é por atacado. Fica claro o propósito divino de alcançar muitas vidas ali para a salvação eterna.

15  Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio.
16  Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.
17  Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?

Já tivemos a oportunidade de comentar esta narrativa sobre a descida do Espírito Santo em Atos 10.44-46. Vale destacar aqui a percepção de tudo aquilo por parte de Pedro:

1º) A manifestação do Espírito Santo foi algo involuntário, inesperado, não programado e não ocorrido como resposta a um clamor. Portanto, foi algo que transcendeu à vontade ou intenção humanas.

2º) Foi semelhante ao que já havia acontecido no princípio com eles (judeus), provavelmente no Pentecostes (At 2.1-13). Isso deveria levá-los a entender que Deus não fazia distinção entre judeus e gentios, pois Cristo veio para ambos.

3º) Foi o cumprimento da promessa de Cristo quanto a um batismo diferente, com o Espírito Santo. Desta forma, depreende-se que o ato de “cair sobre” (movimento de cima para baixo) foi interpretado como “batismo”.

4º) Que o dom ou dádiva do Espírito Santo está associado ao crer.

5º) Que precisamos estar atentos para discernir os sinais, interpretando-os à luz do contexto bíblico, para não nos acharmos na contramão da vontade de Deus.

  • O desfecho conciliador (v.18)

18  E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.

Percebe-se que, inicialmente, os ânimos estavam acirrados e contrários à atitude de Pedro se aproximando dos gentios. Entretanto, a igreja judaica reunida, finalmente se deu conta de que novos tempos eram chegados. A atuação eficaz do Espírito permitiu-lhes perceber que Jesus é o Salvador de todos os que creem na sua obra redentora, tornando-se assim membros do seu corpo – a Igreja Invisível.

Veja também:


Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

A conversão de Cornélio (Parte 2)

Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

  • O encontro de Pedro com Cornélio (vv.24-29)

24  No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos.

A viagem não era tão longa assim (cerca de 51 Km em linha reta) para os padrões da época, pois chegaram lá no dia seguinte. Nas atitudes de Cornélio descritas no texto podemos deduzir que: (i) Ele estava seguro e tinha fé de que a missão teria bom êxito e Pedro viria com seus servos; (ii) Ele não achava correto reservar apenas para si a oportunidade e privilégio de vivenciar aquele momento tão especial de ouvir um enviado por Deus. Seu altruísmo o levou a estender esse privilégio aos seus parentes e amigos mais próximos.

25  Aconteceu que, indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe aos pés, o adorou.

Finalmente, Pedro chegou à casa de Cornélio que o estava esperando. Percebe-se que Cornélio ainda estava sob o impacto da visão e sem a adequada noção do significado dos fatos. Certamente ele tinha muito a aprender sobre o mundo espiritual e o mundo material. O fato de Pedro ter sido apontado na visão como um interlocutor divino, não o tinha promovido ao status de um ser superior ou celestial, diante de quem se deveria prostrar e adorar. Se nem os seres celestiais são dignos de veneração e adoração, quanto mais os seres humanos e mortais. Somos apenas servos “inúteis” aos quais foi conferido o privilégio de servir ao Deus dos deuses e Senhor dos senhores. O equívoco de Cornélio pode se repetir na comunidade cristã de qualquer época, quando os liderados confundem e trocam submissão e apreço, por devoção e exaltação a seus líderes!

26  Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu também sou homem.

Podemos até imaginar o constrangimento de Pedro diante da cena de Cornélio prostrado aos seus pés. Rapidamente ele interferiu e reverteu a situação esclarecendo que todos somos iguais e objeto da mesma graça divina.

27  Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali,

28  a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo;

29  por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar. Pergunto, pois: por que razão me mandastes chamar?

Diante daquele público gentio, isto é, de Cornélio e seus convidados, bem como dos judeus que o acompanhava, Pedro achou por bem começar expondo e ratificando a prática dos judeus de não aproximação dos não judeus. Pelo seu falar, isso era algo de conhecimento de todos. Justifica, então, sua presença ali, rompendo tal prática, como algo que decorria de uma experiência mística com Deus. Assim se expressando, demonstra que compreendeu o significado daquela visão do lençol com vários tipos de animais impuros. Faltava-lhe, ainda, ser esclarecido da razão porque lhe mandaram chamar.

  • Cornélio conta a visão (vv.30-33)

30  Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes

31  e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas, lembradas na presença de Deus.

32  Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de Simão, curtidor, à beira-mar.

33  Portanto, sem demora, mandei chamar-te, e fizeste bem em vir. Agora, pois, estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.

A fala inicial de Cornélio nos permite esboçar a provável cronologia dos acontecimentos.

1º dia – às 15h (hora nona): Cornélio teve a visão. Início da viagem(?)

2º dia: Viagem da comitiva até Jope, chegada, encontro com Pedro e pernoite.

3º dia: Viagem de volta da comitiva, acompanhada de Pedro e outros.

4º dia – às 15h (hora nona): Término da viagem e encontro de Pedro com Cornélio e seus convidados.

Ao contar a visão, Cornélio expressa algumas variações em relação à narrativa anterior. O horário era “cerca da hora nona do dia”; agora, “por volta” desta mesma hora, e durante a observação da “hora nona de oração”, em sua casa. Anteriormente fora uma visão quando dele se aproximou um anjo; desta feita um “varão de vestes resplandecentes” se apresentou diante dele. A fala daquele ser se manteve na mesma linha: As orações e esmolas de Cornélio chegaram diante de Deus e Pedro deveria ser chamado.

Finalmente, Cornélio declara que cumpriu a sua parte, em obediência à orientação divina, e que Pedro também fez bem em ter atendido o chamado. Então, estando todos ali prontos e à disposição, passou a palavra a Pedro.

  • A pregação de Pedro (vv.34-36)

O que dizer dessa pregação de Pedro? Que ela foi inspirada pelo Espírito de Deus não há qualquer dúvida. Na verdade, sua mensagem foi visceral no sentido que traduzia tudo aquilo que ele viu, ouviu e vivenciou intensa e diretamente como testemunha ocular do Mestre. Então, a síntese da mensagem pode ser expressa nos seguintes sete pontos:

1º) Uma nova visão de Deus (vv.34-35).

34  Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas;

35  pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.

Pedro percebe ou reconhece algo mais sobre Deus. Um Deus que não é propriedade particular de um povo – os judeus – mas que comprou para si, pelo sangue do seu Filho, um povo de propriedade exclusiva sua, que alcança todas as tribos, raças, línguas, povos e nações. Um Deus que não faz acepção de pessoas; que acolhe homens e mulheres, pobres e ricos, gente nova e idosos. Um Deus que procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23). Um Deus que está atento aos que o temem e fazem o que é reto e justo; lhes oferecendo salvação, não por causa dos seus méritos pessoais, mas pela graça salvadora de Cristo. “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.” (Sl 145.18)

2º) O Evangelho da Paz (v.36)

36  Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.

Cornélio e os demais convidados aguardavam a “palavra” de Deus por intermédio de Pedro. Jesus era e é o verbo de Deus que se fez carne; a palavra encarnada, enviada inicialmente aos filhos de Israel. A essência da pregação de Pedro é Jesus, o enviado de Deus, aquele que anunciou o evangelho da paz: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1); o evangelho da reconciliação: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,” (2Co 5.18). Este Jesus é o “Senhor e Salvador”, expressão essa muito apreciada e usada por Pedro (2Pe 1.11; 2.20; 3.2; 3.18). 

3º) A vida e ministério de Jesus (vv.37-39a)

37  Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou,

38  como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele;

39  e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Aparentemente Pedro tinha a percepção de que os seus ouvintes haviam tomado conhecimento da vida de Jesus. Realmente seus feitos e fama se espalharam rapidamente por toda a parte. Entretanto, achou por bem relembrar os fatos, começando com o batismo de arrependimento pregado e realizado por João Batista, bem como mencionando a unção de Jesus pelo Espírito Santo. Pedro, na qualidade de testemunha ocular, não podia deixar de citar o poder de Deus que atuava através de Jesus, curando e libertando vidas por toda a parte.

4º) Sua morte (v.39b)

… ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Não há Evangelho da Paz ou pregação do Evangelho sem mencionar a morte de Jesus, sua morte na cruz! “agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis,” (Cl 1.22)

5º) Sua ressurreição (vv.40-41)

40  A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto,

41  não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos;

O grande diferencial do cristianismo é exatamente a morte sacrificial seguida da ressurreição sobrenatural do seu líder maior – Jesus. Todos os demais estão em seus túmulos ou permanecem mortos. A ressurreição de Cristo tem alguns significados relevantes para a Fé Cristã, tais como: O motivo: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Rm 4.25); – A garantia: “Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.” (1Co 6.14; ver tb 2Co 4.14; 1Ts 4.14); – A validação: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1Co 15.14; ver tb 1Co 15.17, 20); – O alvo superior: “que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1Pe 1.21) 

6º) A grande comissão (v.42)

42  e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos.

As boas novas do Evangelho deveriam ser anunciadas a todos os povos. Pedro, já se encaminhando para o final da sua pregação e da síntese que fazia da vida e obra de Jesus, não poderia deixar de fora a menção da grande comissão, assim expressa por Jesus: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19).

7º) A supremacia de Jesus e sua obra redentora (v.43)

43  Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados.

Esse era e é o projeto de Deus para a salvação dos pecadores, estabelecido por ele, antes mesmo da fundação do mundo, anunciado pelos profetas e realizado no fim dos tempos: “mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.19-20). E, ainda: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,” (Ef 1.3-6). Assim, a pregação de Pedro é cristocêntrica; começa, se desenvolve e termina com Jesus Cristo: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.” (Hb 8.6).

  • A descido do Espírito Santo (vv.44-47)

Este acontecimento também pode ser chamado de “Pentecostes gentílico”.

44  Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.

45  E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo;

46  pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então, perguntou Pedro:

Pensar que a salvação messiânica tivesse limites raciais – os judeus – era negar a evidência da revelação profética. Por outro lado, aceitar uma salvação universal não implicava em entender o “modus operandi” de Deus entre os futuros salvos, dos diversos povos. De fato, essa salvação universal viria a tomar forma através de uma igreja que não deveria conhecer fronteiras raciais, sociais, políticas etc.

O próximo “ato do Espírito”, na direção do estabelecimento de uma Igreja Universal era o rompimento do “racismo judaico”. Para um povo que durante séculos foi chamado de “povo de Deus”, proibido por lei de se misturar matrimonialmente com outros povos (Dt 7.3), proibido de entrar na casa de estrangeiros e fazer refeições com estes (At 10.28; 11.3); ter que modificar toda essa herança cultural, admitindo agora uma união fraternal com cristãos de outras nações, não seria tarefa fácil.

A Pedro coube a missão de abrir a porta do evangelho aos gentios (Mt 16.18-19). Antes disso, o Espírito já estava chamando a Saulo-Paulo, para que, aberta a porta da graça aos gentios, este pudesse levar a igreja “até aos confins da terra”.

Entretanto, Pedro estava acomodado, interessado apenas nos compatriotas da Judéia (Lida, Sarona e Jope – At 9.32-36). O capítulo 10 de Atos relata então toda a operação do Espírito em Pedro (At 10.9-22), através dele (At 10.23-43) e independentemente dele (At 10.1-8; 44-48), para que a integração da igreja gentílica fosse uma realidade.

Sobre o derramamento especial do Espírito na casa de Cornélio devemos considerar os seguintes pontos:

1°) Chegada a hora dos gentios, Deus intervém. A igreja deveria avançar em direção aos confins da terra, porém Pedro estava acomodado, em Jope, a beira-mar. Foi necessário então que “os confins da terra”, ávidos para receber o evangelho, fossem ao encontro dele;

2°) Para que Pedro pudesse se convencer do caráter universal da igreja e, mais tarde, tivesse argumentos para se defender perante os judeus (At 11.1-18) foi necessária uma manifestação especial da parte de Deus: uma visão celestial a cada parte envolvida (Pedro e Cornélio) e um derramamento do Espírito sobre os dois grupos reunidos;

3°) A identificação deste derramamento como um “Pentecostes gentílico” é perfeitamente aceitável:

– O Espírito foi concedido a todos, de forma inesperada (como no princípio), portanto, sem imposição de mãos (como em Samaria), causando perplexidade aos judeus presentes;

– A forma exterior usada para autenticar o dom do Espírito não foi exatamente igual à do primeiro Pentecostes, porém teve em comum o falar em línguas; 

– Pedro, em sua defesa perante a igreja de Jerusalém, colocou o acontecimento   de   Cesaréia no mesmo nível  do  primeiro Pentecostes – “como  também  sobre  nós no princípio”  (At 11.15; comp. At 11.17);   

– Pedro concluiu que esses derramamentos estavam relacionados com o cumprimento da promessa de Jesus sobre o “batismo com o Espírito Santo” (At 11.16).

4°) Para aqueles que defendem o batismo com o Espírito Santo como uma segunda bênção, sendo a primeira a conversão, fica muito difícil explicar este texto. Pedro não havia sequer concluído sua pregação e o Espírito “caiu sobre ele”. Não se pode caracterizar aqui essas supostas etapas da carreira cristã;

5°) Seria humanamente improvável que Pedro viesse a batizar esses cristãos de Cesaréia se o Espírito não o tivesse antecedido, com manifestações inequívocas da aprovação divina.

47  Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?

Certamente aqueles gentios, tendo crido no Senhor Jesus e tendo recebido o batismo com o Espírito Santo, já faziam parte da igreja de Cristo. No entanto, tiveram de ser batizados com água, pois, deveriam ser reconhecidos pelas autoridades cristãs, como membros da assembleia local. O Sr. Landes comentando este texto diz: “A palavra – ‘negar’ – no grego é – kolusai – e também se traduz por ‘impedir, proibir, recusar ou vedar’. A expressão ‘negar (recusar) a água’ dá a entender que a água devia ser trazida e que ninguém devia impedir este ato… Em Lucas 18.16 Jesus usou o mesmo verbo para dizer: ‘Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais’. Disto nos parece que Pedro não desejava que alguém impedisse de ser trazida a água para batizar Cornélio e seus amigos (estes)”.

48  E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias.

Na sua defesa em Jerusalém, a respeito desse caso, aquela experiência descrita como “caiu o Espírito Santo sobre todos”, “foi derramado”, foi identificada por Pedro em Atos 11.15-16 como o cumprimento da promessa de Jesus: “Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At 11.16). O “cair” ou “derramar” foi identificado como batismo. Portanto, foi derramada ou aspergida água sobre Cornélio e seus amigos.


Veja também:

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

A conversão de Cornélio (Parte 1)

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)

Lucas, o escritor do livro de Atos, inspirado por Deus, mostra-se muito atento aos acontecimentos que marcaram os primeiros passos da igreja. Em algumas ocasiões ele registra a fenomenal expansão da igreja e faz questão de quantificar as multidões que receberam e creram no Evangelho. Esse foi o grande milagre nos primórdios da igreja. O escritor deste livro, tão importante e empolgante, nos presenteia e nos enriquece com sua sensibilidade ao mencionar e descrever as experiências vividas por alguns personagens, gente simples ou de maior relevância na sociedade, gente de fora e de dentro da igreja, judeus e gentios, tais como: o coxo da porta do templo (At 3); Estêvão (At 7); Simão, o mágico (At 8); o eunuco etíope (At 8); Saulo (At 9); Enéias (At 9); Dorcas (At 9) e, neste caso em análise, Cornélio. São vidas preciosas alcançadas pela pregação do evangelho e pela graça divina. São registros que conseguem desempenhar o papel de “humanizar” o divino e elevar o humano “aos lugares celestiais”, às “insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

  • Quem era Cornélio? (vv.1-2)

1  Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana,

Cornélio era um oficial do exército romano que comandava 100 homens, daí o termo “centurião”. Ele morava em Cesaréia, uma cidade situada nas margens do mar Mediterrâneo, a cerca de 82 Km (em linha reta) a noroeste de Jerusalém. Segundo os historiadores, naquela época era o local onde residiam os procuradores romanos e quartel-general de suas atividades na Palestina. Tornou-se um importante centro comercial marítimo e cultural.

2  piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus.

Sem dúvida o perfil de Cornélio descrito aqui neste versículo 2 é diferenciado e exemplar. Não há evidências neste registro bíblico de que ele fosse um prosélito do judaísmo. Entretanto, é dito que ele era piedoso e temente a Deus; e não a vários deuses. É provável que seu estilo de vida tenha sido de tal monta que influenciou significativamente os de sua casa; familiares e servos. Que tipo de exemplo e liderança espiritual estamos exercendo em nossa casa ou na vida daqueles com quem convivemos mais de perto (escola, trabalho etc.)? Além da sua vida devocional vertical (com Deus) estável e contínua, não era um homem teórico, vivendo um ascetismo recluso, introspectivo e focado em exercícios espirituais de autodisciplina. Ele tinha uma vida horizontal prática; ele olhava para o próximo e, de alguma forma, com os recursos que possuía procurava mitigar sua dor, sofrimento e carência. Ao longo da narrativa descobriremos algumas de suas virtudes: piedade, reverência, influência, liberalidade, oração, receptividade e obediência. Ele não era um cristão professo, porém sua conduta pode superar a de muitos de nós que somos cristãos. Quais são as evidências práticas da nossa fé, do nosso amor a Deus e ao próximo? Vale lembrar o que Tiago diz: “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tg 2.18). Para aqueles que ainda não foram esclarecidos e alcançados pela graça salvadora em Cristo Jesus, tal perfil o colocaria no rol dos filhos de Deus. Porém, a salvação não vem pela religiosidade, piedade e boas obras. Ele precisava ter um encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado.      

  • A visão de Cornélio (vv.3-6)

3  Esse homem observou claramente durante uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse:

A palavra do profeta Jeremias se revela verdadeira na vida de Cornélio: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jr 29.13). Nenhuma vida e nenhuma busca sincera e verdadeira passa despercebida diante de Deus. Na hora nona, do cômputo judaico, ou seja, às quinze horas ou às três horas da tarde, Jesus expirou ali na cruz (Mc 15.34-37), Pedro e João subiram ao templo para a “oração da hora nona” e o coxo na porta do templo foi curado. Cornélio estava em sua casa observando a “hora nona da oração” quando teve esta visão de Deus (At 10.30). O ministério dos anjos se fez presente também no início da igreja, libertando Pedro da prisão (At 5.19), orientando Filipe (At 8.26) e agora falando com Cornélio. 

4  Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus.

Não é muito comum ter encontros com anjos, ainda que em visão. Daí o temor e tremor de Cornélio e tantos outros que vivenciaram essa experiência. Esses seres celestiais são mensageiros de Deus e estão sempre a seu serviço. A palavra do anjo confirma o que todos sabemos, que ninguém e nada do que fazemos passa despercebido diante de Deus. De um modo especial, orações e esmolas. A prática constante da oração expressa a importante e significativa atitude de buscar a Deus. Também é significativa a menção das esmolas, o que demonstra o valor que o nosso Deus dá àqueles que se importam e são solidários para com os carentes e necessitados.

5  Agora, envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro.
6  Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar.

O “processo da salvação” envolve os três “P”: o Pregador, a Palavra e o Perdido (ou Pecador). O perdido era Cornélio. Bem que os anjos gostariam de ser pregadores do evangelho, mas essa tarefa e missão foi delegada a nós humanos, servos de Deus. Pedro foi o pregador escolhido e ele tinha a palavra de Deus a ser  transmitida a Cornélio. Assim sendo, este personagem tão relevante deveria ser acionado ali em Jope para que viesse abrir as portas do evangelho naquela vida, família e comunidade, conforme a palavra de Jesus: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” (Mt 16.19)

  • Obedecendo a visão (vv.7-8)

7  Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus domésticos e um soldado piedoso dos que estavam a seu serviço
8  e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope.

Vale ressaltar a reação de Cornélio à visão angelical. Ele não teve dúvida de que aquela experiência foi perfeitamente real. Também, não teve receio de compartilhar com os seus dois servos e com o soldado da comitiva. Chama a atenção, também, o fato dele ter contado toda a visão e não apenas os orientado a chamar e trazer o apóstolo. Provavelmente sua intenção fora a de abastecê-los de informação capaz de convencer Pedro a atender ao chamado. Entretanto, o Espírito Santo já estava incumbido de providenciar esse convencimento.

  • A visão de Pedro (vv.9-16)

9  No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar.

A cidade de Jope situava-se a cerca de 51Km (em linha reta) ao sul de Cesaréia. Enquanto a comitiva estava a caminho, Pedro cumpre sua disciplina de oração da hora sexta ou meio-dia e, para isso, subiu ao eirado ou terraço. Daniel orava três vezes ao dia (Dn 6.10), talvez na hora terceira (9h), na hora sexta (12h) e na hora nona (15h). Talvez isso fosse uma prática comum entre os judeus e Pedro a observava. O fato é que quando se busca a Deus, com frequência e anseio de estar na sua presença, algo acontece.

10  Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase;

Não era sem razão que Pedro estava com fome; era chegada a hora de almoçar. Bom para ele que sendo visitante naquela casa tinha quem lhe preparasse uma boa refeição enquanto podia se dedicar a oração.

11  então, viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas,
12  contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu.
13  E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come.

Não, não mesmo! Pedro não estava delirando por estar faminto! Era Deus mesmo querendo revelar-lhe alguma coisa em visão. Na sua experiência pregressa de pescador, Pedro estava acostumado a ver redes sendo lançadas para o alto, ao mar e, depois, sendo puxadas com nenhum, poucos ou muitos peixes. Porém, não lhe era nem um pouco familiar aquela visão divina de um lençol sendo baixado à terra com tal variedade e representatividade da fauna: quadrúpedes, que andam sobre suas quatro patas; répteis, que rastejam; e, aves que voam. Não há qualquer referência à cor deste lençol, já que isso não tinha importância; porém, desde a primeira vez que tive contato com essa história, me vem à mente a ideia de um lençol branco. Talvez por conta do contexto da voz falando de purificação. Além da imagem, Pedro ouve uma voz que se dirige diretamente e nominalmente a ele: “Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Em outras palavras: Pedro, você está com fome e eu te trouxe alimento com fartura. Vá em frente, prepara o teu almoço e come!

14  Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda.

A primeira constatação é a de que Pedro entendeu que Deus estava falando com ele, quem sabe para o testar. Na verdade, era para o ensinar algo muito além de hábito ou restrição alimentar. A instrução divina sobre ingestão de alimentos vem de longe. Depois do dilúvio o Senhor disse a Noé e a seus filhos: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.” (Gn 9.3). Entretanto, os judeus sabiam perfeitamente que a lei de Moisés estabeleceu claras restrições quanto a determinados animais que vivem na terra, nas águas, bem como a aves e insetos, os declarando imundos ou impuros e impróprios para se comer (Lv 11; Dt 14). A questão não era apenas de impureza cerimonial, mas sanitária, de saúde pública – “Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda alma vivente que se move nas águas, e de toda criatura que povoa a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo e entre os animais que se podem comer e os animais que se não podem comer.” (Lv 11.46-47). Pedro e os demais judeus levavam muito a sério essa lei mosaica. Eles não apenas se consideravam o povo de Deus, um povo santo com uma “alimentação santa”, como consideravam os gentios gente “imunda” e, portanto, não se misturavam e nem comiam com eles.

15  Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou não consideres comum.
16  Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.

Qualquer tentativa de interpretar essa purificação divina, aqui mencionada, como uma ressignificação da lei mosaica, liberando para ingestão tudo o que era estabelecido como imundo, deve ser vista como mera especulação ou equívoco. A questão é bem outra, isto é, tem a ver com a inclusão de todos os povos, tribos, raças e nações na Nova Aliança da Graça de Deus. É o cumprimento da promessa de Deus a Abraão: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos.” (Gl 3.8; ver tb Gn 12.3; At 3.25). E Isaías profetizou: “Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” (Is 49.6). Era chegada a hora de Pedro, dos demais apóstolos e da igreja judaica abrirem a mente, o coração e os braços para receberem e acolherem a todos aqueles que eram alvos da graça divina.

Parece que para Pedro se dar conta as coisas precisavam acontecer três vezes. Ele negou Jesus três vezes (Lc 22.54-62), Jesus o perguntou três vezes se ele o amava (Jo 21.15-17). Porém, Samuel também foi chamado por Deus, por três vezes (1Sm 3.8). Há outros casos interessantes de uma terceira vez (1Rs 18.34; 2Rs 1.13; Mt 26.44; Mc 14.4; Lc 23.22).

  • A chegada da comitiva (vv.17-18)

17  Enquanto Pedro estava perplexo sobre qual seria o significado da visão, eis que os homens enviados da parte de Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam junto à porta;
18  e, chamando, indagavam se estava ali hospedado Simão, por sobrenome Pedro.

O lençol foi recolhido e verifica-se que Pedro ainda estava perplexo, tentando entender o significado de tudo aquilo. É interessante como a revelação divina é gradativa e progressiva; como Deus vai preparando as pessoas, respeitando o tempo de cada indivíduo. Enquanto isso, a comitiva vai indagando e chegando até à casa onde Pedro estava hospedado.

  • A orientação do Espírito (vv.19-20)

19  Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram;
20  levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.

Talvez agora, algum tempo depois, um pouco menos perplexo e mais pensativo, Pedro continuava aguardando as respostas. Se ele perdeu o apetite ou almoçou, não sabemos. Então, o Espírito Santo se dirige diretamente a ele passando mais algumas instruções. É curioso que essas novas instruções avançam um pouco mais, mas não elucidam toda a situação. Pedro é convocado a acompanhar aqueles estranhos, depositando confiança plena na condução divina. O grande desafio de ser um seguidor de Cristo é o de se sujeitar à sua vontade e obedecer ao seu comissionamento, mesmo sem ter a visão completa da situação, aprendendo dia a dia a viver na sua dependência.

  • O encontro de Pedro com a comitiva (vv.21-23)

21  E, descendo Pedro para junto dos homens, disse: Aqui me tendes; sou eu a quem buscais? A que viestes?

O Espírito de Deus já havia preparado Pedro para aquele encontro. Assim, quando ele vê ou escuta aquela movimentação toda junto à entrada da casa de Simão, o curtidor, tratou de descer e se apresentar aos homens enviados pelo centurião Cornélio. Era chegada a hora dele saber o que estava acontecendo, então se apressou em lhes perguntar o motivo da vinda deles.

22  Então, disseram: O centurião Cornélio, homem reto e temente a Deus e tendo bom testemunho de toda a nação judaica, foi instruído por um santo anjo para chamar-te a sua casa e ouvir as tuas palavras.

Ao ouvirem a indagação de Pedro, parece que aqueles homens nem tiveram a preocupação de se apresentarem; se o fizeram Lucas foi suscinto no registro omitindo essa parte. A resposta da comitiva foi direta ao ponto, ressaltando as virtudes do seu senhor e sintetizando a experiência incomum que ele teve. Como servos de Deus também devemos focar e apresentar o Senhor que nos enviou ao mundo, bem como sua mensagem.

23  Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua companhia.

Pedro sentia-se bem à vontade, na casa de Simão, acolhendo os viajantes e hospedando-os. A viagem foi cansativa; era hora de descansar, se alimentar e conversar um pouco. No dia seguinte Pedro partiu com eles rumo a Cesaréia. Vale destacar o cuidado da igreja ou dos irmãos ali em Jope, enviando ou se voluntariando a fazer companhia a Pedro naquela missão. Estes eram judeus adiante denominados de “fiéis que eram da circuncisão” (At 10.45).


Veja também:
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

A ressurreição de Dorcas (At 9.36-43)

Introdução

Pode-se comparar esse milagre com aquele outro realizado pelo Senhor Jesus, em que foi ressuscitada a filha de Jairo, segundo o registro de Lucas 8.41-56. Lucas continua a mostrar como até mesmo os mais poderosos milagres de Jesus foram reeditados no ministério de seus seguidores. Essa reedição, entretanto, era efetuada em seu nome e de conformidade com as suas promessas (ver Jo 14.12), através do poder do seu Santo Espírito. Tais milagres, por igual modo, demonstravam a autoridade da Igreja Cristã, delegada pelo Senhor Jesus, e davam a entender o derretimento do judaísmo. A cidade de Jope, que aqui aparece, modernamente se chama Jafa, um bairro da cidade de Tel-Aviv.

1. Dorcas, a discípula amada (vv. 36-37; 39b)

36   Havia em Jope uma discípula por nome Tabita, nome este que, traduzido, quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia.
37  Ora, aconteceu, naqueles dias, que ela adoeceu e veio a morrer; e, depois de a lavarem, puseram-na no ce
náculo.

“Tabita” é a forma aramaica do vocábulo grego “Dorcas” (nome internacional). Ambas as palavras significam gazela ou antílope. Esta senhora, mui provavelmente, era conhecida por ambos os nomes. Isso parece indicar-nos como a cidade de Jope havia sofrido diversas influências da cultura helênica, embora ficasse a curta distância de Jerusalém (cerca de 60 Km, em linha reta). Era uma discípula ou seguidora de Jesus, uma cristã, que se sobressaía pelas boas obras e doação de esmolas que não apenas era um serviço piedoso, mas também necessário como serviço social. Não sabemos se ela era solteira, casada ou viúva. Se fosse casada é de estranhar que seu marido não tenha sido mencionado em toda a narrativa. Parece que era uma pessoa que tinha recursos financeiros pois se tornou notável pelas suas boas obras e esmolas que fazia. Usava o ofício de costureira para servir a comunidade carente, sendo as viúvas as mais beneficiadas pelas suas caridades (v. 39b).

Para tristeza da comunidade, ela adoeceu e veio a morrer. Vale ressaltar que até mesmo servos de Deus fiéis e atuantes também adoecem, nem sempre são curados apesar da oração e clamor da família da fé, e morrem. Tal como ocorria entre muitas nações, era costumeiro, entre os judeus, lavar os cadáveres. Era colocado em um cenáculo antes do sepultamento.

2. O último recurso (vv. 38-39)

38  Como Lida era perto de Jope, ouvindo os discípulos que Pedro estava ali, enviaram-lhe dois homens que lhe pedissem: Não demores em vir ter conosco.
39  Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas.

Toda essa atividade, em prol de Dorcas, a ponto de continuarem esperançosos, mesmo depois de sua morte, e a despeito do poder inexorável da morte, mostra-nos o quão profundamente aquela mulher crente deve ter sido amada e respeitada pelos irmãos de Jope. Pedro representava, para elas, a esperança de que Deus nos confere, mesmo em face da morte; e não foram tardios em se apegarem a essa esperança. Pedro foi chamado lá em Lida, a cerca de 16Km de Jope, atendeu àquele apelo e foi com eles. Ele já havia visto ao Senhor Jesus, vivo após ter estado morto, e a sua fé era suficientemente firme. Fora também testemunha da ressurreição de várias pessoas, pelo Senhor Jesus. A cena que envolveu a Pedro no cenáculo era de partir o coração.

A morte não deveria e não deve ser encarada como uma tragédia, um mal irreparável. Entretanto, a dor daquela súbita separação era mais do que podiam suportar. A pergunta que não quer calar é: – Se morrermos agora, exatamente neste momento da nossa vida, a comunidade sentirá a nossa falta? Aquilo que fazíamos deixará um vazio na comunidade?

Há, pelo menos, nove casos de ressurreição registrados na bíblia, além da própria ressurreição de Jesus, sendo 3 casos no Antigo Testamento e 6 no Novo Testamento, conforme mostrado abaixo. Isto mostra o quão raro é esse milagre. Temos aqui o registro do primeiro caso através dos apóstolos.

  1. O filho da viúva de Sarepta  (1Rs 17.17-24 – Elias)
  2. O filho de uma mulher sunamita  (2Rs 4.32-37 – Eliseu)
  3. Homem que caiu sobre os ossos de Eliseu  (2Rs 13.20-21)
  4. O filho da viúva de Naim  (Lc 7.11-15 – Jesus)
  5. A filha de Jairo  (Lc 8.41-42, 49-55 – Jesus)
  6. Lázaro, irmão de Marta e Maria (Jo 11.1-44 – Jesus)
  7. Inúmeros cadáveres na morte de Jesus  (Mt 27.50-53)
  8. Dorcas ou Tabita (At 9.36-42 – Pedro)
  9. O jovem Êutico  (At 20.9-10 – Paulo)

3. O milagre da fé (vv. 40-41)

40  Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pondo-se de joelhos, orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se.
41  Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva.

Pode-se observar o paralelismo entre esta cena, em que Pedro tirou todos para fora da sala, e o que o Senhor Jesus fez, no caso da ressurreição da filha de Jairo (Lc 8.51). O mesmo modus operandi do Mestre é reeditado aqui pelo aluno. Pedro era homem de fé e poder, e sabia o que o Senhor Jesus podia fazer por intermédio dele, mas não queria quaisquer mentes duvidosas, céticas e meio-cegas ao seu redor, nem mesmo aquelas mentes que estavam vencidas de tristeza. Tinha mui importante tarefa a cumprir, e precisava que os canais de comunicação com as forças celestes estivessem totalmente desimpedidos.

Há três particularidades que devemos destacar quanto ao que Pedro fez:

1º) Pedro agiu privadamente – Não desejava para si qualquer glória humana, mas, acima de tudo, não queria que houvesse qualquer interferência no poder que estava prestes a transferir para aquele corpo morto.

2º) Pedro agiu mediante o poder da oração – Ele orou para aquele que é Deus dos vivos, e não dos mortos. Na realidade, se Deus seria o realizador daquele prodígio, este não seria de forma alguma difícil para o Senhor.

3º) Pedro se utilizou da palavra revestida de poder, aquela palavra que o Senhor Jesus lhe ensinara e inspirara a usar, dando-lhe, no princípio, exemplo de sua atuação, mediante grande multidão de incidentes.

4. O testemunho vivo (v. 42)

42  Isto se tornou conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor.

Podemos sugerir e enumerar alguns motivos, pelos quais aquele milagre foi operado:

1º) Deus simplesmente teve compaixão daquelas viúvas que choravam a morte de Dorcas e a restituiu à presença delas. Deus, pois, pode permitir um milagre por essa mera razão, porquanto o Senhor é supremamente misericordioso.

2º) Dorcas ainda tinha alguma coisa a realizar; porquanto, se ela houvesse terminado a sua missão, Deus não a teria enviado de volta, nem mesmo para agradar àquelas viúvas. Portanto, devemos viver cada dia do tempo que nos está determinado; e esperemos fazê-lo tão piedosamente quanto Dorcas.

3º) Porém, acima de tudo, havia a questão da glória de Cristo, que redundaria de tudo isso; e, através da exaltação de sua glória, muitos haveriam de ouvir o que acontecera e crer em Jesus. Foi o que aconteceu ali. Dificilmente se poderia impedir que tal história se espalhasse. Assim é que, não somente os habitantes de Jope, mas todas as vilas e aldeias em redor, também souberam da extraordinária ocorrência.

5. Pedro, hospedado pelo curtidor (v. 43)

43  Pedro ficou em Jope muitos dias, em casa de um curtidor chamado Simão.

A ocupação nos curtumes, por causa do contato com corpos mortos de animais, era considerada imunda, sendo que aqueles que praticavam esse meio de vida tinham de viver separados do resto da comunidade. É significativo que Pedro não apenas se associou, mas também se hospedou com um curtidor, em sua própria casa, o que mostra que não se aferrava a todos os estritos preconceitos que havia entre os judeus. No entanto, estando ali, deixou escapar alguns de seus escrúpulos judaicos ao recusar-se a comer certas coisas que eram proibidas pela lei cerimonial judaica.

Foi no pátio do curtidor que ele recebeu a visão que o faria repensar seu relacionamento com não judeus, ao mesmo tempo que aprendia que os gentios podem e devem ser admitidos como membros da Igreja Cristã com plenos privilégios, contanto, naturalmente, que se arrependam e confiem em Cristo. De modo geral, poderíamos afirmar que a permanência de Pedro na casa de Simão, o curtidor, foi muito benéfica, embora ainda tivesse de passar bastante tempo até que esse apóstolo aceitasse abertamente essas novas revelações (Gl 2.11-14), pelo menos na prática, quando não na teoria. “A hospedagem com o curtidor foi um passo no caminho de comer com os gentios” (Furneaux)

A cura de Enéias (At 9.32-35)

Introdução

A narrativa de Lucas, neste ponto, retorna à história da expansão do Evangelho, através da Judeia, pelo ministério de Pedro. Pedro foi mencionado pela última vez em Atos 8.25, quando, na companhia de João, voltou de Samaria a Jerusalém. Quando se desencadeou a “grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” todos foram dispersos, exceto os apóstolos que permaneceram em Jerusalém. Agora, porém, somos informados que Pedro envolveu-se em um ministério itinerante através da Judéia, território que com tanto êxito fora evangelizado pelo diácono Filipe (At 8.40).

A cura de Enéias (At 9.32-35)

32   Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitavam em Lida.

Não temos dúvida de que o ministério itinerante de Pedro incluía a confirmação e fortalecimento dos novos cristãos, uns oriundos de Jerusalém, que haviam sido dispersos por causa da perseguição, outros que receberam o Evangelho ali mesmo nas suas cidades. Lida, para onde Pedro se dirigiu, era uma cidade na Judeia, situada na estrada entre Jerusalém e Jope, esta última no litoral do Mar Mediterrâneo.

Pedro desceu intencionalmente até esta cidade com o fim de se encontrar com os “santos” que ali habitavam. “Santos” é um termo comum nos escritos de Paulo, em referência aos crentes. Paulo dirigiu certo número de epístolas aos “santos” em Cristo, fazendo alusão aos crentes coletivamente (Rm 1.7; 15.25; 1Co 1.2; 6.1, 2; 2Co 1.1; Ef 1.1 e Fl 1.1). No Livro de Atos, esse vocábulo é usado exclusivamente neste nono capítulo, nos versículos 13, 32 e 41, como também na passagem paralela de Atos 26.10. Os crentes ligados ao Santo e Justo (At 3.14), separados para Deus e batizados em um só Espírito, são santos (1Pe 2.9).  

33  Encontrou ali certo homem, chamado Enéias, que havia oito anos jazia de cama, pois era paralítico.

Nada sabemos com respeito a esse homem, Enéias, exceto aquilo que é dito aqui: um paralítico, há oito anos atrelado a uma cama.

34  Disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito. Ele, imediatamente, se levantou.

Pode-se comparar essa narrativa a um episódio similar, da cura de um paralítico, pelas mãos do Senhor Jesus, conforme Lucas 5.18-26. Apesar da instrumentalidade de Pedro, o poder do Senhor Jesus transparece por detrás dessa cura “Jesus Cristo te cura”. Assim se manifestava a realidade da vida ressurreta de Jesus, bem como a continuação de seu poder entre os homens, por intermédio do seu Espírito.

Durante oito anos, Enéias, o paralítico, tivera de depender da ajuda prestada por outras pessoas, a fim de arrumar o seu leito e fazer outras coisas corriqueiras, próprias da vida diária, que até mesmo uma criança poderia fazer sozinha. Mas agora, uma vez libertado de sua enfermidade, podia cuidar de si mesmo. Quão belo é contemplar alguém, que até bem pouco estava aprisionado por alguma algema física, que tanto o maltratava, inteiramente liberto e curado.

Os milagres efetuados pelo Senhor Jesus eram numerosos e sempre humanitários. Embora o Senhor também houvesse feito curas para dar certas lições objetivas, sem dúvida alguma também curou simplesmente porque desejava ver as pessoas livres de suas enfermidades, simplesmente porque sentia compaixão por elas. Ora, sendo Cristo o Salvador do mundo, desejava curar-nos de toda a enfermidade, sobretudo da enfermidade da alma, que se traduz numa palavra – o pecado – a fim de que nossas almas possam ser libertadas de suas corrupções e enfermidades, sendo totalmente restauradas a Deus. Em todos os sentidos, pois, Cristo foi o Grande Médico, e o mundo inteiro estava e continua necessitando de seus serviços.

35  Viram-no todos os habitantes de Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.

Nada pode substituir a fé, mesmo porque as verdades bíblicas devem ser aceitas pela fé. É o que Pedro diz em 1Pedro 1.8 “a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória,”. Jesus confirma o valor da fé quando diz a Tomé: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20.29). Entretanto, as evidências do poder de Deus não são para substituir a fé, pelo contrário, servem como sinal para os incrédulos, e de conforto para os salvos. No Livro de Atos, o binômio “sinais x pregação” serviam de testemunho convincente para a conversão de muitas almas. Foi o que aconteceu ali em Lida e se estendeu a Sarona (ou Sarom). Sarona era uma planície que se estendia por cerca de 80 km ao longo da costa marítima, de Jope a Cesaréia e 14 a 16 km de largura. O próprio nome, Sarona, significa “planície”, em aramaico e hebraico. Trata-se de uma das maiores e mais férteis planícies da Palestina (Is 33.9 e 65.10)

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