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A Excelência da União Fraternal (Salmo 133)

1  Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!
2  É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.
3  É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre. (Sl 133.1-3)

Como é constituído o Salmo 133?

A resposta é simples: por três números [1] [3] [3]

Se você achou a resposta simples demais, vamos aprofundar nossa análise. Este salmo contém:

  • [1] Um assunto relevante: união fraternal ou comunhão fraternal.
  • [3]Três versículos com: Uma declaração entusiástica (ou uma exclamação contagiante) – “Oh! Como é bom e agradável…” e Duas comparações aparentemente estranhas – “É como o óleo precioso…” “É como o orvalho….”.
  • [3] Três ensinos preciosos que envolvem três pessoas importantes: DEUS, VOCÊ e O OUTRO.

 

1º) União Fraternal ou Comunhão Fraternal (VOCÊ e O OUTRO).

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (v.1)

O salmista Davi declara aqui a excelência da união fraternal. A que irmãos ele estaria se referindo?

Ainda que todos sejamos descendentes de Adão e, mais especificamente, descendentes dos três filhos de  Noé (Gn 9.18-19), é provável que não seja a estes irmãos humanos que Davi se referia. O que não quer dizer que essa declaração não se aplique a essa categoria de irmãos. Talvez ele estivesse se referindo àqueles irmãos que vivem mais próximos, os irmãos compatriotas, especificamente o seu povo, os judeus, ou, quem sabe, os irmãos de uma mesma família. Davi viveu um verdadeiro caos no relacionamento entres seus filhos: Amnom violou sua meia irmã Tamar, irmã de Absalão e este mandou matá-lo, por vingança. Adonias disputava o trono de Davi com Salomão e este o mandou executar assim que começou a reinar.

Além e acima dessas três categorias mais consagradas de irmãos, esta declaração se aplica a um grupo especial e distinto de irmãos, a Igreja de Cristo. Esta reúne irmãos dessas três categorias e cria laços muito mais fortes e duradouros, porquanto, eternos: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19). “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1Pe 2.9). “Eles não são do mundo, como também eu não sou.” (Jo 17.16).  Às vezes nos envolvemos de tal maneira com as coisas deste mundo que não nos damos conta da nossa verdadeira identidade celestial.

O que é União ou Comunhão Fraternal?

  • É mais do que proximidade física! Podemos partilhar muitos espaços com outras pessoas, lado a lado, em nossa vivência diária e, também, nos cultos e demais programações da igreja, e, ainda assim, isso não assegura que temos comunhão com elas. Porém, estarmos juntos, na adoração e no serviço, pode ser um bom indicativo dessa comunhão: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,” (At 2.44, 46)
  • É mais do que o compartilhamento de uma mesma identidade religiosa! “- Sou cristão” ou “ – Sou presbiteriano”. O nome faz a pessoa ou a pessoa é que faz o nome?
  • É mais do que a participação comum em “práticas religiosas”! Orar, ler a bíblia, ir à igreja, cantar hinos, dar o dízimo, etc. são práticas que por si só também não asseguram que haja essa verdadeira comunhão; porém os que vivem em comunhão participam dessas práticas.
  • É mais do que uma uniformidade estereotipada imposta! Houve um tempo em que você olhava para a forma de se trajar de determinadas pessoas e podia identificar a que grupo de evangélicos elas pertenciam. Essas pessoas podiam até ter uma certa uniformidade visual, porém, também não é por causa disso que estaria assegurada a comunhão entre elas.
  • É, sim, interação íntima e visceral contínua no corpo de Cristo! “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Mas, a união fraternal é apenas algo “bom e agradável” ou vai além?

  • É essencial para a preservação da igreja: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos.” (Gl 5.15)
  • É um testemunho ao mundo sobre Jesus: “a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.21)

Viver em comunidade é viver “com + unidade”, “como + um”. Comum é o que pertence simultaneamente a mais do que um. Assim é a fé que professamos – a fé comum (Tt 1.4).

Não é fácil e nem tentaremos interpretar o que exatamente estava no coração de Davi quando ele expressou as metáforas dos versículos 2 e 3 do Salmo 133.  Entretanto, aproveitando as ideias por ele apresentadas e à luz do contexto atual de Igreja de Cristo, podemos ser grandemente abençoados com os seguintes ensinos:

 

2) Unção Espiritual (Deus em Nós).

“É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.” (v.2)

O óleo aqui mencionado não é um óleo qualquer, um composto aromático comum. Trata-se do óleo sagrado da unção (Ex 30.25), composto com exclusividade para ungir o Tabernáculo e sua mobília, e para ungir os Sacerdotes. Qualquer fabricação independente ou qualquer aplicação diferente da prescrita na lei seria punida com a morte. Por que? Porque esse óleo é tipo do Espírito Santo – único e exclusivo. Conta-se que um cientista produziu uma semente de feijão exatamente igual a uma verdadeira e desafiou certo homem a descobrir qual a verdadeira e qual a falsa. O homem desafiado disse: “- Dá-me as duas sementes e depois de três dias te direi.” Passados os três dias o homem voltou com as sementes e respondeu ao cientista: “- A verdadeira é a que tem vida, veja como está brotando.” Ele havia plantado ambas as sementes; porém, apenas uma brotou. A verdadeira Igreja de Cristo é comparada a um corpo vivo, a um organismo; a falsa é apenas uma organização. No corpo vivo os membros estão intrinsecamente ligados e sob o comando da cabeça desenvolvem suas funções específicas.

Observem que a analogia não se restringe ao óleo, porém, ao óleo aplicado, ou seja, à unção sobre a cabeça de Arão.

  • A igreja foi instituída por Deus e subsiste pela ação e poder do Espírito de Deus; invisível, porém, real e essencial. “E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).
  • É o Espírito Santo de Deus que nos regenera e nos possibilita uma autêntica comunhão com o corpo de Cristo – a Igreja.
  • Sem o poder de Deus nada somos e nada podemos fazer. “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5).

Não há esforço humano capaz produzir a verdadeira união entre os membros do corpo; só o Espírito de Deus é capaz disso.

 

3) Convergência na Palavra (Nós em Deus).

“É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.” (v.3)

A outra comparação é com o orvalho do monte Hermom[1]. O Hermom era, e é, uma preciosidade incalculável para os judeus. O Hermon está para Israel assim como a água está para a vida. Esse majestoso monte, localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe, tem quase três mil metros de altitude. Quando a seca assola as outras regiões de Israel e países vizinhos, no Hermon faz frio e nos seus picos predomina a neve o ano todo. O calor do dia derrete grande parte desse gelo, transformando-o em água líquida que escorre pelas superfícies ou pelas entranhas do famoso monte e vai formar as nascentes do rio Jordão. “Quando as três vertentes se encontram, a 14km ao norte do lago de Hula, ou Hulé, ou Merom, o Jordão está a 150m acima do nível do mar (Mediterrêneo)”. Passando pelo lago do Merom, que está a 68m, o rio continua descendo vertiginosamente por um vale estreito e acidentado, entrando ruidosamente no Mar ou Lago da Galiléia, a 212m abaixo do Mar Mediterrâneo. O Lago da Galiléia tem cerca de 27km no sentido Norte-Sul. O Jordão entra nele pelo norte e sai dele pelo sul em direção ao Mar Morto.  Do sul do Lago da Galiléia até ao Mar Morto são cerca de 117km em linha reta, mas o seu curso é sinuoso e acidentado, por 351km percorridos sempre abaixo do nível do Mar. Tem mais de 100 corredeiras, que tornam suas águas barrentas e suas margens perigosas, terminando no Mar Morto, a 400m negativos.

O monte Hermom é, portanto, o grande responsável pela fertilidade das terras na sua base e por toda a extensão do rio Jordão, que dele nasce. Era uma montanha sagrada para muitos povos pagãos da antiguidade.  Ali eles cultuavam e festejavam seus deuses. Construíam templos no sopé do monte. O deus principal do Hermom foi Baal, daí o nome de Baal-Hermom (Jz 3.3 e 1Cr 5.23).

Já o povo de Israel o salmodiava, com alegria: “O Norte e o Sul, tu os criaste; o Tabor e o Hermom exultam em teu nome”. (Sl 89.12) ou, com saudade, quando exilados: “Sinto abatida dentro de mim a minha alma; lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar.”(Sl 42.6). Foi, provavelmente, em algum ponto da subida deste monte alto que se deu a transfiguração de Jesus (Mt 17.1-13). Num lugar de tanta idolatria, aprouve a Deus distinguir o Senhor Jesus como único e verdadeiro Deus, acima de qualquer deus humano ou grandes vultos do AT como Moisés e Elias: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

Neste Salmo 133.2 o orvalho sobre o Hermon é comparado à excelência da união fraternal. O que esse orvalho tem a ver com comunhão?

O gotejar miúdo e constante da “água do céu” é o fator determinante da continuidade da vida; pela água que forma o rio (Jordão) e pelo rio que fertiliza o solo ao longo de todo o seu percurso. Se o óleo da comparação anterior era uma figura do Espírito Santo; a água é uma figura da Palavra de Deus. Jesus é o verbo de Deus, a palavra que se fez carne. A Bíblia é palavra que se fez livro. E é através da Palavra e do Espírito que somos regenerados e nos tornamos membros do corpo de Cristo, a Igreja. A Palavra regenera “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. (1Pe 1.23) e purifica“… como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” (Ef 5.25-27).

E é essa mesma Palavra que nos conduz à comunhão: “completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (Fp 2.2). Será que o apóstolo Paulo estaria ensinando aqui que para desfrutarmos da verdadeira comunhão precisaremos pensar igual?  Certamente que não! O apelo aqui é pela convergência ou concórdia ou harmonia intelectual (de ideias e de ideais), sentimental e espiritual. “Rogo a Evódia e rogo a Síntique pensem concordemente, no Senhor.” (Fp 4.2), “para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 15.6)

Sobre a questão da convergência bíblica x comunhão, Richard Baxter apresenta uma fórmula simplificada: “Em assuntos fundamentais, unidade. Em assuntos secundários, liberdade. Em todas as coisas,  caridade  (ou amor)”.

Portanto, temos um grande desafio diante de nós no que se refere à comunhão – A CENTRALIDADE NA PALAVRA, NA BÍBLIA. Na era da informação em que vivemos é muito fácil um cristão, sem intimidade com a Bíblia, ser levado por ideias e conceitos chamados modernos, desprezando, assim, a Palavra de Deus como se esta fosse um escrito desatualizado e ultrapassado. É preocupante o crescente número de crentes que não leem ou não estudam a bíblia. É preocupante o número de crentes ACHANDO O QUE A BÍBLIA NÃO ACHA e NÃO ACHANDO O QUE A BÍBLIA ACHA E ENSINA! É preciso dar mais valor à sabedoria que vem do alto: “A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”.(Tg 3.17)

Conclusão:

Não podemos perder de vista que ambas as metáforas acima expostas passam a ideia de um processo continuado que se desenvolve no tempo .

Essas duas metáforas nos remetem aos seguintes textos de João:

“E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água (Palavra) e o sangue (de Cristo no Calvário), e os três são unânimes num só propósito”. (1Jo 5.8)
“Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7)

O salmista termina dizendo:

“Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.”

E nós, finalizamos também dizendo:

Onde há Unção Espiritual (Deus em Nós) e Convergência na Palavra (Nós em Deus), há COMUNHÃO, AMOR e SOLIDARIEDADE. Ali, neste lugar e situação, “ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre”.

Soli Deo Gloria!

………………………………………..

1] Hermom: Majestoso monte localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe. Era chamado de SENIR pelos amorreus e de SIRIOM pelos sidônios. Em Dt 4.48 é chamado de SIOM. Seu nome parece ter o significado de “dedicar” ou “consagrar”.


Catedral Presbiteriana do Rio
29/07/2007 – Culto Devocional (8h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

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Caiu na Rede é…..Liberto!

O que a rede de pesca tem a ver com evangelismo? Simplesmente, tudo! Jesus chamou 12 discípulos, dentre os quais 4 foram identificados como pescadores e os desafiou a se tornarem “pescadores de homens” (Mt 4.19). Na pesca convencional, os peixes apanhados morrem. Na pesca evangelística, os que caem na rede passam da morte para a vida. É como diz o cântico: “É vida que nasce da morte. É vida que traz o perdão. É muito mais que uma religião. É Cristo vivendo em você.”

O que pretendo mesmo aqui é falar dessa pesca. Pode ser “no varejo”, peixe a peixe, com anzol; ou, “por atacado”, com rede de pesca. Não é preciso entender muito de pesca para saber que o pescador precisa atrair os peixes. No caso de uso da vara de pesca, deve ser usada a isca certa para o tipo de peixe que se deseja “fisgar”. Assim acontece no evangelismo individual. Cada caso é um caso. Você terá que conviver e conhecer a pessoa para só e então descobrir qual é a abordagem certa. No caso de uso da rede de pesca, você também terá que atrair o cardume. Assim acontece no evangelismo em massa. Na hora de atrair as pessoas para o evento evangelístico vale lembrar o que dizem os mais antigos: “cautela e canja de galinha, não fazem mal a ninguém”. Vamos colocar isso de outro jeito: “moderação e canja de galinha, não fazem mal a ninguém”. Por que não uma boa e criativa decoração e ambiência; som e imagem de qualidade; bom louvor. Aí fecha com a Palavra de Deus, pregada com unção e poder, e toca profundamente o coração do pecador; não importa se de muitos ou de poucos, Deus o sabe. Se alguém faz um evento evangelístico na força do homem, confiando apenas no audiovisual ou nas “atrações artísticas”, pode lançar a rede a noite inteira que só vai dar rede molhada. Porém, quando Jesus está nessa empreitada, quando nos santificamos, confiamos na ação do Espírito Santo, oramos intensamente e Jesus é obedecido: “lançai a rede à direita do barco” (Jo 21.6). Aí, sim, é rede cheia de almas!

Alguém dirá: mas, o templo é um espaço próprio para isso? Ora, se o templo não for lugar de louvor e evangelismo, para que servirá, então? O templo é apenas uma construção; não é nem mais, nem menos santo do que os seus frequentadores! Esses sim precisam ser santos, pois são o santuário de Deus (1Co 3.16). Havendo bom senso e moderação, qual é o problema?

O convívio e a sinergia da equipe de preparação é bênção pura! Chego a pensar que é quase tão importante quanto o próprio evento. Eventos evangelísticos promovidos por jovens (ou pelos mais velhos) são sempre pontuais; eles vêm e vão. O que realmente importa é ver jovens firmes na fé; nutridos na Palavra de Deus; gente de oração; testemunhando de Cristo com a vida, no seu cotidiano; participativos em todas as atividades da igreja, não apenas daquelas que eles mesmos promovem.

Nos meus saudosos tempos de jovem, subia comunidades juntamente com os mais velhos para evangelizar; distribuía folhetos de casa em casa. Como presidente de uma organização denominada CMC (jul/1983 a jul/1986) que reunia mocidades de mais de 20 igrejas, promovemos vários eventos. Em um deles, até com divulgação em rádio, em 21.04.1984, começou com “passeata evangelística” nas ruas de Teresópolis. Depois, reunimos mais de 8.000 pessoas no Ginásio Poliesportivo Pedro Jahara daquela cidade (Pedrão). Foi emocionante dirigir aquele evento, juntamente com a diretoria, que contou com a participação do Grupo Logos e a pregação do Evangelho pelo Dr. Jayro Gonçalves, um evangelista vocacionado por Deus, tendo ocorrido várias decisões por Cristo. Mesmo naquela época já existiam aqueles cantores e grupos de louvor, muito mais preocupados com sua performance artística e em arrancar aplausos do seu fã clube, do que em louvar a Deus. Assim, procurávamos usar de equilíbrio e moderação nesta escolha. Enfim, como é bom lançar a rede em nome de Jesus Cristo!

O experiente presbítero, João Silva, disse certa vez para o seu sobrinho Franz: “gostaria de ter a tua juventude e a minha experiência de vida.” Há algum tempo ambos se foram, o primeiro já idoso; o segundo, ainda muito jovem. Porém, aquela frase nunca foi esquecida. Hoje, bem mais maduro percebo o quanto ela é verdadeira. É como o apóstolo João registrou: “…Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.” (1Jo 2.14b e c). Sempre dei muito valor aos conselhos e à experiência dos mais velhos. Talvez, por isso, tenha errado muito menos do que poderia ter errado.

Adultos e jovens precisam caminhar juntos, procurando se entender e conviver pacificamente.

Destruindo Fortalezas

“Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão.” (2Co 10.3-6)

 

Introdução

Você já parou para pensar nas causas que levam os tsunamis, como o de 26/12/2004 no Sul da Ásia, a matar tanta gente (mais de 280 mil pessoas naquela tragédia da natureza)?

1º) Estavam no raio de ação dele – quanto mais próximas do epicentro, maior o estrago;

2º) Estavam distraídas, não sabiam do perigo iminente, não foram alertadas;

3º) É um grande volume de água em forte movimento que arrasta tudo o que está em seu caminho, matando as pessoas por afogamento ou contusão, pois lança pessoas contra objetos flutuantes e estruturas fixas, e objetos contra as pessoas etc.

A humanidade tem sido vítima de muitos tsunamis literais: naturais (provocadas pela natureza), sociais/intelectuais (provocadas pelo homem) e espirituais (planejadas por Satanás e executado por homens, sob sua influência e poder). E isso sempre deixa um rastro de destruição no ambiente e nos sobreviventes mais próximos.

Vivemos, neste mundo, uma grande batalha espiritual e mental. Quem acha que não, ou já foi levado pela enxurrada ou ainda não se deu conta disso e precisa ficar mais alerta. Vejam, por exemplo, o enorme poder da mídia que praticamente acabou com o fumo; entretanto promove a bebida, o sexo fora do casamento, a causa homossexual etc.

Mais recentemente, isto é, de cem anos para cá, podemos perceber claramente o ataque sem tréguas desferido contra a Trindade Santa:

1ª onda: contra Deus:

A Teoria da Evolução destitui Deus de toda a obra da criação e coloca o acaso em seu lugar. Se não há um Criador, não há um princípio moral absoluto; a sociedade está por sua própria conta, se torna amoral e relativiza os absolutos de Deus.

2ª onda: contra Jesus:

A Doutrina da Reencarnação transforma Jesus apenas num espírito evoluído, tal qual muitos outros que também foram aperfeiçoados após muitas passagens por este mundo. A grande mídia, impressa e televisiva, está sempre querendo destruir a imagem histórica de Jesus; tentando provar que ele não existiu ou que tinha fraquezas e paixões carnais escondidas.

3ª onda: contra o Espírito Santo:

A crença de que o homem tem potencialidades mentais e intelectuais inimagináveis, de que o homem é deus, tenta anular a presença e poder do Espírito Santo, que veio habitar no meio da igreja.

A ideia geral tem sido de acabar com a Trindade Santa e colocar a ciência como verdadeira deusa.

Alderi Souza de Matos, em “Carta a um universitário cristão”, em artigo publicado pela Revista Ultimato (set-out 2004), diz:

“O universitário cristão, pode ouvir em sala de aula questionamentos de diversas modalidades:

– acerca da religião em geral (uma construção humana para responder aos anseios e temores humanos);

de Deus (não existe ou então existe, mas é impessoal e não se relaciona com o mundo);

da Bíblia (um livro meramente humano, repleto de mitos e contradições);

de Jesus Cristo (nunca existiu ou foi apenas um líder carismático);

da criação (é impossível, visto que a evolução explica tudo o que existe);

dos milagres (invenções supersticiosas, uma vez que conflitam com os postulados da ciência), e assim por diante.”

Ele continua:

“A ideia de que professores e cientistas sempre pautam as suas ações pela mais absoluta isenção e objetividade é um mito. Por exemplo, muitos intelectuais acusam a religião de ser dogmática e autoritária, de cercear a liberdade das pessoas e desrespeitar a sua consciência. Isso até pode ocorrer em muitos casos, mas a questão aqui é a seguinte: Estão os intelectuais livres desse problema? A experiência mostra que os ambientes acadêmicos e científicos podem ser tão autoritários e cerceadores quanto quaisquer outras esferas da atividade humana. Existem departamentos universitários que são controlados por professores materialistas de diversos naipes – agnósticos, existencialistas e marxistas. Muitos alunos cristãos desses cursos são ridicularizados por causa de suas convicções, não têm a liberdade de expor seus pontos de vista religiosos e são tolhidos em seu desejo de apresentar perspectivas cristãs em suas monografias, teses ou dissertações. Portanto, verifica-se que certas ênfases encontradas nesses meios podem ser ditadas simplesmente por pressupostos ou preconceitos anti-religiosos e anticristãos, em contraste com o verdadeiro espírito de tolerância e liberdade acadêmica.”

Parece tão difícil, para muitos, aceitar a mensagem bíblica. Entretanto, aceitam tantas coisas sem qualquer sentido. Noutro dia, duas jovens conversavam, no restaurante, sobre a importância do mapa astral para datas importantes: nascimento, casamento, abertura de uma empresa etc. Dizia, ainda, para a outra, que determinada data era boa para o casamento devido à confluência de Saturno[=compromisso] com a Lua[=família]). Quanto bobagem!

Segundo a Bíblia, os 3 inimigos do homem são: O Mundo (mundanismo), Satanás e a Carne: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.” (Ef 2.1-3)

Vejamos as quatro estratégias de Satanás sobre a humanidade – os “4 C”:

 

1. CONFUNDIR (Operação Eva)

Fundir juntamente, misturar a verdade de Deus com as suas mentiras.

– Ele é o pai da mentira!

“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” (Jo 8.44)

– Eva foi enganada por Satanás (Gn 3.1,4-5):

1º) Questiona e distorce a palavra de Deus

    É assim que Deus disse? (v.1)

2º) Encobre o juízo de Deus

    É certo que não morrereis. (v.4)

3º) Oferece ilusões

     Como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (v.5)

– Nem Jesus escapou das suas investidas na sua tentação no deserto (Mt 4).

– Hoje (1993) há no Brasil cerca de 4800 seitas para confundir as mentes das pessoas. “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência,” (1Tm 4.1-2)

 

2. CONQUISTAR (Operação Ló)

Atrair, Seduzir, com o propósito de desviar do caminho da dignidade.

– Ló foi atraído e seduzido pelo que viu (Gn 13.10, 12-13)

– Balaão: este falso profeta seduziu o povo de Israel a prevaricar contra Deus (Nm 31.16; 25.1-9)

– Demas: em 61 d.C. era cooperador de Paulo  (Fm 24; Cl 4.14); já em 66 d.C. há o triste registro de que ele apostatou da fé, foi atraído e seduzido, “tendo amado o presente século” (2Tm 4.10).

 

3. CONTROLAR (Operação Gerasa)

Exercer o controle, dirigir.

– Controle por possessão: o homem geraseno, por exemplo (Mc 5.2-4)

– Controle da mente: Meditação transcenden­tal – Nova Era.

 

4. COMBATER (Operação Jó)

Pelejar, lutar contra.

Quando lhe resistimos nas demais estratégias ou investidas só lhe resta o combate direto ou indireto.

– Operação Jó (Jó 1.3, 8-12): a insinuação de Satanás era de que se fosse retirado de Jó tudo o que ele tinha, este blasfemaria contra Deus.

– Não tem sido pouca a perseguição sofrida pelos cristãos desde o início da igreja.

 

Conclusão

Felizmente, “as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas,”:

– A excelência da Obra de Cristo é a garantia da vitória!

“Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.” (Hb 10.14)

– A fé é o requisito para a vitória.

“porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (1Jo 5.4-5)

– A “armadura de Deus” é o recurso para a vitória! (Ef 6.13-18)

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.10-12)

– O “trono” de Deus é o prêmio pela vitória! (Ap 3.21)

“Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.”


Catedral Presbiteriana do Rio
30/01/2005 – Culto Vespertino (19h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

A Palavra da Fé e os 4 “M”

Texto base: Atos 16.11-24; 32-34 (Romanos 10.8-10)

Introdução: (Contexto histórico)

Trata-se da segunda viagem missionária de Paulo (50-54 dC). O Objetivo inicial era visitar os irmãos de todas as cidades da primeira viagem (45-47 dC) para fortalecer-lhes a fé, depois de uns três anos.

A equipe inicial era composta por Paulo e Barnabé. Surge o primeiro problema. Uma grande desavença entre eles por causa de João Marcos (primo de Barnabé – Cl 4.10 e escritor do Evangelho segundo Marcos), que Barnabé queria que os acompanhasse e Paulo não concordava, pois este havia se afastado deles na primeira viagem (At 13.13).

Novas equipes são formadas: Barnabé e João Marcos vão para Chipre, com destino a Ásia, “assumindo ou usurpando” a rota inicialmente planejada da 1ª viagem. Nenhuma recomendação da igreja é mencionada e a viagem deles não aparece no registro Bíblico. Cerca de 12 anos depois, há registro de que Marcos assistia a Paulo na prisão (Cl 4.10; Fm 24) e que Paulo o manda chamar antes de ser executado (2Tm 4.11), o que demonstra que um fracasso não é necessariamente o fim de tudo.

Paulo e Silas partem para a mesma rota, só que no sentido contrário. Saem recomendados pela igreja de Antioquia e Lucas registra no livro de Atos os acontecimentos dessa viagem. Na cidade de Listra a equipe é reforçada por Timóteo.

Outro problema à vista. Em Antioquia da Pisídia resolveram sair da rota, provavelmente para não se encontrarem com a equipe de Barnabé, continuando em frente, até às proximidades da Mísia. Dali, tentaram retornar pela esquerda, para pregarem a Palavra na Ásia, mas foram impedidos pelo Espírito. Tentaram, então, tomar o sentido oposto, à direita, em direção à Bitínia e, outra vez foram impedidos pelo Espírito.  Entenderam, então, que o Senhor os impelia a seguir em frente, à Trôade, uma cidade litorânea do mar Egeu, que separa o continente Asiático do Europeu.

Em Trôade, aparentemente sem rumo, duas coisas acontecem:

1ª) Numa visão, à noite, o Espírito os direciona para a Macedônia (Europa);

2ª) Lucas, o médico amado, se junta à equipe. Na manhã seguinte, em pronta obediência à visão, navegam para a região da Macedônia, passando primeiramente pela ilha de Samotrácia, chegando à cidade de Neápolis e prosseguindo viagem até Filipos, cidade importante da Macedônia, a primeira do distrito e colônia romana e, localizada atualmente na Grécia. Ali permaneceram alguns dias.

 

1. UMA MULHER TEMENTE A DEUS (At 16.13-15)

A palavra da fé produz transformação!

A palavra da fé foi pregada a várias mulheres, porém, aparentemente foi recebida apenas por Lídia, provavelmente a primeira convertida na Europa. O texto destaca algumas informações sobre Lídia:

1ª) Uma mulher engajada no mercado de trabalho, no segmento de vendas (tintura purpúrea), que talvez estivesse ali no exercício da sua profissão;

2ª) Uma mulher temente a Deus que necessitava de salvação.

Lídia representa um grande grupo de pessoas que, por um lado tentam ganhar a vida honestamente, exercendo sua profissão; por outro lado, estão acomodadas a um sistema de vida que, consciente ou inconscientemente elaboraram para si próprias e, se acham seguras de que isso lhes garantirá a salvação eterna. Triste ilusão!

Há muita gente assim, fora e dentro das igrejas. É como diz o apóstolo Paulo em Romanos 10.2-3: têm zelo por Deus, sem entendimento; desconhecendo a justiça de Deus, adotam a justiça própria, ou seja, estabelecem seus próprios critérios de salvação. Pensando nesse tipo de gente, especialmente os que estão mais próximos das igrejas, podemos chamá-los, com todo respeito de GDS, os GOSPELS, DOMINGUEIROS e SIMPATIZANTES:

Golpel, porque virou moda; eles vão ao embalo da moda…

Domingueiro, porque afinal, domingo sem culto … semana sem graça (parafraseando)

Simpatizante, porque: “não sou da igreja mas gosto muito do culto: Que coral! Que pregações! Que gente legal!”

Ser batizado não é tudo! Participar de alguma atividade da igreja, também não é tudo! É preciso NASCER DE NOVO! É preciso CONVERSÃO, MUDANÇA DE VIDA!

 

É preciso ter cuidado com certas ideias ou doutrinas que ancoram esses sistemas de justiça própria! Alguns deles podem ser simbolizados por:

1ª) Balança de Pescador (Doutrina da compensação)

Atos bons > Atos maus = salvação

 

2ª) Bumerangue – vai e volta (Doutrina da reencarnação)

Na próxima existência vou me aprimorar mais.

 

3ª) Bom velhinho (Doutrina da compaixão final)

Deus é amor e bondade. No fim ele vai me perdoar….

 

Paulo pregou ali a Palavra da Cruz, aquela que é loucura para os que se perdem, mas, o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê.

De alguma forma, ele expôs o Plano da Salvação, aquele que satisfaz a justiça de Deus, como por exemplo, aquele que a gente conta às crianças usando os dedos das mãos:

1 – Polegar: Adão pecou e o pecado passou a todos os homens. Pelo pecado veio a morte eterna, a separação eterna de Deus; (Rm 5.12)

2 – Indicador: Eu sou homem, logo sou pecador e estou perdido eternamente;

3 – Médio: Jesus Cristo morreu na cruz para que todo aquele que nele crer, tenha a vida eterna;

4 – Anelar: Eu me arrependo dos meus pecados, eu creio e confesso a Jesus como Salvador e Senhor da minha vida;

5 – Mínimo: Eu estou salvo!

(1-mata piolho, 2-fura-bolo, 3-maior de todos, 4-seu vizinho, 5-dedo mindinho)

A palavra da fé pregada por Paulo, juntamente com a intervenção do Espírito de Deus, fez com que Lídia abandonasse suas posições religiosas e se rendesse à justiça de Deus. Em seguida, ela recebeu o batismo, e já começou a fazer evangelismo e missões, levando sua família aos pés de Cristo e hospedando os missionários Cristãos.

 

2. UMA MOÇA ADIVINHADORA (At 16.16-18)

A palavra da fé é poder!

O texto nos informa que:

1º) Essa moça participava de um estranho negócio, altamente lucrativo, baseado em adivinhações;

2º) Ela era duplamente escravizada: pelo demônio e pelos patrões.

Já imaginaram do que ela era capaz? Quantas consultas, quantas revelações?

Ela representa aquele grupo de pessoas que está refém de Satanás, envolvido em pactos e/ou estranhos negócios lucrativos. Quantos empresários e governantes apelam para este tipo de compromisso diabólico?

Ela também necessitava de libertação; não do seu senso de justiça própria, como Lídia, mas de uma libertação espiritual. Ela estava sendo vítima do 3º tipo de ataque maligno: 1º)CONFUNDIR; 2º)CONQUISTAR; 3º)CONTROLAR ; 4º)COMBATER.

Ela, diariamente e gratuitamente, “adivinhava” a identidade dos missionários de Deus – servos do Deus Altíssimo. É interessante como a alma humana, mesmo aprisionada desse jeito, vai ao encontro do socorro necessitado. E, assim, no momento certo, Paulo a libertou em nome de Jesus.

“E ele na mesma hora saiu”

Essa palavra de fé é muito mais do que filosofia, um conjunto de doutrinas, etc. É “power”, é o poder de Deus para a salvação e libertação da escravidão de Satanás. A graça libertadora de Deus age na parte mais fraca, a jovem explorada. A liberdade implica em subjugar o maior tirano, o pecado (Jo 8.34; Pv 5.21-22). Esta fé traz nova esperança nas palavras daquele que é o alvo da fé (Jo 8.36).

Ninguém deve interpretar erroneamente os sentimentos de Paulo que eram de compaixão por aquela jovem e de indignação para com o espírito demoníaco que nela agia.

 

3. UMA MULTIDÃO MANIPULADA (At 16.19-24)

A palavra da fé é combatida!

Você tem certeza de que não tem sido manipulado pelos poderosos deste mundo?

“propagando costumes que não podemos receber nem praticar porque somos romanos”

A suposta acusação contra os missionários cristãos era a de “interferência cultural”, pois estavam propagando costumes que se contrapunham aos costumes romanos. A palavra aqui traduzida por “costumes”, no grego “étos”[1] (comp. At 6.14) parece incorporar práticas religiosas e ritualistas, além de hábitos sociais. Em outras palavras, quase que certamente se refere a todo o sistema judaico de vida.

Como se originam, se incorporam e se propagam os costumes? Por que é tão difícil resistir?

QUE MUNDO É ESSE?

Vivemos num verdadeiro CONSUMISMO DESCARTÁVEL (coisas, pessoas, valores, etc):

  • Culto ao corpo;
  • O que importa é o aqui e agora.

 

Nossa cultura brasileira foi impregnada por refrãos que produzem  valores e comportamentos altamente destrutivos:

  • O importante é levar vantagem em tudo;
  • Jeitinho brasileiro;
  • Eu só peço a Deus um pouco de malandragem…
  • Tô nem aí!
  • Deixa a vida me levar, vida leva eu.

É incrível como um mau costume pega! É incrível como uma tradição é aceita sem um prévio questionamento! Como é difícil deixar um sistema de vida, mesmo percebendo que este não atende aos anseios mais profundos da alma! Quão intensa é a pressão das massas sobre aqueles que não têm ou se propõem a deixar os seus costumes!

Felizmente há uma boa notícia para aqueles que sentem a necessidade de uma mudança de vida. A fé verdadeira em Jesus é capaz de operar uma mudança radical, removendo todos aqueles costumes que não têm sua origem no próprio Deus. Sua eficácia está no fato de que a mudança ocorre de dentro para fora. Inicia-se no interior, nas concepções e convicções e transborda para o exterior, tornando plena a mudança. É como alguém disse: “A beleza do cristianismo é que ele tira o homem do mundo e depois o mundo de dentro dele”. O mundo aqui não é o mundo físico, porém todo o sistema organizado que se opõe a Deus.

Na acusação está patente um falso patriotismo, uma ignorância quanto a distinção entre Judaísmo e Cristianismo, tudo isto a título de vingança. Ainda hoje o Cristianismo tem sido acusado de interferir na cultura ocidental, com suas regras e costumes que nunca deveriam ter saído de Israel. É uma visão totalmente distorcida dos fatos. “O Cristianismo, com todas as suas regras divinas e sua essência apresenta um referencial padrão de conduta para o homem. Aqueles que estão distantes desse referencial tentam destruí-lo para que não sejam condenados quando aferidos pelo mesmo.” (Exemplo: Sexo, família, moda, etc). Uma grande prova da distinção entre Cristianismo e Judaísmo é que o próprio judeu se mantém afastado. A fé é universal: “compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação…” (Ap 5.9-10)

Aqui nós encontramos a fórmula pela qual os costumes (sistemas) tentam prevalecer contra a palavra da fé:

  1. Motivação material: financeira – lucro;
  2. Violência;
  3. Discurso falso;
  4. Manipulação das massas (Poder de comunicação de massa – apenas alguns ditam as regras para todos);
  5. Obediência autômata das massas;
  6. Manipulação da justiça;
  7. Força física.

 

4. OS MISSIONÁRIOS CRISTÃOS (At 16.32-34)

A palavra da fé implica em compromisso!

“E lhe pregaram a palavra de Deus e a todos os de sua casa.” (At 16.32)

Esses servos do Deus altíssimo – Paulo, Silas, Timóteo e Lucas – eram autênticas encarnações da palavra da fé, um dos sinais do novo nascimento. Viviam a essência do evangelho, ou seja:

  • Comunhão com Deus pela oração (16.13, 16)
  • Pregação do Evangelho (16.13)
  • Libertação dos oprimidos pelo diabo (16.18)
  • Edificação dos crentes (15.36)
  • Serviço à igreja (16.4)

Em resumo, trata-se de “Negócio humanitário”, sem fins lucrativos.

A palavra da fé é vencedora!

Toda a força que sustenta o sistema mundano não representa qualquer ameaça para os que estão na fé (1Jo 5.1a, 4). Satanás já está vencido (1Jo 4.4b).

É uma estranha maneira de vencer e paradoxalmente intrigante: os que estão do lado de Deus têm todo o poder sobre o reino das trevas; entretanto, este poder não os isenta da humilhação, do sofrimento físico, das perseguições e até da perda da vida. Na contabilidade divina, a vitória está no alcance dos objetivos maiores do Pai Celeste. Cristo morreu, mas venceu.

Tudo começou com uma visão onde alguém pedia ajuda. O fato é que duas pessoas, juntamente com suas famílias, foram alcançadas pela graça de Deus e uma jovem foi liberta. Paulo e Silas sofreram, mas venceram, pois, um testemunho de fé foi deixado ali em Filipos; mais uma igreja foi organizada. A vitória foi alcançada apenas com as armas espirituais.

 

Conclusão: Com qual desses grupos você se identifica?

Jesus disse: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas ESPADA.” (Mt 10.34). O cristianismo autêntico implica em confronto direto com o reino das trevas e todos os seus sistemas de vida. Assim é que ninguém pode viver debaixo dos dois sistemas. Terá que seguir a um e abandonar o outro.

“Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.” (Fernando Pessoa – 1888/1935)

…………………………………………………

[1] Costumes = Hábito: Lc 2.42; 22.39 + Rito: Lc 1.9; At 6.14; 15.1

“Os costumes atuam como um impermeabilizante, criando uma película em torno do indivíduo, isolando-o e sufocando-o. Só a fé em Jesus é capaz de tirar o homem deste cativeiro e dar-lhe verdadeira liberdade.”

 


Catedral Presbiteriana do Rio
22/08/2004 – Culto Vespertino (19h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

Um atendimento bem sucedido (2Rs 5.1-19a)

Introdução:

Cremos na “diaconia” universal dos crentes – homens e mulheres – ao lado do sacerdócio universal dos crentes. Todos os remidos foram chamados pelo Senhor para servir, para realizar as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). Servir, no grego, “doulos” (escravo, aquele que deve cumprir a vontade do seu Senhor, sem se importar com sua própria vontade) ou “diakonos” (aquele que realiza tarefas para ajudar os outros) é a nobre missão de cada crente, pois o Senhor Jesus é o exemplo maior. “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45). Para servir não é necessário ter um cargo ou um ofício. Assim é que o termo servir é empregado em todo o Novo Testamento no sentido não-técnico, referindo-se a homens e mulheres que serviam a essa ou àquela igreja local: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia,..” (Rm 16.1). Na igreja primitiva, a pergunta que se fazia a outro cristão era: “– em qual igreja você está servindo ao Senhor?”; enquanto hoje se pergunta: “– de que igreja você é?”.

É importante destacar que nosso Senhor Jesus Cristo foi, simultaneamente, pastor, presbítero e diácono. Isso, por si só mostra o quanto esses ofícios são importantes diante de Deus e dos homens.

NÍVEIS DE ATUAÇÃO – Ilustração contada por certo pastor:

Imaginemos, naqueles tempos de escravatura, um escravo recapturado e açoitado pelo seu senhor. Há três níveis de atuação aplicáveis ao caso:

1º) ASSISTÊNCIA SOCIAL

Seria cuidar das feridas do escravo ferido pelos açoites do seu senhor.

2º) AÇÃO SOCIAL

Seria recolher donativos da comunidade para comprar a liberdade dele.

3º) AÇÃO POLÍTICA

Seria lutar pela abolição da escravatura pois o problema não é somente deste escravo.

Na história da cura de Naamã (2Rs 5.1-19a), há lições interessantes, inclusive no que diz respeito à assistência aos necessitados realizada pela Junta Diaconal. No processo de assistência, há seis elementos aqui simbolizados:

  • O necessitado: Naamã
  • O agente do encaminhamento: Menina judia
  • O agente da solução: Eliseu
  • O recurso: Rio Jordão
  • O resultado: Cura e transformação
  • A recompensa: O presente recusado?

1. O necessitado (Naamã) (v.1)

Quando pensamos no necessitado é comum vir logo à nossa mente a figura do pobre, do carente. Jesus disse: “Porque os pobres, sempre os tendes convosco…” (Mc 14.7). Eles são uma realidade na nossa sociedade e são muitos. Entretanto, é bom não perder de vista que os pobres são apenas uma parte do universo dos necessitados. Naamã era uma pessoa do alto escalão da Síria, mas um necessitado de cura física e espiritual. Todos os necessitados devem merecer nossa atenção , porém, prioritariamente, os domésticos na fé (Gl 6.10).

2. O agente do encaminhamento (Jovem judia) (vv.2-4)

Não basta existir um agente de solução, é necessário que este seja conhecido, que se saiba da sua existência. O agente de encaminhamento é a ponte entre o necessitado e o agente da solução.

Encontramos nesta jovem, pelo menos três marcas interessantes quanto ao “agente de encaminhamento”:

a) Anonimato: Certamente ela tinha um nome, mas foi aqui omitido. Esse anonimato nos conduz a pensar que há tantas pessoas e canais que podem ser usados nessa importante missão que nem há necessidade de identificação.

b) Bondade incondicional: Mesmo sendo cativa de guerra, retirada do seio de sua família e nação, talvez tendo sua família e amigos exterminados pelo inimigo invasor que agora se apoderara dela, foi capaz de ter compaixão pelo seu senhor.

c) Confiança plena (no agente da solução): Mesmo tendo saído do meio do seu povo com pouca idade, tinha uma confiança tal no profeta de Deus que impressionou e influenciou seus senhores na busca dessa solução.

3. O agente da solução (Eliseu) (vv.8-13)

Vejamos algumas características deste atendimento:

a)Proatividade: Sabedor da existência do necessitado, um tanto quanto desorientado nessa busca pelo agente de solução, toma a iniciativa de assumir o caso (v.8).

b) Recepção sem discriminação: Eliseu se propôs a recebê-lo sem levar em conta que se tratava de um estrangeiro, pertencente a uma nação inimiga do seu povo (v.9).

c) Recepção sem privilégios: Eliseu não se deixou impressionar pela pompa ou aparato de Naamã (v.10). Todos merecem um tratamento digno e justo.

d) Estabelecimento das condições: Quem atende estabelece as condições, que levam em conta suprir a necessidade e não o desejo da pessoa em atendimento (vv.10-13). Tais condições precisam ser estabelecidas com sabedoria de modo a produzir resultados eficazes.

4. O recurso (Rio Jordão) (v.14)

O rio é sempre símbolo de recursos: a água que rega as plantações, abastece a casa, sacia os homens e os animais etc, portanto, essencial à vida. Neste caso, não há dificuldade em se perceber que não havia qualquer potencial miraculoso nas águas do rio Jordão, muito menos no ritual de sete mergulhos. Muitos falsos profetas e pregadores, de ontem e de hoje, não se cansam de iludir seus seguidores com ritos sem qualquer valor. A grande proposta de Eliseu para Naamã nada mais era do que um desafio de fé e obediência. Incluía um “ir” e um “fazer” segundo a palavra do profeta. A lição que tiramos daqui é que os recursos são sempre limitados e devem ser vistos como soluções paliativas e provisórias para suprir temporariamente uma necessidade. Entretanto, o grande milagre vem sempre de Deus, usando ou não os insignificantes recursos dos humanos.

5. O resultado (Cura e Transformação) (vv.15a; 17-18)

O mais importante num processo de atendimento é o atendido “ir e fazer” de tal maneira que sua vida seja transformada, material e espiritualmente. Do contrário, se torna assistencialismo continuado. Não basta dar o peixe é preciso ensinar a pescar!

6. A recompensa (O presente recusado?) (vv.15b-16)

Eliseu se negou a receber qualquer presente, qualquer recompensa pela sua boa ação praticada a Naamã. Quem exerce esse ministério de servir ao próximo já sabe ou precisa saber que:

a) A recompensa não vem de algo material dado pelo atendido.

b) A recompensa vem de Deus e será dada na eternidade: “e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.” (Lc 14.14)

c) A maior recompensa é contemplar a saciedade imediata do atendido, bem como sua transformação espiritual, física e financeira.

“Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.” (Lc 17.10)


Nota: Mensagem por mim dirigida à Junta Diaconal da Catedral Presbiteriana do Rio em 08/09/2014.

Dupla Identidade

Vida na igreja e vida fora da igreja

“Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre!” (Deuteronômio 5.29)

Introdução          

True Lies, “Mentiras Verdadeiras” ou “A Verdade da Mentira” é um filme de ação de 1994, dirigido por James Cameron e estrelado por Arnold Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis. Trata-se de uma história de ação e espionagem sobre um agente secreto com vida dupla espionando a própria esposa e terminando por envolvê-la numa terrível trama terrorista. Harry Tasker é um agente secreto de elite que esconde sua profissão de sua esposa Helen, que pensa que ele é um vendedor de computadores. Quando Harry descobre que sua esposa está se encontrando com outro homem, não sabe que é porque ela quer ir atrás de mais aventura em sua vida – não atrás de sexo, como ele imaginava. De alguma forma, ela acaba caindo na mão de perigosos terroristas e dessa vez ele terá que revelar quem realmente é para salvar os dois – ou, até mesmo, ser salvo por ela[1].

Vida dupla ou dupla identidade não é apenas enredo de filme ou de produção literária, mas uma lamentável e frequente realidade na igreja evangélica de todos os tempos. Mais do que dupla, às vezes consegue-se viver, pelo menos por algum tempo, múltiplas identidades, como, por exemplo: na família, na igreja e na empresa. Para não poucos crentes é muito comum dicotomizar, ou dividir a vida, em vida na igreja e vida fora da igreja; vida religiosa e vida social; vida espiritual e vida material. Assim, para estes, o comportamento, na igreja, é um e, fora dela, outro.

Certa mulher, ouvindo o pastor pregar, disse para quem estava ao seu lado: “– Esse é o homem que eu gostaria de ter lá em casa; esse é o homem que eu sempre sonhei como marido; e não aquele que vive lá em casa”. Porém, aquele pastor e pregador era o próprio marido dela. No púlpito e na igreja era amável e atencioso; porém, em casa, egoísta e agressivo. Ser íntegro é ser inteiro, ser completo, em todo o tempo e o tempo todo, como o apóstolo: “E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,” (At 20.18)

Neste estudo, desenvolveremos o tema proposto, tratando das motivações, dos desdobramentos e consequências da dupla identidade, bem como das ações para se tratar tal comportamento.

1. O que leva uma pessoa a enveredar pelo caminho da dupla identidade?

Que motivações poderiam levar uma pessoa a viver identidades diferentes?

1.1 Um nobre propósito

“Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” (1Co 9.22)

Não me recordo de muitas santas e recomendáveis motivações para se viver e aparentar ser aquilo que não se é. Entretanto, veio à minha mente a expressão do apóstolo Paulo, no versículo acima, que usarei como exemplo positivo de “dupla identidade”, com a devida “licença teológica”. O que exatamente ele fez? O que podemos fazer e até que limite, para viver uma outra identidade com o fim de ganhar almas para Cristo? A empatia, o colocar-se no lugar do outro, sempre será um excelente exercício para se buscar uma estratégia adequada de evangelismo. É difícil aceitar que um crente justifique estar participando de alguns eventos ou práticas, mundanos, com o fim de ganhar alguém para Cristo. Não dá para imaginar um crente se drogando, para ganhar um drogado, percebe? Há limite pra tudo! Às vezes não dá para ir muito longe com esta “identidade estratégica” pois seríamos compelidos a pecar contra Deus, o que não nos é lícito.

Às vezes esse nobre propósito pode ser o de salvar um reino, evitar uma tragédia gigantesca. Não consigo me imaginar fazendo o que Husai, amigo e conselheiro do rei Davi fez, quando Absalão se rebelou contra o rei, seu próprio pai, e pretendia matá-lo. Reconheço, entretanto, que as circunstâncias extremamente graves demandaram dele tal procedimento. Em vez de fugir com Davi, abandonando o palácio real, por sugestão deste (2Sm 15.32-37) Husai retornou ao palácio e apresentou-se astutamente a Absalão com o fim de servi-lo e ao povo, obtendo êxito nessa sua primeira investida (2Sm 16.15-19). Tendo ouvido que Aitofel, o conselheiro oficial de Absalão, havia dado um conselho que certamente provocaria a destruição de Davi e do povo que com ele estava, Husai apresentou-se, outra vez, a Absalão para confundi-lo, dando outro conselho que acabou prevalecendo. Assim, Husai salvou a Davi e provocou a derrota e morte de Absalão (2Sm 17).

1.2 Medo de ser discriminado pelo grupo

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.” (Jo 3.19)

Jesus nunca alimentou falsas esperanças de que os de fora da igreja nos amariam e nos aceitariam como somos e com o que defendemos e praticamos, pelo contrário: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.” (Jo 15.19). Ainda que usando de mordaz ironia, com a intenção de confrontar a presunção dos coríntios, o apóstolo expressa uma dura e inevitável realidade: ”… até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.” (1Co 4.13b)

Se Jesus deu sua vida para nos libertar das práticas pecaminosas em que vivem os de fora da igreja, por que tanta preocupação de não ser rejeitado pelos tais? “o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai,” (Gl 1.4). Há um divisor de águas entre o viver cristão e o viver do não cristão. Necessariamente, o seguir a Cristo, nos conecta a um padrão moral e ético nos termos daquele apresentado por Jesus no Sermão do Monte; nos faz ter usos e costumes diferenciados, nos faz repelir toda sorte de sincretismo. Por isso, nesses novos tempos, evangelizar se tornou um tremendo desafio; pode ser visto como invasão de privacidade e, na empresa, descumprimento de código de ética.

Um tipo característico de dupla identidade é o que popularmente e em tom de brincadeira se apelida de “crente camaleão”. É interessante observar algumas das características dos camaleões, aplicando-as a esse tipo de crente: a) Este réptil se adapta facilmente ao ambiente em que está, tendo a capacidade de mudar de cor e, assim, se camuflar.  Tal crente se amolda facilmente ao ambiente da igreja, quando está na igreja, e ao mundanismo, quando fora da igreja. b) Este réptil pode mover seus olhos em duas direções, ao mesmo tempo. Tal crente consegue direcionar seu olhar para o reino de Deus e para o mundanismo, ao mesmo tempo. c) Este réptil tem uma língua muito grande e rápida no gatilho para pegar suas presas. Tal crente tem muita lábia para enganar as pessoas, desfazer amizades e destruir reputações. d) Este réptil geralmente pode comer de tudo. Tal crente geralmente se alimenta de tudo que lhe é oferecido pela igreja e pelo mundo, sem a preocupação de distinguir o certo do errado, o que convém do que não convém.

Para descontrair, vejam alguns tipos estranhos de crente:

  • Crente 190: só busca a Deus em caso de emergência.
  • Crente Abacaxi: é casca grossa e espeta os outros.
  • Crente Açúcar: se for para a igreja com chuva, derrete.
  • Crente Agente Secreto (ou 007): ninguém sabe que ele é crente.
  • Crente Alvenaria: acha que Deus é pedreiro e só o busca quando a casa cai.
  • Crente Aranha: vive na rede social.
  • Crente Avestruz: vive escondendo a cabeça em baixo da terra quando tem um problema.
  • Crente bom de Canto: vive no canto, não quer saber de trabalhar!
  • Crente Bule: aquele de “pô café” (pouca fé).
  • Crente Cabeleireiro: vive só para fazer a cabeça dos outros.
  • Crente Camaleão: vive camuflado, se amolda ao ambiente onde está.
  • Crente Carrinho-de-mão: só anda se alguém empurrar.
  • Crente Chiclete: só mastiga a Palavra, mas não a engole.
  • Crente Crocodilo: tem uma boquinha…
  • Crente Elevador: está sempre subindo e descendo na vida espiritual.
  • Crente Escoteiro: só aparece em acampamento.
  • Crente Fantástico: só aparece no domingo à noite.
  • Crente Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, e eu sou assim, vou ser sempre assim, Gabriela.
  • Crente Iô-Iô: está sempre saindo e voltando da igreja.
  • Crente Leão: se acha o Rei da igreja.
  • Crente Macaco: vive pulando de igreja em igreja.
  • Crente Mamadeira: nunca cresce, está sempre bebendo leitinho.
  • Crente Miojo: só presta atenção na pregação por 3 minutos.
  • Crente Noé: nunca as coisas são com ele –“noécomigo, irmão”.
  • Crente Noiva: só chega atrasado.
  • Crente Nutella: é o crente moderninho, descolado e liberal.
  • Crente Oba-Oba: “tudo é festa”.
  • Crente Pão de Forma: casca grossa, miolo mole, chato e quadrado.
  • Crente Papagaio: só sabe repetir o que ouve.
  • Crente Piolho: vai pela cabeça dos outros.
  • Crente Pipoca: quando a coisa esquenta ele pula.
  • Crente Quiabo: vive escorregando.
  • Crente Rexona: Bíblia, só debaixo do braço.
  • Crente Rocambole: vive enrolado.
  • Crente Sanguessuga: vive sugando os irmãos.
  • Crente Seis horas: vive pedindo a oração dos irmãos: “seisora” por mim?
  • Crente Submarino: vive sumido, mas de vez em quando aparece.
  • Crente Tesoura: qualquer ideia, ele já corta.
  • Crente Turista: vive passeando e não se envolve na igreja.

Porém, também há esses tipos interessantes de crentes:

  • Crente Avental: em que posso ajudar? (prestativo)
  • Crente Novalgina: vive aliviando a dor do próximo (solidário).
  • Crente Bombril: tem mil e uma utilidades (útil).
  • Crente Corega: está sempre promovendo a união (agregador).
  • Crente Esponja: absorve bem os ensinamentos bíblicos.
  • Crente Peneira: só retém o que é bom.
  • Crente Raiz: é o crente tradicional que ora, lê a bíblia, frequenta a igreja, dá o dízimo e dá bom testemunho.

1.3 Pecado oculto

“Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? —diz o SENHOR; porventura, não encho eu os céus e a terra? —diz o SENHOR.” (Jr 23.24)

a) O que levaria alguém a praticar e esconder o pecado?

Podemos facilmente identificar pelo menos três causas:

– Vantagens financeiras.

Para muitos, a riqueza e tudo o que o dinheiro pode comprar é verdadeira fonte de felicidade, não importando se os meios de obtenção forem ilícitos.

– Realizações pessoais, superar o outro e exercer poder.

Para outros, exercer poder sobre os outros, realizar os projetos da sua mente e vontade, deixando sua marca pessoal na história da humanidade é tudo o que importa na vida, a que custo for.

– Prazeres carnais e sexuais.

Para não poucos, não há nada mais importante do que dar vazão aos desejos carnais e sexuais ilícitos.

Essas coisas exercem um fascínio implacável sobre aqueles que não têm domínio sobre o pecado e farão qualquer coisa para obtê-las: “Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tg 1.14-15). O problema do crente com dupla identidade é que ele pretende ganhar o céu, a salvação eterna, sem abrir mão dos seus pecados ocultos que, aparentemente podem lhe conferir certas vantagens ou prazeres. Foi o que aconteceu com Acã (Josué 7). Ele (e todo o povo) estava avisado da proibição divina quanto aos despojos de Jericó, mas achou que poderia dissimular, como se fosse possível esconder algo de Deus (Js 6.17-19).  A cobiça por riquezas ilícitas o atraiu e seduziu (Js 7.21), levando-o à morte (Js 7.25).

O verdadeiro crente, nascido de novo, tem no Senhor e não nas coisas efêmeras desta vida, a sua verdadeira fonte de prazer: “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele.” (1Tm 6.7)

b) Que consequências o pecado oculto tem na vida pessoal?

Ninguém peca por falta de aviso. Deus sempre deixa claro, através da sua Palavra e dos seus mensageiros, o que lhe agrada e o que não lhe agrada. Mesmo quando a voz de Deus não se manifestar de forma explícita, ele nos falará através da nossa consciência: “Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se,” (Rm 2.15). O fato é que todos foram informados do que Deus havia determinado, inclusive Acã. O grande problema é o ser humano dar ouvidos à voz de Deus quando a sedução da cobiça berra em seus ouvidos.

Pecados ocultos trazem consequências desastrosas na vida do crente. Quebra a sua comunhão com Deus e provoca a sua ira. Afeta, inevitavelmente, a sua família, podendo desestruturá-la ou destruí-la. Quando os membros da família tomam conhecimento e nada fazem, tornam-se coniventes ou cúmplices desse pecado oculto e assumem, coletivamente, o ônus das consequências de seus atos. Há situações que também afetam a vida profissional do crente, podendo ocasionar problemas no rendimento do trabalho, nos relacionamentos, quebra de confiança e demissão.

c) Que consequências o pecado oculto tem na igreja?

Um pecou, porém, o texto bíblico afirma que todos prevaricaram: “Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do SENHOR se acendeu contra os filhos de Israel.” (Js 7.1). Uma laranja podre, espremida no suco, estraga todo o suco. A nossa conduta particular, fora do alcance da igreja, não é só problema nosso, quando pode afetar a relação de Deus com a sua igreja, isto é, no momento em que se torna transgressão a Deus. Assim, Deus se afasta, ficamos por nossa conta e a derrota é certa, como no caso de Israel, na guerra contra Ai.

Algumas consequências dessa quebra de comunhão, são:

– Falsa confiança (Js 7.2-3)
– Decepção com Deus (Js 7.7)
– Humilhação diante do inimigo (Js 7.8)
– Temor e insegurança (Js 7.9)

A derrota na batalha contra Ai foi realmente inesperada e frustrante. Quantas vezes, grandes programações e projetos fracassam porque há pecado encoberto no nosso meio ou há confiança exagerada na capacidade humana? Quantas vezes temos nos sentido no direito de argumentar com Deus sobre a falta de poder espiritual na nossa vida ou mesmo na igreja, quando a culpa está nessa dupla identidade que se alastra pelas igrejas?

 

2. Como a igreja deve lidar com o assunto?

Efetivamente o que ela não pode é se omitir! A restauração da comunhão exige providências: “…já não serei convosco, se não eliminardes do vosso meio a coisa roubada.” (Js 7.12b). Não é sem razão que as Escrituras enfatizam tanto a necessidade de se tratar aquele que está em pecado.  O grande desafio é convencer, líderes e liderados, da relevância disso.

As muitas misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos e nos permitem o retorno à normalidade, isto é, a restauração da comunhão com Deus. Há três passos claramente indicados no texto (Js 7.10-15):

a) Buscar e ouvir a voz de Deus (Js 7.10-12)
b) Buscar a santificação (Js 7.13)
c) Exercer a disciplina (Js 7.14-15)

A disciplina não é uma opção, é uma necessidade; quer na família, quer na igreja, quer em qualquer outra instituição da sociedade: “Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.” (1Co 11.32). É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis: preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa[2]. Esse terceiro nível – cirúrgica ablativa – foi o caso da disciplina aplicada a Acã, seus filhos, suas filhas, seus animais, sua tenda e tudo o que possuía. Eles foram apedrejados e, depois, tudo foi queimado, no vale de Acor (Js 7.22-26). A Lei Mosaica previa meios de perdão e restauração do transgressor. Entretanto, neste caso, a soberania divina determinou, de imediato, a sentença de morte. A família de Acã também foi punida, pois, provavelmente foi cúmplice de seu pecado (Dt 24.16). Em alguns casos narrados na bíblia, a punição divina pode parecer ser excessiva, mas tem a explícita intenção de ser exemplar, como neste caso ou no caso de Ananias e Safira, por exemplo.

 

Conclusão

Pode-se dizer que essa ideia de levar vantagem em tudo não é coisa tão recente assim, nem é marca registrada do povo brasileiro. Acã, no Antigo Testamento; e, Ananias e Safira, no Novo Testamento, são bons exemplos disso. É sempre oportuno cada um avaliar como tem sido sua vida e suas práticas, dentro e fora da igreja. É preciso ser íntegro e inteiro, ter uma só cara, diante de Deus e diante dos homens!

Finalmente, podemos concluir que os efeitos do pecado em nossa vida hoje são tão maléficos como nos dias de Jericó. Quando o Espírito Santo é persistentemente ofendido, mostrará a sua tristeza, retirando primeiramente o seu poder e, depois, o seu testemunho. Se isso não for o suficiente para trazer de volta o crente inconstante, então é certo que virá o açoite da correção divina.

Para nossa reflexão:

  • Até que ponto seria utopia, idealismo, pensar numa igreja sem mácula? Não podemos aceitar que isso seja utopia! Para esse fim Cristo se entregou por ela (Ef 5.25b-27). Entendemos que isso não significa que os membros da igreja deixarão de pecar. Mas sim, que os remidos do Senhor terão o ardente desejo de não pecar (Hb 10.22-24).

 

  • Se é necessária a santificação de todos os membros da igreja, para que haja poder e manifestação do Espírito Santo, então é quase impossível que isso ocorra? Mesmo que seja tão difícil, esta unidade de propósito, não é impossível. Já tem ocorrido muitas vezes, em vários lugares. No entanto, isto é tão importante que o apóstolo, quando se dirigia às igrejas sobre este assunto, usava a expressão “Rogo-vos…” (Rm 12.1; 1Co 1.10; Ef 4.1; Fp 4.2). É por isso que damos tanta ênfase a este assunto.

 

  • Mas, se o joio está semeado entre o trigo, como é possível, então, a santificação da igreja? Quanto ao joio, embora atrapalhe bastante, não faz parte da igreja. Entendemos que o “rogo-vos” do apóstolo Paulo não foi e não é dirigido ao joio. Estes são parasitas que, a seu tempo, serão cortados pelo Senhor.

 

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Veja também o artigo: O pecado de Acã

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[1] Fonte: Wikipédia
[2] CIRURGIA ABLATIVA:  Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 5 (Dupla Identidade) – Módulo 3 – Classe de Casais – EBD Catedral 2017, de modo a atender a temática proposta no material elaborado por colaboradores para os alunos.

As três faces de um Ministério Espiritual

“Partiu, pois, Elias dali e achou a Eliseu, filho de Safate, que andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele; ele estava com a duodécima. Elias passou por ele e lançou o seu manto sobre ele. Então, deixou este os bois, correu após Elias e disse: Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe e, então, te seguirei. Elias respondeu-lhe: Vai e volta; pois já sabes o que fiz contigo. Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta de bois, e os imolou, e, com os aparelhos dos bois, cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram. Então, se dispôs, e seguiu a Elias, e o servia.” (1Rs 19.19-21)

 

Introdução

Deus é o Senhor da História e ele a escreve usando pessoas. Quando homens e mulheres estão a serviço de Deus, estão participando de um ministério espiritual que é uma ocupação “sobremodo excelente”. Há pelo menos três faces em um MINISTÉRIO ESPIRITUAL:

 

1. MINISTÉRIO e CHAMADO (v.19)

Analisando a narrativa bíblica contida tanto no Antigo como no Novo Testamentos, chega-se à conclusão que há basicamente três categorias de chamado de Deus aos indivíduos da raça humana. É claro que se trata de uma visão simplista da relação entre o Criador e a criatura humana. Sendo derivada de uma lógica humana não passa de uma tentativa de limitar o ilimitável – o “modus operandi” de Deus – com o fim didático de entender o que é divino, portanto insondável.

Seja qual for a categoria de chamado é evidente que há um propósito específico da parte de Deus em cada um deles. Além disso, constatamos que é desta forma que Deus administra a história, reconduzindo-a vez por outra aos trilhos da sua vontade.

1°) Chamado geral (testemunho)

Nesta categoria o chamado de Deus é dirigido a todos os crentes em Cristo tendo em vista, por exemplo, a evangelização de todos os povos, tribos, línguas e nações (Ide…- Mt 28.19). Se você não sabe expor o plano de salvação, pelo menos use o evangelismo “à la Filipe”: “vem e vê” (Jo 1.45-46).

2°) Chamado individual (dons e serviços)

Neste segundo caso, o chamado de Deus é dirigido a uma pessoa específica, visando a realização de pequenos objetivos, embora necessários e importantes. Ao chamar, Deus mesmo capacita através do seu Espírito.

Num passado mais distante ele chamou pessoas para desempenharem o papel de sacerdote, juiz, rei, etc.  Até mesmo alguns artífices foram chamados e capacitados para atuarem na construção do Tabernáculo, como Bezalel e Aoliabe (Ex 31.1-11).

O Apóstolo Paulo referindo-se aos dons espirituais e seu uso na igreja (1Co 12-14) diz que Deus estabeleceu na igreja apóstolos, profetas, mestres, operadores de milagres etc. Esclarece que os dons são diversos, há diversidade de serviços e há diversidade nas realizações (1Co 12.4-6); “mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente (1Co 12.11).

Isso significa que cada cristão, como membro do corpo de Cristo, é capacitado espiritualmente para realizar um serviço específico, de acordo com a livre e soberana vontade de Deus e, “visando a um fim proveitoso” (1Co 12.7).

Portanto, é nessa categoria que se enquadram os chamados para os ofícios de presbítero e diácono.

3°) Chamado especial (missão)

É semelhante ao anterior porquanto também é um chamado individual. Entretanto, pela magnitude e alcance dos seus propósitos, fica-lhe melhor a classificação de “especial”. Destaca-se pela intensidade da intervenção divina na história humana através de pessoas especialmente escolhidas.

No contexto da história bíblica podem ser facilmente identificados três períodos de grande intervenção divina. Cada um destes períodos durou menos de um século e foi marcado por milagres, que são acontecimentos que não têm uma explicação natural. São eles:

– Quando da formação da nação de Israel, sob Moisés e Josué;

– Quando o culto a Baal ameaçava destruir toda a adoração a Deus, sob Elias e Eliseu;

– Quando do estabelecimento da igreja, sob Cristo e os apóstolos (predominantemente).

Considerando os principais milagres registrados na Bíblia chegamos à seguinte estatística:

PESSOAS MILAGRES REGISTRADOS Século Percentual
Moisés e Josué 31 XV a.C.
Elias e Eliseu (9+12)      21 IX  a.C.
Jesus Cristo

Apóstolos/outros

37

27

   I d.C. 90%
Diversas 13      – 10%
TOTAL 129      – 100%

S. Boyer – Pequena Enciclopédia Bíblica

No contexto da Reforma, quando a igreja oficial também ameaçava destruir o verdadeiro culto a Deus, aparecem em cena homens como: João Wyclif (1324-1384), Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-1564) e João Knox (1515-1572).

Nos século 18 e 19, marcados por grandes avivamentos e expansão missionária destacam-se: Jônatas Edwards (1703-1758), João Wesley (1703-1791), Guilherme Carey (1761-1834), Carlos Finney (1792-1875), Jorge Müller (1805-1898), Davi Livingstone (1813-1873), Hudson Taylor (1832-1905); Carlos Spurgeon (1834-1892) e Dwight L. Moody (1837-1899).

Nas entrelinhas do versículo 19 há três aspectos relevantes sobre o chamado que devem ser considerados:

a) O chamado é um ato soberano de Deus

“..e achou a Eliseu, filho de Safate..”

Ou Deus chama diretamente a pessoa escolhida (Moisés – Ex 3.2) ou ele manda chamar, como neste caso (1Rs 19.16).

A Bíblia menciona o fato de pessoas serem separadas por Deus, para algum ministério especial, antes mesmo de nascerem (Sansão – Jz 13.5; Jeremias – Jr 1.5; João Batista – Lc 1.13-17; Paulo – Gl 1.15 ; etc).

Se a Deus pertence a escolha não cabe a nós questionar os seus critérios. Elias poderia ter argumentado: “Senhor, não há tantos discípulos na Escola de Profetas em Ramá (1Sm 19.20); ou na de Betel (2Rs 2.3); ou na de Jericó (2Rs 2.5); ou quem sabe na de Gilgal (2Rs 4.38)?  Por que escolhestes um lavrador?”.

Quem dentre nós, no lugar de Jesus, chamaria homens “iletrados e incultos” para serem seus discípulos e continuadores do Cristianismo?  Deus sabe o que faz. Pedro e João falaram com tanta intrepidez diante do Sinédrio em Jerusalém que aqueles inquiridores não só se admiraram como reconheceram terem eles estado com Jesus (At 4.13).

Em vez disso Elias entendeu que a nós basta obedecer a Deus, “achar”, reconhecer os escolhidos por Deus e encaminhá-los ao ministério (At 13.2).

b) O chamado é uma proposta de troca

“..andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele; ele estava com a duodécima..”

Você já deve ter ouvido falar alguma vez que Deus não chama desocupados, ociosos ou preguiçosos. Eis aqui mais um caso que confirma esta regra. Deus chama gente ocupada e propõe que estes troquem suas atividades, parcial ou totalmente, por atividades “mais nobres” ou mais necessárias dentro da sua ótica. Aos irmãos pescadores – Pedro e André – Jesus propôs: “Vinde após mim, e eu vos farei Pescadores de homens” (Mt 4.19).

c) O chamado é confirmado pela outorga de Autoridade e Poder

“Elias passou por ele, e lançou o seu manto sobre ele”

O ato de “lançar o manto sobre” tinha o simbolismo de transferência de autoridade e poder, de um profeta que estava terminando a sua missão, para outro que já estava sendo escolhido para dar prosseguimento ao ministério profético.

Tal qual a vara de Arão (Ex 14.16; 17.5-6), o manto de Elias foi usado para a realização de tarefas humanamente impossíveis (Elias – 2Rs 2.8; Eliseu – 2Rs 2.14). De igual modo, os ungidos e equipados pelo Espírito Santo podem servir de canais através dos quais Deus realiza a sua vontade.

 

2. MINISTÉRIO E FAMÍLIA (v.20)

Seja qual for a categoria de chamado que você recebeu, esteja certo de que:

a) A família requer uma atenção adequada

“Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe, e então te seguirei”

A atitude de pedir permissão para despedir-se de sua família  demonstra submissão ao profeta de Deus e, ao mesmo tempo, responsabilidade e atenção para com os seus pais. Eliseu não desculpou-se como aquele “quase discípulo de Jesus” que primeiro queira “sepultar o seu pai” (Lc 9.59-60).

Tudo indica que Eliseu era um homem solteiro. Não acredito que a sua calvície tivesse algo a ver com isso (2Rs 2.23). O fato dele ser solteiro simplificava em muito a situação. Paulo diz que os não casados estão mais livres para cuidar “das coisas do Senhor” enquanto os casados estão divididos entre a família e o serviço cristão (1Co 7.32-33).

Como, sendo casado(a), conciliar família e ministério? Como distribuir adequadamente a energia e atenção com os diferentes papéis que você desempenha na sociedade, o que inclui a família?  Há uma tendência natural de aplicarmos mais energia naqueles papéis com maior retorno financeiro ou satisfação das necessidades de autoestima, ou ainda de autorrealização.

Seja qual for a importância que você, ou outros, dão ao seu ministério espiritual, este não anula a sua responsabilidade para com a família. Em contrapartida a família não tem o direito de absorver egoisticamente aquele(a) que foi chamado por Deus para abençoar muitas vidas.

É recomendável adotar-se a seguinte hierarquia de prioridades:

DEUS  =>  FAMÍLIA  =>  MINISTÉRIO

“Elias respondeu-lhe: Vai, e volta; pois já sabes o que fiz contigo”

É preciso dosar bem o ir e vir entre o ministério e a família!

 

3. MINISTÉRIO e MISSÃO (v.21)

Há profundas e significativas verdades nas atitudes de Eliseu após o seu chamado:

 a) O ministério requer comprometimento total

“Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta de bois, e os imolou…”

Consciente de que havia recebido um chamado especial, de “tempo integral”, pela fé ele se entrega, se compromete, a ponto de desmontar a sua estrutura de trabalho anterior. Como lavrador, ele sabia muito bem o quanto é desastroso colocar as mãos no arado e olhar para trás (Lc 9.62).

O diaconato não é um ministério de tempo integral. Entretanto, como qualquer outro ministério requer um comprometimento total. Não basta participar, é preciso se comprometer!

b) O ministério requer visão do povo

“… e com os aparelhos dos bois cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram”

Ele poderia ter feito um bom negócio com a sua junta de bois; em benefício próprio ou de sua família. Afinal, não era dele? Não é esta a regra mais antiga do mundo: Primeiro EU, minha FAMÍLIA, meus AMIGOS e depois os OUTROS?

Uma forma infalível de avaliação da sua maturidade cristã, ou seja, do quanto você já se aproximou da “Natureza de Cristo”, é medindo a sua liberalidade, a sua capacidade de dar e de doar-se a si mesmo. Ministério, antes de tudo, é doação de vida. Deus nos deu Jesus, o seu Filho Unigênito, que nos deu a salvação eterna e vida abundante, que deve fluir em todas as direções, sem discriminações.

Há duas palavras muito interessantes no grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento: “doulos” e “diákonos”.

Doulos(gr), escravo, é a forma mais baixa de servidão. O escravo não tem vontade própria. Vive para cumprir a vontade do seu despótes (gr) (dono).

 Diákonos (gr), servo, implica serviço, de todas as formas. Diakonia (gr) diz respeito a distribuição de alimentos, socorro, enfim, assistência social. O nome, sem perder esta ideia, se tornou título de um dos oficiais das igrejas.

Essas duas posições, escravo e servo, nunca deram muito “ibope”. Se fossem incluídas no nosso vestibular unificado, dificilmente atrairiam algum candidato. Todos preferem as posições de Kúrios (Senhor), despótes (Dono), didáskalos (Mestre) etc.

Sabedor dessa preferência humana, Jesus, ao estabelecer o seu reino neste mundo, tratou de reformular o conceito de servir:

1°) Ele não pregou a eliminação de todas as posições hierárquicas estabelecidas pela sociedade (Jo 13.16).

2°) Ele estabeleceu um sistema de compensação entre líderes e liderados introduzindo um revolucionário conceito de grandeza: “..quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva” (Jo 20.26). Ele quebra os paradigmas existentes onde os governantes dos povos os dominavam e exploravam (Jo 20.25) e estabelece as bases da verdadeira democracia.

Jesus não apenas ensinou mas vivenciou o papel de “doulos” (Fp 2.7) e “diákonos” (Mt 20.28) e, acrescentou: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15).

O apóstolo dos gentios, Paulo, assimilou bem estes dois conceitos e usa-os a respeito de si, seu ministério e serviço cristão: “doulos” (de Jesus – Rm 1.1; dos irmãos – 2Co 4.5); e, “diákonos” (servo – 1Co 3.5; ministro – 2Co 3.6; 6.4; 11.23; Ef 3.7).

Os ministérios de Elias e Eliseu visaram prioritariamente o sofrido povo de Israel do Reino do Norte, “os domésticos da fé”, mas transpuseram barreiras raciais e abençoaram pessoas de outras nações, podendo ser considerados como precursores do ministério cristão (Lc 4.25-27).

  c) O ministério requer humildade e perseverança

“Então se dispôs e seguiu a Elias, e o servia”

Os serviços mais simples, repetitivos, raramente são percebidos quando funcionam bem. A dona de casa que o diga. Isso sempre foi assim e sempre o será. Quem serve na casa de Deus deve fazê-lo com satisfação e dedicação, não esperando qualquer tipo de reconhecimento. Deve-se ter o cuidado de fazer as coisas “como para o Senhor e não para os homens” (Cl 3.23).

Eliseu não via qualquer problema em ser um auxiliar de Elias, em executar tarefas tão simples como “deitar água sobre as mãos de Elias” (2Rs 3.11). Eliseu foi fiel no “pouco”, e depois da morte de Elias, foi colocado sobre o “muito”, pois Deus o usou de uma forma tremenda.

Já repararam que entre os oficiais diáconos há muitos que desempenham papel relevante no mundo dos negócios? Há funcionários graduados, gerentes, empresários etc. Entretanto, sem qualquer constrangimento, se empenham o máximo para servir bem aos irmãos e visitantes. Particularmente defendo aquela opinião de que na igreja de Cristo não deve haver distinção de pessoas por causa de títulos ou sobrenomes. Todos devem ser recebidos e tratados como membros de um mesmo corpo (1Co 12.27), ramos de uma mesma videira (Jo 15) e pedras de um mesmo edifício espiritual (1Co 3.9) – a igreja de Cristo.

A humildade e perseverança no servir são virtudes essenciais à eficácia de um ministério espiritual.

 

Conclusão

1. O chamado é:

– Um ato soberano de Deus.

– Uma proposta de troca.

– Confirmado pela outorga de Autoridade e Poder.

2. A família requer uma atenção adequada.

3. O ministério requer:

– Comprometimento total.

– Visão do povo.

– Humildade e Perseverança.

Que Deus nos ajude a entender e praticar esses princípios básicos.


Catedral Presbiteriana do Rio
16/07/1995 – Culto Vespertino (19h)
Aniversário da Junta Diaconal
Esboço da Mensagem pregada pelo então Diácono Paulo Raposo Correia

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