Falar em Línguas – Dom de Línguas

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(Última atualização: 05/01/2022)

A conversão de Cornélio (Parte 3)

Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

  • A reação ao ocorrido (vv.1-3)

1  Chegou ao conhecimento dos apóstolos e dos irmãos que estavam na Judéia que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus.

O que aconteceu na casa de Cornélio não passou despercebido, nem em Cesaréia, nem no restante da Palestina. Foi um acontecimento singular, incomum e sobrenatural; não foi o primeiro, nem seria o último. O livro de Atos registra cinco “derramamentos” ou “batismos” do Espírito Santo que testificam a participação divina na história do cristianismo, além de selar, desta forma, o progressivo avanço da igreja. São eles:

– O “Pentecostes apostólico” (At 2.1-13) (Línguas)
– O “Pentecostes eclesiástico” (At 4.31)
– O “Pentecostes samaritano” (At 8.14-17)
– O “Pentecostes gentílico” (At 10.44-47) (Línguas)
– O “Pentecostes efésio” (At 19.1-7) (Línguas)

Todos sabemos que o Pentecostes de Atos 2 foi único no sentido de marcar o início de uma nova época, o início da igreja de Cristo. Vale lembrar o que disse Merrill Unger: “Pentecostes não pode ser repetido assim como a criação do mundo ou do homem; é de uma vez para sempre, como a encarnação e morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Isto vem dos seguintes fatos: (1) O Espírito de Deus só poderia vir, chegar e fazer morada na igreja uma vez, o que fez no Pentecostes. (2) O Espírito de Deus só poderia ser dado, recebido e depositado na igreja uma vez e isso aconteceu no Pentecostes. (3) O evento ocorreu num tempo específico (Atos 2.1), cumprindo um tipo específico do Antigo Testamento (Levítico 23.15-22), num lugar específico (Jerusalém, cf.  Lucas 24.49), sobre uns poucos específicos (Atos 1.13-14), para um propósito específico (1Corintians 12.12-20), a fim de introduzir uma nova ordem. O evento não constituía de fatores contínuos e recorrentes da nova ordem uma vez instituída.”. Com a devida licença  teológica, estas cinco ocorrências parecem testificar a forma de avanço do evangelho expressa em Atos 1.8: “…e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Entretanto, parece que isto não estava muito claro na mente dos apóstolos e cristãos judeus.   

2  Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: 3  Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles.

O registro bíblico não deixa claro que Pedro tenha sido expressamente convocado a ir a Jerusalém para se explicar. O fato é que quando lá chegou ele foi questionado pelos legalistas e defensores da circuncisão. Pela pergunta feita a Pedro parece que aquilo que chegou até estes inquisidores foi uma versão reduzida ou recortada do ocorrido. Outra opção de interpretação é que, de tudo quanto tomaram conhecimento, o que mais lhes interessava ou importava ou incomodava foi a aproximação de Pedro de gentios, rompendo padrões ou tradições ou tabus judaicos.  

  • As explicações de Pedro (vv.4-17)

4  Então, Pedro passou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo:

Não há dúvida de que Pedro precisava contar toda a história para convencê-los de que não havia cometido qualquer transgressão. Pode-se dizer que a tarefa de Lucas, o escritor de Atos, neste ponto, veio bem ao encontro do seu estilo e vocação: “igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,” (Lc 1.3).

5  Eu estava na cidade de Jope orando e, num êxtase, tive uma visão em que observei descer um objeto como se fosse um grande lençol baixado do céu pelas quatro pontas e vindo até perto de mim.
6  E, fitando para dentro dele os olhos, vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu.
7  Ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come.
8  Ao que eu respondi: de modo nenhum, Senhor; porque jamais entrou em minha boca qualquer coisa comum ou imunda.
9  Segunda vez, falou a voz do céu: Ao que Deus purificou não consideres comum.
10  Isto sucedeu por três vezes, e, de novo, tudo se recolheu para o céu.
11  E eis que, na mesma hora, pararam junto da casa em que estávamos três homens enviados de Cesaréia para se encontrarem comigo.

A história contada aqui por Pedro é praticamente idêntica ao que foi narrado anteriormente, inclusive, no versículo 11, consta o detalhe de que ali chegaram exatamente aqueles três os homens que foram enviados por Cornélio: “dois dos seus domésticos e um soldado piedoso” (At 10.7).   

12  Então, o Espírito me disse que eu fosse com eles, sem hesitar. Foram comigo também estes seis irmãos; e entramos na casa daquele homem.

Temos aqui outro detalhe adicional que é o de Pedro ter sido acompanhado por seis irmãos ali de Jope, quantidade essa bastante significativa. Anteriormente não fora dito a quantidade desses irmãos (At 10.23).

13  E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro,
14  o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa.

Depreende-se, de toda a narrativa, que Lucas, o escritor deste Livro, deve ter tido a intenção de ir acrescentando os detalhes gradativamente. Na primeira menção ao que o anjo disse a Cornélio é revelado que ele apenas deveria mandar chamar Pedro (At 10.6). Ao relatar aquela visão, Cornélio ratifica essa versão (At 10.33). Agora, em sua exposição do que o anjo falou, Pedro traz à luz algo extremamente relevante, provavelmente já interpretando a verdadeira razão dele ter sido chamado para essa missão: “o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa”. Essa explicação de Pedro deixa muito claro o que já afirmamos anteriormente, a saber, que Cornélio era tão somente um homem piedoso e religioso que precisava de salvação, bem como as pessoas da sua casa – “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (1Pe 1.23); “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17). A salvação é individual, não é por atacado. Fica claro o propósito divino de alcançar muitas vidas ali para a salvação eterna.

15  Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio.
16  Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.
17  Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?

Já tivemos a oportunidade de comentar esta narrativa sobre a descida do Espírito Santo em Atos 10.44-46. Vale destacar aqui a percepção de tudo aquilo por parte de Pedro:

1º) A manifestação do Espírito Santo foi algo involuntário, inesperado, não programado e não ocorrido como resposta a um clamor. Portanto, foi algo que transcendeu à vontade ou intenção humanas.

2º) Foi semelhante ao que já havia acontecido no princípio com eles (judeus), provavelmente no Pentecostes (At 2.1-13). Isso deveria levá-los a entender que Deus não fazia distinção entre judeus e gentios, pois Cristo veio para ambos.

3º) Foi o cumprimento da promessa de Cristo quanto a um batismo diferente, com o Espírito Santo. Desta forma, depreende-se que o ato de “cair sobre” (movimento de cima para baixo) foi interpretado como “batismo”.

4º) Que o dom ou dádiva do Espírito Santo está associado ao crer.

5º) Que precisamos estar atentos para discernir os sinais, interpretando-os à luz do contexto bíblico, para não nos acharmos na contramão da vontade de Deus.

  • O desfecho conciliador (v.18)

18  E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.

Percebe-se que, inicialmente, os ânimos estavam acirrados e contrários à atitude de Pedro se aproximando dos gentios. Entretanto, a igreja judaica reunida, finalmente se deu conta de que novos tempos eram chegados. A atuação eficaz do Espírito permitiu-lhes perceber que Jesus é o Salvador de todos os que creem na sua obra redentora, tornando-se assim membros do seu corpo – a Igreja Invisível.

Veja também:


Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

A conversão de Cornélio (Parte 2)

Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

  • O encontro de Pedro com Cornélio (vv.24-29)

24  No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos.

A viagem não era tão longa assim (cerca de 51 Km em linha reta) para os padrões da época, pois chegaram lá no dia seguinte. Nas atitudes de Cornélio descritas no texto podemos deduzir que: (i) Ele estava seguro e tinha fé de que a missão teria bom êxito e Pedro viria com seus servos; (ii) Ele não achava correto reservar apenas para si a oportunidade e privilégio de vivenciar aquele momento tão especial de ouvir um enviado por Deus. Seu altruísmo o levou a estender esse privilégio aos seus parentes e amigos mais próximos.

25  Aconteceu que, indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe aos pés, o adorou.

Finalmente, Pedro chegou à casa de Cornélio que o estava esperando. Percebe-se que Cornélio ainda estava sob o impacto da visão e sem a adequada noção do significado dos fatos. Certamente ele tinha muito a aprender sobre o mundo espiritual e o mundo material. O fato de Pedro ter sido apontado na visão como um interlocutor divino, não o tinha promovido ao status de um ser superior ou celestial, diante de quem se deveria prostrar e adorar. Se nem os seres celestiais são dignos de veneração e adoração, quanto mais os seres humanos e mortais. Somos apenas servos “inúteis” aos quais foi conferido o privilégio de servir ao Deus dos deuses e Senhor dos senhores. O equívoco de Cornélio pode se repetir na comunidade cristã de qualquer época, quando os liderados confundem e trocam submissão e apreço, por devoção e exaltação a seus líderes!

26  Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu também sou homem.

Podemos até imaginar o constrangimento de Pedro diante da cena de Cornélio prostrado aos seus pés. Rapidamente ele interferiu e reverteu a situação esclarecendo que todos somos iguais e objeto da mesma graça divina.

27  Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali,

28  a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo;

29  por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar. Pergunto, pois: por que razão me mandastes chamar?

Diante daquele público gentio, isto é, de Cornélio e seus convidados, bem como dos judeus que o acompanhava, Pedro achou por bem começar expondo e ratificando a prática dos judeus de não aproximação dos não judeus. Pelo seu falar, isso era algo de conhecimento de todos. Justifica, então, sua presença ali, rompendo tal prática, como algo que decorria de uma experiência mística com Deus. Assim se expressando, demonstra que compreendeu o significado daquela visão do lençol com vários tipos de animais impuros. Faltava-lhe, ainda, ser esclarecido da razão porque lhe mandaram chamar.

  • Cornélio conta a visão (vv.30-33)

30  Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes

31  e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas, lembradas na presença de Deus.

32  Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de Simão, curtidor, à beira-mar.

33  Portanto, sem demora, mandei chamar-te, e fizeste bem em vir. Agora, pois, estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.

A fala inicial de Cornélio nos permite esboçar a provável cronologia dos acontecimentos.

1º dia – às 15h (hora nona): Cornélio teve a visão. Início da viagem(?)

2º dia: Viagem da comitiva até Jope, chegada, encontro com Pedro e pernoite.

3º dia: Viagem de volta da comitiva, acompanhada de Pedro e outros.

4º dia – às 15h (hora nona): Término da viagem e encontro de Pedro com Cornélio e seus convidados.

Ao contar a visão, Cornélio expressa algumas variações em relação à narrativa anterior. O horário era “cerca da hora nona do dia”; agora, “por volta” desta mesma hora, e durante a observação da “hora nona de oração”, em sua casa. Anteriormente fora uma visão quando dele se aproximou um anjo; desta feita um “varão de vestes resplandecentes” se apresentou diante dele. A fala daquele ser se manteve na mesma linha: As orações e esmolas de Cornélio chegaram diante de Deus e Pedro deveria ser chamado.

Finalmente, Cornélio declara que cumpriu a sua parte, em obediência à orientação divina, e que Pedro também fez bem em ter atendido o chamado. Então, estando todos ali prontos e à disposição, passou a palavra a Pedro.

  • A pregação de Pedro (vv.34-36)

O que dizer dessa pregação de Pedro? Que ela foi inspirada pelo Espírito de Deus não há qualquer dúvida. Na verdade, sua mensagem foi visceral no sentido que traduzia tudo aquilo que ele viu, ouviu e vivenciou intensa e diretamente como testemunha ocular do Mestre. Então, a síntese da mensagem pode ser expressa nos seguintes sete pontos:

1º) Uma nova visão de Deus (vv.34-35).

34  Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas;

35  pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.

Pedro percebe ou reconhece algo mais sobre Deus. Um Deus que não é propriedade particular de um povo – os judeus – mas que comprou para si, pelo sangue do seu Filho, um povo de propriedade exclusiva sua, que alcança todas as tribos, raças, línguas, povos e nações. Um Deus que não faz acepção de pessoas; que acolhe homens e mulheres, pobres e ricos, gente nova e idosos. Um Deus que procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23). Um Deus que está atento aos que o temem e fazem o que é reto e justo; lhes oferecendo salvação, não por causa dos seus méritos pessoais, mas pela graça salvadora de Cristo. “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.” (Sl 145.18)

2º) O Evangelho da Paz (v.36)

36  Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.

Cornélio e os demais convidados aguardavam a “palavra” de Deus por intermédio de Pedro. Jesus era e é o verbo de Deus que se fez carne; a palavra encarnada, enviada inicialmente aos filhos de Israel. A essência da pregação de Pedro é Jesus, o enviado de Deus, aquele que anunciou o evangelho da paz: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1); o evangelho da reconciliação: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,” (2Co 5.18). Este Jesus é o “Senhor e Salvador”, expressão essa muito apreciada e usada por Pedro (2Pe 1.11; 2.20; 3.2; 3.18). 

3º) A vida e ministério de Jesus (vv.37-39a)

37  Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou,

38  como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele;

39  e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Aparentemente Pedro tinha a percepção de que os seus ouvintes haviam tomado conhecimento da vida de Jesus. Realmente seus feitos e fama se espalharam rapidamente por toda a parte. Entretanto, achou por bem relembrar os fatos, começando com o batismo de arrependimento pregado e realizado por João Batista, bem como mencionando a unção de Jesus pelo Espírito Santo. Pedro, na qualidade de testemunha ocular, não podia deixar de citar o poder de Deus que atuava através de Jesus, curando e libertando vidas por toda a parte.

4º) Sua morte (v.39b)

… ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Não há Evangelho da Paz ou pregação do Evangelho sem mencionar a morte de Jesus, sua morte na cruz! “agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis,” (Cl 1.22)

5º) Sua ressurreição (vv.40-41)

40  A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto,

41  não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos;

O grande diferencial do cristianismo é exatamente a morte sacrificial seguida da ressurreição sobrenatural do seu líder maior – Jesus. Todos os demais estão em seus túmulos ou permanecem mortos. A ressurreição de Cristo tem alguns significados relevantes para a Fé Cristã, tais como: O motivo: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Rm 4.25); – A garantia: “Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.” (1Co 6.14; ver tb 2Co 4.14; 1Ts 4.14); – A validação: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1Co 15.14; ver tb 1Co 15.17, 20); – O alvo superior: “que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1Pe 1.21) 

6º) A grande comissão (v.42)

42  e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos.

As boas novas do Evangelho deveriam ser anunciadas a todos os povos. Pedro, já se encaminhando para o final da sua pregação e da síntese que fazia da vida e obra de Jesus, não poderia deixar de fora a menção da grande comissão, assim expressa por Jesus: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19).

7º) A supremacia de Jesus e sua obra redentora (v.43)

43  Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados.

Esse era e é o projeto de Deus para a salvação dos pecadores, estabelecido por ele, antes mesmo da fundação do mundo, anunciado pelos profetas e realizado no fim dos tempos: “mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.19-20). E, ainda: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,” (Ef 1.3-6). Assim, a pregação de Pedro é cristocêntrica; começa, se desenvolve e termina com Jesus Cristo: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.” (Hb 8.6).

  • A descido do Espírito Santo (vv.44-47)

Este acontecimento também pode ser chamado de “Pentecostes gentílico”.

44  Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.

45  E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo;

46  pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então, perguntou Pedro:

Pensar que a salvação messiânica tivesse limites raciais – os judeus – era negar a evidência da revelação profética. Por outro lado, aceitar uma salvação universal não implicava em entender o “modus operandi” de Deus entre os futuros salvos, dos diversos povos. De fato, essa salvação universal viria a tomar forma através de uma igreja que não deveria conhecer fronteiras raciais, sociais, políticas etc.

O próximo “ato do Espírito”, na direção do estabelecimento de uma Igreja Universal era o rompimento do “racismo judaico”. Para um povo que durante séculos foi chamado de “povo de Deus”, proibido por lei de se misturar matrimonialmente com outros povos (Dt 7.3), proibido de entrar na casa de estrangeiros e fazer refeições com estes (At 10.28; 11.3); ter que modificar toda essa herança cultural, admitindo agora uma união fraternal com cristãos de outras nações, não seria tarefa fácil.

A Pedro coube a missão de abrir a porta do evangelho aos gentios (Mt 16.18-19). Antes disso, o Espírito já estava chamando a Saulo-Paulo, para que, aberta a porta da graça aos gentios, este pudesse levar a igreja “até aos confins da terra”.

Entretanto, Pedro estava acomodado, interessado apenas nos compatriotas da Judéia (Lida, Sarona e Jope – At 9.32-36). O capítulo 10 de Atos relata então toda a operação do Espírito em Pedro (At 10.9-22), através dele (At 10.23-43) e independentemente dele (At 10.1-8; 44-48), para que a integração da igreja gentílica fosse uma realidade.

Sobre o derramamento especial do Espírito na casa de Cornélio devemos considerar os seguintes pontos:

1°) Chegada a hora dos gentios, Deus intervém. A igreja deveria avançar em direção aos confins da terra, porém Pedro estava acomodado, em Jope, a beira-mar. Foi necessário então que “os confins da terra”, ávidos para receber o evangelho, fossem ao encontro dele;

2°) Para que Pedro pudesse se convencer do caráter universal da igreja e, mais tarde, tivesse argumentos para se defender perante os judeus (At 11.1-18) foi necessária uma manifestação especial da parte de Deus: uma visão celestial a cada parte envolvida (Pedro e Cornélio) e um derramamento do Espírito sobre os dois grupos reunidos;

3°) A identificação deste derramamento como um “Pentecostes gentílico” é perfeitamente aceitável:

– O Espírito foi concedido a todos, de forma inesperada (como no princípio), portanto, sem imposição de mãos (como em Samaria), causando perplexidade aos judeus presentes;

– A forma exterior usada para autenticar o dom do Espírito não foi exatamente igual à do primeiro Pentecostes, porém teve em comum o falar em línguas; 

– Pedro, em sua defesa perante a igreja de Jerusalém, colocou o acontecimento   de   Cesaréia no mesmo nível  do  primeiro Pentecostes – “como  também  sobre  nós no princípio”  (At 11.15; comp. At 11.17);   

– Pedro concluiu que esses derramamentos estavam relacionados com o cumprimento da promessa de Jesus sobre o “batismo com o Espírito Santo” (At 11.16).

4°) Para aqueles que defendem o batismo com o Espírito Santo como uma segunda bênção, sendo a primeira a conversão, fica muito difícil explicar este texto. Pedro não havia sequer concluído sua pregação e o Espírito “caiu sobre ele”. Não se pode caracterizar aqui essas supostas etapas da carreira cristã;

5°) Seria humanamente improvável que Pedro viesse a batizar esses cristãos de Cesaréia se o Espírito não o tivesse antecedido, com manifestações inequívocas da aprovação divina.

47  Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?

Certamente aqueles gentios, tendo crido no Senhor Jesus e tendo recebido o batismo com o Espírito Santo, já faziam parte da igreja de Cristo. No entanto, tiveram de ser batizados com água, pois, deveriam ser reconhecidos pelas autoridades cristãs, como membros da assembleia local. O Sr. Landes comentando este texto diz: “A palavra – ‘negar’ – no grego é – kolusai – e também se traduz por ‘impedir, proibir, recusar ou vedar’. A expressão ‘negar (recusar) a água’ dá a entender que a água devia ser trazida e que ninguém devia impedir este ato… Em Lucas 18.16 Jesus usou o mesmo verbo para dizer: ‘Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais’. Disto nos parece que Pedro não desejava que alguém impedisse de ser trazida a água para batizar Cornélio e seus amigos (estes)”.

48  E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias.

Na sua defesa em Jerusalém, a respeito desse caso, aquela experiência descrita como “caiu o Espírito Santo sobre todos”, “foi derramado”, foi identificada por Pedro em Atos 11.15-16 como o cumprimento da promessa de Jesus: “Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At 11.16). O “cair” ou “derramar” foi identificado como batismo. Portanto, foi derramada ou aspergida água sobre Cornélio e seus amigos.


Veja também:

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

A conversão de Cornélio (Parte 1)

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)

Lucas, o escritor do livro de Atos, inspirado por Deus, mostra-se muito atento aos acontecimentos que marcaram os primeiros passos da igreja. Em algumas ocasiões ele registra a fenomenal expansão da igreja e faz questão de quantificar as multidões que receberam e creram no Evangelho. Esse foi o grande milagre nos primórdios da igreja. O escritor deste livro, tão importante e empolgante, nos presenteia e nos enriquece com sua sensibilidade ao mencionar e descrever as experiências vividas por alguns personagens, gente simples ou de maior relevância na sociedade, gente de fora e de dentro da igreja, judeus e gentios, tais como: o coxo da porta do templo (At 3); Estêvão (At 7); Simão, o mágico (At 8); o eunuco etíope (At 8); Saulo (At 9); Enéias (At 9); Dorcas (At 9) e, neste caso em análise, Cornélio. São vidas preciosas alcançadas pela pregação do evangelho e pela graça divina. São registros que conseguem desempenhar o papel de “humanizar” o divino e elevar o humano “aos lugares celestiais”, às “insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

  • Quem era Cornélio? (vv.1-2)

1  Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana,

Cornélio era um oficial do exército romano que comandava 100 homens, daí o termo “centurião”. Ele morava em Cesaréia, uma cidade situada nas margens do mar Mediterrâneo, a cerca de 82 Km (em linha reta) a noroeste de Jerusalém. Segundo os historiadores, naquela época era o local onde residiam os procuradores romanos e quartel-general de suas atividades na Palestina. Tornou-se um importante centro comercial marítimo e cultural.

2  piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus.

Sem dúvida o perfil de Cornélio descrito aqui neste versículo 2 é diferenciado e exemplar. Não há evidências neste registro bíblico de que ele fosse um prosélito do judaísmo. Entretanto, é dito que ele era piedoso e temente a Deus; e não a vários deuses. É provável que seu estilo de vida tenha sido de tal monta que influenciou significativamente os de sua casa; familiares e servos. Que tipo de exemplo e liderança espiritual estamos exercendo em nossa casa ou na vida daqueles com quem convivemos mais de perto (escola, trabalho etc.)? Além da sua vida devocional vertical (com Deus) estável e contínua, não era um homem teórico, vivendo um ascetismo recluso, introspectivo e focado em exercícios espirituais de autodisciplina. Ele tinha uma vida horizontal prática; ele olhava para o próximo e, de alguma forma, com os recursos que possuía procurava mitigar sua dor, sofrimento e carência. Ao longo da narrativa descobriremos algumas de suas virtudes: piedade, reverência, influência, liberalidade, oração, receptividade e obediência. Ele não era um cristão professo, porém sua conduta pode superar a de muitos de nós que somos cristãos. Quais são as evidências práticas da nossa fé, do nosso amor a Deus e ao próximo? Vale lembrar o que Tiago diz: “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tg 2.18). Para aqueles que ainda não foram esclarecidos e alcançados pela graça salvadora em Cristo Jesus, tal perfil o colocaria no rol dos filhos de Deus. Porém, a salvação não vem pela religiosidade, piedade e boas obras. Ele precisava ter um encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado.      

  • A visão de Cornélio (vv.3-6)

3  Esse homem observou claramente durante uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse:

A palavra do profeta Jeremias se revela verdadeira na vida de Cornélio: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jr 29.13). Nenhuma vida e nenhuma busca sincera e verdadeira passa despercebida diante de Deus. Na hora nona, do cômputo judaico, ou seja, às quinze horas ou às três horas da tarde, Jesus expirou ali na cruz (Mc 15.34-37), Pedro e João subiram ao templo para a “oração da hora nona” e o coxo na porta do templo foi curado. Cornélio estava em sua casa observando a “hora nona da oração” quando teve esta visão de Deus (At 10.30). O ministério dos anjos se fez presente também no início da igreja, libertando Pedro da prisão (At 5.19), orientando Filipe (At 8.26) e agora falando com Cornélio. 

4  Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus.

Não é muito comum ter encontros com anjos, ainda que em visão. Daí o temor e tremor de Cornélio e tantos outros que vivenciaram essa experiência. Esses seres celestiais são mensageiros de Deus e estão sempre a seu serviço. A palavra do anjo confirma o que todos sabemos, que ninguém e nada do que fazemos passa despercebido diante de Deus. De um modo especial, orações e esmolas. A prática constante da oração expressa a importante e significativa atitude de buscar a Deus. Também é significativa a menção das esmolas, o que demonstra o valor que o nosso Deus dá àqueles que se importam e são solidários para com os carentes e necessitados.

5  Agora, envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro.
6  Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar.

O “processo da salvação” envolve os três “P”: o Pregador, a Palavra e o Perdido (ou Pecador). O perdido era Cornélio. Bem que os anjos gostariam de ser pregadores do evangelho, mas essa tarefa e missão foi delegada a nós humanos, servos de Deus. Pedro foi o pregador escolhido e ele tinha a palavra de Deus a ser  transmitida a Cornélio. Assim sendo, este personagem tão relevante deveria ser acionado ali em Jope para que viesse abrir as portas do evangelho naquela vida, família e comunidade, conforme a palavra de Jesus: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” (Mt 16.19)

  • Obedecendo a visão (vv.7-8)

7  Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus domésticos e um soldado piedoso dos que estavam a seu serviço
8  e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope.

Vale ressaltar a reação de Cornélio à visão angelical. Ele não teve dúvida de que aquela experiência foi perfeitamente real. Também, não teve receio de compartilhar com os seus dois servos e com o soldado da comitiva. Chama a atenção, também, o fato dele ter contado toda a visão e não apenas os orientado a chamar e trazer o apóstolo. Provavelmente sua intenção fora a de abastecê-los de informação capaz de convencer Pedro a atender ao chamado. Entretanto, o Espírito Santo já estava incumbido de providenciar esse convencimento.

  • A visão de Pedro (vv.9-16)

9  No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar.

A cidade de Jope situava-se a cerca de 51Km (em linha reta) ao sul de Cesaréia. Enquanto a comitiva estava a caminho, Pedro cumpre sua disciplina de oração da hora sexta ou meio-dia e, para isso, subiu ao eirado ou terraço. Daniel orava três vezes ao dia (Dn 6.10), talvez na hora terceira (9h), na hora sexta (12h) e na hora nona (15h). Talvez isso fosse uma prática comum entre os judeus e Pedro a observava. O fato é que quando se busca a Deus, com frequência e anseio de estar na sua presença, algo acontece.

10  Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase;

Não era sem razão que Pedro estava com fome; era chegada a hora de almoçar. Bom para ele que sendo visitante naquela casa tinha quem lhe preparasse uma boa refeição enquanto podia se dedicar a oração.

11  então, viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas,
12  contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu.
13  E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come.

Não, não mesmo! Pedro não estava delirando por estar faminto! Era Deus mesmo querendo revelar-lhe alguma coisa em visão. Na sua experiência pregressa de pescador, Pedro estava acostumado a ver redes sendo lançadas para o alto, ao mar e, depois, sendo puxadas com nenhum, poucos ou muitos peixes. Porém, não lhe era nem um pouco familiar aquela visão divina de um lençol sendo baixado à terra com tal variedade e representatividade da fauna: quadrúpedes, que andam sobre suas quatro patas; répteis, que rastejam; e, aves que voam. Não há qualquer referência à cor deste lençol, já que isso não tinha importância; porém, desde a primeira vez que tive contato com essa história, me vem à mente a ideia de um lençol branco. Talvez por conta do contexto da voz falando de purificação. Além da imagem, Pedro ouve uma voz que se dirige diretamente e nominalmente a ele: “Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Em outras palavras: Pedro, você está com fome e eu te trouxe alimento com fartura. Vá em frente, prepara o teu almoço e come!

14  Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda.

A primeira constatação é a de que Pedro entendeu que Deus estava falando com ele, quem sabe para o testar. Na verdade, era para o ensinar algo muito além de hábito ou restrição alimentar. A instrução divina sobre ingestão de alimentos vem de longe. Depois do dilúvio o Senhor disse a Noé e a seus filhos: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.” (Gn 9.3). Entretanto, os judeus sabiam perfeitamente que a lei de Moisés estabeleceu claras restrições quanto a determinados animais que vivem na terra, nas águas, bem como a aves e insetos, os declarando imundos ou impuros e impróprios para se comer (Lv 11; Dt 14). A questão não era apenas de impureza cerimonial, mas sanitária, de saúde pública – “Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda alma vivente que se move nas águas, e de toda criatura que povoa a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo e entre os animais que se podem comer e os animais que se não podem comer.” (Lv 11.46-47). Pedro e os demais judeus levavam muito a sério essa lei mosaica. Eles não apenas se consideravam o povo de Deus, um povo santo com uma “alimentação santa”, como consideravam os gentios gente “imunda” e, portanto, não se misturavam e nem comiam com eles.

15  Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou não consideres comum.
16  Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.

Qualquer tentativa de interpretar essa purificação divina, aqui mencionada, como uma ressignificação da lei mosaica, liberando para ingestão tudo o que era estabelecido como imundo, deve ser vista como mera especulação ou equívoco. A questão é bem outra, isto é, tem a ver com a inclusão de todos os povos, tribos, raças e nações na Nova Aliança da Graça de Deus. É o cumprimento da promessa de Deus a Abraão: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos.” (Gl 3.8; ver tb Gn 12.3; At 3.25). E Isaías profetizou: “Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” (Is 49.6). Era chegada a hora de Pedro, dos demais apóstolos e da igreja judaica abrirem a mente, o coração e os braços para receberem e acolherem a todos aqueles que eram alvos da graça divina.

Parece que para Pedro se dar conta as coisas precisavam acontecer três vezes. Ele negou Jesus três vezes (Lc 22.54-62), Jesus o perguntou três vezes se ele o amava (Jo 21.15-17). Porém, Samuel também foi chamado por Deus, por três vezes (1Sm 3.8). Há outros casos interessantes de uma terceira vez (1Rs 18.34; 2Rs 1.13; Mt 26.44; Mc 14.4; Lc 23.22).

  • A chegada da comitiva (vv.17-18)

17  Enquanto Pedro estava perplexo sobre qual seria o significado da visão, eis que os homens enviados da parte de Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam junto à porta;
18  e, chamando, indagavam se estava ali hospedado Simão, por sobrenome Pedro.

O lençol foi recolhido e verifica-se que Pedro ainda estava perplexo, tentando entender o significado de tudo aquilo. É interessante como a revelação divina é gradativa e progressiva; como Deus vai preparando as pessoas, respeitando o tempo de cada indivíduo. Enquanto isso, a comitiva vai indagando e chegando até à casa onde Pedro estava hospedado.

  • A orientação do Espírito (vv.19-20)

19  Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram;
20  levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.

Talvez agora, algum tempo depois, um pouco menos perplexo e mais pensativo, Pedro continuava aguardando as respostas. Se ele perdeu o apetite ou almoçou, não sabemos. Então, o Espírito Santo se dirige diretamente a ele passando mais algumas instruções. É curioso que essas novas instruções avançam um pouco mais, mas não elucidam toda a situação. Pedro é convocado a acompanhar aqueles estranhos, depositando confiança plena na condução divina. O grande desafio de ser um seguidor de Cristo é o de se sujeitar à sua vontade e obedecer ao seu comissionamento, mesmo sem ter a visão completa da situação, aprendendo dia a dia a viver na sua dependência.

  • O encontro de Pedro com a comitiva (vv.21-23)

21  E, descendo Pedro para junto dos homens, disse: Aqui me tendes; sou eu a quem buscais? A que viestes?

O Espírito de Deus já havia preparado Pedro para aquele encontro. Assim, quando ele vê ou escuta aquela movimentação toda junto à entrada da casa de Simão, o curtidor, tratou de descer e se apresentar aos homens enviados pelo centurião Cornélio. Era chegada a hora dele saber o que estava acontecendo, então se apressou em lhes perguntar o motivo da vinda deles.

22  Então, disseram: O centurião Cornélio, homem reto e temente a Deus e tendo bom testemunho de toda a nação judaica, foi instruído por um santo anjo para chamar-te a sua casa e ouvir as tuas palavras.

Ao ouvirem a indagação de Pedro, parece que aqueles homens nem tiveram a preocupação de se apresentarem; se o fizeram Lucas foi suscinto no registro omitindo essa parte. A resposta da comitiva foi direta ao ponto, ressaltando as virtudes do seu senhor e sintetizando a experiência incomum que ele teve. Como servos de Deus também devemos focar e apresentar o Senhor que nos enviou ao mundo, bem como sua mensagem.

23  Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua companhia.

Pedro sentia-se bem à vontade, na casa de Simão, acolhendo os viajantes e hospedando-os. A viagem foi cansativa; era hora de descansar, se alimentar e conversar um pouco. No dia seguinte Pedro partiu com eles rumo a Cesaréia. Vale destacar o cuidado da igreja ou dos irmãos ali em Jope, enviando ou se voluntariando a fazer companhia a Pedro naquela missão. Estes eram judeus adiante denominados de “fiéis que eram da circuncisão” (At 10.45).


Veja também:
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

A ressurreição de Dorcas (At 9.36-43)

Introdução

Pode-se comparar esse milagre com aquele outro realizado pelo Senhor Jesus, em que foi ressuscitada a filha de Jairo, segundo o registro de Lucas 8.41-56. Lucas continua a mostrar como até mesmo os mais poderosos milagres de Jesus foram reeditados no ministério de seus seguidores. Essa reedição, entretanto, era efetuada em seu nome e de conformidade com as suas promessas (ver Jo 14.12), através do poder do seu Santo Espírito. Tais milagres, por igual modo, demonstravam a autoridade da Igreja Cristã, delegada pelo Senhor Jesus, e davam a entender o derretimento do judaísmo. A cidade de Jope, que aqui aparece, modernamente se chama Jafa, um bairro da cidade de Tel-Aviv.

1. Dorcas, a discípula amada (vv. 36-37; 39b)

36   Havia em Jope uma discípula por nome Tabita, nome este que, traduzido, quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia.
37  Ora, aconteceu, naqueles dias, que ela adoeceu e veio a morrer; e, depois de a lavarem, puseram-na no ce
náculo.

“Tabita” é a forma aramaica do vocábulo grego “Dorcas” (nome internacional). Ambas as palavras significam gazela ou antílope. Esta senhora, mui provavelmente, era conhecida por ambos os nomes. Isso parece indicar-nos como a cidade de Jope havia sofrido diversas influências da cultura helênica, embora ficasse a curta distância de Jerusalém (cerca de 60 Km, em linha reta). Era uma discípula ou seguidora de Jesus, uma cristã, que se sobressaía pelas boas obras e doação de esmolas que não apenas era um serviço piedoso, mas também necessário como serviço social. Não sabemos se ela era solteira, casada ou viúva. Se fosse casada é de estranhar que seu marido não tenha sido mencionado em toda a narrativa. Parece que era uma pessoa que tinha recursos financeiros pois se tornou notável pelas suas boas obras e esmolas que fazia. Usava o ofício de costureira para servir a comunidade carente, sendo as viúvas as mais beneficiadas pelas suas caridades (v. 39b).

Para tristeza da comunidade, ela adoeceu e veio a morrer. Vale ressaltar que até mesmo servos de Deus fiéis e atuantes também adoecem, nem sempre são curados apesar da oração e clamor da família da fé, e morrem. Tal como ocorria entre muitas nações, era costumeiro, entre os judeus, lavar os cadáveres. Era colocado em um cenáculo antes do sepultamento.

2. O último recurso (vv. 38-39)

38  Como Lida era perto de Jope, ouvindo os discípulos que Pedro estava ali, enviaram-lhe dois homens que lhe pedissem: Não demores em vir ter conosco.
39  Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas.

Toda essa atividade, em prol de Dorcas, a ponto de continuarem esperançosos, mesmo depois de sua morte, e a despeito do poder inexorável da morte, mostra-nos o quão profundamente aquela mulher crente deve ter sido amada e respeitada pelos irmãos de Jope. Pedro representava, para elas, a esperança de que Deus nos confere, mesmo em face da morte; e não foram tardios em se apegarem a essa esperança. Pedro foi chamado lá em Lida, a cerca de 16Km de Jope, atendeu àquele apelo e foi com eles. Ele já havia visto ao Senhor Jesus, vivo após ter estado morto, e a sua fé era suficientemente firme. Fora também testemunha da ressurreição de várias pessoas, pelo Senhor Jesus. A cena que envolveu a Pedro no cenáculo era de partir o coração.

A morte não deveria e não deve ser encarada como uma tragédia, um mal irreparável. Entretanto, a dor daquela súbita separação era mais do que podiam suportar. A pergunta que não quer calar é: – Se morrermos agora, exatamente neste momento da nossa vida, a comunidade sentirá a nossa falta? Aquilo que fazíamos deixará um vazio na comunidade?

Há, pelo menos, nove casos de ressurreição registrados na bíblia, além da própria ressurreição de Jesus, sendo 3 casos no Antigo Testamento e 6 no Novo Testamento, conforme mostrado abaixo. Isto mostra o quão raro é esse milagre. Temos aqui o registro do primeiro caso através dos apóstolos.

  1. O filho da viúva de Sarepta  (1Rs 17.17-24 – Elias)
  2. O filho de uma mulher sunamita  (2Rs 4.32-37 – Eliseu)
  3. Homem que caiu sobre os ossos de Eliseu  (2Rs 13.20-21)
  4. O filho da viúva de Naim  (Lc 7.11-15 – Jesus)
  5. A filha de Jairo  (Lc 8.41-42, 49-55 – Jesus)
  6. Lázaro, irmão de Marta e Maria (Jo 11.1-44 – Jesus)
  7. Inúmeros cadáveres na morte de Jesus  (Mt 27.50-53)
  8. Dorcas ou Tabita (At 9.36-42 – Pedro)
  9. O jovem Êutico  (At 20.9-10 – Paulo)

3. O milagre da fé (vv. 40-41)

40  Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pondo-se de joelhos, orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se.
41  Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva.

Pode-se observar o paralelismo entre esta cena, em que Pedro tirou todos para fora da sala, e o que o Senhor Jesus fez, no caso da ressurreição da filha de Jairo (Lc 8.51). O mesmo modus operandi do Mestre é reeditado aqui pelo aluno. Pedro era homem de fé e poder, e sabia o que o Senhor Jesus podia fazer por intermédio dele, mas não queria quaisquer mentes duvidosas, céticas e meio-cegas ao seu redor, nem mesmo aquelas mentes que estavam vencidas de tristeza. Tinha mui importante tarefa a cumprir, e precisava que os canais de comunicação com as forças celestes estivessem totalmente desimpedidos.

Há três particularidades que devemos destacar quanto ao que Pedro fez:

1º) Pedro agiu privadamente – Não desejava para si qualquer glória humana, mas, acima de tudo, não queria que houvesse qualquer interferência no poder que estava prestes a transferir para aquele corpo morto.

2º) Pedro agiu mediante o poder da oração – Ele orou para aquele que é Deus dos vivos, e não dos mortos. Na realidade, se Deus seria o realizador daquele prodígio, este não seria de forma alguma difícil para o Senhor.

3º) Pedro se utilizou da palavra revestida de poder, aquela palavra que o Senhor Jesus lhe ensinara e inspirara a usar, dando-lhe, no princípio, exemplo de sua atuação, mediante grande multidão de incidentes.

4. O testemunho vivo (v. 42)

42  Isto se tornou conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor.

Podemos sugerir e enumerar alguns motivos, pelos quais aquele milagre foi operado:

1º) Deus simplesmente teve compaixão daquelas viúvas que choravam a morte de Dorcas e a restituiu à presença delas. Deus, pois, pode permitir um milagre por essa mera razão, porquanto o Senhor é supremamente misericordioso.

2º) Dorcas ainda tinha alguma coisa a realizar; porquanto, se ela houvesse terminado a sua missão, Deus não a teria enviado de volta, nem mesmo para agradar àquelas viúvas. Portanto, devemos viver cada dia do tempo que nos está determinado; e esperemos fazê-lo tão piedosamente quanto Dorcas.

3º) Porém, acima de tudo, havia a questão da glória de Cristo, que redundaria de tudo isso; e, através da exaltação de sua glória, muitos haveriam de ouvir o que acontecera e crer em Jesus. Foi o que aconteceu ali. Dificilmente se poderia impedir que tal história se espalhasse. Assim é que, não somente os habitantes de Jope, mas todas as vilas e aldeias em redor, também souberam da extraordinária ocorrência.

5. Pedro, hospedado pelo curtidor (v. 43)

43  Pedro ficou em Jope muitos dias, em casa de um curtidor chamado Simão.

A ocupação nos curtumes, por causa do contato com corpos mortos de animais, era considerada imunda, sendo que aqueles que praticavam esse meio de vida tinham de viver separados do resto da comunidade. É significativo que Pedro não apenas se associou, mas também se hospedou com um curtidor, em sua própria casa, o que mostra que não se aferrava a todos os estritos preconceitos que havia entre os judeus. No entanto, estando ali, deixou escapar alguns de seus escrúpulos judaicos ao recusar-se a comer certas coisas que eram proibidas pela lei cerimonial judaica.

Foi no pátio do curtidor que ele recebeu a visão que o faria repensar seu relacionamento com não judeus, ao mesmo tempo que aprendia que os gentios podem e devem ser admitidos como membros da Igreja Cristã com plenos privilégios, contanto, naturalmente, que se arrependam e confiem em Cristo. De modo geral, poderíamos afirmar que a permanência de Pedro na casa de Simão, o curtidor, foi muito benéfica, embora ainda tivesse de passar bastante tempo até que esse apóstolo aceitasse abertamente essas novas revelações (Gl 2.11-14), pelo menos na prática, quando não na teoria. “A hospedagem com o curtidor foi um passo no caminho de comer com os gentios” (Furneaux)

A cura de Enéias (At 9.32-35)

Introdução

A narrativa de Lucas, neste ponto, retorna à história da expansão do Evangelho, através da Judeia, pelo ministério de Pedro. Pedro foi mencionado pela última vez em Atos 8.25, quando, na companhia de João, voltou de Samaria a Jerusalém. Quando se desencadeou a “grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” todos foram dispersos, exceto os apóstolos que permaneceram em Jerusalém. Agora, porém, somos informados que Pedro envolveu-se em um ministério itinerante através da Judéia, território que com tanto êxito fora evangelizado pelo diácono Filipe (At 8.40).

A cura de Enéias (At 9.32-35)

32   Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitavam em Lida.

Não temos dúvida de que o ministério itinerante de Pedro incluía a confirmação e fortalecimento dos novos cristãos, uns oriundos de Jerusalém, que haviam sido dispersos por causa da perseguição, outros que receberam o Evangelho ali mesmo nas suas cidades. Lida, para onde Pedro se dirigiu, era uma cidade na Judeia, situada na estrada entre Jerusalém e Jope, esta última no litoral do Mar Mediterrâneo.

Pedro desceu intencionalmente até esta cidade com o fim de se encontrar com os “santos” que ali habitavam. “Santos” é um termo comum nos escritos de Paulo, em referência aos crentes. Paulo dirigiu certo número de epístolas aos “santos” em Cristo, fazendo alusão aos crentes coletivamente (Rm 1.7; 15.25; 1Co 1.2; 6.1, 2; 2Co 1.1; Ef 1.1 e Fl 1.1). No Livro de Atos, esse vocábulo é usado exclusivamente neste nono capítulo, nos versículos 13, 32 e 41, como também na passagem paralela de Atos 26.10. Os crentes ligados ao Santo e Justo (At 3.14), separados para Deus e batizados em um só Espírito, são santos (1Pe 2.9).  

33  Encontrou ali certo homem, chamado Enéias, que havia oito anos jazia de cama, pois era paralítico.

Nada sabemos com respeito a esse homem, Enéias, exceto aquilo que é dito aqui: um paralítico, há oito anos atrelado a uma cama.

34  Disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito. Ele, imediatamente, se levantou.

Pode-se comparar essa narrativa a um episódio similar, da cura de um paralítico, pelas mãos do Senhor Jesus, conforme Lucas 5.18-26. Apesar da instrumentalidade de Pedro, o poder do Senhor Jesus transparece por detrás dessa cura “Jesus Cristo te cura”. Assim se manifestava a realidade da vida ressurreta de Jesus, bem como a continuação de seu poder entre os homens, por intermédio do seu Espírito.

Durante oito anos, Enéias, o paralítico, tivera de depender da ajuda prestada por outras pessoas, a fim de arrumar o seu leito e fazer outras coisas corriqueiras, próprias da vida diária, que até mesmo uma criança poderia fazer sozinha. Mas agora, uma vez libertado de sua enfermidade, podia cuidar de si mesmo. Quão belo é contemplar alguém, que até bem pouco estava aprisionado por alguma algema física, que tanto o maltratava, inteiramente liberto e curado.

Os milagres efetuados pelo Senhor Jesus eram numerosos e sempre humanitários. Embora o Senhor também houvesse feito curas para dar certas lições objetivas, sem dúvida alguma também curou simplesmente porque desejava ver as pessoas livres de suas enfermidades, simplesmente porque sentia compaixão por elas. Ora, sendo Cristo o Salvador do mundo, desejava curar-nos de toda a enfermidade, sobretudo da enfermidade da alma, que se traduz numa palavra – o pecado – a fim de que nossas almas possam ser libertadas de suas corrupções e enfermidades, sendo totalmente restauradas a Deus. Em todos os sentidos, pois, Cristo foi o Grande Médico, e o mundo inteiro estava e continua necessitando de seus serviços.

35  Viram-no todos os habitantes de Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.

Nada pode substituir a fé, mesmo porque as verdades bíblicas devem ser aceitas pela fé. É o que Pedro diz em 1Pedro 1.8 “a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória,”. Jesus confirma o valor da fé quando diz a Tomé: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20.29). Entretanto, as evidências do poder de Deus não são para substituir a fé, pelo contrário, servem como sinal para os incrédulos, e de conforto para os salvos. No Livro de Atos, o binômio “sinais x pregação” serviam de testemunho convincente para a conversão de muitas almas. Foi o que aconteceu ali em Lida e se estendeu a Sarona (ou Sarom). Sarona era uma planície que se estendia por cerca de 80 km ao longo da costa marítima, de Jope a Cesaréia e 14 a 16 km de largura. O próprio nome, Sarona, significa “planície”, em aramaico e hebraico. Trata-se de uma das maiores e mais férteis planícies da Palestina (Is 33.9 e 65.10)

A conversão de Saulo-Paulo (Atos 9.1-19)

Introdução

Paulo, apóstolo enviado aos gentios, é tão proeminente e importante, para que se compreenda a totalidade do movimento cristão, que merece comentários exclusivamente sobre ele. Por conseguinte, torna-se relevante responder aqui a três perguntas: Quem era Saulo-Paulo? O que ele fazia contra a igreja? O que aconteceu na sua conversão?

1. BIOGRAFIA DE SAULO-PAULO (PARCIAL)

Quem era Saulo-Paulo?

1.1 Fontes de Informação

Sabe-se muito mais acerca do apóstolo Paulo do que sobre qualquer outro personagem apostólico. Nosso conhecimento sobre esse apóstolo e o seu ministério é praticamente tudo quanto se sabe acerca do desenvolvimento do Cristianismo, durante aqueles dias. Fora de suas próprias epístolas e do livro de Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento temos apenas uma referência adicional a ele, a saber, em 2Pedro 3.15, onde se lê: “…O nosso amado irmão Paulo…”. A fonte primária de informação, portanto, é o livro de Atos, a fonte secundária de informação são as suas epístolas e as alusões incidentais que ele faz a si mesmo e às suas viagens.

1.2 Sua Origem

Nossos conhecimentos sobre os primeiros anos de sua vida são escassos. Desde o seu nascimento (cerca de 5DC) até o seu aparecimento, em Jerusalém (cerca de 32DC), como o perseguidor dos Cristãos, possuímos informações meramente esparsas, parte das quais não passa de conjectura. Sabemos, contudo, que ele era hebreu (2Co 11.22; Rm 9.1-5; Fp 3.5), nasceu em Tarso, “..cidade não insignificante da Cilícia..” (At 21.39; 22.3); foi circuncidado ao oitavo dia (Fp 3.5), tendo sido criado em Jerusalém (At 22.3).

Não se sabe qual o ano do nascimento de Paulo; porém, quando do apedrejamento de Estevão (que ocorreu em cerca de 32 DC), lemos que Saulo era um jovem (At 7.58). É razoável supor, por conseguinte, que ele tenha nascido na primeira década do século I DC, sendo, assim, um contemporâneo mais jovem de Jesus, embora não haja qualquer evidência de que ele tenha visto alguma vez o Senhor. E não é provável que o tenha visto, pois Paulo jamais se refere ao fato.

Ao nascer, o menino recebeu o nome de Saulo. “Saulo é a versão grega do nome Chaul, em português Saul, de origem hebraica”. Significa “aquele que foi muito desejado”, “o que foi pedido insistentemente” ou “aquele que foi conseguido através de orações”. Paulo significa “pequeno”; mas também é possível que ele tenha recebido o nome de Paulo, simplesmente por ter som semelhante ao nome de “Saulo”. A partir de Atos 13.9, no início da sua primeira viagem missionária, ele passa a ser mencionado como Paulo: “Todavia, Saulo, também chamado Paulo,…”. Também é possível que o apóstolo tivesse um nome romano; mas, nesse caso, não deve tê-lo usado com frequência, portanto, não temos qualquer informação sobre qual seria esse nome. A alteração posterior de seu nome, de Saulo para Paulo, mui provavelmente foi apenas a adoção de seu apelido como nome próprio (At 13.9). Saulo é a forma semítica (hebraica); Paulo, a grega. Das muitas razões sugeridas para a introdução do nome grego, a mais aceitável é que Paulo, agora assumindo a posição de líder da missão gentílica, a forma grega de seu nome era mais apropriada e Lucas passa a designá-lo assim.

Paulo nasceu como cidadão romano (At 16.37; 23.27), provavelmente porque o seu pai também era cidadão romano (At 22.25-28). “Nascer livre” significava nascer romano de um pai que tinha a cidadania romana. Como seu pai obtivera a cidadania romana – se ela foi adquirida a dinheiro, por causa de algum serviço prestado ao estado, ou por outro meio qualquer – não sabemos dizê-lo. Porém, a cidadania romana conferia privilégios e uma proteção que serviram muito bem a Paulo durante seus empreendimentos missionários. Não fosse essa cidadania, e, naturalmente a proteção divina, Paulo teria sido morto ainda no começo de seu ministério. Isto ilustra como Deus usa as condições de cada pessoa. Nenhum dos outros apóstolos era capacitado, por formação e características próprias, a fazer o trabalho que Paulo fez (At 16.35-39; 22.25-29; 23.27).

Os progenitores de Paulo eram judeus muito religiosos,  pertencentes à seita dos fariseus, ou, pelo menos, fortemente influenciados por esse grupo (At 23.6) criaram o seu filho segundo o judaísmo mais estrito (At 26.4-5; Fp 3.5; Gl 1.14) e pertenciam à tribo de Benjamim (Fp 3.5-6).

Pouco se sabe sobre a família de Paulo. Por seus conselhos em 1Coríntios  7.7-8 pode se deduzir que ele era solteiro ou viúvo. De conformidade com o livro de Atos, Paulo tinha uma irmã e um sobrinho que viviam em Jerusalém (At 23.16). Em Romanos são ainda mencionados seus parentes Andrônico e Júnias (Rm 16.7) e Herodião (Rm 16.11).

1.3 Formação

O próprio Paulo aprendera uma profissão em Tarso, a de fabricante de tendas (At 18.3), posto que era costume entre os judeus ensinar alguma profissão.

O treinamento de Saulo, quanto à sabedoria secular ou profana, mui provavelmente incluiu a educação filosófica ordinária, a retórica e a matemática, sem falarmos em seus estudos sobre religião judaica (ver At 22.3; 26.4 e diversas referências, em suas epístolas, a questões como “coroas”, jogos atléticos, lutas etc., o que também servia de principais ilustrações entre os filósofos estoicos para ilustrar os princípios éticos). O fato é que o grego utilizado por Paulo, em suas epístolas, é uma excelente variedade do grego literário “koiné”, o que nos mostra quão bem alicerçada fora a sua educação na linguagem, além de ficar demonstrado o fato de que ele falava o grego como seu idioma nativo (At 21.37), provavelmente do mesmo modo que o hebraico (At 22.2; 21.40). Não se há de duvidar que esse apóstolo também conhecia o latim, e, antes do fim de suas viagens missionárias, já teria aprendido mais um ou dois idiomas (1Co 14.18). Em Jerusalém, Paulo estudou sob a orientação do grande Rabban Gamaliel, o velho, que era altamente respeitado como mestre (At 22.3).

O testemunho pessoal de Paulo, mostra que ele era indivíduo intensamente religioso, tendo-se destacado nessas questões acima de outros jovens de sua idade (At 22.3; Fp 3.6; Gl 1.14). Frequentava regularmente as sinagogas judaicas, antes de sua conversão, e, quando já atingira idade suficiente, tornou-se seguidor fiel do farisaísmo.

Sendo indivíduo religioso tão intenso, tinha alta consideração pelas Escrituras, e a sua conversão não alterou a sua atitude, embora talvez ele tenha compreendido que algumas passagens eram alegóricas e outras literais, conforme se vê em 1 Coríntios 10.1-11 e Gálatas 4.22-31. A erudição maior de Paulo fora adquirida em Jerusalém, naquela escola de fariseus, o que também contribui com algo para explicar o caráter geral de sua vida e de suas crenças, alicerçadas firmemente no judaísmo tradicional.

2. A CONVERSÃO DE SAULO-PAULO (At 9.1-19)

A história da conversão de Paulo é narrada em três lugares do livro de Atos (At 9.3-19; 22.6-21 e 26.12-18), havendo variações quanto aos pormenores, ainda que tudo concorde essencialmente entre si. No primeiro texto, Lucas descreve os acontecimentos; no segundo, Paulo testemunha perante os judeus; no terceiro Paulo apresenta sua defesa perante o rei Agripa e o governador Festo. Em suas epístolas Paulo não apresenta qualquer descrição desse acontecimento. Entretanto indica que algo de sobrenatural lhe aconteceu, além disso, ele reivindica revelação direta de sua mensagem, da parte de Cristo (1Co 15.3-8; Gl 1.15-16).

Ele afirma que o seu contato com Cristo não diferiu da experiência dos outros apóstolos, embora não o tenha visto em carne. Paulo assevera ter tido contato real, embora através de visão ou de experiência mística. Essa ocorrência tem todos os sinais de uma experiência mística, tais como o brilhante resplendor, o sentimento de temor, a purificação psicológica e a renovação espiritual, e até mesmo (conforme ocorre algumas vezes, nesses casos) alguma forma de incapacidade física temporal logo em seguida, o que, na experiência de Paulo, foi a cegueira. Portanto, parece lógico entendermos que Paulo teve uma experiência mística real, que o seu contato com algum poder mais alto foi genuíno, poder esse que o próprio Paulo define como Jesus; e grande parte da teologia e da experiência cristãs dependem dessa declaração. Naturalmente que essa não foi a única experiência mística de Paulo, pois ele também menciona algumas outras (tal como a visita ao terceiro céu, em 2Coríntios 12.1-6), e a sua pregação do evangelho e doutrina repousam essencialmente sobre essas diversas revelações recebidas diretamente do alto (Gl 1.11-17).

A condição original para alguém entrar no apostolado, entre outras, era que o candidato tivesse visto ao Senhor (At 1.21). Ora, essa exigência teve cumprimento na experiência de Saulo. Quando já apóstolo, refere-se Paulo por quatro vezes, em suas epístolas, à sua experiência de conversão. Essas passagens mostram que ele estava convicto da realidade objetiva da mesma, considerando-se como equivalente a “ver” a Cristo, o que o qualificava ao ofício apostólico (Gl 1.15-16; 1Co 9.1; 15.8 e 2Co 4.6). Paulo não estabeleceu distinção alguma entre essa forma de ver e aquelas que os demais apóstolos experimentaram, antes da ascensão, porquanto todas essas aparições foram do “Senhor ressurreto”. Paulo se autodenominava “apóstolo” ou “ministro” dos gentios (Rm 11.13; 15.16; 1Co 1.1; 4.10; 9.1-2; 15.9; 2Co 1.1; Gl 1.1 etc.)

As qualificações ou credenciais (ver 2Co 12.12) de um apóstolo incluem:

(i) Ter sido escolhido pessoalmente pelo Senhor ou pelo Espírito Santo (Mt 10.1-2; At 1.26; Gl 1.1);

(ii) Ter visto o Senhor e ser testemunha de sua ressurreição (At 1.21-22; 1Co 9.1);

(iii) Ser investido com dons miraculosos, os “sinais”, “prodígios” e “maravilhas” (At 5.15-16; At 19.11-12; Hb 2.3- 4).

A seguir, vejamos os detalhes da conversão de Saulo-Paulo, colocando lado a lado e comparando as três narrativas bíblicas sobre este assunto.

2.1 Saulo perseguidor (At 9.1-2)

O que ele fazia contra a igreja?

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.1 Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote
v.2  e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.
v.4  Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres,
v.5  de que são testemunhas o sumo sacerdote e todos os anciãos. Destes, recebi cartas para os irmãos; e ia para Damasco, no propósito de trazer manietados para Jerusalém os que também lá estivessem, para serem punidos.
v.12 Com estes intuitos, parti para Damasco, levando autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado.

Antes de sua conversão, sendo ainda jovem, Paulo perseguiu a igreja e munia-se da autorização de cartas oficiais para fazer isso. Portanto, é muito provável que pertencesse a uma família proeminente, ou, pelo menos, que se tenha distinguido extraordinariamente como líder e zeloso religioso, sendo por isso mesmo encarregado do que se pensava ser uma importante missão. Vejamos o que ele diz que fazia contra a igreja antes dessa sua missão em Damasco:

Atos 8.1, 3
1 E Saulo consentia na sua morte (Estevão). Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria.
3  Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere.

Atos 26.9-11
9  Na verdade, a mim me parecia que muitas coisas devia eu praticar contra o nome de Jesus, o Nazareno;
10  e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam.
11  Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia.

Gálatas 1.13
13  Porque ouvistes qual foi o meu proceder outrora no judaísmo, como sobremaneira perseguia eu a igreja de Deus e a devastava.

Saulo se tornara um intenso perseguidor de cristãos; entrava pelas casas, arrastando homens e mulheres para o cárcere, obrigava-os a blasfemar, assolava e devastava a igreja, tendo se tornado participante do assassinato dos irmãos, não poupando nem mesmo a mulheres.

Qual teria sido a razão de toda aquela fúria? (At 22.4; 26.9-11). A grande mensagem de Estevão, dada pelo Espírito Santo, onde ele fez toda a lei e os profetas culminarem em Cristo (At 7), o qual eles assassinaram, tornou-se um verdadeiro estopim (At 7.54).

2.2 Saulo atingido por Deus (At 9.3-7)

O que aconteceu na sua conversão?

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.3a Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco,v.6a Ora, aconteceu que, indo de caminho e já perto de Damasco,v.13b indo eu caminho fora,
 v.6b quase ao meio-dia,v.13a  Ao meio-dia, ó rei,
v.3b subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor,v.6c repentinamente, grande luz do céu brilhou ao redor de mim.v.13c vi uma luz no céu, mais resplandecente que o sol, que brilhou ao redor de mim e dos que iam comigo.
v.4a e, caindo por terrav.7a Então, caí por terra,v.14a E, caindo todos nós por terra,
v.4b ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?v.7b ouvindo uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?v.14b ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões.
v.5a Ele perguntou: Quem és tu, Senhor?v.8a  Perguntei: quem és tu, Senhor?v.15a  Então, eu perguntei: Quem és tu, Senhor?
v.5b E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;v.8b Ao que me respondeu: Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu persegues.v.15b Ao que o Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
 v.10a  Então, perguntei: que farei, Senhor? 
v.6 mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.v.10b E o Senhor me disse: Levanta-te, entra em Damasco, pois ali te dirão acerca de tudo o que te é ordenado fazer.v.16  Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda,
v.17  livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, v.18  para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.
v.7  Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém.v.9 Os que estavam comigo viram a luz, sem, contudo, perceberem o sentido da voz de quem falava comigo. 

É interessante observar o método que Deus usa para lapidar uma pedra bruta como Saulo.

2.3 Saulo levantado (At 9.8-15)

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.8a Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver.v.11a  Tendo ficado cego por causa do fulgor daquela luz, 
v.8b E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco.v.11b  guiado pela mão dos que estavam comigo, cheguei a Damasco. 
v.9 Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.  
v.10 Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. Disse-lhe o Senhor numa visão: Ananias! Ao que respondeu: Eis-me aqui, Senhor!
v.11  Então, o Senhor lhe ordenou: Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando
v.12  e viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista.
v.13  Ananias, porém, respondeu: Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém;
v.14  e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome.
v.15  Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; v.16  pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome.
  

O poder se aperfeiçoa nas fraquezas (2Co 12.10)

2.4 Saulo restaurado (At 9.17-19)

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.17  Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. v.18a  Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver.v.12  Um homem, chamado Ananias, piedoso conforme a lei, tendo bom testemunho de todos os judeus que ali moravam, v.13  veio procurar-me e, pondo-se junto a mim, disse: Saulo, irmão, recebe novamente a vista. Nessa mesma hora, recobrei a vista e olhei para ele.     
v.18b A seguir, levantou-se e foi batizado.v.14  Então, ele disse: O Deus de nossos pais, de antemão, te escolheu para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires uma voz da sua própria boca,
v.15  porque terás de ser sua testemunha diante de todos os homens, das coisas que tens visto e ouvido.
v.16  E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele.
 
v.19  E, depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido. Então, permaneceu em Damasco alguns dias com os discípulos.  
 v.17  Tendo eu voltado para Jerusalém, enquanto orava no templo, sobreveio-me um êxtase,
v.18  e vi aquele que falava comigo: Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho a meu respeito.
v.19  Eu disse: Senhor, eles bem sabem que eu encerrava em prisão e, nas sinagogas, açoitava os que criam em ti.
v.20  Quando se derramava o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, consentia nisso e até guardei as vestes dos que o matavam.
v.21  Mas ele me disse: Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.
 

Agora sim ele estava pronto para zelar pela causa divina.

Filipe e o eunuco etíope (Atos 8.26-40)

Introdução

Depois de seu ministério na cidade de Samaria, Filipe seguiu para a estrada de Jerusalém a Gaza, a fim de conduzir aos pés de Cristo o eunuco etíope. De conformidade com certa tradição, esse foi o começo da missão cristã no continente africano, pois esse homem eunuco, sendo um oficial político, tornou-se missionário cristão entre o seu povo.

Estamos diante de uma narrativa bíblica repleta de elementos ou aspectos surpreendentes, misteriosos e edificantes, que, por vezes, podem passar despercebidos numa leitura ligeira e superficial. Numa macro visão do texto, podemos dizer que há aqui, dentre outros, os seguintes elementos: (i)Intervenções sobrenaturais; (ii)Coisas incompreensíveis e misteriosas; (iii)“Pessoas improváveis”; (iv)Circunstâncias facilitadoras e inexplicáveis; (v)Atitudes determinantes.

Essa narrativa bíblica pode ser resumida nos seguintes quadros:

26  Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi.

|#1| Um anjo fala diretamente a Filipe, o comissionando para uma missão (At 8.26). Mais adiante, durante a realização da missão, o Espírito Santo o assiste, falando-lhe diretamente e o orientando quanto ao que deveria fazer (At 8.29). É a intervenção sobrenatural iniciando e conduzindo todo o processo, toda a missão!

|#2| Surpreendentemente, Filipe é remanejado de uma grande e exitosa campanha evangelística, em Samaria (At 8.5-8), para uma estrada deserta, sem mais detalhes ou explicações por parte do anjo (At 8.26).  No chamado divino não é raro ter que lidar com coisas incompreensíveis e misteriosas à mente e à lógica humanas. É simples assim! O que importa é obedecer!

|#3| Filipe, um diácono, é chamado e usado poderosamente por Deus, para missões evangelísticas em outras terras (Judeia e Samaria), enquanto os apóstolos, permaneceram em Jerusalém, naquele momento de perseguição aos cristãos (At 8.1). Filipe é um caso de “pessoa improvável” aos olhos humanos para a realização de missões tão relevantes. É assim mesmo que funciona o sacerdócio universal dos crentes em Cristo; dos regenerados, capacitados e enviados pelo Espírito Santo para realizar a obra de Deus aqui na terra!

|#4| O chamado divino é para ser cumprido no tempo de Deus, que detém o conhecimento e o domínio sobre todas as coisas. Moisés, quando chamado, argumentou e relutou com Deus, porém acabou obedecendo. Filipe não perdeu tempo, demonstrou obediência imediata: “Ele se levantou e foi.” (At 8.26b). São atitudes determinantes, como esta, que fazem toda a diferença, que constroem a história.

27  Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém,

28  estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías.

|#5| Um etíope, eunuco (um homem castrado – ver os 3 tipos de eunucos em Mateus 19.12), alto oficial, superintendente do tesouro da sua rainha, sendo um prosélito do judaísmo, foi adorar em Jerusalém (At 8.27).  Esse segundo e importante personagem, é a outra “pessoa improvável” desta narrativa bíblica. Certamente ele era uma pessoa importante na sua terra, porém, sendo um gentio, deve ter passado despercebido na sua passagem por Jerusalém. Entretanto, Deus o viu, bem como aos anseios do seu coração e providenciou um encontro de Filipe com ele, para anunciar-lhe a salvação em Jesus. Porque não basta a religiosidade, a boa intenção do coração, o interesse espiritual, a piedade e as boas obras, e o testemunho de vida do outro: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

29  Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o.

|#6| Este etíope anônimo, sendo um estrangeiro, estava viajando de volta à sua terra; e, no seu carro, ia lendo, em voz alta, as Escrituras do profeta Isaías (At 8.28). Seu interesse religioso era tal que tudo leva a crer que conseguiu adquirir uma cópia deste pergaminho. É curiosa a forma com que Filipe se aproximou do eunuco que, correndo ao lado do seu carro, o ouvia ler, sem ser impedido pelos seus prováveis seguranças. Portanto, são várias as evidências aqui de circunstâncias facilitadoras e inexplicáveis. Ele buscava o Deus de Israel, para saciar sua sede espiritual, mas acabou tendo um encontro com Cristo, o Messias prometido.

30  Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo?

31  Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele.

|#7| Vale destacar a determinação de Filipe, de se aproximar do eunuco. E, vale assinalar sua ousadia, não só de se aproximar daquele viajante estrangeiro e desconhecido, mas de adentrar no seu espaço e privacidade, e lhe dirigir a palavra (At 8.31). Atitudes determinantes e propositivas como esta podem gerar resultados tão positivos que compensam o destemor.

|#8| É notória a cordialidade e interesse do eunuco, explicitada ao responder à pergunta de Filipe e acolher, no seu carro, aquele também desconhecido que lhe apareceu do nada (At 8.31). É mais uma atitude para se colocar na conta das atitudes determinantes desta narrativa.

32  Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca.

33  Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada.

34  Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?

35  Então, Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus.

|#9| Quando Deus está no comando de todas as coisas, nada pode ser colocado na conta do acaso, pois, para Deus, não há acasos. A leitura que o eunuco fazia, em Isaías 53, foi mais do que providencial, propiciando que a conversa fosse iniciada ali e remetida a Jesus, aquele que havia sido profetizado, fora morto e ressuscitado para a redenção e justificação de todo aquele que crê (At 8.32-35). É mais uma daquelas circunstâncias facilitadoras e inexplicáveis que mostram a ação de Deus em parceria com a ação humana, através dos seus instrumentos e mensageiros.

36  Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?

|#10| O eunuco demonstra ter entendido e recebido a mensagem do evangelho e, resoluto, logo expressa seu desejo de completar o processo, sendo batizado (At 8.36). Não havia tempo a perder! A oportunidade era ali e naquela hora. Era mais uma atitude determinante de sua parte.

37  Filipe respondeu: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.

38  Então, mandou parar o carro, ambos desceram à água, e Filipe batizou o eunuco.

|#11| O texto não relata, mas certamente Filipe deve ter ficado positivamente impactado com o repentino questionamento do eunuco: “Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” (At 8.36). Sua atitude determinante foi a de deixar bem claro a condição para se receber o batismo com água: “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.37a). Isso porque o batismo é um símbolo externo, da fé interna.

|#12| Temos, na sequência, o ápice desta narrativa, quando o eunuco espontaneamente faz sua profissão de fé: “E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37b). Ele manda o carro parar e Filipe, o diácono, o batiza (At 8.38). Com a alternância dessas atitudes determinantes, de Filipe e do eunuco, temos o desfecho de tão abençoado e bem-sucedido encontro.

39  Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, não o vendo mais o eunuco; e este foi seguindo o seu caminho, cheio de júbilo.

|#13| O texto, que começou com intervenções sobrenaturais, nos dá a entender que se encerra da mesma forma, quando menciona o arrebatamento de Filipe pelo Espírito Santo (At 8.39).

|#14| O eunuco, não vendo mais a Filipe, seguiu o seu caminho, cheio de júbilo no coração (At 8.39). Desta forma, uma “pessoa improvável”  se tornou um cristão, após ser alcançado pelo poder do evangelho. Provavelmente se tornou o primeiro ou um dos primeiros missionários cristãos no continente africano.

40  Mas Filipe veio a achar-se em Azoto; e, passando além, evangelizava todas as cidades até chegar a Cesaréia.

|#15| Cumprida aquela missão, imediatamente Filipe, aquela “pessoa improvável”, foi remanejado para cidades próximas, onde retomou aquelas campanhas evangelísticas (At 8.40).

Resumindo: Em Filipe temos o exemplo do verdadeiro evangelista:

– É obediente ao mandato divino (At 8.26)

– É guiado pelo Espírito Santo (At 8.29, 39)

– Faz contato (At 8.30)

– Inicia a mensagem conforme a situação do ouvinte (At 8.35)

– Obtém a confissão antes de batizar (At 8.37).

– Não tem preconceitos e atende ao anseio do coração (At 8.36-39).

…………………..

Reflexão complementar:

Já que estamos tratando de evangelização, vale lembrar os sete princípios de ação sugeridos por Gavin Levi Aitken, extraídos do encontro de Jesus com a mulher samaritana, no Evangelho de João, capítulo 4 .

1º) Entrar em contato com as pessoas (aspecto social).

2º) Estabelecer um interesse comum (ponte).

3º) Despertar o interesse, quebrando barreiras (social, racial, religiosa etc.).

4º) Não dar tudo de uma só vez.

5º) Não condenar.

6º) Não desviar do assunto.

7º) Confrontar a pessoa diretamente, levando-a a uma definição.

Filipe, Pedro e Simão, o mágico (Atos 8.4-25)

1) A dispersão (vv. 4-5)

4   Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra.

A perseguição seguida da dispersão ajudou a espalhar a semente do evangelho que ia produzir uma colheita abundante. E, sempre tem sido assim. “O sopro do diabo ativa as chamas do evangelho”. O Senhor Jesus fizera a seus seguidores imediatos uma promessa (At 1.8), a qual não somente garantia o sucesso de sua missão, como também a extensão universal dela. O Evangelho já fora abundantemente apresentado em Jerusalém. A perseguição encabeçada por Saulo de Tarso, com a sanção das autoridades religiosas dos judeus, havia espalhado os cristãos por toda a Judéia, e, de fato, por toda a Palestina. Agora, a mensagem Cristã atingia Samaria, de conformidade com os termos expressos na Grande Comissão. Portanto, o resultado da perseguição foi o oposto daquilo que desejavam os perseguidores.

5  Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo.

Filipe era outro “diácono” (At 6.5) e “evangelista” (At 21.8), como Estevão, e não o apóstolo.

O território de Samaria atuou como uma espécie de primeiro degrau para um ministério em território puramente gentio e pagão. Os samaritanos eram descendentes de uma mistura do remanescente de Israel com estrangeiros que foram introduzidos na Samaria pelos conquistadores assírios quando as classes superiores foram levadas para o exílio (2Rs 17 – miscigenação). Sua religião era essencialmente judaica, porquanto observavam as mesmas festividades religiosas e professavam adorar ao mesmo Deus dos judeus, “Yahweh”; porém haviam feito seu centro de adoração na cidade e no monte Gerizim. O seu “cânon” das Escrituras, tal como no caso dos saduceus, consistia exclusivamente no Pentateuco, isto é, nos cinco livros de Moisés, os cinco primeiros da nossa Bíblia. A associação com os samaritanos era evitada pelos judeus (Jo 4.9). Considerando os judeus que os samaritanos eram mestiços raciais e religiosos, violentos preconceitos tiveram que ser vencidos antes da igreja poder se tornar realmente universal.

2) O poder do Evangelho (vv. 6-8)

6  As multidões atendiam, unânimes, às coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava.

7  Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam gritando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados.

8  E houve grande alegria naquela cidade.

Filipe, tal como Estevão, era homem dotado de grande poder espiritual, tendo recebido um ministério de confiança, dificilmente inferior ao dos próprios apóstolos. É mesmo possível que tanto Estevão como Filipe tenham realizado obras maravilhosas que ultrapassaram mesmo as de muitos dos doze. Filipe foi o missionário que abriu a trilha para o mundo exterior, libertando a Igreja Cristã de territórios estritamente judaicos. E essa trilha, mais tarde, foi transformada em uma grande estrada. Vemos em Samaria, como a mensagem genuína do Evangelho (“anunciava-lhes a Cristo”), pregada por Filipe, no poder do Espírito Santo, atraia os pecadores. Deus autenticou a mensagem de Filipe com milagres e estes sinais eram a prova de que Filipe era um mensageiro de Deus.

3) Os efeitos do Evangelho (vv. 9-13)

9  Ora, havia certo homem, chamado Simão, que ali praticava a mágica, iludindo o povo de Samaria, insinuando ser ele grande vulto;

10  ao qual todos davam ouvidos, do menor ao maior, dizendo: Este homem é o poder de Deus, chamado o Grande Poder.

11  Aderiam a ele porque havia muito os iludira com mágicas.

12  Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres.

13  O próprio Simão abraçou a fé; e, tendo sido batizado, acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres praticados.

Antes que Filipe chegasse a Samaria, um mágico chamado Simão fazia aquela gente crer que ele era alguma emanação divina. As pessoas, enganadas por seus truques, lhe atribuíam o Grande Poder. Parece, então, que o poder obviamente superior de Filipe, bem como os muitos milagres por ele praticados, eclipsaram a glória de Simão, e então, o próprio Simão “abraçou a fé” ou “creu” e foi batizado. Os samaritanos foram suficientemente sábios para reconhecer a diferença vital entre Simão e Filipe, milagre autêntico e ilusionismo, por isso mesmo, vinham em grande número receber a mensagem messiânica de salvação, que Filipe pregava.

Qual a diferença entre Milagre,  Mágica e Fraude?

O milagre é um fato acontecido, humana e naturalmente impossível de ser realizado. A mágica ou ilusionismo ou prestidigitação é a falsa impressão da ocorrência de algo, humana e naturalmente impossível, realizado através de técnicas e truques. A fraude ou falso milagre é a simulação de algo, humana e naturalmente impossível, previamente engendrado, com ou sem o auxílio de outrem, realizado com o fim de enganar. Os magos e encantadores de Faraó, com suas ciências ocultas ou por influência demoníaca, conseguiram reproduzir os três primeiros milagres de Moisés. Logo tiveram que admitir sua inferioridade e reconhecer que o poder que agia em Moisés era insuperável: “E fizeram os magos o mesmo com suas ciências ocultas para produzirem piolhos, porém não o puderam; e havia piolhos nos homens e no gado. Então, disseram os magos a Faraó: Isto é o dedo de Deus.” (Ex 8.18-19a).

Os samaritanos que creram foram batizados com água como sinal visível e público de que haviam abraçado a nova fé. Quão notáveis e poderosos devem ter sido os milagres operados por Filipe, ao ponto do próprio Simão ficar perplexo, embora ele mesmo já houvesse realizado muitos sinais prodigiosos. Todo esse episódio ilustra o extraordinário poder da igreja primitiva, em meio às massas do mundo antigo; e isso nos ajuda a entender melhor o tremendo impacto que o cristianismo exerceu sobre todas as culturas humanas de então. “Os milagres são joias das mãos de Deus, que lampejam com extraordinário brilho, a fim de atrair as mentes dos homens para longe deste mundo material, e as interpretações materialistas sobre a natureza da vida e da existência, desse modo, não os atraem mais”.

4) Visita apostólica confirmatória (vv. 14-17)

14   Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João;

15  os quais, descendo para lá, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo;

16  porquanto não havia ainda descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.

17  Então, lhes impunham as mãos, e recebiam estes o Espírito Santo.

Parece indiscutível que alguma forma de autoridade central era mantida pelos apóstolos, os quais, tanto dirigiam, como confirmavam os resultados dos trabalhos missionários, e que, de modo geral, eram os supervisores das atividades de toda a Igreja Cristã. Isso não subentende, necessariamente, que Filipe tenha sido mandado para Samaria, porquanto, apesar de tudo, implicava a liberdade individual de ação, que dependia exclusivamente da orientação dada pelo Espírito Santo. Porém, uma vez que se firmasse qualquer trabalho evangelístico, os apóstolos, como é evidente, tinham a responsabilidade de investigá-lo, de fortalecê-lo. Note-se como Barnabé, em ocasião posterior, embora não fosse apóstolo, realizou esse mesmo tipo de função (At 11.22).

Pedro e João foram enviados de Jerusalém com uma missão e um propósito específicos, definidos como a necessidade de proporcionar àqueles convertidos samaritanos o dom do Espírito Santo. João, filho de Zebedeu, que antes desejava pedir que caísse fogo do céu sobre os rebeldes samaritanos (Lc 9.54), foi a Samaria, a fim de ministrar uma bênção, numa benigna visitação celestial, e não de destruição. Esse é o Espírito de Cristo.  Havia necessidade de um “Pentecoste Samaritano”, não apenas para que aquela gente contasse com a sua própria plenitude da mensagem da graça, por meio de Cristo, mas também, para que houvesse uma clara demonstração, perante todos, de que os cristãos samaritanos eram crentes verdadeiros, não sendo inferiores, em qualquer sentido, aos crentes de Jerusalém. Talvez a nós pareça estranho que tal comprovação fosse necessária; porém, relembrando-nos das noções judaicas de superioridade espiritual, isso convence qualquer um da necessidade dessa medida.

Deve-se observar que o batismo com água não havia conferido, àqueles crentes samaritanos, o dom do Espírito Santo. Os apóstolos achavam óbvio que a fé daquelas pessoas era genuína. Portanto, impuseram-lhes as mãos e o Espírito Santo veio sobre eles. O significado desse acontecimento tem sido assunto de controvérsia.

No que diz respeito à outorga do dom do Espírito Santo, encontramos na história do Livro de Atos uma situação variada. Em primeiro lugar, ordinariamente o Espírito Santo era propiciado de modo inteiramente desligado do batismo. Não se pode estabelecer qualquer elo entre o batismo com água e a outorga do Espírito Santo, conforme algumas denominações evangélicas procuram fazer em nossos dias, senão vejamos:

(i) No trecho de Atos 2.4, vemos que o Espírito Santo não foi dado através de qualquer agência humana.

(ii) Atos 2.33 mostra-nos que o Cristo exaltado nos lugares celestiais é quem derramou de seu Espírito Santo.

(iii) Em Atos 9.17, Ananias, um discípulo ordinário, mediante a imposição de mãos, concedeu o Espírito Santo a Saulo de Tarso.

(iv) Em Atos 10.44, o Espírito Santo é visto a cair sobre gentios, espontaneamente, também sem qualquer intervenção humana.

Portanto, torna-se arbitrário selecionar este acontecimento para transformá-lo em norma de experiência cristã, e insistir que existe um batismo especial com o Espírito Santo que é concedido, após a fé salvadora, pela imposição de mãos, daqueles que já passaram por essa experiência. O significado desse acontecimento está no fato dessa gente ser samaritana. Eis aí o primeiro passo através do qual a igreja rompeu suas cadeias judias, indo na direção de uma comunhão realmente universal. A imposição de mãos não foi necessariamente para os samaritanos; mas foi necessária para os apóstolos, para que se convencessem completamente de que Deus estava realmente rompendo as barreiras do preconceito racial e incluindo essa gente mestiça dentro da comunidade da igreja. Não foi um novo Pentecostes, mas uma extensão do Pentecostes ao povo samaritano. “O Livro de Atos não descreve o batismo como algo que é completado pela imposição de mãos; o batismo não estava invalidado, os convertidos samaritanos, mediante a sua administração, tornaram-se membros da Igreja Cristã; a imposição de mãos não tinha por intuito completar supostamente o batismo, mas foi um acréscimo ao mesmo. E o trecho de Hebreus 6.2 certamente indica que essa adição já deveria ser conhecida em um período bem remoto.” (R. J. Knowling).

Muito se tem debatido com respeito ao motivo pelo qual Filipe não pôde realizar a imposição de mãos em seus próprios convertidos. O mais provável é que essa doação do Espírito Santo, ou de dons espirituais especiais, estivesse ordinariamente reservada ao ministério apostólico, embora houvesse exceções a essa regra, segundo se verifica no caso de Ananias e Saulo de Tarso (At 9.17).

5) O “sacrilégio” de Simão (vv. 18-25)

18  Vendo, porém, Simão que, pelo fato de imporem os apóstolos as mãos, era concedido o Espírito Santo , ofereceu-lhes dinheiro,

19  propondo: Concedei-me também a mim este poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo.

20  Pedro, porém, lhe respondeu: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus.

21  Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus.

22  Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração;

23  pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniquidade.

24  Respondendo, porém, Simão lhes pediu: Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes sobrevenha a mim.

25  Eles, porém, havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos.

É com base nessa circunstância da tentativa de Simão de adquirir, a dinheiro, o poder do Espírito Santo e os seus dons, que temos o moderno vocábulo “simonia”, palavra essa que assumiu, na passagem dos séculos, uma significação mais lata do que isso, indicando a compra ou venda de coisas sagradas ou espirituais, como perdão eclesiástico, ofícios eclesiásticos, posições ou prestígio nos círculos religiosos. Em Simão temos o exemplo de como é possível alguém ser “crente” porque percebe que o Evangelho é a verdade (ver Jo 2.23), porém, sem ser convertido pelo poder dessa verdade na própria vida.

É importante ressaltar que o “crer”, ou “abraçar a fé ou uma crença”, não significa necessariamente possuir a fé verdadeira e salvadora. Pode não passar de acreditar, de um assentimento ou aceitação mental de algo que se tomou conhecimento. É como Tiago diz: “Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem”(Tg 2.19). Tudo leva a crer que esse foi o caso de Simão; ele acreditou no que estava vendo, que era algo fascinante e superior ao que fazia, porém não havia nascido de novo, não se convertera a Cristo, não havia internalizado de forma visceral a fé autêntica e salvadora. A fé autêntica e salvadora não é mera aceitação mental de sinais e prodígios, ou de uma crença ou credo ou religião. Porém, é transformadora e revitalizadora de vidas e comportamentos.

Nem todos os que são batizados e entram para o rol de membros de uma igreja evangélica são verdadeiramente regenerados pelo Espírito Santo. Muitas podem ser as razões para alguém querer “abraçar a fé cristã”, inclusive, com motivação financeira, como, por exemplo, expandir sua clientela e negócio.

Com respeito a este texto bíblico podemos fazer as seguintes considerações finais:

1ª) Que Simão, o mágico, creu (v. 13) em alguma coisa, mas, pelo visto, não era renascido. Contudo foi batizado e incluído no rol dos discípulos.

2ª) Que Simão pensava ser o Cristianismo mais uma forma de magia, e que poderia obter, por dinheiro, o conhecimento dos seus mistérios ou um poder sobrenatural. Considerando que ele era um homem vivido e acostumado a manipular pessoas e situações, bem como pela reação do apóstolo Pedro, não nos parece que ele tenha incorrido num ato falho de infantilidade ou ingenuidade espiritual, típicos de um neófito na fé. Antes, porém, tudo leva a crer ter sido sua atitude algo premeditado e intencional, cujo o objetivo real não nos é revelado.

3ª) Que Pedro discerniu estar Simão, o mágico, ainda no caminho da perdição (v. 20), e o denunciou como quem não tinha parte nem sorte em Cristo.

4ª) Que Deus toma conhecimento dos pensamentos do coração (vv. 21-22; 1Sm 16.7).

5ª) Que um tal “crente”, professo, batizado, mas perdido, pode arrepender-se e orar a Deus implorando perdão.

6ª) Que podemos interceder pelos iníquos arrependidos.

Pedro e João ficaram, logo a seguir, ocupados em um vigoroso programa evangelístico que os levou por muitas aldeias da Samaria. Depois, tendo completado sua missão, retornaram a Jerusalém.

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