Arquivo

Archive for the ‘Outros’ Category

Cristão e Política

Cristão e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se? Participar ou Distanciar-se?

Introdução

O assunto CRISTÃO ou IGREJA e POLÍTICA recebe os holofotes da mídia e ganha ainda mais notoriedade na sociedade em geral quando um candidato disputa as eleições presidenciais em 2018, no Brasil, e sai vencedor, empunhando a bandeira de “Deus acima de todos”. Não somente o ingrediente religioso, acompanhado do discurso conservador em defesa da família e dos usos e costumes da sociedade atraíram a atenção e impactaram a opinião pública e da grande mídia, mas, também, o uso maciço das redes sociais e da internet como elemento de convencimento para o voto. Os profissionais do marketing eleitoral, os partidos e políticos, ou seja, a sociedade brasileira como um todo, se surpreendeu perplexa e se deu conta de que dispor de muito dinheiro e tempo na grande mídia televisiva e radiofônica não são mais fatores determinantes para se ganhar uma eleição.

As redes sociais, através da internet, têm sido o palco de manifestações profusas, de discussões e debates candentes dos mais variados assuntos e temas, inclusive os de natureza política, isto é, tornou-se um verdadeiro espaço democrático de divulgação e debate de ideias. Para aqueles líderes alinhados com alguma ideologia totalitária e para aquelas autoridades públicas que não desejam que os seus malfeitos venham a público, as redes sociais se tornaram o inimigo da vez. Para aqueles governantes que compravam a grande mídia para divulgarem apenas o que lhes interessava, as redes sociais se tornaram o adversário a ser silenciado. Assim, viveremos tempos difíceis de combate feroz às redes sociais, à liberdade de expressão e manifestação, quer nas redes sociais, quer nos púlpitos das igrejas. Certas autoridades públicas brasileiras parecem estar muito preocupadas agora com a qualificação e legislação para punição de um tal “abuso do poder religioso”, como se pastores e padres pudessem ter afetado o resultado do pleito, convencendo ou coagindo seus fiéis a votarem no candidato que ganhou as últimas eleições presidenciais. Naturalmente que repudiamos qualquer ação neste sentido que possa ser exercida por  parte da liderança de uma igreja. Entretanto, sem dúvida, estão procurando brechas para poderem controlar o que é dito nos púlpitos das igrejas: política, homossexualidade etc.! Por que tais autoridades nunca se preocuparam com o discurso ideológico da esquerda sindicalista nas portas das fábricas e das empresas? E com a propagação ideológica da esquerda nas escolas e universidades? Por que não apoiam iniciativas como “Escola Sem Partido”? Por que não se dedicam mais a coibir o patrocínio de candidatos por gente fora da lei e sua investida nas comunidades carentes?

Reafirmamos aqui que a relação do Cristão com o Estado é diferente da relação da Igreja com o Estado. Sendo o Estado laico não há que se pensar em interferência direta da instituição Igreja na Instituição Estado. O inverso também não é aceito. Assim sendo, qual deveria ser o papel do cristão na política? Deve pronunciar-se ou silenciar-se? Participar ou distanciar-se?

1. Pronunciar-se ou Silenciar-se?

Há duas realidades relevantes e irrefutáveis na pátria brasileira que não podem ser desconsideradas numa abordagem como esta. A primeira é a crescente disponibilização das ferramentas virtuais vinculadas à internet, cada vez mais acessíveis a todos os cidadãos, de todas as faixas de renda, principalmente através dos aparelhos celulares (smartphones), com planos de dados mais baratos, resultante da grande competição entre as operadoras. A segunda é o crescimento da população evangélica que iremos abordar no final deste artigo. O acesso às notícias e informações disponíveis e que circulam no mundo virtual e o crescente número de usuários estão mudando o nosso cotidiano. Não é mais concebível ficar indiferente aos acontecimentos que nos chegam a cada instante, inclusive ao que acontece com as figuras públicas e com as autoridades constituídas, porque tudo isso produz consequências que afetam a todos.

Jesus nos deu o exemplo se pronunciando sobre temas “religiosos”, tais como, jejum, guarda do sábado, oração, falsos profetas, ressurreição, dízimo, escatologia, vida eterna, galardão no céu, Espírito Santo, dentre outros. Porém, também se pronunciou sobre diversos temas que dizem respeito ao cotidiano de qualquer pessoa, tais como: amar, praticar a caridade, ansiedade, julgamento alheio, perdão, ambição, senhores e servos, justiça, matar, adulterar, revidar, acúmulo de bens e riqueza, divórcio, pagamento de tributos, salário, dentre tantos outros.

É certo que não podemos viver alienados dos acontecimentos que nos cercam, inclusive na esfera política, nem vivermos como que dividindo e separando aquilo que supostamente é “espiritual” do que é “material” e focando somente o espiritual. Entretanto, para o cristão exercer esse direito e dever de pronunciar-se, deve levar em conta alguns aspectos, tais como:

a) É preciso buscar um crescimento integral e equilibrado em todas as dimensões da existência humana: física, mental, social e espiritual (Lc 2.52).

b) Um cidadão dos céus, precisa pensar nas coisas lá do alto, não nas daqui da terra (Cl 3.2). Isso significa que o seu foco e missão vão muito mais além das coisas efêmeras desta vida. Entretanto, ele foi chamado para ser sal da terra e luz do mundo, isto é, para afetar positivamente o seu entorno.

c) Um cristão ingênuo, despreparado, sem sabedoria e sem o conhecimento das coisas desta vida, além de dispor de reduzidas condições para agregar valor à sociedade, corre o risco de ser enganado e usado por pessoas vis e inescrupulosas, inclusive no campo da política partidária.

d) É preferível silenciar-se a pronunciar-se de forma equivocada ou inadequada. Ao invés de contribuir para elevar e dignificar a causa do evangelho e o bem comum, manchará a imagem da igreja. Se um cristão for se pronunciar sobre algum assunto que o faça com sabedoria e conhecimento de causa, usando os melhores argumentos e tendo a sensibilidade necessária ao se expressar.

Enfim, sendo o cristão um cidadão da pátria deve praticar uma cidadania responsável, exercendo os seus direitos constitucionais e legais, expressando-se de forma respeitosa, dentro dos limites da lei, com base em fatos e dados verdadeiros. Acima de tudo deve também cuidar de cumprir os seus deveres, sempre fazendo a diferença, dando um bom testemunho da sua ética cristã, para não ser traído e condenado por suas atitudes divergentes das suas palavras.

2. Participar ou Distanciar-se?

Qual deve ser o papel do cristão na política? Deve participar ou distanciar-se?

Essa ideia de fazer separação entre “vida eclesiástica ou cristã” e “vida secular”, entre “coisas espirituais” e “coisas materiais”, é, no mínimo, equivocada, sem base bíblica.  A vida que cada um tem para viver é uma só e deve ser vivida plenamente, ainda que alguns o façam com motivação carnal e outros com motivação espiritual. Cada cidadão, cristão ou não cristão, tem sua contribuição a dar para a sociedade, usando suas habilidades, dons e talentos. Um empregado ou empregador, um profissional (médico, advogado, operário, servidor público etc.) cristão serve ao Senhor, de “modo integral”, através do serviço que executa servindo ao próximo e à sociedade. O trabalho é um meio e não o fim em si mesmo. É o que Jesus nos ensinou quando disse “trabalhai, não pela comida que perece” (Jo 6.27). Trabalhar pelo sustento é regra da vida, conforme o apóstolo Paulo enfatiza: “se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2Ts 3.10). Entretanto, alguns são chamados e vocacionados para se dedicarem de “tempo integral” aos serviços da igreja e do reino de Deus.

Na história bíblica revelada no Antigo Testamento há dois exemplos clássicos da atuação de pessoas, indivíduos tementes a Deus e por ele chamados e vocacionados, junto a governos: José, no Egito; e, Daniel, na Babilônia.  E, merece destaque, o fato deles terem dado o seu melhor, direcionados e usados por Deus, em governos que não eram os da sua própria pátria, porém, que de certa forma contribuíram para o bem do seu povo. Também há o exemplo relevante de Neemias, que deixa sua zona de conforto junto à corte do Império Persa, para coordenar todo o esforço de restauração física e espiritual da sua nação.

Ao longo da história da igreja já se viu de tudo no que diz respeito a relação Igreja x Estado. Em certas épocas e lugares, reis, soberanos e governantes exerceram poder e controle sobre a igreja. Em outras, vê-se a elite religiosa influenciando e dominando os governos. Em outro artigo já tratamos de como deve ser  essa relação Igreja x Estado. Aqui queremos tratar do envolvimento do cristão com a política. De longa data vem uma ideia equivocada quanto à santificação. Foi assim que no monasticismo se defendia o isolamento e renúncia das coisas materiais para se obter essa verdadeira santificação e consagração. Desde longa época paira sobre a igreja a ideia de que os cristãos farão melhor quando se mantiverem distantes da política, com suas disputas pelo poder, intrigas e corrupções. Entendemos que santificação tem a ver com separação do pecado e não com isolamento social! Quando os cristãos verdadeiros deixam de participar ativamente da vida pública, deixam de agregar a ela relevantes contribuições para o bem comum.

Resumindo a resposta:

a) Empregue os seus dons e talentos para o bem da sociedade onde Deus te chamar e vocacionar para fazê-lo, dentro e fora da igreja, o que pode incluir envolvimento político ou o exercício de um cargo público.

b) Lembre-se do exemplo digno, ilibado e eficaz dos personagens bíblicos José, Daniel e Neemias (dentre outros). Se você se omitir de participar outros o farão, muitas vezes sem a ética cristã, acarretando muito prejuízo social.

c) Tenha em mente que santificação tem a ver com separação do pecado e não com isolamento social ou político.

d) Fuja à tentação de obter vantagens pessoais ou corporativas em detrimento do bem coletivo. Nunca perca de vista que o alvo é o bem comum, o que inclui todas as pessoas com suas diferenças de sexo, raça, classe social, crença etc.

e) Não se envolva ou assuma compromissos com partidos políticos e ideologias que violem a liberdade democrática e os princípios e valores bíblicos.

f) Considere que desvios de conduta de um cristão que exerce atividade pública (ou privada) é sempre motivo de escândalo e um desserviço à causa do Evangelho.

3. O crescimento evangélico e suas consequências

Pelos dados do IBGE na tabela abaixo, constatamos o seguinte, em dez anos (2000 a 2010):

– Crescimento da população brasileira: 12,29%
– Crescimento da população evangélica: 61,45%
– Decrescimento da população católica: – 1,36%
– Total de cristãos (católicos e evangélicos): 86,79%

Nota: Tabela gerada diretamente no site do IBGE.

Independentemente do grau de envolvimento e compromisso desses católicos e evangélicos com a fé cristã, o fato evidente é que o Brasil continua tendo uma maioria cristã, o que significa um certo grau de alinhamento com os princípios e valores cristãos, rotulados pelos progressistas de valores conservadores. Entretanto, o que mais tem chamado a atenção e gerado preocupação na ala progressista é esse relevante crescimento da população evangélica. É de se esperar uma investida cada vez maior do reino das trevas para tentar impedir a continuação desse crescimento. Por outro lado, os evangélicos têm diante de si a oportunidade, o desafio e a responsabilidade de saírem da sua zona de conforto e contribuir efetivamente, em todas as áreas da sociedade, para o desenvolvimento da nação. É mandatório participarem dos debates de temas relevantes, tais como, liberdade de expressão, aborto, ideologia de gênero, homossexualidade, justiça social, ética na política, combate a corrupção, cotas raciais, preservação do meio ambiente, dentre tantos outros.

Conclusão

Os cristãos têm muito a dizer, a se pronunciar. Precisam se engajar nas lutas legítimas por uma sociedade melhor. É muito cômodo se esconder nas máximas de que “o mundo jaz no maligno” e que está determinado que “o mundo vai de mal a pior” e, assim, cruzar os braços e reclamar da situação. Somos arregimentados pelo Senhor da Igreja para proclamar a sua tão grande salvação, nutrindo a esperança do desdobramento na transformação de vidas. Se a população evangélica cresce de forma tão relevante, se não houver influência efetiva desta que produza mudança na sociedade, esse crescimento será rotulado de inócuo e visto com muita desconfiança.

Não basta orar pelas autoridades, pois a nossa cidadania celeste não nos isenta dos labores terrenos. “Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mc 12.17)

Que Deus nos ajude!

………………………………………

Veja também:
Igreja e Política – Mídia Tendenciosa
Igreja e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se?

Outro tema a ser desenvolvido:
Cristão e Comunismo – Como conciliar?

Permanecei firmes na fé (1Co 16.13; Hb 3.12-14)

Ouça este artigo:

Introdução

“Sede vigilantes, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos.” (1Co 16.13)

Um dos atributos incomunicáveis de Deus, que o  distingue de nós seres humanos é “independência”. Deus não precisa de nós, nem do restante da criação. Em contrapartida, nós dependemos de Deus, dos elementos por ele criados e, especialmente, uns dos outros. Particularmente, nós cristãos, somos também espiritualmente dependentes uns dos outros, não apenas em tempos de crises ou pandemias, mas em todo o tempo, como veremos na análise do texto de Hebreus. Os motivos são vários, mas podemos citar dois mais abrangentes e relevantes: 1º)Vivenciamos uma batalha pessoal e permanente contra o pecado. 2º) Vivemos num ambiente social dominado pelo maligno (o mundo jaz no maligno – 1Jo 5.19), numa verdadeira contracultura cristã que não mede esforços para desconstruir os valores morais e princípios judaico-cristãos.

1. Alerta de perigo – “perverso coração de incredulidade” (Hb 13.12)

12  Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo;

Onde existe o risco sempre se encontrará o alerta e a devida orientação bíblica para que se tome o devido cuidado. Não é porque se professa a fé cristã (“irmãos”) que se está definitivamente livre de um retrocesso espiritual. Não existe a possibilidade de ficar estacionado na fé, na vida espiritual; ou se caminha para perto de Deus ou no sentido contrário. O não desenvolvimento da salvação significa enveredar por um caminho de esfriamento espiritual, quando se comete o equívoco de fazer concessões ao pecado. Através da obra redentora de Cristo estamos livres da pena do pecado (Rm 8.1), do poder do pecado (Rm 6.14), mas não da presença do pecado (Rm 13.11) que tão tenazmente nos assedia (Hb 12.1).

O pecado nos afasta de Deus e nos leva à incredulidade. O coração endurecido e insensível faz com que a pessoa passe a agir por sua própria conta e risco. Sua visão de Deus fica turvada, enfraquecida, distorcida e começa a vagar. No teísmo, a pessoa cria que Deus é o criador e sustentador do Universo. Então migra para o deísmo, ainda crendo que Deus é o criador, mas não o sustentador do Universo. Pode, ainda, descambar para o panteísmo, achando que Deus é o próprio Universo, que ele está diluído em todas as coisas. Por fim, pode chegar ao ateísmo, passando a defender a ideia de que simplesmente Deus não existe.

Vejam como o Novo Testamento (NT) cita o Antigo Testamento (AT) e o AT cita o AT; ou seja, a bíblia cita a bíblia e nos ensina a fazer o mesmo. O contexto deste alerta (Hb 3.7-11) aponta para um caso real, experimentado pelo povo de Israel. Trata-se de uma citação do Salmo 95.7b-11. Este salmo inicia fazendo um convite a se louvar o Senhor Criador e Sustentador do Universo (teísmo). Na sua segunda parte ele cita dois incidentes (Ex 17.1-7 e Nm 20.1-13) que ilustram a incredulidade do povo na caminhada para Canaã. Em duas ocasiões, em Massá e Meribá, aconteceu de faltar água e eles reclamaram e contenderam com seu líder Moisés, bem como provocaram e colocaram Deus à prova apesar de todos os milagres que haviam presenciado. Esse coração petrificado pela incredulidade fez com que eles perecessem no deserto e não entrassem no descanso de Deus, na terra prometida. Nos momentos mais difíceis da caminhada cristã corremos o risco de pensar ou até mesmo nos expressarmos com essa mesma carga de incredulidade deles: “Está o SENHOR no meio de nós ou não?” (Ex 17.7b). Quando tudo vai bem há a tendência de se esquecer de Deus e quando tudo vai mal de questionar a sua ausência. A consequência disso é ficar fora do descanso proporcionado pelo cuidado do Altíssimo – “O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao SENHOR: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio.” (Sl 91.1-2).

2. Medida preventiva – “exortai-vos mutuamente” (Hb 13.13)

13  pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado.

Tendo abordado sobre o perigo da incredulidade, o autor destaca aqui a ilusão, o engano do pecado. Um desejo pecaminoso pode até parecer bom, mas seu fim é danoso. O pecado pode ser visto como algo aparentemente inofensivo, tal qual um pequeno bloco de gelo que se desprende na geleira,  que pode provocar uma avalanche na vida do indivíduo, da sua família, na igreja e na sociedade.  E, o mal maior se dá quando a pessoa se torna insensível ao erro, rejeita a ajuda e despreza a repreensão.

O outro aspecto que pode ser destacado aqui é o da exortação mútua continuada. Nessa exortação mútua e diária, há de se empreender energia e foco na conduta e atitudes corretas e desejáveis; no que se deve fazer. Por outro lado e não menos importante é alertar e ressaltar quanto ao que não se deve fazer, por ser pecado ou inconveniente. É curioso como João, o apóstolo do amor, na sua primeira epístola, labora nessas duas frentes do – “faça” e “não faça” – dando tanta ênfase ao pecado. E, com que propósitos ele exorta os crentes? Para que tenham comunhão com o Pai Celestial e para que a nossa alegria seja completa (1Jo 1.3-4).

Ele se dirige aos seus leitores crentes como “Amados” (6 vezes) e como “Irmãos” (1 vez). Ele usa palavras como amor (18 vezes), ama (9 vezes), amamos (4 vezes), amou (3 vezes), amo (1 vez) e amado (1 vez); totalizando 36 vezes.

Por outro lado ele se refere a pecado, no singular ou plural, 19 vezes. Também menciona treva ou trevas 7 vezes, como figura de conduta pecaminosa ou vida distante de Deus que é luz; totalizando 26 vezes. O que ele quer nos exortar sobre pecado ou trevas?

a) Luz e trevas não podem coexistir (1Jo 1.5-7).

Onde entra a luz as trevas se dissipam. Assim como no princípio de tudo Deus fez separação entre a luz e as trevas  (Gn 1.4), o Evangelho deve produzir separação entre luz e trevas; entre os que andam na luz da santidade divina e os que andam nas trevas do pecado.

b) Todos cometemos pecados (1Jo 1.8, 10).

Admitir o pecado e confessá-lo é o caminho da purificação; negar o cometimento de pecado é fazer de Deus um mentiroso; é revelar que não nos apropriamos da palavra de Deus.

c) Se viermos a pecar, poderemos ser perdoados e purificados (1Jo 2.1-2, 12;  1.9)

Jesus Cristo é o nosso advogado junto ao Pai e se apresenta como aquele que é a propiciação ou que fez a expiação dos nossos pecados. A ideia bíblica é de um ato praticado capaz de aplacar a ira divina, satisfazendo a sua santidade e justiça, cobrindo assim o nosso pecado. Mas o pecador precisa se arrepender e confessar o seu pecado para ser perdoado e ter restaurada a sua comunhão com Deus.

d) O pecado é a transgressão da lei (1Jo 3.4)

e) Toda injustiça é pecado (1Jo 5.17)

f) Aquele que pratica o pecado procede do diabo (1Jo 3.8)

g) Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado (1Jo 3.9; 5.18)

h) Aquele que odeia a seu irmão está nas trevas (1Jo 2.9, 11)

i) Jesus se manifestou ao mundo para tirar os pecados e nele não existe pecado (1Jo 3.5; 1Jo 4.10)

A ameaça do pecado é real, não deve ser subestimada e sua consequência devastadora. Não procede de Deus: “Porque tudo o que há no mundo — os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida— não procede do Pai, mas procede do mundo” (1João 2.16). Daí a importância de estarmos sempre alertas, vigiarmos os nossos pontos fracos e procurarmos ajudarmos uns aos outros.

3. Perseverança confirmadora – “Participantes de Cristo” (Hb 13.14)

14  Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos.

A expressão “participantes de Cristo” pode ter, pelo menos, dois significados e interpretações. O de alguém que apenas tornou-se companheiro de Cristo, que caminha com ele, isto é, com a igreja e os crentes, um cristão professo; e aquele que efetivamente teve uma união mística com ele, se uniu a ele tornando-se participante da natureza divina pelo novo nascimento, um cristão verdadeiro. Não se pode negar a existência desses dois tipos de crentes. Também não se pode negar a existência de crentes que abandonaram ou apostataram da fé, na bíblia e fora dela. Muitos dos discípulos de Jesus o abandonaram (Jo 6.66). O escritor de Hebreus tinha consciência disso (Hb 6.4-8); o apóstolo Paulo lamenta que Demas, tendo amado o presente século o abandonou (2Tm 4.10). Quem não conhece pessoas assim? Os arminianos diriam que tais pessoas perderam a salvação. Os calvinistas diriam que eles nunca foram salvos. Pelo contexto da expressão podemos afirmar que os cristãos verdadeiros, os salvos, guardam firmes, até ao fim, a sua confiança em Cristo. Não pelos seus próprios méritos ou força, mas por aquele que os sustém. Se o salvo cair, Deus o levantará! Ele quer nos usar para nos ajudarmos mutuamente.

Vale mencionar mais uma vez o apóstolo João que, na sua primeira epístola, também ressaltou a importância da perseverança usando as palavras “permanece”(14 vezes), permanecer (2 vezes), permanecei (2 vezes), permanecemos (1 vez) e permanecereis (1 vez); totalizando (20 vezes). O que ele quer nos exortar sobre permanecer?

a) Aquele que permanece em Cristo, anda como ele andou (1Jo 2.6).

b) Aquele que permanece na luz ama a seu irmão e não é um tropeço na sua vida (1Jo 2.10).

c) Aquele que faz a vontade de Deus permanece eternamente (1Jo 2.17).

d) A unção do Espírito Santo permanece sobre os que são de Deus e os ensina (1Jo 2.27).

e) Todo aquele que permanece em Deus não vive pecando (1Jo 3.6).

f) Aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus, nele (1Jo 3.24).

g) Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado. (1Jo 4.12).

Que sejamos instrumentos de Deus para nos ajudarmos mutuamente!

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.” (Ef 6.10)

Um governante perseguido

UM GOVERNANTE PERSEGUIDO

Um título mais hollywoodiano seria – Perseguição implacável

Introdução

Acompanhe, a seguir, as características de um governante e sua história de vida. Aguce sua percepção, refreie sua curiosidade e ansiedade para descobrir de quem estamos falando. Pense nas lições que podemos extrair desse texto.

Para sermos mais didáticos, vamos dividir a narrativa em capítulos.

Capítulo 1

Não, no início ele não era famoso, não era alguém de nobre nascimento, não era e não tinha a intenção de ser um intelectual influente, um filósofo ou alguém rebuscado e erudito no falar. Pode-se dizer que se trata de um homem simples, muito identificado com o seu povo, um patriota. Alguém que exercia sua função, no lugar onde fora posto, com muita dedicação. Um servidor fiel e confiável que tão somente desejava cumprir suas obrigações da melhor forma possível. Sua honestidade e sua reputação ilibada o mantinha naquela função.

Num certo dia as coisas começaram a tomar um novo rumo em sua vida. Tomando conhecimento e avaliando mais profundamente o estado de grande miséria em que sua pátria amada se encontrava ficou consternado, abalado e triste com tal situação. Ele tinha plena consciência das causas que levaram sua nação a este estado deplorável. O seu espírito se agitou e o inquietou pois percebia o quanto era difícil para qualquer ser humano reverter essa situação. Na sua angústia e inconformismo lembrou-se de que existe um Deus que está acima de tudo e de todos. Somente este Deus Criador e Sustentador poderia perdoar todas as transgressões do seu povo, todas práticas horrendas daqueles que haviam governado sua nação, todo o abandono das leis divinas, bem como princípios e valores.

Capítulo 2

Sua vida não seria mais a mesma, seu semblante mudou, sua inquietação interior não podia mais ser contida. Então, ele começou a compartilhar os seus sentimentos com os mais próximos a ele e se propôs a fazer algo para reverter aquele quadro desesperador e sombrio. Estava disposto, como qualquer bom soldado o faria, a lutar e até morrer pela causa maior de restaurar sua nação, de tirar o seu povo daquele estado de desprezo e abandono e devolver-lhe a dignidade e honradez.

A caminhada em direção à essa grande obra de reconstrução nacional estava começando. Ele não tinha muitos recursos próprios para levar a cabo tal empreendimento, mas esperava contar com a ajuda dos seus apoiadores e, sobretudo, com a boa mão de Deus. Ele cumpriu todas as formalidades legais e assumiu o governo da sua pátria amada. É claro que os seus inimigos e os inimigos da pátria ficaram tremendamente irritados com essa sua determinação de fazer o bem, de verdade, ao seu povo, bem como de promover a ordem e o progresso da sua pátria amada. Então, os seus inimigos maquinaram: – Como não foi possível evitar que ele assumisse o governo, vamos fazer tudo para impedi-lo de governar.

Antes de tomar posse ele trouxe para perto de si algumas poucas pessoas que começaram a analisar juntamente com ele a profundidade e a precariedade da situação, e a planejar os próximos passos.

No seu discurso de posse ele falou a todos deste estado de miséria nacional  e de como se sentia um escolhido de Deus e por ele investido dessa árdua missão de restaurar a nação. Assim, ele convocou a cada um compatriota a se unir a ele nesse propósito.

Os inimigos do bem da pátria zombaram de tudo isso e o desprezaram do mais profundo das suas almas. Não encontrando motivo para acusá-lo, vendo sua coragem e determinação em cumprir aquela missão, procuraram colar nele a imagem de rebelde à Ordem Superior, de autoritário ou fascista. Sua resposta aos inimigos era no sentido de mostrar-lhes que Deus estava nessa obra, a obra seria feita e que eles não teriam parte nela.

Capítulo 3

O trabalho de reconstrução nacional não se faz com apenas uma pessoa, um governante e seus auxiliares próximos. É obra para ser feita com a colaboração de todos, de toda a nação, pois é de interesse de todos. Se a nação for bem, todos serão beneficiados. Daí a convocação geral do nosso governante até agora oculto.

E o povo se engajou na obra, cada um no seu lugar. Os líderes religiosos colocaram as mãos na obra. Os grandes e pequenos empresários, os profissionais liberais e os autônomos, a classe trabalhadora, os ricos e os pobres, enfim, todos se uniram ao seu governante e fizeram a sua parte na obra. E a obra estava se desenvolvendo muito bem.

Capítulo 4

Tendo a obra progredido, como era de se esperar, despertou a ira e indignação dos inimigos do bem da pátria amada. E zombaram dos apoiadores do governante e duvidaram da solidez do trabalho que era realizado por eles, para desanimá-los e desmotivá-los, mas não lograram êxito.

Percebendo que a reconstrução nacional caminhava bem, que o establishment (a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado)  até então predominante estava sendo substituído por outro contrário aos seus interesses; que a nação estava fortalecendo as suas fronteiras; os inimigos do bem da pátria amada ficaram ainda mais irados e resolveram unir todas as forças de oposição ao governo e, de comum  acordo, ataca-lo e criar confusão ali.

Diante de cada nova ameaça dos inimigos, o governante não se abatia e não deixava de confiar em Deus e se preparava para o combate. Ele era a favor do armamento e fortalecimento das famílias, como forma de defesa ao ataque inimigo. Naquele cenário ele defendia não só a posse como também o porte de arma. Assim incentivou todo o povo a se armar e a lutar, cada um por sua família e a ajudar o seu vizinho se este fosse atacado. As pessoas de bem entendiam claramente que isso não era um discurso de ódio, mas apenas uma forma de prevenção e defesa ao ataque do inimigo.

Capítulo 5

Os desafios dessa reconstrução nacional eram muitos. O clamor do povo por causa dos altos impostos chegou aos ouvidos daquele governante que logo ficou sensibilizado. Ele próprio vivia uma vida simples e austera, o que lhe conferia autoridade para lutar contra toda a sorte de exploração do povo, principalmente por parte de algumas classes do próprio povo, como os magistrados. Ele tinha a coragem de enfrentar e repreender verbalmente essa classe de aproveitadores do Estado e as pessoas de bem também não viam nisso um discurso de ódio. E ele lembrava a todos que os governantes que vieram antes dele oprimiam e exploravam o povo, mas ele estava fazendo diferente, por temor a Deus e por respeito aos seus princípios.

Capítulo 6

Não foram poucos os planos arquitetados, pelos inimigos da pátria amada, contra aquele governante. Quanto mais a obra progredia, mas investidas aconteciam. Eles o chamaram várias vezes para conversar, quem sabe para negociar o “toma lá, dá cá”, mas ele se recusava a ir.

Tentaram de tudo para denegrir sua imagem de homem honesto e patriota, procurando tirá-lo do foco na missão, mas não obtiveram êxito. Armaram uma cilada para que ele transgredisse preceitos religiosos, à guisa de proteção da sua vida, mas não lograram êxito, porque a mão de Deus estava com ele. Os inimigos da pátria amada tinham contatos infiltrados e próximos ao governo, mesmo assim não tiveram sucesso.   

Capítulo 7

Por fim, terminada a parte inicial da missão, este governante, no exercício pleno da sua competência, nomeou pessoas muito próximas a ele, do seu relacionamento direto, de sua total confiança, para cuidarem da área de segurança pública. O povo não questionou e os magistrados não interferiram pois essa era e é uma prática comum em todos os tempos e nas nações.

E, assim, aquele governante partiu para a realização de novas etapas da missão, amparado pelo povo e com Deus acima de tudo e todos.

Conclusão:

Quais lições podemos extrair desta narrativa?

1. Deus está no controle e governo da história e quer o melhor para as suas criaturas.

2. A ruína de uma nação é consequência de governantes perversos e de povo depravado.

3. O bem-estar de uma nação depende de governantes e povo unidos em prol do bem comum, sob a bênção de Deus.

4. Sempre haverá opositores, mas estes nunca prevalecerão ou frustrarão os propósitos soberanos de Deus.

5. Se opor a um governante instituído pela vontade ativa ou permissiva de Deus pode significar uma oposição ao próprio Deus.

6. O que realmente importa não é gostar ou deixar de gostar de um governante, mas estar alinhado e apoiando tudo aquilo que o seu governo estiver realizando para o bem comum e que não contrarie a vontade de Deus expressa nas Sagradas Escrituras (Bíblia), bem como se manifestando de forma equilibrada e respeitosa quando do contrário.

7. É bom nunca perder de vista o que  Jesus Cristo disse, que uma casa dividida contra si mesma não subsistirá (Mt 12.25).


Nosso desafio:

Por fim, eu pergunto: descobriu qual o personagem de que trata a narrativa acima? Escreva o nome dele no campo de comentários. Daqui a 7 dias eu libero os comentários e revelo o nome dele.

………………………………………

Resposta ao desafio:

O nome do governante neste artigo é NEEMIAS. No primeiro versículo, o livro de NEEMIAS já revela o nome do seu autor: “As palavras de Neemias, filho de Hacalias. No mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu na cidadela de Susã,” (Ne 1.1). O nome Neemias significa “Yahweh ou Javé consola”. Neemias era um judeu que teria nascido no exílio no ano de 475 aC. Tinha, portanto, aproximadamente 30 anos de idade quando foi nomeado governador de Judá (Ne 5.14; 8.9), exercendo até aquele momento a função de copeiro do rei Artaxerxes I (Ne 1.11). O copeiro-mor ou copeiro-chefe era o principal dos copeiros (Gn 40.9). É provável que Neemias fosse um copeiro-chefe. Sua função era comprovar que a bebida do rei não estava envenenada. Esta função de extrema confiança lhe oferecia a oportunidade de convívio direto com o rei e, dentre outros privilégios, o de ser mais um dentre os seus conselheiros. Neemias pode ser visto neste livro como um homem simples, humano, de caráter, temente a Deus e de oração, determinado, persistente, patriota, corajoso, empreendedor, de visão, hábil nas relações interpessoais, hábil na solução de problemas, agregador, articulado, hábil no quesito “fazer fazer”, disposto a realizar a vontade de Deus (Ne 2.12; 7.5).

Cada capítulo deste artigo corresponde a uma síntese do respectivo capítulo do Livro de NEEMIAS.

Qualquer semelhança desta descrição com a de outro governante é mera coincidência….ou será que não!?….

No link a seguir você poderá encontrar um comentário bíblico objetivo sobre o Livro de Neemias.

https://pauloraposocorreia.com.br/category/e-comentarios/neemias/

A cura do cego de nascença

A CURA DO CEGO DE NASCENÇA (Jo 9. 1-41)
Uma ilustração da redenção do homem e suas consequências.

Introdução

Ainda na festa dos tabernáculos, num contexto de muitas discussões sobre a autenticidade messiânica de Jesus, João apresenta uma narrativa extensa sobre um grande milagre operado por Jesus dando visão a um cego de nascença, o único caso, entre os  sete casos registrados pelos evangelhos (Mt 9.27 [2]; Mc 8.22; Mt 12.22; 20.30 [2] e Jo 9.1).  O milagre em si e a narrativa cumpriram o importante papel de testificar que Jesus era verdadeiramente o Messias, porquanto, homem algum, nem mesmo possuído por Satanás, havia curado um cego de nascença.

Há muito mais neste texto do que uma cura de Jesus. Jesus ilustra a sua missão como “Luz do Mundo” (Jo 9.5), concedendo a visão física, a um cego de nascença e, em seguida, completa a obra, concedendo a visão espiritual. A riqueza de detalhes encontrados nesta história nos conduz aos elementos característicos da operação divina no homem, uma ilustração da redenção do homem e suas consequências. A redenção….

a) É resultado da iniciativa de Deus (v.1a)

1a  Caminhando Jesus, viu….

O olhar de Jesus é diferente: penetrante (vê o interior, pesa os sentimentos e  amarguras da alma) e ativo (contempla, se  compadece, se aproxima e auxilia).

Deus também viu que não havia um mediador humano, alguém com as qualificações necessárias para a tão elevada missão de salvação, então, ele próprio a providenciou enviando o seu Filho, Jesus Cristo, como mediador e salvador, no seu primeiro advento: “Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve.” (Is 59.16). O mesmo profeta Isaías complementa: “O SENHOR desnudou o seu santo braço à vista de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.” (Is 52.10). Foi essa  visão divina que trouxe Jesus ao mundo (Sl  14.2-3; Gl 4.4; Hb 1.1-3).

b) É focalizada na necessidade humana (v.1b)

1b ….um homem cego de nascença.

A necessidade humana é aqui contemplada por Jesus; e, pela trindade santa, desde sempre. Já nascemos em pecado, portanto, somos pecadores de nascença, conforme confessou o rei Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Sl 51.5). E, o apóstolo Paulo conclui: “como está escrito: Não há justo, nem um sequer,  não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,  sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,” (Rm 3.10-12, 23-24). É assim que todos somos encontrados e contemplados pela visão divina desde o nosso nascimento. Não é correto pensar e acreditar que a natureza humana é essencialmente boa. Claro que não é! Isso é discurso mentiroso de uma religião falsa que quer agradar as pessoas e cooptar adeptos.

c) É de acordo com a vontade de Deus (vv. 2-3)

2  E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?

Havia falsas crenças entre os judeus de que a doença e o sofrimento eram resultado de uma punição pelo pecado praticado pela pessoa em alguma outra existência passada ou resultado do pecado praticado pelos pais. A primeira tem a ver com a doutrina da reencarnação e a segunda com a chamada maldição hereditária (ver Ex 20.5; 34.7; Nm 14.18; Dt 5.9; Ez 18.2).

3  Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.

Jesus, em sua resposta, descarta as duas supostas alternativas determinantes do sofrimento humano. Deus está no controle e pode transformar em bem aquilo que parece mal e cruel aos olhos humanos. Deus tinha um propósito na vida daquele cego e com aquele milagre de cura.

d) É para ser agenciada em caráter de urgência (vv. 4-5)

4  É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.
5  Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.

Jesus mesmo se declara a “luz do mundo”, pois veio ao mundo para abrir os olhos aos espiritualmente cegos: “Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.” (Jo 9.39). Ele tinha pressa em realizar sua missão pois tinha consciência da exiguidade do seu tempo entre nós e da urgência em viabilizar a salvação de todo aquele que crê.

e) É através de Jesus (v. 6)

6  Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego,

O método divino aqui utilizado pode até causar estranheza ou repulsa em algumas pessoas. Quem sabe se alguns circunstantes, vendo aquele “ritual grotesco”, censuraram veladamente ou abertamente a Jesus, julgando que tal ato se revestia da intenção de impor humilhação ao pobre homem que nem sequer podia ver o que o Mestre fazia? Só a mente divina é capaz de entender a razão ou motivação de tal ritual de cura. Como a imaginação não tem limites e pode até ganhar asas e flutuar na vastidão do espaço das ideias, sem compromisso com a exata, mas nem sempre disponível, interpretação teológica,  arrisco compartilhar aqui a seguinte ideia. Jesus, o também Deus-Criador, temporariamente encarnado, reproduz diante de todos o ato criativo do gênesis, desta vez cuspindo e manuseando outra vez a terra, o barro, para aplicar e restaurar o órgão defeituoso daquele homem. No início Adão foi formado do barro, do pó da terra, mas teve o toque e o sopro de vida divinos! Da mesma forma este cego recebe o toque divino para que a luz divina adentre o seu ser.

Por falar em método estranho, o apóstolo Paulo também menciona, por diversas vezes, que a mensagem do Evangelho, a pregação da Cruz é loucura para os que se perdem, para aqueles que acham que têm boa visão, mas que permanecem cegos espiritualmente. “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação.” (1Co 1.21, ver 1Co 1.18-25; 2.14).

f) É recebida através da obediência do homem (v. 7)

7  dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo.

Antes de prosseguir é importante esclarecer que, segundo a hermenêutica bíblica, que é a ciência, a arte de interpretação das Sagradas Escrituras, as parábolas proferidas por Jesus são narrativas alegóricas destinadas a transmitir verdades e conceitos gerais importantes. Portanto, não tiveram o propósito de servir de fonte de doutrina da fé cristã para a igreja, nem tampouco os detalhes e pormenores das narrativas se prestam a isso. O que estamos fazendo aqui é, a partir da doutrina exposta nas Epístolas doutrinárias, identificando e destacando de forma reversa alguns aspectos da redenção humana.

Isso posto, que fique claro que a salvação é obra exclusiva de Deus; portanto, não depende das obras humanas: “que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos,” (2Tm 1.9). Deste versículo 7 podemos destacar dois aspectos importantes:

  • Submissão ao método divino.

Quem é o ser humano para questionar o método divino? Sendo Deus a parte ofendida só ele poderia estabelecer as regras e condições para que o homem voltasse a ter comunhão com ele. Estas regras e condições incluíam a necessidade de um mediador com as características de Jesus. Conforme já comentamos, isso é loucura para os que se perdem!

  • Recepção e Obediência à palavra de Jesus.

O homem cego nem sabia ao certo tudo o que estava acontecendo. Ele recebeu o toque de Jesus, ouviu a sua palavra, recebeu-a em sua mente e coração, creu nela e obedeceu. Jesus nos ensinou assim: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” (Jo 5.24). E o apóstolo Paulo acrescenta: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17). Os ensinos de Jesus enfatizam a importância do arrependimento, do crer nele e na sua palavra, do recebe-lo e da obediência à vontade de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1.12-13)

O lavar neste texto nos leva a pensar no lavar regenerador do Espírito Santo: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,” (Tt 3.5); “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” (1Co 6.11)

g) É transformadora (vv. 8-9)

8   Então, os vizinhos e os que dantes o conheciam de vista, como mendigo, perguntavam: Não é este o que estava assentado pedindo esmolas?
9  Uns diziam: É ele. Outros: Não, mas se parece com ele. Ele mesmo, porém, dizia: Sou eu.

Os vizinhos e conhecidos do homem outrora cego ficaram confusos. Se parecia com ele, mas estava diferente. Antes era visto como um mendigo desprezível, um pobre coitado, um ser socialmente excluído. Agora, parecia um novo homem. Ele, porém, assumia e declarava sua mesma identidade, mas uma nova condição.

Quando o Espírito Santo regenera uma pessoa acontece algo extraordinário. A transformação maior acontece no seu interior, mas o seu exterior também é positivamente afetado. Não significa que atingiu a perfeição e não pecará mais. Não significa que era pobre e agora ficará rico.

O fato é que a habitação e o fruto do Espírito fazem dessa pessoa alguém diferente, uma nova criatura em Cristo, com um novo propósito de vida, com uma nova conduta e forma de agir. Em alguns casos a transformação é imediata e radical; em outras é mais lenta e gradual. Porém, é mandatório existir essa transformação!

h) É espantosa à mente humana (os vizinhos – vv. 10-12)

10  Perguntaram-lhe, pois: Como te foram abertos os olhos?
11  Respondeu ele: O homem chamado Jesus fez lodo, untou-me os olhos e disse-me: Vai ao tanque de Siloé e lava-te. Então, fui, lavei-me e estou vendo.
12  Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Não sei.

Certamente essa boa e perceptível transformação favorece o surgimento das primeiras oportunidades de testemunhar aquilo que Deus fez em nossa vida. Já vivi o suficiente para ver o antes e o depois de pessoas transformadas por Cristo. A diferença é verdadeiramente surpreendente. Já tomei conhecimento de casais que participaram do evento Encontro de Casais com Cristo e tiveram suas vidas transformados. Uma amiga perguntou à esposa de um desses casais: – O que aconteceu com o seu marido, ele está tão diferente, parece até outra pessoa. Ela respondeu: – Nós participamos de um Encontro de Casais com Cristo. A amiga desabafou: – Nossa, que bom! Eu quero isso para o meu marido também!

 O intrigante é ser questionado sobre o que realmente aconteceu e na resposta só se ater aos detalhes elementares e materiais. É compreensível, afinal, como explicar as operações sobrenaturais de Deus, no coração humano? Testemunhar com fidelidade o que aconteceu, sua experiência pessoal com Deus, vale mais do que muitas teorias e filosofias.

i) É agente de polêmica para a religião formal (os fariseus – vv. 13-17)

13  Levaram, pois, aos fariseus o que dantes fora cego.
14  E era sábado o dia em que Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos.
15  Então, os fariseus, por sua vez, lhe perguntaram como chegara a ver; ao que lhes respondeu: Aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e estou vendo.
16  Por isso, alguns dos fariseus diziam: Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tamanhos sinais? E houve dissensão entre eles.
17  De novo, perguntaram ao cego: Que dizes tu a respeito dele, visto que te abriu os olhos? Que é profeta, respondeu ele.

Mais uma marca da regeneração é que a nova criatura em Cristo passa a ser observada e confrontada pelo sistema majoritário ou dominante, quer religioso, quer secular. Esse é o preço de viver e praticar a contracultura cristã num mundo que jaz no maligno. Os versículos em análise neste tópico comprovam isso. O farisaísmo legalista daquela época e de sempre está mais preocupado com uma suposta violação do descanso sabático do que com o bem praticado a um pobre homem. É claro que o objetivo final é desqualificar o enviado de Deus. Vale ressaltar a postura e reação do que fora cego. (i) Ele não se intimida mesmo estando sob muita pressão de pessoas influentes. (ii) Ele não vacila, mas mantém a resposta, a verdade dos fatos ocorridos. (iii) Ele ousa defender o seu benfeitor, refutando os poderosos acusadores de Jesus, com um argumento de peso, ao ponto de criar dissensão entre eles. (iv) Ele demonstra uma visão crescente a respeito da pessoa de Jesus – que é profeta – e ousa declarar isso num meio tão hostil.

j) É motivo de escândalo para aqueles que não querem perder o prestígio (os pais – vv. 18-23)

18  Não acreditaram os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais
19  e os interrogaram: É este o vosso filho, de quem dizeis que nasceu cego? Como, pois, vê agora?
20  Então, os pais responderam: Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego;
21  mas não sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo.
22  Isto disseram seus pais porque estavam com medo dos judeus; pois estes já haviam assentado que, se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga.
23  Por isso, é que disseram os pais: Ele idade tem, interrogai-o.

A reação dos incrédulos muitas vezes acaba cumprindo o papel de prestar um serviço valioso para atestar e ratificar a operação miraculosa de Deus. Essa rigorosa apuração dos fatos conduzida por aqueles religiosos ciumentos, interrogando os pais do curado, só contribuíram para a comprovação do fato. Chama a atenção aqui a flagrante diferença de postura por parte dos pais do homem curado: (i) Eles procuram manter uma postura de isenção e distanciamento do fato, mesmo percebendo a grande bênção recebida pelo filho – “não sabemos como vê agora”.  (ii) Preferem não expor qualquer simpatia por Cristo – “ou quem lhe abriu os olhos”. (iii) Transferem toda a responsabilidade pela explicação para o filho curado – “perguntai a ele”. (iv) O texto (versículo 22) deixa claro que eles agiram dominados pelo medo de serem expulsos da sinagoga, da sua religião formal.

Outra consequência da regeneração é a reação da família quando um dos seus membros acolhe a fé cristã. Essa reação pode se manifestar de várias formas: Às pode ser positiva, entretanto, é mais comum ser de (i) desconfiança; (ii) indiferença; (iii) contrariedade e desagrado pelo rompimento com a religião tradicional da família; (iv) rejeição e expulsão de casa, como manifestação extremada de repulsa. Assim, o novo convertido precisa estar preparado para lidar com essas reações, mantendo-se firme no Senhor.

k) É um fato incontestável (vv. 24-34)

24  Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador.
25  Ele retrucou: Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo.

O fato da cura é comprovado naquele em que se realizou a obra divina. O fato em si é mais relevante do que a sua explicação racional. Assim se dá com a regeneração espiritual e isso é um bom princípio para o evangelismo pessoal.

26  Perguntaram-lhe, pois: Que te fez ele? como te abriu os olhos?
27  Ele lhes respondeu: Já vo-lo disse, e não atendestes; por que quereis ouvir outra vez? Porventura, quereis vós também tornar-vos seus discípulos?
28  Então, o injuriaram e lhe disseram: Discípulo dele és tu; mas nós somos discípulos de Moisés.
29  Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este nem sabemos donde é.
30  Respondeu-lhes o homem: Nisto é de estranhar que vós não saibais donde ele é, e, contudo, me abriu os olhos.
31  Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende.
32  Desde que há mundo, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
33  Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito.
34  Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram.

O fato extraordinário comprova a procedência do poder que o realizou. O texto em análise demonstra a insistência das autoridades religiosas em buscar uma resposta racional para o ocorrido. Por outro lado, também apresenta a impaciência do curado e seus atos de coragem e renúncia: (i) confrontando os seus inquiridores de forma extremamente ousada – “quereis vós também tornar-vos seus discípulos?”;  (ii) declarando a incompetência deles em identificar quem era aquele que realizou tão grande milagre e sua procedência – “é de estranhar que vós não saibais donde ele é”; (iii) usando argumentos teológicos incontestáveis – “Deus não atende a pecadores” (Jó 27.8-9; Sl 66.16-19; Pv 15.29; Zc 7.13); (iv) defendendo o caráter piedoso daquele que o curou – Jesus – que foi atendido devido à sua condição espiritual aceitável diante de Deus – “se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende.”; (v) reportando-se à ausência de evidência de milagres como o que nele se realizou na história. A literatura e as tradições judaicas creditam 62 milagres a Moisés. Entre estes, nenhum de cura de cegueira de nascença; (vi) defendendo que o seu benfeitor não era apenas um profeta, não era apenas um homem piedoso, mas alguém provindo de Deus. Suas respostas incisivas foram tão impactantes que os seus inquiridores ficaram sem argumentos e de tão humilhados decidiram expulsá-lo.

As reações do homem curado servem de bom exemplo para os regenerados quando confrontados, principalmente pelos incrédulos e opositores da fé cristã. Certamente aquele homem foi assistido por Deus nas suas respostas e a promessa que recebemos é que o Espírito Santo há de nos assistir (Jo 14.26; 16.13).  

l) É o agente que não apenas transforma, mas conduz: (vv. 35-38)

35   Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe perguntou: Crês tu no Filho do Homem?
36  Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que eu nele creia?
37  E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo.
38  Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou.

Percebe-se um conhecimento progressivo de Jesus, por parte daquele que fora cego, que culmina no crer e adorar: (i) Um homem chamado Jesus (v.11); (ii) É profeta (v.17); (iii) Alguém que teme a Deus e pratica a sua vontade (v.31); (iv) “Creio, Senhor; e o adorou.” (v.38).

O apóstolo Paulo nos apresenta a salvação como um processo contínuo, algo a ser desenvolvido: “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor;” (Fp 2.12).  É preciso crescer na fé: “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (2Pe 3.18a) . A figura do leite, como alimento infantil, e a expressão “não sejais como meninos” é mencionada algumas vezes referindo-se àqueles que precisavam crescer e amadurecer espiritualmente (1Co 14.20; Ef 4.14; 1Co 3.2; Hb 5.12-13; 1Pe 2.2).

A pública declaração de fé daquele homem quando do seu encontro com Cristo, nos remete à prática da Profissão de Fé e Batismo dos regenerados em Cristo.

Por fim, após a declaração de fé daquele homem, registra o texto bíblico – “e o adorou.”. Essa atitude de adoração será tanto mais expressiva quanto maior for o nível desse conhecimento de Cristo e a proximidade dele. Essa cena nos remete à figura da Ceia do Senhor, o outro rito praticado pela igreja – “fazei isso em memória de mim”.

m) É o agente que produz separação entre os homens (vv. 39-41)

39   Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.
40  Alguns dentre os fariseus que estavam perto dele perguntaram-lhe: Acaso, também nós somos cegos?
41  Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.

Saindo de cena as narrativas da cura, dos interrogatórios e do encontro do homem curado com Jesus, o texto bíblico apresenta o Senhor Jesus aproveitando o ocorrido para transmitir uma preciosa lição:

– Os que reconhecem a sua “cegueira” e se submetem à operação divina recebem a “visão espiritual”, a salvação eterna;

– Os que não reconhecem a sua “cegueira” e não se submetem à operação divina permanecem sem a “visão espiritual”, e estão perdidos eternamente.

“Gripe Espanhola”, COVID-19 e a Igreja

Introdução:

Neste artigo faremos uma rápida passada de vista em alguns registros históricos da humanidade, inclusive da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, uma igreja mais do que sesquicentenária.

Coincidência ou não, depois de 102 anos da pandemia da “gripe espanhola” estamos vivenciando uma nova pandemia, a do COVID-19 (do inglês, Coronavirus Disease 2019)[1]. Não bastasse os estragos e baixas humanas e econômicas provocados pela 1ª Guerra Mundial (1914-1918) aquela pandemia também deixou suas marcas na história. O que os registros históricos nos contam a respeito daquela pandemia e que reflexões podemos fazer?

1) Registros da Gripe Espanhola

A Wikipédia assim introduz o assunto: “A gripe espanhola, também conhecida como gripe de 1918, foi uma pandemia do vírus influenza incomumente mortal. De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões a 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenzavirus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009.”

Em outra literatura[2] que trata especificamente da história e suas pandemias e da convivência do ser humano com os microorganismos encontramos algumas informações interessantes:

– O vírus da gripe tem causado várias epidemias na história da humanidade, porém com taxa de mortalidade baixa e com complicações como a pneumonia afetando mais crianças de baixa faixa etária e os idosos.

– Em 1918 surgiu um novo vírus da gripe com muito maior poder de invasão que se alastrou pelo mundo, causando uma mortalidade nunca vista, inclusive entre jovens. Sua disseminação foi facilitada por ter surgido no último ano da guerra, e aos militares combatentes, aglomerados e sempre se deslocando.

– Cerca de um quinto da população mundial foi acometida pela doença nos anos de1918 e 1919, com uma taxa de mortalidade ao redor de 0,5 a 1,2%, o que significou a morte de cerca de 22 milhões de pessoas. Em algumas regiões esse percentual chegou a 25% (Samoa).

– A primeira onda americana da epidemia de gripe ocorreu na primavera de 1918 (março). Alcançou a Europa no verão de 1918, atingindo em cheio a Espanha, o que contribuiu para que recebesse o nome de “gripe espanhola”.

– A segunda onda da gripe começou em agosto de 1918, tomando proporções importantes na Europa e nos cinco continentes, atingindo, também, muitos militares, com muitas baixas. A taxa de mortalidade pela doença atingiu o pico no mês de outubro de 1918.

– A economia mundial entrou em crise, com a falência de empresas em todos os continentes, sem contar a grave situação que vivia a Europa, recém saída da Primeira Grande Guerra.

– O autor declara (no ano de 2003) que se engana quem acha que essa epidemia espanhola é coisa do passado. Uma nova epidemia de gripe, tão mortal assim é uma ameaça constante. Existem instituições dedicadas ao monitoramento e controle permanente de doenças infecciosas no globo terrestre.

– O vírus causador da gripe espanhola, o influenza, é universal na natureza e apresenta taxas de mutação elevadas.

Finalmente, vejam só esse alerta feito em 2003, pelo autor: “O que existe é o risco da formação de um novo vírus influenza, com poder maior de infecção e de mortalidade”.

2) Registro histórico de algumas pandemias:

A partir da Gripe Espanhola (1918) podemos destacar as seguintes pandemias:

PERÍODOLOCALIZAÇÃOPANDEMIAVÍRUSNº de MORTES (*)
1918-1920MundialGripe EspanholaH1N117 a 50 milhões
1957-1960MundialGripe AsiáticaH2N22 milhões
1968-1969MundialGripe de Hong KongH3N21 milhão
1974ÍndiaVaríola 15.000
1981-PresenteMundialHIV/AIDS > 30 milhões
2009MundialGripe InfluenzaH1N1/0914.286
2013-2016ÁfricaEbolaEbola>> 11.300
2019-PresenteMundialNovo CoronavírusCovid-19> 500.000 (28/06/2020)
Fonte: Wikipédia / Internet (*) Valores Estimados

3) Registros da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (organizada em 1862):

“Em toda a história do Brasil até essa data, 1918, não se registrara uma epidemia tão forte e que tenha causado tantas mortes. Quase toda a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro sofreu com a gripe espanhola, como foi conhecida a gripe pneumônica.

Não havia remédios, médicos e urnas funerárias suficientes. Foi uma catástrofe que assolou o Rio de Janeiro e o mundo.

O mau cheiro dos cadáveres obrigou muitas famílias a se retirarem de suas casas para lugares mais distantes.

As cenas eram deprimentes; carroças, inclusive de lixo, transportavam pelas ruas os corpos em estado de decomposição.

O escritor e médico Pedro da Silva Nava registrou, na época, o cotidiano da cidade nesse período:

‘Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades – mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, que abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva’.

O Rev. Álvaro Reis, no seu relatório de 1918, registra o comportamento da sociedade carioca diante da pandemia. O charlatanismo, a estupidez e a idolatria dos cidadãos predominavam. Tudo em vão!”[3]

Registro de Membros:

ANOMEMBROS(*)ADMITIDOSFALECIDOS
191620816613
1917218510417
1918230512022
1919244213715
1920256212015
1921269413217
1922282813418
Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro

(*) Membros Maiores ou Comungantes (Total acumulado desde 12/01/1862 até em 31 de dezembro do ano em referência). Inclui todos os admitidos e demitidos desde a organização da Igreja.

Nas estatísticas anuais de membros da igreja observa-se no ano de 1918 uma elevação muito pouco significativa no número de membros falecidos.

4) Reflexões Finais:

a) A oportunidade de “cair na real”.

As crises nos oferecem a oportunidade de contemplar a realidade nua e crua da vida terrena. Apesar de poucos ou de muitos momentos prazerosos, o que está reservado ao ser humano, nesta vida, é o gemido e angústia.

“Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.” (Rm 8.20-23)

b) A oportunidade de ver o imperceptível.

Nestes momentos de pandemia e quarentena, Deus nos tem dado a oportunidade de refletir um pouco mais sobre a realidade da vida terrena que é breve e frágil; de volver nossos olhos para a história humana e perceber quantas aflições as gerações passadas sofreram. Não somos melhores do que eles. O fato é que as pandemias vêm sobre todos, sem pedir licença e sem se importar com aspectos que nós simples mortais muitas vezes usamos para fazer a diferença entre pessoas.

c) A oportunidade de recomeço.

Quando as epidemias aparecem e depois se vão, sempre deixam um rastro de destruição, porém, sempre existe a oportunidade de um recomeço. E, como a vida precisa continuar, seguir adiante, é necessário recolher os cacos e pavimentar o futuro, enquanto Deus nos permitir.

d) A oportunidade de olhar além.

Algo verdadeiramente importante é que nós cristãos não depositamos a nossa esperança nas coisas efêmeras e passageiras da vida presente. Caso contrário receberíamos do apóstolo a seguinte advertência: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1Co 15.18)

e) A oportunidade de cultivar a paciência.

Em tempos de quarentena, à medida que o tempo passa vai aumentando a ansiedade, a expectativa e o desejo por dias melhores, pela “volta da normalidade”. Mas é preciso cultivar a paciência até este momento angustioso acabar. Essa situação que estamos vivendo nos remete à expectativa de um evento incomparavelmente superior que devemos aguardar com paciência: “Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.” (2Pe 3.8). A pergunta que não quer calar é se também arde em nós a expectativa do término da “quarentena terrena” e o desejo da manifestação gloriosa do Senhor Jesus na sua segunda vinda.    

“aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,” (Tt 2.13)


[1] Fonte: Wikipédia

[2] Ujvari, Stefan Cunha – A história e suas epidemias. SENAC (2003)

[3] Livro: História da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (1862 – 2012)

O jejum bíblico

1 – O que é jejuar?

Da palavra grega “nestis” (“não comendo” ou “ter o estômago vazio”) se derivam outras duas: “nesteuo”, “jejuar” e  “nesteia” “jejum”. O verbo e o substantivo podem ter o significado mais geral de: “não comer”, “abster-se da comida”, ou “ficar sem comida”, “passar fome”. Estas palavras, no entanto, se empregam mais frequentemente no sentido de um ritual religioso.

“Jejuar” é abster-se de qualquer tipo de comida, durante um período limitado.

2 – Quando surgiu o jejum?

Acredita-se que nas religiões pagãs do mundo antigo, era praticado por medo de demônios, e com a ideia de que o jejum era um meio eficaz para se preparar um encontro com a divindade, pois criava o tipo correto de abertura diante da influência divina.

Em Israel, temos o registro no Antigo Testamento de que Moisés esteve com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, nos quais não comeu nem bebeu (Ex 34.28). Entretanto, o jejum, como um rito religioso, aparece pela primeira vez, associado ao rito da purificação, quando era requerido do povo o “afligir a sua alma” no dia da expiação (Lv 16.29, 31; 23.27, 32; Nm 29.7; Is 58.3; Sl 35.13).

“Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito,” (Sl 35.13)

3 – Qual é o verdadeiro motivo do jejum?

As formas e os propósitos do jejum são numerosos. O jejum se praticava em Israel como preparação para uma conversa com Deus (Ex 34.28; Dt 9.9; Dn 9.3).

a) Era praticado pelo indivíduo, quando se sentia oprimido por grandes dificuldades (2Sm 12.16-23; 1Rs 21.27; Sl 35.13; 69.10; 109.21-27).

“Mas tu, SENHOR Deus, age por mim, por amor do teu nome; livra-me, porque é grande a tua misericórdia. Porque estou aflito e necessitado e, dentro de mim, sinto ferido o coração. De tanto jejuar, os joelhos me vacilam, e de magreza vai mirrando a minha carne.” (Sl 109.21-22, 24)

b) Era praticado pela nação em perigos iminentes de guerra e destruição (Jz 20.26; 2Cr 20.3; Et 4.16; Jn 3.4-10); porque o campo estava assolado (Jl 1 e 2); para obter sucesso no retorno dos exilados (Ed 8.21-23); como rito de expiação de pecados (Ne 9.1); e, finalmente, em conexão com o juízo de Deus já determinado e que não seria interrompido  (Jr 14.11-12).

O jejum e a oração estão constantemente juntos (Jr 14.11-12; Ne 1.4; Ed 8.21, 23).

“Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus.” (Ne 1.4)

4 – Com que duração, frequência e abrangência era praticado o jejum?

O jejum judaico era praticado desde a manhã até à tarde (Jz 20.26; 1Sm 14.24; 2Sm 1.12), embora Ester 4.16 mencione um jejum de três dias.

“Então, todos os filhos de Israel, todo o povo, subiram, e vieram a Betel, e choraram, e estiveram ali perante o SENHOR, e jejuaram aquele dia até à tarde; e, perante o SENHOR, ofereceram holocaustos e ofertas pacíficas.” (Jz 20.26)

A lei israelita ordenava o jejum tão-somente no dia da expiação, no sétimo mês (Lv 16.29-31; 23.27-32; Nm 29.7). Depois da destruição de Jerusalém (587aC), foram determinados quatro períodos de observação de jejum como dias de lembrança (Zc 7.3-5; 8.19).

No decorrer do tempo, o significado mais profundo do jejum, como expressão do humilhar-se diante de Deus, foi perdido por Israel. Veio a ser considerada uma realização piedosa, com o fim de obter uma justiça à base de obras de auto retidão. A luta dos profetas contra esta descaracterização e esvaziamento do conceito não logrou êxito (Is 58.3-7; Jr 14.12). Até aos tempos de Jesus, os que eram sérios quanto à religião, especialmente os fariseus, receberam a obrigação de observarem dois dias de jejuns a cada semana (Lc 18.12). Os discípulos de João Batista tinham uma regra semelhante (Mc 2.18).

“jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” (Lc 18.12)

Quanto à abrangência, encontramos o jejum parcial e total:

a) No jejum praticado desde a manhã até à tarde o alimento deveria ser suprimido (Jz 20.26; 1Sm 14.24; 2Sm 1.12). Não fica clara a necessidade de supressão da água.

b) Ester 4.16 menciona um jejum total (sem comer e sem beber) de 3 dias.

c) Daniel jejuou por 3 semanas ou 21 dias (Dn 10.2-3). O registro bíblico sugere um jejum parcial: “Manjar desejável não comi, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas inteiras.” Provavelmente ele adotou aquela “dieta vegetariana” com legumes e água como no tempo em que ingressou na corte babilônica (Dn 1.12).

d) Moisés jejuou de forma total (sem comer e sem beber) por 40 dias e 40 noites (Ex 34.28; Dt 9.9). Certamente ele foi sobrenaturalmente sustentado por Deus.

e) Jesus jejuou 40 dias e 40 noites antes de iniciar seu ministério público “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” (Mt 4.2). Como não é mencionado no texto bíblico que ele teve sede, alguns deduzem que ele pode ter bebido água, caracterizando assim um jejum parcial. Outros preferem interpretar como tendo sido um jejum total, à semelhança de Moisés, pois Jesus não era menor do que aquele e, também, foi sobrenaturalmente sustentado por Deus.

Portanto, percebe-se que não há um padrão definido de duração, de frequência e de abrangência. Sem dúvida, o mais importante é a dedicação desse tempo de privação de prazeres gastronômicos, de “mortificação da carne”, para devoção e estreitamento da comunhão com Deus, com ou sem a motivação de uma situação difícil.

5 – Qual a relação de Jesus com o jejum?

a) O exemplo pessoal

O próprio Senhor Jesus jejuou 40 dias e 40 noites antes de iniciar seu ministério público: “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” (Mt 4.2).

b) O momento certo de jejuar

Quando questionado sobre a razão dos seus discípulos não estarem praticando o jejum, Jesus respondeu-lhes: “Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão.” (Mc 2.18-20). Nesta fala Jesus mostra a insensatez da prática do jejum enquanto ele estivesse com os discípulos. A presença do Messias, das boas novas da salvação que independem das boas obras – tudo isso significa alegria, que é algo incompatível com o jejum judaico. Entretanto, o jejum futuro não foi descartado.

c) A condenação do “jejum ostentação”

No sermão do monte, Jesus não condena o jejum propriamente dito, mas, sim, somente o jejuar com ostentação e hipocrisia (Mt 6.16-18). O jejum não deve ser realizado diante dos olhos dos homens, para aparentar uma super espiritualidade e piedade, mas diante de Deus que vive em segredo e vê o que está no lugar secreto.

d) A busca de autoridade e poder espirituais

Conforme as palavras de Jesus em Mateus 17.21, há certas condições de possessão demoníaca das quais o homem só pode ser liberto “por meio da oração e jejuns”. Deve-se observar que este versículo não se encontra em muitos manuscritos e que no seu paralelo, em Marcos 9.29, apenas se menciona a oração.

6 – Qual a relação da igreja com o jejum?

Na igreja primitiva, a oração era apoiada pelo jejum (At 13.2, 3; 14.23).

“E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23)

Talvez, a ausência do assunto nas epístolas do Novo Testamento, exceto as autobiografias de Paulo (2Co 6.5 e 11.27), levam alguns a concluir que a ideia de que o jejum tem valor em si mesmo tenha sido abandonada pela igreja cristã, que retinha a prática do jejum a fim de demonstrar que suas orações eram sinceras. Não há dúvida do valor de aplicar-se ao jejum, principalmente associado à oração. Deve-se apenas tomar o cuidado para não deslocar a procedência do poder espiritual de Deus, para o rito do jejum; de Deus, para o homem!

7 – Qual a posição da Igreja Presbiteriana do Brasil em relação ao jejum?

De uma forma bem sintética e objetiva podemos responder a esta pergunta citando dois de seus documentos:

No Catecismo Maior de Westminster, a pergunta 108 diz:

“108. Quais são os deveres exigidos no segundo mandamento?
Os deveres exigidos no segundo mandamento são – o receber, observar e guardar, puros e inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra, especialmente a oração e ações de graças em nome de Cristo; a leitura, a prédica, e o ouvir da Palavra; a administração e a recepção dos sacramentos; o governo e a disciplina da igreja; o ministério e a sua manutenção; o jejum religioso, o jurar em nome de Deus e o fazer os votos a Ele; bem como o desaprovar, detestar e opor-nos a todo o culto falso, e, segundo a posição e vocação de um, o remover tal culto e todos os símbolos de idolatria.”

No documento “Princípios de Liturgia” da IPB:

“CAPÍTULO XI – JEJUM E AÇÕES DE GRAÇA
Art.24 – Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças.
Art.25 – Os jejuns e ações de graças poderão ser observados pelo indivíduo ou família, Igrejas ou Concílios.”

A exposição é bem clara e, particularmente em momentos como este que o mundo está vivendo nestes primeiros meses do ano de 2020 se aplica perfeitamente o previsto nos artigos 24 e 25 acima transcritos.

8 – Outro “tipo” de jejum.

Jejum sexual

“Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento.” (1Co 7.5-6 NVI)

Em certos momentos da vida de um casal acontecem situações difíceis e aflitivas, como as de enfermidade na família, de desemprego, de catástrofes, dentre outras, quando não há nem clima nem espaço para um relacionamento conjugal normal. Talvez, pensando nisso, o apóstolo tenha se referido a esse “certo período de privação”, para se dedicar à oração, quando ocorrer o mútuo consentimento. Entretanto, ele orienta claramente a não se fazer privação unilateral e, mesmo quando ocorrer a privação mútua, o bom senso e a sensatez devem prevalecer sempre, para se evitar riscos e tentações.  

Conclusão

Finalmente, feita essa breve abordagem sobre o jejum bíblico, vale lembrar a advertência do profeta Isaías que estabelece o contraste entre a Verdadeira e a Falsa Adoração (Isaías 58). Ele é instado por Deus a clamar a plenos pulmões contra a transgressão do povo de Israel, que não se importando com o seu estado vil, buscava rotineira e mecanicamente a Deus, através das suas práticas religiosas, inclusive observando o jejum de um dia. Talvez, não tendo a exata noção da gravidade do seu estado espiritual decaído e da inutilidade e esterilidade dessas práticas religiosas sem o respaldo de uma vida santa, ainda ousavam reclamar que o Senhor não estava correspondendo e respondendo aos seus atos sacrificiais.

Que o Senhor nos ajude a viver uma vida santa, coerente com os ensinos bíblicos e aderente a vontade de Deus. Vida marcada pela prática da justiça e da misericórdia, jamais ancorada equivocadamente em práticas ritualistas vazias e elementos sacralizados pela religiosidade popular. Que o nosso momento de jejum seja sincero, autêntico e potencializador da nossa comunhão e intimidade com Deus!

Nota: Texto atualizado em 11/04/2020.

Crise e Esperança

Introdução

Comecemos relembrando os conceitos de Crise e Esperança.

Crise (gr. krisis; latim crisis) – Alteração no desenvolvimento normal de algo. Situação de tensão ou aflitiva. Desequilíbrio emocional ou nervoso súbito. Falta ou escassez de algo. Situação difícil, anormal e grave.

Esperança – é o ato de esperar aquilo que se deseja obter. Ter esperança é acreditar que alguma coisa muito desejada vai acontecer. (Antônimo: desespero)

SENSIBILIZAÇÃO

Nesta breve reflexão sobre o tema faremos, inicialmente, uma abordagem existencial, buscando a sensibilização de cada um quanto a aspectos que às vezes passam despercebidos no nosso cotidiano. Assim, sem atentarmos para eles, deixamos de evitar crises; ou, passando por crises, somos sufocados por elas, a ponto de quase sucumbir.

1. A REALIDADE DA CRISE

Imaginem este diálogo entre Adão e Eva: – Adão, meu marido, por que os rapazes ainda não chegaram para o almoço? Eles não costumam demorar tanto. – Minha querida, Abel estava cuidando do rebanho quando vi Caim chegar perto dele e, então os dois saíram em direção ao campo onde Caim estava trabalhando. Depois disso não os vi mais. – O que será que está acontecendo? É melhor você ir lá chamá-los. Algum tempo depois Adão retorna para casa, transtornado. Quando Eva o vê daquele jeito fica aflita. – O que aconteceu de tão grave, meu marido? Onde estão os rapazes? – Minha querida, nem sei como te dizer isso. (choro e suspiros). – Adão, você está me apavorando. Fala logo! Com muita dificuldade ele diz: – Meu amor, eu encontrei o corpo de Abel no chão, ensanguentado e pálido. Ele está morto! Não vi Caim. Desesperada ela sai ao encontro de Abel, gritando: – Meu Deus, isso não! Meu filhinho amado, não!

E, assim, desde as mais remotas épocas, as crises estão presentes nas famílias. Um descendente de Caim falou assim: “E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou.” (Gn 4.23). Ao longo da história bíblica e da humanidade, de uma forma ou de outra, todas as famílias enfrentaram crises: Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Jó, Anrão e Joquebede, Naamã, Elcana e Ana, Davi,…., José e Maria, os apóstolos etc. A crise é uma realidade; não é exclusividade de uma determinada pessoa ou família. Jesus nos preveniu: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33; ver Rm 8.31-39).

Entretanto, precisamos refletir sobre algumas questões: Determinadas crises podem ser evitadas?  Por que, aparentemente, alguns passam por mais crises do que outros? É preciso ter uma vida/família estruturada, organizada e equilibrada para estar mais disponível para ajudar outras pessoas e famílias!

2. OS AGENTES DA CRISE

a) As crises têm causas (naturais, humanas e sobrenaturais)

CAUSAS NATURAIS – desastres naturais, tempestades e enchentes, seca prolongada, epidemias e pandemias, doenças congênitas, doenças adquiridas (incuráveis), deficiências orgânicas causadas pelo envelhecimento do corpo, morte na família, dentre outras.

CAUSAS HUMANAS – são aquelas provocadas pelo ser humano; pelo próprio ou pelo outro; por suas ações e omissões; por suas invenções; seus governos ou desgovernos, por acidentes que provocam, dentre outras.

CAUSAS SOBRENATURAIS – são aquelas que acontecem devido à intervenção divina, inclusive os seus juízos; também aquelas provocadas pelo Diabo, com a permissão de Deus.

Vejamos, como exemplo, algumas crises mais relevantes ocorridas.

Nos primeiros meses de 2019:
– Brumadinho (rompimento de barragem – MG)(JAN)
– CT do Flamengo (incêndio)(FEV)
– Ricardo Boechat (queda de helicóptero)(FEV)
– Escola Raul Brasil-Suzano/SP (massacre)(MAR)
– Enchentes (várias cidades)(JAN-MAR)

Nos primeiros meses de 2020:
– Enchentes (várias cidades)(JAN-MAR)
– Pandemia do coronavírus (FEV-???)

Em mais de 6 décadas de vida nunca vivenciei uma crise como esta listada por último. Entretanto, a maior parte das crises que nos afetam tem causa humana. Se investigarmos essas causas humanas, certamente identificaremos alguns fatores comuns, tais como:

– Falta de prevenção/atenção ou descuido/negligência.
– Falta de responsabilidade/respeito.
– Ganância, egoísmo.

E, na base de todas as causas, o pecado!

b) Há situações que podem provocar crises (faltas, perdas)

É a perda ou falta de ente queridos, da saúde, do emprego, de relacionamentos, de bens, de respeito (booling), da consideração, de segurança, de confiança no outro.

Resiliência é uma palavra que se torna cada vez mais conhecida. É um termo que vem da física, como o fenômeno de retorno da mola, quando cessa a pressão sobre ela; é o retorno à posição vertical daquele boneco “João teimoso”. Na psicologia, significa o poder de recuperação do indivíduo após ser submetido a situações estressantes e dolorosas, a perdas, a calamidade. “O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de uma construção; se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males” (Dr. Alberto D’Auria).

Precisamos ser como bambus e varas verdes, que se dobram sob a pressão do vento, mas não se quebram. A vida é feita de perdas e ganhos, não podemos paralisá-la diante das perdas. Em nome de Jesus é preciso se libertar do passado. Isso é doentio!

c) As crises oferecem a oportunidade de reavaliação da vida, de comportamentos.

Às vezes se vive uma vida mediana, inexpressiva, marcada pelo comodismo. Aí, acontece uma crise, e com ela a reavaliação de tudo, provocando as mudanças necessárias.

Alguns vivem de forma fútil, confortável, porém vazia; focados nos bens, valores e prazeres materiais. Aí surge a crise e a pessoa redireciona o foco da sua vida para o que realmente tem valor.

d) As crises oferecem a oportunidade de um novo começo.

– Após a trágica morte de Abel temos o seguinte registro bíblico; porque é preciso seguir adiante: “Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou.” (Gn 4.25)

– Há “crises” e “perdas” que produzem vida. Jesus afirmou: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12.24)

– Assim respondeu Jó aos seus amigos: “Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos.” (Jó 14.7)

No canteiro abaixo fica fácil ilustrar essa ideia de recomeço.

Relembrando….

a) As crises têm causas (naturais, humanas e sobrenaturais)
b) Há situações que podem provocar crises (faltas, perdas)
c) As crises oferecem a oportunidade de reavaliação da vida, de comportamentos.
d) As crises oferecem a oportunidade de um novo começo.

3. A REALIDADE DA ESPERANÇA

A esperança é um ato desenvolvido por quem está vivo!  “Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto.” (Ec 9.4)

a) A esperança é invisível aos olhos naturais.

“Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?” (Rm 8.24)

Ainda que invisível, a verdadeira esperança não é fruto do imaginário, não é abstrata, não é ilusória, não é vã, não é baseada em crendices e nem nos discursos fantasiosos dos profissionais de autoajuda. Mas ela pode ser contemplada pelos olhos da fé. De onde ela vem?

b) A esperança tem procedência certa.

“Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.” (Sl 62.5)

“Bendito o homem que confia no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR.” (Jr 17.7)

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,” (1Pe 1.3)

De nada adianta colocar nossa fé e nossa esperança em pessoas e coisas; em falsos deuses e falsas promessas.

c) A esperança se extingue quando Deus é deixado de lado.

“Mas eles dizem: Não há esperança, porque andaremos consoante os nossos projetos, e cada um fará segundo a dureza do seu coração maligno.” (Jr 18.12)

Quando o ser humano decide ser o protagonista exclusivo do seu caminho, do seu destino; cativo da sua própria vontade e rompendo com Deus e sua vontade, fica à deriva ao sabor da própria sorte. Como decorrência do que foi dito no item anterior, isso é o que acontece quando se deixa de lado a fonte da esperança.

d) A esperança transpõe os portais da eternidade

“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1Co 15.19)

“por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho,” (Cl 1.5)

A Bíblia se expressa de forma clara e objetiva sobre o assunto. Porém, por vezes, nos envolvemos tão fortemente com as coisas desta vida que nos esquecemos de quanto a existência terrena é curta e transitória. Daí, quando surge uma ameaça efetiva à sua continuidade perdemos o chão.

e) A esperança precisa ser cultivada

“Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Rm 15.4)

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21)

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.” (Rm 5.3-4)

Sem dúvida é a palavra de Deus guardada em nossas mentes e corações e o testemunho verdadeiro de como Deus tem sustentado os seus filhos que há de nos suprir e fortalecer o ânimo e prover-nos de força interior para resistir no dia mau.

f) A esperança renova a alegria de viver

“regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes;” (Rm 12.12)

“E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13)

Nem sempre a vida é tão generosa conosco, cristãos ou não. No entanto, a esperança do cristão é real e verdadeira conseguindo produzir nele a renovação da alegria de viver, de seguir adiante.

g) Não desista da esperança!

“Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência.” (Rm 4.18)

“na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Rm 8.21)

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (1Co 13.13)

“E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro.” (1Jo 3.3)

Vale lembrar aquelas máximas populares: “Enquanto há vida, há esperança”; “A esperança é a última que morre”. Portanto, por mais difícil que seja a situação ou mais improvável que seja a realização ou a solução, a mensagem é “não desista, mantenha a esperança!”

h) Somos chamados para sermos agentes da esperança

“Pois quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?” (1Ts 2.19)

“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15)

Por fim, acima e além de ter esperança, o chamamento divino através do apóstolo Paulo é para encarnarmos a esperança cristã. Assim, personificando a esperança, temos a missão de ir e transmiti-la a quem dela necessitar.

Relembrando….

a) A esperança é invisível aos olhos naturais.
b) A esperança tem procedência certa.
c) A esperança se extingue quando Deus é deixado de lado.
d) A esperança transpõe os portais da eternidade.
e) A esperança precisa ser cultivada.
f) A esperança renova a alegria de viver.
g) Não desista da esperança!
h) Somos chamados para sermos agentes da esperança.

Conclusão

É preciso ter uma postura correta no cotidiano para prevenirmos crises e evitarmos ser Agentes da Crise!

É preciso ter uma vida/família estruturada, organizada e equilibrada para estar mais disponível para ajudar outras pessoas e famílias!

Num mundo envolto em tantas crises, sejamos sempre proativos, sejamos Agentes da Esperança!

A Verdade que Liberta

“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8.31-32)

Introdução

Lá pelos idos da década de 1980, com um filho bem pequeno, fui sozinho à uma farmácia comprar remédio pra ele. Estando lá dentro, bem ao fundo, de repente começou um certo tumulto. Percebi, então, que havia um homem na entrada anunciando um assalto. Nunca tinha passado por isso e fiquei um tanto quanto apreensivo. Numa hora como essa a gente sente a total falta de liberdade. Não se pode sair do local para escapar e nem pensar em reagir, enfrentando o meliante. É só contar com a graça e misericórdia de Deus para que nenhuma tragédia aconteça. Felizmente o desfecho foi muito melhor do que se podia imaginar. O sujeito estufava a camisa parecendo estar com uma arma por baixo dela. De algum modo perceberam que era uma simulação, que não era uma arma, mas um toco de madeira e colocaram o homem pra correr. Sem dúvida, quando a verdade veio à tona fomos libertos daquela situação.

Nosso propósito aqui é refletir sobre a Verdade que traz a mais grandiosa liberdade.

1) A necessidade de liberdade

Por que necessitamos de algo? Porque não temos. Porque de alguma forma estamos convencidos de que precisamos. Porque este algo trará um certo equilíbrio ao nosso ser, como um todo. Através do equilíbrio do nosso organismo (metabolismo físico), do nosso intelecto (mente, razão) e do nosso emocional (sentimentos, afetos), teoricamente se consegue um estado de bem estar, de paz e de tranquilidade. Na prática tenho a certeza de que o ser humano, por si só, é incapaz de conseguir isso.  As variáveis são muitas e não temos o controle sobre todas elas.

A natureza que nos cerca busca o estado de equilíbrio em todo o tempo.  A diferença entre o que temos ou somos, e o que queremos ter ou ser, constitui um desequilíbrio que gera a vontade, que por sua vez exige condições mínimas para nos mover. E a vontade é a força motriz da vida!

Supondo que o ser humano natural sempre pudesse exercer a sua vontade no sentido de buscar as coisas verdadeiramente necessárias para trazer equilíbrio ao seu ser, o que seria muito nobre (desde que não infringisse a lei dos homens e a de Deus), ainda assim ele não conseguiria alcançar a plenitude do seu ser, porque além das barreiras naturais (as necessidades humanas são infinitas e insaciáveis) existe a barreira da vontade do outro que não necessariamente é conciliável com a dele e, certamente, em algum momento entrará em choque com a sua.

Parece que numa acepção mais simples da palavra, liberdade é o exercício da vontade, sem restrições internas ou externas ao ser. Se assim é, então, podemos dizer que a liberdade se constitui no alvo mais importante a ser conquistado pelo ser humano natural.

2) A busca da liberdade

Por que buscamos algo? Porque não temos. Quem sabe já tivemos, porém perdemos. Ou, nunca tivemos e sentimos a necessidade de ter.

A busca da liberdade, então, é a busca pela realização da nossa vontade, no sentido da realização completa do nosso ser. Para melhor entender essa situação, precisamos retornar às nossas origens.

Deus criou com todo o esmero todas as coisas necessárias à sobrevivência do homem. Por fim, criou também o ser humano, à sua imagem e semelhança (Gn 1.27 – pessoal, racional e moral). Deus colocou toda a criação sob o domínio de Adão (Gn 1.27-28). Porém, faltava-lhe algo. Adão não se completava naqueles animais ou nas demais coisas criadas (Gn 2.20). Deus, então, lhe fez uma companheira idônea e Adão suspirou aliviado (Gn 2.21-24). Então, Deus propôs ao casal o exercício da sua vontade (Gn 1.28-30), num tempo em que havia perfeita harmonia na natureza. Antes, porém, Deus os submeteu a um teste para provar sua vontade (Gn 2.16-17) e o casal falhou (Gn 3). Surgem aqui algumas perguntas que precisam ser consideradas e esclarecidas à luz da verdade: 1ª) Deus foi o culpado: a)Ele restringiu a liberdade de um ser que foi criado para exercer sua própria vontade. Errado! Adão, ao exercer sua vontade, violou a vontade de outrem que lhe era infinitamente superior. Com isso demonstrou que seria incapaz de respeitar a vontade dos seus semelhantes, muito mais ainda porque estes estariam no mesmo nível humano dele. Com a falta de domínio sobre sua vontade ficou provado que ele não tinha condições para viver harmoniosamente em sociedade. b) Deus não o alertou sobre a tragédia que essa desobediência traria para ele e para o mundo. Errado! É só conferir em Gênesis 2.17 a advertência divina. c) Deus falhou na constituição do ser humano. Errado! Deus criou um ser à sua imagem, com vontade própria e não um robô. Além disso se propunha a orientá-lo diretamente, se esse lhe fosse submisso.  d) Deus deixou tudo pronto para Adão e com isso ele não tinha onde aplicar a sua vontade. Errado! Deus lhe entregou um mundo na “forma bruta”, lhe deu todos os recursos materiais e inteligência para dele cuidar. O grande problema de Adão e Eva é que eles escolheram dar ouvidos a uma outra voz que questionava a ordem de Deus. Esta voz satânica lhe apresentou uma nova versão da ordem divina, mais fácil, mais atraente e ambiciosa, porém mentirosa, “ser como Deus”.

3) A verdadeira liberdade

As consequências da queda do homem no Éden foram devastadoras. Desde a queda se vê a atuação de Deus no mundo controlando gente pecadora e um mundo contaminado pelo pecado. No dilúvio Deus destruiu o mundo de então, promovendo um novo início da humanidade, a partir da família de Noé e dos animais que foram preservados na arca. Porém os pecadores e seus pecados continuaram. Entretanto, em todo o tempo, Deus tinha em mente resgatar e salvar o ser humano caído. Ele pavimentou esse caminho e manifestou seu propósito à humanidade através de uma revelação progressiva: o patriarca Abraão, o povo de Israel e, por fim, Jesus Cristo, seu filho encarnado. Este, além de dar a sua vida para pagar o preço dos nossos pecados e nos reconciliar com Deus, nos deu a sua nova lei, a sua palavra (Mt 22.36-39). Deus, também, no deu o seu Espírito Santo, para habitar em nós e instituiu a sua igreja, para ajuntamento do seu povo (1Co 6.9-11).

Jesus é a Verdade que Liberta; através da sua vida, da sua redenção, da sua palavra e do Espírito Santo que em nós habita!

Conclusão

Estas palavras do apóstolo Paulo expressam bem a missão de Jesus realizada em nosso favor para nos conduzir à verdadeira liberdade.

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,  aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,  o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.” (Tt 2.11-14).

Essa verdadeira liberdade pode ser descrita como a nossa vontade pessoal dentro da vontade perfeita de Deus, dirigida e controlada pelo Espírito de Deus que habita em nós, o que foi objeto da oração de Jesus ao Pai Celestial: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.20-21)

Áquila e Priscila

Introdução:

A Bíblia está repleta de narrativas de personagens dos quais podemos dizer que vivenciaram uma espécie de “carreira solo”, isto é, eles aparecem em primeiro plano, recebendo maior foco, como protagonistas; tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Quando o foco é o casal, o Antigo Testamento registra a história de alguns deles, desde Adão e Eva, passando por Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Salmon e Raabe, Sansão e Dalila, Boaz e Rute, Elcana e Ana, Davi e Bate-Seba, Acabe e Jezabel etc. Ao chegar no Novo Testamento nos deparamos com dois casais que se destacam nas narrativas dos Evangelhos: Zacarias e Isabel, por terem trazido ao mundo João Batista, aquele que veio preparar o caminho de Jesus; e, José e Maria, que cuidaram do Jesus menino, gerado em Maria, pelo Espírito Santo, como o Messias Salvador. Entretanto, a partir da ascensão de Cristo e da inauguração da igreja, um casal se destaca negativamente dos demais, Ananias e Safira e outro, positivamente, Áquila e Priscila. Abordaremos aqui este último e veremos que não é sem razão ou por acaso que ele é lembrado pelos cristãos.

1. Um casal que é uma carta aberta  (At 18.1-2)

“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens,” (2Co 3.2)

A vida deste casal é, sem dúvida, uma carta aberta, conhecida e lida por todos os que têm alguma intimidade com o livro sagrado – a bíblia. Ao refletir sobre a história de vida deles muito podemos enriquecer a nossa própria história e certamente seremos desafiados a seguir o seu exemplo.

Para quem imaginava que na antiguidade só havia machismo, inclusive na igreja nascente, vai se surpreender com o equilíbrio de tratamento, de valor e de desempenho de papéis no que se refere a este casal. Nas seis citações sempre aparece, no registro bíblico, os dois nomes, sendo que duas vezes na ordem “Áquila e Priscila” (1Co 16.19 e At 18.2) e, quatro vezes, “Priscila (ou Prisca) e Áquila” (At 18.18, 26; Rm 16.3 e 2Tm 4.19). O fato do nome da esposa ter aparecido tantas vezes na frente do nome do marido tem levado alguns comentaristas bíblicos a deduzirem que Priscila tinha uma personalidade mais forte ou que ela descendia de uma família romana proeminente, mas que não se tem como provar.

Por falar em nome, Áquila significa “águia” e Priscila significa “que pertence a Prisco” ou “da natureza de Prisco”, “familiar de alguém venerável”. “Prisco”, por sua vez, do latim Priscus tem o sentido de “o antigo”, “o velho” ou “o venerável”, de modo que Priscila significa “familiar de alguém venerável”1.

Áquila era judeu, natural do Ponto, uma província da Ásia Menor, no norte da atual Turquia. Naquela região morava um certo número de judeus, que estiveram em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.9) e, posteriormente, é mencionada por Pedro como local onde se encontravam eleitos, forasteiros da dispersão (1Pe 1.1). Não temos mais informações sobre a origem de sua esposa Priscila.

Este distinto casal é citado no NT, sempre pelo apóstolo Paulo, seis vezes. A primeira informação que temos do casal é que havia chegado recentemente em Corinto, quando Paulo se aproximou deles, tendo sido expulsos de Roma, pelo imperador Claudio2  (41 a 54 dC), que decretou que os judeus se retirassem da capital do Império, por volta de 49 dC.

Segundo o historiador Suetônio, ele teria expulsado os judeus de Roma por estarem envolvidos em agitações devido a um certo “Cresto” (Chrestus), um termo que poderia referir-se a Cristo (Christus). Se isso é verdade, então é provável que o Evangelho estava chegando às Sinagogas Romanas e encontrando resistência e reações fortes por parte dos judeus mais arraigados à lei mosaica. É o que acontecia em toda a parte e deu ensejo a uma acusação como a de Tessalônica: “…Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui,” (At 17.6b).

Segue um quadro resumo dessas seis citações do casal:

Texto Bíblico Data Local onde Áquila e Priscila estavam ou residiram
Atos 18.1-3 52-53 dC Em Corinto, juntos com Paulo (2ª viagem missionária)
Atos 18.18-19 54 dC Em Éfeso, juntos com Paulo (2ª viagem missionária)
Atos 18.24-27 54 dC Em Éfeso, sem Paulo (3ª viagem missionária)
1Coríntios 16.19 57 dC Em Éfeso, com Paulo quando ele escreveu 1Coríntios (1Co 16.8)
Romanos 16.3-5 57-58 dC Em Roma, sem Paulo quando ele escreveu Romanos, de Corinto.
2Timóteo 4.19 67 dC Em local ignorado, sem Paulo quando ele escreveu 2Timóteo, de Roma.

2. Um casal de mente e coração abertos (At 18.2b)

Não está claro no texto bíblico se o casal foi evangelizado por Paulo ou se já eram convertidos quando o apóstolo se aproximou deles (At 18.2b). O fato é que em algum momento das suas vidas, provavelmente em Roma, eles abriram a mente e o coração para o Evangelho de Cristo e sua obra. Pelo que é dito deles foi uma entrega por inteiro!

3. Um casal de mãos abertas  (At 18.3-5)

Áquila e Priscila, marido e esposa, tinham a profissão de fazer tendas (At 18.3). Ambos estavam juntos no mercado de trabalho buscando o sustento da família. Expulsos de Roma, chegaram a Corinto e estabeleceram o seu negócio. Foi ali que se encontraram com o apóstolo Paulo, na sua segunda viagem missionária. Em terra estrangeira era comum os judeus se aproximarem de seus compatriotas e Paulo tinha um motivo a mais, que era a sua identificação com o mesmo ofício deles. Assim, Paulo passou a morar e a trabalhar com eles. Durante a semana o apóstolo trabalhava e aos sábados discorria na sinagoga. Isso mostra que a cobertura financeira para a viagem missionária de Paulo também dependia do seu trabalho. Assim, seu trabalho evangelístico maior se desenvolvia aos sábados, quando os judeus e gregos se reuniam nas sinagogas (At 18.4). O texto bíblico relata que apenas quando Silas e Timóteo chegaram ali é que Paulo pôde se dedicar em tempo integral à Evangelização e Ensino da Palavra (At 18.5).

Fica evidente que esse casal trabalhador logo apoiou e ajudou a sustentar a obra missionária da Igreja, através de Paulo, concedendo-lhe moradia e oportunidade de trabalho.

4. Um casal de olhos abertos (At 18.18)

Quando Paulo parte para Éfeso ele se despede de alguns irmãos, o que evidencia a existência de uma igreja nascente ali em Corinto (At 18.18). Entretanto, é significativo que ele leva em sua companhia o casal Priscila e Áquila. Por um lado, certamente ele via no casal uma vocação para apoio à obra missionária, não somente no sentido material, mas também no sentido espiritual, no que se refere à consistência e maturidade da sua fé. Por outro lado, chama a atenção o desprendimento do casal de acompanhar o apóstolo. Não temos a informação se Paulo os convidou ou se eles se ofereceram. Entretanto, a expressão “levando em sua companhia” (At 18.18) transmite a impressão de que o casal já fazia parte da equipe de Paulo. Ter os olhos abertos significa ter visão de vida e visão ministerial. Ter o foco em Deus e na sua obra. Dispor-se a deixar a sua zona de conforto e avançar na missão, no “IDE” de Jesus. Buscar o Reino de Deus como prioridade de vida, na certeza que as demais coisas nos serão acrescentadas.

5. Um casal de boca aberta (At 18.19, 23-28)

“Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava aos judeus.” (At 18.19).

O casal amigo de Paulo, Áquila e Priscila, chega à cidade de Éfeso onde parece haver a intenção do apóstolo de estabelecer ali na casa deles uma base de apoio missionário para toda aquela região da Ásia. Eles se estabelecem ali e Paulo prossegue no seu avanço missionário, já concluindo sua segunda viagem e retornando à Antioquia (54 dC).

Passado algum tempo, ainda no ano de 54 dC, enquanto o apóstolo Paulo empreendia a sua terceira viagem missionária, surge um fato relevante ali em Éfeso que mereceu o registro bíblico, por Lucas. Um judeu, chamado Apolo, homem bastante eloquente e conhecedor das Escrituras, passa  discorrer ali na sinagoga de Éfeso. Apesar do seu poder de persuasão ele tinha um conhecimento limitado ao batismo de João. Naquela ocasião, Priscila e Áquila também frequentavam a sinagoga de Éfeso. Usando de grande sabedoria, prudência e discrição, conhecedores da fé cristã, em vez de colocar o vibrante pregador em dificuldade diante dos seus ouvintes, tomam-no à parte e lhe expõe “o caminho de Deus” com mais exatidão (At 18.23-26). O casal nos ensina que não basta conhecer alguma coisa da fé cristã; é preciso buscar a integridade doutrinária e ajudar os outros neste sentido.

Portanto, a estratégia de Paulo começa a surtir efeito e serve de exemplo para os pastores e líderes do povo de Deus. A liderança não é capaz de dar conta de toda a obra, sozinha. É preciso multiplicar pontos de apoio onde haja pessoas preparadas para ensinar, instruir, orientar e aconselhar, inclusive os novos pregadores. Por outro lado, todo o crente é desafiado a se preparar para os embates da vida cristã: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15).

Apolo era um pregador valoroso e entusiasmado com o que fazia. Tendo sido devidamente instruído e desejando prosseguir nesta obra, percorrendo a Acaia, encontra no casal de “boca aberta” e nos outros irmãos de Éfeso, palavras e atitudes de encorajamento (At 18.27-28).

6. Um casal de portas abertas (1Co 16.19; Rm 16.3-5)

“As igrejas da Ásia vos saúdam. No Senhor, muito vos saúdam Áquila e Priscila e, bem assim, a igreja que está na casa deles.” (1Co 16.19)

“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus,…. saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles.” (Rm 16.3, 5a)

Vale lembrar que o casal residiu (ou permaneceu algum tempo) em várias cidades: Roma, Corinto, Éfeso, Roma e, depois, em local ignorado (talvez Éfeso). Quando Paulo escreveu a Primeira Epístola aos Coríntios, em 57 dC, ele estava em Éfeso, onde Áquila e Priscila residiam.  Fica evidente na saudação de 1Coríntios 16.19 que o casal acolhia em sua casa a igreja de Cristo. Quando Paulo escreveu a Epístola aos Romanos, em 57-58 dC, ele estava em Corinto, sendo que Áquila e Priscila residiam em Roma, onde também se reunia uma igreja na casa deles. Entretanto, há estudiosos que consideram o capítulo 16 de Romanos como um apêndice de uma outra epístola escrita para Éfeso. Neste caso, o casal não estaria em Roma, mas permanecia em Éfeso.

Naquela ocasião era muito comum as igrejas locais estarem sediadas em casas e não em templos, como se vê hoje. Isso demonstra desprendimento e compromisso total do casal com o reino; com o Deus da obra e com a obra de Deus.  Colocar a nossa vida, nossa casa e nossos bens a serviço de Deus é o grande desafio do cristão. Tem tudo a ver com o renunciar qualquer coisa por amor a Cristo.

7. Um casal de espírito aberto (Rm 16.3-4)

“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios;” (Rm 16.3-4)

a) Espírito aberto a cooperar.

Cooperação é uma ação conjunta para uma finalidade ou objetivo em comum. Fica evidente naquilo que se diz a respeito deles, o quanto viviam em sintonia e cooperação, um com o outro, o casal com o apóstolo Paulo e demais irmãos, e todos os crentes com Deus, pois fomos chamados de “cooperadores de Deus” (1Co 3.9). A igreja é chamada de “corpo de Cristo” e individualmente, membros desse corpo (1Co 12.27), para agirmos da forma como acontece no corpo humano, onde cada membro ou parte do corpo, com sua função específica, contribui para o funcionamento do todo (Ef 4.15-16). Áquila e Priscila entenderam bem essa questão e fizeram parte do rol dos cooperadores de Paulo.

b) Espírito aberto a se sacrificar.

Naquela época ser cristão era correr o risco de ser perseguido e de perder a vida. O casal Priscila e Áquila deixaram um testemunho para nós e para a história da igreja que foi muito além do risco pessoal. Tal era o comprometimento deles com Deus e com a igreja de Cristo que eles arriscaram suas vidas pelo apóstolo Paulo, gerando gratidão no coração de Paulo e em todas as igrejas que amavam, zelavam e oravam pela vida e integridade física do apóstolo dos gentios. Não sabemos exatamente como isso aconteceu.

Servir e cooperar na obra de Deus é muito bom; entretanto ser encontrado digno de sofrer ou morrer por amor a Cristo (não por ser uma pessoa inconveniente ou insuportável) e em defesa do Evangelho é galgar um nível mais elevado (At 5.41).

Conclusão:

“Saúda Prisca, e Áquila, e a casa de Onesíforo.” (2Tm 4.19)

Esta última menção de Paulo ao casal de amigos, se deu dez anos depois (67 dC). Paulo, prisioneiro em Roma (2Tm 1.8, 17) como resultado da perseguição de Nero aos cristãos, estava próximo da sua execução e morte (2Tm 4.6) quando escreveu a segunda Epístola ao seu filho na fé Timóteo. Mesmo naquelas circunstâncias ele não deixou de enviar suas saudações a Áquila e Priscila (ou Prisca), por intermédio de Timóteo. Pessoas da estatura desse casal jamais são esquecidas e ficam como exemplo a ser seguido.

Se quiséssemos encontrar frases para sintetizar o que foi esse casal na história da igreja, diríamos assim:

– Juntos, em Cristo e por Cristo.

– Trabalho e cooperação, sem murmuração.

– Conhecimento e prática a serviço da igreja de Cristo.

– Instrumentos escolhidos e capacitados por Deus para dar apoio à sua obra.

– Coragem para enfrentar sofrimento e perseguição.

– Desprendimento e disposição para ir ou para ficar, segundo a vontade de Deus.

– Resiliência e adaptação às situações da vida.

– Vida e bens à disposição do Senhor.

– Cristãos relevantes e dedicados à expansão e fortalecimento do Reino de Deus.

Finalmente, não podemos deixar de ressaltar que, ao contrário de muitos cristãos ou obreiros de hoje, que são movidos por cargos ou gratificações financeiras, não se menciona que Áquila e Priscila tivessem algum cargo eclesiástico ou recebessem alguma remuneração. Simplesmente se contentavam com o privilégio de serem servos de Deus. Estavam mais preocupados em fazer do que em serem elevados, engrandecidos; em dar, do que em receber. Que isto nos sirva de exemplo e motivação!

Bibliografia:

  1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
  2. Bíblia Online – SBB.
  3. Reese, Edward; Klassen, Frank – A Bíblia em ordem cronológica.
  4. Champlin, Russell Norman, Ph.D. – O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo – Melenium.
  5. Pfeiffer, Charles F. ; Harrison, Everett F. – Os Evangelhos e Atos – Comentário Bíblico Moody.
  6. Dicionário de Nomes Próprios (Internet).
  7. Wikipédia (Internet).

[1] Dicionário de Nomes Próprios (Internet).

[2] Claudio: Tibério Cláudio César Augusto Germânico (em latim Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus), o quarto imperador romano, sucessor de Calígula e antecessor de Nero. (Wikipédia)

Menos é Mais, Um é Tudo!

Introdução

Quem nunca ouviu ou fez um comentário do tipo “menos é mais”, principalmente quando se não gosta do que está vendo ou do que viu? O objeto da avaliação pode ser muito variado. Por exemplo: a decoração de um ambiente muito carregada; um vestuário com muita mistura de padrões de tecido e cores (“com muita informação”); a maquilagem muito pesada e extravagante; um prato de comida com muita quantidade de itens nada saudáveis e pouca qualidade de nutrientes; e, até mesmo, na questão da comunicação, quando o sujeito fala demais e acaba sendo inconveniente, falando o que não devia e passando a imagem errada.

Em qualquer área da nossa existência é possível identificar casos ou situações onde é perfeitamente aplicável o comentário “menos é mais”, inclusive quando se trata de crença ou religião. Que fique claro aqui que não estou me referindo ao caso de “ter menos fé” como sendo algo mais adequado do que “ter muita fé”.  Porém, cabe aqui uma reflexão sobre o(s) objeto(s) da fé da pessoa. Desde a antiguidade a humanidade cultiva uma falsa ideia de que quanto mais deuses se cultua ou adora, mais seguro, protegido e feliz será. O politeísmo (do grego: polis, muitos, théos, deus: muitos deuses), por definição, é a crença e subsequente adoração a mais de uma divindade, sendo que cada uma é considerada uma entidade individual e independente com uma personalidade e vontade próprias, governando ou atuando sobre diversas atividades, áreas, objetos, instituições, elementos naturais e mesmo relações humanas. Nem sempre estas se encontram claramente diferenciadas, podendo naturalmente haver uma sobreposição de funções de várias divindades (Dt 17.3).

A própria bíblia menciona e condena o culto a inúmeros deuses pelos povos antigos, sendo que não é nosso objetivo avançar nesta área. A Bíblia, desde o seu primeiro capítulo e versículo (Gn 1.1), apresenta o Deus Único, Vivo e Verdadeiro, Criador e Sustentador dos Céus e da Terra! Quando Deus inicia o processo de formar um povo de sua propriedade exclusiva, ele chama a Abrão, da terra de Ur dos Caudeus – um rico, populoso e avançado centro pagão da Mesopotâmia, um lugar onde se praticava a idolatria. A primeira menção, na Bíblia, a ídolos (do lar) encontra-se em Gênesis 31.19; e a deuses, referindo-se a esses mesmos ídolos, em Gênesis 31.30, furtados por Raquel, esposa de Jacó. Já na base da formação do povo de Deus, Israel, havia a influência idólatra do ambiente interno e externo. Depois de conviver com os egípcios, por cerca de 430 anos (Ex 12.40), o povo de Israel se deixou influenciar pela idolatria. Com a saída do Egito, um novo tempo começou, e o combate divino à adoração idólatra continuou com força total, já no primeiro dos dez mandamentos: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.” (Ex 20.2-3). Pode-se dizer, então, que, nesta área de crença e religião, adoração e culto à divindade, não cabe a ideia do MENOS É MAIS, porém, a ideia e conceito de que UM (DEUS) É TUDO! “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.” (Sl 23.1).

Ao longo dos tempos, essa foi a grande luta de Deus com seu povo Israel e tem sido a grande luta da igreja de Cristo, ao evangelizar as pessoas. Satanás jamais desistiu e desistirá de investir para fazer com que o ser humano não foque sua adoração e intercessão somente em Deus. Se uma pessoa não teve um encontro pessoal e verdadeiro com Deus, em momentos de dificuldade e de crise, estará muito mais susceptível a buscar ajuda sobrenatural e espiritual em qualquer lugar.

É preciso esclarecer que Deus é Soberano, é Todo Poderoso, mas recebe a todos, diretamente, sem intermediários humanos: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.” (Is 57.15). Em momentos difíceis, podemos e devemos buscar apoio nos parentes e amigos mais chegados, para juntos buscarmos a ajuda do Alto, do Pai Celeste, se é que já fomos feitos filhos de Deus, pela regeneração e novo nascimento, em Cristo.

Deus jamais estabeleceu intermediários como Maria, ou santos, ou padres, ou papas, ou pastores, ou gurus, ou orixás, ou pais de santo, avatares ou monges, para fazerem esta intermediação: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” (1Tm 2.5). Vejamos o que diz a Bíblia sobre algumas “coisas” únicas:

a) O Deus único

“todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.” (1Co 8.6)

“A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.” (Mt 23.9)

“Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas o próximo?” (Tg 4.12)

“Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto.” (Lc 4.8)

b) Jesus, o Filho unigênito de Deus

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” (1Tm 2.5)

“Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.” (Mt 23.8)

“Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.” (Mt 23.10)

“Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo.” (2Co 11.2)

c) Um só Espírito

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.” (1Co 12.13)

d) Uma só igreja, a Igreja de Cristo

“assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros,” (Rm 12.5)

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;” (Fp 1.27)

e) Nossa escolha: – Uma só opção correta!

“Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” (Lc 10.42)

Finalmente,

“há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Ef 4.5-6)

“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.” (Tg 2.19)

Num ambiente tão secularizado e materialista, como o desse mundo pós-moderno em que vivemos, crer na existência de Deus já é grande coisa. Porém, nossa crença precisa ir muito além da crença que até os demônios têm! É preciso que Deus viva em nós e que nós cumpramos plenamente os seus propósitos durante essa curta caminhada terrena.

Se uma doença é humanamente incurável, de que adianta tomar um ou todos os medicamentos existentes? O pecado é uma doença espiritual e humanamente incurável. De que adianta apelar para uma ou todas as religiões existentes? Somente Deus proveu a cura para o pecado – o sacrifício de seu Filho na cruz do Calvário!

Lembre-se que, na terra, é possível que vários caminhos nos levem a determinado lugar; entretanto, há um só caminho que nos conduz a Deus e ao céu – Jesus Cristo!

Lembre-se que, muitas vezes, menos é mais; porém, em assuntos espirituais, UM (DEUS) É TUDO!

%d blogueiros gostam disto: