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O jejum bíblico

1 – O que é jejuar?

Da palavra grega “nestis” (“não comendo” ou “ter o estômago vazio”) se derivam outras duas: “nesteuo”, “jejuar” e  “nesteia” “jejum”. O verbo e o substantivo podem ter o significado mais geral de: “não comer”, “abster-se da comida”, ou “ficar sem comida”, “passar fome”. Estas palavras, no entanto, se empregam mais frequentemente no sentido de um ritual religioso.

“Jejuar” é abster-se de qualquer tipo de comida, durante um período limitado.

2 – Quando surgiu o jejum?

Acredita-se que nas religiões pagãs do mundo antigo, era praticado por medo de demônios, e com a ideia de que o jejum era um meio eficaz para se preparar um encontro com a divindade, pois criava o tipo correto de abertura diante da influência divina.

Em Israel, temos o registro no Antigo Testamento de que Moisés esteve com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, nos quais não comeu nem bebeu (Ex 34.28). Entretanto, o jejum, como um rito religioso, aparece pela primeira vez, associado ao rito da purificação, quando era requerido do povo o “afligir a sua alma” no dia da expiação (Lv 16.29, 31; 23.27, 32; Nm 29.7; Is 58.3; Sl 35.13).

“Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito,” (Sl 35.13)

3 – Qual é o verdadeiro motivo do jejum?

As formas e os propósitos do jejum são numerosos. O jejum se praticava em Israel como preparação para uma conversa com Deus (Ex 34.28; Dt 9.9; Dn 9.3).

a) Era praticado pelo indivíduo, quando se sentia oprimido por grandes dificuldades (2Sm 12.16-23; 1Rs 21.27; Sl 35.13; 69.10; 109.21-27).

“Mas tu, SENHOR Deus, age por mim, por amor do teu nome; livra-me, porque é grande a tua misericórdia. Porque estou aflito e necessitado e, dentro de mim, sinto ferido o coração. De tanto jejuar, os joelhos me vacilam, e de magreza vai mirrando a minha carne.” (Sl 109.21-22, 24)

b) Era praticado pela nação em perigos iminentes de guerra e destruição (Jz 20.26; 2Cr 20.3; Et 4.16; Jn 3.4-10); porque o campo estava assolado (Jl 1 e 2); para obter sucesso no retorno dos exilados (Ed 8.21-23); como rito de expiação de pecados (Ne 9.1); e, finalmente, em conexão com o juízo de Deus já determinado e que não seria interrompido  (Jr 14.11-12).

O jejum e a oração estão constantemente juntos (Jr 14.11-12; Ne 1.4; Ed 8.21, 23).

“Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus.” (Ne 1.4)

4 – Com que duração e frequência era praticado o jejum?

O jejum judaico era praticado desde a manhã até à tarde (Jz 20.26; 1Sm 14.24; 2Sm 1.12), embora Ester 4.16 mencione um jejum de três dias.

“Então, todos os filhos de Israel, todo o povo, subiram, e vieram a Betel, e choraram, e estiveram ali perante o SENHOR, e jejuaram aquele dia até à tarde; e, perante o SENHOR, ofereceram holocaustos e ofertas pacíficas.” (Jz 20.26)

A lei israelita ordenava o jejum tão-somente no dia da expiação, no sétimo mês (Lv 16.29-31; 23.27-32; Nm 29.7). Depois da destruição de Jerusalém (587aC), foram determinados quatro dias de jejum como dias de lembrança (Zc 7.3-5; 8.19).

No decorrer do tempo, o significado mais profundo do jejum, como expressão do humilhar-se diante de Deus, foi perdido por Israel. Veio a ser considerada uma realização piedosa, com o fim de obter uma justiça à base de obras de auto retidão. A luta dos profetas contra esta descaracterização e esvaziamento do conceito não logrou êxito (Is 58.3-7; Jr 14.12). Até aos tempos de Jesus, os que eram sérios quanto à religião, especialmente os fariseus, receberam a obrigação de observarem dois dias de jejuns a cada semana (Lc 18.12). Os discípulos de João Batista tinham uma regra semelhante (Mc 2.18).

“jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” (Lc 18.12)

5 – Qual a relação de Jesus com o jejum?

a) O exemplo pessoal

O próprio Senhor Jesus jejuou 40 dias e 40 noites antes de iniciar seu ministério público (Mt 4.2).

b) O momento certo de jejuar

Quando questionado sobre a razão dos seus discípulos não estarem praticando o jejum, Jesus respondeu-lhes: “Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão.” (Mc 2.18-20). Nesta fala Jesus mostra a insensatez da prática do jejum enquanto ele estivesse com os discípulos. A presença do Messias, das boas novas da salvação que independem das boas obras – tudo isso significa alegria, que é algo incompatível com o jejum judaico. Entretanto, o jejum futuro não foi descartado.

c) A condenação do “jejum ostentação”

No sermão do monte, Jesus não condena o jejum propriamente dito, mas, sim, somente o jejuar com ostentação e hipocrisia (Mt 6.16-18). O jejum não deve ser realizado diante dos olhos dos homens, para aparentar uma super espiritualidade e piedade, mas diante de Deus que vive em segredo e vê o que está no lugar secreto.

d) A busca de autoridade e poder espirituais

Conforme as palavras de Jesus em Mateus 17.21, há certas condições de possessão demoníaca das quais o homem só pode ser liberto “por meio da oração e jejuns”. Deve-se observar que este versículo não se encontra em muitos manuscritos e que no seu paralelo, em Marcos 9.29, apenas se menciona a oração.

6 – Qual a relação da igreja com o jejum?

Na igreja primitiva, a oração era apoiada pelo jejum (At 13.2, 3; 14.23).

“E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23)

Talvez, a ausência do assunto nas epístolas do Novo Testamento, exceto as autobiografias de Paulo (2Co 6.5 e 11.27), levam alguns a concluir que a ideia de que o jejum tem valor em si mesmo tenha sido abandonada pela igreja cristã, que retinha a prática do jejum a fim de demonstrar que suas orações eram sinceras. Não há dúvida do valor de aplicar-se ao jejum, principalmente associado à oração. Deve-se apenas tomar o cuidado para não deslocar a procedência do poder espiritual de Deus, para o rito do jejum; de Deus, para o homem!

7 – Qual a posição da Igreja Presbiteriana do Brasil em relação ao jejum?

De uma forma bem sintética e objetiva podemos responder a esta pergunta citando dois de seus documentos:

No Catecismo Maior de Westminster, a pergunta 108 diz:

“108. Quais são os deveres exigidos no segundo mandamento?
Os deveres exigidos no segundo mandamento são – o receber, observar e guardar, puros e inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra, especialmente a oração e ações de graças em nome de Cristo; a leitura, a prédica, e o ouvir da Palavra; a administração e a recepção dos sacramentos; o governo e a disciplina da igreja; o ministério e a sua manutenção; o jejum religioso, o jurar em nome de Deus e o fazer os votos a Ele; bem como o desaprovar, detestar e opor-nos a todo o culto falso, e, segundo a posição e vocação de um, o remover tal culto e todos os símbolos de idolatria.”

No documento “Princípios de Liturgia” da IPB:

“CAPÍTULO XI – JEJUM E AÇÕES DE GRAÇA
Art.24 – Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças.
Art.25 – Os jejuns e ações de graças poderão ser observados pelo indivíduo ou família, Igrejas ou Concílios.”

A exposição é bem clara e, particularmente em momentos como este que o mundo está vivendo nestes primeiros meses do ano de 2020 se aplica perfeitamente o previsto nos artigos 24 e 25 acima transcritos.

8 – Outro “tipo” de jejum.

Jejum sexual

“Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento.” (1Co 7.5-6 NVI)

Em certos momentos da vida de um casal acontecem situações difíceis e aflitivas, como as de enfermidade na família, de desemprego, de catástrofes, dentre outras, quando não há nem clima nem espaço para um relacionamento conjugal normal. Talvez, pensando nisso, o apóstolo tenha se referido a esse “certo período de privação”, para se dedicar à oração, quando ocorrer o mútuo consentimento. Entretanto, ele orienta claramente a não se fazer privação unilateral e, mesmo quando ocorrer a privação mútua, o bom senso e a sensatez devem prevalecer sempre, para se evitar riscos e tentações.  

Conclusão

Finalmente, feita essa breve abordagem sobre o jejum bíblico, vale lembrar a advertência do profeta Isaías que estabelece o contraste entre a Verdadeira e a Falsa Adoração (Isaías 58). Ele é instado por Deus a clamar a plenos pulmões contra a transgressão do povo de Israel, que não se importando com o seu estado vil, buscava rotineira e mecanicamente a Deus, através das suas práticas religiosas, inclusive observando o jejum de um dia. Talvez, não tendo a exata noção da gravidade do seu estado espiritual decaído e da inutilidade e esterilidade dessas práticas religiosas sem o respaldo de uma vida santa, ainda ousavam reclamar que o Senhor não estava correspondendo e respondendo aos seus atos sacrificiais.

Que o Senhor nos ajude a viver uma vida santa, coerente com os ensinos bíblicos e aderente a vontade de Deus. Vida marcada pela prática da justiça e da misericórdia, jamais ancorada equivocadamente em práticas ritualistas vazias e elementos sacralizados pela religiosidade popular.

Crise e Esperança

Introdução

Comecemos relembrando os conceitos de Crise e Esperança.

Crise (gr. krisis; latim crisis) – Alteração no desenvolvimento normal de algo. Situação de tensão ou aflitiva. Desequilíbrio emocional ou nervoso súbito. Falta ou escassez de algo. Situação difícil, anormal e grave.

Esperança – é o ato de esperar aquilo que se deseja obter. Ter esperança é acreditar que alguma coisa muito desejada vai acontecer. (Antônimo: desespero)

SENSIBILIZAÇÃO

Nesta breve reflexão sobre o tema faremos, inicialmente, uma abordagem existencial, buscando a sensibilização de cada um quanto a aspectos que às vezes passam despercebidos no nosso cotidiano. Assim, sem atentarmos para eles, deixamos de evitar crises; ou, passando por crises, somos sufocados por elas, a ponto de quase sucumbir.

1. A REALIDADE DA CRISE

Imaginem este diálogo entre Adão e Eva: – Adão, meu marido, por que os rapazes ainda não chegaram para o almoço? Eles não costumam demorar tanto. – Minha querida, Abel estava cuidando do rebanho quando vi Caim chegar perto dele e, então os dois saíram em direção ao campo onde Caim estava trabalhando. Depois disso não os vi mais. – O que será que está acontecendo? É melhor você ir lá chamá-los. Algum tempo depois Adão retorna para casa, transtornado. Quando Eva o vê daquele jeito fica aflita. – O que aconteceu de tão grave, meu marido? Onde estão os rapazes? – Minha querida, nem sei como te dizer isso. (choro e suspiros). – Adão, você está me apavorando. Fala logo! Com muita dificuldade ele diz: – Meu amor, eu encontrei o corpo de Abel no chão, ensanguentado e pálido. Ele está morto! Não vi Caim. Desesperada ela sai ao encontro de Abel, gritando: – Meu Deus, isso não! Meu filhinho amado, não!

E, assim, desde as mais remotas épocas, as crises estão presentes nas famílias. Um descendente de Caim falou assim: “E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou.” (Gn 4.23). Ao longo da história bíblica e da humanidade, de uma forma ou de outra, todas as famílias enfrentaram crises: Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Jó, Anrão e Joquebede, Naamã, Elcana e Ana, Davi,…., José e Maria, os apóstolos etc. A crise é uma realidade; não é exclusividade de uma determinada pessoa ou família. Jesus nos preveniu: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33; ver Rm 8.31-39).

Entretanto, precisamos refletir sobre algumas questões: Determinadas crises podem ser evitadas?  Por que, aparentemente, alguns passam por mais crises do que outros? É preciso ter uma vida/família estruturada, organizada e equilibrada para estar mais disponível para ajudar outras pessoas e famílias!

2. OS AGENTES DA CRISE

a) As crises têm causas (naturais, humanas e sobrenaturais)

CAUSAS NATURAIS – desastres naturais, tempestades e enchentes, seca prolongada, epidemias e pandemias, doenças congênitas, doenças adquiridas (incuráveis), deficiências orgânicas causadas pelo envelhecimento do corpo, morte na família, dentre outras.

CAUSAS HUMANAS – são aquelas provocadas pelo ser humano; pelo próprio ou pelo outro; por suas ações e omissões; por suas invenções; seus governos ou desgovernos, por acidentes que provocam, dentre outras.

CAUSAS SOBRENATURAIS – são aquelas que acontecem devido à intervenção divina, inclusive os seus juízos; também aquelas provocadas pelo Diabo, com a permissão de Deus.

Vejamos, como exemplo, algumas crises mais relevantes ocorridas.

Nos primeiros meses de 2019:
– Brumadinho (rompimento de barragem – MG)(JAN)
– CT do Flamengo (incêndio)(FEV)
– Ricardo Boechat (queda de helicóptero)(FEV)
– Escola Raul Brasil-Suzano/SP (massacre)(MAR)
– Enchentes (várias cidades)(JAN-MAR)

Nos primeiros meses de 2020:
– Enchentes (várias cidades)(JAN-MAR)
– Pandemia do coronavírus (FEV-???)

Em mais de 6 décadas de vida nunca vivenciei uma crise como esta listada por último. Entretanto, a maior parte das crises que nos afetam tem causa humana. Se investigarmos essas causas humanas, certamente identificaremos alguns fatores comuns, tais como:

– Falta de prevenção/atenção ou descuido/negligência.
– Falta de responsabilidade/respeito.
– Ganância, egoísmo.

E, na base de todas as causas, o pecado!

b) Há situações que podem provocar crises (faltas, perdas)

É a perda ou falta de ente queridos, da saúde, do emprego, de relacionamentos, de bens, de respeito (booling), da consideração, de segurança, de confiança no outro.

Resiliência é uma palavra que se torna cada vez mais conhecida. É um termo que vem da física, como o fenômeno de retorno da mola, quando cessa a pressão sobre ela; é o retorno à posição vertical daquele boneco “João teimoso”. Na psicologia, significa o poder de recuperação do indivíduo após ser submetido a situações estressantes e dolorosas, a perdas, a calamidade. “O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de uma construção; se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males” (Dr. Alberto D’Auria).

Precisamos ser como bambus e varas verdes, que se dobram sob a pressão do vento, mas não se quebram. A vida é feita de perdas e ganhos, não podemos paralisá-la diante das perdas. Em nome de Jesus é preciso se libertar do passado. Isso é doentio!

c) As crises oferecem a oportunidade de reavaliação da vida, de comportamentos.

Às vezes se vive uma vida mediana, inexpressiva, marcada pelo comodismo. Aí, acontece uma crise, e com ela a reavaliação de tudo, provocando as mudanças necessárias.

Alguns vivem de forma fútil, confortável, porém vazia; focados nos bens, valores e prazeres materiais. Aí surge a crise e a pessoa redireciona o foco da sua vida para o que realmente tem valor.

d) As crises oferecem a oportunidade de um novo começo.

– Após a trágica morte de Abel temos o seguinte registro bíblico; porque é preciso seguir adiante: “Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou.” (Gn 4.25)

– Há “crises” e “perdas” que produzem vida. Jesus afirmou: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12.24)

– Assim respondeu Jó aos seus amigos: “Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos.” (Jó 14.7)

No canteiro abaixo fica fácil ilustrar essa ideia de recomeço.

Relembrando….

a) As crises têm causas (naturais, humanas e sobrenaturais)
b) Há situações que podem provocar crises (faltas, perdas)
c) As crises oferecem a oportunidade de reavaliação da vida, de comportamentos.
d) As crises oferecem a oportunidade de um novo começo.

3. A REALIDADE DA ESPERANÇA

A esperança é um ato desenvolvido por quem está vivo!  “Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto.” (Ec 9.4)

a) A esperança é invisível aos olhos naturais.

“Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?” (Rm 8.24)

Ainda que invisível, a verdadeira esperança não é fruto do imaginário, não é abstrata, não é ilusória, não é vã, não é baseada em crendices e nem nos discursos fantasiosos dos profissionais de autoajuda. Mas ela pode ser contemplada pelos olhos da fé. De onde ela vem?

b) A esperança tem procedência certa.

“Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.” (Sl 62.5)

“Bendito o homem que confia no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR.” (Jr 17.7)

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,” (1Pe 1.3)

De nada adianta colocar nossa fé e nossa esperança em pessoas e coisas; em falsos deuses e falsas promessas.

c) A esperança se extingue quando Deus é deixado de lado.

“Mas eles dizem: Não há esperança, porque andaremos consoante os nossos projetos, e cada um fará segundo a dureza do seu coração maligno.” (Jr 18.12)

Quando o ser humano decide ser o protagonista exclusivo do seu caminho, do seu destino; cativo da sua própria vontade e rompendo com Deus e sua vontade, fica à deriva ao sabor da própria sorte. Como decorrência do que foi dito no item anterior, isso é o que acontece quando se deixa de lado a fonte da esperança.

d) A esperança transpõe os portais da eternidade

“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1Co 15.19)

“por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho,” (Cl 1.5)

A Bíblia se expressa de forma clara e objetiva sobre o assunto. Porém, por vezes, nos envolvemos tão fortemente com as coisas desta vida que nos esquecemos de quanto a existência terrena é curta e transitória. Daí, quando surge uma ameaça efetiva à sua continuidade perdemos o chão.

e) A esperança precisa ser cultivada

“Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Rm 15.4)

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21)

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.” (Rm 5.3-4)

Sem dúvida é a palavra de Deus guardada em nossas mentes e corações e o testemunho verdadeiro de como Deus tem sustentado os seus filhos que há de nos suprir e fortalecer o ânimo e prover-nos de força interior para resistir no dia mau.

f) A esperança renova a alegria de viver

“regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes;” (Rm 12.12)

“E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13)

Nem sempre a vida é tão generosa conosco, cristãos ou não. No entanto, a esperança do cristão é real e verdadeira conseguindo produzir nele a renovação da alegria de viver, de seguir adiante.

g) Não desista da esperança!

“Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência.” (Rm 4.18)

“na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Rm 8.21)

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (1Co 13.13)

“E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro.” (1Jo 3.3)

Vale lembrar aquelas máximas populares: “Enquanto há vida, há esperança”; “A esperança é a última que morre”. Portanto, por mais difícil que seja a situação ou mais improvável que seja a realização ou a solução, a mensagem é “não desista, mantenha a esperança!”

h) Somos chamados para sermos agentes da esperança

“Pois quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?” (1Ts 2.19)

“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15)

Por fim, acima e além de ter esperança, o chamamento divino através do apóstolo Paulo é para encarnarmos a esperança cristã. Assim, personificando a esperança, temos a missão de ir e transmiti-la a quem dela necessitar.

Relembrando….

a) A esperança é invisível aos olhos naturais.
b) A esperança tem procedência certa.
c) A esperança se extingue quando Deus é deixado de lado.
d) A esperança transpõe os portais da eternidade.
e) A esperança precisa ser cultivada.
f) A esperança renova a alegria de viver.
g) Não desista da esperança!
h) Somos chamados para sermos agentes da esperança.

Conclusão

É preciso ter uma postura correta no cotidiano para prevenirmos crises e evitarmos ser Agentes da Crise!

É preciso ter uma vida/família estruturada, organizada e equilibrada para estar mais disponível para ajudar outras pessoas e famílias!

Num mundo envolto em tantas crises, sejamos sempre proativos, sejamos Agentes da Esperança!

A Verdade que Liberta

“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8.31-32)

Introdução

Lá pelos idos da década de 1980, com um filho bem pequeno, fui sozinho à uma farmácia comprar remédio pra ele. Estando lá dentro, bem ao fundo, de repente começou um certo tumulto. Percebi, então, que havia um homem na entrada anunciando um assalto. Nunca tinha passado por isso e fiquei um tanto quanto apreensivo. Numa hora como essa a gente sente a total falta de liberdade. Não se pode sair do local para escapar e nem pensar em reagir, enfrentando o meliante. É só contar com a graça e misericórdia de Deus para que nenhuma tragédia aconteça. Felizmente o desfecho foi muito melhor do que se podia imaginar. O sujeito estufava a camisa parecendo estar com uma arma por baixo dela. De algum modo perceberam que era uma simulação, que não era uma arma, mas um toco de madeira e colocaram o homem pra correr. Sem dúvida, quando a verdade veio à tona fomos libertos daquela situação.

Nosso propósito aqui é refletir sobre a Verdade que traz a mais grandiosa liberdade.

1) A necessidade de liberdade

Por que necessitamos de algo? Porque não temos. Porque de alguma forma estamos convencidos de que precisamos. Porque este algo trará um certo equilíbrio ao nosso ser, como um todo. Através do equilíbrio do nosso organismo (metabolismo físico), do nosso intelecto (mente, razão) e do nosso emocional (sentimentos, afetos), teoricamente se consegue um estado de bem estar, de paz e de tranquilidade. Na prática tenho a certeza de que o ser humano, por si só, é incapaz de conseguir isso.  As variáveis são muitas e não temos o controle sobre todas elas.

A natureza que nos cerca busca o estado de equilíbrio em todo o tempo.  A diferença entre o que temos ou somos, e o que queremos ter ou ser, constitui um desequilíbrio que gera a vontade, que por sua vez exige condições mínimas para nos mover. E a vontade é a força motriz da vida!

Supondo que o ser humano natural sempre pudesse exercer a sua vontade no sentido de buscar as coisas verdadeiramente necessárias para trazer equilíbrio ao seu ser, o que seria muito nobre (desde que não infringisse a lei dos homens e a de Deus), ainda assim ele não conseguiria alcançar a plenitude do seu ser, porque além das barreiras naturais (as necessidades humanas são infinitas e insaciáveis) existe a barreira da vontade do outro que não necessariamente é conciliável com a dele e, certamente, em algum momento entrará em choque com a sua.

Parece que numa acepção mais simples da palavra, liberdade é o exercício da vontade, sem restrições internas ou externas ao ser. Se assim é, então, podemos dizer que a liberdade se constitui no alvo mais importante a ser conquistado pelo ser humano natural.

2) A busca da liberdade

Por que buscamos algo? Porque não temos. Quem sabe já tivemos, porém perdemos. Ou, nunca tivemos e sentimos a necessidade de ter.

A busca da liberdade, então, é a busca pela realização da nossa vontade, no sentido da realização completa do nosso ser. Para melhor entender essa situação, precisamos retornar às nossas origens.

Deus criou com todo o esmero todas as coisas necessárias à sobrevivência do homem. Por fim, criou também o ser humano, à sua imagem e semelhança (Gn 1.27 – pessoal, racional e moral). Deus colocou toda a criação sob o domínio de Adão (Gn 1.27-28). Porém, faltava-lhe algo. Adão não se completava naqueles animais ou nas demais coisas criadas (Gn 2.20). Deus, então, lhe fez uma companheira idônea e Adão suspirou aliviado (Gn 2.21-24). Então, Deus propôs ao casal o exercício da sua vontade (Gn 1.28-30), num tempo em que havia perfeita harmonia na natureza. Antes, porém, Deus os submeteu a um teste para provar sua vontade (Gn 2.16-17) e o casal falhou (Gn 3). Surgem aqui algumas perguntas que precisam ser consideradas e esclarecidas à luz da verdade: 1ª) Deus foi o culpado: a)Ele restringiu a liberdade de um ser que foi criado para exercer sua própria vontade. Errado! Adão, ao exercer sua vontade, violou a vontade de outrem que lhe era infinitamente superior. Com isso demonstrou que seria incapaz de respeitar a vontade dos seus semelhantes, muito mais ainda porque estes estariam no mesmo nível humano dele. Com a falta de domínio sobre sua vontade ficou provado que ele não tinha condições para viver harmoniosamente em sociedade. b) Deus não o alertou sobre a tragédia que essa desobediência traria para ele e para o mundo. Errado! É só conferir em Gênesis 2.17 a advertência divina. c) Deus falhou na constituição do ser humano. Errado! Deus criou um ser à sua imagem, com vontade própria e não um robô. Além disso se propunha a orientá-lo diretamente, se esse lhe fosse submisso.  d) Deus deixou tudo pronto para Adão e com isso ele não tinha onde aplicar a sua vontade. Errado! Deus lhe entregou um mundo na “forma bruta”, lhe deu todos os recursos materiais e inteligência para dele cuidar. O grande problema de Adão e Eva é que eles escolheram dar ouvidos a uma outra voz que questionava a ordem de Deus. Esta voz satânica lhe apresentou uma nova versão da ordem divina, mais fácil, mais atraente e ambiciosa, porém mentirosa, “ser como Deus”.

3) A verdadeira liberdade

As consequências da queda do homem no Éden foram devastadoras. Desde a queda se vê a atuação de Deus no mundo controlando gente pecadora e um mundo contaminado pelo pecado. No dilúvio Deus destruiu o mundo de então, promovendo um novo início da humanidade, a partir da família de Noé e dos animais que foram preservados na arca. Porém os pecadores e seus pecados continuaram. Entretanto, em todo o tempo, Deus tinha em mente resgatar e salvar o ser humano caído. Ele pavimentou esse caminho e manifestou seu propósito à humanidade através de uma revelação progressiva: o patriarca Abraão, o povo de Israel e, por fim, Jesus Cristo, seu filho encarnado. Este, além de dar a sua vida para pagar o preço dos nossos pecados e nos reconciliar com Deus, nos deu a sua nova lei, a sua palavra (Mt 22.36-39). Deus, também, no deu o seu Espírito Santo, para habitar em nós e instituiu a sua igreja, para ajuntamento do seu povo (1Co 6.9-11).

Jesus é a Verdade que Liberta; através da sua vida, da sua redenção, da sua palavra e do Espírito Santo que em nós habita!

Conclusão

Estas palavras do apóstolo Paulo expressam bem a missão de Jesus realizada em nosso favor para nos conduzir à verdadeira liberdade.

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,  aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,  o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.” (Tt 2.11-14).

Essa verdadeira liberdade pode ser descrita como a nossa vontade pessoal dentro da vontade perfeita de Deus, dirigida e controlada pelo Espírito de Deus que habita em nós, o que foi objeto da oração de Jesus ao Pai Celestial: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.20-21)

Áquila e Priscila

Introdução:

A Bíblia está repleta de narrativas de personagens dos quais podemos dizer que vivenciaram uma espécie de “carreira solo”, isto é, eles aparecem em primeiro plano, recebendo maior foco, como protagonistas; tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Quando o foco é o casal, o Antigo Testamento registra a história de alguns deles, desde Adão e Eva, passando por Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Salmon e Raabe, Sansão e Dalila, Boaz e Rute, Elcana e Ana, Davi e Bate-Seba, Acabe e Jezabel etc. Ao chegar no Novo Testamento nos deparamos com dois casais que se destacam nas narrativas dos Evangelhos: Zacarias e Isabel, por terem trazido ao mundo João Batista, aquele que veio preparar o caminho de Jesus; e, José e Maria, que cuidaram do Jesus menino, gerado em Maria, pelo Espírito Santo, como o Messias Salvador. Entretanto, a partir da ascensão de Cristo e da inauguração da igreja, um casal se destaca negativamente dos demais, Ananias e Safira e outro, positivamente, Áquila e Priscila. Abordaremos aqui este último e veremos que não é sem razão ou por acaso que ele é lembrado pelos cristãos.

1. Um casal que é uma carta aberta  (At 18.1-2)

“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens,” (2Co 3.2)

A vida deste casal é, sem dúvida, uma carta aberta, conhecida e lida por todos os que têm alguma intimidade com o livro sagrado – a bíblia. Ao refletir sobre a história de vida deles muito podemos enriquecer a nossa própria história e certamente seremos desafiados a seguir o seu exemplo.

Para quem imaginava que na antiguidade só havia machismo, inclusive na igreja nascente, vai se surpreender com o equilíbrio de tratamento, de valor e de desempenho de papéis no que se refere a este casal. Nas seis citações sempre aparece, no registro bíblico, os dois nomes, sendo que duas vezes na ordem “Áquila e Priscila” (1Co 16.19 e At 18.2) e, quatro vezes, “Priscila (ou Prisca) e Áquila” (At 18.18, 26; Rm 16.3 e 2Tm 4.19). O fato do nome da esposa ter aparecido tantas vezes na frente do nome do marido tem levado alguns comentaristas bíblicos a deduzirem que Priscila tinha uma personalidade mais forte ou que ela descendia de uma família romana proeminente, mas que não se tem como provar.

Por falar em nome, Áquila significa “águia” e Priscila significa “que pertence a Prisco” ou “da natureza de Prisco”, “familiar de alguém venerável”. “Prisco”, por sua vez, do latim Priscus tem o sentido de “o antigo”, “o velho” ou “o venerável”, de modo que Priscila significa “familiar de alguém venerável”1.

Áquila era judeu, natural do Ponto, uma província da Ásia Menor, no norte da atual Turquia. Naquela região morava um certo número de judeus, que estiveram em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.9) e, posteriormente, é mencionada por Pedro como local onde se encontravam eleitos, forasteiros da dispersão (1Pe 1.1). Não temos mais informações sobre a origem de sua esposa Priscila.

Este distinto casal é citado no NT, sempre pelo apóstolo Paulo, seis vezes. A primeira informação que temos do casal é que havia chegado recentemente em Corinto, quando Paulo se aproximou deles, tendo sido expulsos de Roma, pelo imperador Claudio2  (41 a 54 dC), que decretou que os judeus se retirassem da capital do Império, por volta de 49 dC.

Segundo o historiador Suetônio, ele teria expulsado os judeus de Roma por estarem envolvidos em agitações devido a um certo “Cresto” (Chrestus), um termo que poderia referir-se a Cristo (Christus). Se isso é verdade, então é provável que o Evangelho estava chegando às Sinagogas Romanas e encontrando resistência e reações fortes por parte dos judeus mais arraigados à lei mosaica. É o que acontecia em toda a parte e deu ensejo a uma acusação como a de Tessalônica: “…Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui,” (At 17.6b).

Segue um quadro resumo dessas seis citações do casal:

Texto Bíblico Data Local onde Áquila e Priscila estavam ou residiram
Atos 18.1-3 52-53 dC Em Corinto, juntos com Paulo (2ª viagem missionária)
Atos 18.18-19 54 dC Em Éfeso, juntos com Paulo (2ª viagem missionária)
Atos 18.24-27 54 dC Em Éfeso, sem Paulo (3ª viagem missionária)
1Coríntios 16.19 57 dC Em Éfeso, com Paulo quando ele escreveu 1Coríntios (1Co 16.8)
Romanos 16.3-5 57-58 dC Em Roma, sem Paulo quando ele escreveu Romanos, de Corinto.
2Timóteo 4.19 67 dC Em local ignorado, sem Paulo quando ele escreveu 2Timóteo, de Roma.

2. Um casal de mente e coração abertos (At 18.2b)

Não está claro no texto bíblico se o casal foi evangelizado por Paulo ou se já eram convertidos quando o apóstolo se aproximou deles (At 18.2b). O fato é que em algum momento das suas vidas, provavelmente em Roma, eles abriram a mente e o coração para o Evangelho de Cristo e sua obra. Pelo que é dito deles foi uma entrega por inteiro!

3. Um casal de mãos abertas  (At 18.3-5)

Áquila e Priscila, marido e esposa, tinham a profissão de fazer tendas (At 18.3). Ambos estavam juntos no mercado de trabalho buscando o sustento da família. Expulsos de Roma, chegaram a Corinto e estabeleceram o seu negócio. Foi ali que se encontraram com o apóstolo Paulo, na sua segunda viagem missionária. Em terra estrangeira era comum os judeus se aproximarem de seus compatriotas e Paulo tinha um motivo a mais, que era a sua identificação com o mesmo ofício deles. Assim, Paulo passou a morar e a trabalhar com eles. Durante a semana o apóstolo trabalhava e aos sábados discorria na sinagoga. Isso mostra que a cobertura financeira para a viagem missionária de Paulo também dependia do seu trabalho. Assim, seu trabalho evangelístico maior se desenvolvia aos sábados, quando os judeus e gregos se reuniam nas sinagogas (At 18.4). O texto bíblico relata que apenas quando Silas e Timóteo chegaram ali é que Paulo pôde se dedicar em tempo integral à Evangelização e Ensino da Palavra (At 18.5).

Fica evidente que esse casal trabalhador logo apoiou e ajudou a sustentar a obra missionária da Igreja, através de Paulo, concedendo-lhe moradia e oportunidade de trabalho.

4. Um casal de olhos abertos (At 18.18)

Quando Paulo parte para Éfeso ele se despede de alguns irmãos, o que evidencia a existência de uma igreja nascente ali em Corinto (At 18.18). Entretanto, é significativo que ele leva em sua companhia o casal Priscila e Áquila. Por um lado, certamente ele via no casal uma vocação para apoio à obra missionária, não somente no sentido material, mas também no sentido espiritual, no que se refere à consistência e maturidade da sua fé. Por outro lado, chama a atenção o desprendimento do casal de acompanhar o apóstolo. Não temos a informação se Paulo os convidou ou se eles se ofereceram. Entretanto, a expressão “levando em sua companhia” (At 18.18) transmite a impressão de que o casal já fazia parte da equipe de Paulo. Ter os olhos abertos significa ter visão de vida e visão ministerial. Ter o foco em Deus e na sua obra. Dispor-se a deixar a sua zona de conforto e avançar na missão, no “IDE” de Jesus. Buscar o Reino de Deus como prioridade de vida, na certeza que as demais coisas nos serão acrescentadas.

5. Um casal de boca aberta (At 18.19, 23-28)

“Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava aos judeus.” (At 18.19).

O casal amigo de Paulo, Áquila e Priscila, chega à cidade de Éfeso onde parece haver a intenção do apóstolo de estabelecer ali na casa deles uma base de apoio missionário para toda aquela região da Ásia. Eles se estabelecem ali e Paulo prossegue no seu avanço missionário, já concluindo sua segunda viagem e retornando à Antioquia (54 dC).

Passado algum tempo, ainda no ano de 54 dC, enquanto o apóstolo Paulo empreendia a sua terceira viagem missionária, surge um fato relevante ali em Éfeso que mereceu o registro bíblico, por Lucas. Um judeu, chamado Apolo, homem bastante eloquente e conhecedor das Escrituras, passa  discorrer ali na sinagoga de Éfeso. Apesar do seu poder de persuasão ele tinha um conhecimento limitado ao batismo de João. Naquela ocasião, Priscila e Áquila também frequentavam a sinagoga de Éfeso. Usando de grande sabedoria, prudência e discrição, conhecedores da fé cristã, em vez de colocar o vibrante pregador em dificuldade diante dos seus ouvintes, tomam-no à parte e lhe expõe “o caminho de Deus” com mais exatidão (At 18.23-26). O casal nos ensina que não basta conhecer alguma coisa da fé cristã; é preciso buscar a integridade doutrinária e ajudar os outros neste sentido.

Portanto, a estratégia de Paulo começa a surtir efeito e serve de exemplo para os pastores e líderes do povo de Deus. A liderança não é capaz de dar conta de toda a obra, sozinha. É preciso multiplicar pontos de apoio onde haja pessoas preparadas para ensinar, instruir, orientar e aconselhar, inclusive os novos pregadores. Por outro lado, todo o crente é desafiado a se preparar para os embates da vida cristã: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15).

Apolo era um pregador valoroso e entusiasmado com o que fazia. Tendo sido devidamente instruído e desejando prosseguir nesta obra, percorrendo a Acaia, encontra no casal de “boca aberta” e nos outros irmãos de Éfeso, palavras e atitudes de encorajamento (At 18.27-28).

6. Um casal de portas abertas (1Co 16.19; Rm 16.3-5)

“As igrejas da Ásia vos saúdam. No Senhor, muito vos saúdam Áquila e Priscila e, bem assim, a igreja que está na casa deles.” (1Co 16.19)

“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus,…. saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles.” (Rm 16.3, 5a)

Vale lembrar que o casal residiu (ou permaneceu algum tempo) em várias cidades: Roma, Corinto, Éfeso, Roma e, depois, em local ignorado (talvez Éfeso). Quando Paulo escreveu a Primeira Epístola aos Coríntios, em 57 dC, ele estava em Éfeso, onde Áquila e Priscila residiam.  Fica evidente na saudação de 1Coríntios 16.19 que o casal acolhia em sua casa a igreja de Cristo. Quando Paulo escreveu a Epístola aos Romanos, em 57-58 dC, ele estava em Corinto, sendo que Áquila e Priscila residiam em Roma, onde também se reunia uma igreja na casa deles. Entretanto, há estudiosos que consideram o capítulo 16 de Romanos como um apêndice de uma outra epístola escrita para Éfeso. Neste caso, o casal não estaria em Roma, mas permanecia em Éfeso.

Naquela ocasião era muito comum as igrejas locais estarem sediadas em casas e não em templos, como se vê hoje. Isso demonstra desprendimento e compromisso total do casal com o reino; com o Deus da obra e com a obra de Deus.  Colocar a nossa vida, nossa casa e nossos bens a serviço de Deus é o grande desafio do cristão. Tem tudo a ver com o renunciar qualquer coisa por amor a Cristo.

7. Um casal de espírito aberto (Rm 16.3-4)

“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios;” (Rm 16.3-4)

a) Espírito aberto a cooperar.

Cooperação é uma ação conjunta para uma finalidade ou objetivo em comum. Fica evidente naquilo que se diz a respeito deles, o quanto viviam em sintonia e cooperação, um com o outro, o casal com o apóstolo Paulo e demais irmãos, e todos os crentes com Deus, pois fomos chamados de “cooperadores de Deus” (1Co 3.9). A igreja é chamada de “corpo de Cristo” e individualmente, membros desse corpo (1Co 12.27), para agirmos da forma como acontece no corpo humano, onde cada membro ou parte do corpo, com sua função específica, contribui para o funcionamento do todo (Ef 4.15-16). Áquila e Priscila entenderam bem essa questão e fizeram parte do rol dos cooperadores de Paulo.

b) Espírito aberto a se sacrificar.

Naquela época ser cristão era correr o risco de ser perseguido e de perder a vida. O casal Priscila e Áquila deixaram um testemunho para nós e para a história da igreja que foi muito além do risco pessoal. Tal era o comprometimento deles com Deus e com a igreja de Cristo que eles arriscaram suas vidas pelo apóstolo Paulo, gerando gratidão no coração de Paulo e em todas as igrejas que amavam, zelavam e oravam pela vida e integridade física do apóstolo dos gentios. Não sabemos exatamente como isso aconteceu.

Servir e cooperar na obra de Deus é muito bom; entretanto ser encontrado digno de sofrer ou morrer por amor a Cristo (não por ser uma pessoa inconveniente ou insuportável) e em defesa do Evangelho é galgar um nível mais elevado (At 5.41).

Conclusão:

“Saúda Prisca, e Áquila, e a casa de Onesíforo.” (2Tm 4.19)

Esta última menção de Paulo ao casal de amigos, se deu dez anos depois (67 dC). Paulo, prisioneiro em Roma (2Tm 1.8, 17) como resultado da perseguição de Nero aos cristãos, estava próximo da sua execução e morte (2Tm 4.6) quando escreveu a segunda Epístola ao seu filho na fé Timóteo. Mesmo naquelas circunstâncias ele não deixou de enviar suas saudações a Áquila e Priscila (ou Prisca), por intermédio de Timóteo. Pessoas da estatura desse casal jamais são esquecidas e ficam como exemplo a ser seguido.

Se quiséssemos encontrar frases para sintetizar o que foi esse casal na história da igreja, diríamos assim:

– Juntos, em Cristo e por Cristo.

– Trabalho e cooperação, sem murmuração.

– Conhecimento e prática a serviço da igreja de Cristo.

– Instrumentos escolhidos e capacitados por Deus para dar apoio à sua obra.

– Coragem para enfrentar sofrimento e perseguição.

– Desprendimento e disposição para ir ou para ficar, segundo a vontade de Deus.

– Resiliência e adaptação às situações da vida.

– Vida e bens à disposição do Senhor.

– Cristãos relevantes e dedicados à expansão e fortalecimento do Reino de Deus.

Finalmente, não podemos deixar de ressaltar que, ao contrário de muitos cristãos ou obreiros de hoje, que são movidos por cargos ou gratificações financeiras, não se menciona que Áquila e Priscila tivessem algum cargo eclesiástico ou recebessem alguma remuneração. Simplesmente se contentavam com o privilégio de serem servos de Deus. Estavam mais preocupados em fazer do que em serem elevados, engrandecidos; em dar, do que em receber. Que isto nos sirva de exemplo e motivação!

Bibliografia:

  1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
  2. Bíblia Online – SBB.
  3. Reese, Edward; Klassen, Frank – A Bíblia em ordem cronológica.
  4. Champlin, Russell Norman, Ph.D. – O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo – Melenium.
  5. Pfeiffer, Charles F. ; Harrison, Everett F. – Os Evangelhos e Atos – Comentário Bíblico Moody.
  6. Dicionário de Nomes Próprios (Internet).
  7. Wikipédia (Internet).

[1] Dicionário de Nomes Próprios (Internet).

[2] Claudio: Tibério Cláudio César Augusto Germânico (em latim Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus), o quarto imperador romano, sucessor de Calígula e antecessor de Nero. (Wikipédia)

Menos é Mais, Um é Tudo!

Introdução

Quem nunca ouviu ou fez um comentário do tipo “menos é mais”, principalmente quando se não gosta do que está vendo ou do que viu? O objeto da avaliação pode ser muito variado. Por exemplo: a decoração de um ambiente muito carregada; um vestuário com muita mistura de padrões de tecido e cores (“com muita informação”); a maquilagem muito pesada e extravagante; um prato de comida com muita quantidade de itens nada saudáveis e pouca qualidade de nutrientes; e, até mesmo, na questão da comunicação, quando o sujeito fala demais e acaba sendo inconveniente, falando o que não devia e passando a imagem errada.

Em qualquer área da nossa existência é possível identificar casos ou situações onde é perfeitamente aplicável o comentário “menos é mais”, inclusive quando se trata de crença ou religião. Que fique claro aqui que não estou me referindo ao caso de “ter menos fé” como sendo algo mais adequado do que “ter muita fé”.  Porém, cabe aqui uma reflexão sobre o(s) objeto(s) da fé da pessoa. Desde a antiguidade a humanidade cultiva uma falsa ideia de que quanto mais deuses se cultua ou adora, mais seguro, protegido e feliz será. O politeísmo (do grego: polis, muitos, théos, deus: muitos deuses), por definição, é a crença e subsequente adoração a mais de uma divindade, sendo que cada uma é considerada uma entidade individual e independente com uma personalidade e vontade próprias, governando ou atuando sobre diversas atividades, áreas, objetos, instituições, elementos naturais e mesmo relações humanas. Nem sempre estas se encontram claramente diferenciadas, podendo naturalmente haver uma sobreposição de funções de várias divindades (Dt 17.3).

A própria bíblia menciona e condena o culto a inúmeros deuses pelos povos antigos, sendo que não é nosso objetivo avançar nesta área. A Bíblia, desde o seu primeiro capítulo e versículo (Gn 1.1), apresenta o Deus Único, Vivo e Verdadeiro, Criador e Sustentador dos Céus e da Terra! Quando Deus inicia o processo de formar um povo de sua propriedade exclusiva, ele chama a Abrão, da terra de Ur dos Caudeus – um rico, populoso e avançado centro pagão da Mesopotâmia, um lugar onde se praticava a idolatria. A primeira menção, na Bíblia, a ídolos (do lar) encontra-se em Gênesis 31.19; e a deuses, referindo-se a esses mesmos ídolos, em Gênesis 31.30, furtados por Raquel, esposa de Jacó. Já na base da formação do povo de Deus, Israel, havia a influência idólatra do ambiente interno e externo. Depois de conviver com os egípcios, por cerca de 430 anos (Ex 12.40), o povo de Israel se deixou influenciar pela idolatria. Com a saída do Egito, um novo tempo começou, e o combate divino à adoração idólatra continuou com força total, já no primeiro dos dez mandamentos: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.” (Ex 20.2-3). Pode-se dizer, então, que, nesta área de crença e religião, adoração e culto à divindade, não cabe a ideia do MENOS É MAIS, porém, a ideia e conceito de que UM (DEUS) É TUDO! “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.” (Sl 23.1).

Ao longo dos tempos, essa foi a grande luta de Deus com seu povo Israel e tem sido a grande luta da igreja de Cristo, ao evangelizar as pessoas. Satanás jamais desistiu e desistirá de investir para fazer com que o ser humano não foque sua adoração e intercessão somente em Deus. Se uma pessoa não teve um encontro pessoal e verdadeiro com Deus, em momentos de dificuldade e de crise, estará muito mais susceptível a buscar ajuda sobrenatural e espiritual em qualquer lugar.

É preciso esclarecer que Deus é Soberano, é Todo Poderoso, mas recebe a todos, diretamente, sem intermediários humanos: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.” (Is 57.15). Em momentos difíceis, podemos e devemos buscar apoio nos parentes e amigos mais chegados, para juntos buscarmos a ajuda do Alto, do Pai Celeste, se é que já fomos feitos filhos de Deus, pela regeneração e novo nascimento, em Cristo.

Deus jamais estabeleceu intermediários como Maria, ou santos, ou padres, ou papas, ou pastores, ou gurus, ou orixás, ou pais de santo, avatares ou monges, para fazerem esta intermediação: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” (1Tm 2.5). Vejamos o que diz a Bíblia sobre algumas “coisas” únicas:

a) O Deus único

“todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.” (1Co 8.6)

“A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.” (Mt 23.9)

“Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas o próximo?” (Tg 4.12)

“Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto.” (Lc 4.8)

b) Jesus, o Filho unigênito de Deus

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” (1Tm 2.5)

“Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.” (Mt 23.8)

“Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.” (Mt 23.10)

“Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo.” (2Co 11.2)

c) Um só Espírito

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.” (1Co 12.13)

d) Uma só igreja, a Igreja de Cristo

“assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros,” (Rm 12.5)

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;” (Fp 1.27)

e) Nossa escolha: – Uma só opção correta!

“Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” (Lc 10.42)

Finalmente,

“há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Ef 4.5-6)

“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.” (Tg 2.19)

Num ambiente tão secularizado e materialista, como o desse mundo pós-moderno em que vivemos, crer na existência de Deus já é grande coisa. Porém, nossa crença precisa ir muito além da crença que até os demônios têm! É preciso que Deus viva em nós e que nós cumpramos plenamente os seus propósitos durante essa curta caminhada terrena.

Se uma doença é humanamente incurável, de que adianta tomar um ou todos os medicamentos existentes? O pecado é uma doença espiritual e humanamente incurável. De que adianta apelar para uma ou todas as religiões existentes? Somente Deus proveu a cura para o pecado – o sacrifício de seu Filho na cruz do Calvário!

Lembre-se que, na terra, é possível que vários caminhos nos levem a determinado lugar; entretanto, há um só caminho que nos conduz a Deus e ao céu – Jesus Cristo!

Lembre-se que, muitas vezes, menos é mais; porém, em assuntos espirituais, UM (DEUS) É TUDO!

Deve o cristão fazer o pacto de Jacó?

“Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o SENHOR será o meu Deus; e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo.” (Gn 28.20-22)

Introdução

Há muito tempo atrás, conversando com um casal que eu estava evangelizando, eles contaram algo inusitado. Disseram que tanto eles, como algumas pessoas de suas relações (não cristãos), estavam trabalhando como taxistas e fizeram uma espécie de voto a Deus de dar o dízimo, se tivessem sucesso na profissão. Logo me veio à mente o pacto ou voto de Jacó. Sem dúvida, trata-se de uma visão estranha do dízimo, já que Deus quer que, antes de tudo, entreguemos as nossas vidas a ele; sendo, nossos dízimos e ofertas, consequência natural daquele que é o passo mais importante.

De certa forma é comum e normalmente oportuno, nós mesmos ou os pregadores e professores da Palavra de Deus, trazermos exemplos de personagens bíblicos ou de situações por eles vividas, para aplicação na igreja, ou no cotidiano dos cristãos. Por vezes, nós cristãos, nascidos de novo, podemos ser desafiados, quando enfrentando dificuldades financeiras, desemprego, dentre outras, emocionalmente abalados, a seguir o exemplo de Jacó e fazermos, com Deus, este mesmo pacto.  Entretanto, é preciso tomar certo cuidado com esse pacto ou voto de Jacó, como veremos adiante.

1. As circunstâncias do pacto

Em que circunstâncias Jacó disse isso? No momento em que o patriarca fez esse pacto ou voto ou promessa, ele vivenciava uma crise existencial inimaginável. Ameaçado de morte, pelo seu irmão Esaú a quem enganara. Estava fugindo e deixando pra trás tudo o que tinha: sua casa, sua parentela, seus amigos, seu povo e tudo aquilo a que havia se apegado e que fazia parte integrante de sua vida até aquele momento. Olhando para frente, sua situação não era nem um pouco confortável. A viagem seria extremamente longa (Gn 28.6, 10): de Berseba a Betel, cerca de 120Km (26 horas de caminhada); e, de Betel a Padã-Arã (Harã), cerca de 860 Km (175 horas de caminhada). Os perigos da viagem, o desconforto e os desafios de sobreviver eram bem reais, e o futuro incerto. Assim, saindo de Berseba no auge da sua aflição, ele chegou à cidade de Luz. Ali ele teve um sonho e o Senhor falou com ele e lhe fez promessas (Gn 28.12-17). Tão forte foi o impacto daquele momento, que ele deu o nome de Betel (que significa “casa de Deus”), àquela cidade. Foi nestas circunstâncias que Jacó, então, fez o seu voto.

2. Alguns aspectos do pacto

a) O estabelecimento de condições (Se……, então…..)

Na gramática portuguesa:

Se – conjunção subordinativa condicional: exprime sentido de condição.
Então – Conjunção coordenativa conclusiva: indica relação de conclusão.

Na matemática:

Conectivos Lógicos:   Se -> Então

Que poderia ilustrar o pacto, como abaixo:

b) A petulância de Jacó

Jacó nasceu quando seu pai Isaque tinha 60 anos (Gn 25.26) e seu avô Abraão 160 anos (Gn 21.5). Abraão viveu 175 anos (Gn 25.7), sendo os seus últimos 15 anos, os 15 primeiros da vida de Jacó.

Embora muito idoso, Abraão foi contemporâneo de Jacó, e o seu impactante legado deve ter influenciado sua vida. Afinal, Abraão creu no Senhor (Gn 15.6), fez uma aliança com Deus e dele recebeu promessas (Gn 15.7-21), que foi renovada e incluiu a mudança do seu nome e a sua descendência (Gn 17). Apesar de alguns tropeços, Abraão desfrutou de comunhão com Deus, foi um profeta (Gn 20.7), foi um intercessor (Gn 20.17), foi um dizimista (Gn 14.20), foi fiel ao Senhor (Gn 26.5), foi chamado o pai da fé (Rm 4.11; Gl 3.6-7), tendo recebido grande destaque na “Galeria dos Heróis da Fé” (Hb 11.8-19).

Isaque, pai de Jacó, não teve um currículo tão extenso quanto o de seu pai Abraão. Também teve lá os seus tropeços, como qualquer outro ser humano. Mas, por 20 anos orou por sua esposa Rebeca e esta concebeu (Gn 25.19-21, 26); o Senhor aparecia e falava com ele (Gn 26.2-5; 26.24); o Senhor o abençoava e o fazia prosperar (Gn 26.12-14); foi um pacificador, sempre indo adiante, ao invés de ficar e lutar por seus direitos (Gn 15.16-22); foi um cavador de poços (Gn 26.18-22) e foi um edificador de altares ao Senhor (Gn 26.25).

Apesar de Jacó ter recebido um legado tão especial quanto esse, ficamos um tanto quanto chocados com o registro de suas palavras: “então, o SENHOR será o meu Deus;”. Se poderia vir a ser seu Deus é porque ainda não era! Ele não escondia de ninguém que o Deus era do seu pai e não dele (Gn 27.20; 32.9). O que dizer da vida pregressa de Jacó, além dessa triste nota? Certa vez ouvi falar de algo como a Síndrome da Terceira Geração. Não é que eu acredite nela ou que ela seja verdadeira e regra geral. Faço aqui apenas uma menção despretensiosa. Se não me falha a memória é mais ou menos assim: a primeira geração é totalmente comprometida com Deus e sua igreja; a segunda geração, nem tanto; e, então, a terceira geração tende a se desviar dos caminhos do Senhor. Estaria Jacó vivendo essa síndrome?

Sua vida e vivência familiar havia sido um tanto quanto complicada. Já no ventre materno “lutava” com seu irmão gêmeo Esaú (Gn 25.22). Era um homem pacato e caseiro, protegido da mãe, já que seu irmão Esaú era o preferido do pai (Gn 25.27-28). Quão prejudicial para a formação de filhos é essa predileção paternal e maternal! Seu primeiro ato, no teatro da vida, foi a sua “artimanha” para comprar o direito de primogenitura do seu irmão (Gn 25.29-34; ver Hb 12.16-17). No segundo ato ardiloso, para enganar o pai Isaque, a roteirista foi a sua mãe Rebeca e ele o protagonista (Gn 27). Isso porque Isaque não escondia sua predileção por Esaú e pretendia dar-lhe a bênção do primogênito (Gn 27.2-4), desconsiderando o episódio da venda daquele direito. Por outro lado, a mãe poderia estar se valendo da resposta que recebera do Senhor, antes do nascimento dos gêmeos: “Respondeu-lhe o SENHOR: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço.” (Gn 25.23; Ml 1.2-3). Ela permanecia de prontidão, quando um dia ouviu o seu marido passar as instruções para Esaú (Gn 27.5) e tratou de colocar seu plano em ação. Plano esse que já deveria estar pronto há algum tempo. Quanta astúcia, imaginação e criatividade de Rebeca para fazer Jacó se passar por Esaú e apropriar-se da bênção da primogenitura! Quanto cuidado com os detalhes! Quanta tensão e emoção no desenrolar do ato (Gn 27.18-40); mentalmente, quase dá para ouvir aquela música de suspense, de fundo. E, foi assim que a crise familiar se instalou (Gn 27.41). Entretanto, não faltava criatividade a Rebeca para traçar planos (Gn 27.42-45) e enrolar seu marido (Gn 27.46).

Esta é a síntese da desastrosa vida pregressa de Jacó. Agora, fora da tutela da mãe, um tanto quanto despreparado para conduzir sua vida, ele mostra sua petulância e atrevimento ao impor condições a Deus, em vez de se submeter ao Senhor. Ele entristece o Senhor ao mostrar-se ser do tipo que quer ver, para crer: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20.29). Mas Deus tinha um propósito específico na vida de Jacó (Gn 25.23; Rm 9.11-13). Não é o caso aqui de entrarmos em detalhes sobre sua vida posterior. Basta lembrar que ele passará por muitas provações e aflições, será sustentado por Deus e acabará tendo um encontro pessoal com Deus e seu nome será mudado de Jacó, para Israel (Gn 32.22-30).

As alianças do Antigo Testamento eram condicionais e estabelecidas por Deus (Dt 11.26-28). Numa época assim, o homem propor um pacto com Deus era sinal de petulância.

3. O pacto do cristão

Se, como cristãos, tivéssemos que aproveitar alguma coisa do pacto de Jacó, para formularmos o pacto do cristão, creio que poderíamos expressá-lo reestruturando as frases, trocando condição por causa, mais ou menos nesses termos:

“Porque tu, Senhor, és o meu Deus, que me compraste com o precioso sangue do teu Filho Jesus.
E, creio que tu, Senhor, me conduzirás em paz e segurança.
E, serei por ti sustentado, com pão para comer e roupa que me vista.
Pois tu, Senhor, estarás comigo durante toda a minha peregrinação neste mundo.
Então, eu te darei o dízimo de tudo o que me concederes, incondicionalmente.
Pois é de minha responsabilidade que a Casa do Senhor seja edificada e sustentada.”

Na gramática portuguesa:

Porque – conjunção subordinativa causal: exprime sentido de causa.
Então – Conjunção coordenativa conclusiva: indica relação de conclusão.

Então, vejamos:

Porque tu, Senhor, és o meu Deus, que me compraste com o precioso sangue do teu Filho Jesus.

A certeza de que o Senhor é o meu Deus, é sim o fator preponderante para todo o meu agir. Ele sempre será Deus, independentemente do que eu pense ou faça. Ele não precisa provar para quem quer que seja ou fazer algo mais, para que alguém o possa chamar de “meu Deus”. Ele já fez tudo! Ele entregou seu Filho, nos comprando por precioso preço.

E, creio que tu, Senhor, me conduzirás em paz e segurança.

Os desafios da vida cotidiana são muitos e, por vezes, imprevisíveis. Há muitos elementos e situações que fogem ao nosso controle, pois dependem de terceiros. Porém, isso não pode ser motivo de intranquilidade e de apreensão. Deus está no controle de tudo! Basta a nós, seus filhos, confiarmos nele; descansarmos nele e na força do seu poder!

E, serei por ti sustentado, com pão para comer e roupa que me vista.

A presença do Senhor junto aos seus remidos é a garantia do seu cuidado e sustento: “Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6.31, 33)

Pois tu, Senhor, estarás comigo durante toda a minha peregrinação neste mundo.

Aquele que pertence ao Senhor pode tranquilizar seu coração, pois Jesus prometeu estar conosco: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20b)

Então, eu te darei o dízimo de tudo o que me concederes, incondicionalmente.

A questão relevante aqui é que a pessoa salva por Cristo não tem o direito de estabelecer qualquer condição prévia para só, e então, responder graciosamente, após ter recebido a “bênção pactuada com Deus”. Na verdade, a pessoa remida por Cristo já recebeu o que há de mais precioso – a Vida Eterna. Desta forma, a vida presente não é mais sua. Assim, tudo o que tem, por Deus concedido, deve ser usado com sabedoria. Este não dará quando receber, porém dará na medida das suas posses, porque já recebeu uma tão grande salvação.

Pois é de minha responsabilidade que a Casa do Senhor seja edificada e sustentada.

Ainda que o dízimo não seja uma doutrina explícita para a igreja, o povo da Nova Aliança, fica claro nas epístolas do NT que os membros da igreja devem sustentá-la com os seus recursos. E, como fazer isso? Em termos práticos, há pelo menos duas formas: 1ª)Calcula-se o custo total de operação, manutenção e investimento da igreja e se faz um rateio do valor por todos os seus membros, proporcional: “…na medida de suas posses e mesmo acima delas,” (2Co 8.3).  2ª)A partir do valor total arrecadado com dízimos e ofertas, são estabelecidas as  condições de operação, manutenção e investimento da igreja. Essa segunda opção parece ser a mais usada pelas igrejas. Não é o caso aqui de tratarmos da doutrina neotestamentária da contribuição, mas, apenas lembrar que é nossa responsabilidade e privilégio sustentar financeiramente e moralmente a igreja de Cristo, sem estabelecer qualquer condição.

A parábola do trigo e do joio

Trigo e Joio

I) A parábola do trigo e do joio (Mt 13.24-30)

Esta parábola de Jesus foi mencionada apenas por Mateus. Pode ser considerada uma parábola essencialmente profética, alcançando até o juízo final.

24  Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo;
25  mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se.

O dono semeou apenas a boa semente. Entretanto o inimigo veio e semeou o joio. Na botânica o joio é chamado de “LOLIUM TEMULENTUM”, uma espécie de imitação do trigo, cuja diferença somente é notada no final do seu desenvolvimento. Daí ser perigoso tentar separá-la ou removê-lo antes da ceifa.

26  E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio.

O símbolo é bem apropriado porque a diferença somente é notada no estágio de desenvolvimento da espiga (fruto). O fruto do joio é inútil, inapropriado para a alimentação e nocivo ao homem, pois são grãos venenosos.

27  Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?
28a  Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso….

Somente quando começou a espigar é que os servos notaram o problema e foram reportar ao proprietário do campo. O proprietário não teve dificuldade para perceber que aquilo era obra do inimigo.

28b  …. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio?
29  Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo.

Vale ressaltar que o joio costuma prejudicar o solo, provocando problema por vários anos. Diante daquela situação, os servos se ofereceram para remover o joio. Entretanto, o dono estava seguro do melhor a ser feito naquele momento, que era esperar. Ele tinha a convicção de que o zelo resultante da impaciência pode ser um desastre. A prudência e a oportunidade são boas conselheiras da sabedoria. Ainda que fosse possível distinguir uma planta da outra, pelo aspecto exterior, as raízes podiam estar entrelaçadas e a remoção do joio danificar o trigo. Também havia o risco da remoção acidental da planta errada.

30  Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.

O proprietário estava certo da vitória final sobre o inimigo. Aqui o joio é colhido primeiro. Na escatologia bíblica é o salvo que é colhido primeiro. Isso reforça o fato de que os detalhes de uma parábola não devem ser levados em conta, mas sim a sua mensagem ou verdade central.

II) A explicação da parábola do trigo e do joio (Mt 13.36-43)

36  Então, despedindo as multidões, foi Jesus para casa. E, chegando-se a ele os seus discípulos, disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo.
37  E ele respondeu: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem;

Mais uma vez o foco é posto sobre a pessoa de Jesus. O semeador é o Filho do Homem – Jesus. Ele é o primeiro a semear a palavra do reino. Ele inicia a semeadura e, depois, convoca a todos: “Ide…”

38  o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno;

“O campo é o mundo”. Que mundo é esse? Apesar dessa afirmação ser relativamente clara e objetiva, tem dado motivo para várias interpretações. Não cabe aqui o conceito mais amplo de mundo, o mundo físico que inclui todos os povos, de todos os tempos. Mas, muito provavelmente, o mundo que recebeu a mensagem e influência de Jesus e que se diz seguidor dele, que se convencionou chamar de cristandade. Certamente, os não religiosos ou seguidores de outras seitas e religiões, não se enquadram aqui. “A parábola fala de ´joio` e ´trigo`. O ´joio` é imitação do ´trigo`. Essa ideia requer interpretação, porquanto o ´joio` não é somente qualquer pessoa irreligiosa ou incrédula, mas aqueles que fingem ser parte do ´reino`, postando-se entre os cristãos…Contudo, a experiência humana da igreja demonstra que, de fato, existem ´joios` em qualquer denominação ou igreja.”

“A boa semente são os filhos do reino”. O símbolo da semente, nesta parábola, tem uma pequena variação em relação à parábola da semente e os solos. Lá, a semente era a “palavra do reino” (Mt 13.19) ou a “palavra de Deus” (Lc 8.11), a mensagem do evangelho ou as boas novas de salvação. Porém, aqui, a “boa semente” é representada pelo resultado da operação da palavra, isto é, “os filhos do reino”, a boa terra, que recebe a semente, germina, cresce e produz frutos. “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas.”(Tg 1.18)

“O joio são os filhos do maligno”. O joio não são os incrédulos; mas os religiosos, os falsos cristãos, os imitadores dos verdadeiros cristãos, os lobos travestidos de ovelhas, os falsos discípulos do reino. Assim como a Palavra de Deus produz verdadeiros cristãos, os filhos do reino; a palavra do maligno e sua influência, produzem não só os declaradamente ímpios, mas também os “falsos discípulos”, que produzem escândalos e praticam a iniquidade. Ambos têm por pai o diabo, que é o maligno.

39a  o inimigo que o semeou é o diabo; ….

O inimigo que semeia o joio é o adversário, o maligno, Satanás, o diabo. Obviamente que ele não dorme, nem descansa e não cessa de fazer o mal. O Diabo, aqui e nas Escrituras, é um ser pessoal e não um mero símbolo de maldade. Ele trabalha ocultamente, na permissão de Deus.

Na sua explicação, Jesus não fez referência a dois detalhes. Assim sendo, qualquer tentativa de interpretação pode ser considerada mera especulação. É provável que esses detalhes só tenham sido mencionados para formar uma história interessante e completa.

(i) O momento dessa semeadura: “enquanto os homens dormiam”. Dentre os que se adiantam a expressar a sua própria explicação, há aqueles que dizem haver aqui uma referência a atitude de descuido dos líderes da igreja, a falta de disciplina, o espírito mundano, a fraqueza moral, a negligência etc.

(ii) Os servos. Da mesma forma, alguns os identificam como os líderes da igreja, ou aqueles cristãos que deveriam estar atentos aos ataques do inimigo contra a igreja.

39  ….; a ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são os anjos.

“A ceifa é a consumação do século.” Alguns contavam que isso aconteceria na primeira vinda de Cristo. Entretanto, o Novo Testamento desloca esse momento para a segunda vinda de Cristo. Todo desenrolar da mensagem bíblica aponta para um julgamento final, um dia de prestação de contas. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo,..” (Hb 9.27)(comp. Mt 24.3; 28.20; Ap 20.11-15). Primeiramente se dará a colheita dos remidos (trigo)(Ap 14.14-16),  depois, a ceifa do joio e dos ímpios (Ap 14.17-20) e, por fim, o milênio. “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. (Mt 13.49-50).

“Esta parábola descreve o período da história do mundo que teve início com o ministério de Cristo e que terminará com o julgamento, ou seja, que abrange a era da graça, em que a igreja estará em funcionamento. Jesus se refere a esse período como se fosse uma estação do ano própria para a semeadura e a colheita.”

“A ceifa demonstra que só há dois tipos de homens: crentes verdadeiros e imitações.”

“Os ceifeiros são os anjos”. Aos servos do dono da plantação foi negado arrancarem o joio, para que não arrancassem também o trigo. Há um tempo determinado para essa colheita e os anjos serão os ceifeiros (Dn 7.9,10; 12.1,2; Ap 14.14-20).

Deve ser rejeitada a ideia de alguns, que, baseados nesta parábola, dizem que a igreja local não tem base bíblica para aplicar uma disciplina de exclusão. Isto é um equívoco, pois no âmbito local a igreja deve fazê-lo, conforme o ensinamento bíblico.

40  Pois, assim como o joio é colhido e lançado ao fogo, assim será na consumação do século.
41  Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade
42  e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes.
43  Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

A separação entre o verdadeiro e o falso será completa e perfeita. As características do joio são: “os que servem de tropeço e os que praticam a iniquidade”.

O destino final de justos e de ímpios já está determinado – o fogo eterno.

Conclusões:

a) A parábola não ensina que, no tempo presente, não dá para identificar a presença do joio. O joio foi visto e até causou perplexidade.

b) A parábola ensina que no tempo presente não se deve proceder à destruição do “joio” ou imitador do verdadeiro cristão.

c) Quem é trigo, sabe que é trigo? Com certeza sabe, pois: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. (Rm 8.16)

d) Quem é joio, sabe que é joio? Claro que sim! Sabe que não é de Cristo. Sabe que é pedra de tropeço na vida de muitos. Sabe que está praticando a iniquidade e que lhe é conveniente continuar assim. Sabe que é mero imitador e se esforça para parecer com o verdadeiro cristão e para não ser descoberto.

e) Pode o joio virar trigo? Tudo leva a crer que não! Humanamente falando, pela sua natureza, certamente que não. Da mesma forma que o trigo, simbolizando aqui o salvo, não perde a salvação, isto é, não pode virar joio; o joio, simbolizando aqui o perdido, não pode virar trigo.

f) A mensagem central da parábola é que os filhos de Deus e os filhos do maligno hão de conviver até o dia da ceifa, na consumação do século. “Ele, porém, respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada.” (Mt 15.13)

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