Paz

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio….” (Gl 5.22-23a)

Introdução

Paz, esta pequena, mas tão significativa palavra, no hebraico é shalom (שָׁלוֹם); e no grego eireni (ειρήνη). A paz é algo tão relevante que diz respeito e afeta direta ou indiretamente toda a criação, toda a obra do Criador. Na queda dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, a rebelião humana resultou no rompimento da paz com Deus e, não somente a raça humana, mas até mesmo o restante da criação sofreu e sofre as trágicas e devastadoras consequências.

A palavra “paz” é citada 95 vezes no Novo Testamento: 25 nos evangelhos, 6 em Atos, 62 nas epístolas e 2 no Apocalipse. Jesus mesmo a empregou cerca de 20 vezes; algumas vezes como saudação – “Paz seja convosco!”, outras como despedida – “vai-te em paz.” Principalmente nas epístolas de Paulo e de Pedro é recorrente encontrarmos esta mesma prática de Jesus, usando os termos “graça e paz” na saudação inicial e “paz” nas palavras de despedida.

O que é paz?

Há muitos anos, ouvi numa pregação do meu saudoso pai, uma ilustração que nunca mais esqueci, isto é, da ideia geral. Reconstituindo os detalhes esquecidos, seria mais ou menos assim:

Conta-se que um rei desejava ornamentar o seu palácio com um “quadro da paz”. Então, convocou artistas de diversas partes do mundo e lançou um concurso, oferecendo um prêmio ao artista que pintasse o quadro que melhor expressasse a paz. Muitos pintores aderiram ao desafio e apresentaram a sua obra. Chegaram ao palácio quadros variados. Eles retratavam a paz através de lindas paisagens com jardins, flores, praias, lagos e florestas, pássaros e borboletas, alvoradas e crepúsculos estonteantes.

O rei olhou todos os quadros, sendo que dois deles lhe chamaram mais a atenção.

Um deles retratava um lindo e sereno lago. O lago refletia com perfeição as altas e intocadas montanhas a sua volta, bem como o azul anil do céu, com algumas nuvens brancas como algodão. Os expectadores que acompanhavam o rei viram este quadro e acharam que seria o escolhido, pois era um perfeito retrato da paz.

O outro quadro também tinha montanhas e floresta. Acima havia um céu ameaçador do qual caía copiosa chuva, e no qual brilhavam relâmpagos. Na encosta da montanha havia uma cachoeira caudalosa e espumante. Não parecia retratar algo pacífico. Entretanto, olhando mais cuidadosamente, o rei observou, ao lado da cachoeira, um pequeno arbusto crescendo numa fenda da rocha. No arbusto uma mãe pássaro havia feito seu ninho. Lá, naquele abrigo simples, mas seguro, envolta em  tanta turbulência, se instalara a mãe pássaro em seu ninho, em perfeita paz.

Diante desta imagem, tão sutil, mas convincente, o rei não teve dúvida e escolheu este segundo quadro. Assim, os pintores não escolhidos, não conseguiam esconder sua perplexidade e indignação. – Como este quadro tão violento pode representar a paz?

Então, logo veio a explicação: PAZ não significa estar num lugar tranquilo, silencioso, sem problemas ou dificuldades ao redor. Paz significa estar no meio das adversidades e tempestades da vida e, mesmo assim, permanecer calmo e seguro.

Este é o significado real da PAZ. E essa paz só pode vir de Deus. Pois, dele procede a paz que excede todo entendimento. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo 14.27). É como diz o cântico de Stuart Edmund McNair:

Ou seja o caminho de gozo e de luz,
Ou seja com trevas de horror,
Por Cristo já tenho aprendido a dizer:
“Tenho paz, doce paz no Senhor”.

A paz, na visão secular, é um conceito amplo e complexo que geralmente se refere a um estado de tranquilidade, ausência de conflitos, harmonia e estabilidade. Na perspectiva e cosmovisão cristã pode ser descrita como o relacionamento harmonioso do ser humano com Deus, consigo mesmo e com o seu semelhante.

O propósito deste estudo é proporcionar a reflexão sobre alguns aspectos e questões como: O que tira a paz? O que gera a paz? A fuga da realidade motivada pela falta de paz. Em que consiste a verdadeira paz? Qual a nossa responsabilidade em relação a promoção da paz?

1. O QUE TIRA A PAZ?

O ser humano do bem necessita e anseia por liberdade, paz e justiça e por ver suas necessidades básicas atendidas. Somos parte de algo muito maior, da sociedade e do mundo. Nós somos afetados por ele e, também, o podemos afetar. Se há paz ou guerra ou conflitos no mundo, isso pode afetar a nossa paz. Seria bom que todos levassem a sério a instrução bíblica: “Aparta-te do mal e pratica o que é bom; procura a paz e empenha-te por alcançá-la.” (Sl 34.14).  Infelizmente vivemos num mundo marcado por violência e guerras em toda a sua história. Há necessidade de paz em todas as suas dimensões: Paz com Deus, paz consigo mesmo, paz de espírito, com o próximo, paz entre as nações e paz na nação.

“Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz.” (Is 57.21). Na simbologia bíblica o mar representa os povos, as nações, a massa agitada da humanidade (Ap 17.15). E, esse mundo está como um “mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo” (Is 57.20).

Nosso mundo está mais agitado e perturbado do que nunca. São:

  • Guerras e rumores de guerras entre as nações;
  • Guerra civil;
  • Guerra de narrativas;
  • Guerra ideológica;
  • Ataques cibernéticos;
  • Golpes reais e virtuais;
  • Narrativas ambientalistas falaciosas;
  • Narrativas tecnológicas alarmantes.

Nas últimas décadas, a sociedade vem sendo mantida refém de narrativas globalistas alarmantes e, muitas vezes, falaciosas e com fins duvidosos (energia atômica, aquecimento global, efeito estufa, buraco na camada de ozônio com emissão de gás CFC, clonagem humana, alimentos transgênicos, pesticidas e agrotóxicos, desmatamento da Amazônia, mudanças climáticas e, agora, a Inteligência Artificial).

Não são poucos os motivos com potencial de nos tirar a paz:

  • Ameaça à perda da vida;
  • Ameaça à perda de pessoas queridas (familiares, amigos etc.);
  • Ameaça à perda da saúde;
  • Ameaça à perda da liberdade;
  • Ameaça à perda dos meios básicos para a sobrevivência (alimento, moradia, emprego etc.);
  • Ameaça à perda dos bens;
  • A doença incurável;
  • A desagregação familiar;
  • A injustiça;
  • A violência;
  • A traição;
  • O ódio alheio;
  • A calúnia e a difamação;
  • A opressão;
  • O autoritarismo;
  • Um governo corrupto;
  • Autoridades e políticos corruptos;
  • E, muitos outros.

2. A FUGA DA REALIDADE

Diante de uma sociedade tão agitada e amedrontada, de um mundo tão conturbado e dias tão turbulentos, cresce o número de pessoas que enveredam por caminhos ou atalhos perigosos e sem saída. Assim, podemos enumerar aqui alguns deles:

  • Uso de medicamentos que atenuam a percepção da realidade e criam dependência;
  • Consumo dos mais variados tipos de drogas – dependência química;
  • Práticas esotéricas fantasiosas e alienantes;
  • Adesão a falsas religiões, seitas e heresias;
  • Entrega desenfreada aos prazeres sexuais, orgias e pornografia.
  • Suicídio, quando se perde totalmente qualquer esperança.

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.” (Ef 6.10)

A sublimação[1] e fuga da realidade nunca foi e nunca será um bom caminho na busca da paz, particularmente no que tange a paz de espírito. Vale ressaltar aqui que, diante deste quadro e contexto social ameaçador, cresce no meio evangélico o número de pregadores que aderiram ao discurso da ajuda do alto (parafraseando os militantes da autoajuda). É claro que os púlpitos e gabinetes pastorais precisam acolher, consolar, apoiar e encorajar os mais fragilizados, principalmente os que estiverem passando por situações aflitivas na vida. Entretanto, o crente precisa mesmo viver em íntima comunhão com Deus, fortalecendo-se nele e na força do seu poder.

3. A VERDADEIRA PAZ

“Como fruto dos seus lábios criei a paz, paz para os que estão longe e para os que estão perto, diz o SENHOR, e eu o sararei.” (Is 57.19)

Deus mesmo se coloca aqui como o autor da paz! Portanto, a verdadeira paz procede do alto, de Deus: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.” (Tg 1.17)

Jesus Cristo é a encarnação da verdadeira paz!

No Antigo Testamento, Jesus é vislumbrado pelo profeta Miquéias como “nossa paz” (Mq 5.5, ratificado pelo apóstolo Paulo, Ef 2.14) e pelo profeta Isaías como o “Principe da Paz” (Is 9.6).

No Novo Testamento, no nascimento de Jesus, o anjo e a multidão da milícia celestial glorificaram a Deus e proclamaram a chegada do Príncipe da Paz: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.” (Lc 2.14)

No seu ministério terreno Jesus fez uma declaração contundente: “Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão.” (Lc 12.51). Isso em nada descredencia as palavras proféticas, pois, sua obra redentora e missão divide a humanidade em salvos e perdidos. Apenas para os salvos há garantia de paz!

No final do seu ministério Jesus trouxe aos seus seguidores duas relevantes palavras de encorajamento e esperança:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (Jo 14.27)
“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33) 

É nas epístolas do NT que encontramos substancial e consistente conteúdo doutrinário e teológico sobre a verdadeira paz, criada por Deus e manifestada em Cristo, na plenitude dos tempos.

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1)

A paz com Deus é o elemento propulsor e ponto de partida para se desfrutar dessa autêntica e verdadeira paz! A rebeldia contra Deus e a rejeição ao seu Filho jamais permitirá alcançar essa paz. Em Cristo, na cruz do Calvário:

“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram.” (Sl 85.10)

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.” (Ef 2.14-16)

Uma vez resolvida essa questão existencial do pecado, que nos separa e impede a comunhão com Deus, através da obra redentora de Cristo na cruz, passamos a ser guardados por ele: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.” (Fp 4.7)

A paz oferecida pelo mundo é efêmera, enganosa e ilusória. Entretanto, a paz proporcionada por Deus, em Cristo, é real, verdadeira e eterna. Essa paz, além de ser decorrente do acerto da nossa vida com Deus, gera na nova criatura em Cristo:

  • Confiança e dependência de Deus: “Tu, SENHOR, conservarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme; porque ele confia em ti.” (Is 36.3);
  • Amor e prática da Palavra de Deus: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço.” (Sl 119.165)
  • Afastamento do mal e a prática do bem (1Pe 3.11);
  • Amor e respeito ao próximo;
  • Domínio da natureza humana que é essencialmente má, pela atuação do Espírito Santo em nós – fruto do Espírito.

4. A NOSSA RESPONSABILIDADE EM RELAÇÃO A PAZ

O Deus a quem servimos é o Criador de todas as coisas, inclusive da paz, conforme já comentado (Is 57.19).

“Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis,” (2Pe 3.14)

Na condição de seus servos somos chamados por Deus a viver em paz.

“se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18)

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14)

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.3)

Além de desfrutar de paz interior, somos chamados a viver em paz com os outros.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5.9)

Não somos apenas receptores passivos, mas agentes ativos da paz, chamados por Deus para promover a paz, para sermos pacificadores.

“E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto;” (Ef 2.17)

“Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz;” (Ef 6.15)

A evangelização promove a paz! Jesus veio para promover a paz e nos comissionou para continuar a sua obra. Esse é o nosso desafio! Essa é a nossa missão! E, essa é a mais eficaz e poderosa estratégia de “disseminação” da paz!

Conclusão

“Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós.” (2Ts 3.16)

Em Cristo nossos conflitos íntimos e existenciais podem ser neutralizados e sossegar nossa alma.

Em Cristo e nos ensinamentos bíblicos podemos superar nossas diferenças de opinião, alinhar nossos interesses com os do Reino de Deus, redefinir nossas prioridades de vida e distensionar nossos relacionamentos uns com os outros.

Sabemos que o mundo vai de mal a pior, pois se afasta de Deus e mantém-se em rebeldia contra ele. Entretanto, pesa sobre nós a responsabilidade e dever de fazer o que estiver ao nosso alcance, em prol da verdadeira paz. Devemos crer no poder transformador do evangelho e agir enquanto é tempo.

“Quanto ao mais, irmãos, adeus! Aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz estará convosco.” (2Co 13.11)

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ANDAI NO ESPÍRITO (Ed. Didaquê).
4. Internet.


[1] A sublimação, na psicanálise, é um tipo de mecanismo de defesa maduro, no qual impulsos ou idealizações socialmente inaceitáveis ​​são transformados em ações ou comportamentos socialmente aceitáveis, possivelmente resultando em uma conversão a longo prazo da pulsão inicial.

O presente de Deus para você

Presente de Deus

O natal vai se aproximando e parece que crianças, adolescentes, jovens e adultos não conseguem deixar de pensar numa coisa, ou melhor, num pacote ou embrulho chamado de PRESENTE. Uns, ficam ansiosos para ganhar; outros, preocupados em comprar para dar. Quanta correria, atropelo e irritação desnecessários nas ruas e lojas da cidade! Quando criança, duas datas em particular me fascinavam mais: o dia do meu aniversário e o natal. O motivo é óbvio, os presentes que ganhava nessas ocasiões. Já que a maioria está focada em presente, vamos refletir um pouco sobre o presente de Deus para você.

Cada tópico que estamos desenvolvendo aqui daria assunto para se escrever um livro, se abordado em suas vertentes teológicas. Entretanto, nosso objetivo é ser claro, simples, objetivo e criativo nessa abordagem. Então, vejamos:

1. A motivação

Por que presentear? Em alguns casos e para algumas pessoas é mais porque a maioria faz, está na moda ou é politicamente correto. Felizmente, para tantos outros, dar presente é uma forma de demonstrar apreço pelo outro, porque o outro é importante para nós, porque queremos agradá-lo. Conta-se que para iniciar o contato com uma tribo indígena desconhecida, talvez hostil, a estratégia é você se aproximar um pouco, deixar alguns presentes num lugar visível e voltar depois. Se encontrar ali os presentes deles, isso é o sinal de que você é bem-vindo.

Como você bem sabe, muitas são as motivações para se presentear. Entretanto, motivação não é tudo. O presente precisa agradar; se for útil é melhor ainda!

Deus teria alguma razão ou motivação para nos dar algum presente especial? Assim como os pais estão cotidianamente dando alguma coisa para os seus filhos e, em ocasiões especiais, dão presentes especiais, Deus também age conosco. Em toda a Bíblia, Deus Pai se revela como um Deus que dá! Nos dá a vida, nos dá um planeta singular para habitar e cultivar, nos dá o domínio sobre as demais criaturas, nos dá os suprimentos para subsistência, sol, chuva etc. Tudo isso, entretanto, não era o suficiente. O pecado, a rebeldia do homem contra Deus, desde o Éden, desde de Adão, havia colocado todo ser humano numa condição de vida física temporária e morte eterna, isto é, eterna separação de Deus. Viu Deus que não havia humano capaz de reverter esse trágico quadro, reconciliando Deus com a raça humana, então, ele mesmo tomou a iniciativa: “Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve.” (Is 59.16)

2. O presente

O presente especial de Deus e o seu bem maior é o seu Filho Unigênito – Jesus Cristo. Ele é a expressão máxima do amor de Deus: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16). Jesus é o “presente” mais valioso, útil e necessário que um ser humano pode receber: “….a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.” (2Co 5.19).

No livro surpreendente, cheio de lances emocionantes, “O totem da paz”, Don Richardson narra com realismo a incrível transformação que o Filho da Paz, Jesus, trouxe ao coração dos Sawis. Entre os Sawis, uma tribo de canibais caçadores de cabeças, a traição era mais que uma filosofia de vida, era a maior virtude. Em 1962, Don Richardson e sua esposa Carol foram à terra dos Sawis levando a história de um herói diferente, cuja mensagem era amor, e não traição; perdão, e não vingança, a história do Filho da Paz, enviado por Deus. Entretanto, estava difícil comunicar a eles esta mensagem. Ocorreu ali uma cerimônia solene entre tribos em conflito para selarem um pacto de paz. O chefe guerreiro de uma tribo ofereceu o seu único filho, um bebê, ao chefe guerreiro da outra tribo. Enquanto a criança vivesse haveria paz entre eles. Assim, a tribo que cedeu a criança não poderia atacar a tribo que recebeu a criança, pois esta a mataria. Por outro lado, a tribo que recebeu a criança tinha que se esforçar para mantê-la viva, para não cessar o período de paz. Deus, então, inspirou aqueles missionários para apresentarem Jesus como o “totem da paz”, sendo que este jamais morrerá. Assim, estabeleceu uma paz permanente entre Deus e os homens.

3. A ocasião especial

Há, em cada sociedade, algumas datas mais significativas e mais comemoradas. A sociedade atual, inclinada ao consumismo, cada vez mais tem transformado essas datas em ocasiões para a troca de presentes. Assim, algumas datas têm sido cuidadosamente trabalhadas pelos marqueteiros para alavancar muitas vendas.

Que ocasião Deus escolheu para dar o seu valioso presente à raça humana? Tal intenção de Deus já havia sido manifestada há cerca de seis mil anos (Gn 3.15). Entretanto, diz a Bíblia: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,” (Gl 4.4). No “Kairós” divino (o tempo oportuno, o momento certo), o tempo de Deus, esse presente foi dado aos homens, cumprindo as profecias. Então, há cerca de dois mil anos atrás, se deu o “primeiro natal”.  Este era o momento certo, porque apresentava muitas condições favoráveis à propagação das boas novas do Evangelhos ao mundo conhecido de então.

4. A “embalagem”

Com a devida licença poética, podemos identificar nesse presente de Deus duas “embalagens”. A VIRGEM MARIA e a ENCARNAÇÃO. Ambas temporárias pois “revestiram” Jesus por breve tempo.

Primeiramente Deus escolheu Maria; seu útero e corpo. Sem dúvida, uma jovem simples, mas encontrada digna para tal missão e privilégio, que sempre soube muito bem o seu lugar e papel: “Então, disse Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas.” (Lc 1.46-49). Irônica e lamentavelmente tem muita gente por aí equivocada, atribuindo um valor a essa “embalagem” que ela não tem; chegando ao extremo de valorizar e cultuar mais a “embalagem” do que ao próprio presente!!!

A segunda “embalagem”, a encarnação, era a única forma de tornar visível e acessível o valioso presente de Deus. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Foi por obra e graça do Espírito Santo que esse presente de Deus, Jesus, foi gerado e cuidadosamente “embrulhado” no útero de Maria: “Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.” (Lc 1.35).

5. O preço

Você conhece bem aquela expressão publicitária “… não tem preço”. Pois bem, jamais teremos condições de avaliar ou quantificar o preço desse presente de Deus. Nessa breve abordagem, basta lembrar que esse preço passa pela doação de Deus do seu Filho único (Jo 3.16); que Jesus deixou a glória celestial para viver as limitações da vida humana (Jo 17.4-5), porém sem pecado (Hb 4.15); sofreu, foi humilhado e morto, fazendo-se maldição em nosso lugar (Gl 3.13). Sinta toda a força dessa expressão de Jesus, na sua oração: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.” (Jo 17.4-5). Mas todo esse esvaziamento e entrega não foram em vão: “vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem.” (Hb 2.9)

Por falar em preço, a quem foi pago? Alguns pensam que foi a Satanás. Certamente que não! Tal preço foi pago à santidade e justiça de Deus. A santidade de Deus impede a comunhão do homem pecador com ele; a justiça de Deus condena o pecador e exige a punição do pecado cometido. Só Jesus foi encontrado capaz de satisfazer a justiça de Deus, morrendo em lugar do pecador, possibilitando o homem caído de se aproximar de Deus, pela fé na obra redentora efetuada por Jesus, na cruz do calvário! “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.18-20)

6. A entrega

Um presente especial não pode ser entregue de qualquer maneira. Isso não significa que a entrega tenha que ser feita com luxo, pompa e sofisticação. A entrega desse presente de Deus tem confundido e desapontado muita gente, principalmente os judeus religiosos do tempo de Jesus, que aguardavam a chegada de um Messias Rei e Libertador. Para estes o Messias nasceria num palácio, por isso uns magos foram procurá-lo no palácio de Herodes, em Jerusalém.

Então, por que essa entrega foi especial? A resposta a essa pergunta nos revela mais uma das muitas belas mensagens e lições desse primeiro Natal, que deve ser lembrada em todos os outros natais. Vejam essas cenas da entrega:

  1. Os céus baixaram até a terra. O anjo se manifestou em glória e anunciou o ocorrido aos pastores no campo. As milícias celestiais louvaram a Deus (Lc 2.8-14). Uma estrela diferente brilhou no céu de Belém.
  2. O menino Jesus nasceu de gente simples, num lugar simples e incomum, numa estrebaria de Belém (Lc 2.7). Seu nascimento foi anunciado a simples pastores, no campo, que não tardaram a ir ao seu encontro e sendo os primeiros a divulgar a outros as boas novas.

Percebam a mensagem:

Natal é a mais extraordinária conexão entre: o eterno de Deus e o finito do homem; entre a grandeza e glória celestiais e a simplicidade e humildade do coração humano; entre o Príncipe da Paz e Salvador do mundo, Jesus, e o ser humano que se desnuda de todo e qualquer mérito próprio e autossuficiência para recebê-lo, amá-lo, obedecê-lo e servi-lo.

7. A recepção

Como as pessoas reagem quando recebem presentes? As vezes com muita alegria, outras vezes com o sorriso desconcertado da frustração velada. O nascimento de Jesus foi anunciado pelos anjos, aos pastores, como “boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo:” (Lc 2.10). Naquele primeiro natal, Jesus foi recebido com muita alegria e glorificação a Deus, pelos seus pais terrenos, pelos pastores no campo, por Simeão, por Ana, por uns magos do oriente e por todos aqueles que creram no quanto aquele presente de Deus era especial. Ao longo do seu ministério terreno essa alegria se repetia aonde Jesus chegava: “Ao regressar Jesus, a multidão o recebeu com alegria, porque todos o estavam esperando.” (Lc 8.40). Desde então, essa alegria tem se repetido na vida daqueles que o recebem.

8. Seus efeitos

Jesus dividiu a história humana em dois momentos, antes (aC) e depois da sua vinda (dC). Jesus também dividiu a minha vida e a de muitas pessoas em dois momentos: antes, criatura de Deus, pecador e perdido eternamente; depois, filho de Deus por adoção, salvo eternamente.

Jesus veio trazer paz e esperança a terra, no presente; e, vida eterna, que começa aqui e agora. Penso que o melhor presente que alguém pode receber é um futuro eterno e glorioso junto a Deus!

9. Nossa retribuição

Quando se ganha um presente é natural querer retribuir, se possível no mesmo nível de valor do presente recebido. Como você pode retribuir esse presente de Deus, que não tem preço? Aí vão algumas dicas:

  1. Entregue a Deus o que você tem de mais precioso: seu coração, sua vida por inteiro. Receba essa palavra vinda de Deus para você: “Dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos se agradem dos meus caminhos.” (Pv 23.26).
  2. Conheça melhor a Deus e o seu plano para tua vida, através da leitura da Bíblia e oração: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6.3)
  3. Celebre e louve a Deus diariamente através da tua vida e das tuas ações.
  4. No natal, enfeite o ambiente, mas não sofistique, nem discrimine pessoas! Lembre-se que natal é a conexão da glória divina com a simplicidade e humildade humanas. Deixe fluir o que há de mais puro e verdadeiro – o amor. Que o amor de Deus por nós humanos, promova e incentive o nosso amor pelo nosso próximo.

10. Mensagem Final

Neste natal e por toda a tua vida, não cometa o desatino de valorizar mais: a data do que o aniversariante, Jesus, o precioso presente de Deus; a “embalagem”, Maria, do que o presente, Jesus; a preparação, a decoração, a alimentação do que a celebração e louvor a Deus; o gasto desenfreado com a compra de presentes do que a alegre e abençoadora oportunidade de confraternização entre as pessoas.

Que Deus tenha misericórdia daqueles que ainda não entenderam o sentido do natal!