Nicodemos em entrevista com Jesus

João 3.1-8

Introdução

Durante a passagem de Jesus por este mundo, muitas pessoas foram ao seu encontro, principalmente em busca de um benefício pessoal, de uma cura, de um milagre. A fama de Jesus como mestre e “milagreiro” já havia se espalhado, atraindo multidões por onde passava. É provável que Zaqueu tivesse ouvido falar dos ensinamentos e milagres de Jesus e estivesse curioso para vê-lo pessoalmente. Nicodemos foi além; ele queria conhecer melhor a pessoa de Jesus.

Nicodemos é frequentemente visto como um símbolo da busca sincera por compreensão espiritual e verdade. Sua disposição para se encontrar com Jesus, defendê-lo e participar no sepultamento de Jesus mostra uma evolução em sua fé e compreensão.

A conversa entre Jesus e Nicodemos é importante fundamento para a teologia cristã, especialmente em relação ao conceito de “nascer de novo” ou “nascer do Espírito,” que é central para a doutrina da salvação.

1. Sua identidade e posição

“Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus..” (v.1)

Nicodemos era um fariseu, provavelmente membro do Sinédrio (Jo 7.50), o mais alto tribunal eclesiástico e civil de Israel. Isso indica que ele era um homem de grande influência e conhecimento das escrituras e tradições judaicas.

Nicodemos não é mencionado em qualquer outra parte da Bíblia, senão no Evangelho de João: 

– Ele foi ao encontro de Jesus, à noite (João 3.1-21).

– Ele defendeu Jesus perante outros líderes judeus, questionando se era justo condenar alguém sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele está fazendo. Isso mostra que Nicodemos estava disposto a desafiar a opinião pública entre os líderes judeus e sugerir um julgamento justo para Jesus (João 7.50-53).

– Nicodemos aparece novamente após a crucificação de Jesus, ajudando José de Arimatéia a preparar o corpo de Jesus para o sepultamento. Ele trouxe uma mistura de mirra e aloés, um gesto que demonstra grande respeito e reverência (Jo 19.38-40).

2. Sua atitude

“Este, de noite, foi ter com Jesus….” (v.2)

Foi ao encontro de Jesus na calada da noite. Com que intenção? Obter informações de Jesus. Conhecê-lo melhor. Sondá-lo pessoalmente. Jesus era o tema do momento. Suas palavras e seus milagres suscitavam muitas controvérsias. Por que à noite? Esta circunstância pouco comum acabou servindo para melhor identificá-lo (Jo 19.39). Embora alguns o reputem por hipócrita, cheio de más intenções, é melhor entender que ele tinha em mente o propósito de evitar qualquer comentário por parte dos seus pares, os demais membros do Sinédrio, posto que não sabia exatamente quem era Jesus e nem de que tipo de autoridade estava ele investido. Desta forma estaria sendo meramente cauteloso. (comp. Jo 19.38 e 12.42).

Reflexões:

1ª) Há aqueles que procuram se informar acerca de Jesus (Jo 3.1-21);

2ª) Há outros que são capazes de defendê-lo (Jo 7.50-53);

3ª) Há ainda outros que despenderiam muito dinheiro por Jesus (Jo 19.39).

Pergunta-se, porém: onde estão aqueles que dariam a vida por Jesus?

Nicodemos nos ensina que devemos ir diretamente à fonte. Não devemos nos contentar com a experiência de terceiros.

3. Sua declaração

“Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.” (v.2)

O título empregado, “Rabi”, é uma palavra aramaica que quer dizer “mestre” (Jo 1.38). Na sua declaração havia sinceridade e verdade. Caso contrário, Jesus a teria refutado. Nicodemos se dirige a Jesus motivado pelo poder de seus sinais (ver Jo 2.23), que atestavam sua missão divina e a presença de Deus com ele (At 2.22). Quantos há que seguem Jesus motivados pelos seus sinais e não por sua obra redentora na cruz?

4. Sua necessidade: Novo Nascimento (ou regeneração)

“A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (v.3)

A resposta de Jesus a Nicodemos parece, à primeira vista, desconexa com a declaração inicial de Nicodemos. É como se houvesse uma ruptura na sequência da conversa, faltando um elo. No entanto, a resposta de Jesus, em essência, pode ser entendida como: “Essa sua convicção de que sou enviado por Deus é significativa, mas, se você não nascer de novo, essa crença por si só não lhe servirá de nada. Sem o novo nascimento, você não poderá ver o Reino de Deus.”

Do novo nascimento Jesus afirma que:

1º) É individual.:

      “se alguém”

2º) É indispensável:

“não pode ver o reino de Deus”.

A necessidade do novo nascimento surge da incapacidade do homem natural de alcançar o reino de Deus. Por mais talentoso, ético ou refinado que seja, o homem natural é completamente cego à verdade espiritual e impotente para entrar no reino de Deus. Ele não pode obedecer, entender ou agradar a Deus. (Sl 51.5; Jr 17.9; Mc 7.21-23; 1Co 2.14; Rm 8.7-8 e Ef 2.3).

3º) É “de cima”, “do alto”.

Nascer de novo (literalmente, “do alto”). João tinha o costume de descrever a obra de regeneração espiritual como nascimento vindo de Deus (Jo 1.13; 1Jo 3.9; 4.7; 5.1, 4, 18). O que vem “de cima” é superior (Jo 3.31).

4º) É “da água”.

Aqueles que argumentam que o batismo com água foi ordenado por Cristo como um mandamento necessário para a regeneração tentam encontrar suporte bíblico nessa afirmação de Jesus. No entanto, os ensinos de Paulo sobre salvação e regeneração não vinculam a regeneração ao batismo com água. A água do batismo, em si, não regenera, nem a mera submissão a este ato confere regeneração. Contudo, a água simboliza a regeneração tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. (Ez 36.25; Hb 10.22), e, Nicodemos teria podido compreender essa referência. Consultando os outros textos que descrevem o novo nascimento (Tg 1.18 e 1Pe 1.23), vemos que a geração de um novo ser espiritual é atribuída à Palavra de Deus, aplicada, sem dúvida, à consciência e ao coração, pelo Espírito de Deus (Ef 5.26; Jo 15.3).

5º) É “do Espírito”.

Na regeneração, a iniciativa é atribuída a Deus (Jo 1.13), proveniente do alto (Jo 3.3, 7) e efetuada pelo Espírito Santo (Jo 3.5-6; Tt 3.5-6). A atuação da trindade: Deus Pai é o Salvador que nos propicia a sua misericórdia; Jesus Cristo é o agente e alvo da salvação, já que a salvação se baseia em sua expiação no Calvário; e o Espírito Santo é aquele que faz isso tornar-se real na experiência humana, devido ao seu poder espiritual. É tão profunda a transformação que o Espírito opera na pessoa que se converte que nosso Salvador chama isso de novo nascimento. Isto nada tem a ver com uma reforma da velha natureza (Rm 6.6), mas um ato criativo do Espírito Santo (Ef 2.10; 4.24).

Observe bem: a conversão é um ato voluntário do homem, envolvendo arrependimento e fé (Mc 1.15); já o novo nascimento é uma obra exclusiva de Deus, que sempre a realiza quando o homem se converte.

Nascido na família de Deus, o pecador salvo desfruta de:

    – uma nova vida espiritual, que é a vida eterna, e
    – a adoção como filho de Deus.

6º) Forma contraste com o nascimento natural da carne.

O agente do nascimento físico é a geração natural de macho e fêmea. O agente do nascimento espiritual é o Espírito Santo, o qual, de maneira não menos real, dá nascimento a um novo tipo de homem. “O violento contraste entre carne e espírito, que já fora observado em João 1.13, serve para lembrar a Nicodemos da crueza de sua pergunta, em João 3.4, acerca  de um segundo nascimento físico” (Robertson). “Entrar pela segunda vez, no ventre materno, e nascer, não se aproximaria mais do novo nascimento que da primeira vez” (Brown).

7º) É inescrutável, como o movimento do vento (Jo 3.8)

Ainda que o mesmo vocábulo grego “pneuma” possa ser traduzido por “espírito”  ou “vento”, a ilustração aqui diz respeito a “vento”, elemento muito próprio para ilustrar as operações do Espírito, assim como a água fora usada para ilustrar a Palavra de Deus.

“Existem três pontos de comparação entre o vento e o Espírito Santo, na obra da regeneração: 1) Liberdade e independência; 2) Efeito irresistível; 3) Incompreensibilidade, tanto quanto ao seu começo como ao seu término.” (Philip Schaff)

Assim como a ciência, a despeito de seu gigantesco progresso, ainda não foi capaz de desvendar o mistério da origem da vida física, muito mais misteriosa é a regeneração operada pelo Espírito Santo.

Conclusão

Enfim, Nicodemos é uma figura fascinante no Novo Testamento, representando alguém que, apesar de sua posição elevada e conhecimento, estava disposto a buscar a verdade e defender a justiça. Sua interação com Jesus proporciona profundas lições teológicas e espirituais sobre a necessidade de renovação espiritual e a coragem de seguir a verdade, mesmo quando isso significa ir contra a opinião popular.

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo.
(Russel Norman Champlin, Ph D. – 1982).
4. Internet / ChatGPT.


Veja, também:

7 Coisas Novas, em Cristo

Introdução

“Coisas novas, em Cristo”, são as mudanças transformadoras que ocorrem na vida de uma pessoa, quando ela se reconcilia com Deus, pela mediação do seu Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e é regenerada e habitada pelo Espírito Santo.

1) Novo Nascimento

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co 5.17)

O cristão autêntico é alguém que experimentou uma transformação interior através do poder do Espírito Santo. Ele é uma nova criatura em Cristo, deixando para trás o velho homem e vivendo uma vida renovada, em comunhão com Deus.

2) Nova Filiação e Poder

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1.12-13)
“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo.” (1Jo 3.1)

Regenerado pelo Espírito Santo, através desse novo nascimento, o cristão é inserido na família de Deus. Ele passa de criatura para filho ou filha de Deus, tendo parte no seu reino e sendo herdeiro das promessas divinas (Rm 8.15-17). Os filhos de Deus recebem um novo poder outorgado pelo Espírito Santo que neles passa a habitar (At 1.8; 4.33; 6.8; Rm 15.19).

3) Nova Relação com Deus

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1)
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Rm 8.1)

O cristão autêntico reconhece que sua reconciliação com Deus não foi alcançada por suas próprias obras ou méritos, mas sim pela graça salvadora de Deus. Ele entende que foi salvo pela graça, através da fé em Jesus Cristo, e não por seus próprios esforços (Ef 2.8-9). Com isso ele passa a desfrutar de paz com Deus (Jo 14.27) e paz interior, paz de espírito (Fp 4.7).

4) Novas Atitudes

“visto que andamos por fé e não pelo que vemos.” (2Co 5.7)
“É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis.” (2Co 5.9)

O cristão autêntico é alguém que rompe com o passado e com o pecado para viver uma vida de pureza e santidade (Tt 2.12). Ele segue a Jesus Cristo, o seu exemplo e os seus ensinamentos. Ele se esforça para viver de acordo com os princípios do amor, da justiça, da misericórdia e da humildade, buscando imitar a vida de Cristo em seu próprio caminhar (1Jo 2.6; Fp 2.5).

Se permanecermos em Cristo e na sua palavra, que é a expressão da verdade, desfrutaremos da verdadeira liberdade (Jo 8.31, 32 e 36; Gl 5.1). Somos libertos da escravidão e condenação do pecado (Rm 8.1), do poder do pecado (Rm 6.14) e, um dia, seremos libertos da presença do pecado (Rm 13.11).

5) Nova Missão

“De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.” (2Co 5.20)
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19)

O cristão autêntico é um representante do Reino de Deus na Terra – Embaixador do Reino. Ele é chamado para proclamar as boas novas do evangelho, compartilhar o amor de Cristo com os outros e trabalhar pela justiça, paz e reconciliação em um mundo marcado pelo pecado e pela injustiça. É chamado para ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16).

6) Novo Objetivo de Vida

“E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” (2Co 5.15)

Jesus resumiu toda a lei mosaica em “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. O Catecismo de Westminster começa afirmando que “o fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Daí pode-se enumerar os seguintes objetivos principais da vida de um cristão autêntico:

(i) Vida com Deus. Amor, Relacionamento íntimo, Dependência, Adoração, Oração, Santificação e Obediência à sua vontade.  

(ii) Comunhão com os irmãos. Viver como igreja de Cristo, sendo do mesmo parecer; Amando, Respeitando, Apoiando, Sujeitando-se e Honrando uns aos outros.

(iii) Observância da Palavra de Deus. Leitura, Meditação, Estudo, Aprendizado, Internalização e Prática dos ensinos bíblicos, na busca da maturidade espiritual e, consequentemente, a necessária efetividade da fé cristã, influenciando todas as áreas da existência humana.

(iv) Evangelização e Missões. Cumprir o IDE de Jesus, anunciando o Evangelho e a Salvação em Cristo, “a tempo e fora de tempo” (2Tm 4.2-4), fazendo discípulos de todas as nações. Testemunhando de Cristo, aos de perto e aos de longe, principalmente com a vida, mas, também, com a pregação do Evangelho, que é o poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16), pois a fé vem pela pregação (Rm 10.17).

(v) Serviço ao Próximo. Amor e cuidado, ao e com o próximo, como a nós mesmos. Fazer o bem a todos, mas, principalmente, aos da família da fé (Gl 6.10). Dar atenção especial ao chamado “quarteto da vulnerabilidade”, isto é, VIÚVAS, ÓRFÃOS, POBRES e ESTRANGEIROS (Zc 7.10; Êx 22.21-22). 

7) Nova Esperança

“Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.” (2Co 5.1)
“Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.” (2Pe 3.13)

Não há como comparar a esperança das pessoas sem Cristo, com a das outras com Cristo. A esperança das primeiras se limita a esta vida. Por outro lado, os que estão em Cristo, têm dele mesmo esta promessa: “Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.” (Mc 10.29-30)

Conclusão

Esses são apenas alguns aspectos e textos bíblicos que destacam a ideia de que, ao se entregar a Cristo e seguir seus ensinamentos, uma pessoa experimenta uma transformação espiritual e moral significativa. Isso envolve uma mudança na maneira de pensar, agir e se relacionar com Deus e com os outros, buscando viver de acordo com os princípios e valores cristãos.

Ser uma nova criatura em Cristo representa, portanto, a promessa e a esperança de uma vida renovada e restaurada através do relacionamento com Jesus, com desdobramento além-túmulo, isto é, eterno.

Deus seja louvado!