Lidando com problemas na igreja

Introdução

A igreja primitiva não era perfeita, em que pese a seu favor a forte presença e manifestação poderosa do Espírito Santo no seu início. Não existe igreja local perfeita, porque nós, seres humanos que a compomos, não somos perfeitos; logo todas precisam saber lidar com problemas internos, além dos externos. Numa passada de olhos apenas no Livro de Atos encontramos alguns exemplos de problemas: (i) Em Atos 5, a trama mentirosa do casal Ananias e Safira quanto ao valor encoberto da venda do terreno, doado parcialmente à igreja. (ii) Aqui em Atos 6 a falha na distribuição diária para algumas viúvas e a murmuração dela decorrente. (iii) Em Atos 8.9-13, 18-24 o pecado de Simão que abraçou a fé cristã e depois quis comprar o poder do Espírito Santo. (iv) Em Atos 9.26-27 a desconfiança e temor dos irmãos que dificultavam a aceitação e acolhimento do recém-convertido Saulo de Tarso devido ao seu passado de terrível perseguidor da igreja. (v) Em Atos 11.1-18 a desconfiança dos defensores da circuncisão por Pedro ter entrado na casa do incircunciso Cornélio e comido com eles (vv.1-3). A explicação foi dada e o apaziguamento foi  feito (vv.4-18). (vi) Em Atos 15.1-35 a equivocada questão imposta pelos legalistas da necessidade da circuncisão para a salvação. (vii) Em Atos 15.36-40 a desavença entre Paulo e Barnabé quanto a levar João Marcos na 2ª Viagem Missionária. Neste estudo, veremos como a igreja lidou e tratou do problema que surgiu, conforme registrado em Atos 6.1-7.

1. O CONTEXTO (At 6.1)

     “Naqueles dias…”

É interessante relembrar o contexto desse “naqueles dias” quando se deu o problema. Em Atos 1, o Senhor ressurreto se reuniu com os seus discípulos, anunciou o iminente batismo com o Espírito Santo, os comissionou e foi elevado aos céus, deixando-os um tanto quanto desolados e na expectativa do que viria a acontecer. Enquanto aguardavam, resolveram preencher a vaga deixada por Judas Iscariotes completando, assim, de forma um tanto quanto açodada, o quadro dos doze apóstolos, com a escolha de Matias. Em Atos 2 acontece o Pentecoste e o nascimento da igreja, em Jerusalém. Em Atos 3, a retomada dos milagres, com a cura do paralítico e a mensagem de Pedro ao povo. Em Atos 4 o recomeço da perseguição, a prisão, testemunho e libertação dos apóstolos Pedro e João, encerrando com o ajuntamento dos irmãos. Em Atos 5, a purificação interna da igreja com o juízo divino sobre Ananias e Safira que ousaram mentir ao Espírito Santo; na sequência, acontece a prisão dos apóstolos, seu testemunho e libertação.

2. A EXPANSÃO DA IGREJA (At 6.1)

     “…multiplicando-se o número dos discípulos…”

É relevante o registro desses primeiros passos da igreja, do seu crescimento extraordinário e do modus vivendi dos remidos do Senhor. Em Atos 2.41, após a pregação do Pentecoste, houve um acréscimo de quase 3.000 pessoas. Em Atos 2.44-47, registra-se que eles viviam unidos, tinham tudo em comum, vendiam suas propriedades doando o valor auferido para a igreja que usava esses recursos para ajudar aqueles que tinham necessidade. Desta forma, perseverando na fé e na adoração a Deus, bem como ajudando os mais necessitados, o Senhor acrescentava os que iam sendo salvos. Em Atos 4.4 contabiliza-se o número de homens convertidos chegando a quase 5.000. Em Atos 4.32-37 encontramos um significativo relato e descrição dessa comunidade cristã: Uma multidão unida, compartilhando os bens materiais, sem necessitados entre eles. Os apóstolos pregando e testemunhando com poder; bem como recebendo as doações dos irmãos e administrando sua distribuição aos necessitados. Em Atos 5.12-16 ratifica-se a poderosa atuação dos apóstolos, realizando sinais e prodígios e que a comunidade cristã crescia, agregando-se ao Senhor tanto homens como mulheres.

3. A DESCRIÇÃO DO PROBLEMA (At 6.1)

     “…houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária….”

Até este tempo, parece que os apóstolos haviam tomado para si a tarefa de administrar os recursos financeiros da igreja (At 4.34-37). Mas, dentro de pouco tempo, a igreja crescera significativamente, a ponto da atividade de beneficência alcançar proporções tais que requeria muito tempo dos apóstolos. O fato é que as viúvas dos helenistas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimentos e outros bens, no seio da igreja. Os helenistas eram judeus que haviam adotado o estilo grego de viver. Os hebreus, por sua parte, eram judeus que tinham preferido reter a maneira tipicamente judaica de vida. (Alguns eruditos pensam que os helenistas eram gentios, prosélitos e tementes a Deus, ao passo que outros opinam que os hebraístas eram samaritanos. Entretanto, é difícil imaginar que muitos indivíduos, dessas categorias, já tivessem entrado na igreja). Lucas já havia registrado como a igreja cuidava dos necessitados, em que muitos crentes vendiam as suas propriedades, trazendo o dinheiro apurado aos pés dos apóstolos (At 4.32, 34, 35). A distribuição diária, para as necessidades das viúvas, provavelmente se fundamentava nesses fundos.

Não temos uma informação precisa sobre a causa do esquecimento das viúvas dos helenistas. Talvez houvesse uma disposição de preferência, de preconceito, por parte daqueles que estavam com a responsabilidade de cuidar das mulheres que não podiam sustentar-se, por serem viúvas pobres e idosas. Ou pode tudo ter sido causado pela negligência da parte dos encarregados dessa questão, incluindo os apóstolos, os quais se ocupavam muito mais da pregação e do ensino, não podendo, por isso mesmo, cuidar minuciosa e atenciosamente de questões como essa da distribuição diária. É preciso ficar atento ao que fazemos na igreja. Todos são igualmente importantes na igreja de Cristo e não podemos fazer acepção de pessoas. Não raro acontece de alguém assumir determinados cargos e ministérios na igreja e passarem a defender veementemente apenas o seu grupo, inclusive recursos financeiros, não se importando com os demais grupos, ministérios e sociedades internas da igreja! Cuidado com o corporativismo eclesiástico!

4. O PAPEL DA LIDERANÇA (At 6.2)

     “Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos…”

O papel da liderança é sempre importante na resolução de problemas. Isso não significa que esta tenha, necessariamente, todas as respostas, mas precisa assumir e conduzir o processo de solução. Na igreja primitiva verificamos que, em algumas situações, a própria liderança tomou a decisão, como no caso de Ananias e Safira; há outras em que toda a igreja foi convocada a participar, como neste caso. Vemos aqui a democracia operante na igreja primitiva. Não devemos supor que todas as pessoas convocadas tiveram parte ativa no debate, pois isso seria inviável, devido ao seu grande número; mas, pelo menos, deve ter-se manifestado um bom grupo representativo. As Escrituras não determinam quaisquer regras fixas no que diz respeito ao tipo de governo que deve prevalecer na igreja cristã (episcopal, presbiteral ou congregacional). Entretanto, devemos verificar como a igreja primitiva funcionava e beneficiar-nos com o seu exemplo.

5. O ARGUMENTO INICIAL (At 6.2)

     “… e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas.”

O argumento inicial dos apóstolos deixou claro a necessidade de priorização de tarefas na igreja. Cada tarefa deve ter a sua razão de ser para não se gastar energia inutilmente. Todas são importantes, quando necessárias, porém algumas são mais prioritárias, a razão de ser da igreja, a sua atividade fim. Cada uma deve ser exercida de acordo com o chamado divino, vocação e dons distribuídos pelo próprio Espírito de Deus. Os apóstolos tinham conhecimento, como testemunhas oculares, da preciosa história e ensinos de Jesus. O melhor e mais imediato meio de fazê-los conhecidos era através da palavra falada. Não deviam permitir que nada, ainda que importante, os desviasse dessa tarefa. O ministério do ensino está contido dentro da própria Grande Comissão (Mt 28.19-20). O evangelismo, por si só, não pode cumprir essa comissão. A outra tarefa, confrontada aqui com o ministério do ensino e que precisava de outros colaboradores que não os apóstolos, era o de “servir as mesas”. Neste caso, a palavra “servir” (diakonein) se deriva do vocábulo do qual obtivemos nossa palavra “diácono” (diáconos), que significa servo, administrador ou ministro. Quanto as mesas, geralmente se acredita que estaria em foco aqui, em sentido figurado, a administração das ofertas destinadas a Ação Social da igreja.

6. A PROPOSTA DE SOLUÇÃO (At 6.3)

6.1 A participação da igreja (v.3a)

     “Mas, irmãos, escolhei dentre vós….”

Deve-se observar, com base nas palavras dos apóstolos, que à congregação é que cabia o privilégio de fazer a escolha. Estamos diante de uma verdadeira aula de administração eclesiástica que estabelece o valor e importância da democracia representativa. A igreja reunida “em assembleia” deveria eleger aqueles que deveriam exercer o ofício do diaconato, nesta ocasião estabelecido de forma embrionária. Em outras oportunidades o apóstolo Paulo expôs detalhadamente as qualificações dos presbíteros (1Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9) e diáconos (1Timóteo 3.8-13).

6.2 As premissas e requisitos (vv.3b)

     “… sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço;”

O embrião do ofício de diácono está expresso em Atos 6.1-6, tendo ocorrido a partir de delegação da autoridade apostólica e, portanto, constitui-se num exercício de autoridade na igreja. Desta forma, coerentemente com o “princípio divino da autoridade de gênero”, foram escolhidos sete homens. As qualificações completas para o ofício de diácono na igreja apareceram posteriormente, no texto de 1Timóteo 3.8-13.

Nessa democracia representativa, o privilégio da escolha acarreta a necessária responsabilidade pelo ato da escolha e suas consequências para a comunidade. Cumprindo o seu papel, a liderança fixou o número de homens a serem escolhidos e instruiu a congregação quanto a aspectos importantes que deveriam ser considerados nessa escolha, a saber:

1º) Boa reputação: Deveriam ser conhecidos em seus negócios e caráter passado, sendo recomendados favoravelmente.

2º) Cheios do Espírito Santo: Tal qual os apóstolos, deveriam ter experimentado o revestimento e plenitude do Espírito Santo. É muito provável que os dons espirituais também estivessem em foco. Estes servos precisavam ser homens dotados de habilidades, sendo homens destacados na comunidade cristã, como homens de Deus, ativos e poderosos no ministério. Deve-se notar que um dos indivíduos assim escolhidos foi Estevão, homem “cheio de graça e poder” (At 6.8), o qual “fazia prodígios e grandes sinais entre o povo”.

3º) Cheios de sabedoria: Naturalmente, essa qualidade era resultado direto do poder habilitador do Espírito Santo. Era necessário que soubessem como rejeitar as murmurações e como cuidar delas, sabendo discernir bem as pessoas e as situações, principalmente em se tratando de beneficência. A sabedoria dos diáconos precisava ser terrena e prática, dando eles mesmos exemplo de discrição e poupança, além da aptidão pelas coisas e soluções práticas. Contudo, essa sabedoria também teria de ter um aspecto espiritual, fazendo com que olhassem para seus semelhantes com espírito de amor, de ternura e de bondade, visando, além do suprimento físico, o desenvolvimento de suas almas.

Ou seja, teriam de ser homens que cuidassem tanto das necessidades físicas como das necessidades espirituais de muitíssimas pessoas, motivo pelo qual teriam de ser indivíduos altamente qualificados. É perfeitamente possível que o ofício diaconal, especialmente criado nesta ocasião, não seja idêntico ao ofício mencionado no trecho de 1Timóteo 3.1-13, onde aparecem, dadas pelo apóstolo Paulo, as qualificações necessárias dos presbíteros e diáconos, porquanto diversas modificações podem ter sido efetuadas no decorrer dos anos. Entretanto, o ofício diaconal, aqui no Livro de Atos, foi o precursor daquele encontrado nos anos posteriores, e que tem a ver com as questões materiais, seculares da vida diária das igrejas.

7. A ESTRATÉGIA – DIVISÃO DO TRABALHO (At 6.4)

     “e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra.”

O argumento inicial dos apóstolos também deixou claro a necessidade e conveniência da divisão do trabalho na igreja, a descentralização de certas atividades. Na igreja de Cristo, às vezes é preciso ter coragem e humildade para delegar tarefas, crendo no sacerdócio universal dos crentes! Cada indivíduo tem os seus próprios dons, de conformidade com aquilo que o Espírito Santo estabelece e confere, e todos os dons e serviços são igualmente importantes e necessários para o desenvolvimento e bem-estar da igreja local (Ef 4.4-16). Todo crente é responsável por fazer o máximo, sob a mão de Deus, no desenvolvimento e uso de seus dons pessoais. Os apóstolos mostraram-se bem sensíveis a esse fato, sendo que também entregaram a outros as funções que podiam ser delegadas, a fim de que tivessem a liberdade de se entregarem aos importantíssimos ministérios da oração, do ensino, da pregação e da evangelização, além da orientação geral da igreja. Era mister que os apóstolos não somente orassem, mas também se dedicassem à oração, para que se aprofundassem nessa prática, a fim de que experimentassem o autêntico e maior poder de Deus, sendo cheios do Espírito Santo, a fim de que por ele fossem usados como vasos consagrados. As lideranças das igrejas atuais devem observar bem este legado da igreja neotestamentária.

8. A RESPOSTA DA COMUNIDADE (At 6.5)

     “O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.”

Como é salutar para uma igreja quando sua liderança traz propostas sábias e oportunas para o bom andamento dos trabalhos ou para a solução de conflitos; propostas assertivas e iluminadas pelo Espírito Santo de Deus e, assim, recebem boa acolhida pela comunidade! Como é relevante preservar a Unidade, a Paz e a Pureza da igreja de Cristo através das boas decisões!

Deve-se observar que, nesta lista, todos os nomes são gregos. Apesar de ser verdade que muitos judeus da palestina tinham também um nome grego, além do nome hebraico, é bem provável que a maioria desses diáconos se compusesse de judeus helenistas. Todavia, a menção de Nicolau, prosélito de Antioquia, mui provavelmente significa que ele era gentio puro quanto à sua raça, embora se tivesse convertido anteriormente ao judaísmo, e, se submetesse, ao Cristianismo.

9. A SUBMISSÃO À LIDERANÇA (At 6.6)

     “Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos.”

A igreja, como um todo, escolheu esses sete homens, mas os apóstolos aprovaram a seleção e os encarregaram do seu ofício. Então, os sete foram ordenados para esse ofício, pela imposição das mãos dos apóstolos. Tal rito se fundamenta nas páginas do AT, onde simboliza o recebimento de algum poder vital, como transferência de poder de uma pessoa para outra. Assim é que, ao nomear Josué como seu sucessor, Moisés lhe impôs as mãos, infundindo algo de sua “autoridade” (ver Nm 27.20, 23, e ainda Gn 48.13ss; Lv 1.4). A imposição de mãos no NT, às vezes acompanha a oração (Mt 19.13, 15), simboliza uma doação, quer de bênção (Mc 10.16), cura (Mc 5.23; 6.5 etc.), o Espírito Santo (At 8.17, 19; 9.17; 19.6) ou responsabilidade e autoridade para um serviço especial (At 6.6; 13.3; 1Tm 4.14 etc.).

10. A BÊNÇÃO DIVINA (At 6.7)

     “Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.”

A comunidade cristã não estava isenta dos problemas. Entretanto, estes eram tratados cuidadosamente, sob a orientação do Espírito Santo. Assim, o crescimento do testemunho cristão, não era descontinuado. Ao contrário, sua eficácia aumentava, a ponto de até “muitíssimos sacerdotes” crerem. Essa declaração acerca da fé que muitíssimos sacerdotes punham em Cristo, serve para mostrar-nos que, embora a nação de Israel, em sua maioria, tivesse continuado em sua atitude de rejeição ao seu próprio Messias, contudo, em todos os níveis da sociedade judaica, incluindo as classes dominantes e indivíduos de reconhecida piedade, muitos chegaram a perceber a veracidade da mensagem cristã, tendo-se passado, de todo o coração, para a nova comunidade dos seguidores de Jesus Cristo.

Conclusão

O fato é que na igreja de Cristo tudo deve ser feito com decência e ordem, com a finalidade de glorificar a Deus, anunciar o evangelho para a salvação de almas e expansão do Reino de Deus, ensinar e zelar pelo bem-estar e crescimento espiritual dos remidos do Senhor, até que ele venha.


Veja também: As qualificações dos diáconos

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(Última atualização: 20/03/2021)

A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Apóstolos-Presbíteros

Nestes próximos quatro artigos estaremos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos traremos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. No quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante.

 

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada:”

O apelo é dirigido “aos presbíteros que há entre vós”. A igreja neotestamentária era governada e pastoreada pelos presbíteros, que, por sua vez, eram auxiliados pelos diáconos. Os presbíteros eram os oficiais da igreja que se dedicavam prioritariamente à pregação, ao ensino da Palavra e à oração; enquanto os diáconos cuidavam em atender às necessidades materiais dos santos (At 6.2-4). E, todos os crentes, inclusive presbíteros e diáconos, tinham a responsabilidade e privilégio de testemunhar, falar da salvação em Jesus e, além disso, de praticar o amor e procurar com zelo os dons espirituais (1Co 14.1) para serem aplicados no serviço cristão: “… com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.12). A expressão “que há entre vós”, isto é, nas diversas igrejas locais para as quais a epístola foi escrita (1Pe 1.1), nos revela a normalidade do uso de tal ofício. Paulo, o apóstolo dos gentios e responsável pela organização da maioria dessas igrejas locais, não descuidava desse importantíssimo aspecto: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23); “Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi:” (Tt 1.5). Ressalte-se a preferência pela pluralidade de oficiais presbíteros em cada igreja. De certa forma, isso tinha em vista a garantia de continuidade e da ordem institucional e eclesiástica.

É interessante observar o posicionamento de Pedro ao se expressar assim: “…eu, presbítero como eles,…”. Há quem valorize a existência de hierarquia, castas, divisões, na sociedade e, até mesmo, na igreja. Parece que tal ideia não tinha muitos defensores entre os apóstolos. Pedro revela isso aqui e o apóstolo João prefere se identificar como “o presbítero” (2Jo 1.1; 3Jo 1.1). Em certos textos, nota-se que eles preferiam se identificar, prioritariamente, como servos: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus,” (Rm 1.1; Tt 1.1; 1Pe 2.1). Qual a diferença entre apóstolos e presbíteros?

a) Os apóstolos

A palavra “apóstolo” (gr. apostolov) significa “alguém enviado”, como um embaixador que leva uma mensagem e representa aquele que o enviou. O termo é composto do prefixo “apo” (afastamento, separação), mais gr. stelw (enviar). Entretanto, esse termo é empregado no Novo Testamento para qualificar dois grupos distintos de pessoas:

Como título oficial, que dá a entender poderes e autoridade especiais em referência aos alicerces da igreja (ver Ef 2.20), aplicava-se exclusivamente aos doze apóstolos originais, a Matias e a Paulo. São os doze mencionados em Apocalipse 21.14. As qualificações ou credenciais (ver 2Co 12.12) de um apóstolo incluem:

 i. Ter sido escolhido pessoalmente pelo Senhor ou pelo Espírito Santo (Mt 10.1-2; At 1.26; Gl 1.1);

 ii. Ter visto o Senhor e ser testemunha de sua ressurreição (At 1.22; 1 Co 9.1);

 iii. Ser investido com dons miraculosos, os “sinais”, “prodígios” e “maravilhas” (At 5.15-16; Hb 2.3- 4).

Contudo, há também um sentido não-técnico, secundário, da palavra “apóstolo”. Trata-se de uma aplicação mais abrangente do termo. Esse sentido secundário dá a entender essencialmente o que denominamos hoje de “missionários”, pessoas enviadas e dotadas de poder e autoridade especiais. Vale lembrar que o termo “missionário” não se encontra no NT. É desta forma que Barnabé é referido como “apóstolo”, juntamente com Paulo em Atos 14.4. O apóstolo Paulo aplica essa palavra, neste mesmo sentido, a Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.19). Neste mesmo sentido Epafrodito é citado, por ser “mensageiro” (gr. apostolon) da igreja em Filipos (Fp 2.25, ver ainda a citação de “mensageiros”, gr. apostoloi, em 2Co 8.23). Não se pode deixar de mencionar os falsos apóstolos mencionados e denunciados no NT (2Co 11.13 e Ap 2.2).

 

Na verdade, o ministério apostólico dos doze era temporário e transitório. Na Antiga Aliança, Deus chamou a Abraão e, através de seu neto Jacó (ou Israel), elegeu para si um povo, Israel, formado por doze tribos, que levavam os nomes dos seus filhos. Na Nova Aliança, Jesus foi enviado por Deus para reunir um novo povo eleito, os remidos pelo seu sangue. Assim como Moisés foi usado por Deus com autoridade e poder (Ex 7.3), para dar corpo e forma a este povo, Jesus, também foi usado e aprovado por Deus diante de todos para inaugurar um novo tempo (At 2.22). Como ele havia de morrer, ressuscitar e retornar ao pai, para que o Espírito Santo de Deus fosse derramado sobre todos os remidos, ele mesmo escolheu, chamou e capacitou doze discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos (Lc 6.13), sendo um deles (Judas Iscariotes) posteriormente substituído, para dar corpo e forma a este novo povo, que lhe aprouve chamar de sua igreja. Como o próprio nome indica, o livro de “Atos dos Apóstolos” registra um pouco do muito que o Espírito Santo realizou através deles.

Resumidamente, podemos dizer que os apóstolos:

  • Receberam mandamentos por intermédio do Espírito Santo (At 1.2);
  • Ensinaram a doutrina do Senhor (At 2.42; 2Pe 3.2; Jd 1.17);
  • Juntamente com os profetas do Antigo Testamento estabeleceram o fundamento sobre o qual a igreja seria edificada (Ef 2.20);
  • Realizaram muitos prodígios e milagres (At 2.43; 5.12);
  • Com grande poder, davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus (At 4.33);
  • Recebiam doações e providenciavam a distribuição aos mais necessitados (At 4.34-35);
  • Foram presos e castigados para que não falassem em o nome de Jesus (At 5.18; 5.40);
  • Orientaram a igreja a escolher homens para servir, os futuros diáconos, e impôs as mãos sobre eles (At 6.1-6);
  • Exerciam, juntamente com os presbíteros, o governo da igreja (At 15.2).

 b) Os presbíteros

O texto de Atos 8.1 nos apresenta um divisor de águas do ministério apostólico. A partir daquele momento a atuação apostólica ficou praticamente circunscrita a Jerusalém, com poucas incursões fora destes termos, realizadas principalmente pelo apóstolo Pedro (At 9.32) e, eventualmente, acompanhado por João (At 8.14); sendo Pedro aquele que havia recebido do Senhor as chaves para abrir a porta do Evangelho aos judeus e gentios (Mt 16.19). Entretanto, a partir de Atos 9, entra em cena o apóstolo Paulo, um “nascido fora de tempo” (1Co 15.8), o “apóstolo dos gentios” (Rm 11.13). Em tempo de muita perseguição aos apóstolos e a igreja de Jerusalém, ele se encarregou de levar o evangelho até aos confins da terra (At 1.8).

Assim, enquanto a participação dos onze, juntamente com Matias (At 1.26) diminuía, encerrando o ciclo apostólico, a presença dos novos líderes da igreja, os presbíteros, crescia. A primeira menção a eles, no NT, ocorre em Atos 11.30. Resumidamente podemos dizer do presbítero:

  • É um ofício plural exercido por homens, com ação no âmbito da própria igreja, a qual reconhece aqueles a quem Deus escolheu, debaixo de muita oração e jejuns (At 14.23). Diz o sábio: “Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança.” (Pv 11.14);
  • Juntamente com os apóstolos tinham a responsabilidade de analisar e deliberar sobre questões doutrinárias (At 15.2, 4, 6, 22), emitindo documento sobre a decisão tomada, para orientação da igreja (At 15.23; 16.4);
  • O apóstolo Paulo dedicou atenção especial a eles, pois os via como líderes e pastores do rebanho de Deus (At 20.17, 28; 21.17);
  • Há dois textos bíblicos principais que apresentam, em forma de instrução e prescrição, as qualificações necessárias dos presbíteros: 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9. São listados ali cerca de 21 requisitos ou qualificações, sendo 5 apenas em 1 Timóteo 3.1-7, 7 em Tito 1.5-9 e, 9 comuns aos dois textos. Para propiciar uma melhor visão didática, essas qualificações individuais e familiares, podem ser agrupadas sob os seguintes aspectos/segmentos: “caráter / temperamento”, “comportamento / hábito”, “habilidade / competência / maturidade” e, “situação conjugal e familiar”. Portanto, cada presbítero deve atender a essas qualificações, sendo que em algumas delas precisará contar com a colaboração da família (esposa e filhos).
  • Paulo escreve algo que tem a ver com honra, mas também com o eventual sustento financeiro desses líderes: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.” (1Tm 5.17)
  • Tiago destaca a importância dos presbíteros, orando e atendendo as necessidades da igreja (Tg 5.14).

Por que em Efésios 4.11 o apóstolo Paulo mencionou apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, e omitiu presbíteros e diáconos? Não me passa pela mente outra resposta senão que as cinco palavras citadas se referem aos cinco dons ministeriais concedidos pelo Espírito Santo. O texto diz assim: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.11-12). Já as palavras presbíteros e diáconos se referem a ofícios ou cargos instituídos desde os primórdios da igreja, para zelarem pelo seu bom funcionamento e ordem. Vale ressaltar que até mesmo o ofício de “pastor ou ministro do evangelho“, tão comum na igreja evangélica de hoje, é posterior ao primeiro século, não ocorrendo ainda na igreja neotestamentária. Assim sendo, os pastores mencionados em Efésios 4.11 se referem ao dom e não ao ofício de ministro do evangelho. Paulo considerava-se designado por Deus como pregador, apóstolo e Mestre (2Tm 1.11). Então, o melhor dos mundos seria aquele em que ministros do evangelho, presbíteros e diáconos exercessem seus respectivos ofícios cheios do Espírito Santo, manifestando os vários dons por ele concedidos.

Enfim, o que se via na igreja primitiva era a paridade entre apóstolos e presbíteros, ocorrendo o que sempre acontece quando pares conciliares se reúnem; uns se destacam mais do que outros. No famoso Concílio de Jerusalém, reunido para tratar da questão da circuncisão dos gentios (At 15), houve grande debate (At 15.7), o que sugere que muitos apóstolos e presbíteros expuseram suas opiniões. Lucas, inspirado pelo Espírito, de uma forma inteligente e objetiva, teve o cuidado de destacar a presença de uma multidão acompanhando os debates (At 15.12) e, a fala de quatro oradores, dentre tantos outros: Pedro (At 15.7), Barnabé e Paulo (At 15.12) e Tiago, irmão do Senhor (At 15.13). É fácil entender o porquê do registro desses quatro. Um eficiente secretário de atas de um concílio também teria seguido a linha de Lucas. Pedro, por sua proeminência entre os apóstolos, por ter sido designado pelo Mestre aquele que tinha a chave para abrir a porta do evangelho aos gentios e, como já vimos antes, pela sua experiência alcançada nas incursões que fazia entre os gentios. Barnabé e Paulo, porque na ocasião eram as maiores autoridades na evangelização e plantação de igrejas no mundo gentio. Esses três oradores defenderam muito bem a ideia de que na Nova Aliança não havia mais distinção entre judeus e gentios e espaço para as ordenanças da Antiga Aliança. Por fim, Tiago, porque ratificou o que os três anteriores falaram, acrescentando a citação do profeta Amós (Am 9.11-12); essa é a vantagem de quem fala por último, num concílio. A grande contribuição dele, como alguns conciliares que conheço costumam fazer, foi a de, com sabedoria, já encaminhar o debate para a decisão final, apresentando uma proposta que previa até a forma de comunicação e o texto a ser encaminhado para orientação dos irmãos. É digno de nota que a decisão final foi tomada pelos apóstolos e presbíteros, com toda a igreja ali reunida. Afirmar que, por conta dessa proposta final, pode-se considerar que Tiago era o “pastor da igreja de Jerusalém” é muita leviandade. Podemos, no máximo, supor que Tiago tinha alguma liderança entre seus pares, lucidez de raciocínio, facilidade de comunicação, conhecimento das Escrituras e, provavelmente, desfrutava de um certo prestígio por ser um meio-irmão do Senhor Jesus Cristo.

Leia nos próximos artigos:

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

As qualificações dos diáconos

O embrião do ofício de diácono está no texto de Atos 6.1-6, tendo ocorrido a partir de delegação da autoridade apostólica e, portanto, constitui-se num exercício de autoridade na igreja. Desta forma, coerentemente com o “princípio divino da autoridade de gênero”, foram escolhidos sete homens. Entretanto, as qualificações para o ofício de diácono na igreja apareceram posteriormente, no texto de 1 Timóteo 3.8-13. Antes de tratarmos das qualificações dos diáconos é importante analisar a questão da diaconia, na bíblia.

Cremos na diaconia universal dos crentes, homens e mulheres, ao lado do sacerdócio universal dos crentes. Todos os remidos foram chamados pelo Senhor para servir, para realizar as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). Servir, no grego, “doulos” (escravo, aquele que deve cumprir a vontade do seu Senhor, sem se importar com sua própria vontade) ou “diakonos” (aquele que realiza tarefas para ajudar os outros) é a nobre missão de cada crente, pois o Senhor Jesus é o exemplo maior. “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45). Para servir não é necessário ter um cargo ou um ofício. Assim é que o termo servir é empregado em todo o NT no sentido não-técnico, referindo-se a homens e mulheres que serviam a essa ou àquela igreja local: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia,..” (Rm 16.1). Na igreja primitiva, a pergunta que se fazia a outro cristão era: “– em que igreja você está servindo ao Senhor?”; enquanto hoje se pergunta: “– de que igreja você é?”

Cremos que o ofício de diácono, ao lado do ofício de presbítero, são para ser exercidos por homens, cujas qualificações são descritas na Bíblia em duas únicas listas: 1Timóteo 3.1-13 e Tito 1.5-9. E não é por acaso que tais instruções aparecem na Bíblia, lado a lado: “Semelhantemente…” (1Tm 3.8). As qualificações dos diáconos são muito parecidas com as dos presbíteros, pois se trata da liderança maior da igreja, os presbíteros, e da liderança supervisionada por eles, os diáconos. Vale lembrar que o termo “diaconisa” não aparece na Bíblia, nem muito menos “presbítera”. Já que o governo das igrejas locais e o ensino público oficial nas mesmas são funções de presbíteros e pastores (cf. 1Tm 3.2, 4-5; 5.17; Tt 1.9), infere-se que tais funções não fazem parte do chamado cristão das nossas queridas irmãs.

O texto bíblico apresenta, em forma de instrução e prescrição, as qualificações dos diáconos. São listados cerca de 9 requisitos “necessários” que não são meramente caprichos do apóstolo. Para propiciar uma melhor visão didática, essas qualificações individuais e familiares, podem ser agrupadas sob os seguintes aspectos/segmentos: “caráter/temperamento”, “comportamento/hábito”, e, “situação conjugal e familiar”. Portanto, cada diácono deve atender a essas qualificações, sendo que em algumas delas precisará contar com a colaboração da família (esposa e filhos).

Apresentamos, a seguir, as 9 qualificações vinculadas a seus respectivos segmentos. Ainda que tecnicamente alguma qualificação possa ser mais bem enquadrada em outro segmento, o mais importante, sem dúvida, é entender o significado de cada uma delas e que esta instrução bíblica seja praticada na igreja. O assunto é muito extenso, mas será abordado aqui de forma sucinta. Os textos bíblicos seguem a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

I.   CARÁTER/TEMPERAMENTO

Considera-se aqui o “jeito de ser” da pessoa.

1 Qualificação: “é necessário que sejam respeitáveis” (1Tm 3.8)
Significado: Respeitável → Digno de respeito, apreço, atenção, consideração, acatamento.

Comentário: Já diziam os antigos que respeito não se impõe, se conquista; e não é uma conquista fácil. Como? Com atitudes coerentes, falando e fazendo a coisa certa, da forma certa e na hora certa. Em outras traduções, “que sejam honestos”, “que sejam sérios”. Esta seriedade não tem nada a ver com ser uma pessoa sempre fechada e sisuda; indica a reverência com que se deve tratar os anciãos, por exemplo. Entretanto, a pessoa que não se valoriza, que está sempre fazendo criancices, é imatura, que não tem controle e domínio de si e dos seus atos, vai ter dificuldade para conquistar esse respeito. O ofício diaconal requer pessoas maduras, capazes de entender e atender o que a pessoa necessita e não, necessariamente, o que a pessoa pede. O diácono precisará ter discernimento e sabedoria para lidar com “pedintes profissionais” que chegam até eles com as mais criativas estórias.

2 Qualificação: “de uma só palavra” (1Tm 3.8)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Eis aqui uma qualificação bastante interessante. É rotina do ofício de diácono tratar com pessoas, mediar situações entre partes em conflito, distribuir recursos destinados à ação social sendo o intermediário entre os recursos disponibilizados e os destinatários necessitados etc etc. Assim sendo é mandatório para este ofício que o diácono seja íntegro, honesto e franco no falar, homem “de uma só palavra” ou homem de palavra. Em hipótese alguma é admissível que ele tenha favoritismos e predileções, tratando os iguais de forma desigual, favorecendo a uns em detrimento de outros. Ele não pode dizer uma coisa para um, e outra coisa para o outro; a verdade tem que ser única na sua boca. Por falar nisso, em muitos casos ele precisará ser discreto, sigiloso e confiável, não comentando os problemas das pessoas atendidas por ele.

 

II.      COMPORTAMENTO/HÁBITO

Considera-se aqui o “modo de agir, de proceder” da pessoa.

3 Qualificação: “irrepreensível” (1Tm 3.10)
Significado: Que não dá motivo à repreensão ou censura.

Comentário: Excelente “carro chefe” nas duas listas de qualificações, pois supre facilmente algum requisito que porventura o apóstolo Paulo tenha deixado de mencionar. Irrepreensível não quer dizer perfeito, pois perfeito é atributo somente do Senhor Deus. Irrepreensível é aquele que as pessoas, de dentro ou de fora da igreja, não tenham pecado para apontar, pois não vive na prática do pecado (1Jo 3.9). No caso de diáconos aparece esta novidade: Também sejam estes primeiramente experimentados; e, se se mostrarem irrepreensíveis, exerçam o diaconato.” (1Tm 3.10). Aquela mesma ideia de que não devem ser neófitos, novos convertidos, aparece também aqui. Os diáconos têm a responsabilidade de manter a ordem nos cultos. Assim sendo, precisam ter autoridade espiritual pois, eventualmente, precisarão atender casos de possessão demoníaca, dentre outros. Presbíteros e diáconos não são escolhidos pela igreja, são escolhidos por Deus e reconhecidos pela igreja. Para que sejam reconhecidos, a igreja precisa avaliar o trabalho que já estão fazendo e não se iludir com o suposto potencial que, teoricamente, aparentam possuir.

4 Qualificação: “não inclinados a muito vinho,” (1Tm 3.8)
Significado: Não dominado por bebida alcoólica.

Comentário: Cada país tem suas tradições e bebidas típicas. No Brasil, a caipirinha; no México, a Tequila; na Alemanha, a cerveja; na Rússia, a vodca; etc. Naquela época e região, o vinho tinha os seus apreciadores. Vale lembrar que o apóstolo não desqualificou quem bebia vinho, mas sim quem não se dominava no seu consumo. Particularmente, nunca fui chegado a bebidas alcoólicas e nunca fui fã da expressão “beber socialmente” como hábito de um cristão (Pv 23.31-35).  Um pouco de vinho, com baixo teor alcoólico, consumido eventualmente nas refeições, tem até seus benefícios medicinais (1Tm 5.23). Entretanto, para quem tem tendência ao alcoolismo, basta começar para não mais conseguir parar. Combate-se acertadamente o fumo, porém a bebida patrocina quase tudo. Assim, infelizmente, as estatísticas do alcoolismo crescem no mundo inteiro.

5 Qualificação: “não cobiçosos de sórdida ganância,” (1Tm 3.8)
Significado: Avareza → desejo e apego exagerado de acumular riquezas.Avarento → que não dá, mesquinho.

Comentário: A avareza é pecado (Mt 6.24); ter dinheiro e ser rico não. O problema não é o dinheiro e sim o amor e apego a ele (1Tm 6.17). Se ele for avarento, o foco da sua vida será cada vez acumular mais dinheiro e deleitar-se com os prazeres que este pode comprar (Pv 23.4-5; 1Tm 6.10). Entretanto, se ele não for apegado ao dinheiro, poderá dispor de mais tempo para servir ao Senhor, dedicar-se mais ao rebanho de Deus e a todos os desafios e projetos da igreja.

6 Qualificação: “conservando o mistério da fé com a consciência limpa.” (1Tm 3.9)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Além de regenerado, é claro, ele deve ser: um fiel seguidor do Senhor Jesus Cristo; guardar no coração e obedecer a Palavra de Deus, para não pecar; conhecer e praticar a sã doutrina bíblica; enfim, guardar e viver a fé cristã. Deve estar sempre pronto a testemunhar de sua fé e evangelizar, tendo em mente os lindos exemplos deixados nas Escrituras pelos diáconos Estêvão (At 6.8 a 7.60) e Filipe (At 8.5-40). Sua consciência não deve acusá-lo, muito menos os de dentro ou os de fora da igreja. Deve demonstrar idoneidade e transparência na administração dos recursos disponibilizados pela igreja.

III.   SITUAÇÃO CONJUGAL E FAMILIAR

Considera-se aqui a “vida familiar” da pessoa.

7 Qualificação: “seja marido de uma só mulher” (1Tm 3.12)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Esta qualificação pode ser interpretada pelo menos de três maneiras:

1ª) Que, obrigatoriamente, ele terá que ser um homem casado (com uma mulher, naturalmente).

2ª) Que, em toda a sua vida, ele tenha sido casado com apenas uma mulher, isto é, que não tenha casado outras vezes.

3ª) Que ele não pode ser poligâmico, pois em algumas sociedades e culturas isso era e ainda é uma situação legalmente permitida.

Qual das três é a interpretação correta? O texto bíblico não favorece uma resposta conclusiva. É desejável que ele seja casado e aplique na igreja a maturidade e experiência da liderança do seu lar. Mas, um homem viúvo, que vive só, também pode ser igualmente útil. Será que um homem viúvo, ao contrair novas núpcias, perderia a qualificação para o diaconato? Quanto ao solteiro, nada é referido explicitamente, a favor ou contra. Quanto ao homem ser casado simultânea e legalmente com mais de uma esposa, parece não ser esse o propósito de Deus, quando instituiu o casamento (Gn 2.24), o que Jesus ratificou (Mt 19.5). Quanto ao homem divorciado, que vive só ou casou-se outra vez, a situação não é muito simples de avaliar. Há alguns anos atrás, muitas igrejas não realizavam casamento de cônjuge divorciado. Dizia-se, também, que homem divorciado não deveria assumir posição de liderança na igreja, por uma questão de não viver uma situação exemplar. Tomavam como base as várias referências bíblicas de que o líder tem que ser modelo para o rebanho (1Pe 5.3; 1Tm 4.22; Fp 3.17). O assunto é muito complexo e não é nosso objetivo tratar dele aqui. Neste final dos tempos, em que há tanto desprezo pela Palavra de Deus e aceitação dos usos e costumes de uma sociedade pagã, que o Senhor nos ilumine e nos dê uma consciência tal que não sejamos irresponsáveis e permissivos, nem legalistas e injustos.

8 Qualificação: “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.” (1Tm 3.11)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Este versículo tem sido motivo de muita polêmica, sendo que para uns, está aqui em foco as esposas dos diáconos e, para outros, as qualificações resumidas das diaconisas. Minha posição pessoal se alinha com os que consideram aqui as qualificações resumidas das esposas dos diáconos e, portanto, suas auxiliadoras idôneas. Os argumentos são os seguintes: 1º)Várias traduções da Bíblia já adotam esta posição, pois no grego  “gunê” é traduzido por mulher (Mt 5.28) ou por esposa (Mt 5.31,31; 14.3). “Suas esposas devem ser cuidadosas….” (A Bíblia Viva – Mundo Cristão); “A esposa do diácono também deve ser….” (NTLH – SBB); etc. 2º)O ofício de diácono, desde sua origem (At 6), representa uma delegação de autoridade mas continua sendo exercício de governo na igreja, o que biblicamente é sempre de responsabilidade do homem (princípio divino de autoridade de gênero), o cabeça da mulher. Prova de que o diaconato exerce governo delegado pelo presbiterato é a qualificação de “governo” expressa no versículo 12.  3º)Se o apóstolo quisesse apresentar as qualificações de diaconisa ele seria mais claro e não se limitaria a uma lista tão resumida e inexpressiva. 4º)Não faz qualquer sentido o apóstolo, que é tão sistemático, começar a apresentar as qualificações dos diáconos, interromper para falar de diaconisas, em um minúsculo e brevíssimo versículo (v.11), e depois, continuar com sua apresentação.  Por outro lado, faz todo o sentido ele falar do diácono (vv.8-10), de sua esposa (v.11) e de sua relação familiar (v.12). 5º)É razoável que as esposas dos diáconos sejam mencionadas aqui pois sua cooperação no ministério do marido era e sempre será de grande valor. Vale ressaltar aqui que repudiamos qualquer favorecimento de conceito machista ou feminista na interpretação bíblica. Também não podemos aceitar que qualquer igreja ou denominação se atreva a distorcer o texto bíblico na tentativa de fundamentar suas decisões. Se quiser seguir modelos ou costumes do mundo pagão, a título de “evolução e modernidade”, que o faça e assuma os riscos e consequências, mas, por favor, não coloque a Bíblia nisso!

9 Qualificação: “governe bem seus filhos e a própria casa.” (1Tm 3.12)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Biblicamente, a responsabilidade maior do “governo” do lar é do homem; assim aprendemos e assim praticamos. Obviamente, que essa não é uma tarefa a ser exercida pelo homem de forma isolada, solitária e autoritária. Antes, porém, deverá ser exercida com sabedoria e com todo o apoio de sua esposa, sua auxiliadora idônea. Então, mais uma vez estamos diante de uma qualificação que é exigida dele, mas que depende essencialmente dela, da esposa, e também dos filhos. O texto é de fácil entendimento e a lógica é simples. Quem demonstra estar governando bem a sua casa, terá grande probabilidade de fazer um bom trabalho no governo da igreja, na área da diaconia. Quem no seu juízo perfeito colocaria uma pessoa toda atrapalhada na sua vida pessoal para gerenciar o seu negócio?

Concluímos esta sucinta abordagem com as seguintes considerações:

a) O texto termina com o seguinte versículo: “Pois os que desempenharem bem o diaconato alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus.” (2Tm 3.13). Nenhum servo de Deus, fiel e leal ao seu Senhor, faz o seu serviço buscando glória e honra para si mesmo, senão para o seu Senhor. Entretanto, o seu serviço e dedicação não ficarão esquecidos, diante de Deus e dos homens. Cabe aqui um alerta: diácono não é trampolim para presbítero! Cada ofício tem suas peculiaridades e algumas qualificações distintas. Alguns erros fundamentais têm sido cometidos na tentativa de premiar um diácono operoso “promovendo-o” a presbítero.

b) É difícil imaginar alguém que esteja cem por cento dentro deste padrão. Não é por isso que vamos agora ficar discutindo com a Bíblia ou com o apóstolo Paulo sobre o assunto. Padrão é meta, é desafio. Não é o caso também de desprezarmos o padrão bíblico e adotarmos nossos próprios critérios. A Bíblia é a nossa única e infalível regra de fé e prática.

c) Se eu e você achamos difícil reconhecer um homem cristão que atenda a todas essas prescrições, não fique perplexo se eu te afirmar que todo cristão, e não exclusivamente os diáconos, deveriam ter estas qualificações! Ou você acha que só os diáconos precisam ser respeitáveis, não avarentos, não dados a bebidas alcoólicas etc e os demais cristãos podem? Todos temos o desafio de viver de forma irrepreensível. Não é o que o Senhor Jesus diz? “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48)

d) Não custa lembrar que, biblicamente, não é a igreja quem escolhe diáconos! O processo é o seguinte:

1º) Deus os escolhe, os constitui (vocação e chamado).

2º) O homem cristão, regenerado, faz a obra.

3º) A igreja reconhece aquele que está fazendo a obra, sob a orientação do Senhor.

e) Quando a exigência é pouca e as qualificações bíblicas são desconsideradas, o nível da liderança é fraco e a igreja sofrerá as consequências. É como diz o provérbio popular, aqui adaptado: “Cada igreja tem o governo que merece.”

Finalmente, irmãos se alguém aspira ao diaconato, excelente obra almeja, então deve se empenhar para atender ao padrão prescrito na Palavra de Deus. Por outro lado, irmãos, vamos observar o jeito de ser da pessoa, seu modo de agir, sua capacidade de realização a partir do que a pessoa já vem realizando e, sua vida familiar, ao reconhecer diáconos na igreja de Deus!

Que o Senhor nos ajude!

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Veja também: As qualificações dos presbíteros