A cruz e o trigo

“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12.24)

Introdução

O contexto desta declaração de Jesus (Jo 12.24) é a sua última semana que culminou com a crucificação. Após sua entrada triunfal em Jerusalém no domingo, vem a segunda-feira. Alguns gregos, isto é, gentios prosélitos que tinham ido a Jerusalém para a festa da Páscoa desejavam vê-lo (Jo 12.20-21), o que contrastava com os líderes religiosos dos judeus que procuravam matá-lo. Uma verdadeira cadeia de comunicação se estabelece: Os gregos rogam a Filipe uma desejada “audiência” com Jesus, ele repassa para André, e, enfim, ambos comunicam a Jesus. Jesus percebe que sua hora de ser glorificado (ou seja, de sofrer, morrer e ressuscitar) estava chegando. E, então, se pronuncia de forma misteriosa, usando essa metáfora do grão de trigo para referir-se aos desdobramentos da sua morte.

1. O significado da metáfora

Jesus compara a si mesmo a um grão de trigo. Ele usa a lógica da agricultura:

  • Um grão, não semeado, nada gera.
  • Mas se for plantado e “morrer”, ele germina e dá fruto – muito fruto.

Portanto, Jesus usa uma ilustração simples da agricultura – algo que todos podiam entender. Mas ele está falando de algo muito profundo: o poder da morte que gera vida.

2. A Aplicação a Jesus

Jesus está falando sobre sua própria morte:

  • Ele precisa morrer (como o grão que morre ao ser enterrado).
  • Para que, através disso, muitos tenham vida – ou seja, sejam salvos.
  • Sua morte na cruz não seria uma perda, mas uma semeadura que traria grande colheita espiritual.

Jesus é o grão que cai na terra e morre. Ele não foi vencido pela morte – ele se entregou voluntariamente para que a sua morte trouxesse vida a muitos. Se Jesus não tivesse morrido, não haveria salvação, não haveria fruto.

O fruto somos nós! Sua morte não foi em vão. Da cruz nasceu um povo: nós, sua igreja.

  • Cada alma salva é um fruto do sacrifício de Jesus.
  • A igreja é a plantação de Deus que brotou da morte do Salvador.

3. Lições do Trigo

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará.” (Jo 12.25-26)

Na sequência da sua fala, Jesus se dirige aos seus discípulos e, por extensão, a todos os seus seguidores. Esta mesma ideia e conceito também se aplica a nós. Quando vivemos para nós mesmos, até podemos estar “vivos”, mas nossa vida será estéril. Entretanto, quando morremos para o eu, nos tornamos frutíferos – em amor, serviço, generosidade, impacto.

Somos convidados a refletir sobre o processo de transformação que conduz à vida plena. O trigo, símbolo da semente que precisa “morrer” para dar vida a uma colheita abundante, nos ensina valiosas lições para nossa jornada espiritual.

A metáfora do trigo é uma das imagens mais interessantes do evangelho. Jesus utiliza esse exemplo para ilustrar como a morte do “velho homem” é necessária para que a renovação e o crescimento aconteçam (Rm 6.6; Ef 4.22; Cl 3.9). Em cada etapa do ciclo do trigo, encontramos um paralelo com nossa caminhada cristã, um chamado para abandonar o “velho eu” e abraçar a transformação que resulta em uma vida frutífera.

A seguir, abordaremos seis etapas desse processo:

1ª) Desaparecimento ou entrega

“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.19b-20)

A primeira etapa é o desaparecimento, representado pela semente que, ao ser plantada, deixa de ser vista, pois está coberta pela terra. Esse desaparecimento não é um fim, mas uma entrega total. Na vida do cristão, o desaparecimento do “eu” anterior – marcado pelo pecado, pelo orgulho e pelas limitações humanas – é essencial para abrir espaço para algo novo. Assim, o abandono das velhas práticas e atitudes é o ponto de partida para a renovação espiritual.

Muitos crentes vivem em solidão, não porque lhes falte companhia, mas porque recusam-se a passar pelo processo da entrega. Em vez de se doarem, se protegem. Em vez de se entregarem, se fecham. Defendem sua própria vida, e acabam presos em si mesmos. Quanto mais resistem à “morte do eu”, mais suas vidas giram em torno de si, e menos frutíferas se tornam.

2ª) Transformação ou renovação interior

“Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna;” (Rm 6.22)

Após o desaparecimento, vem a transformação. Assim que o grão de trigo cai na terra e é coberto, inicia-se um processo invisível, mas poderoso – uma transformação química e biológica que dá início a uma nova vida. De igual modo, o cristão, ao se submeter à vontade de Deus, experimenta uma profunda mudança interna. A velha natureza, endurecida e inflexível, precisa morrer para que surja uma vida transformada – mais dócil, mais sensível, mais parecida com Cristo, e mais agradável aos que convivem com ela. Essa transformação é marcada pela regeneração pelo Espírito Santo, que reconfigura nossa identidade e nos capacita a viver segundo os princípios do Reino de Deus.

3ª) Ampliação ou Multiplicação

“cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Fp 1.11)

A etapa da ampliação reflete o potencial que foi liberado com a transformação. Quando o grão de trigo morre, ele gera uma planta que cresce e se expande, produzindo muitos grãos. Para o cristão, essa ampliação se manifesta na propagação do evangelho e no impacto transformador que sua vida pode ter sobre os outros. Cada mudança pessoal se torna uma semente para influenciar e inspirar o próximo, multiplicando os frutos da fé.

4ª) Rompimento ou Quebra de Barreiras

“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça.” (Rm 6.12-13)

O rompimento é a força que quebra as barreiras do antigo estado. No ciclo do trigo, a emergência da planta representa o rompimento da casca que o aprisionava. Na vida espiritual, esse rompimento simboliza o afastamento definitivo das estruturas e hábitos que impedem a plena vivência da fé. É o momento em que o crente se liberta das amarras do passado e se lança para uma nova realidade, determinada pela graça e pelo amor de Deus.

5ª) Enraizamento ou Consolidação

“Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças.” (Cl 2.6-7)

Após romper, a planta se enraíza profundamente no solo, garantindo sua estabilidade e a absorção dos nutrientes necessários para o crescimento. No contexto cristão, o enraizamento representa o fortalecimento na fé e na comunhão com Deus. É o período em que o crente consolida sua identidade em Cristo, estabelecendo raízes sólidas na Palavra (Bíblia), na oração e na comunhão com a comunidade de fé, o que o prepara para enfrentar as adversidades e continuar crescendo.

6ª) Ressurreição ou Renascimento em Cristo

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus;” (Ef 2.4-6)

Finalmente, o processo culmina na ressurreição. O trigo que “morre” gera uma nova planta que floresce e produz abundância. Assim também, a entrega total de nossa vida a Deus resulta na ressurreição espiritual, na renovação que traz esperança e a promessa de vida eterna. Essa ressurreição não é apenas a promessa de um futuro glorioso, mas uma realidade presente, manifestada na transformação contínua do coração e na renovação diária que reflete a presença de Cristo em nossas vidas.

É importante lembrar que o trigo era moído até se tornar farinha fina, a qual era usada para preparar o pão sagrado no tabernáculo. Deus nos mói para nos tornar alimento espiritual para outros. Esse processo de moagem e santificação continua até que as últimas partes duras do nosso ser sejam eliminadas.

Conclusão

“Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso.” (Lv 2.1)

Flor de farinha é o nome dado à parte mais fina, pura e refinada da farinha de trigo, resultado de um processo de peneiramento cuidadoso. É semelhante ao que hoje chamamos de farinha tipo 00 ou farinha superfina, usada para pães delicados e bolos leves. No hebraico, o termo é “solet” (סֹלֶת), e aparece em vários textos sobre ofertas no templo.

“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.5-6)

A flor de farinha é uma representação da pessoa de Cristo. “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35). Ainda que não houvesse dureza nele, ele foi moído e peneirado por nossas iniquidades, ele foi levado à fornalha acesa dos sofrimentos, para a salvação de todo aquele que crê. “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Is 53.11)

“Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma.” (2Co 12.15a)

Jesus nos deu o exemplo a ser seguido. A Bíblia tem vários textos que falam sobre entrega, sacrifício pessoal, dedicação intensa – até o ponto de “se deixar gastar” pela causa de Cristo. É o tipo de vida que não se poupa, mas se derrama como oferta. O apóstolo Paulo expressa sua disposição de se doar totalmente, mesmo sem retorno.

O sacrifício vicário de Cristo e as lições do trigo nos convidam a abraçar a mudança e a transformação como partes essenciais do processo de crescimento espiritual. Ao renunciar ao antigo “eu” e permitir que a graça de Deus atue em nossas vidas, experimentamos o desaparecimento, a transformação, a ampliação, o rompimento, o enraizamento e, finalmente, a ressurreição. Essas etapas nos ensinam que, assim como o grão de trigo precisa “morrer” para dar fruto, nossa jornada de fé também requer a entrega e a renovação contínua, conduzindo-nos a uma vida abundante e repleta do amor redentor de Jesus Cristo.


Cronologia dos 3 últimos dias de Jesus

Introdução:

“Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis, e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2Pe 3.14-16)

É impressionante como certos indivíduos usam a bíblia a pretexto de difundirem heresias para confundir as pessoas com pouco ou nenhum conhecimento teológico. De um modo geral a bíblia nos foi entregue por Deus para ser lida e entendida até mesmo pelas pessoas mais simples, pelo menos os seus principais ensinos que nos revelam o caminho da salvação. Entretanto, a bíblia não é um livro como outro qualquer e precisamos contar, acima de tudo, com a iluminação do Espírito Santo para entender a mensagem divina nela contida. Há nela, também, textos difíceis de ser entendidos, talvez, alguns, jamais entenderemos plenamente neste corpo e nesta vida: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.” (Dt 29.29). É, no mínimo, leviano e irresponsável, fazer a análise e interpretação dos textos bíblicos sem o uso adequado das normas básicas da hermenêutica bíblica, o que inclui, necessária e indispensavelmente, o conhecimento dos usos e costumes dos povos na época em que os textos foram escritos ou se referem.

O propósito deste breve estudo é apresentar bíblica e cronologicamente o que aconteceu nos últimos três dias do Senhor Jesus Cristo, incluindo sua ressurreição. Rejeitamos, como heresia, qualquer ideia ou tentativa de situar a ressurreição de Jesus no sábado e sua morte e ressurreição antes da sexta-feira da preparação da Páscoa. Todo esse malabarismo argumentativo é feito certamente com a intenção de defender a guarda do sábado, desprezando a importância do domingo para o cristão, o “primeiro dia da semana”, assim mencionado na bíblia (Mc 16.9; At 20.7), sendo que não é nossa intenção tratar desse assunto aqui. Isso fazem porque uma das fortes argumentações para a observância ou guarda do domingo é que Jesus ressuscitou no domingo. É muito comum que tais produtores de heresias tomem por base textos fora do seu contexto.

1. CRONOLOGIA DOS TRÊS DIAS

Diferentemente de nós, que contamos o dia completo das zero até às 24h, os judeus consideravam a contagem de 24 horas do dia, do pôr do sol (18h) de um dia, até o pôr do sol (18h) do outro dia. É por isso, por exemplo, que o sábado judaico, na realidade, ia das 18h da sexta-feira (pôr-do-sol), até às 18h do sábado (pôr do sol) (Gn 1.8). Portanto, a noite era dividida em quatro vigílias: Primeira: 18h às 21h; Segunda: 21h às 24h; Terceira: zero às 3h; Quarta: 3h às 6h. O dia era dividido em 12 horas: 6h (hora zero) até às 18h (hora duodécima).

    1. A multidão de peregrinos se dirigia para Jerusalém para a celebração da Páscoa (Jo 11.55). Jesus também subiu para a celebração da Páscoa, seis dias antes, provavelmente na sexta-feira à tarde. Ele se hospedava em Betânia (a cerca de 3Km de Jerusalém) e ia e voltava a Jerusalém. Depois do sábado (judaico), faz sua entrada triunfal em Jerusalém (Mc 11.1-11; Mt 21.1-11; Lc 19.29-44; Jo 12.12-19).
    1. Aproximando-se o dia da celebração da Páscoa, na quinta-feira, à tarde, Jesus orienta os discípulos a fazerem os preparativos, no cenáculo mobilado e pronto (Mc 14.12-16; Mt 26.17-19; Lc 22.7-13). Era quando se fazia o sacrifício do cordeiro pascal (Mc 14.12).
    1. Na noite de quinta-feira, que é o início da sexta-feira judaica, Jesus se reúne com os doze, no cenáculo, para a celebração da Páscoa judaica (Mc 14.17; Mt 26.20; Lc 22.14).
    1. Durante a celebração Jesus institui a Ceia Cristã (Mc 14.22-25; Mt 26.26-29; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26).
    1. Encerrada a celebração, tendo cantado um hino, eles saíram para o Monte das Oliveiras (Mc 14.26; Mt 26.30; Lc 22.39).
    1. No Jardim do Getsêmani Jesus é traído e preso (Mc 14.43-52; Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.2-12).
    1. Naquela madrugada de sexta-feira Jesus é interrogado, ferido e zombado.
    1. Na manhã daquela sexta-feira, o processo de julgamento continua, diante das autoridades judaicas e romanas (Mc 15.1; Mt 27.1; Lc 22.66-71).
    1. Condenado, e depois de percorrer a “via dolorosa” até o Calvário,  na hora terceira (9h da manhã de sexta-feira) Jesus é crucificado (Mc 15.24-25).
    1. Jesus, estando na cruz, da hora sexta até a nona (12h até às 15h), aconteceu que houve trevas sobre toda a terra (Mc 15.33-37; Mt 27.45-50; Lc 23.44, 46).
    1. Por volta da hora nona (15h), Jesus bradou em alta voz e depois expirou. (Mc 15.34-37; Mt 27.46-50).
    1. Ao cair da tarde daquela sexta-feira, dia da preparação, como era a véspera do sábado (que começava às 18h de sexta-feira), os corpos não poderiam ficar na cruz, então, José de Arimatéia, obteve a autorização de Pilatos, cedeu um túmulo novo e providenciou o sepultamento de Jesus (Mc 15.42-46; Mt 27.57-60; Lc 23.50-54; Jo 19.31-42).  A lei mosaica estabelecia que o cadáver não deveria permanecer no madeiro durante a noite (Dt 21.23). Todo sábado[1] era especial para os judeus, mas o evangelista João se refere àquele sábado assim: “pois era grande o dia daquele sábado”. Ele assim se expressou porque aquele sábado, naquele ano, coincidia com a Páscoa, que também coincidia com o primeiro dia dos pães asmos  (Êx 12.16; Lv 23.7). No 14º dia de Nisã (ou Abibe, o primeiro mês do calendário religioso judaico[2], que corresponde a março-abril no nosso calendário gregoriano[3]), dia da preparação, o cordeiro pascal era imolado, no crepúsculo da tarde (Êx 12.5-6). À noite, já no início do 15º dia, a carne assada no fogo do cordeiro era comida com pães asmos e ervas amargas (Êx 12.8). Era o primeiro dia da festa dos pães asmos (sem fermento) que durava sete dias (Êx 12.15-20). É importante ressaltar que o 14º dia de Nisã, quando deveria ser celebrada a Páscoa ou Pessach em hebraico, pode cair em qualquer dia da semana. A “Sexta-feira Santa”, como é conhecida na tradição cristã, é a data em que muitos cristãos celebram a crucificação de Jesus, que ocorreu durante aquela Páscoa judaica. Isso não significa necessariamente que os judeus comemoravam a Páscoa na sexta-feira, mas sim que a morte de Jesus aconteceu durante o período da Páscoa judaica, e os cristãos associam esse evento à “Sexta-feira Santa”. Entretanto, para o cristão, o mais importante memorial, que foi instituído por Jesus, é a Ceia do Senhor (1Co 11.23-29).

    [1] Etimologicamente, a palavra “sábado” tem suas raízes no hebraico “Shabbat”, que significa “descanso” ou “cessação”. Na tradição judaica, o sábado é considerado um dia sagrado, estabelecido como um dia de descanso em memória da criação do mundo por Deus, conforme descrito na Bíblia (Gn 2.2; Êx 16.23; 20.8).

    [2] Os judeus usavam um calendário lunissolar, que é uma combinação de elementos do calendário lunar e solar. O calendário mencionado na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, é baseado nesse sistema. Este calendário era usado para determinar as datas das festas religiosas e cerimônias importantes, bem como para marcar eventos históricos.

    [3] O calendário gregoriano é o calendário solar internacionalmente aceito hoje em dia. Ele é baseado no ciclo anual da Terra em torno do Sol e foi introduzido pelo Papa Gregório XIII em 1582 como uma reforma do calendário juliano anterior.

    1. Por solicitação dos principais sacerdotes e dos fariseus, feita a Pilatos, o túmulo foi guardado com segurança (com soldados e, também, lacraram a pedra de entrada) porque Jesus tinha dito que ressuscitaria: “Depois de três dias ressuscitarei” (Mt 27.62-66).
    1. O evangelista Lucas registra que as mulheres que vieram da Galileia viram onde Jesus foi sepultado e se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento (Lc 23.56).
    1. O evangelista Marcos registra: “Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo.” (Mc 16.1). O sábado terminava às 18h, quando começava (entrava, despontava) o primeiro dia da semana, o domingo, ao anoitecer. Nesta mesma linha, o evangelista Mateus registra o que parece ter sido uma “primeira” visita: “No findar do sábado, ao entrar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.” (Mt 28.1)
    1. O evangelista Mateus registra (de forma isolada) que, em algum momento do domingo (provavelmente no final da madrugada), houve uma intervenção angelical no sepulcro: “E eis que houve um grande terremoto; porque um anjo do Senhor desceu do céu, chegou-se, removeu a pedra e assentou-se sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago, e a sua veste, alva como a neve. E os guardas tremeram espavoridos e ficaram como se estivessem mortos.” (Mt 28.2-4). Vale ressaltar que os textos registrados nos Evangelhos não obedecem necessariamente a uma ordem cronológica. Portanto, é um equívoco colocar este registro de Mateus 28.2-4 imediatamente após Mateus 28.1!
    1. Sem fazer menção ao término do sábado e início noturno do domingo, os evangelistas Marcos, Lucas e João registram o que seria a “segunda” visita das mulheres, agora próximo ao início diurno do domingo, o primeiro dia da semana, a saber:

    “E, muito cedo, no primeiro dia da semana, ao despontar do sol, foram ao túmulo.” (Mc 16.2)

     “Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado.” (Lc 24.1)

    “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revolvida.” (Jo 20.1)

    Desses três textos, bem como do contexto, podemos fazer algumas considerações:

    • Elas saíram muito cedo para irem ao túmulo. Entretanto, não é dito de onde partiram, quanto tempo levaram para chegar e a que horas chegaram ao túmulo.
    • Ao chegarem ao túmulo, viram que a pedra fora removida, não que fora removida quando ainda estava escuro.
    • Não sabemos se naquela época do ano, às 6h da manhã, o dia ainda estava escuro.
    • É fato que quando chegaram ao túmulo as mulheres não viram o corpo de Jesus.

    Portanto, desconsiderar o claro registro desses três evangelistas, fixando-se apenas no registro de Mateus 28.1 associado ao texto de Mateus 28.2-3 é de uma incoerência gigantesca e desrespeito completo às regras, princípios e métodos da hermenêutica.

    1. Os anjos anunciaram às mulheres que Jesus havia ressuscitado (Mc 16.5-8; Mt 28.5-8; Lc 24.4-8).
    1. É fato que Jesus ressuscitou no domingo, no final do período noturno ou no início do período diurno, isto é, antes ou um pouco depois da 6h da manhã.
    1. Aparições de Jesus no domingo da ressurreição.

2. QUANTO TEMPO JESUS FICOU NO TÚMULO?

Conforme já exposto, o sepultamento de Jesus ocorreu no final da tarde de sexta-feira, antes do início (noturno) do sábado e ressuscitou próximo ao raiar do sol de domingo.

Entretanto, existem aqueles que se dedicam arduamente a tarefa de demonstrar que Jesus permaneceu no sepulcro por 72 horas – o equivalente a três dias e três noites – para que pudesse se cumprir o “sinal de Jonas”. Para tratar  e refutar essa ideia podemos analisar quatro casos, além das declarações explícitas nos evangelhos sobre os dias da crucificação. Então vejamos:

1º) O SINAL DE JONAS (Mt 12.39-40; 16.4; Lc 11.29-30; comp. Jn 1.17)

“Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40)

“Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. E, deixando-os, retirou-se.” (Mt 16.4)

“Como afluíssem as multidões, passou Jesus a dizer: Esta é geração perversa! Pede sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. Porque, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, o Filho do Homem o será para esta geração.” (Lc 11.29-30)

“Deparou o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe.” (Jn 1.17)

 Verifica-se aqui que apenas o evangelista Mateus registra detalhadamente este sinal anunciado por Jesus.

É amplamente conhecido que os judeus tinham o costume de considerar uma parte do dia como equivalente a “um dia”. Assim, uma fração de dia ou noite seria contada como um dia inteiro, considerando o termo “dia” em ambos os sentidos – abrangendo tanto o período diurno quanto o noturno, com o dia contrastando com a noite. Era uma forma natural deles  se expressarem. Nesse contexto, uma fração de sexta-feira seria considerada um dia, o sábado outro, e a fração de domingo, o terceiro dia. Esse método de contagem de tempo era bem aceito entre os judeus e não gerava controvérsias. Então, no costume judaico, quando se diz “três dias e três noites”, simplesmente se quer dizer três dias.

2º) O SINAL DO TEMPLO (Jo 2.19; 2.20; Mt 26.61; Mc 14.58; Mt 27.40; Mc 15.29)

“Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.” (Jo 2.19)

“Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?” (Jo 2.20)

No início do seu ministério de três anos, estando próxima a Páscoa, Jesus sobe a Jerusalém e efetua a primeira purificação do templo (Jo 2.13-22). Os judeus protestam sua ação e lhe perguntam: “Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?” (Jo 2.18b). Foi neste contexto que Jesus lhes respondeu (Jo 2.19) e eles replicaram a partir de um entendimento literal do templo físico (Jo 2.20). Então, o evangelista João traz uma palavra de esclarecimento: Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.” (Jo 2.21). E, ainda mais, que quando da ressurreição de Jesus seus discípulos se lembraram dessa sua fala (Jo 2.22).

“Este disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias.” (Mt 26.61)

“Nós o ouvimos declarar: Eu destruirei este santuário edificado por mãos humanas e, em três dias, construirei outro, não por mãos humanas.” (Mc 14.58)

Três anos depois, no processo de julgamento de Jesus pelas autoridades judaicas, quando tentavam reunir provas para condená-lo, eis que surgem duas testemunhas lembrando dessa fala de Jesus (Mt 26.57-61; Mc 14.53-59)

“Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! (Mt 27.40)

“Os que iam passando, blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ah! Tu que destróis o santuário e, em três dias, o reedificas!” (Mc 15.29)

Por fim, quando Jesus estava pendurado na cruz, os que iam passando blasfemavam citando aquela fala de Jesus sobre a destruição e reconstrução do templo em três dias, sem a compreensão de que Jesus havia se referido ao seu corpo (Mt 27.35-39; Mc 15.24-29).

Enfim, temos aqui mais um sinal contundente e predição dos três dias entre a morte e ressurreição de Jesus!

3º) “NO” ou “AO” TERCEIRO DIA (Mt 16.21; 17.23; 20.19; Lc 9.22; 24.7; 24.46; At 10.40; 1Co 15.4; ver tb Lc 24.21)

“Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia.” (Mt 16.21)

“e estes o matarão; mas, ao terceiro dia, ressuscitará. Então, os discípulos se entristeceram grandemente.” (Mt 17.23)

“A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto,” (At 10.40)

“e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” (1Co 15.4)

As expressões “no terceiro dia” e “ao terceiro dia” têm que significar que a ressurreição ocorreu nesse dia; porque, se ocorresse depois do terceiro dia, seria no quarto dia, e não no terceiro. Ora, acontece que esta expressão “no” ou “ao” “terceiro dia” ocorre oito vezes referindo-se ao tempo da ressurreição de Cristo. Portanto, são abundantes e irrefutáveis evidências, de caráter profético e histórico, de que Jesus ressurgiu “no ou ao terceiro dia”.

“Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam.” (Lc 4.21)

Além das oito evidências anteriores, temos aqui uma nona. “Naquele mesmo dia” (Lc 24.13), o dia da ressurreição, ainda no domingo, Jesus aparece a dois discípulos no caminho de Emaús. Eles nos dão conta do tempo decorrido desde a condenação à morte e crucificação de Jesus: 1º dia: sexta-feira; 2º dia: sábado; e 3º dia: domingo.

4º) DEPOIS DE TRÊS DIAS (Mc 8.31; 9.31; 10.34; Mt 27.63)

“Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse.” (Mc 8.31)

“porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará.” (Mc 9.31)

“hão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo; mas, depois de três dias, ressuscitará.” (Mc 10.34)

“disseram-lhe: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, enquanto vivia, disse: Depois de três dias ressuscitarei.” (Mt 27.63)

Não há razão para encontrar aqui uma contradição entre as expressões “depois de três dias” e “no/ao terceiro dia” como se o “depois” pudesse forçar uma interpretação de que as vinte e quatro horas do terceiro dia deveriam ter transcorrido. Seria uma outra forma de dizer a mesma coisa, diante dos argumentos já expostos.

3. CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES

a) Jonas não é um tipo de Cristo, é apenas um sinal, como o sinal do templo (destruição e reconstrução em três dias). Jonas estava fugindo e se esquivando de obedecer à vontade e missão de Deus; Jesus veio ao mundo em obediência e para cumprir a vontade de Deus. Jonas permaneceu vivo dentro do peixe; Jesus permaneceu um tempo morto no sepulcro.

b) O sinal de Jonas não deve ser considerado como um fator de vital importância para confirmar o plano da salvação. O fato da morte e ressurreição de Cristo é sim muito mais importante do que o tempo que ele ficou sepultado.

c) O sinal de Jonas está muito longe de ser a única prova da autenticidade de Jesus como o Messias prometido. São muitas as predições da primeira vinda de Jesus, o Messias, no Antigo Testamento, que se cumpriram, além das prefigurações da expiação de Cristo (a oferta de Abel,  a Arca da Salvação, o sacrifício de Isaque, a Páscoa judaica, o Dia da Expiação, a serpente abrasadora). A mulher samaritana esperava pelo Messias e creu que Jesus era o Messias, pela autoridade com que falava e por lhe ter revelado tudo quanto tinha feito (Jo 4.25-26); da mesma forma creram muitos samaritanos (Jo 4.39-42). Na pregação do Pentecostes, o apóstolo Pedro ressalta a messianidade de Jesus manifestada nos milagres, prodígios e sinais por ele realizados (At 2.22ss). Portanto, Jesus jamais declarou que o sinal de Jonas era a única prova da autenticidade da sua messianidade, porém que era o único sinal que aqueles religiosos incrédulos receberiam dele.

d) É fato que Deus é perfeito e detalhista na obra que realiza, particularmente na criação. No que se refere a profecias, ele nos revela muitos detalhes. Entretanto, no que se refere ao tempo, ele não nos revela precisamente data e hora: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.” (Mt 24.36). Ele sempre nos orienta a observar os sinais (Mt 16.3). Por que, então, alguns insistem no equívoco de afirmar que Jonas e Jesus, permaneceram no peixe e no sepulcro, respectivamente, 72 horas (3 dias inteiros de 24h)? Onde está explicitada na bíblia esta quantidade de horas?

Conclusão:

Para aqueles que fincam muito o pé no “sinal de Jonas”, nos três dias e três noites ou 72 horas que Jesus deveria ficar sepultado, deixamos algumas considerações finais para reflexão:

1ª) A fala de Jesus quanto ao “sinal de Jonas” ocorre num contexto beligerante produzido pelos religiosos hipócritas da época. Primeiramente, escribas e fariseus, provocam Jesus pedindo-lhe um sinal provando que ele era o Messias. Não há, da parte de Jesus, a intenção de “lançar pérolas aos porcos” (Mt 7.6). Se observarmos bem o registro deste incidente (Mt 12.38-42), veremos que o foco de Jesus está posto no que vem depois da citação dos “três dias e três noites”, isto é, a receptividade à pregação de arrependimento que ocorreu em Nínive, o que Jesus não via neles e nem naquela geração. Da mesma forma, no segundo evento, quando fariseus e saduceus tentando-o lhes pediram um sinal vindo do céu, a resposta de Jesus foi o sinal de Jonas, sem referência a tempo (Mt 16.1-4).

2ª) Quando Jesus se dirigia diretamente aos seus discípulos, a quem desejava instruir e preparar para o que haveria de acontecer com ele, a sua ênfase era a respeito da sua morte e ressurreição “no ou ao terceiro dia”, conforme os vários textos já mencionados, registrados por Mateus, Lucas e o apóstolo Paulo.

3ª) Não é razoável desconsiderar, ou não dar a devida atenção, para os vários textos que narram, e deixam muito claro, o que aconteceu nesses três últimos dias do Jesus encarnado, incluindo a sua ressurreição no terceiro dia.

Finalmente, é preciso dizer que há pessoas sempre ávidas a se dedicar a minúcias doutrinárias, visando a descontruir a doutrina da fé alheia, enaltecendo a sua própria visão doutrinária. Acima e antes de tudo precisamos realmente é de testemunhar do Cristo morto e ressurreto, para a salvação de tantos que estão por aí perdidos, chafurdados nos seus delitos e pecados.

As 7 “palavras” da cruz

Introdução

As sete “palavras” ou frases ou manifestações verbais de Jesus, pendurado na cruz do Calvário, não são mais nem menos importantes do que as demais proferidas por ele ao longo do seu ministério terreno. Suas palavras sempre merecem nossa atenção e sempre têm algo a nos revelar e ensinar. Os quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, nos legaram a biografia de Jesus. Neste ponto da sua trajetória, pendurado na cruz, nenhum deles registrou todas as sete falas de Jesus; por outro lado, nenhum deles deixou de registrar pelo menos uma delas. É interessante que Lucas mencionou três, João outras três e, finalmente, Mateus e Marcos registram a outra, totalizando, assim, as sete.

As três primeiras manifestações de Jesus, na cruz, foram feitas nas três primeiras horas da crucificação e antes do período das trevas. Verifica-se nelas o real e constante cuidado do Senhor com as pessoas!

1ª) Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.
(Amoroso e Perdoador) (Oração do Senhor pelos inimigos)

“Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes.” (Lc 23.34)

Essa declaração de Jesus, apenas registrada por Lucas, tem sido tradicionalmente aceita como a primeira das sete que ele fez na cruz, embora nenhuma certeza exista quanto à ordem cronológica delas. O fato é que essa expressão reflete o espírito perdoador que se sabe ter tido Jesus, declarado muitos anos antes pelo profeta Isaías: “… foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.” (Is 53.12b).

Jesus atribuiu a ignorância como a causa de suas atitudes hostis. A ignorância dos soldados foi circunstancial, porquanto foram envolvidos em acontecimentos que não haviam provocado e que não podiam controlar (At 3.17; At 17.30). A ignorância dos judeus, entretanto, foi judicial, porquanto haviam fechado os próprios olhos à realidade de Jesus. Os judeus, foram seduzidos pelos seus líderes religiosos que não quiseram admitir o caráter messiânico de Jesus.

Quanto ao perdão de Jesus, era de caráter universal, não excluindo, Pilatos, os escribas e fariseus etc. O perdão, portanto, é tão largo e profundo quanto o pecado. O pecado tem sido universal, e o perdão oferecido tem sido igualmente universal.

2ª) Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.
(Salvador)(Uma valorosa promessa)

“Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. (Lc 23.43)

Três cruzes foram erguidas no monte do Calvário. Cada uma delas traz uma mensagem objetiva aos corações dos homens:

a) A CRUZ DA REDENÇÃO (Lc 23.33; Ef 1.17)

Ali naquela cruz do centro havia um homem morrendo “pelos nossos pecados”(1Co 15.3)

b) A CRUZ DA REJEIÇÃO (Lc 23.39)

Ali naquela cruz do lado havia um homem morrendo “em pecado”.

c) A CRUZ DA RECEPÇÃO  (Lc 23.40-42)

Ali naquela cruz do outro lado havia um homem morrendo “para o pecado”. Era a cruz do triunfo da fé e da graça.

É impressionante o que se passou com aquele malfeitor arrependido (Lc 23.40-42):

– Temeu a Deus e reprovou o companheiro de infortúnio;
– Confessou a justiça do seu castigo;
– Reconheceu que Jesus era inocente;
– Creu num Cristo vivo além da sepultura;
– Creu num Reino além da cruz, com Jesus por seu futuro Rei;
– Pediu por si mesmo, e provou a verdade da palavra “Quem invocar o nome do Senhor será salvo”.

Desta forma ele foi acolhido por Jesus nos últimos instantes da sua vida.

Bem diferente foi a atitude do outro malfeitor. Não percebeu o seu erro nem se arrependeu. Não percebeu qualquer valor em Cristo. Seu coração estava voltado apenas para esta vida. Queria continuar no mesmo caminho largo que o conduziu até ali. Ele deixou escapar a maior e última oportunidade da sua vida.

3ª) Mulher, eis aí teu filho | … Eis aí tua mãe.
(Cuidadoso)(Entrega mútua – Maria x discípulo amado)

“Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa.” (Jo 19.26-27)

A cruz de Cristo estava envolvida por um clima de extrema hostilidade, contrastado por um pequeno grupo de mulheres e mais o discípulo amado, que estavam perto da cruz e, com amargura de alma, contemplavam o ultraje sofrido por aquele que lhes era tão querido. Em qualquer tempo isso tem acontecido: muitos são os que escarnecem da cruz, enquanto poucos são os que se solidarizam com o crucificado, buscando refúgio aos seus pés.

Ali estava, entre outras, a mãe de Jesus, cuja alma estava traspassada pela espada (Lc 2.35) e o discípulo amado, cujo nome não é revelado aqui, mas que sabemos se tratar do apóstolo João, conforme nos indicam outras referências neste mesmo evangelho de João (ver as seguintes referências a ele mas que não lhe mencionam o nome: Jo 1.35-40; 18.5; 20.3, 8; com o adjetivo “amado”: Jo 13.23; 19.26; 20.2 e 21.7, 20. O texto de João 21.24 definidamente vincula esse discípulo ao autor do quarto evangelho).

O Filho e Senhor, moribundo, uniu-os na mais terna das relações. Conforme sempre foi característico no Senhor Jesus, até mesmo nos momentos de suas mais duras provações, como neste caso, em que experimentou dores atrozes. Ele, assim mesmo, dedicou tempo a pensar em “seus semelhantes”, importando-se com o bem-estar deles em tudo quanto lhe era possível. Este caso parece comprovar a suposição de que José, marido de Maria, já havia falecido por essa altura dos acontecimentos, e que Maria já era viúva há algum tempo. José não é mais mencionado em atividade, em toda a narrativa dos quatro evangelhos, após as cenas de Jesus no templo, aos 12 anos de idade (Lc 2.41-50). Entendemos que sua menção em Mateus 13.54-58 é apenas uma referência biográfica ou de identificação – “filho do carpinteiro”. Portanto, se ele estivesse ainda vivo, Jesus não teria de deixar Maria, sua mãe, aos cuidados do seu discípulo João.

As quatro últimas manifestações de Jesus na cruz foram feitas no final das três últimas horas da crucificação e no final do período de trevas. Verifica-se que elas dizem respeito à própria pessoa de Jesus!

4ª) Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
(Desamparado)(Brado de aflição espiritual)

“À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mc 15.34)
“Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27.46)

Pode se dizer que os Salmos 22 a 24 formam uma espécie de Trilogia[1] Messiânica, escrita por Davi, uma vez que o personagem central é o Messias – Jesus Cristo, a saber:

– Salmo 22: [Passado]  O Messias encarnado – Sofrimento e Vitória.
– Salmo 23: [Presente] O Messias ressuscitado – O Bom Pastor.
– Salmo 24: [Futuro]    O Messias exaltado – O Rei da Glória.  

“Nos três Salmos, 22, 23 e 24, Cristo é reconhecido no seu ministério a favor dos remidos: no passado, no presente e no futuro. Na sua morte sobre a cruz ele é o substituto (22), na peregrinação ele é o Pastor (23), e no trono ele é o Salvador (24). Os três salmos chamam nossa atenção para a Cruz, o Cajado e a Coroa.” (Goodman)

O Salmo 22, versículo 1, diz assim: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Ainda que tal expressão possa ter algo a ver com a experiência de vida de Davi, certamente é uma referência profética ao sofrimento do Messias. Assim, depois de 3 horas de trevas e 6 horas pendurado no madeiro, Jesus bradou com essas palavras. Este capítulo 22 está repleto de referências proféticas à crucificação do Messias – Jesus!

Este clamor expressa a sensação de abandono experimentado por Jesus, na cruz, ao tomar o nosso lugar, levando sobre si os pecados da humanidade: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.6) “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (2Co 5.21; ver tb 1Pe 2.24). Jamais seremos capazes de avaliar a agonia física, emocional e espiritual que Jesus estava passando, cujo ápice se deu naquela hora nona ou 3 horas da tarde! Embora haja algumas teorias, é um grande mistério esse clamor de Jesus sobre o desamparo de Deus. Seria retórica ou literal a expressão de Jesus. Poderia Deus abandonar o seu Filho Unigênito? Poderia Deus se separar de Deus? Alguns defendem a teoria de que Deus jamais abandonaria seu Filho, mesmo que parecesse que sim. Outros defendem a teoria de que todos os pecados foram literalmente transferidos para Jesus, o Cordeiro de Deus, como acontecia nos sacrifícios do Antigo Testamento, para que fôssemos perdoados e justificados por Deus. Desta forma, Deus-Pai teve que se separar momentaneamente de Jesus, porque ele foi feito pecado e Deus não tem comunhão com o pecado.

5ª) Tenho sede!
(Humano)(Brado de carência física)

“Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede! (Jo 19.28)

Esta exclamação de Jesus expõe enfaticamente sua humanidade, pois Jesus, o Deus-Homem, também era o Homem-Deus! A Escritura profética do salmista sobre o lamento do Messias cumpre-se aqui (Sl 69.21). Nesta condição humana ele se iguala a qualquer outro ser humano, exceto que ele não cometeu pecado (Hb 4.15). Há que se ressaltar que Jesus, o Homem-Deus, experimentou tortura e sofrimento extremo nos seus dias finais, a partir do seu aprisionamento e até à sua morte. E foi por mim, por você, por nós!

Há vasta comprovação bíblica e histórica dessa humanidade.

Ele possuía um corpo humano:
– Nascido de mulher (Gl 4.4);
– Sujeito a crescimento (Lc 2.52);
– Visto e tocado pelas pessoas (1Jo 1.1; Mt 26.12);
– Sangrou (Jo 19.34);
– Sujeito à morte física (Jo 19.31).

Ele foi sujeito às limitações da natureza humana:
– Sentiu fome (Mt 4.12);
– Sentiu sede (Jo 19.28);
– Se cansou (Jo 4.6);
– Chorou (Jo 11.35);
– Dormiu (Mc 4.38);
– Foi tentado (Hb 4.15).

A encarnação e consequente humanidade de Jesus Cristo é um fato de extrema relevância para a fé cristã! “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Vale ressaltar que Jesus participou plenamente da nossa humanidade, para que nós pudéssemos participar da sua natureza divina, pela fé, através do Espírito Santo (2Co 3.18; 2Pe 1.4). Já no início da igreja esta teve que lidar com filosofias religiosas oriundas do gnosticismo e docetismo[2]. Isto levou o apóstolo João a alertar a comunidade da fé nestes termos: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;” (1Jo 4.2). “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo.” (2Jo 1.7). “Essas palavras se referem diretamente ao ‘docetismo` ou ao ‘quase-docetismo` dos gnósticos, mediante o que eles negavam: 1. A encarnação; 2. A validade dos sofrimentos e da morte de Jesus Cristo como expiação; 3. A identidade das naturezas divina e humana da pessoa de Jesus Cristo.”[3]

6ª) Está consumado!
(Consumador)(Brado de vitória – missão cumprida!)

“Quando, pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito.” (Jo 19.30)

O que parecia ser a completa derrota – a morte de Cristo – na verdade se revelou a maior vitória! A missão de expiação pelo pecado estava terminada (Rm 5.11). Era chegado o momento em que essas palavras anteriormente proferidas por Jesus se concretizam: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer;” (Jo 17.4). Também nos ensina a grande verdade, de que a nossa vida tem o sentido maior de glorificar a Deus através da nossa vida, da obra e missão que ele tem designado para cada um de nós (1Co 15.58; Fp 1.6; Cl 1.10; 2Ts 1.11).

Vale destacar algumas das declarações que Jesus mesmo deu a respeito da razão da sua vinda:

– Não veio para revogar a Lei ou os Profetas, mas para cumprir (Mt 5.17);
– Não veio para chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento (Mt 9.13; Mc 2.17; Lc 5.32);
– Não veio trazer paz à terra, mas espada (Mt 10.34 ), ou divisão (Lc 12.51);
– Veio causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra (Mt 10.35);
– Veio salvar o que estava perdido (Mt 18.11);
– Não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28; Mc 10.45);
– Veio para pregar a pessoas de vários lugares e povoações (Mc 1.38);
– Não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las (Lc 9.56);
– Veio para lançar fogo sobre a terra (Lc 12.49);
– Veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10);
– Veio em nome do Pai (Jo 5.43);
– Não veio por sua própria vontade (Jo 7.28);
– Ele sabe de onde veio (Jo 8.14);
– Veio de Deus (Jo 8.42);
– Veio a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos (Jo 9.39);
– Veio para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10.10);
– Veio para esta hora (sofrimento e morte)(Jo 12.27);
– Veio como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que nele crê não permaneça nas trevas (Jo 12.46);
– Não veio para julgar o mundo, e sim para salvá-lo (Jo 12.47);
– Veio da parte de Deus (Jo 16.27);
– Veio do Pai (Jo 16.28);
– Veio ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade (Jo 18.37).

E, o apóstolo João acrescentou:

– Veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele (Jo 1.7-8);
– Veio para o que era seu, e os seus não o receberam (Jo 1.11).

Finalmente, vale lembrar o resultado desse “Está consumado!” nessas palavras do apóstolo Paulo: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.” (Cl 2.13-15)

7ª) Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!
(Sacrifício)(Brado de Confiança e Entrega)

“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou.” (Lc 23.46)
“Mas Jesus, dando um grande brado, expirou.” (Mc 15.37)
“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito.” (Mt 27.50)

A primeira “palavra” iniciou com “Pai” e a última também. Além de Lucas, os evangelistas Mateus e Marcos também mencionaram que Jesus clamou ou bradou em alta voz, porém não registraram o que ele disse, antes do seu último suspiro de vida no seu corpo mortal. Essas palavras também se encontram no Salmo 31.5, Salmo de Davi: “Nas tuas mãos, entrego o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade.” Sabedor do limite do seu estado físico Jesus se despediu do seu ministério terreno e do seu corpo mortal se entregando e voltando para o Pai, de onde veio.

Estas palavras transmitem algumas mensagens:

– Ele faz sua última oração testemunhando a todos que o Pai estava e sempre está presente, no governo e controle de todas as coisas.
– Ele tinha plena convicção de que o Deus-Pai o ouviria e o atenderia.
– Ele cria na imortalidade do espírito: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Ec 12.7).
– Ele nos dá o exemplo, nos conforta, e desperta em nós a esperança de que, ao findar o labor desta vida, nós, os salvos, os remidos pelo seu sangue ali na cruz, podemos entregar o espírito ao Pai Celestial.

Vale lembrar que o primeiro mártir cristão – Estêvão – correspondeu a muitas coisas ensinadas pelo Mestre, inclusive a perdoar os seus algozes e a entregar seu espírito a Deus: “E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu.” (At 7.59-60). Quão importante é viver tendo a certeza de que, ao deixarmos este mundo, seremos recebidos pelo Pai Celestial! É como diz o hino 153 (HNC):

Com tua mão segura bem a minha,
E meu caminho, alegre, seguirei!
Mesmo onde as sombras caem mais escuras,
Teu rosto vendo, nada temerei.

E no momento de transpor o rio
Que Tu, por mim, vieste atravessar,
Com tua mão segura bem a minha,
E sobre a morte eu hei de triunfar.

Conclusão

É inegável que o “verbo” que se fez carne e habitou entre nós, comunicou eficazmente a mensagem divina, no decorrer de todo o seu ministério terreno, inclusive no ápice do seu sofrimento na cruz. Vimos anteriormente que nessas manifestações finais ele continuou expressando seu cuidado e amor pelas pessoas; as que o rejeitaram e as que o receberam como Messias e Salvador. Também expôs publicamente seus sentimentos, carências físicas, convicção da missão cumprida e entrega.

Finalmente, em face de tudo isso, a pergunta que ainda ecoa é aquela feita por Pilatos: “…. Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo? … “ (Mt 27.22). O que você responde? A minha resposta pode ser extraída de algumas estrofes do hino 184 (HNC):

Por meu Jesus eu vou viver
E minha luz farei brilhar.
De dia em dia hei de fazer
O que ao meu Salvador honrar.     

E seja o dia quando for
Que Deus me chame para lá,
Bem certo estou que o Salvador
Contente me receberá.  

A doce voz me soará
De Cristo, amável Redentor!
”Fiel, bom servo, bem está,
Entra no gozo do Senhor.”
E face a face vê-lo-ei,
Liberto e salvo cantarei!
E face a face vê-lo-ei,
Liberto e salvo cantarei.


[1] Trilogia é o conjunto de três trabalhos artísticos, geralmente em literatura ou cinema, que estão conectados, mas que podem ser vistos tanto como trabalho único quanto como obras individuais. (Wikipédia)

[2] Gnosticismo e docetismo. Basicamente o gnosticismo cristão era considerado, assim como o docetismo, seu antecessor, uma forma de heresia sobre a pessoa de Cristo. Enquanto o docetismo afirmava que o corpo humano de Cristo não passava de um fantasma e que o seu sofrimento e morte eram meras aparências (“ou sofria e então não podia ser Deus, ou era verdadeiramente Deus e então não poderia sofrer”), o gnosticismo tentava explicar Cristo em termos de filosofia pagã ou de teosofia. Sendo o mundo material mau, Cristo não poderia ter-se encarnado nele e tampouco o Deus do Velho Testamento poderia ser o mesmo Deus revelado por Cristo. A polêmica, porém, já estava presente nos tempos do Novo Testamento.”….“O gnosticismo exerceu sua maior influência sobre o cristianismo no período entre os anos 135 e 200 d.C. Constituindo a maior ameaça à fé historicamente fundada dos cristãos, sua existência se prolongou por muito mais tempo. Doutrinas gnósticas voltam várias vezes na história da teologia; hoje sobrevivem em teorias ocultistas e espíritas.” (Enciclopédia Mirador Internacional)

[3] Champlin, Ph. D., Russell Norman – O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo.


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Crônica do Calvário

As 4 Representações Bíblicas da Expiação

Crônica do Calvário

Parecia ser uma sexta-feira como qualquer outra. Entretanto, a cidade estava agitada com os últimos acontecimentos. Eram 9 horas da manhã (Mc 15.23). Três homens foram dolorosamente pregados, cada um em uma cruz. As três cruzes foram erguidas e fincadas bem no alto daquele monte, perto de Jerusalém, porém fora dos muros da cidade (Jo 19.20; Hb 13.12). Jesus, o personagem principal, foi colocado ao centro, ficando um malfeitor de cada lado. Os que iam passando pela estrada, meneavam a cabeça. As autoridades religiosas também zombavam. Os soldados cobiçosos assentaram-se diante da cruz e jogaram um jogo sórdido, sorteando a sua túnica (Jo 19.23-24). Até mesmo um dos malfeitores ousava blasfemar, desafiando o seu poder; o outro via naquele homem ao centro a sua última esperança. Mais adiante e ao redor estava o povo, a tudo observando. Dentre os do povo havia alguns com o semblante descaído, olhos regados por lágrimas, mentes aflitas e confusas tentando entender o significado daquela terrível visão. Eram aqueles que durante algum tempo partilharam da convivência amiga e benéfica daquele homem simples de Nazaré.

Um simples monte se torna, naquele momento, o centro das atenções, o palco do Universo. Os céus e a terra pararam diante daquela cena incomum.

Já se passaram agora três horas, horas de agonia e sofrimento. A natureza não pode mais continuar passiva. O sol, no auge do seu esplendor, cessa de dar a sua luz, como que se recusando a aumentar ainda mais os sofrimentos do seu Criador. Em meio à escuridão exterior, Jesus, aquele que veio para ser a luz do mundo, era a única luz presente, iluminando os corações obscurecidos pelo pecado.

Eram agora três horas da tarde. O sacrifício estava chegando ao fim. “Está consumado”(Jo 19.30); “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”(Lc 23.46). Era o brado final de vitória que ecoava daquela cruz do meio. Mais uma vez a natureza se manifesta: A terra se revolve em terremotos, como que não suportando absorver aquele sangue inocente, redentor. Um último testemunho emana do meio da multidão: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”, exclamou o centurião (Mt 27.45-54).

Por certo não faltariam patrocinadores interessados em investir alto, pelo direito de fazer a cobertura, com exclusividade, desse acontecimento, caso ele ocorresse em nossos dias. Entretanto, bem poucos são aqueles que se entregam, pela fé, às verdades que dele emanam.

Obrigado Senhor! A tua morte produziu vida em mim: vida abundante! vida eterna!

Caro amigo, nunca troque o Cordeiro pelo Coelho (da Páscoa ou pelo chocolate). Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele é a nossa páscoa! Curta o clipe no link abaixo e reflita na letra desse clássico sacro.


Rude Cruz

Rude cruz se erigiu
Dela o dia fugiu
Como emblema de vergonha e dor
Mas contemplo essa cruz
Porque nela Jesus
Deu a vida por mim pecador

      Sim, eu amo a mensagem da cruz
     ´Té morrer eu a vou proclamar
      Levarei eu também minha cruz
     ´Té por uma coroa trocar

Desde a glória dos céus
O Cordeiro de Deus
Ao calvário humilhante baixou
Essa cruz tem pra mim atrativos sem fim
Porque nela Jesus me salvou

Nessa cruz padeceu e por mim já morreu
Meu Jesus para dar-me o perdão
Mas me alegro na cruz dela vem graça e luz
Para minha santificação

Eu aqui com Jesus, a vergonha da cruz
Quero sempre levar e sofrer
Cristo vem me buscar
E com ele no lar
Uma parte da glória hei de ter


Veja, também:

As 7 “palavras” da cruz

As 4 Representações Bíblicas da Expiação