
Introdução
O Salmo 50, escrito por Asafe como uma exortação profética, descreve a manifestação de Deus – o Poderoso – ao seu povo e aos ímpios. Aborda “A essência do culto a Deus” ou “A verdadeira adoração”. Inicia enfatizando a soberania e justiça de Deus. Em seguida, condena a ritualística repetitiva e vazia. Por fim, apresenta advertências contra a hipocrisia religiosa, com explícito descasamento entre o que se professa com os lábios e a perversidade dos atos praticados; também chama o povo de Deus a uma vida de gratidão e obediência sincera. Há neste salmo uma ênfase à ação de graças (vv.14-15; 22-23).
1. O CENÁRIO E O JULGAMENTO
1.1 Deus é o juiz supremo (vv.1-6)
O cenário descrito nestes primeiros versículos é apresentado como uma solene seção de julgamento celestial. A corte é convocada em nome do Rei dos reis, e o Juiz Supremo toma seu lugar de autoridade. A audiência está formada, os anjos estão atentos, e os réus são chamados à presença divina para prestar contas de suas ações. O tom é de majestade, justiça e soberania divina.
Deus é soberano, o supremo poder e governante sobre toda a terra. Ele fala e não guarda silêncio, ele chama a humanidade para prestar contas de suas ações, ele intima céus e terra, do oriente ao ocidente. Ele não é um Deus distante, ele é um Deus relacional, ele tem um povo, o povo que fez aliança com ele, o que envolve a expiação do seu pecado, pois Deus é Santo. Este seu povo tem privilégios, mas, também, responsabilidades e compromissos. Ele é o justo juiz que sonda e conhece os corações do seu povo, e apresenta acusação contra os que oferecem sacrifícios não sinceros.
Em face de tudo isso, o melhor a fazer é viver de forma que nossas ações reflitam o temor e o respeito a Deus, sabendo que ele vê além das aparências. Ele é misericordioso, mas, também é um justo juiz. Você tem consciência disso?
1.2 A verdadeira adoração (vv.7-15)
A primeira categoria de pessoas a ser julgada é composta pelos formalistas de Israel. Fala Deus: “Não te repreendo pelos teus sacrifícios…” (v.8), pois o problema não era a observância desses ritos sacrificiais. O fato é que Deus não se agrada de rituais vazios ou sacrifícios feitos apenas por obrigação ou por mera rotina e automatismo. O que ele busca é um coração grato e uma vida de obediência. Como isso aconteceria no âmbito da igreja atual?
A ênfase é: “Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo” (v.14). A adoração verdadeira vai além de práticas externas e envolve uma comunhão verdadeira com Deus, permeada de gratidão e confiança. Essa postura e prática recomendadas no versículo 14 habilitam o ofertante a recorrer ao Senhor e por ele ser socorrido no dia mau, no dia da angústia, conforme promessa expressa no versículo 15: “invoca-me…eu te livrarei…e tu me glorificarás”. Você já experimentou isso?
A Bíblia menciona várias vezes que Deus leva em conta, tanto o ofertante, quanto a oferta:
“Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” (Gn 4.4b-5a)
“Porém Samuel disse: Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.” (1Sm 15.22)
“O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento.” (Pv 15.8)
“De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? – diz o SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal.” (Is 1.11, 16)
“Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.” (Os 6.6)
1.3 Advertência contra a hipocrisia (vv.16-21)
A segunda categoria a ser julgada é a dos ímpios de Israel. Deus classifica como ímpios, e rejeita, aqueles que propalam com os lábios a sua aliança, mas vivem de forma contrária aos seus mandamentos. A hipocrisia religiosa é condenada. “Mas ao ímpio diz Deus: De que te serve repetires os meus preceitos e teres nos lábios a minha aliança, uma vez que aborreces a disciplina e rejeitas as minhas palavras?” (v.16-17). Não basta professar fé; é preciso viver de acordo com os princípios dessa fé, com sinceridade e integridade. Os versículos 16 a 20 expressam o perfil desse ímpio como:
- Hipocrisia religiosa;
- Rebeldia contra os princípios divinos;
- Cumplicidade com ladrões;
- Associação com adúlteros demonstrando conivência e participação indireta ou direta em atos imorais;
- Falatório contra o irmão e difamação de membro da própria família, indicando quebra de relacionamentos fundamentais, com desrespeito aos laços familiares.
1.4 O chamado ao arrependimento e à retidão (vv.22-23)
Deus chama ao arrependimento, advertindo sobre as consequências do esquecimento dele, mas também prometendo salvação àqueles que o adoram verdadeiramente. “O que me oferece sacrifício de ações de graças, esse me glorificará; e ao que prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salvação de Deus.” (v.23). A gratidão e a obediência a Deus são os verdadeiros caminhos para agradá-lo e experimentar suas bênçãos.
2. LIÇÕES PRÁTICAS
- Reconheça a soberania de Deus. Lembre-se de que ele é justo e deseja que seus filhos vivam com responsabilidade diante dele.
- Viva uma fé autêntica. Examine se sua relação com Deus é marcada por sinceridade ou apenas rituais repetitivos e vazios. Busque viver em alinhamento com os princípios divinos, evitando a hipocrisia.
- Exercite a gratidão como adoração. Cultive um coração grato, reconhecendo Deus como a fonte de todas as coisas boas.
O Salmo 50 nos lembra que Deus busca corações sinceros e submissos, não apenas rituais ou palavras. Ele é um juiz justo, mas também misericordioso, pronto para guiar aqueles que se voltam para ele em arrependimento e gratidão. Antes de abordar o que seriam esses “sacrifícios de ações de graças” mencionados neste salmo, vale lembrar:
3. TIPOS DE OFERTA PRESCRITAS NA LEI MOSAICA
Na Lei Mosaica, várias ofertas foram prescritas como parte do sistema sacrificial instituído por Deus para o povo de Israel. Cada tipo de oferta tinha um propósito específico relacionado à adoração, expiação de pecados, ações de graças e comunhão com Deus. Os cinco principais tipos de oferta são descritos no livro de Levítico (capítulos 1-7), a saber:
SACRIFÍCIO – O CAMINHO PARA DEUS
| TIPO | OFERTA | SIGNIFICADO |
|---|---|---|
| Holocausto Lv 1; 6.8-13 | – Oferta queimada sobre o altar, de aroma agradável ao Senhor. – Gado de rebanho ou miúdo (macho, sem defeito) / Aves. | Representava entrega e dedicação completa a Deus. |
| Manjares Lv 2; 6.14-23 | – Oferta queimada, não sangrenta, de aroma agradável ao Senhor. – Bolos sem fermento feitos com a melhor farinha, amassados com azeite e pãezinhos bem finos, sem fermento e untados com azeite. Sobre a oferta, incenso. O fermento e o mel eram excluídos, porque fermentam, simbolizando corrupção. | Representava lembrança e gratidão pela provisão de Deus do alimento básico, e a dedicação de si mesmo a Deus. |
| Sacrifício Pacífico Lv 3; 7.11-34 | – Oferta queimada sobre o altar, de aroma agradável ao Senhor. – Gado de rebanho ou miúdo (macho ou fêmea, sem defeito). | Também chamada de oferta de comunhão, celebrava a paz entre Deus e o ofertante. |
| Pelo Pecado Lv 4; 6.24-30 | – Oferta queimada sobre o altar, de aroma agradável ao Senhor. – Pelo sacerdote: Novilho // Pelo príncipe: Bode // Pessoa comum, conforme as posses: Cabra; Cordeira; duas rolas ou dois pombinhos [todos sem defeito]; pequena porção de flor de farinha. | Feita para expiar pecados específicos, tanto intencionais quanto não intencionais. |
| Pela Culpa Lv 5.14–6:7; 7.1-7 | – Oferta queimada sobre o altar. – Carneiro, sem defeito. | Também chamada de oferta de reparação, era feita para expiar pecados cometidos contra Deus ou contra outra pessoa, especialmente aqueles que envolviam danos materiais ou financeiros. |
Holocausto
No grego essa palavra é composta de holos, “inteiro”, e kaustos, “queimar”. A Septuaginta usa essa palavra para traduzir o termo hebraico עֹלָה (olah), que significa “trazido a Deus”. Um sinônimo, kalil, significa “queima completa”, referindo-se ao consumo dos sacrifícios em sua totalidade, incluindo os órgãos internos, a gordura e tudo o mais, até tudo tornar-se em cinzas. Também traz a ideia de “aquilo que sobe” ou “ascensão”. Esse termo está associado ao conceito de queimar algo completamente no altar, de modo que a fumaça subisse até Deus, simbolizando dedicação total e aceitação divina. Diferentemente do que se possa pensar, este primeiro tipo de oferta não é a principal no que se refere à expiação de pecado.
No contexto da adoração israelita, o holocausto tem a intenção de consagração, dedicação total e entrega espiritual do ofertante. A palavra holocausto também foi usada para descrever eventos como o genocídio de 6 milhões de judeus, por ordem de Adolf Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, o termo é empregado de forma metafórica, referindo-se ao sofrimento extremo e à destruição total, como do animal do sacrifício, mas sem a conotação religiosa de dedicação a Deus que o termo hebraico originalmente carregava.
Quanto a essas cinco ofertas acima mencionadas e como se pode relacioná-las a Cristo, na Nova Aliança, seria o caso de um estudo específico e aprofundado, o que não é objeto desta abordagem.
4. SACRIFÍCIOS DE AÇÕES DE GRAÇAS
“Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo;” (Sl 50.14)
“O que me oferece sacrifício de ações de graças, esse me glorificará; e ao que prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salvação de Deus.” (Sl 50.23)
A expressão “ações de graças” a Deus é recorrente na bíblia; por sua misericórdia, por seus livramentos, por suas bênçãos. Entretanto, algumas vezes esse termo é precedido por “ofertas e sacrifícios de….”.
No hebraico, a palavra mais comum para oferta é מִנְחָה (minchah), que significa literalmente “presente”, “tributo” ou “oferta”. Ela era usada no contexto de algo oferecido a Deus ou a outra pessoa como sinal de reverência, gratidão ou reconhecimento. Traz, de forma especial, a ideia de aproximação de Deus.
No hebraico, a palavra para sacrifício é זֶבַח (zevach), que significa literalmente “oferta” ou “sacrifício” e geralmente se refere a um ato de imolação de um animal como parte do culto a Deus.
No Antigo Testamento (AT):
Nos tempos do Antigo Testamento, os sacrifícios eram uma parte central da adoração a Deus. Entre os vários tipos de ofertas prescritos na Lei de Moisés, o sacrifício de ações de graças pode ser enquadrado nos três primeiros dos cinco tipos de ofertas acima mencionados: “holocausto”, “manjares” e “sacrifício pacífico”. Esses sacrifícios eram feitos de forma voluntária, pelo ofertante, para expressar: consagração e entrega completa a Deus; gratidão por bênçãos específicas, como livramentos, colheitas abundantes ou vitórias; e, a celebração da reconciliação, comunhão e paz com Deus.
No Novo Testamento (NT):
Com a vinda de Cristo, o sistema de sacrifícios de animais foi substituído por um relacionamento direto com Deus, fundamentado no sacrifício único e perfeito de Jesus. Ele é o nosso sacrifício, sendo o antítipo de todos os outros sacrifícios, que eram meramente simbólicos (Hb 10; Jo 1.29). Contudo, a ideia de sacrifícios de ações de graças continua como uma prática espiritual.
“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.1-2)
No Novo Testamento, aquelas mesmas ideias do Antigo Testamento devem ter continuidade, pois a consagração, dedicação e gratidão são vistas como formas de adoração e sacrifício que agrada a Deus: consagração e entrega completa a Deus; gratidão por bênçãos específicas, como livramentos, colheitas abundantes ou vitórias; e, a celebração da reconciliação, comunhão e paz com Deus. “Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome.” (Hb 13.15).
Portanto, no NT, o sacrifício de ações de graças não envolve rituais externos, mas sim a expressão de gratidão, santificação e dedicação a Deus através de palavras, obediência e atos de serviço a Deus e ao próximo.
Conclusão
A partir do que foi expresso neste Salmo 50 e dos outros textos bíblicos acima mencionados, a igreja atual pode se apropriar dos seguintes ensinamentos, dentre outros:
- Redimidos por Cristo e seu sacrifício vicário, devemos entregar totalmente nossa vida a ele, para o louvor da sua glória e para o servir.
- Reconhecer a salvação eterna, o cuidado e as bênçãos de Deus nos leva a adorá-lo com gratidão, seja em oração, louvor ou ações concretas.
- Mais do que ofertas materiais e rituais, Deus se agrada de um coração obediente, humilde, sincero e grato.
- Viver com gratidão fortalece a fé, renova a esperança e nos ajuda a enfrentar as dificuldades com confiança em Deus.
Assim, o verdadeiro culto a Deus inclui oferecer sacrifícios de ações de graças que é um chamado a lembrar continuamente das suas bênçãos, adorá-lo com sinceridade e demonstrar nossa gratidão em palavras, atitudes e serviço ao próximo.
Bibliografia
- Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
- A Bíblia Anotada (MC – Editora Mundo Cristão).
- Bíblia Online – SBB.
- Bíblia de Estudo da Fé Reformada (R. C. Sproul – Editor geral)(Ed. Fiel – 2020).
- Malgo, Wim – Jesus nos cinco sacrifícios do Antigo Testamento.
- R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia (Ed. Hagnos).
- Internet / ChatGPT / IA.
