A parábola do grão de mostarda

Foco: O crescimento do reino.
Textos base: Mateus 13.31-32; Marcos 4.30-32; Lucas 13.18-19

Introdução

Este estudo tem como foco o reino de Deus ou o reino dos céus, particularmente o propósito de Jesus de afirmar ou profetizar a realidade futura do seu crescimento, explicando e ilustrando tal fato através da parábola do grão de mostarda. Cabem aqui algumas perguntas: Por que Jesus empregava esse estilo de comunicação por parábolas? Aqueles ouvintes, sendo pessoas simples, conseguiriam entender as parábolas de Jesus, sem o recurso de uma explicação da sua parte?

As parábolas

A palavra “parábola” vem do grego “παραβολή” (parabolē), que é composta de “para” (ao lado de, junto) e “bole” (jogar, lançar). Literalmente, significa “lançar ao lado” ; “colocar lado a lado com”; “comparar”. O termo foi adotado no latim como “parabola“, mantendo o significado de comparação ou analogia.

31a  Outra parábola lhes propôs, dizendo: (Mt 13)
30  Disse mais: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? (Mc 4)
18  E dizia: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? (Lc 13)

O evangelho de Mateus faz a exposição dos “mistérios  do reino dos céus” (Mt 13.11) e reúne dez “parábolas do reino”, isto é, parábolas que são iniciadas com a frase: “O reino dos céus é (será) (também)(ainda) semelhante….”, algumas com registro paralelo em outros evangelhos. O evangelho de Marcos acrescenta mais uma parábola. Organizando essas onze “parábolas do reino” de acordo com o seu foco e mensagem, temos:

a) O Crescimento do reino:

1ª) A parábola do grão de mostarda (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32; Lc 13.18-19).
2ª) A parábola do fermento (Mt 13.33; Lc 13.20-21).
3ª) A semente crescendo por si mesma (Mc 4.26-29).

b) O valor do reino:

4ª) A parábola do tesouro escondido (Mt 13.44).
5ª) A parábola da pérola preciosa (Mt 13.45-46).

c) Um lugar de perdão:

6ª) A parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35).

d) Um lugar de serviço e recompensa:

7ª) A parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16).

e) A separação final:

8ª) A parábola do joio e do trigo (Mt 13.24-30; 36-43).
9ª) A parábola da rede lançada ao mar (Mt 13.47-50).
10ª) A parábola das bodas (Mt 22.1-14).
11ª) A parábola das dez virgens (Mt 25.1-13).

Em toda a literatura, não há livro mais rico em material alegórico e em parábolas do que a Bíblia. As parábolas têm sido utilizadas desde a antiguidade. Embora Jesus tenha contribuído com parábolas inigualáveis para os escritos sagrados, elevando esse método de ensino ao mais alto grau, ele estava ciente da longa tradição desse meio de apresentar a verdade. Na época e região em que Jesus viveu, as parábolas, assim como as fábulas, eram um método popular de instrução entre todos os povos orientais. Essas histórias cativantes proferidas por Jesus, com seu encanto e simplicidade, nos desafiam a compreender verdades espirituais profundas.

Para explicar o reino dos céus ou de Deus, que têm o mesmo sentido, Jesus recorre não a discursos sistematicamente elaborados, como faziam os filósofos e teólogos. Ele lança mão de parábolas. Estas parábolas alusivas ao reino abrangem um período que vai do primeiro advento até a segunda vinda de Cristo, em que está inserido o período da igreja. A parábola da rede, por exemplo, ilustra o seu final, a consumação do século (Mt 13.47-50). Algumas dessas parábolas foram proferidas às multidões e outras, em particular, aos discípulos. O fato é que através de cada uma delas Jesus revelava alguns aspectos do reino. O reino é algo dinâmico e as parábolas ilustram ações em processo de execução: é um crescimento, uma busca, um semear, um retorno, uma massa que leveda etc.

Enfim:

– A parábola é como um enigma que deixa as pessoas pensativas.

– As parábolas utilizam imagens e situações do dia a dia que eram familiares aos ouvintes de Jesus; partindo de elementos tangíveis para fixar conceitos espirituais complexos.

– As parábolas, sendo histórias curtas, são mais facilmente retidas na memória das pessoas.

– As parábolas cativam a atenção das pessoas, convidando-as a refletir e buscar o significado mais profundo.

– As parábolas frequentemente evocam uma resposta emocional ou moral, ajudando os ouvintes a internalizar as lições.

Antes de prosseguir é importante esclarecer que, segundo a hermenêutica bíblica, que é a ciência, a arte de interpretação das Sagradas Escrituras, as parábolas proferidas por Jesus são narrativas alegóricas destinadas a transmitir verdades e conceitos gerais importantes. Portanto, não tiveram o propósito de servir de fonte de doutrina da fé cristã para a igreja, nem tampouco os detalhes e pormenores das narrativas se prestam a isso.

“Então, se aproximaram os discípulos e lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas? Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido.” (Mt 13.10-11)

Se, por um lado, as parábolas são histórias cativantes e de fácil memorização, enganam-se os que acham que as verdades espirituais que elas transmitem são de fácil entendimento. Os discípulos frequentemente pediam a Jesus que lhes explicasse as parábolas que ele contava. Por exemplo: “E sem parábolas não lhes falava; tudo, porém, explicava em particular aos seus próprios discípulos.” (Mc 4.34; ver tb Mt 13.36; Mc 4.10; Lc 8.9). A linguagem figurada e metafórica, a analogia extraída de experiências do cotidiano, ocultava mistérios que Jesus passou a revelar, porém, de forma seletiva – aos seus: “…; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles.” (Mc 4.11b-12). Jesus menciona Isaías 6.9-10, quando o profeta foi enviado a declarar uma cegueira judicial sobre a geração pecaminosa do seu tempo. Assim, o Senhor advertiu a geração má do seu tempo que, devido à dureza dos seus corações, Deus lhes cegará os olhos.

Desenvolvimento

1. O GRÃO DE MOSTARDA (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32; comp. Lc 13.18-19)

O reino e o grão de mostarda:

1.1 Sua origem intencional

31b O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; (Mt 13)
31a  É como um grão de mostarda, que, quando semeado, (Mc 4)
19a  É semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta; (Lc 13)

O reino não surge por acaso, ele foi semeado no campo (mundo) por Cristo.

1.2 Seu crescimento espetacular

32a  o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, (Mt 13)
31b é a menor de todas as sementes sobre a terra; (Mc 4)
32a  mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças,  (Mc 4)
19b e cresceu e fez-se árvore; (Lc 13)

A mostarda comum da Palestina é a Brassica nigra, ou mostarda negra. Cresce espontaneamente elevando-se à altura de um homem a cavalo, segundo dizem os viajantes e, segundo outros, de 3 a 5 metros. Também a cultivam nas hortas, por causa das sementes empregadas como condimento ou tempero. Semente de mostarda era frase que os judeus empregavam proverbialmente, como Jesus o fez, (Mt 17.20; Lc 17.6 – fé) para representar coisa muito pequena.

Qual a menor de todas as sementes?

A menor semente conhecida é a semente da Orquídea. Especificamente, as sementes de algumas orquídeas tropicais são extremamente pequenas, quase como partículas de poeira. Elas podem medir apenas 0,2 milímetros de comprimento e são tão leves que podem ser facilmente carregadas pelo vento. Entretanto, a menor semente que se torna uma árvore é, de fato, o grão de mostarda. Suas pequenas sementes podem medir cerca de 1 a 2 milímetros de diâmetro. É uma transformação impressionante, especialmente considerando o tamanho inicial da semente.

Qual a maior das hortaliças?

A mostarda é considerada uma hortaliça. Especificamente, as plantas de mostarda pertencem ao gênero Brassica (como a Brassica nigra, a mostarda-preta) e são cultivadas tanto por suas folhas comestíveis quanto pelas sementes, que são usadas para fazer condimentos, como a mostarda amarela.

De qualquer forma, as expressões “menor das sementes” e “maior das hortaliças”, se não indicassem uma verdade absoluta, poderiam ser vistas como uma forma de hipérbole (figura de linguagem onde se faz um exagero proposital).

O que está evidente nesta parábola?

A grandeza da planta produzida por semente assim tão pequena, serve para ilustrar o aumento espetacular do reino de Deus, e a sua origem tão humilde, insignificante, segundo os padrões do mundo, sem contar com qualquer  autoridade religiosa ou política e com poucos discípulos verdadeiros.

O que não está evidente nesta parábola?

Há quem interprete equivocadamente que a Igreja crescerá até ser um vasto poder mundial, até abranger toda a humanidade. Essa interpretação contradiz tanto as lições das duas parábolas (mostarda e fermento) como outras Escrituras. A Palavra de Deus não prediz tal êxito para a verdadeira Igreja durante a presente época. Os últimos dias serão os piores, conforme Lucas 18.8; 2Timóteo 3.1.

Outros interpretam que a igreja experimentará um crescimento falso e espúrio, tornando-se um poderio mundial – como se vê no desenvolvimento da Igreja Romana. As “aves”, as quais na primeira parábola (Semeador) representam os emissários de Satanás, então se refugiarão nos ramos da ilegítima igreja. Mas a parábola não dá a entender que o crescimento do grão de mostarda, até se tornar uma árvore, é anormal nem que representa crescimento desagradável a Deus. Não há certeza de que as “aves” na parábola do semeador significam o mesmo que na parábola do grão de mostarda. De fato, houve um crescimento anormal e falso na história da igreja que professa ser de Cristo; mas não há prova de Cristo querer ensinar tal coisa nessa parábola.

1.3 Sua falsa proteção?

32b e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos. (Mt 13)
32b e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra. (Mc 4)
19b-c e cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos. (Lc 13)

Na hermenêutica bíblica as árvores são símbolo de reinos ou seus governantes. Este entendimento era muito comum entre os judeus, como se vê em diversos textos bíblicos (Dn 4.10-12, 20-22; Ez 31.3-9). Israel era a videira trazida do Egito (Sl 80.8-10; Is 5.2-7) e Jesus se apresentou como a videira verdadeira (Jo 15.1-2). Então, nesta mesma linha, Jesus procurou ilustrar o crescimento do seu reino ao espetacular crescimento que ocorre a partir do grão de mostarda até se tornar um arbusto. A comparação faz sentido. Reinos prósperos e seus governantes são como árvores que reúnem e sustentam pessoas e animais: “A sua folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e todos os seres viventes se mantinham dela.” (Dn 4.12; ver tb Ez 31.3-6).

Observa-se nestas comparações e na fala de Jesus a figura das aves do céu, aninhadas nos galhos dessas “árvores”. No caso de Daniel 4.12, seria uma proteção ou segurança falsas, porquanto logo a árvore seria cortada e destruída, símbolo do reinado de Nabucodonosor (Dn 4.19-27). Na parábola do semeador Jesus explicou que as aves representam as forças do mal. Quando alguém ouve a mensagem do reino, mas não a compreende, o maligno vem e arrebata o que foi semeado em seu coração, assim como as aves comem as sementes que caem pelo caminho. Essas aves simbolizam as distrações, tentações e influências negativas que podem nos afastar da verdade e da fé (Mt 13.4, 19). Nesta parábola do grão de mostarda não há motivos para ver nessas aves algo negativo. Provavelmente elas foram mencionadas para comunicar  a ideia de que aquela hortaliça cresce tanto que se torna uma árvore capaz de acomodar ninhos de aves, para comunicar a ideia de que este reino de Deus será grandioso.

Portanto, ainda que nesta parábola as aves não simbolizem uma falsa busca de proteção e segurança, sabemos que ao longo dos anos muitos falsos seguidores de Cristo têm procurado e ainda procurarão se abrigar ou aninhar neste reino, na igreja. Outra parábola, a do joio e do trigo, ilustra isso.

Conclusão

A igreja começou no Pentecostes com um grupo relativamente pequeno de discípulos de Jesus – cerca de 120 pessoas (At 1.13-15; At 2.1-4). Com o derramamento do Espírito Santo a igreja vai para as ruas e, após a pregação de Pentecostes há um acréscimo, num só dia, de quase três mil pessoas (At 2.41). Mesmo sob ameaças e perseguições a igreja continua crescendo: “Muitos, porém, dos que ouviram a palavra a aceitaram, subindo o número de homens a quase cinco mil.” (At 4.4). Antes que a grande perseguição dispersasse a igreja, para que o Evangelho chegasse a outras regiões (At 8), a igreja de Jerusalém já contava com uma multidão de convertidos (At 4.32). Em Apocalipse 7.9-10 é revelada a multidão de remidos, que ninguém podia enumerar, diante do trono.

Por fim, fica aqui a pergunta: Qual tem sido o meu e o seu papel nesse crescimento do reino?

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ENSINOS DO REINO (Ed. Didaquê).
4. Boyer, Orlando – MATEUS, O Evangelho do Rei.
5. Davis, John D. – Dicionário da Bíblia (JUERP).
6. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia  (Ed. Hagnos).
7. Internet / ChatGPT.

Os Evangelhos

Os Evangelhos

E-Book GRATUITO.
Uma visão bíblica sobre o assunto.
CLIQUE NO LINK PARA ABRIR O ARQUIVO:
Os Evangelhos.pdf
(Última atualização: 20/03/2021)

Achados e Perdidos (Lucas 15.1-32)

Achados&Perdidos

Há capítulos interessantes e diferenciados na Bíblia. Por exemplo:

Isaías 53: “O retrato falado de Jesus”

Mateus 24: “O pequeno apocalipse de Jesus”

Hebreus 11: “A galeria dos heróis da fé”

Nessa mesma linha, quero apresentar agora outro capítulo:

Lucas 15: “O departamento de achados & perdidos”

JB000967

Neste capítulo, Jesus nos apresenta quatro tipos de perdidos:

1. A OVELHA PERDIDA (Lc 15.3-7)
Um tipo de perdido que pede para ser encontrado.

Características:
Sabe que está perdido, não sabe como voltar, pede para ser encontrado.

2. A DRACMA PERDIDA (Lc 15.8-10)
Um tipo de perdido difícil de ser encontrado.

Características:
Não sabe que está perdido, não sabe como voltar, difícil de ser encontrado.

3. O FILHO PRÓDIGO (Lc 15.11-24)
Um tipo de perdido que precisa encontrar a si mesmo.

Características:
Sabe que está perdido, sabe como voltar, precisa tomar a decisão de voltar.

4. O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO (Lc 15.25-32)
Um tipo de perdido que precisa ser considerado.

Características:
Não sabe que está perdido, não sabe como voltar, precisa de ajuda para encontrar o caminho de volta.

JB000967

Quer saber os detalhes de cada um desses tipos de perdidos?

Veja o quadro comparativo no arquivo: Achados&Perdidos.pdf

A “PARÁBOLA DO PASTOR SAMARITANO”

“Então lhe disse: Vai, e procede tu de igual modo.” (Lc 10.37b)

Então lhes contou a seguinte parábola(*): “Certo grupo de ovelhas havia se separado do rebanho e pastava próximo a estrada que desce de Jerusalém para Jericó. Casualmente descia um homem negociante por aquele mesmo caminho e, vendo-as, aproximou-se, porque percebeu haver ali uma oportunidade de lucro. Passou ele a saquear aquele pequeno rebanho, comendo da sua gordura, vestindo-se de sua lã e fazendo lucro com os mercadores que passavam naquele caminho. Apascentava a si mesmo e não às ovelhas. A ovelha fraca não fortalecia, a doente não curava, a quebrada não ligava, a desgarrada e perdida não  buscava e não trazia de volta. Consumido pela fome da terra, pelas feras do campo e pelo descaso daquele homem, o pequeno rebanho se enfraquecia e minguava. Assim, dominava sobre elas com rigor e dureza até o dia em que foi morto e despedaçado por uma raposa faminta que o atacou. Tempos depois, semelhantemente, um religioso descia por aquele lugar e, vendo aquele pequeno rebanho abandonado, aproximou-se com reservas para avaliar o que podia ser feito. Com seu pudor e vaidade exacerbados não se aproximava muito por causa do cheiro das ovelhas. Muito menos ousava tocá-las para limpar-lhes as feridas e ligar as quebradas. Às fracas e doentes não fazia chegar à boca alimento e água. Preferia manter-se numa atitude de contemplação daquele quadro que estava ali, diante dos seus olhos, elaborando lições de vida que pudesse compartilhar, mais tarde, com os religiosos e a sociedade. Não pensava em ficar ali muito tempo e rogava aos céus que viesse outro para assumir o seu lugar. Foi assim que, distraído com suas elucubrações sobre a religião e a dor da criatura  foi tomado de assalto por um lobo faminto e morreu. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, vendo aquele pequeno rebanho desamparado, fraco e doente, compadeceu-se dele. Apressando-se, chegou perto e, apeando do seu cavalo, começou a cuidar de todas as ovelhas. Examinando-as, uma a uma, fazia conforme a situação o exigia. Assim, tomando do vinho e do óleo que trazia, limpava e aplicava sobre os ferimentos delas. As fracas e doentes, tomou em seus braços e carregou para a sombra das árvores,  fazendo-lhes chegar à boca alimento e água. As menos debilitadas levou para pastagens próximas. Assim fazendo, cotidianamente, o pequeno rebanho foi rapidamente revitalizado. Então levou-as para um lugar seguro, fazendo-as pastar em pastos verdejantes e chegar às águas claras e tranqüilas. O rebanho estava agora protegido e saudável e, começou a se multiplicar. Aconteceu que, passado algum tempo, cuidando aquele samaritano daquele rebanho como quem cuida para o proprietário das ovelhas, a quem tem que prestar contas, chegou até ali um poderoso proprietário de terras e de gado, vindo de Jerusalém, a procura das suas ovelhas extraviadas. Sabedor de que suas ovelhas estavam sendo cuidadas pelo samaritano foi ao seu encontro. Quando o samaritano o avistou, também dirigiu-se ao encontro do proprietário e, aproximando-se, lhe relatou a situação em que encontrou e o que fez pelo rebanho desgarrado e que estava pronto a entregar-lhe as ovelhas, sem exigir qualquer recompensa em troca. O proprietário admirou-se sobremaneira ao ouvir o relato do samaritano e sua liberalidade. Então, com grande alegria, o convidou para ir com ele, a fim de pastorear, não apenas aquele pequeno rebanho, mas todo o rebanho de onde aquelas ovelhas haviam se desgarrado. E, assim, caminharam juntos na direção de Jerusalém.“

Estando, com eles, à parte lhe perguntaram o significado da parábola. Então, passou a interpretá-la, dizendo:  Nunca percam de vista que parábolas são narrações alegóricas com o propósito de destacar aspectos importantes, verdades que edificam ou que alertam os ouvintes ou leitores e que devem ser fixados na memória destes. Na sua interpretação, não tentem procurar ou produzir doutrinas dos seus detalhes. Muitos desses detalhes servem apenas para compor e dar sentido a estória ou história apresentada. O foco nesta parábola é o pequeno rebanho e os seus três “pastores”.  O pequeno rebanho pode ser uma igreja local. Os três homens, seus líderes ou pastores. Assim sendo, temos aqui três tipos de liderança, representados por cada um dos homens da parábola:

1º) PASTORES MATERIALISTAS: São eles orientados pelo conceito: O QUE É TEU É MEU, SE EU PUDER TIRAR DE VOCÊ! O foco destes está no conforto e nos bens materiais. São negociantes da fé: usam a fé para auferirem lucros materiais. Preferem estar no foco dos holofotes a estarem à sombra da Cruz. Preferem dirigir igrejas-empresas à igrejas-comunidades. São pastores que apascentam a si próprios e preenchem bem as características dos falsos pastores descritas em Ezequiel 34.1-10 e, retratadas,  nas atitudes do primeiro homem da parábola. Em nome de Deus e usando a Bíblia chegam quase a ameaçar as ovelhas, coagindo-as a dar ofertas e dízimos, sem prestarem contas do que é feito com esses recursos. Outros preferem o discurso da prosperidade utópica, enquanto vão enchendo suas contas bancárias com moeda bem REAL e outras moedas também. Abram bem seus olhos, ovelhas!!!

2º) PASTORES RELIGIOSOS: São eles orientados pelo conceito: O QUE É MEU É MEU E O QUE É TEU É TEU! Enquanto o tipo anterior vive para o material, este tipo se fixa na religiosidade e na espiritualidade, no conhecimento e na teoria, na teologia contemplativa.  Alienado do mundo que o cerca, se esconde das ovelhas, imerso no seu próprio mundo intelectual e celibatário. Estes também não têm o DNA de pastor. Não gostam do cheiro do povo de Deus. Não gostam de chegar junto.

3º) PASTORES SAMARITANOS: São eles orientados pelo conceito: O QUE É MEU É TEU, SE VOCÊ PRECISAR! Opostos aos dois tipos anteriores, estes têm o foco na ovelha, em gente. Se doam e se deixam gastar pelas ovelhas do Senhor. Seguindo o exemplo do Supremo Pastor, Jesus, fazem como o “pastor samaritano da parábola”. Estão nos púlpitos, pregando o Evangelho, orientando e ensinando a palavra; mas, também, nos gabinetes ao lado dos que necessitam de aconselhamento. Estão junto às ovelhas nas suas celebrações e ações de graças; mas, também, nos lares, nas enfermarias, nos  CTIs, orando com os enfermos e levando-lhes uma palavra de conforto e esperança.  Ao invés de saquear, ou se alienar, disponibilizam a si próprios e, a tudo que têm, no ministério que receberam do Senhor das ovelhas. Fazem a obra como quem tem que prestar contas ao Senhor das ovelhas. Graças a Deus pelos “pastores samaritanos” que serviram, servem e ainda servirão ao Senhor aqui na nossa igreja e, nas demais igrejas locais. Um dia ouvirão do Pai Celeste,  “foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor.” O galardão de um verdadeiro pastor já está assegurado para eles: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4). Queridos pastores, a vocês que têm dado a vida pelo rebanho de Deus, nossa sincera gratidão e apreço. Que o Senhor fortaleça, ilumine e abençoe a vocês! A paz seja com todos.

(*) Criei esta parábola apenas para ilustrar algumas verdades.

Presb. Paulo Raposo Correia
Editorial do Boletim de 12/07/2009
Dia do Pastor – Catedral Presbiteriana do RJ