A ressurreição de Dorcas (At 9.36-43)

Introdução

Pode-se comparar esse milagre com aquele outro realizado pelo Senhor Jesus, em que foi ressuscitada a filha de Jairo, segundo o registro de Lucas 8.41-56. Lucas continua a mostrar como até mesmo os mais poderosos milagres de Jesus foram reeditados no ministério de seus seguidores. Essa reedição, entretanto, era efetuada em seu nome e de conformidade com as suas promessas (ver Jo 14.12), através do poder do seu Santo Espírito. Tais milagres, por igual modo, demonstravam a autoridade da Igreja Cristã, delegada pelo Senhor Jesus, e davam a entender o derretimento do judaísmo. A cidade de Jope, que aqui aparece, modernamente se chama Jafa, um bairro da cidade de Tel-Aviv.

1. Dorcas, a discípula amada (vv. 36-37; 39b)

36   Havia em Jope uma discípula por nome Tabita, nome este que, traduzido, quer dizer Dorcas; era ela notável pelas boas obras e esmolas que fazia.
37  Ora, aconteceu, naqueles dias, que ela adoeceu e veio a morrer; e, depois de a lavarem, puseram-na no ce
náculo.

“Tabita” é a forma aramaica do vocábulo grego “Dorcas” (nome internacional). Ambas as palavras significam gazela ou antílope. Esta senhora, mui provavelmente, era conhecida por ambos os nomes. Isso parece indicar-nos como a cidade de Jope havia sofrido diversas influências da cultura helênica, embora ficasse a curta distância de Jerusalém (cerca de 60 Km, em linha reta). Era uma discípula ou seguidora de Jesus, uma cristã, que se sobressaía pelas boas obras e doação de esmolas que não apenas era um serviço piedoso, mas também necessário como serviço social. Não sabemos se ela era solteira, casada ou viúva. Se fosse casada é de estranhar que seu marido não tenha sido mencionado em toda a narrativa. Parece que era uma pessoa que tinha recursos financeiros pois se tornou notável pelas suas boas obras e esmolas que fazia. Usava o ofício de costureira para servir a comunidade carente, sendo as viúvas as mais beneficiadas pelas suas caridades (v. 39b).

Para tristeza da comunidade, ela adoeceu e veio a morrer. Vale ressaltar que até mesmo servos de Deus fiéis e atuantes também adoecem, nem sempre são curados apesar da oração e clamor da família da fé, e morrem. Tal como ocorria entre muitas nações, era costumeiro, entre os judeus, lavar os cadáveres. Era colocado em um cenáculo antes do sepultamento.

2. O último recurso (vv. 38-39)

38  Como Lida era perto de Jope, ouvindo os discípulos que Pedro estava ali, enviaram-lhe dois homens que lhe pedissem: Não demores em vir ter conosco.
39  Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas.

Toda essa atividade, em prol de Dorcas, a ponto de continuarem esperançosos, mesmo depois de sua morte, e a despeito do poder inexorável da morte, mostra-nos o quão profundamente aquela mulher crente deve ter sido amada e respeitada pelos irmãos de Jope. Pedro representava, para elas, a esperança de que Deus nos confere, mesmo em face da morte; e não foram tardios em se apegarem a essa esperança. Pedro foi chamado lá em Lida, a cerca de 16Km de Jope, atendeu àquele apelo e foi com eles. Ele já havia visto ao Senhor Jesus, vivo após ter estado morto, e a sua fé era suficientemente firme. Fora também testemunha da ressurreição de várias pessoas, pelo Senhor Jesus. A cena que envolveu a Pedro no cenáculo era de partir o coração.

A morte não deveria e não deve ser encarada como uma tragédia, um mal irreparável. Entretanto, a dor daquela súbita separação era mais do que podiam suportar. A pergunta que não quer calar é: – Se morrermos agora, exatamente neste momento da nossa vida, a comunidade sentirá a nossa falta? Aquilo que fazíamos deixará um vazio na comunidade?

Há, pelo menos, nove casos de ressurreição registrados na bíblia, além da própria ressurreição de Jesus, sendo 3 casos no Antigo Testamento e 6 no Novo Testamento, conforme mostrado abaixo. Isto mostra o quão raro é esse milagre. Temos aqui o registro do primeiro caso através dos apóstolos.

  1. O filho da viúva de Sarepta  (1Rs 17.17-24 – Elias)
  2. O filho de uma mulher sunamita  (2Rs 4.32-37 – Eliseu)
  3. Homem que caiu sobre os ossos de Eliseu  (2Rs 13.20-21)
  4. O filho da viúva de Naim  (Lc 7.11-15 – Jesus)
  5. A filha de Jairo  (Lc 8.41-42, 49-55 – Jesus)
  6. Lázaro, irmão de Marta e Maria (Jo 11.1-44 – Jesus)
  7. Inúmeros cadáveres na morte de Jesus  (Mt 27.50-53)
  8. Dorcas ou Tabita (At 9.36-42 – Pedro)
  9. O jovem Êutico  (At 20.9-10 – Paulo)

3. O milagre da fé (vv. 40-41)

40  Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pondo-se de joelhos, orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se.
41  Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva.

Pode-se observar o paralelismo entre esta cena, em que Pedro tirou todos para fora da sala, e o que o Senhor Jesus fez, no caso da ressurreição da filha de Jairo (Lc 8.51). O mesmo modus operandi do Mestre é reeditado aqui pelo aluno. Pedro era homem de fé e poder, e sabia o que o Senhor Jesus podia fazer por intermédio dele, mas não queria quaisquer mentes duvidosas, céticas e meio-cegas ao seu redor, nem mesmo aquelas mentes que estavam vencidas de tristeza. Tinha mui importante tarefa a cumprir, e precisava que os canais de comunicação com as forças celestes estivessem totalmente desimpedidos.

Há três particularidades que devemos destacar quanto ao que Pedro fez:

1º) Pedro agiu privadamente – Não desejava para si qualquer glória humana, mas, acima de tudo, não queria que houvesse qualquer interferência no poder que estava prestes a transferir para aquele corpo morto.

2º) Pedro agiu mediante o poder da oração – Ele orou para aquele que é Deus dos vivos, e não dos mortos. Na realidade, se Deus seria o realizador daquele prodígio, este não seria de forma alguma difícil para o Senhor.

3º) Pedro se utilizou da palavra revestida de poder, aquela palavra que o Senhor Jesus lhe ensinara e inspirara a usar, dando-lhe, no princípio, exemplo de sua atuação, mediante grande multidão de incidentes.

4. O testemunho vivo (v. 42)

42  Isto se tornou conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor.

Podemos sugerir e enumerar alguns motivos, pelos quais aquele milagre foi operado:

1º) Deus simplesmente teve compaixão daquelas viúvas que choravam a morte de Dorcas e a restituiu à presença delas. Deus, pois, pode permitir um milagre por essa mera razão, porquanto o Senhor é supremamente misericordioso.

2º) Dorcas ainda tinha alguma coisa a realizar; porquanto, se ela houvesse terminado a sua missão, Deus não a teria enviado de volta, nem mesmo para agradar àquelas viúvas. Portanto, devemos viver cada dia do tempo que nos está determinado; e esperemos fazê-lo tão piedosamente quanto Dorcas.

3º) Porém, acima de tudo, havia a questão da glória de Cristo, que redundaria de tudo isso; e, através da exaltação de sua glória, muitos haveriam de ouvir o que acontecera e crer em Jesus. Foi o que aconteceu ali. Dificilmente se poderia impedir que tal história se espalhasse. Assim é que, não somente os habitantes de Jope, mas todas as vilas e aldeias em redor, também souberam da extraordinária ocorrência.

5. Pedro, hospedado pelo curtidor (v. 43)

43  Pedro ficou em Jope muitos dias, em casa de um curtidor chamado Simão.

A ocupação nos curtumes, por causa do contato com corpos mortos de animais, era considerada imunda, sendo que aqueles que praticavam esse meio de vida tinham de viver separados do resto da comunidade. É significativo que Pedro não apenas se associou, mas também se hospedou com um curtidor, em sua própria casa, o que mostra que não se aferrava a todos os estritos preconceitos que havia entre os judeus. No entanto, estando ali, deixou escapar alguns de seus escrúpulos judaicos ao recusar-se a comer certas coisas que eram proibidas pela lei cerimonial judaica.

Foi no pátio do curtidor que ele recebeu a visão que o faria repensar seu relacionamento com não judeus, ao mesmo tempo que aprendia que os gentios podem e devem ser admitidos como membros da Igreja Cristã com plenos privilégios, contanto, naturalmente, que se arrependam e confiem em Cristo. De modo geral, poderíamos afirmar que a permanência de Pedro na casa de Simão, o curtidor, foi muito benéfica, embora ainda tivesse de passar bastante tempo até que esse apóstolo aceitasse abertamente essas novas revelações (Gl 2.11-14), pelo menos na prática, quando não na teoria. “A hospedagem com o curtidor foi um passo no caminho de comer com os gentios” (Furneaux)

A cura de Enéias (At 9.32-35)

Introdução

A narrativa de Lucas, neste ponto, retorna à história da expansão do Evangelho, através da Judeia, pelo ministério de Pedro. Pedro foi mencionado pela última vez em Atos 8.25, quando, na companhia de João, voltou de Samaria a Jerusalém. Quando se desencadeou a “grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” todos foram dispersos, exceto os apóstolos que permaneceram em Jerusalém. Agora, porém, somos informados que Pedro envolveu-se em um ministério itinerante através da Judéia, território que com tanto êxito fora evangelizado pelo diácono Filipe (At 8.40).

A cura de Enéias (At 9.32-35)

32   Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitavam em Lida.

Não temos dúvida de que o ministério itinerante de Pedro incluía a confirmação e fortalecimento dos novos cristãos, uns oriundos de Jerusalém, que haviam sido dispersos por causa da perseguição, outros que receberam o Evangelho ali mesmo nas suas cidades. Lida, para onde Pedro se dirigiu, era uma cidade na Judeia, situada na estrada entre Jerusalém e Jope, esta última no litoral do Mar Mediterrâneo.

Pedro desceu intencionalmente até esta cidade com o fim de se encontrar com os “santos” que ali habitavam. “Santos” é um termo comum nos escritos de Paulo, em referência aos crentes. Paulo dirigiu certo número de epístolas aos “santos” em Cristo, fazendo alusão aos crentes coletivamente (Rm 1.7; 15.25; 1Co 1.2; 6.1, 2; 2Co 1.1; Ef 1.1 e Fl 1.1). No Livro de Atos, esse vocábulo é usado exclusivamente neste nono capítulo, nos versículos 13, 32 e 41, como também na passagem paralela de Atos 26.10. Os crentes ligados ao Santo e Justo (At 3.14), separados para Deus e batizados em um só Espírito, são santos (1Pe 2.9).  

33  Encontrou ali certo homem, chamado Enéias, que havia oito anos jazia de cama, pois era paralítico.

Nada sabemos com respeito a esse homem, Enéias, exceto aquilo que é dito aqui: um paralítico, há oito anos atrelado a uma cama.

34  Disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito. Ele, imediatamente, se levantou.

Pode-se comparar essa narrativa a um episódio similar, da cura de um paralítico, pelas mãos do Senhor Jesus, conforme Lucas 5.18-26. Apesar da instrumentalidade de Pedro, o poder do Senhor Jesus transparece por detrás dessa cura “Jesus Cristo te cura”. Assim se manifestava a realidade da vida ressurreta de Jesus, bem como a continuação de seu poder entre os homens, por intermédio do seu Espírito.

Durante oito anos, Enéias, o paralítico, tivera de depender da ajuda prestada por outras pessoas, a fim de arrumar o seu leito e fazer outras coisas corriqueiras, próprias da vida diária, que até mesmo uma criança poderia fazer sozinha. Mas agora, uma vez libertado de sua enfermidade, podia cuidar de si mesmo. Quão belo é contemplar alguém, que até bem pouco estava aprisionado por alguma algema física, que tanto o maltratava, inteiramente liberto e curado.

Os milagres efetuados pelo Senhor Jesus eram numerosos e sempre humanitários. Embora o Senhor também houvesse feito curas para dar certas lições objetivas, sem dúvida alguma também curou simplesmente porque desejava ver as pessoas livres de suas enfermidades, simplesmente porque sentia compaixão por elas. Ora, sendo Cristo o Salvador do mundo, desejava curar-nos de toda a enfermidade, sobretudo da enfermidade da alma, que se traduz numa palavra – o pecado – a fim de que nossas almas possam ser libertadas de suas corrupções e enfermidades, sendo totalmente restauradas a Deus. Em todos os sentidos, pois, Cristo foi o Grande Médico, e o mundo inteiro estava e continua necessitando de seus serviços.

35  Viram-no todos os habitantes de Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.

Nada pode substituir a fé, mesmo porque as verdades bíblicas devem ser aceitas pela fé. É o que Pedro diz em 1Pedro 1.8 “a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória,”. Jesus confirma o valor da fé quando diz a Tomé: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20.29). Entretanto, as evidências do poder de Deus não são para substituir a fé, pelo contrário, servem como sinal para os incrédulos, e de conforto para os salvos. No Livro de Atos, o binômio “sinais x pregação” serviam de testemunho convincente para a conversão de muitas almas. Foi o que aconteceu ali em Lida e se estendeu a Sarona (ou Sarom). Sarona era uma planície que se estendia por cerca de 80 km ao longo da costa marítima, de Jope a Cesaréia e 14 a 16 km de largura. O próprio nome, Sarona, significa “planície”, em aramaico e hebraico. Trata-se de uma das maiores e mais férteis planícies da Palestina (Is 33.9 e 65.10)

A Cronologia de Saulo-Paulo

  1. A vida de Paulo antes da conversão (0 a 30 anos):
  • 5 DC – Provável nascimento e infância em Tarso (judeu da dispersão)(At 22.3)

  • 20/26 DC – Estudos em Jerusalém – Como judeu zeloso, da seita dos fariseus (At 22.3; Gl 1.13,14; Fp 3.5-6; At 26.4, 5)

  • 26/32 DC – Estudos em Tarso

  • 32 DC – Perseguidor dos cristãos (Gl 1.13; 1Co 15.9; At 8.3; 9.1; 22.4-5; Fp 3.6; 1Tm 1.13)

  • 35(?) DC – A conversão de Paulo (Gl 1.15; 1Co 9.1; talvez 2Co 12.1-4; At 9.1- 19; 22.4-16; 26.9-18)

2. A carreira de Paulo como apóstolo (30 a 62 anos):

  • 37/39 DC – Três anos na Arábia e em Damasco (e em outras áreas) (Gl 1.17)

    – Quinze dias de visita a Jerusalém – Paulo viu a Pedro e a Tiago, irmão de Jesus (Gl 1.18-19)

  • 39/43 DC – Prega em Tarso e em outros lugares da Síria e da Cilícia (At 9 e Gl 1.21)

  • 43/44 DC – Prega com Barnabé em Antioquia (At 11.19-26)

  • 44/45 DC – Viagem a Jerusalém durante a fome (At 11.27-30)

  • 45/47 DC – Primeira viagem missionária (At 13 e 14)

  • 49 DC – Faz-se presente ao Concílio de Jerusalém (Gl 2.1; At 15)

  • 49/51 DC – Segunda viagem missionária (At 15 a 18)

  • 51/56 DC – Terceira viagem missionária (At 18 a 21)

  • 56 DC – Aprisionamento em Jerusalém (At 21)

3. Termina a coleta para os pobres de Jerusalém (At 24.17-18; Rm 15.25-27)

4. Planos de visitar a Espanha e Roma (Rm 15.24, 28)

  • 56/58 DC – Aprisionamento em Cesaréia (At 23 a 26)

  • 58/59 DC – Viagem a Roma (At 27 e 28)

  • 59/61 DC – Aprisionamento em Roma – conforme tradição cristã (At 28)

  • 61/64 DC – Viagens à Espanha, Creta, Macedônia e Grécia (não mencionadas em Atos, embora indicadas em outros documentos como o cânon muratoriano e as epístolas de Clemente)

  • 64/67 DC – Segundo aprisionamento e execução em Roma, durante as perseguições movidas por Nero (só tradição cristã, sem qualquer alusão bíblica)  (Obs.: Nero incendiou Roma em 64 DC)

A conversão de Saulo-Paulo (Atos 9.1-19)

Introdução

Paulo, apóstolo enviado aos gentios, é tão proeminente e importante, para que se compreenda a totalidade do movimento cristão, que merece comentários exclusivamente sobre ele. Por conseguinte, torna-se relevante responder aqui a três perguntas: Quem era Saulo-Paulo? O que ele fazia contra a igreja? O que aconteceu na sua conversão?

1. BIOGRAFIA DE SAULO-PAULO (PARCIAL)

Quem era Saulo-Paulo?

1.1 Fontes de Informação

Sabe-se muito mais acerca do apóstolo Paulo do que sobre qualquer outro personagem apostólico. Nosso conhecimento sobre esse apóstolo e o seu ministério é praticamente tudo quanto se sabe acerca do desenvolvimento do Cristianismo, durante aqueles dias. Fora de suas próprias epístolas e do livro de Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento temos apenas uma referência adicional a ele, a saber, em 2Pedro 3.15, onde se lê: “…O nosso amado irmão Paulo…”. A fonte primária de informação, portanto, é o livro de Atos, a fonte secundária de informação são as suas epístolas e as alusões incidentais que ele faz a si mesmo e às suas viagens.

1.2 Sua Origem

Nossos conhecimentos sobre os primeiros anos de sua vida são escassos. Desde o seu nascimento (cerca de 5DC) até o seu aparecimento, em Jerusalém (cerca de 32DC), como o perseguidor dos Cristãos, possuímos informações meramente esparsas, parte das quais não passa de conjectura. Sabemos, contudo, que ele era hebreu (2Co 11.22; Rm 9.1-5; Fp 3.5), nasceu em Tarso, “..cidade não insignificante da Cilícia..” (At 21.39; 22.3); foi circuncidado ao oitavo dia (Fp 3.5), tendo sido criado em Jerusalém (At 22.3).

Não se sabe qual o ano do nascimento de Paulo; porém, quando do apedrejamento de Estevão (que ocorreu em cerca de 32 DC), lemos que Saulo era um jovem (At 7.58). É razoável supor, por conseguinte, que ele tenha nascido na primeira década do século I DC, sendo, assim, um contemporâneo mais jovem de Jesus, embora não haja qualquer evidência de que ele tenha visto alguma vez o Senhor. E não é provável que o tenha visto, pois Paulo jamais se refere ao fato.

Ao nascer, o menino recebeu o nome de Saulo. “Saulo é a versão grega do nome Chaul, em português Saul, de origem hebraica”. Significa “aquele que foi muito desejado”, “o que foi pedido insistentemente” ou “aquele que foi conseguido através de orações”. Paulo significa “pequeno”; mas também é possível que ele tenha recebido o nome de Paulo, simplesmente por ter som semelhante ao nome de “Saulo”. A partir de Atos 13.9, no início da sua primeira viagem missionária, ele passa a ser mencionado como Paulo: “Todavia, Saulo, também chamado Paulo,…”. Também é possível que o apóstolo tivesse um nome romano; mas, nesse caso, não deve tê-lo usado com frequência, portanto, não temos qualquer informação sobre qual seria esse nome. A alteração posterior de seu nome, de Saulo para Paulo, mui provavelmente foi apenas a adoção de seu apelido como nome próprio (At 13.9). Saulo é a forma semítica (hebraica); Paulo, a grega. Das muitas razões sugeridas para a introdução do nome grego, a mais aceitável é que Paulo, agora assumindo a posição de líder da missão gentílica, a forma grega de seu nome era mais apropriada e Lucas passa a designá-lo assim.

Paulo nasceu como cidadão romano (At 16.37; 23.27), provavelmente porque o seu pai também era cidadão romano (At 22.25-28). “Nascer livre” significava nascer romano de um pai que tinha a cidadania romana. Como seu pai obtivera a cidadania romana – se ela foi adquirida a dinheiro, por causa de algum serviço prestado ao estado, ou por outro meio qualquer – não sabemos dizê-lo. Porém, a cidadania romana conferia privilégios e uma proteção que serviram muito bem a Paulo durante seus empreendimentos missionários. Não fosse essa cidadania, e, naturalmente a proteção divina, Paulo teria sido morto ainda no começo de seu ministério. Isto ilustra como Deus usa as condições de cada pessoa. Nenhum dos outros apóstolos era capacitado, por formação e características próprias, a fazer o trabalho que Paulo fez (At 16.35-39; 22.25-29; 23.27).

Os progenitores de Paulo eram judeus muito religiosos,  pertencentes à seita dos fariseus, ou, pelo menos, fortemente influenciados por esse grupo (At 23.6) criaram o seu filho segundo o judaísmo mais estrito (At 26.4-5; Fp 3.5; Gl 1.14) e pertenciam à tribo de Benjamim (Fp 3.5-6).

Pouco se sabe sobre a família de Paulo. Por seus conselhos em 1Coríntios  7.7-8 pode se deduzir que ele era solteiro ou viúvo. De conformidade com o livro de Atos, Paulo tinha uma irmã e um sobrinho que viviam em Jerusalém (At 23.16). Em Romanos são ainda mencionados seus parentes Andrônico e Júnias (Rm 16.7) e Herodião (Rm 16.11).

1.3 Formação

O próprio Paulo aprendera uma profissão em Tarso, a de fabricante de tendas (At 18.3), posto que era costume entre os judeus ensinar alguma profissão.

O treinamento de Saulo, quanto à sabedoria secular ou profana, mui provavelmente incluiu a educação filosófica ordinária, a retórica e a matemática, sem falarmos em seus estudos sobre religião judaica (ver At 22.3; 26.4 e diversas referências, em suas epístolas, a questões como “coroas”, jogos atléticos, lutas etc., o que também servia de principais ilustrações entre os filósofos estoicos para ilustrar os princípios éticos). O fato é que o grego utilizado por Paulo, em suas epístolas, é uma excelente variedade do grego literário “koiné”, o que nos mostra quão bem alicerçada fora a sua educação na linguagem, além de ficar demonstrado o fato de que ele falava o grego como seu idioma nativo (At 21.37), provavelmente do mesmo modo que o hebraico (At 22.2; 21.40). Não se há de duvidar que esse apóstolo também conhecia o latim, e, antes do fim de suas viagens missionárias, já teria aprendido mais um ou dois idiomas (1Co 14.18). Em Jerusalém, Paulo estudou sob a orientação do grande Rabban Gamaliel, o velho, que era altamente respeitado como mestre (At 22.3).

O testemunho pessoal de Paulo, mostra que ele era indivíduo intensamente religioso, tendo-se destacado nessas questões acima de outros jovens de sua idade (At 22.3; Fp 3.6; Gl 1.14). Frequentava regularmente as sinagogas judaicas, antes de sua conversão, e, quando já atingira idade suficiente, tornou-se seguidor fiel do farisaísmo.

Sendo indivíduo religioso tão intenso, tinha alta consideração pelas Escrituras, e a sua conversão não alterou a sua atitude, embora talvez ele tenha compreendido que algumas passagens eram alegóricas e outras literais, conforme se vê em 1 Coríntios 10.1-11 e Gálatas 4.22-31. A erudição maior de Paulo fora adquirida em Jerusalém, naquela escola de fariseus, o que também contribui com algo para explicar o caráter geral de sua vida e de suas crenças, alicerçadas firmemente no judaísmo tradicional.

2. A CONVERSÃO DE SAULO-PAULO (At 9.1-19)

A história da conversão de Paulo é narrada em três lugares do livro de Atos (At 9.3-19; 22.6-21 e 26.12-18), havendo variações quanto aos pormenores, ainda que tudo concorde essencialmente entre si. No primeiro texto, Lucas descreve os acontecimentos; no segundo, Paulo testemunha perante os judeus; no terceiro Paulo apresenta sua defesa perante o rei Agripa e o governador Festo. Em suas epístolas Paulo não apresenta qualquer descrição desse acontecimento. Entretanto indica que algo de sobrenatural lhe aconteceu, além disso, ele reivindica revelação direta de sua mensagem, da parte de Cristo (1Co 15.3-8; Gl 1.15-16).

Ele afirma que o seu contato com Cristo não diferiu da experiência dos outros apóstolos, embora não o tenha visto em carne. Paulo assevera ter tido contato real, embora através de visão ou de experiência mística. Essa ocorrência tem todos os sinais de uma experiência mística, tais como o brilhante resplendor, o sentimento de temor, a purificação psicológica e a renovação espiritual, e até mesmo (conforme ocorre algumas vezes, nesses casos) alguma forma de incapacidade física temporal logo em seguida, o que, na experiência de Paulo, foi a cegueira. Portanto, parece lógico entendermos que Paulo teve uma experiência mística real, que o seu contato com algum poder mais alto foi genuíno, poder esse que o próprio Paulo define como Jesus; e grande parte da teologia e da experiência cristãs dependem dessa declaração. Naturalmente que essa não foi a única experiência mística de Paulo, pois ele também menciona algumas outras (tal como a visita ao terceiro céu, em 2Coríntios 12.1-6), e a sua pregação do evangelho e doutrina repousam essencialmente sobre essas diversas revelações recebidas diretamente do alto (Gl 1.11-17).

A condição original para alguém entrar no apostolado, entre outras, era que o candidato tivesse visto ao Senhor (At 1.21). Ora, essa exigência teve cumprimento na experiência de Saulo. Quando já apóstolo, refere-se Paulo por quatro vezes, em suas epístolas, à sua experiência de conversão. Essas passagens mostram que ele estava convicto da realidade objetiva da mesma, considerando-se como equivalente a “ver” a Cristo, o que o qualificava ao ofício apostólico (Gl 1.15-16; 1Co 9.1; 15.8 e 2Co 4.6). Paulo não estabeleceu distinção alguma entre essa forma de ver e aquelas que os demais apóstolos experimentaram, antes da ascensão, porquanto todas essas aparições foram do “Senhor ressurreto”. Paulo se autodenominava “apóstolo” ou “ministro” dos gentios (Rm 11.13; 15.16; 1Co 1.1; 4.10; 9.1-2; 15.9; 2Co 1.1; Gl 1.1 etc.)

As qualificações ou credenciais (ver 2Co 12.12) de um apóstolo incluem:

(i) Ter sido escolhido pessoalmente pelo Senhor ou pelo Espírito Santo (Mt 10.1-2; At 1.26; Gl 1.1);

(ii) Ter visto o Senhor e ser testemunha de sua ressurreição (At 1.21-22; 1Co 9.1);

(iii) Ser investido com dons miraculosos, os “sinais”, “prodígios” e “maravilhas” (At 5.15-16; At 19.11-12; Hb 2.3- 4).

A seguir, vejamos os detalhes da conversão de Saulo-Paulo, colocando lado a lado e comparando as três narrativas bíblicas sobre este assunto.

2.1 Saulo perseguidor (At 9.1-2)

O que ele fazia contra a igreja?

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.1 Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote
v.2  e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.
v.4  Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres,
v.5  de que são testemunhas o sumo sacerdote e todos os anciãos. Destes, recebi cartas para os irmãos; e ia para Damasco, no propósito de trazer manietados para Jerusalém os que também lá estivessem, para serem punidos.
v.12 Com estes intuitos, parti para Damasco, levando autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado.

Antes de sua conversão, sendo ainda jovem, Paulo perseguiu a igreja e munia-se da autorização de cartas oficiais para fazer isso. Portanto, é muito provável que pertencesse a uma família proeminente, ou, pelo menos, que se tenha distinguido extraordinariamente como líder e zeloso religioso, sendo por isso mesmo encarregado do que se pensava ser uma importante missão. Vejamos o que ele diz que fazia contra a igreja antes dessa sua missão em Damasco:

Atos 8.1, 3
1 E Saulo consentia na sua morte (Estevão). Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria.
3  Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere.

Atos 26.9-11
9  Na verdade, a mim me parecia que muitas coisas devia eu praticar contra o nome de Jesus, o Nazareno;
10  e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam.
11  Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia.

Gálatas 1.13
13  Porque ouvistes qual foi o meu proceder outrora no judaísmo, como sobremaneira perseguia eu a igreja de Deus e a devastava.

Saulo se tornara um intenso perseguidor de cristãos; entrava pelas casas, arrastando homens e mulheres para o cárcere, obrigava-os a blasfemar, assolava e devastava a igreja, tendo se tornado participante do assassinato dos irmãos, não poupando nem mesmo a mulheres.

Qual teria sido a razão de toda aquela fúria? (At 22.4; 26.9-11). A grande mensagem de Estevão, dada pelo Espírito Santo, onde ele fez toda a lei e os profetas culminarem em Cristo (At 7), o qual eles assassinaram, tornou-se um verdadeiro estopim (At 7.54).

2.2 Saulo atingido por Deus (At 9.3-7)

O que aconteceu na sua conversão?

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.3a Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco,v.6a Ora, aconteceu que, indo de caminho e já perto de Damasco,v.13b indo eu caminho fora,
 v.6b quase ao meio-dia,v.13a  Ao meio-dia, ó rei,
v.3b subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor,v.6c repentinamente, grande luz do céu brilhou ao redor de mim.v.13c vi uma luz no céu, mais resplandecente que o sol, que brilhou ao redor de mim e dos que iam comigo.
v.4a e, caindo por terrav.7a Então, caí por terra,v.14a E, caindo todos nós por terra,
v.4b ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?v.7b ouvindo uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?v.14b ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões.
v.5a Ele perguntou: Quem és tu, Senhor?v.8a  Perguntei: quem és tu, Senhor?v.15a  Então, eu perguntei: Quem és tu, Senhor?
v.5b E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;v.8b Ao que me respondeu: Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu persegues.v.15b Ao que o Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
 v.10a  Então, perguntei: que farei, Senhor? 
v.6 mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.v.10b E o Senhor me disse: Levanta-te, entra em Damasco, pois ali te dirão acerca de tudo o que te é ordenado fazer.v.16  Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda,
v.17  livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, v.18  para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.
v.7  Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém.v.9 Os que estavam comigo viram a luz, sem, contudo, perceberem o sentido da voz de quem falava comigo. 

É interessante observar o método que Deus usa para lapidar uma pedra bruta como Saulo.

2.3 Saulo levantado (At 9.8-15)

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.8a Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver.v.11a  Tendo ficado cego por causa do fulgor daquela luz, 
v.8b E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco.v.11b  guiado pela mão dos que estavam comigo, cheguei a Damasco. 
v.9 Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.  
v.10 Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. Disse-lhe o Senhor numa visão: Ananias! Ao que respondeu: Eis-me aqui, Senhor!
v.11  Então, o Senhor lhe ordenou: Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando
v.12  e viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista.
v.13  Ananias, porém, respondeu: Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém;
v.14  e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome.
v.15  Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; v.16  pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome.
  

O poder se aperfeiçoa nas fraquezas (2Co 12.10)

2.4 Saulo restaurado (At 9.17-19)

Atos 9.1-19Atos 22.4-21Atos 26.12-18
v.17  Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. v.18a  Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver.v.12  Um homem, chamado Ananias, piedoso conforme a lei, tendo bom testemunho de todos os judeus que ali moravam, v.13  veio procurar-me e, pondo-se junto a mim, disse: Saulo, irmão, recebe novamente a vista. Nessa mesma hora, recobrei a vista e olhei para ele.     
v.18b A seguir, levantou-se e foi batizado.v.14  Então, ele disse: O Deus de nossos pais, de antemão, te escolheu para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires uma voz da sua própria boca,
v.15  porque terás de ser sua testemunha diante de todos os homens, das coisas que tens visto e ouvido.
v.16  E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele.
 
v.19  E, depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido. Então, permaneceu em Damasco alguns dias com os discípulos.  
 v.17  Tendo eu voltado para Jerusalém, enquanto orava no templo, sobreveio-me um êxtase,
v.18  e vi aquele que falava comigo: Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho a meu respeito.
v.19  Eu disse: Senhor, eles bem sabem que eu encerrava em prisão e, nas sinagogas, açoitava os que criam em ti.
v.20  Quando se derramava o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, consentia nisso e até guardei as vestes dos que o matavam.
v.21  Mas ele me disse: Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.
 

Agora sim ele estava pronto para zelar pela causa divina.

Filipe e o eunuco etíope (Atos 8.26-40)

Introdução

Depois de seu ministério na cidade de Samaria, Filipe seguiu para a estrada de Jerusalém a Gaza, a fim de conduzir aos pés de Cristo o eunuco etíope. De conformidade com certa tradição, esse foi o começo da missão cristã no continente africano, pois esse homem eunuco, sendo um oficial político, tornou-se missionário cristão entre o seu povo.

Estamos diante de uma narrativa bíblica repleta de elementos ou aspectos surpreendentes, misteriosos e edificantes, que, por vezes, podem passar despercebidos numa leitura ligeira e superficial. Numa macro visão do texto, podemos dizer que há aqui, dentre outros, os seguintes elementos: (i)Intervenções sobrenaturais; (ii)Coisas incompreensíveis e misteriosas; (iii)“Pessoas improváveis”; (iv)Circunstâncias facilitadoras e inexplicáveis; (v)Atitudes determinantes.

Essa narrativa bíblica pode ser resumida nos seguintes quadros:

26  Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Ele se levantou e foi.

|#1| Um anjo fala diretamente a Filipe, o comissionando para uma missão (At 8.26). Mais adiante, durante a realização da missão, o Espírito Santo o assiste, falando-lhe diretamente e o orientando quanto ao que deveria fazer (At 8.29). É a intervenção sobrenatural iniciando e conduzindo todo o processo, toda a missão!

|#2| Surpreendentemente, Filipe é remanejado de uma grande e exitosa campanha evangelística, em Samaria (At 8.5-8), para uma estrada deserta, sem mais detalhes ou explicações por parte do anjo (At 8.26).  No chamado divino não é raro ter que lidar com coisas incompreensíveis e misteriosas à mente e à lógica humanas. É simples assim! O que importa é obedecer!

|#3| Filipe, um diácono, é chamado e usado poderosamente por Deus, para missões evangelísticas em outras terras (Judeia e Samaria), enquanto os apóstolos, permaneceram em Jerusalém, naquele momento de perseguição aos cristãos (At 8.1). Filipe é um caso de “pessoa improvável” aos olhos humanos para a realização de missões tão relevantes. É assim mesmo que funciona o sacerdócio universal dos crentes em Cristo; dos regenerados, capacitados e enviados pelo Espírito Santo para realizar a obra de Deus aqui na terra!

|#4| O chamado divino é para ser cumprido no tempo de Deus, que detém o conhecimento e o domínio sobre todas as coisas. Moisés, quando chamado, argumentou e relutou com Deus, porém acabou obedecendo. Filipe não perdeu tempo, demonstrou obediência imediata: “Ele se levantou e foi.” (At 8.26b). São atitudes determinantes, como esta, que fazem toda a diferença, que constroem a história.

27  Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que viera adorar em Jerusalém,

28  estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías.

|#5| Um etíope, eunuco (um homem castrado – ver os 3 tipos de eunucos em Mateus 19.12), alto oficial, superintendente do tesouro da sua rainha, sendo um prosélito do judaísmo, foi adorar em Jerusalém (At 8.27).  Esse segundo e importante personagem, é a outra “pessoa improvável” desta narrativa bíblica. Certamente ele era uma pessoa importante na sua terra, porém, sendo um gentio, deve ter passado despercebido na sua passagem por Jerusalém. Entretanto, Deus o viu, bem como aos anseios do seu coração e providenciou um encontro de Filipe com ele, para anunciar-lhe a salvação em Jesus. Porque não basta a religiosidade, a boa intenção do coração, o interesse espiritual, a piedade e as boas obras, e o testemunho de vida do outro: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

29  Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o.

|#6| Este etíope anônimo, sendo um estrangeiro, estava viajando de volta à sua terra; e, no seu carro, ia lendo, em voz alta, as Escrituras do profeta Isaías (At 8.28). Seu interesse religioso era tal que tudo leva a crer que conseguiu adquirir uma cópia deste pergaminho. É curiosa a forma com que Filipe se aproximou do eunuco que, correndo ao lado do seu carro, o ouvia ler, sem ser impedido pelos seus prováveis seguranças. Portanto, são várias as evidências aqui de circunstâncias facilitadoras e inexplicáveis. Ele buscava o Deus de Israel, para saciar sua sede espiritual, mas acabou tendo um encontro com Cristo, o Messias prometido.

30  Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: Compreendes o que vens lendo?

31  Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele.

|#7| Vale destacar a determinação de Filipe, de se aproximar do eunuco. E, vale assinalar sua ousadia, não só de se aproximar daquele viajante estrangeiro e desconhecido, mas de adentrar no seu espaço e privacidade, e lhe dirigir a palavra (At 8.31). Atitudes determinantes e propositivas como esta podem gerar resultados tão positivos que compensam o destemor.

|#8| É notória a cordialidade e interesse do eunuco, explicitada ao responder à pergunta de Filipe e acolher, no seu carro, aquele também desconhecido que lhe apareceu do nada (At 8.31). É mais uma atitude para se colocar na conta das atitudes determinantes desta narrativa.

32  Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca.

33  Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada.

34  Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?

35  Então, Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus.

|#9| Quando Deus está no comando de todas as coisas, nada pode ser colocado na conta do acaso, pois, para Deus, não há acasos. A leitura que o eunuco fazia, em Isaías 53, foi mais do que providencial, propiciando que a conversa fosse iniciada ali e remetida a Jesus, aquele que havia sido profetizado, fora morto e ressuscitado para a redenção e justificação de todo aquele que crê (At 8.32-35). É mais uma daquelas circunstâncias facilitadoras e inexplicáveis que mostram a ação de Deus em parceria com a ação humana, através dos seus instrumentos e mensageiros.

36  Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?

|#10| O eunuco demonstra ter entendido e recebido a mensagem do evangelho e, resoluto, logo expressa seu desejo de completar o processo, sendo batizado (At 8.36). Não havia tempo a perder! A oportunidade era ali e naquela hora. Era mais uma atitude determinante de sua parte.

37  Filipe respondeu: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.

38  Então, mandou parar o carro, ambos desceram à água, e Filipe batizou o eunuco.

|#11| O texto não relata, mas certamente Filipe deve ter ficado positivamente impactado com o repentino questionamento do eunuco: “Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” (At 8.36). Sua atitude determinante foi a de deixar bem claro a condição para se receber o batismo com água: “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.37a). Isso porque o batismo é um símbolo externo, da fé interna.

|#12| Temos, na sequência, o ápice desta narrativa, quando o eunuco espontaneamente faz sua profissão de fé: “E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37b). Ele manda o carro parar e Filipe, o diácono, o batiza (At 8.38). Com a alternância dessas atitudes determinantes, de Filipe e do eunuco, temos o desfecho de tão abençoado e bem-sucedido encontro.

39  Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, não o vendo mais o eunuco; e este foi seguindo o seu caminho, cheio de júbilo.

|#13| O texto, que começou com intervenções sobrenaturais, nos dá a entender que se encerra da mesma forma, quando menciona o arrebatamento de Filipe pelo Espírito Santo (At 8.39).

|#14| O eunuco, não vendo mais a Filipe, seguiu o seu caminho, cheio de júbilo no coração (At 8.39). Desta forma, uma “pessoa improvável”  se tornou um cristão, após ser alcançado pelo poder do evangelho. Provavelmente se tornou o primeiro ou um dos primeiros missionários cristãos no continente africano.

40  Mas Filipe veio a achar-se em Azoto; e, passando além, evangelizava todas as cidades até chegar a Cesaréia.

|#15| Cumprida aquela missão, imediatamente Filipe, aquela “pessoa improvável”, foi remanejado para cidades próximas, onde retomou aquelas campanhas evangelísticas (At 8.40).

Resumindo: Em Filipe temos o exemplo do verdadeiro evangelista:

– É obediente ao mandato divino (At 8.26)

– É guiado pelo Espírito Santo (At 8.29, 39)

– Faz contato (At 8.30)

– Inicia a mensagem conforme a situação do ouvinte (At 8.35)

– Obtém a confissão antes de batizar (At 8.37).

– Não tem preconceitos e atende ao anseio do coração (At 8.36-39).

…………………..

Reflexão complementar:

Já que estamos tratando de evangelização, vale lembrar os sete princípios de ação sugeridos por Gavin Levi Aitken, extraídos do encontro de Jesus com a mulher samaritana, no Evangelho de João, capítulo 4 .

1º) Entrar em contato com as pessoas (aspecto social).

2º) Estabelecer um interesse comum (ponte).

3º) Despertar o interesse, quebrando barreiras (social, racial, religiosa etc.).

4º) Não dar tudo de uma só vez.

5º) Não condenar.

6º) Não desviar do assunto.

7º) Confrontar a pessoa diretamente, levando-a a uma definição.

Filipe, Pedro e Simão, o mágico (Atos 8.4-25)

1) A dispersão (vv. 4-5)

4   Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra.

A perseguição seguida da dispersão ajudou a espalhar a semente do evangelho que ia produzir uma colheita abundante. E, sempre tem sido assim. “O sopro do diabo ativa as chamas do evangelho”. O Senhor Jesus fizera a seus seguidores imediatos uma promessa (At 1.8), a qual não somente garantia o sucesso de sua missão, como também a extensão universal dela. O Evangelho já fora abundantemente apresentado em Jerusalém. A perseguição encabeçada por Saulo de Tarso, com a sanção das autoridades religiosas dos judeus, havia espalhado os cristãos por toda a Judéia, e, de fato, por toda a Palestina. Agora, a mensagem Cristã atingia Samaria, de conformidade com os termos expressos na Grande Comissão. Portanto, o resultado da perseguição foi o oposto daquilo que desejavam os perseguidores.

5  Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo.

Filipe era outro “diácono” (At 6.5) e “evangelista” (At 21.8), como Estevão, e não o apóstolo.

O território de Samaria atuou como uma espécie de primeiro degrau para um ministério em território puramente gentio e pagão. Os samaritanos eram descendentes de uma mistura do remanescente de Israel com estrangeiros que foram introduzidos na Samaria pelos conquistadores assírios quando as classes superiores foram levadas para o exílio (2Rs 17 – miscigenação). Sua religião era essencialmente judaica, porquanto observavam as mesmas festividades religiosas e professavam adorar ao mesmo Deus dos judeus, “Yahweh”; porém haviam feito seu centro de adoração na cidade e no monte Gerizim. O seu “cânon” das Escrituras, tal como no caso dos saduceus, consistia exclusivamente no Pentateuco, isto é, nos cinco livros de Moisés, os cinco primeiros da nossa Bíblia. A associação com os samaritanos era evitada pelos judeus (Jo 4.9). Considerando os judeus que os samaritanos eram mestiços raciais e religiosos, violentos preconceitos tiveram que ser vencidos antes da igreja poder se tornar realmente universal.

2) O poder do Evangelho (vv. 6-8)

6  As multidões atendiam, unânimes, às coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava.

7  Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam gritando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados.

8  E houve grande alegria naquela cidade.

Filipe, tal como Estevão, era homem dotado de grande poder espiritual, tendo recebido um ministério de confiança, dificilmente inferior ao dos próprios apóstolos. É mesmo possível que tanto Estevão como Filipe tenham realizado obras maravilhosas que ultrapassaram mesmo as de muitos dos doze. Filipe foi o missionário que abriu a trilha para o mundo exterior, libertando a Igreja Cristã de territórios estritamente judaicos. E essa trilha, mais tarde, foi transformada em uma grande estrada. Vemos em Samaria, como a mensagem genuína do Evangelho (“anunciava-lhes a Cristo”), pregada por Filipe, no poder do Espírito Santo, atraia os pecadores. Deus autenticou a mensagem de Filipe com milagres e estes sinais eram a prova de que Filipe era um mensageiro de Deus.

3) Os efeitos do Evangelho (vv. 9-13)

9  Ora, havia certo homem, chamado Simão, que ali praticava a mágica, iludindo o povo de Samaria, insinuando ser ele grande vulto;

10  ao qual todos davam ouvidos, do menor ao maior, dizendo: Este homem é o poder de Deus, chamado o Grande Poder.

11  Aderiam a ele porque havia muito os iludira com mágicas.

12  Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, assim homens como mulheres.

13  O próprio Simão abraçou a fé; e, tendo sido batizado, acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres praticados.

Antes que Filipe chegasse a Samaria, um mágico chamado Simão fazia aquela gente crer que ele era alguma emanação divina. As pessoas, enganadas por seus truques, lhe atribuíam o Grande Poder. Parece, então, que o poder obviamente superior de Filipe, bem como os muitos milagres por ele praticados, eclipsaram a glória de Simão, e então, o próprio Simão “abraçou a fé” ou “creu” e foi batizado. Os samaritanos foram suficientemente sábios para reconhecer a diferença vital entre Simão e Filipe, milagre autêntico e ilusionismo, por isso mesmo, vinham em grande número receber a mensagem messiânica de salvação, que Filipe pregava.

Qual a diferença entre Milagre,  Mágica e Fraude?

O milagre é um fato acontecido, humana e naturalmente impossível de ser realizado. A mágica ou ilusionismo ou prestidigitação é a falsa impressão da ocorrência de algo, humana e naturalmente impossível, realizado através de técnicas e truques. A fraude ou falso milagre é a simulação de algo, humana e naturalmente impossível, previamente engendrado, com ou sem o auxílio de outrem, realizado com o fim de enganar. Os magos e encantadores de Faraó, com suas ciências ocultas ou por influência demoníaca, conseguiram reproduzir os três primeiros milagres de Moisés. Logo tiveram que admitir sua inferioridade e reconhecer que o poder que agia em Moisés era insuperável: “E fizeram os magos o mesmo com suas ciências ocultas para produzirem piolhos, porém não o puderam; e havia piolhos nos homens e no gado. Então, disseram os magos a Faraó: Isto é o dedo de Deus.” (Ex 8.18-19a).

Os samaritanos que creram foram batizados com água como sinal visível e público de que haviam abraçado a nova fé. Quão notáveis e poderosos devem ter sido os milagres operados por Filipe, ao ponto do próprio Simão ficar perplexo, embora ele mesmo já houvesse realizado muitos sinais prodigiosos. Todo esse episódio ilustra o extraordinário poder da igreja primitiva, em meio às massas do mundo antigo; e isso nos ajuda a entender melhor o tremendo impacto que o cristianismo exerceu sobre todas as culturas humanas de então. “Os milagres são joias das mãos de Deus, que lampejam com extraordinário brilho, a fim de atrair as mentes dos homens para longe deste mundo material, e as interpretações materialistas sobre a natureza da vida e da existência, desse modo, não os atraem mais”.

4) Visita apostólica confirmatória (vv. 14-17)

14   Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João;

15  os quais, descendo para lá, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo;

16  porquanto não havia ainda descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.

17  Então, lhes impunham as mãos, e recebiam estes o Espírito Santo.

Parece indiscutível que alguma forma de autoridade central era mantida pelos apóstolos, os quais, tanto dirigiam, como confirmavam os resultados dos trabalhos missionários, e que, de modo geral, eram os supervisores das atividades de toda a Igreja Cristã. Isso não subentende, necessariamente, que Filipe tenha sido mandado para Samaria, porquanto, apesar de tudo, implicava a liberdade individual de ação, que dependia exclusivamente da orientação dada pelo Espírito Santo. Porém, uma vez que se firmasse qualquer trabalho evangelístico, os apóstolos, como é evidente, tinham a responsabilidade de investigá-lo, de fortalecê-lo. Note-se como Barnabé, em ocasião posterior, embora não fosse apóstolo, realizou esse mesmo tipo de função (At 11.22).

Pedro e João foram enviados de Jerusalém com uma missão e um propósito específicos, definidos como a necessidade de proporcionar àqueles convertidos samaritanos o dom do Espírito Santo. João, filho de Zebedeu, que antes desejava pedir que caísse fogo do céu sobre os rebeldes samaritanos (Lc 9.54), foi a Samaria, a fim de ministrar uma bênção, numa benigna visitação celestial, e não de destruição. Esse é o Espírito de Cristo.  Havia necessidade de um “Pentecoste Samaritano”, não apenas para que aquela gente contasse com a sua própria plenitude da mensagem da graça, por meio de Cristo, mas também, para que houvesse uma clara demonstração, perante todos, de que os cristãos samaritanos eram crentes verdadeiros, não sendo inferiores, em qualquer sentido, aos crentes de Jerusalém. Talvez a nós pareça estranho que tal comprovação fosse necessária; porém, relembrando-nos das noções judaicas de superioridade espiritual, isso convence qualquer um da necessidade dessa medida.

Deve-se observar que o batismo com água não havia conferido, àqueles crentes samaritanos, o dom do Espírito Santo. Os apóstolos achavam óbvio que a fé daquelas pessoas era genuína. Portanto, impuseram-lhes as mãos e o Espírito Santo veio sobre eles. O significado desse acontecimento tem sido assunto de controvérsia.

No que diz respeito à outorga do dom do Espírito Santo, encontramos na história do Livro de Atos uma situação variada. Em primeiro lugar, ordinariamente o Espírito Santo era propiciado de modo inteiramente desligado do batismo. Não se pode estabelecer qualquer elo entre o batismo com água e a outorga do Espírito Santo, conforme algumas denominações evangélicas procuram fazer em nossos dias, senão vejamos:

(i) No trecho de Atos 2.4, vemos que o Espírito Santo não foi dado através de qualquer agência humana.

(ii) Atos 2.33 mostra-nos que o Cristo exaltado nos lugares celestiais é quem derramou de seu Espírito Santo.

(iii) Em Atos 9.17, Ananias, um discípulo ordinário, mediante a imposição de mãos, concedeu o Espírito Santo a Saulo de Tarso.

(iv) Em Atos 10.44, o Espírito Santo é visto a cair sobre gentios, espontaneamente, também sem qualquer intervenção humana.

Portanto, torna-se arbitrário selecionar este acontecimento para transformá-lo em norma de experiência cristã, e insistir que existe um batismo especial com o Espírito Santo que é concedido, após a fé salvadora, pela imposição de mãos, daqueles que já passaram por essa experiência. O significado desse acontecimento está no fato dessa gente ser samaritana. Eis aí o primeiro passo através do qual a igreja rompeu suas cadeias judias, indo na direção de uma comunhão realmente universal. A imposição de mãos não foi necessariamente para os samaritanos; mas foi necessária para os apóstolos, para que se convencessem completamente de que Deus estava realmente rompendo as barreiras do preconceito racial e incluindo essa gente mestiça dentro da comunidade da igreja. Não foi um novo Pentecostes, mas uma extensão do Pentecostes ao povo samaritano. “O Livro de Atos não descreve o batismo como algo que é completado pela imposição de mãos; o batismo não estava invalidado, os convertidos samaritanos, mediante a sua administração, tornaram-se membros da Igreja Cristã; a imposição de mãos não tinha por intuito completar supostamente o batismo, mas foi um acréscimo ao mesmo. E o trecho de Hebreus 6.2 certamente indica que essa adição já deveria ser conhecida em um período bem remoto.” (R. J. Knowling).

Muito se tem debatido com respeito ao motivo pelo qual Filipe não pôde realizar a imposição de mãos em seus próprios convertidos. O mais provável é que essa doação do Espírito Santo, ou de dons espirituais especiais, estivesse ordinariamente reservada ao ministério apostólico, embora houvesse exceções a essa regra, segundo se verifica no caso de Ananias e Saulo de Tarso (At 9.17).

5) O “sacrilégio” de Simão (vv. 18-25)

18  Vendo, porém, Simão que, pelo fato de imporem os apóstolos as mãos, era concedido o Espírito Santo , ofereceu-lhes dinheiro,

19  propondo: Concedei-me também a mim este poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo.

20  Pedro, porém, lhe respondeu: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus.

21  Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus.

22  Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração;

23  pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniquidade.

24  Respondendo, porém, Simão lhes pediu: Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes sobrevenha a mim.

25  Eles, porém, havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos.

É com base nessa circunstância da tentativa de Simão de adquirir, a dinheiro, o poder do Espírito Santo e os seus dons, que temos o moderno vocábulo “simonia”, palavra essa que assumiu, na passagem dos séculos, uma significação mais lata do que isso, indicando a compra ou venda de coisas sagradas ou espirituais, como perdão eclesiástico, ofícios eclesiásticos, posições ou prestígio nos círculos religiosos. Em Simão temos o exemplo de como é possível alguém ser “crente” porque percebe que o Evangelho é a verdade (ver Jo 2.23), porém, sem ser convertido pelo poder dessa verdade na própria vida.

É importante ressaltar que o “crer”, ou “abraçar a fé ou uma crença”, não significa necessariamente possuir a fé verdadeira e salvadora. Pode não passar de acreditar, de um assentimento ou aceitação mental de algo que se tomou conhecimento. É como Tiago diz: “Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem”(Tg 2.19). Tudo leva a crer que esse foi o caso de Simão; ele acreditou no que estava vendo, que era algo fascinante e superior ao que fazia, porém não havia nascido de novo, não se convertera a Cristo, não havia internalizado de forma visceral a fé autêntica e salvadora. A fé autêntica e salvadora não é mera aceitação mental de sinais e prodígios, ou de uma crença ou credo ou religião. Porém, é transformadora e revitalizadora de vidas e comportamentos.

Nem todos os que são batizados e entram para o rol de membros de uma igreja evangélica são verdadeiramente regenerados pelo Espírito Santo. Muitas podem ser as razões para alguém querer “abraçar a fé cristã”, inclusive, com motivação financeira, como, por exemplo, expandir sua clientela e negócio.

Com respeito a este texto bíblico podemos fazer as seguintes considerações finais:

1ª) Que Simão, o mágico, creu (v. 13) em alguma coisa, mas, pelo visto, não era renascido. Contudo foi batizado e incluído no rol dos discípulos.

2ª) Que Simão pensava ser o Cristianismo mais uma forma de magia, e que poderia obter, por dinheiro, o conhecimento dos seus mistérios ou um poder sobrenatural. Considerando que ele era um homem vivido e acostumado a manipular pessoas e situações, bem como pela reação do apóstolo Pedro, não nos parece que ele tenha incorrido num ato falho de infantilidade ou ingenuidade espiritual, típicos de um neófito na fé. Antes, porém, tudo leva a crer ter sido sua atitude algo premeditado e intencional, cujo o objetivo real não nos é revelado.

3ª) Que Pedro discerniu estar Simão, o mágico, ainda no caminho da perdição (v. 20), e o denunciou como quem não tinha parte nem sorte em Cristo.

4ª) Que Deus toma conhecimento dos pensamentos do coração (vv. 21-22; 1Sm 16.7).

5ª) Que um tal “crente”, professo, batizado, mas perdido, pode arrepender-se e orar a Deus implorando perdão.

6ª) Que podemos interceder pelos iníquos arrependidos.

Pedro e João ficaram, logo a seguir, ocupados em um vigoroso programa evangelístico que os levou por muitas aldeias da Samaria. Depois, tendo completado sua missão, retornaram a Jerusalém.

Liberdade é….

Disse Jesus: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8.32)

Jesus também disse que ele mesmo, o Filho de Deus, é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6). Portanto, nele reside a verdadeira liberdade interior, que excede a todo o entendimento. Entretanto, no contexto da sociedade e dos relacionamentos sociais, podemos definir assim: “Liberdade é….”   

  • Amar o próximo como a nós mesmos.
  • Não fazer ao outro o que não queremos que façam a nós.
  • Respeitar, preservar e cuidar da magnífica natureza criada pelo nosso bom e soberano Deus.
  • Respeitar os atos do Deus-Criador quando estabeleceu para a espécie humana os gêneros masculino e feminino (macho e fêmea): “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn 1.27)
  • Poder expressar ideias e pensamentos, sobre qualquer tema ou assunto, de forma respeitosa e democrática.
  • Poder exercer o direto irrevogável de crença e prática religiosa sem ferir direitos à vida, à ética e aos bons costumes.
  • Poder exercer o direito de ir e vir, sem ser acometido de violências e de constrangimentos.
  • Poder exercer seus direitos, sem ultrapassar ou cercear a liberdade do outro.
  • Cuidar bem do corpo, alma e espírito, podendo escolher o que vestir em público, nos limites da decência e do bom senso.
  • Empreender ou ter acesso ao trabalho, oferecendo ou recebendo condições e remuneração adequadas, como forma digna de sustento e de independência financeira.
  • Ter a garantia do direito de propriedade sobre bens e valores adquiridos de forma justa, legitima e honesta.
  • Poder fazer escolhas certas ou até mesmo equivocadas, nunca descartando a oportunidade de crescer e amadurecer com os erros e acertos.
  • Ter empatia, se colocando no lugar do outro, principalmente dos menos favorecidos, e contribuir com ações efetivas para o seu bem-estar.
  • Não ter que se submeter a mandos e desmandos que atentem claramente contra a vida.
  • Não discriminar ou sofrer discriminação, como ser humano, por motivos, tais como: cor, raça, gênero, crenças religiosas, condição social, limitações ou deficiências físicas ou mentais etc.
  • Praticar e receber justiça em todos os atos e demandas, na certeza de que a impunidade não será comprada ou vendida, porém, sem deixar de considerar a importância de exercer misericórdia.
  • Respeitar, defender e usufruir da independência entre as instituições FAMÍLIA, IGREJA e ESTADO.
  • Noticiar ou poder receber informações, dos indivíduos, das redes sociais e dos veículos de comunicação, dos fatos como eles são, a verdade e não narrativas fantasiosas ou tendenciosas, eivadas de dolo e maldade.
  • Participar livremente da eleição dos representantes públicos dos poderes executivo e legislativo, na certeza da lisura do processo eleitoral, respeitando o resultado como expressão da decisão da maioria.
  • Zelar pela coisa pública como se nossa fosse, tendo acesso garantido à prestação de contas e contando com a devida e necessária transparência dos dados e informações.
  • Transitar pelas vias públicas, com prudência e segurança, na expectativa de que os outros façam o mesmo e que os transgressores serão julgados e receberão a justa sentença.
  • Poder fazer negócios e firmar acordos e contratos na certeza de que haverá segurança jurídica.
  • Ter a garantia de que, nas escolas e universidades, os estudantes não serão doutrinados ou manipulados, por professores, com ideias, pensamentos e ideologias que visam a atender a estratégias e projetos de determinados grupos que busquem aumentar sua influência e dominação.
  • Ter a garantia de que as produções audiovisuais geradas por empresas e instituições de comunicação regulados pelo poder público não violem as boas práticas e os bons costumes da sociedade, mantendo o respeito ao indivíduo e à família, bem como às suas crenças.

Liberdade é isso e algo mais…

Dizem que Che Guevara afirmou: “Sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida.” Entretanto, a verdadeira liberdade de espírito não é obtida por sonho, porém depende de um processo interior de transformação e renovação da mente, do coração e da alma: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão.” (Gl 5.1).

Como cidadãos deste mundo, às vezes se torna necessário travar uma luta exterior, pelejar numa batalha, corporal ou espiritual ou de ideias e narrativas, para obter ou restabelecer ou manter a liberdade. Afinal, o que é a vida sem liberdade?

“Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” (2Co 3.17)

Lidando com problemas na igreja

Introdução

A igreja primitiva não era perfeita, em que pese a seu favor a forte presença e manifestação poderosa do Espírito Santo no seu início. Não existe igreja local perfeita, porque nós, seres humanos que a compomos, não somos perfeitos; logo todas precisam saber lidar com problemas internos, além dos externos. Numa passada de olhos apenas no Livro de Atos encontramos alguns exemplos de problemas: (i) Em Atos 5, a trama mentirosa do casal Ananias e Safira quanto ao valor encoberto da venda do terreno, doado parcialmente à igreja. (ii) Aqui em Atos 6 a falha na distribuição diária para algumas viúvas e a murmuração dela decorrente. (iii) Em Atos 8.9-13, 18-24 o pecado de Simão que abraçou a fé cristã e depois quis comprar o poder do Espírito Santo. (iv) Em Atos 9.26-27 a desconfiança e temor dos irmãos que dificultavam a aceitação e acolhimento do recém-convertido Saulo de Tarso devido ao seu passado de terrível perseguidor da igreja. (v) Em Atos 11.1-18 a desconfiança dos defensores da circuncisão por Pedro ter entrado na casa do incircunciso Cornélio e comido com eles (vv.1-3). A explicação foi dada e o apaziguamento foi  feito (vv.4-18). (vi) Em Atos 15.1-35 a equivocada questão imposta pelos legalistas da necessidade da circuncisão para a salvação. (vii) Em Atos 15.36-40 a desavença entre Paulo e Barnabé quanto a levar João Marcos na 2ª Viagem Missionária. Neste estudo, veremos como a igreja lidou e tratou do problema que surgiu, conforme registrado em Atos 6.1-7.

1. O CONTEXTO (At 6.1)

     “Naqueles dias…”

É interessante relembrar o contexto desse “naqueles dias” quando se deu o problema. Em Atos 1, o Senhor ressurreto se reuniu com os seus discípulos, anunciou o iminente batismo com o Espírito Santo, os comissionou e foi elevado aos céus, deixando-os um tanto quanto desolados e na expectativa do que viria a acontecer. Enquanto aguardavam, resolveram preencher a vaga deixada por Judas Iscariotes completando, assim, de forma um tanto quanto açodada, o quadro dos doze apóstolos, com a escolha de Matias. Em Atos 2 acontece o Pentecoste e o nascimento da igreja, em Jerusalém. Em Atos 3, a retomada dos milagres, com a cura do paralítico e a mensagem de Pedro ao povo. Em Atos 4 o recomeço da perseguição, a prisão, testemunho e libertação dos apóstolos Pedro e João, encerrando com o ajuntamento dos irmãos. Em Atos 5, a purificação interna da igreja com o juízo divino sobre Ananias e Safira que ousaram mentir ao Espírito Santo; na sequência, acontece a prisão dos apóstolos, seu testemunho e libertação.

2. A EXPANSÃO DA IGREJA (At 6.1)

     “…multiplicando-se o número dos discípulos…”

É relevante o registro desses primeiros passos da igreja, do seu crescimento extraordinário e do modus vivendi dos remidos do Senhor. Em Atos 2.41, após a pregação do Pentecoste, houve um acréscimo de quase 3.000 pessoas. Em Atos 2.44-47, registra-se que eles viviam unidos, tinham tudo em comum, vendiam suas propriedades doando o valor auferido para a igreja que usava esses recursos para ajudar aqueles que tinham necessidade. Desta forma, perseverando na fé e na adoração a Deus, bem como ajudando os mais necessitados, o Senhor acrescentava os que iam sendo salvos. Em Atos 4.4 contabiliza-se o número de homens convertidos chegando a quase 5.000. Em Atos 4.32-37 encontramos um significativo relato e descrição dessa comunidade cristã: Uma multidão unida, compartilhando os bens materiais, sem necessitados entre eles. Os apóstolos pregando e testemunhando com poder; bem como recebendo as doações dos irmãos e administrando sua distribuição aos necessitados. Em Atos 5.12-16 ratifica-se a poderosa atuação dos apóstolos, realizando sinais e prodígios e que a comunidade cristã crescia, agregando-se ao Senhor tanto homens como mulheres.

3. A DESCRIÇÃO DO PROBLEMA (At 6.1)

     “…houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária….”

Até este tempo, parece que os apóstolos haviam tomado para si a tarefa de administrar os recursos financeiros da igreja (At 4.34-37). Mas, dentro de pouco tempo, a igreja crescera significativamente, a ponto da atividade de beneficência alcançar proporções tais que requeria muito tempo dos apóstolos. O fato é que as viúvas dos helenistas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimentos e outros bens, no seio da igreja. Os helenistas eram judeus que haviam adotado o estilo grego de viver. Os hebreus, por sua parte, eram judeus que tinham preferido reter a maneira tipicamente judaica de vida. (Alguns eruditos pensam que os helenistas eram gentios, prosélitos e tementes a Deus, ao passo que outros opinam que os hebraístas eram samaritanos. Entretanto, é difícil imaginar que muitos indivíduos, dessas categorias, já tivessem entrado na igreja). Lucas já havia registrado como a igreja cuidava dos necessitados, em que muitos crentes vendiam as suas propriedades, trazendo o dinheiro apurado aos pés dos apóstolos (At 4.32, 34, 35). A distribuição diária, para as necessidades das viúvas, provavelmente se fundamentava nesses fundos.

Não temos uma informação precisa sobre a causa do esquecimento das viúvas dos helenistas. Talvez houvesse uma disposição de preferência, de preconceito, por parte daqueles que estavam com a responsabilidade de cuidar das mulheres que não podiam sustentar-se, por serem viúvas pobres e idosas. Ou pode tudo ter sido causado pela negligência da parte dos encarregados dessa questão, incluindo os apóstolos, os quais se ocupavam muito mais da pregação e do ensino, não podendo, por isso mesmo, cuidar minuciosa e atenciosamente de questões como essa da distribuição diária. É preciso ficar atento ao que fazemos na igreja. Todos são igualmente importantes na igreja de Cristo e não podemos fazer acepção de pessoas. Não raro acontece de alguém assumir determinados cargos e ministérios na igreja e passarem a defender veementemente apenas o seu grupo, inclusive recursos financeiros, não se importando com os demais grupos, ministérios e sociedades internas da igreja! Cuidado com o corporativismo eclesiástico!

4. O PAPEL DA LIDERANÇA (At 6.2)

     “Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos…”

O papel da liderança é sempre importante na resolução de problemas. Isso não significa que esta tenha, necessariamente, todas as respostas, mas precisa assumir e conduzir o processo de solução. Na igreja primitiva verificamos que, em algumas situações, a própria liderança tomou a decisão, como no caso de Ananias e Safira; há outras em que toda a igreja foi convocada a participar, como neste caso. Vemos aqui a democracia operante na igreja primitiva. Não devemos supor que todas as pessoas convocadas tiveram parte ativa no debate, pois isso seria inviável, devido ao seu grande número; mas, pelo menos, deve ter-se manifestado um bom grupo representativo. As Escrituras não determinam quaisquer regras fixas no que diz respeito ao tipo de governo que deve prevalecer na igreja cristã (episcopal, presbiteral ou congregacional). Entretanto, devemos verificar como a igreja primitiva funcionava e beneficiar-nos com o seu exemplo.

5. O ARGUMENTO INICIAL (At 6.2)

     “… e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas.”

O argumento inicial dos apóstolos deixou claro a necessidade de priorização de tarefas na igreja. Cada tarefa deve ter a sua razão de ser para não se gastar energia inutilmente. Todas são importantes, quando necessárias, porém algumas são mais prioritárias, a razão de ser da igreja, a sua atividade fim. Cada uma deve ser exercida de acordo com o chamado divino, vocação e dons distribuídos pelo próprio Espírito de Deus. Os apóstolos tinham conhecimento, como testemunhas oculares, da preciosa história e ensinos de Jesus. O melhor e mais imediato meio de fazê-los conhecidos era através da palavra falada. Não deviam permitir que nada, ainda que importante, os desviasse dessa tarefa. O ministério do ensino está contido dentro da própria Grande Comissão (Mt 28.19-20). O evangelismo, por si só, não pode cumprir essa comissão. A outra tarefa, confrontada aqui com o ministério do ensino e que precisava de outros colaboradores que não os apóstolos, era o de “servir as mesas”. Neste caso, a palavra “servir” (diakonein) se deriva do vocábulo do qual obtivemos nossa palavra “diácono” (diáconos), que significa servo, administrador ou ministro. Quanto as mesas, geralmente se acredita que estaria em foco aqui, em sentido figurado, a administração das ofertas destinadas a Ação Social da igreja.

6. A PROPOSTA DE SOLUÇÃO (At 6.3)

6.1 A participação da igreja (v.3a)

     “Mas, irmãos, escolhei dentre vós….”

Deve-se observar, com base nas palavras dos apóstolos, que à congregação é que cabia o privilégio de fazer a escolha. Estamos diante de uma verdadeira aula de administração eclesiástica que estabelece o valor e importância da democracia representativa. A igreja reunida “em assembleia” deveria eleger aqueles que deveriam exercer o ofício do diaconato, nesta ocasião estabelecido de forma embrionária. Em outras oportunidades o apóstolo Paulo expôs detalhadamente as qualificações dos presbíteros (1Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9) e diáconos (1Timóteo 3.8-13).

6.2 As premissas e requisitos (vv.3b)

     “… sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço;”

O embrião do ofício de diácono está expresso em Atos 6.1-6, tendo ocorrido a partir de delegação da autoridade apostólica e, portanto, constitui-se num exercício de autoridade na igreja. Desta forma, coerentemente com o “princípio divino da autoridade de gênero”, foram escolhidos sete homens. As qualificações completas para o ofício de diácono na igreja apareceram posteriormente, no texto de 1Timóteo 3.8-13.

Nessa democracia representativa, o privilégio da escolha acarreta a necessária responsabilidade pelo ato da escolha e suas consequências para a comunidade. Cumprindo o seu papel, a liderança fixou o número de homens a serem escolhidos e instruiu a congregação quanto a aspectos importantes que deveriam ser considerados nessa escolha, a saber:

1º) Boa reputação: Deveriam ser conhecidos em seus negócios e caráter passado, sendo recomendados favoravelmente.

2º) Cheios do Espírito Santo: Tal qual os apóstolos, deveriam ter experimentado o revestimento e plenitude do Espírito Santo. É muito provável que os dons espirituais também estivessem em foco. Estes servos precisavam ser homens dotados de habilidades, sendo homens destacados na comunidade cristã, como homens de Deus, ativos e poderosos no ministério. Deve-se notar que um dos indivíduos assim escolhidos foi Estevão, homem “cheio de graça e poder” (At 6.8), o qual “fazia prodígios e grandes sinais entre o povo”.

3º) Cheios de sabedoria: Naturalmente, essa qualidade era resultado direto do poder habilitador do Espírito Santo. Era necessário que soubessem como rejeitar as murmurações e como cuidar delas, sabendo discernir bem as pessoas e as situações, principalmente em se tratando de beneficência. A sabedoria dos diáconos precisava ser terrena e prática, dando eles mesmos exemplo de discrição e poupança, além da aptidão pelas coisas e soluções práticas. Contudo, essa sabedoria também teria de ter um aspecto espiritual, fazendo com que olhassem para seus semelhantes com espírito de amor, de ternura e de bondade, visando, além do suprimento físico, o desenvolvimento de suas almas.

Ou seja, teriam de ser homens que cuidassem tanto das necessidades físicas como das necessidades espirituais de muitíssimas pessoas, motivo pelo qual teriam de ser indivíduos altamente qualificados. É perfeitamente possível que o ofício diaconal, especialmente criado nesta ocasião, não seja idêntico ao ofício mencionado no trecho de 1Timóteo 3.1-13, onde aparecem, dadas pelo apóstolo Paulo, as qualificações necessárias dos presbíteros e diáconos, porquanto diversas modificações podem ter sido efetuadas no decorrer dos anos. Entretanto, o ofício diaconal, aqui no Livro de Atos, foi o precursor daquele encontrado nos anos posteriores, e que tem a ver com as questões materiais, seculares da vida diária das igrejas.

7. A ESTRATÉGIA – DIVISÃO DO TRABALHO (At 6.4)

     “e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra.”

O argumento inicial dos apóstolos também deixou claro a necessidade e conveniência da divisão do trabalho na igreja, a descentralização de certas atividades. Na igreja de Cristo, às vezes é preciso ter coragem e humildade para delegar tarefas, crendo no sacerdócio universal dos crentes! Cada indivíduo tem os seus próprios dons, de conformidade com aquilo que o Espírito Santo estabelece e confere, e todos os dons e serviços são igualmente importantes e necessários para o desenvolvimento e bem-estar da igreja local (Ef 4.4-16). Todo crente é responsável por fazer o máximo, sob a mão de Deus, no desenvolvimento e uso de seus dons pessoais. Os apóstolos mostraram-se bem sensíveis a esse fato, sendo que também entregaram a outros as funções que podiam ser delegadas, a fim de que tivessem a liberdade de se entregarem aos importantíssimos ministérios da oração, do ensino, da pregação e da evangelização, além da orientação geral da igreja. Era mister que os apóstolos não somente orassem, mas também se dedicassem à oração, para que se aprofundassem nessa prática, a fim de que experimentassem o autêntico e maior poder de Deus, sendo cheios do Espírito Santo, a fim de que por ele fossem usados como vasos consagrados. As lideranças das igrejas atuais devem observar bem este legado da igreja neotestamentária.

8. A RESPOSTA DA COMUNIDADE (At 6.5)

     “O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.”

Como é salutar para uma igreja quando sua liderança traz propostas sábias e oportunas para o bom andamento dos trabalhos ou para a solução de conflitos; propostas assertivas e iluminadas pelo Espírito Santo de Deus e, assim, recebem boa acolhida pela comunidade! Como é relevante preservar a Unidade, a Paz e a Pureza da igreja de Cristo através das boas decisões!

Deve-se observar que, nesta lista, todos os nomes são gregos. Apesar de ser verdade que muitos judeus da palestina tinham também um nome grego, além do nome hebraico, é bem provável que a maioria desses diáconos se compusesse de judeus helenistas. Todavia, a menção de Nicolau, prosélito de Antioquia, mui provavelmente significa que ele era gentio puro quanto à sua raça, embora se tivesse convertido anteriormente ao judaísmo, e, se submetesse, ao Cristianismo.

9. A SUBMISSÃO À LIDERANÇA (At 6.6)

     “Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos.”

A igreja, como um todo, escolheu esses sete homens, mas os apóstolos aprovaram a seleção e os encarregaram do seu ofício. Então, os sete foram ordenados para esse ofício, pela imposição das mãos dos apóstolos. Tal rito se fundamenta nas páginas do AT, onde simboliza o recebimento de algum poder vital, como transferência de poder de uma pessoa para outra. Assim é que, ao nomear Josué como seu sucessor, Moisés lhe impôs as mãos, infundindo algo de sua “autoridade” (ver Nm 27.20, 23, e ainda Gn 48.13ss; Lv 1.4). A imposição de mãos no NT, às vezes acompanha a oração (Mt 19.13, 15), simboliza uma doação, quer de bênção (Mc 10.16), cura (Mc 5.23; 6.5 etc.), o Espírito Santo (At 8.17, 19; 9.17; 19.6) ou responsabilidade e autoridade para um serviço especial (At 6.6; 13.3; 1Tm 4.14 etc.).

10. A BÊNÇÃO DIVINA (At 6.7)

     “Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.”

A comunidade cristã não estava isenta dos problemas. Entretanto, estes eram tratados cuidadosamente, sob a orientação do Espírito Santo. Assim, o crescimento do testemunho cristão, não era descontinuado. Ao contrário, sua eficácia aumentava, a ponto de até “muitíssimos sacerdotes” crerem. Essa declaração acerca da fé que muitíssimos sacerdotes punham em Cristo, serve para mostrar-nos que, embora a nação de Israel, em sua maioria, tivesse continuado em sua atitude de rejeição ao seu próprio Messias, contudo, em todos os níveis da sociedade judaica, incluindo as classes dominantes e indivíduos de reconhecida piedade, muitos chegaram a perceber a veracidade da mensagem cristã, tendo-se passado, de todo o coração, para a nova comunidade dos seguidores de Jesus Cristo.

Conclusão

O fato é que na igreja de Cristo tudo deve ser feito com decência e ordem, com a finalidade de glorificar a Deus, anunciar o evangelho para a salvação de almas e expansão do Reino de Deus, ensinar e zelar pelo bem-estar e crescimento espiritual dos remidos do Senhor, até que ele venha.


Veja também: As qualificações dos diáconos

Rumo à maturidade na Fé Cristã

“Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.” (Pv 4.18)

Introdução

Um automóvel, com câmbio manual, se move e desenvolve velocidade quando, depois de ligado e engrenado, ocorre o sincronismo entre a redução da força aplicada ao pedal da embreagem e o acréscimo da força aplicada ao pedal do acelerador. A ideia aqui não é de comparar a mobilidade da vida cristã a um automóvel, porém o que o apóstolo Pedro expressa em 1Pedro 2.1-3 lembra esse mecanismo que o faz sair do lugar . Nestes três primeiros versículos há dois verbos que merecem nossa atenção: despojar-se e desejar.

a) Esvaziamento (1Pe 2.1)

“Redução da força aplicada ao pedal da embreagem”

1 Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências,

i) “Despojando-vos…” 

É relevante observar que o verbo grego “apotemenoi”, traduzido aqui por “despojando-vos”, também foi usado no NT com este mesmo sentido e ênfase, conforme segue:

“Por isso, deixando (apotemenoi) a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.” (Ef 4.25)

“Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos (apotemenoi) de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta,” (Hb 12.1)

“Portanto, despojando-vos (apotemenoi) de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma.” (Tg 1.21)

Portanto, trata-se de uma ação pessoal e intencional do cristão de deixar ou abandonar ou livrar-se do peso morto do pecado que dificulta a caminhada ou a corrida da vida cristã. Também tem o sentido de despir-se de roupas sujas. Podemos até não saber como nos sujamos, mas não é difícil perceber que estamos sujos. Nem é preciso explicar que a sujeira incomoda a nós mesmos e aos outros.

ii) Tipos de peso morto ou sujeira:

– Toda maldade – prática má, atividade degradante, vício.

– Dolo – que esconde o motivo indigno que procura alcançar, engano, traição.

– Hipocrisia – que aparenta uma forma externa diferente da interna. É um ator que representa alguém que não é.

– Invejas – desgosto pelo progresso alheio.

– Maledicências – difamação, calúnia (pecados da língua que prejudicam os outros).

Podemos dizer que o Espírito Santo que habita nos salvos, aliado às Escrituras Sagradas internalizada, proporciona a estes uma espécie de sistema imunológico (ou imune ou imunitário) espiritual capaz de detectar e neutralizar esses corpos estranhos pecaminosos. Vale lembrar que o sistema imunológico humano, durante o processo de resposta a um antígeno[1], forma células de memória. São essas células que garantem uma resposta imune rápida caso o mesmo antígeno entre em contato com o organismo novamente. Da mesma forma nosso sistema imunológico espiritual há de atuar de modo a nos impedir de cair nas mesmas armadilhas pecaminosas que nos afastam de Deus e adoecem ou destroem nossa vida.

b) Enchimento (1Pe 2.2-3)

“Imprimir força ao pedal do acelerador”

2 desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,

3  se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso.

i) “Desejai ardentemente” – com muita intensidade, o que é difícil de mensurar.

ii) “Como crianças recém-nascidas” – mais fácil de mensurar. Aprendemos com os recém-nascidos:

•  Ele chora – manifesta externamente a “dor” pela falta do alimento.

•  Ele suga com força – tem vontade de ingerir o alimento.

•  Sua alimentação é periódica – regularidade que se impõe.

iii) Genuíno leite espiritual – a Palavra de Deus não adulterada. Este ensino não entra em choque com o de Paulo em 1Coríntios 3.1-2.

iv) Crescimento para a salvação – salvação como livramento final dos crentes.

c) Advertências

1ª) Só esvaziamento não produz desenvolvimento/amadurecimento espiritual!

2ª) Só enchimento é teorização das Escrituras. Só acelerar é apenas barulho, embora com aparência de mobilidade/desenvolvimento.

d) Imaturidade versus maturidade cristã

No quadro abaixo apresentamos uma comparação resumida entre os sinais da Imaturidade Cristã e da Maturidade Cristã, para sua reflexão.

SINAIS DE IMATURIDADE CRISTÃSINAIS DE MATURIDADE CRISTÃ
01. EGOÍSMO
Só pensam em si mesmos e querem tudo para si.
01. ALTRUÍSMO
Pensam nos outros e investem na obra do Senhor.
02. INSEGURANÇA
    Têm medo e se desesperam nos momentos e situações mais difíceis da vida.
02. CONFIANÇA
Entregam sua vida ao Senhor e confiam nele em toda e qualquer situação (Sl 37.5)
03. PRECIPITAÇÃO
Realizam ações sem pensar. Foco apenas no hoje e no aqui e agora.
03. PONDERAÇÃO
Analisam bem a situação antes de agirem e tomarem decisões. Foco no hoje e no amanhã, não desprezando as lições que podem ser apreendidas “do ontem”.
04. INSATISFAÇÃO
Nada lhes agrada. Reclamam muito. Não sabem bem o que desejam e querem.
04. CONTENTAMENTO
Alegram-se e são fortalecidos no Senhor e na força do seu poder (Ef 6.10).
05. INQUIETAÇÃO
São inconstantes. Não se fixam e sossegam numa igreja.
05. QUIETUDE
Aquietam-se no Senhor, na força do seu poder e em servi-lo com integridade de coração (Sl 46.10).
06. REBELDIA
Não gostam de cumprir ordens ou normas.
06. OBEDIÊNCIA
Obediência, juntamente com a disciplina, são suas marcas características.
07. SUPERFICIALIDADE
São rasos no conhecimento da palavra de Deus, negligentes na vida devocional e inconstantes na participação nos cultos. Seguem mais os homens e do que a Cristo.
07. PROFUNDIDADE
São ávidos pelo conhecimento da palavra de Deus, perseverantes na vida devocional e constantes na participação nos cultos.
08. ENVOLVIMENTO
Disposição apenas de participar da igreja, sem ter que pagar o preço do sofrimento por amor a Cristo e ao outro.
08. COMPROMETIMENTO
Têm determinação para assumir compromisso com Cristo e sua igreja, estando dispostos a pagar o preço do sofrimento por amor a Cristo e ao outro.
09. VIDA FÚTIL
Têm o foco nas coisas efêmeras desta vida e na prosperidade material.
09. VIDA FRUTÍFERA
Têm o foco nas coisas lá do alto, onde Cristo está, e no cumprimento de sua missão neste mundo.
10. CARNALIDADE
Nos seus atos prevalece a natureza humana caída (cristão carnal).
10. ESPIRITUALIDADE
Manifestam a natureza de Cristo nos seus atos e em sua vida. Busca da reprodução da imagem de Cristo. Manifestação do “Fruto do Espírito” (Gl 5.22-23)

[1] Antígeno é toda substância estranha ao organismo que desencadeia a produção de anticorpos.