JOSÉ, exemplo de recomeço

“Há muitos planos no coração do ser humano, mas o propósito do Senhor permanecerá.” (Pv 19.21 NAA)
“Os passos de cada pessoa são dirigidos pelo Senhor; como poderá alguém entender o seu próprio caminho?” (Pv 20.24 NAA)

Introdução

O soneto “As Pombas”, de autoria do poeta brasileiro Raimundo Correia (1859-1911), é um dos destaques do movimento parnasiano brasileiro (final do século XIX).

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

O soneto menciona pombas e a Bíblia também. Ainda que Noé, dentro da Arca e depois do dilúvio, tenha soltado uma pomba por três vezes: a primeira retornou significando que era tempo de espera e paciência; a segunda retornou com uma folha nova de oliveira no bico, sinal de vida, recomeço e esperança; a terceira já não retornou, significando que era tempo de agir, de sair da Arca, de seguir em frente, de recomeçar  (Gn 8.8-12). Ainda que a pomba seja uma ave importante no cristianismo, uma representação do Espírito Santo – simplicidade e pureza (Mt 3.16; 10.16; Jo 1.32). Ainda que as pombas recebam certo protagonismo neste soneto, a intenção do poeta é outra; vai além das pombas e sua rotina de vida.

O soneto descreve, inicialmente, o revoar rotineiro das pombas, nas suas idas e vindas cotidianas. O poeta faz uma conexão entre estas e os sonhos. Sua intenção é a de trazer à tona e nos fazer refletir sobre a efemeridade da vida. No final estabelece uma relação com as fases da existência humana, sendo que, desde o alvorecer da vida, desde o azul da adolescência, cada dia que passa é um sonho ou uma ilusão que morre. Sem dúvida o soneto carrega uma preocupação existencial, uma visão pessimista da vida, com pensamentos que dão asas à imaginação, com sonhos que se projetam entre o céu e a terra, mas que nunca se concretizam. No crepúsculo da vida, não mais serão lembrados. Será que é assim mesmo? Será que foi assim na vida de José? Será que isso é determinante na vida humana?

Uma das histórias mais lindas,  emocionantes e impactantes da Bíblia é a de José, um dos doze filhos de Jacó. É justo considerar que José é a própria encarnação do conceito de recomeço e de resiliência após recorrentes situações pessoais trágicas e devastadoras. Pode-se afirmar que, diante das calamidades pelas quais ele passou, de forma humanamente solitária, o que de fato o sustentou e o fez sempre seguir com a vida foi a sua confiança e dependência de Deus. O que o salmista declarou era uma realidade em sua vida: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança. Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei jamais abalado.” (SI 62.5 e 6).

1. RESILIÊNCIA DIANTE DA REJEIÇÃO

“Ora, Israel amava mais a José que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice; e fez-lhe uma túnica talar de mangas compridas. Vendo, pois, seus irmãos que o pai o amava mais que a todos os outros filhos, odiaram-no e já não lhe podiam falar pacificamente.” (Gn 37.3-4)

O nascimento de José se deu em condições especiais, pois sua mãe Raquel era estéril. Depois de longa espera, humilhação e vergonha, em resposta ao seu clamor a Deus, Raquel concebeu (Gn 30.22-24). Sendo Raquel a esposa predileta de seu pai (Gn 29.30) e tendo ele vindo ao mundo por milagre divino, Jacó tratava José com predileção e distinção (Gn 37.3), o que provocava ciúme e rejeição por parte dos demais irmãos (Gn 37.4, 11).

A história de José é narrada a partir de Gênesis 37. Ainda muito jovem, com 17 anos, ele não estava isento do trabalho. Pastoreava os rebanhos da família com os demais irmãos. Desde o início temos a impressão de que a índole de José era piedosa, contrastando assim com a dos seus irmãos, bem conhecida principalmente no incidente com Diná (Gn 34). Como filho predileto, ele parece estar sempre disposto a defender os interesses do pai, denunciando corajosamente os erros de conduta dos irmãos, ainda que comprometendo o seu relacionamento com eles. No conceito dos irmãos José não devia passar de um sujeito mimado e “dedo duro”.

A vida de José é marcada por sonhos e interpretações de sonhos. As palavras “sonho” e “sonhos” aparecem aproximadamente 27 vezes (32 %) na história de José, 27 (32 %) em Daniel e 31 (36 %) outras vezes no restante da Bíblia, num total de 85 vezes.

Uma das definições de sonho é “conjunto de ideias e imagens que se apresentam ao espírito durante o sono” . Outra definição secular fala em “sequência de ideias vãs e incoerentes”.  Em Jó 33.14-24 Eliú, em seu discurso, diz que Deus fala aos homens por meio de sonhos (vv.15-16), por meio da dor (vv.19-22) e por meio de anjos (v.23). Quando o escritor de Hebreus diz que Deus falou de “muitas maneiras” certamente ele tinha em mente o “sonho”, canal bastante utilizado por Deus.

A mensagem profética contida nos dois sonhos de José estava muito além da compreensão deles e só fez agravar o  já crítico relacionamento familiar. De fato, Deus pretendia deixar bem claro que José haveria de ter proeminência sobre toda a casa de Jacó. No primeiro sonho, sobre seus irmãos, sendo cumprido em Gênesis 42.6, 9; 43.26; 44.14. No segundo, sobre seus  pais, sendo cumprido em Gênesis 47.11-12).

Não é difícil imaginar o quanto era aflitivo e angustiante para José ter que conviver, dia após dia, com o ódio e rejeição dos irmãos. Ódio esse tão exacerbado e ácido que os levaram a conspirar para o matar. Porém, Deus não o permitiu. Então, eles o lançaram numa cisterna e depois o venderam para uma caravana de ismaelitas que seguia para o Egito. Pode-se dizer que, nas suas mentes, eles o assassinaram.

Portanto, mesmo diante de tanto ódio e rejeição José não se deixou abater, não se tornou uma pessoa revoltada ou deprimida, não se prostrou derrotado diante das circunstâncias. Dia após dia ele procurava viver uma vida plena e em obediência ao seu pai. Quanto aos sonhos que tivera certamente ele não fazia ideia de que tudo aquilo fazia parte do plano de Deus para a sua realização.

Que tipo de rejeição você tem enfrentado em casa ou por causa da sua família? Não é o(a) filho(a) predileto(a) dos pais? Seu pai ou sua mãe ou ambos te abandonaram (literal ou emocionalmente)? São os erros ou a má fama de alguém de sua família? A condição social ou racial da sua família? Suas limitações ou deficiências ou deformidades físicas? Não encarne a posição de eterna vítima! Não viva murmurando! Firme-se em Deus e na força do seu poder. Mesmo quando você não estiver entendendo bem as circunstâncias adversas, siga em frente, espelhe-se em José!

2. RESILIÊNCIA DIANTE DA ESCRAVIDÃO

“José foi levado ao Egito, e Potifar, oficial de Faraó, comandante da guarda, egípcio, comprou-o dos ismaelitas que o tinham levado para lá. O SENHOR era com José, que veio a ser homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio.” (Gn 39.1-2)

Assim que chegou ao Egito José foi comprado, como escravo, por Potifar, um oficial de Faraó. Não é fácil se colocar no lugar de José e perceber o impacto psicológico e emocional de deixar a casa paterna, onde ele era livre e o predileto do pai, para viver essa nova e terrível condição de escravo numa terra estrangeira. Na casa deste oficial ele progrediu admiravelmente, a ponto de ser promovido como administrador e mordomo de tudo o que tinha o seu senhor (Gn 39.1-6a). Mais uma vez é notório que José ressurgiu das cinzas, não se deixou abater, buscou forças em Deus e seguiu em frente. E Deus abençoou a casa de Potifar, por amor a José (Gn 39.5).

Que tipo de dificuldade você tem enfrentado na escola ou no seu local de trabalho? Sua condição social ou racial? Suas limitações ou deficiências ou deformidades físicas? Sua fé em Cristo? Sua postura, princípios e valores, hábitos e conduta de vida? Assédio moral ou sexual? Não encarne a posição de eterna vítima! Não viva murmurando! Firme-se em Deus e na força do seu poder. Mesmo quando você não estiver entendendo bem as circunstâncias adversas, siga em frente, espelhe-se em José!

3. RESILIÊNCIA DIANTE DA INJUSTIÇA

“José era formoso de porte e de aparência.” (Gn 39.6b)

Não é incomum encontrar na narrativa bíblica alguma referência ao aspecto físico de uma pessoa. Sara (Gn 12.11, 14), Rebeca (Gn 24.16; 26.7) e Raquel (Gn 29.17); bisavó, avó e mãe de José, respectivamente, também foram mencionadas como formosas. Assim como a beleza dessas suas ascendentes representou perigo para seus maridos diante de governantes estrangeiros, parece que a beleza (física e intelectual) de José despertou a atenção e o interesse da mulher do seu senhor. Sendo cotidianamente assediado sexualmente pela pérfida e mentirosa mulher de Potifar, José resistiu firmemente. É digno de destaque o seu argumento dirigido a ela, demonstrando seu inegociável respeito ao seu senhor e, acima de tudo, sua determinação de não pecar contra Deus (Gn 39.10). Sua fidelidade a Deus e ao seu senhor fizeram com que a mulher de Potifar armasse uma cena típica da dramaturgia moderna que a colocou no papel de vítima inocente e a José no papel de vilão pervertido. Assim, ele foi parar no cárcere do rei (Gn 39.10-20).

“O SENHOR, porém, era com José, e lhe foi benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro; o qual confiou às mãos de José todos os presos que estavam no cárcere; e ele fazia tudo quanto se devia fazer ali.” (Gn 39.21-22)

Parece que a frase “não existe nada tão ruim que não possa piorar” foi cunhada a partir da história de José. Diante do descalabro e da injustiça sofrida será que José ainda se lembrava dos sonhos que tivera? De onde poderia ele tirar forças para se reerguer diante de sua condição de privação da liberdade de ir e vir e da reputação assassinada por uma mentirosa? Estando no fundo do poço será que valeria a pena lutar ou era melhor se entregar de vez, deixando-se dominar pelo desânimo, depressão até à morte. É relevante observar que o Senhor Deus nunca o desamparou e lhe renovou as forças para continuar. Mas, será que haveria algo que pudesse despertar seu interesse dentro de um cárcere? Com a bênção divina José encontrou favor e amizade da parte do carcereiro-mor e este usou as habilidades do escravo encarcerado para ajudá-lo na administração daquele lugar (Gn 39.21-23).

José não poderia imaginar que aquele lugar seria o trampolim para a sua ascensão ao ponto mais alto da sua vida. Ali ele interpretou os sonhos de dois encarcerados que serviam ao rei do Egito (copeiro-chefe e padeiro-chefe) que se cumpriram. Restaurado às suas funções no palácio, durante dois anos o copeiro-chefe esqueceu-se de apelar em favor de José, conforme este lhe pedira. Mas José, não se deixou abater e nunca perdeu a esperança no seu Deus! (Gn 40).

Que tipo de injustiça você tem enfrentado na vida? Foi ou está sendo acusado(a) ou punido(a) por algo que não fez? Está sendo preterido de uma promoção no trabalho? Está se sentindo desprestigiado na igreja apesar de se desgastar na obra de Deus? Foi vítima de alguém e os responsáveis não estão tomando qualquer providência? Estão dando mais atenção a outros do que a você? Não adote aquela postura de vitimização permanente! Não viva murmurando! Firme-se em Deus e na força do seu poder. Mesmo quando você não estiver entendendo bem as circunstâncias adversas, siga em frente, espelhe-se em José!

4. O TRIUNFO DA RESILIÊNCIA DE JOSÉ

“Disse Faraó aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus? Depois, disse Faraó a José: Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão ajuizado e sábio como tu. Administrarás a minha casa, e à tua palavra obedecerá todo o meu povo; somente no trono eu serei maior do que tu. Disse mais Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre toda a terra do Egito.” (Gn 41.38-41)

A fé é posta à prova nos inevitáveis e pedagógicos desafios da vida. Durante treze anos, dos 17 aos 30 anos,  José passou por uma série de tragédias pessoais (Gn 37.2; 41.46). Nas crises e angústias, as tentações são grandes; a tendência é queixar-se de Deus, acusar os outros e cair no desespero. José, porém, sofrendo injustamente e vivendo longe da casa paterna, continuava firme em sua fé e na fidelidade a Deus. E Deus estava com ele, na cisterna, na casa de Potifar e no cárcere.

A prosperidade e ascensão social podem ser consideradas outros tipos de tentação. Muitos crentes que progrediram na vida, intelectual e financeiramente, acabaram se desviando da fé. A promoção material induz a pessoa à ambição material, à negligência nos deveres espirituais e ao orgulho, julgando-se superior aos outros. José foi elevado ao posto de governador do Egito e não se afastou dos caminhos de Deus, conservando seu testemunho de fé e temor ao Senhor. É como disse Jesus: “….; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (Mt 25.21)

“Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito.” (Gn 45.8)

José recebeu a missão divina de conservar a vida (Gn 45.5). A nação egípcia foi abençoada pela sua administração, bem como muitos povos foram beneficiados. Seus irmãos foram perdoados e por sua influência encontraram um lugar onde puderam morar em paz e segurança. Ali a nação de Israel floresceu. Deus estava no controle conduzindo toda a sua trajetória! Aleluia!

Conclusão

José, sem dúvida, deve ter ficado atordoado e perplexo, diante de situações catastróficas ao longo da sua vida. Primeiramente, no poço ou cisterna vazia, esperando a morte; depois vendido para ser escravo; mais tarde colocado na prisão devido a uma acusação falsa da mulher do seu senhor. Enquanto estava na prisão foi esquecido por um homem que ele ajudou e, por fim, foi elevado para ser o governador em toda a terra do Egito no tempo duma crise alimentar iminente.

É notório que sua fé se mantinha viva ou aumentava a cada prova. Deus nunca dá spoiler da trajetória ou curso da nossa vida! É preciso viver pela fé e na sua dependência. Não havia qualquer possibilidade dele entender o plano divino e como aqueles sonhos seriam concretizados.

Confiança nas circunstâncias variadas e às vezes, devastadoras, é constantemente exigido dos filhos de Deus. Não entendemos e não podemos entender completamente os propósitos de Deus, mas somos admoestados a continuar perseverantes no conhecimento de que Deus está no controle e nunca vai nos deixar e nem nos desamparar. No caso de José, as experiências contribuíram para o aprimoramento da sua fé. Isto aconteceu somente porque ele confiou em Deus em todos os momentos e circunstâncias, por mais variadas e instáveis que fossem. Seu exemplo se toma uma inspiração para nós quando o caminho parece escuro e incerto. Deus ainda está operando entre nós e continuará a realizar os seus propósitos!

Algumas das virtudes de José devem marcar a nossa vida e caminhada cristã: Temor a Deus, Fé Inabalável, Paciência, Perseverança, Caráter ilibado, Coragem, Humildade, Honestidade, Espírito Perdoador, Amor, Generosidade e Misericórdia. José é um bom exemplo de pessoa que se tornou bênção nas mãos de Deus: no lar, na casa de Potifar, no cárcere e no governo. Deve inspirar o crente em qualquer circunstância: nos afazeres comuns, no exercício da profissão, nas provações ou circunstâncias adversas ou nas posições de maior destaque.

Finalmente, o que dizer dos seus sonhos? O poeta do soneto inicialmente mencionado tem ou não razão? Você teve ou tem sonhos? Os seus sonhos são apenas seus ou também são os sonhos de Deus? “Ninguém pode realizar grandes obras sem ser um sonhador. O espírito humano concebe as coisas do futuro. Os pais sonham carreiras para os seus filhos; eles sonham o que estes serão em suas vidas. Isto é bom, desde que seja para a glória de Deus.” (Jabes Lopes de Souza)

“Se você, meu irmão, é capaz de sonhar, como sonhou José, vendo o invisível e esperando o amanhã radiante que a próxima alvorada trará, mesmo que primeiramente tenha de passar pela provação, porém não permitindo que a fantasia, a utopia, se aninhem na mente, de tal maneira que os planos do Senhor se tornem secundários. Certamente você é um servo de Deus, e sobre você está a unção do Altíssimo.” (Pr. Amaury de Souza Jardim – adaptado)

………………………….

Para reflexão

Dentre as muitas lições que podemos extrair da história de José, mencionamos apenas algumas:

– Poligamia gera confusão e desarmonia.
– Predileção por filhos produz desagregação familiar.
– Deus é soberano para levantar líderes que cumpram uma missão específica.
– A inveja é voraz e destruidora.
– Os métodos de Deus desafiam a lógica humana.


Veja, também o Estudo: JOSÉ, um tipo de Cristo

Crise e Esperança

Introdução

Comecemos relembrando os conceitos de Crise e Esperança.

Crise (gr. krisis; latim crisis) – Alteração no desenvolvimento normal de algo. Situação de tensão ou aflitiva. Desequilíbrio emocional ou nervoso súbito. Falta ou escassez de algo. Situação difícil, anormal e grave.

Esperança – é o ato de esperar aquilo que se deseja obter. Ter esperança é acreditar que alguma coisa muito desejada vai acontecer. (Antônimo: desespero)

SENSIBILIZAÇÃO

Nesta breve reflexão sobre o tema faremos, inicialmente, uma abordagem existencial, buscando a sensibilização de cada um quanto a aspectos que às vezes passam despercebidos no nosso cotidiano. Assim, sem atentarmos para eles, deixamos de evitar crises; ou, passando por crises, somos sufocados por elas, a ponto de quase sucumbir.

1. A REALIDADE DA CRISE

Imaginem este diálogo entre Adão e Eva: – Adão, meu marido, por que os rapazes ainda não chegaram para o almoço? Eles não costumam demorar tanto. – Minha querida, Abel estava cuidando do rebanho quando vi Caim chegar perto dele e, então os dois saíram em direção ao campo onde Caim estava trabalhando. Depois disso não os vi mais. – O que será que está acontecendo? É melhor você ir lá chamá-los. Algum tempo depois Adão retorna para casa, transtornado. Quando Eva o vê daquele jeito fica aflita. – O que aconteceu de tão grave, meu marido? Onde estão os rapazes? – Minha querida, nem sei como te dizer isso. (choro e suspiros). – Adão, você está me apavorando. Fala logo! Com muita dificuldade ele diz: – Meu amor, eu encontrei o corpo de Abel no chão, ensanguentado e pálido. Ele está morto! Não vi Caim. Desesperada ela sai ao encontro de Abel, gritando: – Meu Deus, isso não! Meu filhinho amado, não!

E, assim, desde as mais remotas épocas, as crises estão presentes nas famílias. Um descendente de Caim falou assim: “E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou.” (Gn 4.23). Ao longo da história bíblica e da humanidade, de uma forma ou de outra, todas as famílias enfrentaram crises: Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Jó, Anrão e Joquebede, Naamã, Elcana e Ana, Davi,…., José e Maria, os apóstolos etc. A crise é uma realidade; não é exclusividade de uma determinada pessoa ou família. Jesus nos preveniu: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33; ver Rm 8.31-39).

Entretanto, precisamos refletir sobre algumas questões: Determinadas crises podem ser evitadas?  Por que, aparentemente, alguns passam por mais crises do que outros? É preciso ter uma vida/família estruturada, organizada e equilibrada para estar mais disponível para ajudar outras pessoas e famílias!

2. OS AGENTES DA CRISE

a) As crises têm causas (naturais, humanas e sobrenaturais)

CAUSAS NATURAIS – desastres naturais, tempestades e enchentes, seca prolongada, epidemias e pandemias, doenças congênitas, doenças adquiridas (incuráveis), deficiências orgânicas causadas pelo envelhecimento do corpo, morte na família, dentre outras.

CAUSAS HUMANAS – são aquelas provocadas pelo ser humano; pelo próprio ou pelo outro; por suas ações e omissões; por suas invenções; seus governos ou desgovernos, por acidentes que provocam, dentre outras.

CAUSAS SOBRENATURAIS – são aquelas que acontecem devido à intervenção divina, inclusive os seus juízos; também aquelas provocadas pelo Diabo, com a permissão de Deus.

Vejamos, como exemplo, algumas crises mais relevantes ocorridas.

Nos primeiros meses de 2019:
– Brumadinho (rompimento de barragem – MG)(JAN)
– CT do Flamengo (incêndio)(FEV)
– Ricardo Boechat (queda de helicóptero)(FEV)
– Escola Raul Brasil-Suzano/SP (massacre)(MAR)
– Enchentes (várias cidades)(JAN-MAR)

Nos primeiros meses de 2020:
– Enchentes (várias cidades)(JAN-MAR)
– Pandemia do coronavírus (FEV-???)

Em mais de 6 décadas de vida nunca vivenciei uma crise como esta listada por último. Entretanto, a maior parte das crises que nos afetam tem causa humana. Se investigarmos essas causas humanas, certamente identificaremos alguns fatores comuns, tais como:

– Falta de prevenção/atenção ou descuido/negligência.
– Falta de responsabilidade/respeito.
– Ganância, egoísmo.

E, na base de todas as causas, o pecado!

b) Há situações que podem provocar crises (faltas, perdas)

É a perda ou falta de ente queridos, da saúde, do emprego, de relacionamentos, de bens, de respeito (booling), da consideração, de segurança, de confiança no outro.

Resiliência é uma palavra que se torna cada vez mais conhecida. É um termo que vem da física, como o fenômeno de retorno da mola, quando cessa a pressão sobre ela; é o retorno à posição vertical daquele boneco “João teimoso”. Na psicologia, significa o poder de recuperação do indivíduo após ser submetido a situações estressantes e dolorosas, a perdas, a calamidade. “O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de uma construção; se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males” (Dr. Alberto D’Auria).

Precisamos ser como bambus e varas verdes, que se dobram sob a pressão do vento, mas não se quebram. A vida é feita de perdas e ganhos, não podemos paralisá-la diante das perdas. Em nome de Jesus é preciso se libertar do passado. Isso é doentio!

c) As crises oferecem a oportunidade de reavaliação da vida, de comportamentos.

Às vezes se vive uma vida mediana, inexpressiva, marcada pelo comodismo. Aí, acontece uma crise, e com ela a reavaliação de tudo, provocando as mudanças necessárias.

Alguns vivem de forma fútil, confortável, porém vazia; focados nos bens, valores e prazeres materiais. Aí surge a crise e a pessoa redireciona o foco da sua vida para o que realmente tem valor.

d) As crises oferecem a oportunidade de um novo começo.

– Após a trágica morte de Abel temos o seguinte registro bíblico; porque é preciso seguir adiante: “Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou.” (Gn 4.25)

– Há “crises” e “perdas” que produzem vida. Jesus afirmou: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12.24)

– Assim respondeu Jó aos seus amigos: “Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos.” (Jó 14.7)

No canteiro abaixo fica fácil ilustrar essa ideia de recomeço.

Relembrando….

a) As crises têm causas (naturais, humanas e sobrenaturais)
b) Há situações que podem provocar crises (faltas, perdas)
c) As crises oferecem a oportunidade de reavaliação da vida, de comportamentos.
d) As crises oferecem a oportunidade de um novo começo.

3. A REALIDADE DA ESPERANÇA

A esperança é um ato desenvolvido por quem está vivo!  “Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto.” (Ec 9.4)

a) A esperança é invisível aos olhos naturais.

“Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?” (Rm 8.24)

Ainda que invisível, a verdadeira esperança não é fruto do imaginário, não é abstrata, não é ilusória, não é vã, não é baseada em crendices e nem nos discursos fantasiosos dos profissionais de autoajuda. Mas ela pode ser contemplada pelos olhos da fé. De onde ela vem?

b) A esperança tem procedência certa.

“Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.” (Sl 62.5)

“Bendito o homem que confia no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR.” (Jr 17.7)

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,” (1Pe 1.3)

De nada adianta colocar nossa fé e nossa esperança em pessoas e coisas; em falsos deuses e falsas promessas.

c) A esperança se extingue quando Deus é deixado de lado.

“Mas eles dizem: Não há esperança, porque andaremos consoante os nossos projetos, e cada um fará segundo a dureza do seu coração maligno.” (Jr 18.12)

Quando o ser humano decide ser o protagonista exclusivo do seu caminho, do seu destino; cativo da sua própria vontade e rompendo com Deus e sua vontade, fica à deriva ao sabor da própria sorte. Como decorrência do que foi dito no item anterior, isso é o que acontece quando se deixa de lado a fonte da esperança.

d) A esperança transpõe os portais da eternidade

“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1Co 15.19)

“por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho,” (Cl 1.5)

A Bíblia se expressa de forma clara e objetiva sobre o assunto. Porém, por vezes, nos envolvemos tão fortemente com as coisas desta vida que nos esquecemos de quanto a existência terrena é curta e transitória. Daí, quando surge uma ameaça efetiva à sua continuidade perdemos o chão.

e) A esperança precisa ser cultivada

“Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Rm 15.4)

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21)

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.” (Rm 5.3-4)

Sem dúvida é a palavra de Deus guardada em nossas mentes e corações e o testemunho verdadeiro de como Deus tem sustentado os seus filhos que há de nos suprir e fortalecer o ânimo e prover-nos de força interior para resistir no dia mau.

f) A esperança renova a alegria de viver

“regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes;” (Rm 12.12)

“E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13)

Nem sempre a vida é tão generosa conosco, cristãos ou não. No entanto, a esperança do cristão é real e verdadeira conseguindo produzir nele a renovação da alegria de viver, de seguir adiante.

g) Não desista da esperança!

“Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência.” (Rm 4.18)

“na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Rm 8.21)

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (1Co 13.13)

“E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro.” (1Jo 3.3)

Vale lembrar aquelas máximas populares: “Enquanto há vida, há esperança”; “A esperança é a última que morre”. Portanto, por mais difícil que seja a situação ou mais improvável que seja a realização ou a solução, a mensagem é “não desista, mantenha a esperança!”

h) Somos chamados para sermos agentes da esperança

“Pois quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?” (1Ts 2.19)

“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15)

Por fim, acima e além de ter esperança, o chamamento divino através do apóstolo Paulo é para encarnarmos a esperança cristã. Assim, personificando a esperança, temos a missão de ir e transmiti-la a quem dela necessitar.

Relembrando….

a) A esperança é invisível aos olhos naturais.
b) A esperança tem procedência certa.
c) A esperança se extingue quando Deus é deixado de lado.
d) A esperança transpõe os portais da eternidade.
e) A esperança precisa ser cultivada.
f) A esperança renova a alegria de viver.
g) Não desista da esperança!
h) Somos chamados para sermos agentes da esperança.

Conclusão

É preciso ter uma postura correta no cotidiano para prevenirmos crises e evitarmos ser Agentes da Crise!

É preciso ter uma vida/família estruturada, organizada e equilibrada para estar mais disponível para ajudar outras pessoas e famílias!

Num mundo envolto em tantas crises, sejamos sempre proativos, sejamos Agentes da Esperança!

Os invernos e as primaveras da vida

Balança

Introdução

A vida é feita de contrastes. A primavera segue o inverno. São estações de grande contraste. Nas regiões mais frias, o inverno imobiliza, intranquiliza, congela, enrijece a face, destrói a natureza e descolore as paisagens. Na primavera voltam as folhas, as flores, o calor moderado, as cores e a alegria da continuidade da vida.

A vida é feita de invernos e primaveras, de tristezas e alegrias, de escassez e de fartura, enfim, de perdas e ganhos. O grão de trigo “morre” primeiro, para depois produzir muito fruto (Jo 12.24). O homem “perde” o sêmen da vida, a mulher o “ganha” e uma nova vida física é gerada. Deus “perdeu” o seu Filho unigênito, Jesus Cristo, o mundo “ganhou” o Salvador, o autor da nova vida, da vida espiritual e eterna (Jo 3.16).

1. As crises de passagem da vida

A vida é feita de perdas e ganhos contínuos, necessários e indispensáveis ao desenvolvimento da criatura humana.

a) Útero Materno → “Útero Familiar”

No Nascimento, deixamos o útero materno, com todo o seu aconchego e nutrientes, mas ganhamos o acolhimento do “útero familiar”. Tal processo envolve uma verdadeira e dolorosa crise de passagem, do mundo interior para o mundo exterior; entretanto, proporciona novos desafios, condições de crescimento, oportunidades de relacionamento.

b) “Útero Familiar” → “Útero Social”

Da infância à juventude, deixamos gradativamente o convívio no “útero familiar”, para participar do “útero social”. Tal processo, igualmente envolve crises de passagens, desde o primeiro dia quando a criança passa um bom tempo numa creche ou numa escola, longe da sua zona de conforto familiar. Na sua juventude, também tem que deixar para trás o aconchego da vida acadêmica e seus amigos, para participar dos desafios da vida profissional, em ambientes de muita competição e esforço para manter seu emprego.

c) “Útero Familiar” → “Novo Útero Familiar”

Em algum momento da juventude ou da vida adulta também é necessário deixar, definitivamente, o “útero familiar” para constituir um “novo útero familiar”, através do casamento. Mais uma crise de passagem acontece, mais crítica para uns do que para outros, mas que vem sempre acompanhada de novas e grandes responsabilidades e desafios, como pagar contas, se relacionar bem com o cônjuge, gerar e criar filhos.

d) “Novo Útero Familiar” → “Novo Útero Social”

Ainda na velhice as crises de passagem continuam a acontecer. São os filhos, a que estávamos tão apegados, crescendo e seguindo seus próprios caminhos. Perdemos sua companhia e ganhamos mais tempo para nós, mais liberdade para ir e vir. Alguns chegam a lidar com a Síndrome do Ninho Vazio. Profissionalmente, a carreira se encerra, chega a aposentadoria. É tempo de se envolver com novos grupos de afinidade e levar a vida sem deixar de se sentir útil. É tempo de cuidar dos pais até o último suspiro deles. Enfim, chega também o dia triste e agonizante de se despedir para sempre do cônjuge amado, lançando sobre o seu caixão a última flor. É chegada a hora de decidir o que fazer da vida, ou, dependendo da situação, de seguir o caminho que decidiram por nós.

e) “Útero Terrestre” → “Útero Espiritual”

Ninguém dura para sempre. Então, finalmente chega o dia em que se cumpre o que diz a Bíblia: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Ec 12.7) É tempo de deixar a carcaça neste “útero terrestre” e ser recebido na glória eterna, pelo Pai Celestial, privilégio esse reservado a todos os que creram e receberam a Jesus como seu Salvador e Senhor. É hora de mudar de dimensão e conferir de perto a promessa do Senhor: “mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1Co 2.9)

2.  Lidando com as perdas da vida

“Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol.” (Ec 4.2-3)

Certamente os últimos dias do Rei Salomão não foram tão radiantes assim. Basta ler o livro de Eclesiastes para perceber o sentimento de frustração de um rei que teve tudo o que um mortal poderia usufruir dessa vida terrestre: poder, sabedoria, riqueza, realizações, fama, sexo, prazer, conforto etc etc. Sua conclusão é que os mais felizes são os que não nasceram, em segundo lugar os que já morreram e em terceiro e último lugar, os que ainda vivem, os que ainda estão respirando e lendo este artigo, por exemplo. Segundo ele, viver é ter que continuar assistindo e ao alcance de toda a maldade humana.

É preciso guardar todos os bons momentos proporcionados pela vida, para ajudar a contrabalançar os maus momentos que temos que passar. Na bíblia, na história, na sociedade, no nosso círculo de amizades, na nossa família, muitos são os exemplos de perdas que provam a existência desse lado sombrio da vida. Jó tinham muitos bens e uma grande família. De forma repentina foi esvaziado de tudo, inclusive de sua saúde. Jacó lutou muito, até com Deus, para realizar seus projetos pessoais. De repente foi privado de sua esposa amada, Raquel, e de seu filho predileto, José. Por pouco ele não sucumbiu a tamanha perda. Conheci uma serva de Deus que, depois de perder seu marido, repentinamente perdeu de uma só vez, num acidente, as três filhas jovens. Pela graça de Deus ela voltou a casar e a sorrir. Com Deus ao nosso lado, sempre é possível recomeçar. Já imaginaram quantas perdas as pessoas têm sofrido na história da humanidade? São pais com filhos desaparecidos, sequestrados ou mortos violentamente que nunca mais retornaram ao convívio da família. São famílias inteiras dizimadas em acidentes aéreos, terrestres e marítimos; em desastres naturais, catástrofes e epidemias. Não dá para seguir a vida com os olhos fixos no mal que nos cerca. Antes, porém, é bem melhor seguir o conselho do profeta de Deus: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21). É preciso contar as bênçãos e se fixar nelas!

Não é fácil aceitar a morte de um ente querido idoso; quando se trata de alguém jovem, muito menos ainda. Quando estamos numa embarcação que naufraga precisamos nos apoiar em algo para não afundar. Se não há botes ou coletes à disposição, os destroços disponíveis, apesar de paliativos,  são quebra-galhos bem-vindos. Quando se lida com uma grande perda é comum questionar a Deus: “Por que? Ou, Para que?” Isso está acontecendo… Como num naufrágio necessitamos avidamente de algo concreto em que nos apoiar, de uma resposta que faça calar nossos questionamentos e inconformismo com tão abrupta e inesperada perda. Um “destroço” qualquer já ajudaria. Pensei, então, em alguns “destroços”:

1º) O Senhor Deus o queria tanto que o tomou para si, como fez com Enoque e Elias.

2º) O Senhor o poupou do mal ou do mau que estava por atingi-lo (“Perece o justo, e não há quem se impressione com isso; e os homens piedosos são arrebatados sem que alguém considere nesse fato; pois o justo é levado antes que venha o mal”) (Is 57.1)

3º) Sua missão era curta e exigia um fim “trágico” para impactar vidas e alcançar os propósitos de Deus (Estêvão – At 7, missionários em terras hostis etc).

4º) Ele não era tão bom e santo quanto aparentava ser e a mão de Deus pesou sobre ele. Conheci pessoalmente pelo menos dois casos (um era cristão e o outro não), de homens casados que viviam em adultério oculto, que foi revelado nas suas mortes trágicas. Jamais conseguiremos saber se essas mortes “prematuras” foram punição de Deus; entretanto, o fato é que com Deus não se brinca!

5º) Ele confiava exageradamente em si mesmo, na sua justiça própria; e Deus o derrubou da sua altivez. O Jó da bíblia era um pouco assim.

Em vez de ficar se apoiando num desses “destroços” acima citados, é melhor admitir que o Senhor está no controle e ele quis assim: “o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21b). Lembre-se de que os “destroços da embarcação” são meios temporários e paliativos de sobrevivência. Você não pode viver à deriva nas águas de um “naufrágio existencial”. Logo, logo você irá sucumbir também. Mova-se imediatamente para terra firme onde é o seu lugar!

3. Lidando com os questionamentos

a) Se uma pessoa honra a pai e mãe, como pode morrer jovem?

Como entender a promessa de Deus: “Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra.” (Ef 6.2-3). Encontro, pelo menos três explicações para esta promessa:

1ª) Não há aqui uma garantia total de longevidade. O assunto da longevidade é muito mais amplo e complexo do que se pode imaginar. Nossa vida não se resume a honrar pai e mãe, há muitas outras variáveis envolvidas. Jesus honrou os pais terrenos e o Pai Celestial e morreu jovem, com 33 anos.

2ª) Jesus disse: “Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.” (Mt 15.4; ver Ex 21.17 e Lv 20.9). Ou seja, quem destratasse a seu pai ou sua mãe, pela lei mosaica era sentenciado à morte. Assim sendo, poderia morrer como castigo, e não, mais adiante, por morte natural.

3ª) Finalmente, e para não me alongar muito, é fácil perceber que quem honra a pai e mãe, isto é, respeita-os e segue os seus bons conselhos tem muito maior probabilidade de viver mais do que quem os ignora.

b) Como contrair novas núpcias, sem culpa?

Se no dia do casamento você fez promessas ao cônjuge que se foi (morreu), lembre-se de que elas foram finalizadas assim: “até que a morte nos separe”. Assim, você foi fiel a ele(a) e agora está livre para assumir um novo relacionamento, se isso é exatamente o que você está precisando; se isso for o melhor para a sua vida. É bíblico (1Co 7.39); é previsto na lei de Deus e na lei dos homens e pode ser útil e necessário à sua sobrevivência. Como nas primeiras núpcias, é mais do que importante que isso seja feito com calma, maturidade e plena convicção do coração.

Guarde em sua mente a boa lembrança daquele(a) que se foi, mas retire-o(a) do seu cotidiano, caso contrário você viverá tropeçando em fantasmas e terminará sua vida na dependência de medicamentos ou num manicômio. Deixe o passado passar; diga “adeus” ou “até breve” ao(a) que se foi e vá em frente!

c) Como posso viver sem essa pessoa?

A vida precisa seguir ou retornar ao seu curso natural! Não coloque sobre si fardos que você não possa suportar! Deus dimensiona um fardo para cada um (Gl 6.5). Cuidado, pois o texto bíblico diz: “levai as cargas uns dos outros” (Gl 6.2) e não “Levai as cargas de todos os outros”!

Resiliência é uma palavra que se torna cada vez mais conhecida. É um termo que vem da física, como o fenômeno de retorno da mola, quando cessa a pressão sobre ela; é o retorno à posição vertical daquele boneco “João teimoso”. Na psicologia, significa o poder de recuperação do indivíduo após ser submetido a situações estressantes e dolorosas, a perdas, a calamidade. “O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de uma construção; se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males” (Dr. Alberto D’Auria). Precisamos ser como bambus e varas verdes, que se dobram sob a pressão do vento, mas não se quebram. A vida é feita de perdas e ganhos, não podemos paralisá-la diante das perdas. Em nome de Jesus é preciso se libertar do passado. Isso é doentio! Não vale a pena ficar no fundo do poço: “Então, disse eu: já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no SENHOR.” (Lm 3.18).

A depressão pode surgir do vazio da alma, pela perda de alguém ou de alguma coisa preciosa, que necessita ser preenchido imediatamente. Jesus nos ensinou isso. Quando ele estava para voltar para o Pai, sabedor do vazio que isso traria à almas dos discípulos, logo os confortou dizendo que quando ele fosse, enviaria o Consolador, o Espírito Santo. Não cultue o vazio; preencha-o com algo precioso!

Conclusão:

Não seja insensato nem insano, deixe o inverno passar e receba com ações de graças a primavera que Deus te oferece!

 

Nota: A motivação deste artigo foi a perda de um grande amigo, com 38 anos de idade, há um ano atrás (21/09/2012), de forma abrupta e inesperada. Um marido fiel, pai de três filhas, servo de Deus, executivo bem sucedido de uma grande empresa, carismático e espaçoso em nossos corações. Entretanto, cesse agora todo o choro e toda a lágrima porque ele está melhor do que nós, está com o Pai Celestial. E a vida precisa continuar. Nós iremos a ele, mas ele não mais virá a nós!

“o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21b)

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