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Os invernos e as primaveras da vida

Balança

Introdução

A vida é feita de contrastes. A primavera segue o inverno. São estações de grande contraste. Nas regiões mais frias, o inverno imobiliza, intranquiliza, congela, enrijece a face, destrói a natureza e descolore as paisagens. Na primavera voltam as folhas, as flores, o calor moderado, as cores e a alegria da continuidade da vida.

A vida é feita de invernos e primaveras, de tristezas e alegrias, de escassez e de fartura, enfim, de perdas e ganhos. O grão de trigo “morre” primeiro, para depois produzir muito fruto (Jo 12.24). O homem “perde” o sêmen da vida, a mulher o “ganha” e uma nova vida física é gerada. Deus “perdeu” o seu Filho unigênito, Jesus Cristo, o mundo “ganhou” o Salvador, o autor da nova vida, da vida espiritual e eterna (Jo 3.16).

1. As crises de passagem da vida

A vida é feita de perdas e ganhos contínuos, necessários e indispensáveis ao desenvolvimento da criatura humana.

a) Útero Materno → “Útero Familiar”

No Nascimento, deixamos o útero materno, com todo o seu aconchego e nutrientes, mas ganhamos o acolhimento do “útero familiar”. Tal processo envolve uma verdadeira e dolorosa crise de passagem, do mundo interior para o mundo exterior; entretanto, proporciona novos desafios, condições de crescimento, oportunidades de relacionamento.

b) “Útero Familiar” → “Útero Social”

Da infância à juventude, deixamos gradativamente o convívio no “útero familiar”, para participar do “útero social”. Tal processo, igualmente envolve crises de passagens, desde o primeiro dia quando a criança passa um bom tempo numa creche ou numa escola, longe da sua zona de conforto familiar. Na sua juventude, também tem que deixar para trás o aconchego da vida acadêmica e seus amigos, para participar dos desafios da vida profissional, em ambientes de muita competição e esforço para manter seu emprego.

c) “Útero Familiar” → “Novo Útero Familiar”

Em algum momento da juventude ou da vida adulta também é necessário deixar, definitivamente, o “útero familiar” para constituir um “novo útero familiar”, através do casamento. Mais uma crise de passagem acontece, mais crítica para uns do que para outros, mas que vem sempre acompanhada de novas e grandes responsabilidades e desafios, como pagar contas, se relacionar bem com o cônjuge, gerar e criar filhos.

d) “Novo Útero Familiar” → “Novo Útero Social”

Ainda na velhice as crises de passagem continuam a acontecer. São os filhos, a que estávamos tão apegados, crescendo e seguindo seus próprios caminhos. Perdemos sua companhia e ganhamos mais tempo para nós, mais liberdade para ir e vir. Alguns chegam a lidar com a Síndrome do Ninho Vazio. Profissionalmente, a carreira se encerra, chega a aposentadoria. É tempo de se envolver com novos grupos de afinidade e levar a vida sem deixar de se sentir útil. É tempo de cuidar dos pais até o último suspiro deles. Enfim, chega também o dia triste e agonizante de se despedir para sempre do cônjuge amado, lançando sobre o seu caixão a última flor. É chegada a hora de decidir o que fazer da vida, ou, dependendo da situação, de seguir o caminho que decidiram por nós.

e) “Útero Terrestre” → “Útero Espiritual”

Ninguém dura para sempre. Então, finalmente chega o dia em que se cumpre o que diz a Bíblia: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Ec 12.7) É tempo de deixar a carcaça neste “útero terrestre” e ser recebido na glória eterna, pelo Pai Celestial, privilégio esse reservado a todos os que creram e receberam a Jesus como seu Salvador e Senhor. É hora de mudar de dimensão e conferir de perto a promessa do Senhor: “mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1Co 2.9)

2.  Lidando com as perdas da vida

“Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol.” (Ec 4.2-3)

Certamente os últimos dias do Rei Salomão não foram tão radiantes assim. Basta ler o livro de Eclesiastes para perceber o sentimento de frustração de um rei que teve tudo o que um mortal poderia usufruir dessa vida terrestre: poder, sabedoria, riqueza, realizações, fama, sexo, prazer, conforto etc etc. Sua conclusão é que os mais felizes são os que não nasceram, em segundo lugar os que já morreram e em terceiro e último lugar, os que ainda vivem, os que ainda estão respirando e lendo este artigo, por exemplo. Segundo ele, viver é ter que continuar assistindo e ao alcance de toda a maldade humana.

É preciso guardar todos os bons momentos proporcionados pela vida, para ajudar a contrabalançar os maus momentos que temos que passar. Na bíblia, na história, na sociedade, no nosso círculo de amizades, na nossa família, muitos são os exemplos de perdas que provam a existência desse lado sombrio da vida. Jó tinham muitos bens e uma grande família. De forma repentina foi esvaziado de tudo, inclusive de sua saúde. Jacó lutou muito, até com Deus, para realizar seus projetos pessoais. De repente foi privado de sua esposa amada, Raquel, e de seu filho predileto, José. Por pouco ele não sucumbiu a tamanha perda. Conheci uma serva de Deus que, depois de perder seu marido, repentinamente perdeu de uma só vez, num acidente, as três filhas jovens. Pela graça de Deus ela voltou a casar e a sorrir. Com Deus ao nosso lado, sempre é possível recomeçar. Já imaginaram quantas perdas as pessoas têm sofrido na história da humanidade? São pais com filhos desaparecidos, sequestrados ou mortos violentamente que nunca mais retornaram ao convívio da família. São famílias inteiras dizimadas em acidentes aéreos, terrestres e marítimos; em desastres naturais, catástrofes e epidemias. Não dá para seguir a vida com os olhos fixos no mal que nos cerca. Antes, porém, é bem melhor seguir o conselho do profeta de Deus: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21). É preciso contar as bênçãos e se fixar nelas!

Não é fácil aceitar a morte de um ente querido idoso; quando se trata de alguém jovem, muito menos ainda. Quando estamos numa embarcação que naufraga precisamos nos apoiar em algo para não afundar. Se não há botes ou coletes à disposição, os destroços disponíveis, apesar de paliativos,  são quebra-galhos bem-vindos. Quando se lida com uma grande perda é comum questionar a Deus: “Por que? Ou, Para que?” Isso está acontecendo… Como num naufrágio necessitamos avidamente de algo concreto em que nos apoiar, de uma resposta que faça calar nossos questionamentos e inconformismo com tão abrupta e inesperada perda. Um “destroço” qualquer já ajudaria. Pensei, então, em alguns “destroços”:

1º) O Senhor Deus o queria tanto que o tomou para si, como fez com Enoque e Elias.

2º) O Senhor o poupou do mal ou do mau que estava por atingi-lo (“Perece o justo, e não há quem se impressione com isso; e os homens piedosos são arrebatados sem que alguém considere nesse fato; pois o justo é levado antes que venha o mal”) (Is 57.1)

3º) Sua missão era curta e exigia um fim “trágico” para impactar vidas e alcançar os propósitos de Deus (Estêvão – At 7, missionários em terras hostis etc).

4º) Ele não era tão bom e santo quanto aparentava ser e a mão de Deus pesou sobre ele. Conheci pessoalmente pelo menos dois casos (um era cristão e o outro não), de homens casados que viviam em adultério oculto, que foi revelado nas suas mortes trágicas. Jamais conseguiremos saber se essas mortes “prematuras” foram punição de Deus; entretanto, o fato é que com Deus não se brinca!

5º) Ele confiava exageradamente em si mesmo, na sua justiça própria; e Deus o derrubou da sua altivez. O Jó da bíblia era um pouco assim.

Em vez de ficar se apoiando num desses “destroços” acima citados, é melhor admitir que o Senhor está no controle e ele quis assim: “o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21b). Lembre-se de que os “destroços da embarcação” são meios temporários e paliativos de sobrevivência. Você não pode viver à deriva nas águas de um “naufrágio existencial”. Logo, logo você irá sucumbir também. Mova-se imediatamente para terra firme onde é o seu lugar!

3. Lidando com os questionamentos

a) Se uma pessoa honra a pai e mãe, como pode morrer jovem?

Como entender a promessa de Deus: “Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra.” (Ef 6.2-3). Encontro, pelo menos três explicações para esta promessa:

1ª) Não há aqui uma garantia total de longevidade. O assunto da longevidade é muito mais amplo e complexo do que se pode imaginar. Nossa vida não se resume a honrar pai e mãe, há muitas outras variáveis envolvidas. Jesus honrou os pais terrenos e o Pai Celestial e morreu jovem, com 33 anos.

2ª) Jesus disse: “Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.” (Mt 15.4; ver Ex 21.17 e Lv 20.9). Ou seja, quem destratasse a seu pai ou sua mãe, pela lei mosaica era sentenciado à morte. Assim sendo, poderia morrer como castigo, e não, mais adiante, por morte natural.

3ª) Finalmente, e para não me alongar muito, é fácil perceber que quem honra a pai e mãe, isto é, respeita-os e segue os seus bons conselhos tem muito maior probabilidade de viver mais do que quem os ignora.

b) Como contrair novas núpcias, sem culpa?

Se no dia do casamento você fez promessas ao cônjuge que se foi (morreu), lembre-se de que elas foram finalizadas assim: “até que a morte nos separe”. Assim, você foi fiel a ele(a) e agora está livre para assumir um novo relacionamento, se isso é exatamente o que você está precisando; se isso for o melhor para a sua vida. É bíblico (1Co 7.39); é previsto na lei de Deus e na lei dos homens e pode ser útil e necessário à sua sobrevivência. Como nas primeiras núpcias, é mais do que importante que isso seja feito com calma, maturidade e plena convicção do coração.

Guarde em sua mente a boa lembrança daquele(a) que se foi, mas retire-o(a) do seu cotidiano, caso contrário você viverá tropeçando em fantasmas e terminará sua vida na dependência de medicamentos ou num manicômio. Deixe o passado passar; diga “adeus” ou “até breve” ao(a) que se foi e vá em frente!

c) Como posso viver sem essa pessoa?

A vida precisa seguir ou retornar ao seu curso natural! Não coloque sobre si fardos que você não possa suportar! Deus dimensiona um fardo para cada um (Gl 6.5). Cuidado, pois o texto bíblico diz: “levai as cargas uns dos outros” (Gl 6.2) e não “Levai as cargas de todos os outros”!

Resiliência é uma palavra que se torna cada vez mais conhecida. É um termo que vem da física, como o fenômeno de retorno da mola, quando cessa a pressão sobre ela; é o retorno à posição vertical daquele boneco “João teimoso”. Na psicologia, significa o poder de recuperação do indivíduo após ser submetido a situações estressantes e dolorosas, a perdas, a calamidade. “O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de uma construção; se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males” (Dr. Alberto D’Auria). Precisamos ser como bambus e varas verdes, que se dobram sob a pressão do vento, mas não se quebram. A vida é feita de perdas e ganhos, não podemos paralisá-la diante das perdas. Em nome de Jesus é preciso se libertar do passado. Isso é doentio! Não vale a pena ficar no fundo do poço: “Então, disse eu: já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no SENHOR.” (Lm 3.18).

A depressão pode surgir do vazio da alma, pela perda de alguém ou de alguma coisa preciosa, que necessita ser preenchido imediatamente. Jesus nos ensinou isso. Quando ele estava para voltar para o Pai, sabedor do vazio que isso traria à almas dos discípulos, logo os confortou dizendo que quando ele fosse, enviaria o Consolador, o Espírito Santo. Não cultue o vazio; preencha-o com algo precioso!

Conclusão:

Não seja insensato nem insano, deixe o inverno passar e receba com ações de graças a primavera que Deus te oferece!

 

Nota: A motivação deste artigo foi a perda de um grande amigo, com 38 anos de idade, há um ano atrás (21/09/2012), de forma abrupta e inesperada. Um marido fiel, pai de três filhas, servo de Deus, executivo bem sucedido de uma grande empresa, carismático e espaçoso em nossos corações. Entretanto, cesse agora todo o choro e toda a lágrima porque ele está melhor do que nós, está com o Pai Celestial. E a vida precisa continuar. Nós iremos a ele, mas ele não mais virá a nós!

“o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21b)

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