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A família do profeta Samuel

Texto(s) base: 1Sm 1.1-28; 2.1-10

Introdução

O estudo de hoje focaliza uma família poligâmica constituída, inicialmente. assim: Elcana; suas duas esposas, Ana e Penina; e os filhos de Elcana com Penina. Apesar de ser uma família religiosa, que buscava cumprir as ordenanças da Lei Cerimonial ou Religiosa – a que determina as regras de culto a Deus – na realidade, eles não viviam em paz e harmonia; o que nos leva a pensar que se trata de uma família infeliz. Cada membro dessa família vivia a sua frustação e angústia pessoais. Penina, apesar de ter dado filhos e filhas ao seu marido, por se considerar como “a outra”; menos amada e menos agraciada no recebimento de porções para o sacrifício anual (1Sm 1.4-5). Ana, por ser estéril e por ser provocada contínua e excessivamente pela rival Penina (1Sm 1.2, 5-8). Elcana, por ter que administrar as frustrações e angústias das suas esposas. Certamente os filhos e filhas de Penina, por terem que viver num ambiente familiar tão desagradável como esse. Não é razoável que uma família que serve a Deus viva num ambiente assim!

“As ostras são animais pertencentes ao filo Mollusca e classe Bivalvia, cuja concha é dividida em duas valvas que se unem através de um ligamento. São os únicos animais capazes de produzirem as pérolas, objetos tão apreciados por joalheiros. Não são todas as espécies de ostras que conseguem produzir a pérola, sendo que as que produzem são chamadas de perlíferas, e fazem parte da família Pteriidae (de água salgada) e Unionidae (de água doce). A produção da pérola pela ostra nada mais é do que um mecanismo de defesa do animal, quando ocorre a penetração de corpos estranhos, como grãos de areia, parasitas, pedaços de coral ou rocha, entre a concha e o manto. Quando esse corpo estranho está no interior da ostra, o manto do animal envolve essa partícula em uma camada de células epidérmicas, que produzem sobre ela várias camadas de nácar, originando a pérola. O processo de fabricação de uma pérola pela ostra demora em média três anos, e geralmente elas são retiradas com 12 mm de diâmetro.” [1]

Assim como nem todas as ostras produzem pérolas, nem todas as pessoas são capazes de tirar proveito, se enriquecer e amadurecer espiritualmente quando passam por provações.

 

1. Poligamia e Esterilidade feminina.

Diante de uma narrativa como esta, não se pode deixar de analisar, inicialmente, os temas “poligamia” e “esterilidade feminina” no contexto do Antigo Testamento.

1.1 Poligamia

O termo se refere a casamento com múltiplos cônjuges. É um equívoco afirmar que a poligamia de Elcana era sinal da iniquidade daquela época. Na antiguidade a prática da poligamia era quase universal. O Antigo Testamento (AT) não fundamenta esse tipo de juízo moral. No AT, a poligamia era tolerada, porém não recomendada (Dt 21.15; 25.5-10, lei do levirato). A primeira menção de poligamia na bíblia é a de Lameque (Gn 4.19). Foram polígamos os patriarcas Abraão (Sara, Hagar e Quetura) e Jacó (Lia, Raquel, Bila e Zilpa); os reis Davi e Salomão (várias esposas e concubinas); dentre muitos outros.

Algumas informações interessantes sobre as sociedades que reconhecem, legal e religiosamente, a instituição da poligamia:

a) O ciúme maior entre as esposas não é por questões sexuais, mas pela posição social, número de filhos e favores recebidos do marido.

b) Elas preferem essa forma porque uma co-esposa provê companhia e ajuda no trabalho doméstico.

c) O número maior de esposas indica mais prosperidade financeira e prestígio social, e supre maior força de trabalho.

Outro aspecto a se levar em conta era que, na antiguidade, as inúmeras e constantes guerras dizimavam milhares de homens e desequilibrava o quadro estatístico populacional homens x mulheres.

Nas sociedades ocidentais predomina a monogamia como regime legal. Mas não se pode descartar a “poligamia informal” através de amantes e casos extraconjugais, que caracterizam o pecado do adultério.  

“Nos dias de Jesus, ainda havia a poligamia em Israel, e o divórcio era tão fácil que casamentos plurais, em sucessão, tornaram-se extremamente comuns”[2]. Poligamia e divórcios e novos casamentos fogem do ideal estabelecido por Deus e são prejudiciais à família.

A monogamia é sim o modelo instituído por Deus, desde o princípio (Gn 2.24) e ratificado por Jesus e nas epístolas do Novo Testamento (Mt 19.3-9; Mc 10.1-12; 1Co 6.16; 7.1-2; Ef 5.22-33 e 1Tm 3.2).

1.2 Esterilidade feminina

No oriente e na antiguidade a esterilidade era uma questão muito séria. A mulher estéril sofria de vergonha diante de si mesma e do povo. Na visão teológica popular daquela época uma mulher estéril estava sob juízo divino (Gn 16.2; 30.1-23; 1Sm 1.6, 19-20. Assim, a reversão da esterilidade era considerada um ato de misericórdia através da intervenção divina, como resposta à oração: “Faz que a mulher estéril viva em família e seja alegre mãe de filhos. Aleluia!” (Sl 113.9). Havia outros dois aspectos relevantes que agravavam a problemática da esterilidade, a tal ponto de fomentar, de alguma forma a poligamia. O primeiro era a questão da “imortalidade” através da continuação da linhagem física. Um israelita temia “morrer”, se sua linhagem física fosse descontinuada, devido à ausência de filhos. O segundo era a questão da herança de terras e a perpetuação do patrimônio e do nome da família.

 

2. O cenário dos acontecimentos

Os acontecimentos aqui narrados ocorreram por volta de 1126 a 1115 aC, tendo Samuel nascido em cerca de 1115 aC[3]. Na ocasião o tipo de governo de Israel era Teocrático.

Deus ->

Sacerdotes ->

Juízes ->

Povo

O cenário espiritual da época era caótico. A liderança espiritual, corrompida. Eli, o sacerdote, muito velho, inerte, acomodado, incapaz de pôr limites e de corrigir as prevaricações dos filhos (1Sm 2.22-26; 3.13), incapaz de fazer a diferença entre uma expressão de comunhão íntima com Deus e uma embriaguez (1Sm 1.12-18). Seus filhos, Hofini e Finéias, perversos, chamados de “filhos de Belial” (2.12-17), avaliados pelo Senhor como execráveis (1Sm 3.13).

Apesar desse cenário caótico, de uma liderança acomodada e corrompida, o Tabernáculo estava erguido em Silo (ou Siló), na região central de Israel, na tribo de Efraim. De Gilgal o Tabernáculo foi transferido para Silo, ali permanecendo durante todo o período dos juízes (Js 18.1). O texto bíblico descreve sua posição geográfica: “Então, disseram: Eis que, de ano em ano, há solenidade do SENHOR em Siló, que se celebra para o norte de Betel, do lado do nascente do sol, pelo caminho alto que sobe de Betel a Siquém e para o sul de Lebona” (Jz 21.19). A família de Elcana morava em Ramataim-Zofim (1Sm 1.1), cujo nome reduzido é Ramá (1Sm 1.19), região montanhosa de Efraim e não muito distante de Silo. Estava localizada a uns 15Km de Betel e 32 Km de Jerusalém.

O Tabernáculo erguido ali em Silo era o centro da adoração nacional do povo judeu, antes da construção do Templo por Salomão, algum tempo depois. A “arca da aliança”, símbolo da presença de Deus estava ali. O povo não tinha a liberdade de cultuar em qualquer lugar. A ordenança da lei é que todos deveriam celebrar festa ao Senhor três vezes no ano (Ex 23.14-19; 34.23; Dt 16.16; Lv 23): no 1º mês – Páscoa / Pães Asmos / Primícia; no 3º mês – Pentecostes; e, no 7º mês – Trombetas / Expiação / Tabernáculos.

 

3. Os personagens dessa história

3.1 Penina – Uma mulher rixosa

Pode-se deduzir da narrativa bíblica que Penina, cujo nome no hebraico significa “pedra preciosa”, “pérola” ou “coral”, o que no grego e no latim, é Margaret[4],   tinha uma religiosidade nominal. Parece que ela não fazia jus ao nome que tinha. Era do tipo que apenas acompanhava a família na ida ao Tabernáculo. Suas atitudes de provocação e zombaria para com Ana, a ponto de irritá-la e deixá-la transtornada de modo a perder o apetite, denunciava a sua falta de amor a Deus e ao próximo, pontos basilares da lei mosaica. Pode ser considerada uma mulher rixosa – aquela que tende a causar rixas, brigas; briguenta, brigona[5]. Os quatro textos sobre mulher rixosa encontrados em Provérbios parecem inspirados nesse tipo de gente. Em resumo, pode-se dizer que é melhor morar no canto do eirado, ou em terra deserta, do que junto a ela na mesma casa; pois ela é como o gotejar contínuo no dia de grande chuva (Pv 21.9, 19; 25.24; 27.15).

3.2 Elcana – Um marido pacificador

Samuel foi um personagem importante na história do povo hebreu, pois atuou como juiz, profeta e sacerdote. Na sua época ocorreu a transição do tipo de governo em Israel, de juízes, para a monarquia. Portanto, o escritor bíblico, que é o próprio Samuel, nos deixou esse importante legado biográfico de suas origens, através de seu pai Elcana e de sua mãe Ana. Elcana, que no hebraico significa “Deus se apossou”, ou “Deus criou”[6] era levita, descendente de Coate, mas não da linhagem araônica, conforme descrito na genealogia bíblica, como segue:  Samuel, filho de Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliel, filho de Toá, filho de Zufe, filho de Elcana, filho de Maate, filho de Amasai, filho de Elcana, filho de Joel, filho de Azarias, filho de Sofonias, filho de Taate, filho de Assir, filho de Ebiasafe, filho de Coré, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi (Ver 1Cr 6.33-38). Elcana, morava em Ramataim-Zofim ou Ramá, no território da tribo de Efraim, já que os levitas não herdaram terras e habitavam entre os seus irmãos, mas pertencia à tribo de Levi. Era, portanto, levita por descendência e efraimita, por residência. Foi por esse motivo que o seu filho Samuel pôde envolver-se nas atividades do tabernáculo.

Elcana tinha algumas virtudes, a saber:

a) Ele era um homem piedoso.

A narrativa bíblica diz que anualmente, ele reunia toda a família e peregrinava até Silo, para oferecer os sacrifícios ao Senhor, em obediência às ordenanças da lei.

b) Ele era um marido e pai cuidadoso.

Como sacerdote da sua casa, ele não apenas levava as esposas e os filhos. Ele oferecia o seu sacrifício e dava porções para cada membro da família. O exemplo pessoal é fundamental para a edificação da família.

c) Ele era um marido amoroso e compensador.

Como sua esposa Ana era estéril ele procurava compensar sua angústia e frustração dando-lhe porção dupla para o sacrifício, porque a amava (1Sm 1.5). Não sabemos se ele repreendia Penina por sua má conduta em relação a Ana. Nem ao menos sabemos se ele tinha conhecimento dessa provocação. Mas quando viu Ana chorando e sem querer comer, mostrou-se sensível e atencioso, e procurou oferecer-lhe apoio e consolo (1Sm 1.8). Na sua fala “– Não te sou eu melhor do que dez filhos?” fica evidenciado o quanto ele a prestigiava.

d) Ele era um marido sexualmente ativo.

Naturalmente, ele coabitou com Ana, na volta de Silo, com o propósito da procriação, mas não podemos descartar o aspecto da busca do prazer e afeto (1Sm 1.19). Este é outro aspecto que o casal não deve descuidar, para não gerar frustrações conjugais e tentações extraconjugais.

e) Ele era um marido que respeitava sua esposa.

Ele respeitou a vontade de Ana de não subir ao sacrifício anual após o nascimento de Samuel. Ele respeitou a vontade de Ana de só subir quando pudesse apresentá-lo e deixá-lo lá. Também respeitou seu voto de entregar Samuel para ficar no tabernáculo, consagrado ao serviço do Senhor (1Sm 1.21-23). Agindo assim, ele atendia plenamente à recomendação de Pedro aos maridos, quanto a ter consideração para com a sua esposa (1Pe 3.7).

3.3 Ana – Uma mulher de fé

O nome Ana significa, no hebraico, “graça”, “favor”. Ana faz parte da galeria das sete mulheres estéreis que receberam destaque na bíblia, por terem sua situação revertida, a saber: Sara, Rebeca, Raquel, a mãe de Sansão, Ana, a mulher sunamita (2Rs 4.14-16) e Isabel (a mãe de João Batista).

Alguns aspectos relevantes sobre Ana:

a) Ela era uma mulher compreensiva.

É provável que ela tenha sido a primeira esposa de Elcana. Por ser estéril e não dar filhos ao marido deve ter concordado que o marido tomasse outra esposa para lhe dar herdeiros e lhe perpetuar o nome. Não há registro bíblico sobre isso, mas é provável que tenha acontecido desta forma.

b) Ela era uma mulher atribulada de espírito (1Sm 1.15).

Primeiramente porque sua condição de esterilidade era vista naquela época como um castigo divino (1Sm 1.5). Aliado a isso havia a questão da vergonha e humilhação social, por não poder prover descendência ao marido. Por fim, para tornar as coisas insuportáveis, o desprezo e provocações da rival Penina.

c) Ela era uma mulher amada e respeitada.

Certamente, essa atitude de amor e respeito por parte do seu marido foi fundamental para ela conseguir suportar as adversidades e aflições decorrentes da sua situação de esterilidade e provocação doméstica. 

d) Ela era uma mulher de oração.

Acima de tudo, porém, ela colocou sua confiança e fé em Deus. Num tempo de apagão espiritual, ela resolveu não olhar para a liderança espiritual apóstata e corrompida do Tabernáculo. Antes, porém, na sua ansiedade e aflição (1Sm 1.16) buscou a Deus em fervente oração, derramando a sua alma perante o Senhor (1Sm 1.15). Somos orientados pelos apóstolos Paulo e Pedro a agir como Ana: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.” (Fp 4.6); “lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (1Pe 5.7).

e) Ela era uma mulher fiel.

Na sua angústia e aflição Ana foi além, não apenas orou e chorou, mas fez um voto ao Senhor. Se o Senhor lhe desse um filho varão ela o entregaria a ele como “nazireu”, isto é, separado e consagrado a Deus (1Sm 1.10-11). O Senhor ouviu o seu clamor e atendeu à sua oração. E, no tempo certo ela cumpriu o seu voto (1Sm 1.24-28). Quantas pessoas, em momentos de aflição e angústia, fazem tantas promessas a Deus. Porém, quando passa a tempestade existencial, se esquecem completamente dessas promessas e compromissos. Assim, continuam a viver vidas vazias de propósito, cheias de problemas.

f) Ela era uma mulher de louvor.

Depois de entregar seu filho, Ana mostra que além de ser uma mulher de fé, temente a Deus, era grata. Anteriormente ela havia derramado o seu coração diante de Deus, silenciosamente, agora, ela ora, provavelmente de forma audível, diante da congregação, expressando seu louvor a Deus: por sua santidade e unicidade (ou singularidade)(1Sm 2.2); por sua sabedoria (1Sm 2.3); por sua soberania e poder, sobre pessoas e circunstâncias (1Sm 2.4-8); e, pelo seu juízo (1Sm 2.9-10). Aqueles que desfrutam de plena comunhão com Deus, são por ele ouvidos e sustentados, vivendo para a glória do seu nome.

g) Ela era uma mulher recompensada.

A sua fidelidade, no cumprimento do seu voto, bem como a sua atitude de louvor e exaltação a Deus não passaram despercebidos. O Senhor a abençoou e a recompensou com a concepção e nascimento de mais três filhos e duas filhas. Sem dúvida, ela deixa um exemplo de mulher vitoriosa!

Conclusão:

a) Havia convergência de interesses:

Ana precisava de um filho e Deus de um líder (Fp 2.13). A vida só tem sentido se estiver repleta de “Propósitos Divinos”. Deus “precisa” de pessoas para executarem o que está no seu coração e na sua mente (1Sm 2.35). Às vezes, nossas orações não são atendidas porque são egoístas: “..pedis e não recebeis porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3)

b) Havia uma parceria de sucesso:

– Ana fez a sua parte – coabitou com seu marido (1Sm 1.19)

– Deus fez a parte dele – liberou o seu ventre (1Sm 1.19)


[1] Mundo educação: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/biologia/formacao-uma-perola.htm

[2] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo.

[3] Reese, Edward; Klassen, Frank – A Bíblia em Ordem Cronológica. Ed. Vida, 2003

[4] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo.

[5] Wikipédia.

[6] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo.

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A espiritualidade no culto do NT

Introdução          

Neste estudo, abordaremos a espiritualidade no culto do Novo Testamento (NT), no período que precede o nascimento da igreja e, principalmente, no período da igreja.

É relevante lembrar aqui alguns aspectos relacionados ao culto. Adoração e culto são termos fortemente entrelaçados. A adoração é a essência do culto, porém o culto vai além da adoração. O culto envolve o(s) cultuador(es) e o(s) objeto(s) de culto (At 17.23). O culto bíblico é a resposta do povo de Deus, ao Deus único e verdadeiro que a ele se revela, através da Bíblia, tributando-lhe adoração, louvor, honra e glória por aquilo que ele é; louvando e agradecendo por aquilo que ele tem feito. Culto é mais do que um evento; é orgânico, é visceral, é vida com Deus que se expressa em todo o tempo e no lugar onde estivermos. Assim sendo, pode ser considerado como culto pessoal, familiar e público. A base deste culto não é a livre vontade e espontaneidade do cultuador, mas os termos estabelecidos por Deus naquela aliança que liga o Criador às criaturas. Assim, em cada uma das alianças de Deus com os homens, havia elementos específicos para o culto. Nessas alianças, Deus fazia promessas de bênçãos que eram condicionadas à obediência desses aos seus decretos.

No AT, a principal aliança, a Mosaica ou da Lei ou Antiga Aliança continha elementos para o culto a Deus, pelo povo de Israel, que serviram de referência para o culto na Nova Aliança, pela Igreja:

a) Um dia separado para o culto;
b) Um local para o ajuntamento;
c) Um sistema sacrificial e rituais de purificação etc.

Nosso objetivo, neste estudo, não é investigar a espiritualidade no NT, mas como ela se expressava e se desenvolvia no culto:

1. Antes do Ministério Público de Cristo

Pode-se dizer que a rebeldia do povo de Israel, na Antiga Aliança, chegou a níveis insuportáveis, acarretando o exílio e cativeiro; primeiramente do Reino do Norte e, depois, do Reino do Sul. Vale ressaltar que, no início, no meio e no final do AT encontramos recados explícitos de Deus aos cultuadores e ofertantes, a saber (dentre outros):

  • Tanto o ofertante, quanto a sua oferta precisam agradar a Deus (Abel e Caim – Gn 4.3-5).
  • Obedecer é melhor do que sacrificar (Samuel disse isso a Saul – 1Sm 15.22).
  • Deus não suporta iniquidade associada ao Culto (Is 1.10-15; Am 5.21-23).
  • O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento. (Pv 15.8).

Com a destruição do principal local de culto, o Templo de Jerusalém, e o exílio, o povo começou a cultuar nas sinagogas. O NT começa com o povo de Israel cultuando a Deus no Templo reconstruído por Zorobabel (516 aC) e remodelado por Herodes (1º Séc. dC), bem como nas Sinagogas, nas mesmas bases da Antiga Aliança (Lc 1.8-10; 2.22-23; 2.41-50).

2. Durante o Ministério Público de Cristo

Precedendo o ministério público de Jesus entra em cena João Batista, o precursor predito pelos profetas (Mc 1.2-3; Ml 3.1; Is 40.3). Que tipo de culto ele prestava a Deus? O que sabemos é que ele atuava fora das quatro paredes e extramuros, pregando e realizando o batismo de arrependimento, anunciando Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele começa a fazer a ponte entre a Antiga e a Nova Alianças.

A primeira menção a culto no NT saiu da boca de Jesus, no deserto da tentação (Mt 4.10).

“Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” (Lc 4.16)

Ele tinha o costume de frequentar o templo e as sinagogas (Lc 4.16; 4.31-37; 21.37-38; Mc 1.21-22; Mt 12.9) e, ainda, o Monte das Oliveiras (Lc 22.39).

Desde o início Jesus declarou que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas para cumprir (Mt 5.17). Ele começou a fazer uma releitura da Lei: “eu porém vos digo”. E, assim, deu continuidade à ponte entre a Antiga e a Nova Alianças. O seu campo de ação preferido eram as áreas externas, sempre cercado de multidões. Também se reunia em casas. Na sua conversa com a mulher samaritana, que estava tão confusa quanto a um lugar específico para adoração ou culto a Deus, ele esclarece que o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.19-24). Pode-se dizer que isso era uma verdadeira quebra de paradigma. Para Jesus, o templo de Jerusalém não tinha a relevância que os religiosos lhe davam (Mt 24.1-2).

Que informações temos de espiritualidade e culto neste período? O que Jesus leu na sinagoga sintetiza sua missão e forma de cultuar a Deus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18). Evangelizar, pregar, ensinar, curar e operar milagres era parte desse culto (Mc 1.32-34; 2.13; 4.1-2; Mc 9.35; Lc 5.17; 8.1). Ele também tinha o hábito de orar (Mc 1.35; Mt 14.23; 26.36; Lc 6.12; Jo 17.1-26) e cantar (Mt 26.30). Jesus também tinha o costume de participar das festas judaicas, principalmente da páscoa. Na sua última páscoa, instituiu a ceia memorial (Mc 14.22-25; Mt 26.26-29; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26) que haveria de ser observada pela igreja.

3. Na igreja do Novo Testamento (neotestamentária)

No período de “gestação da igreja”, o Senhor ressurreto diz aos seus discípulos: “…permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder.” (Lc 24.49b). Após a ascensão, Lucas registra: “e estavam sempre no templo, louvando a Deus.” (Lc 24.53). No Livro de Atos, este mesmo Lucas diz que eles subiram para o Cenáculo (salão construído em cima do andar térreo de uma casa) (At 1.13), lugar provável onde nasceu a igreja, no dia de Pentecostes (At 2.1).

Como o Templo de Jerusalém estava muito atrelado ao judaísmo, a igreja nascente se expande para além dele, na mesma linha de João Batista e de Jesus: “o campo é o mundo”, isto é, espaços ao ar livre (outdoor) (praças – At 17.17b; praia – At 21.5; junto ao rio – At 16.13) e em ambientes fechados (indoor)(Ainda no Templo – At 3.1; 5.25; 5.42; Cenáculos – At 20.8; Casas – At 2.46; 5.42; 20.20; Rm 16.5; Sinagogas – At 13.14; 14.1; 17.1-9; 17.10-15 etc).

3.1 O paralelo entre o culto no AT e no NT

Há três aspectos importantes a se considerar, quando se compara o culto nos AT e o culto no NT:

 a) O Templo (o lugar)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava um local e construção específicos (Dt 12.13-14), como o Tabernáculo e, depois, o Templo; na era da igreja ela se desloca para o santuário do corpo do salvo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16; ver tb 1Co 6.19). Isso significa que este deve prestar um culto contínuo a Deus, na liturgia da vida. Numa analogia bastante modesta, o culto no Antiga Aliança (AT) está para o telefone fixo, assim como o culto na Nova Aliança (NT) está para o telefone móvel. No primeiro caso era necessário ir ao “telefone fixo” (templo) para falar (cultuar); no segundo, o “telefone móvel” (corpo-templo) para falar (cultuar) vai conosco.

b) O Sacerdócio (o mediador)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a intermediação de um Sumo Sacerdote, da linhagem de Levi; na era da igreja ela se desloca para o nosso eterno Sumo Sacerdote – Jesus Cristo – um Sumo Sacerdote perfeito (santo, inculpável e sem mácula) (Hb 7.26-28). Nenhuma figura ou líder humano deve se atrever a tentar ocupar este lugar de mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), tanto no que diz respeito a salvação eterna, quanto no que diz respeito ao acesso a Deus; pois o Espírito Santo foi dado a todos os remidos do Senhor.

c) O Sacrifício (o sistema de expiação)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a utilização de um sistema de sacrifícios; na era da igreja o sacrifício de Jesus na cruz foi único, eficaz, perfeito e definitivo, para expiar o pecado e nos reconciliar com Deus (Hb 9). Os povos pagãos cultuavam seus deuses oferecendo-lhes seus filhos em sacrifício; mas o Deus único revela a todos os seres humanos que apenas o sacrifício do seu Filho Unigênito pode aplacar a sua ira e conceder-lhes eterna salvação (Rm 5.9; 1Ts 1.10). Nenhuma obra ou sacrifícios pessoais (penitências) são requeridos do cristão com vistas a aproximá-lo de Deus; mas espera-se que as suas obras e seu viver diário testemunhem a todos sua nova vida em Cristo.

3.2 Expressões da espiritualidade no culto, nas epístolas e Apocalipse:

a) Culto racional (Rm 12.1)

Na epístola aos romanos encontramos o seguinte apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm 12.1). Na graça devemos comparecer diante de Deus não com animais (para sacrifício e morte), mas com o nosso corpo ou ser, muito vivo e lhe dizer: “Eis-me aqui, envia-me, a mim” (Is 6.8); “usa-me, Senhor”. Templo sempre foi lugar de santidade e nós somos o templo do Espírito Santo, santuário de Deus que também precisa ser santo (1Co 3.16). Este culto racional é realizado para agradar a Deus. Para tanto, tem que ser em conformidade com as suas exigências.

b) Culto com ordem (1Co 14.26-40)

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26). A igreja de Corinto, tinha muitos problemas, que foram tratados pelo apóstolo Paulo. Ele também teve que orientá-la quanto à liturgia do culto, particularmente quanto ao uso dos dons espirituais (1Co 14.26-40). Também teve que orientá-la quanto à “Ceia do Senhor” (1Co 11.20-29). Tudo isso porque culto tem que ser prestado com ordem e visando a edificação.

c) Culto com conteúdo (Ef 5.19-21)

À igreja de Éfeso Paulo instrui: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais,” (Ef 5.19).

À igreja de Colossos Paulo recomenda: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16).

Na epístola de Tiago somos instruídos que, de certa forma, também cultuamos a Deus quando servimos ao nosso irmão, ao nosso próximo (Tg 2.14-26). Cultuar a Deus não pode ser algo teórico e abstrato, da boca pra fora; mas algo muito concreto que afeta a nossa vida a tal ponto que redunde na glorificação de Deus e bênção na vida dos que nos cercam.

No culto público, a essência precisa prevalecer sobre a forma, assim como a espiritualidade sobre a religiosidade. Portanto, na Nova Aliança, fazem parte do culto neotestamentário: a pregação da Palavra (At 20.7), a leitura das Escrituras (1Tm 4.13), a oração (1Tm 2.8), os cânticos de louvor (Ef 5.19) e as ofertas (1Co 16.1-2), além do Batismo (At 2.37-41) e da Ceia do Senhor (1Co 11.23-29) e o serviço cristão (Tg 2.14-26).

d) Culto dominical

No AT, os israelitas suspiravam pela chegada do dia de participarem das festividades em Jerusalém e irradiavam alegria enquanto peregrinavam rumo ao Templo (Sl 122.1). O ajuntamento do povo da cruz, para cultuar a Deus, deve ser motivo alegria. A igreja neotestamentária também se reunia no primeiro dia da semana, no domingo (At 20.7). O autor de Hebreus ressalta a importância de nos estimularmos, uns aos outros, a nos congregarmos: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hb 10.25)

e) Culto eterno

O Cordeiro de Deus que é cultuado e adorado pela igreja, na terra, no livro de Apocalipse é adorado eternamente (Ap 5.8-14; 15.2-4).

Conclusão:

Que Deus nos ajude a compreender essa espiritualidade no culto bíblico que deve nortear o culto na igreja de Cristo em qualquer época. Que tenhamos sempre em mente que culto não é show, beleza estética ou ritual para animar uma plateia; mas algo orientado por Deus e centrado em Deus, portanto, teocêntrico e cristocêntrico. Que compreendamos que culto é algo contínuo, pois quando termina a liturgia do templo, começa a liturgia da vida; sendo que a liturgia do templo só será aceita se tiver lastro numa consistente e santa liturgia da vida. Que, sejamos encontrados por Deus como aqueles que o adoram e o cultuam em espírito e verdade.

A revolta de Coré

Revolta Coré2

Quem foi Coré ou Corá? Quais os motivos da sua rebelião? E o desfecho?

Coré não é muito citado na Bíblia. No Antigo Testamento, há algumas referências aos seus ascendentes e descendentes (os coreítas). Ele era da tribo de Levi, seu bisavô. Seu avô era Coate e seu pai Jizar (ou Isar ou Aminadabe) (Ex 6.21; 1Cr 6.22; Nm 16.1). Seus filhos foram Assir, Elcana, Abiasafe (ou Ebiasafe) (Ex 6.24; 1Cr 6.22. 37; 1Cr 9.9). A história de sua rebeldia encontra-se em Números 16. Há mais duas referências a ele em Números 26.9-11 e 27.3. No Novo Testamento há apenas uma referência a ele, em Judas 11.

1. Quem eram os rebeldes?

Levi

 

O líder dos rebeldes era Coré, bisneto de Levi e primo de Moisés. Portanto, estes eram levitas. Coré se associou a dois irmãos, Datã e Abirão (Nm 16.1, 12, 24, 25, 27; 26.9; Dt 11.6; Sl 106.17), e também a Om, sendo todos eles da tribo de Ruben. Contou ainda com o apoio de duzentos e cinquenta homens, príncipes da congregação, eleitos por ela, homens de renome (Nm 16.2). Todos eles se ajuntaram contra Moisés e Arão, para dar um basta à sua liderança sobre o povo.

 

 2. As causas da rebelião

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, ….” (1Sm 15.23)

1ª) Uma visão equivocada

“e se ajuntaram contra Moisés e contra Arão e lhes disseram: Basta! Pois que toda a congregação é santa, cada um deles é santo, e o SENHOR está no meio deles; …” (Nm 16.3a)

Uma coisa é ser chamado para ser santo, outra coisa é ser santo, separado. O verdadeiro líder enfatiza a necessidade dos irmãos viverem em santidade de vida, para desfrutarem da comunhão com um Deus que é Santo. Os falsos líderes promovem a libertinagem e fazem vista grossa para o pecado. Banalizam a Graça Divina e promovem a falta de temor à Santidade de Deus. As condições estabelecidas por Deus a este respeito são muito claras: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel.” (Ex 19.5-6). Santidade não é rótulo, mas um “estilo” de vida.

2ª) Ambição pelo poder

“…. por que, pois, vos exaltais sobre a congregação do SENHOR?” (Nm 16.3)

“…. senão que também queres fazer-te príncipe sobre nós?” (Nm 16.13)

A alegação ou acusação dos rebeldes era a suposta usurpação do poder por parte de Moisés e Arão. É espantoso verificar que, mesmo depois de tantas manifestações milagrosas e incontestáveis do poder de Deus pela intermediação de Moisés (pragas, mar se abrindo etc), essa gente pudesse ainda questionar a liderança e autoridade de Moisés e Arão. Percebe-se, da parte deles, uma inveja incontrolável de Moisés. Afinal, por que esse tal Moisés deveria ser o protagonista de tudo isso? Quem era ele? Foi criado na corte de Faraó. Depois de adulto, com quarenta anos de idade, fugiu para uma terra distante, ficando ali outros quarenta anos. Enquanto isso eles habitaram e sofreram junto ao povo cativo. Agora, depois de todo esse tempo, ele vem de fora para se fazer príncipe sobre o povo? Acontece sempre aquela velha e recorrente situação: “antiguidade é posto, temos que respeitar!”, “chegou agora e já quer se sentar à janela?”. O ser humano, inclusive o cristão, precisa entender que, não importa se o líder é de perto ou é de longe. O que realmente importa é se ele é o melhor para a função e, no caso da igreja, se ele é o designado pelo Soberano Senhor dos céus e da terra para exercer aquela liderança!

3ª) Ambição pelo sacerdócio

“acaso, é para vós outros coisa de somenos que o Deus de Israel vos separou da congregação de Israel, para vos fazer chegar a si, a fim de cumprirdes o serviço do tabernáculo do SENHOR e estardes perante a congregação para ministrar-lhe; e te fez chegar, Coré, e todos os teus irmãos, os filhos de Levi, contigo? Ainda também procurais o sacerdócio?” (Nm 16.9-10)

Na matança dos primogênitos dos egípcios, os primogênitos de Israel foram poupados. Assim, os primogênitos de Israel passaram a pertencer ao Senhor. Então, Deus fez uma troca, desses primogênitos (inclusive dos animais), por todos os homens da tribo de Levi (Nm 3.12-13). Quando Deus separou a tribo de Levi das demais tribos de Israel, não lhe deu herança de terra, mas eles deveriam receber cidades no meio das possessões das demais tribos (Nm 35.2ss). Também os consagrou para o serviço de Deus, primeiramente no Tabernáculo, depois, no Templo. Todos os levitas foram designados para exercer algum encargo na tenda da congregação. Eles deveriam atuar sob a liderança de Arão e seus filhos (Nm 3.9). Em Números 3 e 4 as tarefas relativas ao Tabernáculo são distribuídas pelas famílias dos três filhos de Levi: Gerson, Coate e Merari. Basicamente, coube aos filhos de Gerson cuidar da infraestrutura externa (montagem, desmontagem e transporte) (Nm 3.21-26; 4.21-28); aos filhos de Merari cuidar da infraestrutura interna (montagem, desmontagem e transporte) (Nm 3.33-37; 4.29-33); e, aos filhos de Coate cuidar do mobiliário e utensílios sagrados do santuário (montagem, desmontagem e transporte) (Nm 3.27-32; 4.1-20). É importante observar que coube à família de Coate a parte mais delicada, cuidar das “coisas santíssimas” (Nm 4.4), como a arca, com risco de morte: “Isto, porém, lhe fareis, para que vivam e não morram, quando se aproximarem das coisas santíssimas: Arão e seus filhos entrarão e lhes designarão a cada um o seu serviço e a sua carga. Porém os coatitas não entrarão, nem por um instante, para ver as coisas santas, para que não morram.” (Nm 4.19-20). Tudo isso foi estabelecido por Deus, por intermédio de Moisés, inclusive o tão cobiçado sacerdócio: “Mas a Arão e a seus filhos ordenarás que se dediquem só ao seu sacerdócio, e o estranho que se aproximar morrerá.” (Nm 3.10).

A igreja é o corpo de Cristo, onde cada membro tem a sua função. É o próprio Senhor quem vocaciona, chama e elege aqueles que devem ser reconhecidos como líderes do rebanho. É danoso para o Corpo de Cristo, quando alguém ambiciona posições e cargos, para os quais o Senhor não o designou, ou quando queremos impor, pela força, aqueles que o Senhor não escolheu para determinada missão. Cada um tem uma missão importante e específica a realizar no reino de Deus e deve se deixar conduzir pelo Espírito Santo de Deus!

3. O desenrolar da rebelião

  •  A prova do líder e dos santos (Nm 16.4-7; 16-19; 27-30)

“E falou a Coré e a todo o seu grupo, dizendo: Amanhã pela manhã, o SENHOR fará saber quem é dele e quem é o santo que ele fará chegar a si; aquele a quem escolher fará chegar a si.” (Nm 16.5)

Diante da inesperada rebelião, Moisés não teve outra alternativa senão submeter ao Senhor o arbítrio daquela questão. Moisés estabeleceu dia e hora para o confronto entre a liderança espiritual divinamente instituída e a liderança rebelde. A resposta seria dada pelo próprio Deus! Duas situações haveriam de ser julgadas ali: 1ª) Quem é dele; 2ª) Quem é o santo autorizado a aproximar-se do Senhor. As instruções da prova foram passadas. Ambos os lados deveriam comparecer diante de Deus com os seus incensários acesos; Moisés com o fogo tirado do altar e os rebeldes com o fogo estranho (Nm 16.16-19). Na sua fala final, Moisés esclarece que se algo fora do comum, se coisa inaudita acontecesse ali, levando os rebeldes à morte, ficaria provado que ele era um enviado do Senhor e os seus opositores aqueles que desprezaram ao Senhor (Nm 16.27.30)

  • A intransigência dos rebeldes e a ira de Moisés (Nm 16.12-15)

Os rebeldes não demonstraram qualquer interesse em dialogar. Eles fizeram o que é característico dos rebeldes: 1º) Acusar os líderes de não dar ao povo uma boa qualidade de vida; 2º) Acusar os líderes de usurpação de poder, de poder não legitimado pelo povo; 3º) Acusar os líderes de enganar os mais simples. É interessante como Moisés, o homem mais manso da terra (“Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.” Nm 12.3) perde a paciência e desabafa com Deus. Aí, quem perde a paciência é Deus e Moisés tenta aplacar sua ira.

  •  A ira divina e a intercessão de Moisés (Nm 16.20-27)

Diante de tanto atrevimento e rebeldia, a vontade de Deus era de exterminar toda a congregação, imediatamente. Essa era já a terceira vez que Deus manifestou este desejo e foi contido por Moisés (Ver as outras duas: Ex 32.10; Nm 14.11). Mais uma vez o Senhor cedeu e aguardou a separação física entre os rebeldes e o restante da congregação (Nm 16.23-26).

 4. As consequências da rebelião

1º castigo: A Coré, Datã e Abirão (Nm 16.31-34)

A terra se abriu e engoliu os três líderes, seus homens e seus bens. E o povo fugiu. Em Números 26.11 há o seguinte registro: “Mas os filhos de Corá (Coré) não morreram.”

2º castigo: Aos 250 príncipes da congregação (Nm 16.35)

Fogo procedente do Senhor consumiu os duzentos e cinquenta homens que se apresentaram diante do Senhor com fogo estranho.

3º castigo: Aos 14.700 murmuradores da congregação (Nm 16.41-50)

Como se as tragédias ocorridas não fossem suficientes para convencer aquela congregação também rebelde, eles tiveram a ousadia de murmurar contra Moisés e Arão, culpando-os de tamanha matança. Mais uma vez a ira divina se manifesta, agora pela 4ª vez (Nm 16.45), para exterminar toda a congregação. A praga dizimou 14.700 murmuradores. Não fora a expiação do povo, providenciada por Arão, sob a ordem de Moisés, toda a congregação teria sido dizimada. Na verdade, desde que a sentença divina fora pronunciada, por ocasião do relatório negativo dos 10 espias, isto é, que os de vinte anos para cima (exceto Josué e Calebe), não entrariam na terra prometida (Nm 14.20-30), a congregação se tornou propensa a rebeldia.

De tudo o que foi exposto anteriormente, fica claro o alto preço que é pago pelos rebeldes e seus seguidores!!!


Este é o terceiro artigo baseado no versículo abaixo:

“Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Coré. (Judas 11)

Veja, também, os seguintes artigos:

  • O caminho de Caim
  • Balaão e o Jogo dos 7 Erros

Apostila: Os três pilares da Antiga Aliança

Os três pilares da Antiga Aliança:

TABERNÁCULO – SACERDÓCIO – SACRIFÍCIO


Apresentação

O material apresentado nesta apostila não tem a pretensão de esgotar o assunto e nem de inovar. Caracteriza-se por mesclar comentários de vários autores, com os dos anotadores, numa abordagem que procura estabelecer uma ponte entre a Antiga Aliança e a Nova Aliança a partir de uma cuidadosa interpretação do significado dos símbolos. A inserção de textos ou recortes de textos e ilustrações permitiu um maior enriquecimento no tratamento do assunto.

“Não havendo sábia direção cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança.” (Provérbios 11.14)

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