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A Liderança e a Glória de Deus

“Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (1Pe 4.11)

Introdução:

No ano de 2007 foi pedido a um grupo de estudantes que elegessem as 7 novas maravilhas do mundo. Foi aí que um deles deu uma resposta destoante dos demais, a saber: Ver, Ouvir, Tocar, Provar, Sentir, Rir e Amar. Num tempo de superproduções humanas, em todas as áreas; num tempo de avalanche de produtos tecnológicos, onde o mundo cabe dentro de uma tela, pequena como de um celular ou grande como de um televisor de 103 polegadas ou mais, que atenção estamos dando ao nosso Deus criador e aos seus feitos? Será que as realizações humanas estão ofuscando a glória de Deus, tal qual o céu de uma grande metrópole à noite é tão insignificante quando comparado ao céu estrelado de uma localidade no interior?

O Catecismo de Westminster inicia com uma significativa pergunta: “Qual é o fim supremo e principal do homem?” Ele mesmo responde, sabiamente: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.” E isso não é projeto pós-morte. Deve começar aqui e agora e continuar lá e então, na eternidade. Como é bom louvar a Deus assim…

Quão formoso és, Rei do Universo.
Tua glória enche a terra e enche os céus.
Tua glória enche a terra. (Sl 19.1)
Tua glória enche os céus.
Tua glória enche a minha vida Senhor.

Maravilhoso é estar em tua presença.
Maravilhoso é poder te adorar.
Maravilhoso é tocar as tuas vestes.
Maravilhoso é te contemplar Senhor.

três palavras que marcaram três momentos importantes na vida do povo de Israel. São três palavras que sintetizam o sucesso ou insucesso de três líderes na nobre e difícil tarefa de promover a glória de Deus no meio do povo. Estas palavras podem ser usadas para designar épocas ou tempos que se alternam e permeiam a história da humanidade. Essas épocas ou tempos trazem uma mensagem muito significativa para pastores, pais, professores, líderes e liderados na igreja.

1) Tempos de SHEKINAH

“A glória de Deus entre nós”

Esse termo – Shekinah – que não aparece na bíblia, diz respeito à manifestação visível da glória de Deus, isto é, Deus habitando no meio do seu povo. Creio que a humanidade foi presenteada pelo Deus Soberano com dois “Tempos de Shekinah inigualáveis”. Tempos para marcar indelevelmente a história humana.

Primeiro Tempo de Shekinah:

No livro de Gênesis há registro de que Deus se comunicou verbalmente, por sonhos e por anjos (Teofania[1]), com algumas pessoas. Entretanto, é a partir do livro de Êxodo, no período da liderança de Moisés, por cerca de 40 anos, que a Shekinah atinge o seu clímax no AT. A sarça que ardia e não se consumia era apenas o prenúncio do que viria pela frente. Após a partida do povo de Israel do Egito, sob a liderança de Moisés, a presença de Deus se manifestou de forma visível, através de uma coluna de nuvem (durante o dia) e de uma coluna de fogo (durante a noite). “O SENHOR ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho; durante a noite, numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite. Nunca se apartou do povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite. (Êx 13.21-22). É impressionante a manifestação e movimentação da Shekinah, nessa forma (nuvem e fogo), até a morte de Moisés, para:

  • Proteção e Orientação do povo durante a viagem (Êx 13.21; 14.20);
  • Provisão de alimentos para o povo (Êx 16.10);
  • Atestar a liderança de Moisés diante do povo (Êx 19.9);
  • Atestar a Lei de Deus (Êx 19.16);
  • Falar com Moisés, na Tenda da Congregação (provisória) (Êx 33.9-11);
  • Habitação no Tabernáculo concluído (Ex 40.34-38; comp. Lv 16.2; Nm 9.16-22);
  • Unção dos 70 anciãos e superintendentes do povo (Nm 11.25);
  • Defesa da liderança de Moisés diante da crítica de Miriã (Nm 12.5);
  • Defesa da liderança de Moisés diante da rebelião de Coré, Datã e Abirão (Nm 16.42);
  • Falar pela última vez a Moisés, antes da sua morte (Dt 31.5).

Segundo Tempo de Shekinah:

O NT começa com um anjo aparecendo, pessoalmente, a Zacarias e a Maria; e a José, em sonho. Mas, finalmente nasce o Emanuel, Deus conosco (Mt 1.23). João assim se expressa: “E o Verbo se fez carne e habitou (tabernaculou) entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). E, em Hebreus lemos: “Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação,” (Hb 9.11).

A Shekinah encheu o Tabernáculo de Moisés (Êx 40.34), encheu o Templo de Salomão (2Cr 5.13b-14), encheu o Santuário do Tabernáculo Celestial (Ap 15.5, 8) e, quer encher a nossa vida: “…. Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” (2Co 6.16). Também, cobriu o monte da transfiguração (Mt 17.5) e Jesus, na sua ascensão (At 1.9).

Qual a razão desses dois tempos especiais de Shekinah e o que eles têm em comum? Sem dúvida foram janelas de luz, clarões (Lei e Graça).

Aprouve a Deus realizar dois projetos especiais, envolvendo dois povos escolhidos, Israel e a Igreja, envolvendo propósitos soberanos de Deus de libertar e conduzir esses grupos do Egito (figura do mundo) para Canaã (figura do Céu). Na segunda Shekinah, somos chamados para fora do mundo (ou mundanismo) e para tirar o mundanismo de dentro de nós e, em seguida, somos enviados ao mundo, para pregar o Evangelho. Sem dúvida esses dois tempos de Shekinah se constituem em providências divinas para dar fundamento à nossa fé. Como foi o desempenho de cada líder?

Moisés não era um líder perfeito; mas, era especial para Deus: (Nm 12.6-9; Dt 14.10-12). Ele não admitia dar um só passo, sem a presença do Senhor com ele (Êx 33.15). Não se contentava apenas em falar com Deus face a face; ele queria vê-lo face a face (Êx 3318-23).

Jesus era e é o Filho de Deus, perfeito em todos os seus caminhos, que cumpriu cabalmente o seu ministério terreno. Em Apocalipse temos as 3 fases do seu ministério: “e da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha (SOFREDOR), o Primogênito dos mortos (GLORIFICADO) e o Soberano dos reis da terra (REI). Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1.5-6)

Há ainda um Terceiro Tempo de Shekinah profetizado:

Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!” (Ap 1.7). É a Segunda Vinda do Senhor Jesus Cristo!

Esse tempo é poeticamente descrito no cântico dos Vencedores por Cristo:

Quando a glória do Senhor for vista,
por toda vista, em todo lugar,
quando a glória se perder de vista
como as águas cobrem todo o mar,
então de vida se encherá a terra,
de alegria e paz pra nunca mais faltar.
Cessado o pranto, a morte, a dor e a guerra,
o Rei, que é Cristo, sempre vai reinar.

 

2) Tempos de ICABÔ ou ICABODE

“Foi-se a glória de Deus”
“Mas chamou ao menino Icabô, dizendo: Foi-se a glória de Israel, porquanto a arca de Deus foi levada presa e por causa de seu sogro e de seu marido. E disse mais: De Israel a glória é levada presa, pois é tomada a arca de Deus.” (1Sm 4.21-22)

Depois de um período de glória, Tempo de Shekinah, que durou cerca de 40 anos, sob a liderança de Moisés, Israel permaneceu iluminado e fiel ao Senhor por algumas décadas, sob a liderança de Josué e dos anciãos superintendentes (Jz 2.6-9). Com a morte desses últimos, se levantaram gerações que não viveram aquele Tempo de Shekinah,  gerações más e idólatras, que desprezaram a aliança do Senhor. Durante o período dos juízes, de cerca de 325 anos, Israel viveu dias caóticos. Nesse período, o povo experimentou os sucessivos ciclos do fracasso humano e da graça divina: Pecado – Opressão/Servidão – Clamor/Arrependimento – Libertação – Paz temporária – Pecado ….. Essa repetição continuada se caracteriza por um verdadeiro apagão espiritual, no tempo do juiz e sacerdote Eli – sintetizado no nome Icabô ou Icabode dado ao menino que nascera, neto de Eli.

Vejamos alguns aspectos desse apagão espiritual: (serve de alerta a pais e líderes)

a) Abandono da lei de Deus, da Palavra de Deus, da Aliança com Deus;
b) Associação com pessoas de povos que não temiam a Deus; assimilação e prática dos seus maus costumes;
c) Liderança (Eli) que não conseguia distinguir fervor espiritual, de embriaguez etílica (1Sm 1.12-16);
d) Sacerdotes (filhos de Eli) que não se importavam com o Senhor e se apropriavam das ofertas dos sacrifícios trazidos pelo povo além do que a lei determinava (1Sm 2.12-17);
e) Sacerdotes (filhos de Eli) que se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação (1Sm 2.22); (promiscuidade)
f) Liderança (Eli) que honrava os filhos mais do que a Deus e junto com eles se regalava com as melhores ofertas trazidas pelo povo (1Sm 2.29);
g) Liderança (Eli) que havia perdido o controle sobre seus filhos. Não estabeleceu limites na época certa. Seus filhos se tornaram execráveis e ele não os repreendeu (1Sm 3.13). Há pais com tamanho sentimento de culpa pela ausência na vida dos filhos, que quando presentes preferem deixar o barco correr, mesmo percebendo a necessidade e oportunidade de corrigir algum mau comportamento;
h) Tempo em que a palavra e as visões do Senhor eram raras (1Sm 3.1);
i)Povo que, quando em desvantagem na batalha contra os filisteus, achava que podia alcançar a vitória tão somente introduzindo no meio deles a Arca do Senhor (1Sm 4.3-4).

Os tempos de Icabô se caracterizam por completa falta de temor a Deus e banalização do sagrado. Culminou na derrota dos exércitos de Israel, morte dos execráveis sacerdotes Hofni e Finéias, filhos de Eli, perda da Arca e morte de Eli.

Apagão Espiritual => Apagão Ético e Moral => Corrupção em toda a parte => Destruição de um grupo, de uma organização, de uma sociedade, de uma nação. O exemplo maior ocorreu no dilúvio. Outros exemplos vêm acontecendo na história dos povos e sociedades (Sodoma e Gomorra / etc).

 

3) Tempos de EBENÉZER (Reavivamento)

“Até aqui nos ajudou o Senhor” (1Sm 7.12)
“A glória do Senhor outra vez entre nós”

Se os Tempos de Shekinah foram magníficos, não foram suficientes para evitar os Tempos de Icabô ou Icabode que vêm pontilhando a história do chamado povo de Deus. Tornou-se necessário contrabalançar esses tempos SEM GLÓRIA e SEM GRAÇA com os Tempos de Ebenézer.

Num tempo de apagão espiritual um homem temente a Deus, Elcana, conduzia continuamente sua família para o lugar de adoração ao Senhor em Silo, onde ficava o Tabernáculo (Js 18.1). Nesse mesmo tempo, Ana, sua mulher estéril, faz um voto a Deus de consagrar ao Senhor o fruto do seu ventre. E, assim, nasce Samuel, o 15º e último juíz (1Sm 7.6; At 13.20), o primeiro de uma ordem regular de profetas (1Sm 3.20; At 3.24; 13.20) e o elo entre a Teocracia e a Monarquia. Começa, então, mais um Tempo de Ebenézer, ou Tempo de Reavivamento (Santificação e Busca), ou Tempo de trazer de volta a glória do Senhor, ou Tempo de alcançar vitória sobre os inimigos, ou Tempo de fazer resplandecer a luz, sobre as trevas.

Desta forma, Deus tem usado os Tempos de Ebenézer para contrabalançar os Tempos de Icabô ou Icabode!

Período (aC) Duração (anos) Obs
1375 – 1050 325 15 juízes, de Otoniel à Samuel
1050 – 930 120 Reino Unido – 3 reis: Saul (M) / Davi (B) / Salomão (B=>M)
930 – 722 208 Reino do Norte – 19 Reis Maus
930 – 586 344 Reino do Sul – 20 Reis (12 Maus e 8 Bons)
605 – 430 175 Exílio e Retorno, até Malaquias, último profeta
430 – 6 aC 424 Período Interbíblico ou Intertestamentário (Silêncio profético)

Final do Império Persa, Império Grego, Independência Judaica e Início do Império Romano

No contexto da Reforma[2], quando a igreja oficial também ameaçava destruir o verdadeiro culto a Deus, aparecem em cena homens como: João Wyclif (1324-1384), Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-1564) e João Knox (1515-1572).

Nos séculos 18 e 19, marcados por grandes avivamentos e expansão missionária, destacam-se: Jônatas Edwards (1703-1758), João Wesley (1703-1791), Guilherme Carey (1761-1834), Carlos Finney (1792-1875), Jorge Müller (1805-98), Davi Livingstone (1813-73), Hudson Taylor (1832-1905); Carlos Spurgeon (1834-92) e Dwight L. Moody (1837-1899).

 

Conclusão:

Finalmente, mais conscientes da importância da liderança e da sua influência sobre os liderados, no sucesso ou insucesso da promoção da glória de Deus, precisamos todos, líderes e liderados, seguir os sete conselhos do apóstolo Pedro em 1Pedro 4.7-11:

1º) Ter consciência de que o fim de todas as coisas está próximo;
2º) Ser criteriosos e sóbrios;
3º) Ter amor intenso uns para com os outros;
4º) Ser, mutuamente, hospitaleiro;
5º) Servir uns aos outros conforme o dom que recebeu;
6º) Falar de acordo com os oráculos de Deus;
7º) Servir na força e poder de Deus, procedendo, em todo o tempo, “para que em todas as coisas seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!”

Soli Deo Gloria!
……………………………..

[1] Teofania: Manifestação visível de Deus: a)com mensagem direta {Êx 19.9-25};  b)em SONHO com mensagem {Gn 28.12-17};  c)em visão com mensagem {Is 6.1-13}; d)com mensagem por um anjo {Êx 3.2-4.17}. O “ANJO do Senhor” é uma teofania que se enquadra nas características da segunda pessoa da Trindade {Gn 16.7-13; Êx 3.2-6; Jz 6}.

[2] Reforma: Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja castelo em Wittenberg, Alemanha, em 31 de Outubro de 1517.


Catedral Presbiteriana do Rio
12/08/2007 – Culto Matutino (10h 15min) – Dia do Pastor e Dia dos Pais
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

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