As cinco marcas de um missionário

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(Última atualização: 14/08/2026)


Veja, também:

Os Cinco “C” de Missões

(Mateus 9.35-38)

Cinco atitudes humanas que produzem missões.

Introdução

Missões nascem no coração de Deus, mas precisam nascer também no coração do seu povo.

Costuma-se afirmar que missões nascem no coração de Deus. A afirmação é verdadeira. Desde Gênesis até Apocalipse, Deus revela seu propósito de reunir para si um povo de todas as tribos, povos, línguas e nações. Entretanto, a obra missionária somente acontece quando aquilo que está no coração de Deus encontra espaço também no coração dos seus filhos. Não basta admirar missões. Não basta estudar missões. Não basta contribuir ocasionalmente com missões. É preciso desenvolver uma mentalidade missionária e um coração moldado pelo próprio Senhor Jesus.

Mateus 9.35-38 apresenta uma das mais completas descrições do espírito missionário de Cristo. Nesse breve texto encontramos uma sequência extraordinária. Jesus não apenas ordena que seus discípulos façam missões; ele lhes mostra como se forma um coração missionário.

O texto revela cinco atitudes que se desenvolvem de maneira progressiva:
🤝 Comprometimento
👀 Contemplação
❤️ Compadecimento
🔍 Constatação
🙏 Clamor

Esses cinco “C” descrevem o caminho percorrido por todo aquele que deseja participar da missão de Deus.

1. COMPROMETIMENTO

Com Deus, com o próximo e com o Evangelho.

“E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades.” (Mt 9.35)
“…percorria as aldeias circunvizinhas, a ensinar.” (Mc 6.6)

Antes de qualquer estratégia missionária existe um compromisso. Jesus estava totalmente comprometido com a vontade do Pai. Seu ministério não era ocasional nem circunstancial; era uma missão assumida desde a eternidade.

Seu compromisso se manifestava de forma prática:
– Ele percorria cidades.
– Ele visitava povoados.
– Ele se aproximava das pessoas.
– Ele ensinava, pregava e curava.

Seu ministério alcançava o ser humano de forma integral – Jesus cuidava da pessoa inteira.
⊳ Ensinava a verdade para a mente.
⊳ Pregava o Evangelho para o coração.
⊳ Curava enfermidades para aliviar o sofrimento humano.

A missão da Igreja também deve refletir esse equilíbrio e dimensão.
– Não basta anunciar o Evangelho sem amar pessoas.
– Não basta realizar ações sociais sem proclamar a Cristo.
– Não basta possuir conhecimento bíblico sem alcançar vidas.

Missões acontecem quando existe compromisso:
🔗 Com Deus.
🔗 Com sua Palavra.
🔗 Com sua vontade.
🔗 Com as pessoas pelas quais Cristo morreu.

Quem está comprometido deixa de perguntar:
“– Quanto preciso fazer?”
E, passa a perguntar:
“– O que ainda posso fazer pelo Reino de Deus?”

2. CONTEMPLAÇÃO

Circular, aproximar-se e conhecer a realidade.

Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.” (Mt 9.36)

Existe uma enorme diferença entre olhar e enxergar. Muitos viam aquelas multidões, Jesus as contemplava. Sua visão ultrapassava a aparência. Ele via pessoas, via dores, via desesperança. Enfim, via almas necessitadas.

A contemplação nasce quando saímos do nosso pequeno universo. É impossível amar quem nunca conhecemos. É impossível evangelizar pessoas das quais nos mantemos distantes. Por isso Jesus percorria cidades e aldeias. Ele se fazia presente onde as pessoas estavam.

Missões exigem circulação. Quem permanece fechado entre as quatro paredes da igreja dificilmente desenvolverá visão missionária. É preciso caminhar pelas ruas, conhecer comunidades, visitar lares, conversar, ouvir, perceber e observar. Somente quem contempla a realidade consegue compreender a dimensão do desafio.

Santos em circulação
O Banco do Brasil, certa vez, publicou um cartaz incentivando a circulação das moedas. A mensagem dizia:
“Moeda foi feita para circular e não para ficar na gaveta.”
As pequenas moedas só cumprem seu propósito quando estão em circulação.
Conta-se que, durante o governo de Oliver Cromwell, houve escassez de prata na Inglaterra. Enviaram homens às catedrais em busca desse metal. Eles retornaram dizendo:
“Encontramos muita prata revestindo os santos nos altares.”
Cromwell respondeu:
“Então derretam os santos e coloquem-nos em circulação.”

A ilustração transmite uma verdade espiritual.

Infelizmente, muitos cristãos permanecem “decorando altares”, quando foram chamados para percorrer cidades, bairros e nações.

Jesus declarou:
“Eu vos escolhi… para que vades e deis fruto.” (Jo 15.16)

Cristãos foram feitos para circular.

3. COMPADECIMENTO

Comoção e paixão pelas almas.

“Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.” (Mt 9.36)

O texto não diz apenas que Jesus viu, mas que ele se compadeceu. O verbo empregado descreve uma emoção profunda, que nasce nas entranhas, no íntimo do ser. Não era pena, era amor, era misericórdia, era identificação com o sofrimento humano.

Quem contempla verdadeiramente acaba sendo transformado. Quando enxergamos pessoas apenas como números, permanecemos indiferentes. Quando enxergamos pessoas como Deus as vê, nasce uma paixão pelas almas.

Jesus viu pessoas:
⊳ Aflitas.
⊳ Cansadas.
⊳ Desorientadas.
⊳ Sem pastor.

Essa realidade continua presente. Milhões vivem sem esperança, sem direção, sem paz e sem Cristo.

Missões começam quando deixamos de perguntar:
“– Como isso me afeta?”
E, começamos a perguntar:
“– Como isso afeta o coração de Deus?”

O verdadeiro missionário aprende a sentir a dor do próximo. Ele não apenas observa o sofrimento, ele deseja aliviá-lo. Não apenas lamenta a perdição, mas trabalha para anunciar a salvação.

O compadecimento transforma espectadores em servos.

4. CONSTATAÇÃO

Reconhecer a grandeza do desafio.

“E, então, se dirigiu a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. (Mt 9.37)

Depois de contemplar e compadecer-se, Jesus apresenta uma avaliação realista. A necessidade é enorme. Os recursos humanos são insuficientes. A seara continua imensa.

As cidades crescem, os povos se multiplicam e novas gerações surgem. Entretanto, os trabalhadores continuam poucos. Jesus nunca minimizou os desafios, mas também nunca permitiu que eles produzissem desânimo. A constatação correta não leva ao pessimismo, leva à dependência.

O cristão olha para a grandeza da tarefa e declara:
“– Meu Deus é maior do que este desafio.”

Nossa limitação jamais será desculpa para a omissão. Ela é convite para confiar mais profundamente naquele que chamou sua Igreja.

5. CLAMOR

Cooperação e dependência de Deus.

Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.” (Mt 9.38)

Curiosamente, Jesus não manda os discípulos elaborar um plano. Antes de qualquer ação, ele manda orar. A missão pertence ao Senhor. A seara pertence ao Senhor. Os trabalhadores pertencem ao Senhor. Os recursos pertencem ao Senhor.

Quem move missões, em última análise, é Deus. Por isso, a oração ocupa lugar central.
Clamar é reconhecer que nenhuma estratégia substitui a ação do Espírito Santo.

É Deus quem:
☑️ Chama missionários.
☑️ Abre portas.
☑️ Converte pecadores.
☑️ Sustenta obreiros.
☑️ Levanta mantenedores.
☑️ Desperta igrejas.
☑️ Envia recursos.

Foi exatamente isso que Jesus fez. Antes de escolher os doze apóstolos, “retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus.” (Lc 6.12, 13). A oração nunca é a última alternativa, é o primeiro passo.

Quando uma igreja ora por missões, Deus começa a responder de maneiras surpreendentes:
➡ Alguns serão enviados.
➡ Outros sustentarão.
➡ Outros contribuirão.
➡ Outros intercederão.
➡ Mas todos participarão.

Conclusão

Este pequeno texto de Mateus apresenta uma verdadeira pedagogia missionária.
✔ Tudo começa com um coração comprometido.
✔ O comprometimento conduz à contemplação.
✔ A contemplação produz compadecimento.
✔ O compadecimento leva à constatação da grande necessidade.
✔ A constatação conduz ao clamor.
✔ E o clamor produz trabalhadores, recursos e a expansão do Reino de Deus.

Esse continua sendo o caminho da Igreja em qualquer geração. Não existem atalhos. Não existem substitutos.

Missões florescem quando homens e mulheres permitem que o coração de Cristo se forme dentro deles.

Que Deus desperte em nós esses cinco “C”:
Comprometimento com Deus e com o Evangelho.
Contemplação das pessoas ao nosso redor.
Compadecimento pelas almas perdidas.
Constatação da grandeza da seara.
Clamor ao Senhor da seara.

Então veremos Deus fazer aquilo que somente ele pode fazer: levantar trabalhadores, abrir portas, salvar vidas e glorificar o nome de Cristo entre todas as nações.

“A missão é de Deus; o privilégio de participar dela é nosso.”

Que Deus nos ajude!


Veja, também:

A Grande Comissão

Introdução

Ao final do grande ministério na Galileia, Jesus realizou uma mudança significativa na formação dos seus discípulos. Até aquele momento, eles haviam caminhado ao lado do Mestre, observando-o ensinar, pregar, libertar os oprimidos, curar os enfermos e manifestar o Reino de Deus. Eram aprendizes que assimilavam lições pela convivência diária com o Mestre.

Entretanto, chega o momento em que Jesus lhes confia uma missão prática. Em Marcos 6.6b-13, Mateus 9.35–11.1 e Lucas 9.1-6, encontramos a chamada Missão dos Doze. Pela primeira vez, eles deixam de ser apenas observadores para se tornarem executores da obra. O Mestre continua presente, mas agora eles precisam agir, sustentados pela autoridade recebida, pelo poder do Espírito Santo e pela confiança naquele que os enviou.

Esse foi um período de treinamento intensivo. Eles aprenderam fazendo. Experimentaram dificuldades, alegrias, rejeições, vitórias e dependência de Deus. Era a preparação para uma tarefa muito maior que lhes seria entregue após a ressurreição de Cristo.

Depois de vencer a morte e antes de ascender aos céus, Jesus confiou à sua Igreja aquilo que chamamos de A Grande Comissão. Ela não representa apenas uma ordem missionária, mas a continuidade do próprio ministério de Cristo através do seu povo.

É interessante observar que cada evangelista apresenta esse mandamento sob um enfoque diferente. Os quatro relatos não competem entre si; ao contrário, completam-se como diferentes faces de uma mesma missão.

1. O MAPA DA MISSÃO – Mateus (Mt 28.18-20)

18  Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.
19  Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
20  ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.

Mateus apresenta a dimensão geográfica e universal da missão. O evangelho que começou mostrando Jesus como o Messias prometido a Israel, avança abrindo as portas para todas as nações. A missão não ficaria restrita aos judeus. O Reino de Deus alcançaria povos, culturas, idiomas e etnias. O centro da ordem não é simplesmente “ide”, mas “fazei discípulos”.

Evangelizar é o início, fazer discípulos é o objetivo.
Um discípulo é alguém que:
⊳ Crê em Cristo.
⊳ Segue a Cristo.
⊳ Aprende continuamente de Cristo.
⊳ Obedece a Cristo.
⊳ Vive para Cristo.
⊳ Forma outros discípulos de Cristo.

Os quatro verbos fundamentais da Grande Comissão:

  • Ir – romper fronteiras.
  • Fazer discípulos – gerar seguidores de Jesus.
  • Batizar – incorporar os convertidos à comunidade da aliança.
  • Ensinar – conduzir à maturidade espiritual.

Observe que o ensino não consiste apenas em transmitir conhecimento bíblico, mas em ensinar as pessoas “a guardar todas as coisas” que Cristo ordenou. O discipulado produz obediência.

A base da missão
Jesus inicia declarando:
“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”
A missão não depende do poder da Igreja, mas da autoridade do Senhor ressurreto.

A promessa aos comissionados
“E eis que estou convosco todos os dias.”
A Grande Comissão começa com autoridade e se sustenta com presença. Não vamos sozinhos.

2. A PROFUNDIDADE DA MISSÃO – Marcos (Mc 16.15-16)

15  E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
16  Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.

Se Mateus enfatiza os povos, as nações, Marcos enfatiza as pessoas a serem alcançadas. Cada indivíduo importa. Não basta alcançar nações é preciso alcançar corações. O evangelho não é dirigido apenas às multidões, mas ao ser humano individualmente. Cada pessoa possui uma alma eterna. Cada pessoa necessita ouvir a mensagem da salvação. Cada pessoa deverá responder diante de Deus.

Por isso Marcos destaca duas respostas possíveis:
– Quem crê será salvo.
– Quem rejeita permanece sob condenação.

O evangelho exige uma decisão. Não existe neutralidade diante de Cristo. A missão da Igreja é anunciar fielmente. A obra de convencer pertence ao Espírito Santo.

3. O MÉTODO DA MISSÃO – Lucas (Lc 24.46-49; At 1.7-8)

7  Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade;
8  mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.

Antes de enviar, Jesus promete poder – “mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas…”. A missão não seria realizada pela capacidade humana, mas pela ação do Espírito Santo. A palavra “testemunha” (gr. μαρτυρίαν ou marturian) descreve alguém que testemunha aquilo que viu e experimentou. Mais tarde, essa palavra passou a designar aqueles que estavam dispostos a morrer pela verdade que anunciavam – mártires (gr. μάρτυρας ou marturias).

Lucas revela a sequência do avanço do Evangelho e, quem sabe, a estratégia missionária de Cristo:
Ação progressiva – A expansão do Evangelho segue uma progressão: Jerusalém, Judéia, Samaria e confins da terra.

Essa sequência pode ser resumida em três expressões:
TANTO… COMO… ATÉ…

Ou seja:
⊳ Tanto perto.
⊳ Como mais distante.
⊳ Até onde Cristo ainda não é conhecido.

Não era o caso de abandonar um lugar para evangelizar outro. Entretanto, era preciso evangelizar em todas as direções, a partir de Jerusalém, alcançando o mundo inteiro.

Há aqui uma aplicação prática:
⊳ Jerusalém representa nossa família, vizinhos e cidade.
⊳ Judéia representa nossa região.
⊳ Samaria representa aqueles diferentes de nós – cultural, social, religiosa ou etnicamente.
⊳ Os confins da terra representam os povos ainda não alcançados.

Uma igreja saudável participa de todas essas dimensões da missão.

4. O CUSTO/PREÇO DA MISSÃO – João (Jo 20.20-21; cf. Lc 9.57-62)

20  E, dizendo isto, lhes mostrou as mãos e o lado. Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor.
21  Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.

João apresenta o aspecto mais profundo da Grande Comissão – “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.”

Jesus não apenas envia, ele estabelece o modelo do envio.
E, como o Pai enviou Jesus?
⊳ Em humildade.
⊳ Em serviço.
⊳ Em obediência.
⊳ Em sofrimento.
⊳ Em renúncia.
⊳ Em amor sacrificial.
Assim também a Igreja é enviada.

O discípulo não é chamado para uma vida de conforto, mas de fidelidade. Lucas registra que seguir Jesus exige disposição para deixar segurança, interesses pessoais e prioridades secundárias (Lc 9.57-62). A missão possui um preço. Ao longo da história, milhares de cristãos entregaram bens, carreiras, sonhos e até a própria vida para que o Evangelho chegasse a outros povos.

A cruz precede a coroa!

Uma visão integrada da Grande Comissão em que cada Evangelho acrescenta um elemento indispensável:

EvangelhoÊnfasePergunta respondida
MateusO mapaAonde devemos ir?
MarcosA profundidadeA quem devemos anunciar?
LucasO métodoComo a missão deve avançar?
JoãoO custoQuanto estamos dispostos a pagar?

Nenhuma dessas perspectivas é suficiente isoladamente. A missão precisa unir: autoridade, compaixão, estratégia, dependência do Espírito Santo, disposição para sacrificar-se.

Aplicações para a Igreja de hoje

A Grande Comissão continua válida. Ela não foi dirigida apenas aos onze apóstolos, mas à Igreja de todas as épocas.

Cada cristão participa dela de maneiras diferentes:
⊳ Orando pelos missionários.
⊳ Contribuindo financeiramente.
⊳ Testemunhando de Cristo onde vive.
⊳ Discipulando novos convertidos.
⊳ Usando seus dons para fortalecer a Igreja.
⊳ Indo, quando Deus chamar.

“Missões se faz com os 🦶 pés dos que vão, com as 🫴 💰 mãos dos que contribuem e com os 🦵 joelhos que se dobram em oração 🙏.”

A pergunta não deve ser apenas: “Quem irá?”
A pergunta correta é: “Qual é a minha participação na Grande Comissão?”

Conclusão

A Grande Comissão se fundamenta na autoridade de Cristo, se desenvolve na dependência do poder do Espírito Santo e permanece sustentada pela presença constante do Senhor. Ela tem origem no Filho de Deus que declara: “Toda a autoridade me foi dada”, e se sustenta em uma promessa igualmente poderosa: “E eis que estou convosco todos os dias.”

Entre essas duas declarações encontra-se a responsabilidade da Igreja. A Igreja existe para adorar a Deus, edificar os santos e anunciar o Evangelho. A missão não é uma atividade entre muitas; ela faz parte da própria identidade do povo de Deus. Desde o chamado de Abraão (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”), passando pelos profetas, culminando em Cristo e chegando à Igreja, toda a Escritura aponta para o propósito redentor de Deus de reunir para si um povo de todas as tribos, línguas, povos e nações (Ap 7.9).

Assim, a Grande Comissão não é apenas uma ordem a ser obedecida, mas um privilégio a ser vivido. Somos chamados a continuar a obra iniciada por Cristo, proclamando o Evangelho até que “os confins da terra” tenham ouvido a mensagem da salvação e até que o Senhor volte em glória.

A missão continua: O Filho ainda envia, sob a autoridade concedida pelo Pai. O Espírito ainda capacita. E a promessa permanece: “Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século.”

Eis-me aqui, usa-me Senhor!


Veja, também:

O Obreiro, a Seara e o Ministério

Texto base: Lucas 10.1-12

Introdução:

A Bíblia registra dois momentos marcantes no ministério de Jesus, quando ele mesmo promoveu esse “vá e ponha em prática o que ensinei”: a “missão dos doze“, relatada em todos os evangelhos sinóticos (Mc 6.6b-13; Mt 9.35-11.1; Lc 9.1-6) e a “missão dos setenta“, mencionada somente por Lucas (Lc 10.1-24). Tomaremos como base esta última missão, para aprendermos um pouco mais com Jesus.

Desenvolvimento:

A “missão dos setenta” se situa no último ano do ministério público de Jesus. Inicialmente, Jesus mesmo ia a toda parte pregando e curando, e os seus discípulos o acompanhavam. Posteriormente, as multidões vinham ao seu encontro e ele as ensinava e as curava. Por último, Jesus já não podia transitar livremente, por causa da oposição crescente e do aperto das multidões. Houve pregação e cura durante todo o seu ministério, porém no último ano Jesus dedicou-se a preparar e enviar aqueles que haveriam de dar prosseguimento à sua obra.

Quais teriam sido as razões para esta grande comissão?

“Para que o precedessem em cada cidade e lugar aonde ele estava para passar”. O grande objetivo era preparar o ambiente, criar expectativa para a chegada do Senhor. Jesus queria obter o máximo proveito nesta viagem.

– Para completar o aviso à nação judaica de estar presente o Messias.

– Para proporcionar aos seus seguidores um treinamento prático, preparando-os para a grande missão de Atos 1.8.

– Para deixar-nos orientação.

Uma particularidade da missão:

Confrontando as duas missões, constatamos que os doze foram designados apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel, enquanto os setenta foram enviados “a todas as cidades e lugares aonde ele estava para passar” (Lc 10.1). Tem sido sugerido que isto indica que, enquanto a primeira missão era aos judeus (às doze tribos), a segunda antecipava a abertura da porta da fé a todas as nações.

Concentremos nossa atenção em três aspectos relevantes da obra evangelística e missionária: o obreiro, a seara e o ministério.

1. O OBREIRO

1.1 Sua chamada

O texto mostra claramente que Jesus não delegou a responsabilidade de escolher os setenta. Ele, pessoalmente, escolheu, designou setenta para essa importante missão. “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande…”. Nessa expressão Jesus ratifica que apenas o Senhor da seara tem autoridade para enviar trabalhadores. (ver Jr 1.4-5; At 9.15; 13.2).

1.2 Suas qualificações

A única informação que temos é que eram seguidores de Jesus, discípulos, que acompanhavam Jesus. E, portanto, Jesus pôde separá-los e enviá-los. Ser enviado por Jesus não é privilégio de uma elite, mas sim dos que o seguem de perto. Temos exemplos na Bíblia de que Deus mesmo qualifica os seus enviados como fez com Moisés, Jeremias, Isaías, Paulo e tantos outros.

As características principais dos que produzem frutos na obra de Deus são:

i) Crentes de oração. Tais obreiros passam muito tempo em conversa, em comunhão com o Senhor, expondo-lhe todas as ansiedades e necessidades; confiam nele e dele esperam tudo.

ii) Crentes com conhecimento bíblico. O Senhor Jesus disse aos saduceus: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus!” (Mc 12.24)

iii) Crentes com paixão pelas almas. Como alguém vai sair pelo mundo, pregando ou ensinando, se não sente nenhuma paixão pelas almas perdidas? O Senhor Jesus se compadecia delas; as via como ovelhas que não têm pastor (Mt 9.36-37).

1.3 Seu envio

“De dois em dois”. Jesus não adotou esta forma apenas por um capricho pessoal. Ele já havia enviado os doze do mesmo modo (Mc 6.7). Enviando-os aos pares fortalecia o seu testemunho pessoal e tornava a viagem mais agradável. O envio de missionários, de dois em dois, foi imitado nos primeiros séculos (At 13.1-2), e continua a ser feito por algumas seitas (mórmons etc). Atualmente, a dupla missionária tem sido constituída por marido e mulher. O número dois na Bíblia tem como significado: autoridade (At 13.2; 15.27); conservação (Gn 6.19-20; Ec 4.9-12); confirmação (Mt 18.19); continuação. É claro que se trata de um quantitativo mínimo recomendado.

1.4 Seu destino

“Cada cidade e lugar”. Não é o obreiro que define o seu destino. Ele apenas segue o caminho traçado por aquele que o envia.

2. A SEARA (colheita)

Jesus usou, muitas vezes, a figura de um campo semeado (seara), ao falar sobre a colheita dos crentes (Jo 4.35-36; Mt 13.30, 39).

2.1 Seu tamanho

Inicialmente a seara era a nação de Israel. Mais tarde, porém, incluiu o mundo inteiro (Mt 28.19-20). Em face das dimensões da seara, Jesus adverte que há poucos trabalhadores e, portanto, devemos rogar a Deus pelo envio de mais trabalhadores. É curioso que naquela época não havia falta de autoridades religiosas. Grande parte do povo de Israel se ocupava das questões religiosas; no templo, nas sinagogas, nas casas, nas ruas. Entretanto, na avaliação de Jesus os trabalhadores eram poucos na seara. Desse exemplo se aprende que a organização religiosa e a aparência religiosa do povo não garantem a existência de trabalhadores autênticos do evangelho, ou que haja ceifa. Quem está disposto a orar? Quem está pronto a ir?

2.2 Seu Proprietário

“Senhor da seara…para a sua seara”. Os trabalhadores são representados por aqueles que trabalham diariamente para ganhar certo salário. Não são senhores da seara e nem têm autoridade sobre os que trabalham, mas tão somente são empregados do proprietário do campo. A alusão é ao Pai Celeste, que se interessa especialmente pelo êxito da colheita, porquanto o campo lhe pertence. Nenhum obreiro, nenhuma missão, nenhuma instituição poderá desapropriar o verdadeiro dono da seara (1Co 3.5-10).

“O dia pode ser longo e quente, mas no fim, os trabalhadores recebem, sem falta, o salário que lhes fora prometido pelo dono da seara.”

3. O MINISTÉRIO

Jesus não os enviou de qualquer maneira. Ele fez algumas advertências e recomendações e, ainda, deu-lhes as instruções e a autoridade de que necessitavam para o bom êxito daquela missão.

3.1 Seus riscos

“Ovelhas para o meio de lobos”. Jesus preparou os seus enviados para que enfrentassem duras experiências, que incluíam a perseguição.

“Ovelhas”. Mais uma vez, em seus ensinos, Jesus lança mão do simbolismo das ovelhas. Com esse simbolismo, Jesus indica diversas coisas:

1º) As ovelhas são pessoas sob a direção de um pastor.

2º) O pastor é responsável pela defesa das ovelhas, porque é claro que tais pessoas não sabem defender-se.

3º) Provavelmente também sugere que os discípulos, em comparação aos homens dotados de má intenção, são inocentes, fracos, humildes, mansos, gentis, simples.

“Lobos”. Termo usado no Novo Testamento para indicar os perseguidores e seu temperamento malicioso, por serem homens maus, injustos, destituídos de misericórdia, inclinados à destruição, à voracidade e à crueldade.

Jesus, primeiro mostrou que não deveriam esperar riquezas ou valores, segundo são representadas pelo mundo. Em seguida, mostrou que alguns rejeitariam sua missão e sua mensagem. Finalmente, mostrou que a rejeição pode incluir perseguição e até mesmo a morte. Com estas advertências eles devem ter compreendido que não estavam sendo enviados para uma excursão gratuita.

3.2 Seu Suprimento

i) Bagagem (Lc 10.4)

Jesus os exortou para que não levassem qualquer coisa que os viajantes normalmente pensavam ser indispensáveis para as viagens; mas que aprendessem a depender do suprimento divino. “Não leveis bolsa, nem alforje (porta-níqueis), nem sandálias”.  Estavam proibidos de sobrecarregarem-se com bagagem sobressalente. O sustento deles deveria vir de donativos feitos pelos beneficiários das ministrações. Esse método de subsistência dos obreiros foi confirmado pelas instruções de Paulo (1Co 9.7-11). Em qualquer época vê-se que o sustento do ministério é um problema muito sério. Isto porque as igrejas locais, em muitos casos, se recusam a assumir esta responsabilidade.

NOTA: O texto de Lucas 22.35-36, mostra que as provisões de que fala este versículo 4 eram temporais, e também revela a lição que Jesus queria ensinar por meio de suas proibições: “A seguir Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, faltou-vos porventura alguma coisa? Nada, disseram eles. Então lhes disse: Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma”. Situações diversas requerem provisões diferentes, mas as lições dadas por Jesus permanecem.

ii) Habitação e alimentação (Lc 10.5-8)

“Ao entrares numa casa”. As regras sociais no oriente, acerca da hospitalidade, abririam muitas casas aos discípulos, mas Jesus queria que estes procurassem certos indivíduos, que mostrassem simpatia pelo seu ministério e pelos seus propósitos (“Indagai quem neles é digno” – Mt 10.11). Alguns comentaristas explicam simplesmente que eles deveriam procurar pessoas capazes de arcar com as despesas da viagem e da visita; e parece que isto faz parte do sentido da instrução, mas também parece que Jesus indicou que só as pessoas que simpatizassem pelo trabalho dos discípulos – provavelmente conhecidas como pessoas piedosas – seriam dignas de receber as visitas dos enviados de Jesus. Jesus parece indicar que era grande privilégio alguém receber a visita dos seus discípulos. A companhia deles serviria de benefício mútuo, e, sobre tais circunstâncias, a dificuldade do trabalho seria menor.

“Permanecer na mesma casa”. Jesus queria que seus discípulos fossem mensageiros, não mendigos. Não deveriam andar sem destino, à procura dos alojamentos mais confortáveis e da companhia mais agradável.

“Comendo e bebendo do que eles tiverem”. Jesus ensina aqui, claramente, que os obreiros devem receber o sustento físico daqueles que são beneficiados por seu ministério. Há aqui uma recomendação muito importante e que alguns obreiros parecem desconsiderar; eles devem participar do cardápio normal da família e não esperar manjares ou banquetes.

“Digno é o trabalhador do seu salário”.  Isso equivale ao que se diz em Mateus 10.10,“…Digno é o trabalhador do seu alimento”. Lucas diz “salário”, em lugar de “alimento”, mas está em foco a mesma ideia. Essa é uma das poucas declarações de Jesus, que Paulo citou (ver 1Co 9.7, 14; 1Tm 5.18). Naturalmente a ideia já se achava no Antigo Testamento, e Paulo poderia estar fazendo dali um empréstimo, e não diretamente a Jesus (Dt 25.4). É a primeira vez que encontramos a palavra “salário” referindo-se ao trabalho de um servo de Deus. Paulo, entretanto, abriu mão do seu direito e trabalhava com as mãos para não ser pesado a ninguém e para dar o exemplo. Desta forma podia gozar de mais liberdade em seu ministério, além de evitar constrangimentos e falatórios (1Co 9.12).

3.3 Sua Urgência

“E a ninguém saudeis pelo caminho”. O Senhor não pretendia que eles fossem descorteses. As saudações orientais eram cerimoniosas e consumiam tempo, e a necessidade da pressa justificaria a negligência a essas “etiquetas sociais”. As palavras mostram a necessidade de total devoção à missão; e isso concorda com todas as ordens registradas no contexto geral.

3.4 Seu Serviço

“Curai os enfermos…..anunciai…”. Imitando o que Jesus e os doze já haviam feito. Cristo conferiu aos seus discípulos o poder de curar como parte do seu ministério. Não há nenhuma indicação de que todos eles ficassem de posse desse poder, permanentemente. No Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e distribuiu dons aos homens. Ainda hoje os discípulos de Jesus podem ser usados para esses dois serviços (Mc 16.15-18):

1º) Operar os sinais que demonstram a vinda do Reino;

2º) Proclamar a mensagem de Salvação.

3.5 Sua Rejeição

A narrativa de Lucas 10.10-12 apresenta um “ritual de rejeição” mais elaborado. Além de bater o pó proveniente da “cidade dos rejeitadores”, e de fazer uma espécie de pequeno discurso formal, os missionários cristãos deveriam assegurar-lhes que tinham perdido grande oportunidade, pois o “Reino de Deus” chegara perto deles, na forma de seus mensageiros. Desse modo, a mensagem de misericórdia se transmuta em “sentença condenatória”, quando é ignorada ou repelida.

“Haverá menos rigor para Sodoma…”. Para os judeus, “Sodoma e Gomorra” eram símbolos de cidades ou indivíduos especialmente pecaminosos e, ao mesmo tempo, símbolo do juízo de Deus contra tais. Jesus mostrou que nem mesmo Sodoma e Gomorra mereciam julgamento tão severo como aqueles que rejeitam o Messias, o seu Reino e os seus discípulos. O ensino de Jesus, neste ponto, inclui ideias que a rejeição da luz, quanto mais brilhante ela for, trará julgamento mais severo, e que quanto maior for a luz recebida, maior será a responsabilidade do indivíduo.

Sodoma contou apenas com o fraco testemunho de Ló. Mas as cidades da Galiléia gozaram do testemunho dado pelo próprio Messias. Provavelmente os pecados dos habitantes de Sodoma e Gomorra eram mais graves e numerosos do que os dos habitantes da Galiléia. Mas o julgamento dos habitantes da Galiléia seria mais severo, em face de terem ouvido a mensagem mais ampla do mensageiro divino. É possível que nesses ensinos, Jesus tenha incluído a ideia de Julgamentos terrestres, isto é, tipos de juízo como os que foram sofridos por Sodoma e Gomorra, e não somente um juízo vindouro. Alguns intérpretes acham só este último sentido no texto, mas a verdade é que Jesus pode ter indicado mais do que isto.

Conclusão:

É uma bênção e privilégio poder participar da missão de levar o Evangelho à toda a criatura! No relato do regresso dos setenta (Lc 10.17-24), há alguns pontos de alerta a se considerar. Eles retornaram exultantes pelo poder de operar sinais, de submeter demônios. Ser capacitado e usado por Deus pode insuflar nosso ego, fazer-nos pensar de nós mesmos além do que convém. Jesus os adverte quanto ao objeto da verdadeira alegria – a salvação eterna. Nossa alegria consiste em glorificar a Deus, anunciar o Evangelho e contemplar os frutos do penoso trabalho do Servo Sofredor (Jesus): “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito;” (Is 53.11). Vidas salvas e transformadas alegram o coração de Deus e deve alegrar o nosso também.