
Introdução
Ao final do grande ministério na Galileia, Jesus realizou uma mudança significativa na formação dos seus discípulos. Até aquele momento, eles haviam caminhado ao lado do Mestre, observando-o ensinar, pregar, libertar os oprimidos, curar os enfermos e manifestar o Reino de Deus. Eram aprendizes que assimilavam lições pela convivência diária com o Mestre.
Entretanto, chega o momento em que Jesus lhes confia uma missão prática. Em Marcos 6.6b-13, Mateus 9.35–11.1 e Lucas 9.1-6, encontramos a chamada Missão dos Doze. Pela primeira vez, eles deixam de ser apenas observadores para se tornarem executores da obra. O Mestre continua presente, mas agora eles precisam agir, sustentados pela autoridade recebida, pelo poder do Espírito Santo e pela confiança naquele que os enviou.
Esse foi um período de treinamento intensivo. Eles aprenderam fazendo. Experimentaram dificuldades, alegrias, rejeições, vitórias e dependência de Deus. Era a preparação para uma tarefa muito maior que lhes seria entregue após a ressurreição de Cristo.
Depois de vencer a morte e antes de ascender aos céus, Jesus confiou à sua Igreja aquilo que chamamos de A Grande Comissão. Ela não representa apenas uma ordem missionária, mas a continuidade do próprio ministério de Cristo através do seu povo.
É interessante observar que cada evangelista apresenta esse mandamento sob um enfoque diferente. Os quatro relatos não competem entre si; ao contrário, completam-se como diferentes faces de uma mesma missão.
1. O MAPA DA MISSÃO – Mateus (Mt 28.18-20)
18 Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.
19 Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
20 ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.
Mateus apresenta a dimensão geográfica e universal da missão. O evangelho que começou mostrando Jesus como o Messias prometido a Israel, avança abrindo as portas para todas as nações. A missão não ficaria restrita aos judeus. O Reino de Deus alcançaria povos, culturas, idiomas e etnias. O centro da ordem não é simplesmente “ide”, mas “fazei discípulos”.
Evangelizar é o início, fazer discípulos é o objetivo.
Um discípulo é alguém que:
⊳ Crê em Cristo.
⊳ Segue a Cristo.
⊳ Aprende continuamente de Cristo.
⊳ Obedece a Cristo.
⊳ Vive para Cristo.
⊳ Forma outros discípulos de Cristo.
Os quatro verbos fundamentais da Grande Comissão:
- Ir – romper fronteiras.
- Fazer discípulos – gerar seguidores de Jesus.
- Batizar – incorporar os convertidos à comunidade da aliança.
- Ensinar – conduzir à maturidade espiritual.
Observe que o ensino não consiste apenas em transmitir conhecimento bíblico, mas em ensinar as pessoas “a guardar todas as coisas” que Cristo ordenou. O discipulado produz obediência.
A base da missão
Jesus inicia declarando:
“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”
A missão não depende do poder da Igreja, mas da autoridade do Senhor ressurreto.
A promessa aos comissionados
“E eis que estou convosco todos os dias.”
A Grande Comissão começa com autoridade e se sustenta com presença. Não vamos sozinhos.
2. A PROFUNDIDADE DA MISSÃO – Marcos (Mc 16.15-16)
15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
16 Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.
Se Mateus enfatiza os povos, as nações, Marcos enfatiza as pessoas a serem alcançadas. Cada indivíduo importa. Não basta alcançar nações é preciso alcançar corações. O evangelho não é dirigido apenas às multidões, mas ao ser humano individualmente. Cada pessoa possui uma alma eterna. Cada pessoa necessita ouvir a mensagem da salvação. Cada pessoa deverá responder diante de Deus.
Por isso Marcos destaca duas respostas possíveis:
– Quem crê será salvo.
– Quem rejeita permanece sob condenação.
O evangelho exige uma decisão. Não existe neutralidade diante de Cristo. A missão da Igreja é anunciar fielmente. A obra de convencer pertence ao Espírito Santo.
3. O MÉTODO DA MISSÃO – Lucas (Lc 24.46-49; At 1.7-8)
7 Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade;
8 mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.
Antes de enviar, Jesus promete poder – “mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas…”. A missão não seria realizada pela capacidade humana, mas pela ação do Espírito Santo. A palavra “testemunha” (gr. μαρτυρίαν ou marturian) descreve alguém que testemunha aquilo que viu e experimentou. Mais tarde, essa palavra passou a designar aqueles que estavam dispostos a morrer pela verdade que anunciavam – mártires (gr. μάρτυρας ou marturias).
Lucas revela a sequência do avanço do Evangelho e, quem sabe, a estratégia missionária de Cristo:
Ação progressiva – A expansão do Evangelho segue uma progressão: Jerusalém, Judéia, Samaria e confins da terra.
Essa sequência pode ser resumida em três expressões:
TANTO… COMO… ATÉ…
Ou seja:
⊳ Tanto perto.
⊳ Como mais distante.
⊳ Até onde Cristo ainda não é conhecido.
Não era o caso de abandonar um lugar para evangelizar outro. Entretanto, era preciso evangelizar em todas as direções, a partir de Jerusalém, alcançando o mundo inteiro.
Há aqui uma aplicação prática:
⊳ Jerusalém representa nossa família, vizinhos e cidade.
⊳ Judéia representa nossa região.
⊳ Samaria representa aqueles diferentes de nós – cultural, social, religiosa ou etnicamente.
⊳ Os confins da terra representam os povos ainda não alcançados.
Uma igreja saudável participa de todas essas dimensões da missão.
4. O CUSTO/PREÇO DA MISSÃO – João (Jo 20.20-21; cf. Lc 9.57-62)
20 E, dizendo isto, lhes mostrou as mãos e o lado. Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor.
21 Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.
João apresenta o aspecto mais profundo da Grande Comissão – “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.”
Jesus não apenas envia, ele estabelece o modelo do envio.
E, como o Pai enviou Jesus?
⊳ Em humildade.
⊳ Em serviço.
⊳ Em obediência.
⊳ Em sofrimento.
⊳ Em renúncia.
⊳ Em amor sacrificial.
Assim também a Igreja é enviada.
O discípulo não é chamado para uma vida de conforto, mas de fidelidade. Lucas registra que seguir Jesus exige disposição para deixar segurança, interesses pessoais e prioridades secundárias (Lc 9.57-62). A missão possui um preço. Ao longo da história, milhares de cristãos entregaram bens, carreiras, sonhos e até a própria vida para que o Evangelho chegasse a outros povos.
A cruz precede a coroa!
Uma visão integrada da Grande Comissão em que cada Evangelho acrescenta um elemento indispensável:
| Evangelho | Ênfase | Pergunta respondida |
| Mateus | O mapa | Aonde devemos ir? |
| Marcos | A profundidade | A quem devemos anunciar? |
| Lucas | O método | Como a missão deve avançar? |
| João | O custo | Quanto estamos dispostos a pagar? |
Nenhuma dessas perspectivas é suficiente isoladamente. A missão precisa unir: autoridade, compaixão, estratégia, dependência do Espírito Santo, disposição para sacrificar-se.
Aplicações para a Igreja de hoje
A Grande Comissão continua válida. Ela não foi dirigida apenas aos onze apóstolos, mas à Igreja de todas as épocas.
Cada cristão participa dela de maneiras diferentes:
⊳ Orando pelos missionários.
⊳ Contribuindo financeiramente.
⊳ Testemunhando de Cristo onde vive.
⊳ Discipulando novos convertidos.
⊳ Usando seus dons para fortalecer a Igreja.
⊳ Indo, quando Deus chamar.
“Missões se faz com os 🦶 pés dos que vão, com as 🫴 💰 mãos dos que contribuem e com os 🦵 joelhos que se dobram em oração 🙏.”
A pergunta não deve ser apenas: “Quem irá?”
A pergunta correta é: “Qual é a minha participação na Grande Comissão?”
Conclusão
A Grande Comissão se fundamenta na autoridade de Cristo, se desenvolve na dependência do poder do Espírito Santo e permanece sustentada pela presença constante do Senhor. Ela tem origem no Filho de Deus que declara: “Toda a autoridade me foi dada”, e se sustenta em uma promessa igualmente poderosa: “E eis que estou convosco todos os dias.”
Entre essas duas declarações encontra-se a responsabilidade da Igreja. A Igreja existe para adorar a Deus, edificar os santos e anunciar o Evangelho. A missão não é uma atividade entre muitas; ela faz parte da própria identidade do povo de Deus. Desde o chamado de Abraão (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”), passando pelos profetas, culminando em Cristo e chegando à Igreja, toda a Escritura aponta para o propósito redentor de Deus de reunir para si um povo de todas as tribos, línguas, povos e nações (Ap 7.9).
Assim, a Grande Comissão não é apenas uma ordem a ser obedecida, mas um privilégio a ser vivido. Somos chamados a continuar a obra iniciada por Cristo, proclamando o Evangelho até que “os confins da terra” tenham ouvido a mensagem da salvação e até que o Senhor volte em glória.
A missão continua: O Filho ainda envia, sob a autoridade concedida pelo Pai. O Espírito ainda capacita. E a promessa permanece: “Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século.”
Eis-me aqui, usa-me Senhor!
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