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O Obreiro, a Seara e o Ministério

Texto base: Lucas 10.1-12

Introdução:

A Bíblia registra dois momentos marcantes no ministério de Jesus, quando ele mesmo promoveu esse “vá e ponha em prática o que ensinei”: a “missão dos doze“, relatada em todos os evangelhos sinóticos (Mc 6.6b-13; Mt 9.35-11.1; Lc 9.1-6) e a “missão dos setenta“, mencionada somente por Lucas (Lc 10.1-24). Tomaremos como base esta última missão, para aprendermos um pouco mais com Jesus.

Desenvolvimento:

A “missão dos setenta” se situa no último ano do ministério público de Jesus. Inicialmente, Jesus mesmo ia a toda parte pregando e curando, e os seus discípulos o acompanhavam. Posteriormente, as multidões vinham ao seu encontro e ele as ensinava e as curava. Por último, Jesus já não podia transitar livremente, por causa da oposição crescente e do aperto das multidões. Houve pregação e cura durante todo o seu ministério, porém no último ano Jesus dedicou-se a preparar e enviar aqueles que haveriam de dar prosseguimento à sua obra.

Quais teriam sido as razões para esta grande comissão?

“Para que o precedessem em cada cidade e lugar aonde ele estava para passar”. O grande objetivo era preparar o ambiente, criar expectativa para a chegada do Senhor. Jesus queria obter o máximo proveito nesta viagem.

– Para completar o aviso à nação judaica de estar presente o Messias.

– Para proporcionar aos seus seguidores um treinamento prático, preparando-os para a grande missão de Atos 1.8.

– Para deixar-nos orientação.

Uma particularidade da missão:

Confrontando as duas missões, constatamos que os doze foram designados apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel, enquanto os setenta foram enviados “a todas as cidades e lugares aonde ele estava para passar” (Lc 10.1). Tem sido sugerido que isto indica que, enquanto a primeira missão era aos judeus (às doze tribos), a segunda antecipava a abertura da porta da fé a todas as nações.

Concentremos nossa atenção em três aspectos relevantes da obra evangelística e missionária: o obreiro, a seara e o ministério.

1. O OBREIRO

1.1 Sua chamada

O texto mostra claramente que Jesus não delegou a responsabilidade de escolher os setenta. Ele, pessoalmente, escolheu, designou setenta para essa importante missão. “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande…”. Nessa expressão Jesus ratifica que apenas o Senhor da seara tem autoridade para enviar trabalhadores. (ver Jr 1.4-5; At 9.15; 13.2).

1.2 Suas qualificações

A única informação que temos é que eram seguidores de Jesus, discípulos, que acompanhavam Jesus. E, portanto, Jesus pôde separá-los e enviá-los. Ser enviado por Jesus não é privilégio de uma elite, mas sim dos que o seguem de perto. Temos exemplos na Bíblia de que Deus mesmo qualifica os seus enviados como fez com Moisés, Jeremias, Isaías, Paulo e tantos outros.

As características principais dos que produzem frutos na obra de Deus são:

i) Crentes de oração. Tais obreiros passam muito tempo em conversa, em comunhão com o Senhor, expondo-lhe todas as ansiedades e necessidades; confiam nele e dele esperam tudo.

ii) Crentes com conhecimento bíblico. O Senhor Jesus disse aos saduceus: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus!” (Mc 12.24)

iii) Crentes com paixão pelas almas. Como alguém vai sair pelo mundo, pregando ou ensinando, se não sente nenhuma paixão pelas almas perdidas? O Senhor Jesus se compadecia delas; as via como ovelhas que não têm pastor (Mt 9.36-37).

1.3 Seu envio

“De dois em dois”. Jesus não adotou esta forma apenas por um capricho pessoal. Ele já havia enviado os doze do mesmo modo (Mc 6.7). Enviando-os aos pares fortalecia o seu testemunho pessoal e tornava a viagem mais agradável. O envio de missionários, de dois em dois, foi imitado nos primeiros séculos (At 13.1-2), e continua a ser feito por algumas seitas (mórmons etc). Atualmente, a dupla missionária tem sido constituída por marido e mulher. O número dois na Bíblia tem como significado: autoridade (At 13.2; 15.27); conservação (Gn 6.19-20; Ec 4.9-12); confirmação (Mt 18.19); continuação. É claro que se trata de um quantitativo mínimo recomendado.

1.4 Seu destino

“Cada cidade e lugar”. Não é o obreiro que define o seu destino. Ele apenas segue o caminho traçado por aquele que o envia.

2. A SEARA (colheita)

Jesus usou, muitas vezes, a figura de um campo semeado (seara), ao falar sobre a colheita dos crentes (Jo 4.35-36; Mt 13.30, 39).

2.1 Seu tamanho

Inicialmente a seara era a nação de Israel. Mais tarde, porém, incluiu o mundo inteiro (Mt 28.19-20). Em face das dimensões da seara, Jesus adverte que há poucos trabalhadores e, portanto, devemos rogar a Deus pelo envio de mais trabalhadores. É curioso que naquela época não havia falta de autoridades religiosas. Grande parte do povo de Israel se ocupava das questões religiosas; no templo, nas sinagogas, nas casas, nas ruas. Entretanto, na avaliação de Jesus os trabalhadores eram poucos na seara. Desse exemplo se aprende que a organização religiosa e a aparência religiosa do povo não garantem a existência de trabalhadores autênticos do evangelho, ou que haja ceifa. Quem está disposto a orar? Quem está pronto a ir?

2.2 Seu Proprietário

“Senhor da seara…para a sua seara”. Os trabalhadores são representados por aqueles que trabalham diariamente para ganhar certo salário. Não são senhores da seara e nem têm autoridade sobre os que trabalham, mas tão somente são empregados do proprietário do campo. A alusão é ao Pai Celeste, que se interessa especialmente pelo êxito da colheita, porquanto o campo lhe pertence. Nenhum obreiro, nenhuma missão, nenhuma instituição poderá desapropriar o verdadeiro dono da seara (1Co 3.5-10).

“O dia pode ser longo e quente, mas no fim, os trabalhadores recebem, sem falta, o salário que lhes fora prometido pelo dono da seara.”

3. O MINISTÉRIO

Jesus não os enviou de qualquer maneira. Ele fez algumas advertências e recomendações e, ainda, deu-lhes as instruções e a autoridade de que necessitavam para o bom êxito daquela missão.

3.1 Seus riscos

“Ovelhas para o meio de lobos”. Jesus preparou os seus enviados para que enfrentassem duras experiências, que incluíam a perseguição.

“Ovelhas”. Mais uma vez, em seus ensinos, Jesus lança mão do simbolismo das ovelhas. Com esse simbolismo, Jesus indica diversas coisas:

1º) As ovelhas são pessoas sob a direção de um pastor.

2º) O pastor é responsável pela defesa das ovelhas, porque é claro que tais pessoas não sabem defender-se.

3º) Provavelmente também sugere que os discípulos, em comparação aos homens dotados de má intenção, são inocentes, fracos, humildes, mansos, gentis, simples.

“Lobos”. Termo usado no Novo Testamento para indicar os perseguidores e seu temperamento malicioso, por serem homens maus, injustos, destituídos de misericórdia, inclinados à destruição, à voracidade e à crueldade.

Jesus, primeiro mostrou que não deveriam esperar riquezas ou valores, segundo são representadas pelo mundo. Em seguida, mostrou que alguns rejeitariam sua missão e sua mensagem. Finalmente, mostrou que a rejeição pode incluir perseguição e até mesmo a morte. Com estas advertências eles devem ter compreendido que não estavam sendo enviados para uma excursão gratuita.

3.2 Seu Suprimento

i) Bagagem (Lc 10.4)

Jesus os exortou para que não levassem qualquer coisa que os viajantes normalmente pensavam ser indispensáveis para as viagens; mas que aprendessem a depender do suprimento divino. “Não leveis bolsa, nem alforje (porta-níqueis), nem sandálias”.  Estavam proibidos de sobrecarregarem-se com bagagem sobressalente. O sustento deles deveria vir de donativos feitos pelos beneficiários das ministrações. Esse método de subsistência dos obreiros foi confirmado pelas instruções de Paulo (1Co 9.7-11). Em qualquer época vê-se que o sustento do ministério é um problema muito sério. Isto porque as igrejas locais, em muitos casos, se recusam a assumir esta responsabilidade.

NOTA: O texto de Lucas 22.35-36, mostra que as provisões de que fala este versículo 4 eram temporais, e também revela a lição que Jesus queria ensinar por meio de suas proibições: “A seguir Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, faltou-vos porventura alguma coisa? Nada, disseram eles. Então lhes disse: Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma”. Situações diversas requerem provisões diferentes, mas as lições dadas por Jesus permanecem.

ii) Habitação e alimentação (Lc 10.5-8)

“Ao entrares numa casa”. As regras sociais no oriente, acerca da hospitalidade, abririam muitas casas aos discípulos, mas Jesus queria que estes procurassem certos indivíduos, que mostrassem simpatia pelo seu ministério e pelos seus propósitos (“Indagai quem neles é digno” – Mt 10.11). Alguns comentaristas explicam simplesmente que eles deveriam procurar pessoas capazes de arcar com as despesas da viagem e da visita; e parece que isto faz parte do sentido da instrução, mas também parece que Jesus indicou que só as pessoas que simpatizassem pelo trabalho dos discípulos – provavelmente conhecidas como pessoas piedosas – seriam dignas de receber as visitas dos enviados de Jesus. Jesus parece indicar que era grande privilégio alguém receber a visita dos seus discípulos. A companhia deles serviria de benefício mútuo, e, sobre tais circunstâncias, a dificuldade do trabalho seria menor.

“Permanecer na mesma casa”. Jesus queria que seus discípulos fossem mensageiros, não mendigos. Não deveriam andar sem destino, à procura dos alojamentos mais confortáveis e da companhia mais agradável.

“Comendo e bebendo do que eles tiverem”. Jesus ensina aqui, claramente, que os obreiros devem receber o sustento físico daqueles que são beneficiados por seu ministério. Há aqui uma recomendação muito importante e que alguns obreiros parecem desconsiderar; eles devem participar do cardápio normal da família e não esperar manjares ou banquetes.

“Digno é o trabalhador do seu salário”.  Isso equivale ao que se diz em Mateus 10.10,“…Digno é o trabalhador do seu alimento”. Lucas diz “salário”, em lugar de “alimento”, mas está em foco a mesma ideia. Essa é uma das poucas declarações de Jesus, que Paulo citou (ver 1Co 9.7, 14; 1Tm 5.18). Naturalmente a ideia já se achava no Antigo Testamento, e Paulo poderia estar fazendo dali um empréstimo, e não diretamente a Jesus (Dt 25.4). É a primeira vez que encontramos a palavra “salário” referindo-se ao trabalho de um servo de Deus. Paulo, entretanto, abriu mão do seu direito e trabalhava com as mãos para não ser pesado a ninguém e para dar o exemplo. Desta forma podia gozar de mais liberdade em seu ministério, além de evitar constrangimentos e falatórios (1Co 9.12).

3.3 Sua Urgência

“E a ninguém saudeis pelo caminho”. O Senhor não pretendia que eles fossem descorteses. As saudações orientais eram cerimoniosas e consumiam tempo, e a necessidade da pressa justificaria a negligência a essas “etiquetas sociais”. As palavras mostram a necessidade de total devoção à missão; e isso concorda com todas as ordens registradas no contexto geral.

3.4 Seu Serviço

“Curai os enfermos…..anunciai…”. Imitando o que Jesus e os doze já haviam feito. Cristo conferiu aos seus discípulos o poder de curar como parte do seu ministério. Não há nenhuma indicação de que todos eles ficassem de posse desse poder, permanentemente. No Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e distribuiu dons aos homens. Ainda hoje os discípulos de Jesus podem ser usados para esses dois serviços (Mc 16.15-18):

1º) Operar os sinais que demonstram a vinda do Reino;

2º) Proclamar a mensagem de Salvação.

3.5 Sua Rejeição

A narrativa de Lucas 10.10-12 apresenta um “ritual de rejeição” mais elaborado. Além de bater o pó proveniente da “cidade dos rejeitadores”, e de fazer uma espécie de pequeno discurso formal, os missionários cristãos deveriam assegurar-lhes que tinham perdido grande oportunidade, pois o “Reino de Deus” chegara perto deles, na forma de seus mensageiros. Desse modo, a mensagem de misericórdia se transmuta em “sentença condenatória”, quando é ignorada ou repelida.

“Haverá menos rigor para Sodoma…”. Para os judeus, “Sodoma e Gomorra” eram símbolos de cidades ou indivíduos especialmente pecaminosos e, ao mesmo tempo, símbolo do juízo de Deus contra tais. Jesus mostrou que nem mesmo Sodoma e Gomorra mereciam julgamento tão severo como aqueles que rejeitam o Messias, o seu Reino e os seus discípulos. O ensino de Jesus, neste ponto, inclui ideias que a rejeição da luz, quanto mais brilhante ela for, trará julgamento mais severo, e que quanto maior for a luz recebida, maior será a responsabilidade do indivíduo.

Sodoma contou apenas com o fraco testemunho de Ló. Mas as cidades da Galiléia gozaram do testemunho dado pelo próprio Messias. Provavelmente os pecados dos habitantes de Sodoma e Gomorra eram mais graves e numerosos do que os dos habitantes da Galiléia. Mas o julgamento dos habitantes da Galiléia seria mais severo, em face de terem ouvido a mensagem mais ampla do mensageiro divino. É possível que nesses ensinos, Jesus tenha incluído a ideia de Julgamentos terrestres, isto é, tipos de juízo como os que foram sofridos por Sodoma e Gomorra, e não somente um juízo vindouro. Alguns intérpretes acham só este último sentido no texto, mas a verdade é que Jesus pode ter indicado mais do que isto.

Conclusão:

É uma bênção e privilégio poder participar da missão de levar o Evangelho à toda a criatura! No relato do regresso dos setenta (Lc 10.17-24), há alguns pontos de alerta a se considerar. Eles retornaram exultantes pelo poder de operar sinais, de submeter demônios. Ser capacitado e usado por Deus pode insuflar nosso ego, fazer-nos pensar de nós mesmos além do que convém. Jesus os adverte quanto ao objeto da verdadeira alegria – a salvação eterna. Nossa alegria consiste em glorificar a Deus, anunciar o Evangelho e contemplar os frutos do penoso trabalho do Servo Sofredor (Jesus): “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito;” (Is 53.11). Vidas salvas e transformadas alegram o coração de Deus e deve alegrar o nosso também.

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