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Culto Individual, Familiar e Comunitário

Introdução

Com a intenção de testar Jesus e coloca-lo em dificuldade, o intérprete da Lei pergunta: – Mestre, qual é o principal, o primeiro, de todos os mandamentos? Considerando a imensa quantidade de mandamentos, abrangendo tantas áreas e aspectos importantes, a tarefa de escolher um ou fazer um resumo de todos, parecia simplesmente impossível. Para os homens comuns, sim; mas para Jesus, não. De forma magnífica Jesus responde: “…O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mc 12.29-31).

Na nossa curta existência terrena precisamos levar muito a sério essas palavras de Jesus, priorizando-as acima de tantas outras que chegam até nós, ou seja:

  • Há um só Deus e Senhor, sobre tudo e sobre todos. Ele é o Deus criador e sustentador de toda a criação e deve ser distinguido e cultuado em espírito e em verdade.
  • Em decorrência desta primeira e sublime realidade, nossos pensamentos e ações precisam estar intimamente ligados a ele, distinguindo-o acima de tudo e de todos. Somente ele é digno de receber a maior manifestação do nosso amor, devoção e obediência.
  • E, complementando a síntese, Jesus nos ensina que, abaixo de Deus, o nosso próximo deve ser alvo de nosso amor, na mesma medida com que amamos a nós mesmos e, ainda mais, na medida que Cristo nos amou (Jo 13.34).

Então, de forma prática e efetiva, nossa vida precisa ser um contínuo culto a Deus, cuja liturgia se desenvolve através de atitudes e ações direcionadas diretamente a ele ou, indiretamente, quando amamos e servimos ao nosso próximo. É o que veremos a seguir:

1. CULTO INDIVIDUAL
(O Alicerce da vida cristã)

Assim como na biologia existem vários níveis hierárquicos de organização dos seres vivos, começando pelos átomos, depois moléculas e terminando no corpo vivo; de igual forma, a igreja, o corpo vivo de Cristo é constituída por indivíduos e famílias. Podemos afirmar que igreja saudável é uma igreja que agrada a Deus. Para uma igreja ser saudável, os indivíduos e famílias que a compõem também precisam ser espiritualmente saudáveis. Igreja também é comparada a um edifício. Um edifício sólido e estável é aquele edificado sobre a rocha, que é Cristo, o alicerce sólido sobre o qual as pedras vivas (os crentes) são colocadas (Ef 2.19-22; Cl 2.6-7). Essas e outras figuras metafóricas expressam a estreita ligação entre Deus e sua igreja.

É na intimidade com Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo que a vida cristã se fundamenta e se desenvolve: “A intimidade do SENHOR é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.” (Sl 25.14); “porque o SENHOR abomina o perverso, mas aos retos trata com intimidade.” (Pv 3.32). Esse estreito relacionamento entre o crente e o Senhor é que produz crentes “Alegres na Esperança, Fortes na fé, Dedicados no Amor, Unidos no trabalho”, como diz o moto da UMP (União de Mocidade Presbiteriana).

É no Culto Individual que desenvolvemos esta intimidade com Deus. Temos belíssimos exemplos, na bíblia e na história, de servos de Deus que fizeram a diferença em seu tempo por conta de seu estreito relacionamento com Deus: Enoque andava com Deus (Gn 5.22-24); Moisés tratava com Deus face a face (Dt 34.10-12); Ana, na sua intimidade com o Senhor foi atendida (1Sm 1 e 2); Samuel, em tempos de apagão espiritual foi usado por Deus para a restauração espiritual do povo de Israel, pois o Senhor se manifestava a ele (1Sm 3.21). Davi, apesar de suas fraquezas era um homem segundo o coração de Deus (At 13.22). Os salmos de autoria de Davi são testemunhas da sua intimidade com Deus, onde ele expressa louvores, ações de graças, sua confiança em Deus, mas, também, suas perplexidades e clamor. E, o que dizer de Daniel? O registro bíblico já diz tudo: “Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer.” (Dn 6.10). Mesmo sob ameaça e correndo o risco de perder a sua vida, ele não alterou sua rotina cotidiana.

Jesus nos ensina que precisamos buscar um momento a sós com Deus: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mt 6.6). Além de orar, em hora apropriada e lugar sossegado, precisamos, primariamente, nos enriquecer com a leitura da bíblia[1], e, complementarmente com a leitura de bons textos devocionais, livros etc. O cântico de louvores é parte integrante e relevante do culto a Deus (Sl 34.1; Mt 26.30; At 16.25).   Finalmente, é bom deixar claro que o culto individual não fica restrito a um momento reservado e isolado. O servo de Deus deve cultuar a Deus em todo o tempo e em todo o lugar, com seus pensamentos, palavras, atitudes e ações.

2. CULTO FAMILIAR
(O Alicerce da família cristã)

Famílias cristãs espiritualmente fortalecidas são bênção para a igreja. Ao invés de drenar recursos e esforços da liderança, na solução de seus problemas, elas contribuem para ampliar os recursos a serem utilizados para alcançar os perdidos. Para que isso aconteça, os pais ou responsáveis precisam desempenhar o seu papel, ao invés de querer delegar ou terceirizar o que é seu dever. Isso deve ser feito com muita sabedoria, dedicação e oração, nunca por decreto ou por força ou por violência. Não é eficaz obrigar os filhos pequenos a participar de culto doméstico, ler a bíblia e ir à igreja. Conduzir não é obrigar! Antes de tudo é preciso viver uma vida cristã tão linda que contagie os outros membros da família a amar a Deus, obedecê-lo e fazer a sua vontade. É preciso respeitar sempre a individualidade de cada um e usar de sabedoria para conduzi-los.

Vejamos alguns aspectos importantes do culto doméstico ou familiar:

a) É mandato de Deus para os pais (Dt 6.6-9)

“Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.6-7).

É preciso ensinar, primeiramente com o exemplo pessoal, mas também com as palavras; repetindo quantas vezes for necessário e insistindo até a absorção e prática natural.

b) Proporciona a oportunidade de transmissão de valores para a formação de caráter (Gn 35.2; Js 24.15; Ml 2.6)

“Então, disse Jacó à sua família e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes;” (Gn 35.2)

“Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: …. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR. (Js 24.15)

“A verdadeira instrução esteve na sua boca, e a injustiça não se achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão e da iniquidade apartou a muitos.” (Ml 2.6)

O pai, e na sua ausência a mãe ou outro responsável, precisa exercer os papéis de profeta, sacerdote e pastor da sua família. Como profeta, ele recebe a palavra de Deus e a transmite para a sua família. Como sacerdote, ele zela pela pureza e santidade da sua família. Como pastor, ele guia e cuida da sua família.

c) Tem a promessa de resultado duradouro (Pv 22.6)

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv 22.6)

Para que o resultado seja alcançado é preciso observar cuidadosamente o início do texto: “ensina a criança”. É a partir da mais tenra idade que o processo deve começar. A criança é uma verdadeira esponja, absorvendo tudo o que ouve e vê na sua família. Inicialmente ela reage por imitação; depois, por sua própria vontade e decisão. Vale ressaltar que o ensino se dá “no caminho”, isto é, durante a caminhada e convivência.

d) Tem a promessa de prolongamento da vida (Dt 6.2)

“para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados.” (Dt 6.2)

No período do AT, aquele que se desviava dos mandamentos divinos, sendo rebelde e transgressor, não vivia muito tempo, inclusive porque a tolerância divina era mínima para com os ímpios. Observando-se a história humana, não será difícil constatar que, de um modo geral, aquelas pessoas que foram bem cuidadas e orientadas quando crianças tiveram vida mais longa. E, essa constatação é muito mais evidente e tangível quando essa orientação familiar se dá a partir de princípios e valores cristãos.

d) Proporciona a oportunidade de um prazeroso convívio familiar.

Há muitos momentos de convívio familiar prazeroso. Família é bênção de Deus em nossas vidas! Entretanto, esse momento em que a família se reúne para cultuar a Deus é especialmente prazeroso. Apenas quem já o vivenciou pode testemunhar essa realidade. São momentos de deleite e edificação: na leitura e meditação na Palavra de Deus, no ouvir aquela oração simples e sincera da criança, no compartilhar as vivências do dia, no esclarecimento de dúvidas. São momentos de plantar memórias que servirão de esteio para os filhos para o resto de suas vidas. São momentos temporários, mas com desdobramentos eternos.

e) Deve ser feito com criatividade e de forma lúdica.

Há que usar de sabedoria e criatividade para tornar esse momento tão atrativo que a criança fique na expectativa de chegar a hora do próximo “cultinho”. Os pais não precisam ser teólogos ou professores para conduzir esse momento. Basta buscarem um conhecimento básico daquilo que será ensinado e compartilhado. Certamente o conteúdo bíblico será a base. Além da Bíblia, as livrarias evangélicas (físicas ou virtuais) oferecem inúmeros materiais ou recursos de apoio para serem utilizados no culto familiar ou doméstico (livros, cadernos, jogos, CDs, DVDs etc). Na internet podem ser encontradas muitas dicas sobre o assunto.

Finalmente, a pergunta que não quer calar é: por que o culto familiar é tão negligenciado, se há pleno conhecimento, tanto da sua importância, quanto do estrago causado quando não é praticado? A influência dos pais sobre os filhos pode ser impactante e duradoura, como aquela de Jonadabe, filho de Recabe, usada por Deus como exemplo de obediência (Jr 35.1-19). Por que não aproveitar esse momento para exercer influência benéfica sobre a família?

3. CULTO COMUNITÁRIO
(O Alicerce da igreja cristã)

Longe de ser uma rotina dominical ou uma obrigação religiosa, o culto comunitário deve ser algo muito esperado e desejado por todos (2Cr 20.13), algo que gera alegria e júbilo (Ne 12.43), algo a ser preservado (At 2.42; Hb 10.25). Qualquer que seja a forma de culto – individual, familiar ou comunitário – o culto bíblico deve ser norteado por alguns princípios.

Vejamos alguns aspectos importantes do culto comunitário:

a) Princípio da destinação

“….Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4.10)

O culto bíblico é oferecido única e exclusivamente a Deus, portanto, é teocêntrico e não antropocêntrico.

b) Princípio da autoridade

“ Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo.” (1Co 11.3)

Considerando a presença de muitas pessoas no culto comunitário, há que se ter pessoas responsáveis pela liderança da programação. Não é razoável que cada um resolva fazer o que tiver vontade. A autoridade de gênero estabelecida por Deus não deve ser desprezada.

c) Princípio da comunhão

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.3)

Além da adoração a Deus, o culto deve promover a comunhão e unidade do corpo de Cristo, a igreja.

d) Princípio da decência e ordem

“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.” (1Co 14.40)

Deus merece o nosso melhor, tanto em termos de forma como de conteúdo.

e) Princípio da participação

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26)

Ainda que alguns atuem mais diretamente na liturgia do culto – orando, pregando, cantando no coral ou tocando um instrumento musical – não podemos nos comportar como meros espectadores ou, muito menos, como quem frequenta o culto apenas para avaliar e criticar. Somos parte integrante daquilo que está sendo realizado, associando nossas mentes e emoções.

f) Princípio da edificação

“Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua.” (1Co 14.19)

Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26b)

No culto se exalta a Deus e se promove o crescimento espiritual dos crentes, rumo à maturidade cristã.

g) Princípio da reverência

“Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá.” (Jo 2.17)

É preciso manifestar respeito profundo ao cultuarmos a Deus. Ele está presente para receber o culto que lhe oferecemos. Enquanto se desenvolve a programação litúrgica: onde estão os nossos pensamentos? Cantamos refletindo sobre a letra? Acompanhamos cada palavra da oração que está sendo feita? Prestamos atenção na mensagem? Ou: conversamos com quem está perto a qualquer tempo, nos distraímos com a criança que está à nossa frente, consultamos o celular a todo instante.

h) Princípio do amor

“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais,…” (1Co 14.1)

Quando o amor a Deus e ao próximo se torna a base de tudo em nossas vidas, inclusive a base do culto que prestamos a Deus, tudo flui melhor. Ainda que as nossas imperfeições pessoais sejam fatores de limitação na realização do culto comunitário, esse amor vem preencher as lacunas (1Pe 4.8).

Conclusão:

Esclarecidos a respeito dessas três formas de culto (individual, familiar e comunitária), quanto ao que consiste e quanto à sua importância, resta a todos nós o desafio permanente de praticá-las e incentivar outros a fazerem o mesmo.


[1] Sugerimos o uso do Plano de Leitura Bíblica em 2 anos disponibilizado neste blog:
https://pauloraposocorreia.com.br/category/leitura-biblica/portugues/

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A espiritualidade no culto do NT

Introdução          

Neste estudo, abordaremos a espiritualidade no culto do Novo Testamento (NT), no período que precede o nascimento da igreja e, principalmente, no período da igreja.

É relevante lembrar aqui alguns aspectos relacionados ao culto. Adoração e culto são termos fortemente entrelaçados. A adoração é a essência do culto, porém o culto vai além da adoração. O culto envolve o(s) cultuador(es) e o(s) objeto(s) de culto (At 17.23). O culto bíblico é a resposta do povo de Deus, ao Deus único e verdadeiro que a ele se revela, através da Bíblia, tributando-lhe adoração, louvor, honra e glória por aquilo que ele é; louvando e agradecendo por aquilo que ele tem feito. Culto é mais do que um evento; é orgânico, é visceral, é vida com Deus que se expressa em todo o tempo e no lugar onde estivermos. Assim sendo, pode ser considerado como culto pessoal, familiar e público. A base deste culto não é a livre vontade e espontaneidade do cultuador, mas os termos estabelecidos por Deus naquela aliança que liga o Criador às criaturas. Assim, em cada uma das alianças de Deus com os homens, havia elementos específicos para o culto. Nessas alianças, Deus fazia promessas de bênçãos que eram condicionadas à obediência desses aos seus decretos.

No AT, a principal aliança, a Mosaica ou da Lei ou Antiga Aliança continha elementos para o culto a Deus, pelo povo de Israel, que serviram de referência para o culto na Nova Aliança, pela Igreja:

a) Um dia separado para o culto;
b) Um local para o ajuntamento;
c) Um sistema sacrificial e rituais de purificação etc.

Nosso objetivo, neste estudo, não é investigar a espiritualidade no NT, mas como ela se expressava e se desenvolvia no culto:

1. Antes do Ministério Público de Cristo

Pode-se dizer que a rebeldia do povo de Israel, na Antiga Aliança, chegou a níveis insuportáveis, acarretando o exílio e cativeiro; primeiramente do Reino do Norte e, depois, do Reino do Sul. Vale ressaltar que, no início, no meio e no final do AT encontramos recados explícitos de Deus aos cultuadores e ofertantes, a saber (dentre outros):

  • Tanto o ofertante, quanto a sua oferta precisam agradar a Deus (Abel e Caim – Gn 4.3-5).
  • Obedecer é melhor do que sacrificar (Samuel disse isso a Saul – 1Sm 15.22).
  • Deus não suporta iniquidade associada ao Culto (Is 1.10-15; Am 5.21-23).
  • O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento. (Pv 15.8).

Com a destruição do principal local de culto, o Templo de Jerusalém, e o exílio, o povo começou a cultuar nas sinagogas. O NT começa com o povo de Israel cultuando a Deus no Templo reconstruído por Zorobabel (516 aC) e remodelado por Herodes (1º Séc. dC), bem como nas Sinagogas, nas mesmas bases da Antiga Aliança (Lc 1.8-10; 2.22-23; 2.41-50).

2. Durante o Ministério Público de Cristo

Precedendo o ministério público de Jesus entra em cena João Batista, o precursor predito pelos profetas (Mc 1.2-3; Ml 3.1; Is 40.3). Que tipo de culto ele prestava a Deus? O que sabemos é que ele atuava fora das quatro paredes e extramuros, pregando e realizando o batismo de arrependimento, anunciando Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele começa a fazer a ponte entre a Antiga e a Nova Alianças.

A primeira menção a culto no NT saiu da boca de Jesus, no deserto da tentação (Mt 4.10).

“Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” (Lc 4.16)

Ele tinha o costume de frequentar o templo e as sinagogas (Lc 4.16; 4.31-37; 21.37-38; Mc 1.21-22; Mt 12.9) e, ainda, o Monte das Oliveiras (Lc 22.39).

Desde o início Jesus declarou que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas para cumprir (Mt 5.17). Ele começou a fazer uma releitura da Lei: “eu porém vos digo”. E, assim, deu continuidade à ponte entre a Antiga e a Nova Alianças. O seu campo de ação preferido eram as áreas externas, sempre cercado de multidões. Também se reunia em casas. Na sua conversa com a mulher samaritana, que estava tão confusa quanto a um lugar específico para adoração ou culto a Deus, ele esclarece que o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.19-24). Pode-se dizer que isso era uma verdadeira quebra de paradigma. Para Jesus, o templo de Jerusalém não tinha a relevância que os religiosos lhe davam (Mt 24.1-2).

Que informações temos de espiritualidade e culto neste período? O que Jesus leu na sinagoga sintetiza sua missão e forma de cultuar a Deus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18). Evangelizar, pregar, ensinar, curar e operar milagres era parte desse culto (Mc 1.32-34; 2.13; 4.1-2; Mc 9.35; Lc 5.17; 8.1). Ele também tinha o hábito de orar (Mc 1.35; Mt 14.23; 26.36; Lc 6.12; Jo 17.1-26) e cantar (Mt 26.30). Jesus também tinha o costume de participar das festas judaicas, principalmente da páscoa. Na sua última páscoa, instituiu a ceia memorial (Mc 14.22-25; Mt 26.26-29; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26) que haveria de ser observada pela igreja.

3. Na igreja do Novo Testamento (neotestamentária)

No período de “gestação da igreja”, o Senhor ressurreto diz aos seus discípulos: “…permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder.” (Lc 24.49b). Após a ascensão, Lucas registra: “e estavam sempre no templo, louvando a Deus.” (Lc 24.53). No Livro de Atos, este mesmo Lucas diz que eles subiram para o Cenáculo (salão construído em cima do andar térreo de uma casa) (At 1.13), lugar provável onde nasceu a igreja, no dia de Pentecostes (At 2.1).

Como o Templo de Jerusalém estava muito atrelado ao judaísmo, a igreja nascente se expande para além dele, na mesma linha de João Batista e de Jesus: “o campo é o mundo”, isto é, espaços ao ar livre (outdoor) (praças – At 17.17b; praia – At 21.5; junto ao rio – At 16.13) e em ambientes fechados (indoor)(Ainda no Templo – At 3.1; 5.25; 5.42; Cenáculos – At 20.8; Casas – At 2.46; 5.42; 20.20; Rm 16.5; Sinagogas – At 13.14; 14.1; 17.1-9; 17.10-15 etc).

3.1 O paralelo entre o culto no AT e no NT

Há três aspectos importantes a se considerar, quando se compara o culto nos AT e o culto no NT:

 a) O Templo (o lugar)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava um local e construção específicos (Dt 12.13-14), como o Tabernáculo e, depois, o Templo; na era da igreja ela se desloca para o santuário do corpo do salvo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16; ver tb 1Co 6.19). Isso significa que este deve prestar um culto contínuo a Deus, na liturgia da vida. Numa analogia bastante modesta, o culto no Antiga Aliança (AT) está para o telefone fixo, assim como o culto na Nova Aliança (NT) está para o telefone móvel. No primeiro caso era necessário ir ao “telefone fixo” (templo) para falar (cultuar); no segundo, o “telefone móvel” (corpo-templo) para falar (cultuar) vai conosco.

b) O Sacerdócio (o mediador)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a intermediação de um Sumo Sacerdote, da linhagem de Levi; na era da igreja ela se desloca para o nosso eterno Sumo Sacerdote – Jesus Cristo – um Sumo Sacerdote perfeito (santo, inculpável e sem mácula) (Hb 7.26-28). Nenhuma figura ou líder humano deve se atrever a tentar ocupar este lugar de mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), tanto no que diz respeito a salvação eterna, quanto no que diz respeito ao acesso a Deus; pois o Espírito Santo foi dado a todos os remidos do Senhor.

c) O Sacrifício (o sistema de expiação)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a utilização de um sistema de sacrifícios; na era da igreja o sacrifício de Jesus na cruz foi único, eficaz, perfeito e definitivo, para expiar o pecado e nos reconciliar com Deus (Hb 9). Os povos pagãos cultuavam seus deuses oferecendo-lhes seus filhos em sacrifício; mas o Deus único revela a todos os seres humanos que apenas o sacrifício do seu Filho Unigênito pode aplacar a sua ira e conceder-lhes eterna salvação (Rm 5.9; 1Ts 1.10). Nenhuma obra ou sacrifícios pessoais (penitências) são requeridos do cristão com vistas a aproximá-lo de Deus; mas espera-se que as suas obras e seu viver diário testemunhem a todos sua nova vida em Cristo.

3.2 Expressões da espiritualidade no culto, nas epístolas e Apocalipse:

a) Culto racional (Rm 12.1)

Na epístola aos romanos encontramos o seguinte apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm 12.1). Na graça devemos comparecer diante de Deus não com animais (para sacrifício e morte), mas com o nosso corpo ou ser, muito vivo e lhe dizer: “Eis-me aqui, envia-me, a mim” (Is 6.8); “usa-me, Senhor”. Templo sempre foi lugar de santidade e nós somos o templo do Espírito Santo, santuário de Deus que também precisa ser santo (1Co 3.16). Este culto racional é realizado para agradar a Deus. Para tanto, tem que ser em conformidade com as suas exigências.

b) Culto com ordem (1Co 14.26-40)

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26). A igreja de Corinto, tinha muitos problemas, que foram tratados pelo apóstolo Paulo. Ele também teve que orientá-la quanto à liturgia do culto, particularmente quanto ao uso dos dons espirituais (1Co 14.26-40). Também teve que orientá-la quanto à “Ceia do Senhor” (1Co 11.20-29). Tudo isso porque culto tem que ser prestado com ordem e visando a edificação.

c) Culto com conteúdo (Ef 5.19-21)

À igreja de Éfeso Paulo instrui: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais,” (Ef 5.19).

À igreja de Colossos Paulo recomenda: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16).

Na epístola de Tiago somos instruídos que, de certa forma, também cultuamos a Deus quando servimos ao nosso irmão, ao nosso próximo (Tg 2.14-26). Cultuar a Deus não pode ser algo teórico e abstrato, da boca pra fora; mas algo muito concreto que afeta a nossa vida a tal ponto que redunde na glorificação de Deus e bênção na vida dos que nos cercam.

No culto público, a essência precisa prevalecer sobre a forma, assim como a espiritualidade sobre a religiosidade. Portanto, na Nova Aliança, fazem parte do culto neotestamentário: a pregação da Palavra (At 20.7), a leitura das Escrituras (1Tm 4.13), a oração (1Tm 2.8), os cânticos de louvor (Ef 5.19) e as ofertas (1Co 16.1-2), além do Batismo (At 2.37-41) e da Ceia do Senhor (1Co 11.23-29) e o serviço cristão (Tg 2.14-26).

d) Culto dominical

No AT, os israelitas suspiravam pela chegada do dia de participarem das festividades em Jerusalém e irradiavam alegria enquanto peregrinavam rumo ao Templo (Sl 122.1). O ajuntamento do povo da cruz, para cultuar a Deus, deve ser motivo alegria. A igreja neotestamentária também se reunia no primeiro dia da semana, no domingo (At 20.7). O autor de Hebreus ressalta a importância de nos estimularmos, uns aos outros, a nos congregarmos: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hb 10.25)

e) Culto eterno

O Cordeiro de Deus que é cultuado e adorado pela igreja, na terra, no livro de Apocalipse é adorado eternamente (Ap 5.8-14; 15.2-4).

Conclusão:

Que Deus nos ajude a compreender essa espiritualidade no culto bíblico que deve nortear o culto na igreja de Cristo em qualquer época. Que tenhamos sempre em mente que culto não é show, beleza estética ou ritual para animar uma plateia; mas algo orientado por Deus e centrado em Deus, portanto, teocêntrico e cristocêntrico. Que compreendamos que culto é algo contínuo, pois quando termina a liturgia do templo, começa a liturgia da vida; sendo que a liturgia do templo só será aceita se tiver lastro numa consistente e santa liturgia da vida. Que, sejamos encontrados por Deus como aqueles que o adoram e o cultuam em espírito e verdade.

A Excelência da União Fraternal (Salmo 133)

1  Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!
2  É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.
3  É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre. (Sl 133.1-3)

Como é constituído o Salmo 133?

A resposta é simples: por três números [1] [3] [3]

Se você achou a resposta simples demais, vamos aprofundar nossa análise. Este salmo contém:

  • [1] Um assunto relevante: união fraternal ou comunhão fraternal.
  • [3]Três versículos com: Uma declaração entusiástica (ou uma exclamação contagiante) – “Oh! Como é bom e agradável…” e Duas comparações aparentemente estranhas – “É como o óleo precioso…” “É como o orvalho….”.
  • [3] Três ensinos preciosos que envolvem três pessoas importantes: DEUS, VOCÊ e O OUTRO.

 

1º) União Fraternal ou Comunhão Fraternal (VOCÊ e O OUTRO).

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (v.1)

O salmista Davi declara aqui a excelência da união fraternal. A que irmãos ele estaria se referindo?

Ainda que todos sejamos descendentes de Adão e, mais especificamente, descendentes dos três filhos de  Noé (Gn 9.18-19), é provável que não seja a estes irmãos humanos que Davi se referia. O que não quer dizer que essa declaração não se aplique a essa categoria de irmãos. Talvez ele estivesse se referindo àqueles irmãos que vivem mais próximos, os irmãos compatriotas, especificamente o seu povo, os judeus, ou, quem sabe, os irmãos de uma mesma família. Davi viveu um verdadeiro caos no relacionamento entres seus filhos: Amnom violou sua meia irmã Tamar, irmã de Absalão e este mandou matá-lo, por vingança. Adonias disputava o trono de Davi com Salomão e este o mandou executar assim que começou a reinar.

Além e acima dessas três categorias mais consagradas de irmãos, esta declaração se aplica a um grupo especial e distinto de irmãos, a Igreja de Cristo. Esta reúne irmãos dessas três categorias e cria laços muito mais fortes e duradouros, porquanto, eternos: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19). “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1Pe 2.9). “Eles não são do mundo, como também eu não sou.” (Jo 17.16).  Às vezes nos envolvemos de tal maneira com as coisas deste mundo que não nos damos conta da nossa verdadeira identidade celestial.

O que é União ou Comunhão Fraternal?

  • É mais do que proximidade física! Podemos partilhar muitos espaços com outras pessoas, lado a lado, em nossa vivência diária e, também, nos cultos e demais programações da igreja, e, ainda assim, isso não assegura que temos comunhão com elas. Porém, estarmos juntos, na adoração e no serviço, pode ser um bom indicativo dessa comunhão: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,” (At 2.44, 46)
  • É mais do que o compartilhamento de uma mesma identidade religiosa! “- Sou cristão” ou “ – Sou presbiteriano”. O nome faz a pessoa ou a pessoa é que faz o nome?
  • É mais do que a participação comum em “práticas religiosas”! Orar, ler a bíblia, ir à igreja, cantar hinos, dar o dízimo, etc. são práticas que por si só também não asseguram que haja essa verdadeira comunhão; porém os que vivem em comunhão participam dessas práticas.
  • É mais do que uma uniformidade estereotipada imposta! Houve um tempo em que você olhava para a forma de se trajar de determinadas pessoas e podia identificar a que grupo de evangélicos elas pertenciam. Essas pessoas podiam até ter uma certa uniformidade visual, porém, também não é por causa disso que estaria assegurada a comunhão entre elas.
  • É, sim, interação íntima e visceral contínua no corpo de Cristo! “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Mas, a união fraternal é apenas algo “bom e agradável” ou vai além?

  • É essencial para a preservação da igreja: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos.” (Gl 5.15)
  • É um testemunho ao mundo sobre Jesus: “a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.21)

Viver em comunidade é viver “com + unidade”, “como + um”. Comum é o que pertence simultaneamente a mais do que um. Assim é a fé que professamos – a fé comum (Tt 1.4).

Não é fácil e nem tentaremos interpretar o que exatamente estava no coração de Davi quando ele expressou as metáforas dos versículos 2 e 3 do Salmo 133.  Entretanto, aproveitando as ideias por ele apresentadas e à luz do contexto atual de Igreja de Cristo, podemos ser grandemente abençoados com os seguintes ensinos:

 

2) Unção Espiritual (Deus em Nós).

“É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.” (v.2)

O óleo aqui mencionado não é um óleo qualquer, um composto aromático comum. Trata-se do óleo sagrado da unção (Ex 30.25), composto com exclusividade para ungir o Tabernáculo e sua mobília, e para ungir os Sacerdotes. Qualquer fabricação independente ou qualquer aplicação diferente da prescrita na lei seria punida com a morte. Por que? Porque esse óleo é tipo do Espírito Santo – único e exclusivo. Conta-se que um cientista produziu uma semente de feijão exatamente igual a uma verdadeira e desafiou certo homem a descobrir qual a verdadeira e qual a falsa. O homem desafiado disse: “- Dá-me as duas sementes e depois de três dias te direi.” Passados os três dias o homem voltou com as sementes e respondeu ao cientista: “- A verdadeira é a que tem vida, veja como está brotando.” Ele havia plantado ambas as sementes; porém, apenas uma brotou. A verdadeira Igreja de Cristo é comparada a um corpo vivo, a um organismo; a falsa é apenas uma organização. No corpo vivo os membros estão intrinsecamente ligados e sob o comando da cabeça desenvolvem suas funções específicas.

Observem que a analogia não se restringe ao óleo, porém, ao óleo aplicado, ou seja, à unção sobre a cabeça de Arão.

  • A igreja foi instituída por Deus e subsiste pela ação e poder do Espírito de Deus; invisível, porém, real e essencial. “E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).
  • É o Espírito Santo de Deus que nos regenera e nos possibilita uma autêntica comunhão com o corpo de Cristo – a Igreja.
  • Sem o poder de Deus nada somos e nada podemos fazer. “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5).

Não há esforço humano capaz produzir a verdadeira união entre os membros do corpo; só o Espírito de Deus é capaz disso.

 

3) Convergência na Palavra (Nós em Deus).

“É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.” (v.3)

A outra comparação é com o orvalho do monte Hermom[1]. O Hermom era, e é, uma preciosidade incalculável para os judeus. O Hermon está para Israel assim como a água está para a vida. Esse majestoso monte, localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe, tem quase três mil metros de altitude. Quando a seca assola as outras regiões de Israel e países vizinhos, no Hermon faz frio e nos seus picos predomina a neve o ano todo. O calor do dia derrete grande parte desse gelo, transformando-o em água líquida que escorre pelas superfícies ou pelas entranhas do famoso monte e vai formar as nascentes do rio Jordão. “Quando as três vertentes se encontram, a 14km ao norte do lago de Hula, ou Hulé, ou Merom, o Jordão está a 150m acima do nível do mar (Mediterrêneo)”. Passando pelo lago do Merom, que está a 68m, o rio continua descendo vertiginosamente por um vale estreito e acidentado, entrando ruidosamente no Mar ou Lago da Galiléia, a 212m abaixo do Mar Mediterrâneo. O Lago da Galiléia tem cerca de 27km no sentido Norte-Sul. O Jordão entra nele pelo norte e sai dele pelo sul em direção ao Mar Morto.  Do sul do Lago da Galiléia até ao Mar Morto são cerca de 117km em linha reta, mas o seu curso é sinuoso e acidentado, por 351km percorridos sempre abaixo do nível do Mar. Tem mais de 100 corredeiras, que tornam suas águas barrentas e suas margens perigosas, terminando no Mar Morto, a 400m negativos.

O monte Hermom é, portanto, o grande responsável pela fertilidade das terras na sua base e por toda a extensão do rio Jordão, que dele nasce. Era uma montanha sagrada para muitos povos pagãos da antiguidade.  Ali eles cultuavam e festejavam seus deuses. Construíam templos no sopé do monte. O deus principal do Hermom foi Baal, daí o nome de Baal-Hermom (Jz 3.3 e 1Cr 5.23).

Já o povo de Israel o salmodiava, com alegria: “O Norte e o Sul, tu os criaste; o Tabor e o Hermom exultam em teu nome”. (Sl 89.12) ou, com saudade, quando exilados: “Sinto abatida dentro de mim a minha alma; lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar.”(Sl 42.6). Foi, provavelmente, em algum ponto da subida deste monte alto que se deu a transfiguração de Jesus (Mt 17.1-13). Num lugar de tanta idolatria, aprouve a Deus distinguir o Senhor Jesus como único e verdadeiro Deus, acima de qualquer deus humano ou grandes vultos do AT como Moisés e Elias: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

Neste Salmo 133.2 o orvalho sobre o Hermon é comparado à excelência da união fraternal. O que esse orvalho tem a ver com comunhão?

O gotejar miúdo e constante da “água do céu” é o fator determinante da continuidade da vida; pela água que forma o rio (Jordão) e pelo rio que fertiliza o solo ao longo de todo o seu percurso. Se o óleo da comparação anterior era uma figura do Espírito Santo; a água é uma figura da Palavra de Deus. Jesus é o verbo de Deus, a palavra que se fez carne. A Bíblia é palavra que se fez livro. E é através da Palavra e do Espírito que somos regenerados e nos tornamos membros do corpo de Cristo, a Igreja. A Palavra regenera “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. (1Pe 1.23) e purifica“… como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” (Ef 5.25-27).

E é essa mesma Palavra que nos conduz à comunhão: “completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (Fp 2.2). Será que o apóstolo Paulo estaria ensinando aqui que para desfrutarmos da verdadeira comunhão precisaremos pensar igual?  Certamente que não! O apelo aqui é pela convergência ou concórdia ou harmonia intelectual (de ideias e de ideais), sentimental e espiritual. “Rogo a Evódia e rogo a Síntique pensem concordemente, no Senhor.” (Fp 4.2), “para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 15.6)

Sobre a questão da convergência bíblica x comunhão, Richard Baxter apresenta uma fórmula simplificada: “Em assuntos fundamentais, unidade. Em assuntos secundários, liberdade. Em todas as coisas,  caridade  (ou amor)”.

Portanto, temos um grande desafio diante de nós no que se refere à comunhão – A CENTRALIDADE NA PALAVRA, NA BÍBLIA. Na era da informação em que vivemos é muito fácil um cristão, sem intimidade com a Bíblia, ser levado por ideias e conceitos chamados modernos, desprezando, assim, a Palavra de Deus como se esta fosse um escrito desatualizado e ultrapassado. É preocupante o crescente número de crentes que não leem ou não estudam a bíblia. É preocupante o número de crentes ACHANDO O QUE A BÍBLIA NÃO ACHA e NÃO ACHANDO O QUE A BÍBLIA ACHA E ENSINA! É preciso dar mais valor à sabedoria que vem do alto: “A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”.(Tg 3.17)

Conclusão:

Não podemos perder de vista que ambas as metáforas acima expostas passam a ideia de um processo continuado que se desenvolve no tempo .

Essas duas metáforas nos remetem aos seguintes textos de João:

“E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água (Palavra) e o sangue (de Cristo no Calvário), e os três são unânimes num só propósito”. (1Jo 5.8)
“Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7)

O salmista termina dizendo:

“Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.”

E nós, finalizamos também dizendo:

Onde há Unção Espiritual (Deus em Nós) e Convergência na Palavra (Nós em Deus), há COMUNHÃO, AMOR e SOLIDARIEDADE. Ali, neste lugar e situação, “ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre”.

Soli Deo Gloria!

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1] Hermom: Majestoso monte localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe. Era chamado de SENIR pelos amorreus e de SIRIOM pelos sidônios. Em Dt 4.48 é chamado de SIOM. Seu nome parece ter o significado de “dedicar” ou “consagrar”.


Catedral Presbiteriana do Rio
29/07/2007 – Culto Devocional (8h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

Caiu na Rede é…..Liberto!

O que a rede de pesca tem a ver com evangelismo? Simplesmente, tudo! Jesus chamou 12 discípulos, dentre os quais 4 foram identificados como pescadores e os desafiou a se tornarem “pescadores de homens” (Mt 4.19). Na pesca convencional, os peixes apanhados morrem. Na pesca evangelística, os que caem na rede passam da morte para a vida. É como diz o cântico: “É vida que nasce da morte. É vida que traz o perdão. É muito mais que uma religião. É Cristo vivendo em você.”

O que pretendo mesmo aqui é falar dessa pesca. Pode ser “no varejo”, peixe a peixe, com anzol; ou, “por atacado”, com rede de pesca. Não é preciso entender muito de pesca para saber que o pescador precisa atrair os peixes. No caso de uso da vara de pesca, deve ser usada a isca certa para o tipo de peixe que se deseja “fisgar”. Assim acontece no evangelismo individual. Cada caso é um caso. Você terá que conviver e conhecer a pessoa para só e então descobrir qual é a abordagem certa. No caso de uso da rede de pesca, você também terá que atrair o cardume. Assim acontece no evangelismo em massa. Na hora de atrair as pessoas para o evento evangelístico vale lembrar o que dizem os mais antigos: “cautela e canja de galinha, não fazem mal a ninguém”. Vamos colocar isso de outro jeito: “moderação e canja de galinha, não fazem mal a ninguém”. Por que não uma boa e criativa decoração e ambiência; som e imagem de qualidade; bom louvor. Aí fecha com a Palavra de Deus, pregada com unção e poder, e toca profundamente o coração do pecador; não importa se de muitos ou de poucos, Deus o sabe. Se alguém faz um evento evangelístico na força do homem, confiando apenas no audiovisual ou nas “atrações artísticas”, pode lançar a rede a noite inteira que só vai dar rede molhada. Porém, quando Jesus está nessa empreitada, quando nos santificamos, confiamos na ação do Espírito Santo, oramos intensamente e Jesus é obedecido: “lançai a rede à direita do barco” (Jo 21.6). Aí, sim, é rede cheia de almas!

Alguém dirá: mas, o templo é um espaço próprio para isso? Ora, se o templo não for lugar de louvor e evangelismo, para que servirá, então? O templo é apenas uma construção; não é nem mais, nem menos santo do que os seus frequentadores! Esses sim precisam ser santos, pois são o santuário de Deus (1Co 3.16). Havendo bom senso e moderação, qual é o problema?

O convívio e a sinergia da equipe de preparação é bênção pura! Chego a pensar que é quase tão importante quanto o próprio evento. Eventos evangelísticos promovidos por jovens (ou pelos mais velhos) são sempre pontuais; eles vêm e vão. O que realmente importa é ver jovens firmes na fé; nutridos na Palavra de Deus; gente de oração; testemunhando de Cristo com a vida, no seu cotidiano; participativos em todas as atividades da igreja, não apenas daquelas que eles mesmos promovem.

Nos meus saudosos tempos de jovem, subia comunidades juntamente com os mais velhos para evangelizar; distribuía folhetos de casa em casa. Como presidente de uma organização denominada CMC (jul/1983 a jul/1986) que reunia mocidades de mais de 20 igrejas, promovemos vários eventos. Em um deles, até com divulgação em rádio, em 21.04.1984, começou com “passeata evangelística” nas ruas de Teresópolis. Depois, reunimos mais de 8.000 pessoas no Ginásio Poliesportivo Pedro Jahara daquela cidade (Pedrão). Foi emocionante dirigir aquele evento, juntamente com a diretoria, que contou com a participação do Grupo Logos e a pregação do Evangelho pelo Dr. Jayro Gonçalves, um evangelista vocacionado por Deus, tendo ocorrido várias decisões por Cristo. Mesmo naquela época já existiam aqueles cantores e grupos de louvor, muito mais preocupados com sua performance artística e em arrancar aplausos do seu fã clube, do que em louvar a Deus. Assim, procurávamos usar de equilíbrio e moderação nesta escolha. Enfim, como é bom lançar a rede em nome de Jesus Cristo!

O experiente presbítero, João Silva, disse certa vez para o seu sobrinho Franz: “gostaria de ter a tua juventude e a minha experiência de vida.” Há algum tempo ambos se foram, o primeiro já idoso; o segundo, ainda muito jovem. Porém, aquela frase nunca foi esquecida. Hoje, bem mais maduro percebo o quanto ela é verdadeira. É como o apóstolo João registrou: “…Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.” (1Jo 2.14b e c). Sempre dei muito valor aos conselhos e à experiência dos mais velhos. Talvez, por isso, tenha errado muito menos do que poderia ter errado.

Adultos e jovens precisam caminhar juntos, procurando se entender e conviver pacificamente.

A liderança em 4 movimentos

“Então, disse Moisés ao SENHOR: O SENHOR, autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação que saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar, para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor.” (Nm 27.15-17)

 

Você já ouviu aquela velha frase sobre manutenção? “Quando tudo vai bem, ninguém se lembra que ela existe. Quando vai mal, todos reclamam.” Tenho a impressão de que o mesmo se aplica às lideranças.

Na igreja, quando as lideranças são muito mais destacadas do que a coletividade, é bem provável que Deus esteja sendo usurpado da sua glória. Considerando a relevância do tema, vale a pena, pelo menos de vez em quando, resgatar a importância das lideranças nas relações e nas organizações humanas.

Liderança é, sem sombra de dúvida, um assunto relevante, interessante e inesgotável. Há uma quantidade enorme de livros e artigos no mundo sobre o tema. Na internet, há cerca de 2.500.000 (em 2006; em 2017 já são 25.700.000) ocorrências no Google, só em português, para esse verbete. Por que é relevante? Porque ela precisa estar presente em todos os agrupamentos humanos, desde a família menor, até a maior das organizações humanas globalizadas (ONU etc), passando por todas as instituições que aí estão postas neste mundo. Em algumas épocas e lugares ela foi e tem sido substituída pela dominação, que é o poder pela força das armas. Certamente esse nunca foi o projeto de Deus para os seres humanos. Homens e Mulheres foram criados por Deus para dominar sobre animais e coisas (Gn 1.28) e liderar pessoas, sendo que desde a queda coube ao homem liderar sua mulher (Gn 3.16).

O que vem a ser liderança? Uma conceituação interessante diz que:

Liderança é a arte ou habilidade, de influenciar um indivíduo[1] ou grupo, a fazer algo, entusiasticamente ou de boa vontade, em prol do bem comum.

O que é um grupo?

Um conjunto de pessoas sob a mesma liderança e com os mesmos ideais.

É interessante observar nesta definição que, liderança comum e ideais comuns são elementos indispensáveis na caracterização do grupo.

Quais são as funções básicas de um grupo?

A realização de objetivos específicos do grupo; a manutenção ou fortalecimento do próprio grupo.

A igreja[2] é um grupo com liderança e objetivos bem definidos!

Seu líder e cabeça, seu fundador e fundamento, é Jesus Cristo (Mt 16.18; Ef 2.19-22).

Seus membros, os regenerados desde o Pentecostes até o arrebatamento. No sentido local, os crentes professos e batizados em nome de Jesus Cristo.

Seus ideais comuns: Adoração, Comunhão, Evangelização, Educação Cristã e Ação Social.

O conceito de liderança segundo Moisés apresentado no texto, parece tão rudimentar quanto restrito a um comando militar. Ainda que não tenha sido explicitamente citado e aplicado à igreja pelos escritores do NT, sua essência pode ser percebida nas lideranças neotestamentárias, a começar por Jesus.

A fala de Moisés revela sua capacidade de síntese de algo extremamente complexo, como liderar um povo naquelas circunstâncias. Vejam o contexto:

O povo Israel havia passado por todas as fases porque passa um ser humano, da concepção até alcançar a idade adulta (Nm 11.12): FECUNDAÇÃO, GESTAÇÃO, TRABALHO DE PARTO, NASCIMENTO, CORTE DO CORDÃO UMBILICAL, FESTEJO, CHORO/AMAMENTAÇÃO, INSTRUÇÃO, DISCIPLINA ETC.

1º) Depois de 40 anos conduzindo o povo de Israel, do Egito para a terra de Canaã, Moisés os faz acampar do lado oriental do rio Jordão.

2º) Dos 603.550 homens com mais de 20 anos, segundo o censo de Números 1.46, apenas Josué e Calebe foram preservados. Os demais morreram no deserto como castigo pela incredulidade quando os 12 espias foram enviados para observar a terra (Nm 14.26-35; 26.64-65).

3º) Um novo censo é feito e contados agora 601.730 homens com mais de 20 anos, segundo registro de Números 26.51, o que equivale a um total entre 2 e 3 milhões de pessoas.

4º) Moisés, já com seus 120 anos (Dt 34.7), à entrada da terra de Canaã, sem seus irmãos Arão e Miriã, mortos durante a caminhada, recebe palavras duras da parte do Senhor, de que sua carreira se encerraria ali mesmo. Isto significava que outro tomaria o seu lugar a partir daquele ponto.

Consciente da importância de um líder e dos tremendos desafios que esse novo líder teria que enfrentar, a começar pela travessia do Jordão, depois derrotar todos os povos que ocupavam aquela terra, distribuir a terra conquistada e governar a nação; volta-se para o Senhor e descreve em linhas gerais o perfil desse novo líder.

Nessa conceituação de liderança em quatro movimentos formulada por Moisés, pode-se identificar as quatro principais bases de poder e autoridade que sustentam a liderança na igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos esses 4 movimentos:

 

1. PODER LEGÍTIMO (autêntico, genuíno, legal etc)

“que saia adiante deles”

Então, Moisés está dizendo que um líder é alguém que sai do meio do povo de Deus e se posiciona a frente desse povo? É quase isso. Precisamos apenas consertar o final da frase: ele não se posiciona, ele é posicionado por Deus. Se assim não for é quebrada a primeira base de sustentação da liderança. O movimento do banco da igreja para o púlpito não é tão simples assim! Não se dá porque eu quero, mas porque Deus quer! Não se dá apenas porque eu fiz um curso de teologia e fui ordenado. Não se dá por sucessão hereditária, vínculo de parentesco ou vínculo conjugal. Também não se dá porque o mercado de trabalho está difícil ou porque aquele ofício pode me levar a uma posição de destaque, de visibilidade etc.

Esse primeiro movimento tem a ver com indicação, chamada e vocação divinas, conforme expresso na resposta de Deus em Números 27.18-20, referindo-se a Josué:

“Toma Josué, filho de Num” – separação, identificação e reconhecimento (alguém específico);

“homem em que há o Espírito” – alguém habitado e dirigido pelo Espírito Santo;

“e impõe-lhe as mãos” – ato simbólico de consagrar alguém para um serviço especial;

“apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação” – satisfação à lei (estrutura de governo espiritual) e ao povo;

“e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens” – transferência de responsabilidade;

“Põe sobre ele da tua autoridade…” – transferência de poder.

 

2. PODER DE ESPECIALISTA (de conhecimento)

“e que entre adiante deles”

Levantemo-nos e vão” é uma frase interessante que diz respeito a alguém que tem boa oratória, porém que não está disposto(a) a tomar a dianteira.

Carro estacionado não precisa de motorista”. Partindo dessa premissa será que é correto dizer que o Líder só tem razão de existir se há um movimento a ser feito e este a partir dele? Será que no mundo atual alguma organização ou organismo sobrevive se não se mover? Dizem por aí que “jacaré parado vira bolsa”.

Ir para onde? É simplesmente ir de uma situação atual para uma situação melhor. A resposta é óbvia, ainda que não seja facilmente assimilada, pois as pessoas tendem a se acomodar e não querer correr o risco de deixar a zona de conforto em que se encontram.

Para realizar esse movimento de entrar adiante é necessário ter algumas características que estavam presentes em Josué, tais como:

  • Sabedoria (divina e humana – juntas e misturadas ao ponto de não se saber quando acaba uma e começa a outra) (Dt 34.9 – “cheio do espírito de sabedoria”)
  • Conhecimento da lei (vontade) divina, para a cumprir (Js 1.7-8; 2Tm 2.15; 1Tm 3.6)
  • Percepção da situação atual e Visão do alvo a ser alcançado (Js 1.1-6 – por Deus)

Fé: “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb 11.1)

  • Experiência prática (adquirida como servidor de Moisés: Ex 17.9,10,14; Nm 33.11)

 

3. PODER DE MOBILIZAÇÃO (rompimento com a inércia)

“e que os faça sair”

Muitas são as vozes que emanam de dentro do grupo e do ambiente externo ao grupo, na tentativa de nos fazer mover do lugar onde estamos, ou para induzir-nos a fazer o que propõem. Está se desenvolvendo na sociedade globalizada em que vivemos, em proporções jamais vistas em qualquer outra época da história humana, uma batalha implacável pela conquista da minha e da sua mente, do meu e do seu bolso (dinheiro). Entre tantas vozes e apelos, Jesus, o Verbo que se fez carne, precisa ter proeminência em nossas vidas; a voz profética e bíblica dos líderes do seu rebanho precisa sobressair, com firmeza e serenidade, a todas as outras. Mais do que ouvir a voz de um líder é indispensável conferir na Bíblia o que está sendo dito, como os de Beréia faziam e, por isso foram considerados ouvintes mais nobres do que os de Tessalônica. (At 17.11). No mundo em que vivemos não há mais espaço para crente ingênuo (superficial e distraído), levado por qualquer vento de doutrina, do tipo que decidiu terceirizar o conhecimento bíblico e os serviços cristãos, com o seu pastor, seu professor de EBD etc. Não é isso que Jesus quis dizer com “ser simples como as pombas e prudentes como as serpentes”.

Há outras características em Josué que ajudam a fazer acontecer esse movimento:

  • Exemplo pessoal (Js 24.15). “As palavras convencem, os exemplos arrastam.” Nada mais triste do que pregar aquilo que não se crê e não se vive.
  • Coragem e Determinação / Amor e Sacrifício (Js 14.6-9): são dois binômios inerentes e inseparáveis do currículo de um verdadeiro líder (Josué: comandante militar, um diferencial entre os espias etc.

Walt, homem que cursara apenas até a sexta série, membro de uma pequena igreja num bairro hostil ao evangelho, na Filadélfia (USA), querendo se tornar professor da EBD e não encontrando espaço, foi “desafiado” a arranjar alunos para formar sua classe. Ele conseguiu reunir 13 garotos das ruas do bairro, sendo 9 deles filhos de pais separados. Passado algum tempo eles se tornaram adultos, sendo que 11 (85%) se engajaram no serviço cristão em tempo integral. “Para ser sincero, não seria capaz de citar muita coisa do que ele nos disse, mas dele próprio posso dizer muita coisa porque aquele homem me amou por amor a Cristo. Amou-me mais do que meus pais.” (Relato de HOWARD HENDRICKS, um desses garotos, que se tornou professor de Seminário e escritor evangélico, no livro: Ensinando para transformar vidas – Editora Betânia).

  • Confiabilidade e Honestidade. Quem realmente está disposto a seguir um líder em quem não confia?

 

4. PODER DE REALIZAÇÃO (satisfação, coesão)

“e que os faça entrar”

Há muitas lideranças aventureiras espalhadas por aí. Pretensos líderes especializados em fazer as pessoas saírem de onde estão para não chegarem a lugar algum. É gente que só sabe fazer fumaça. Eles se aproveitam da avidez das pessoas pela mudança, para experimentar o novo, na esperança de dar algum sentido à sua triste existência.

Josué deu provas de ser um líder realizador, porque:

1º) Agia de forma organizada, com ordem e disciplina (Js 3.1-6);

2º) Atuava como um habilidoso maestro (Js 6.7-21);

3º) Zelava pela união das 12 tribos e foi respeitado todos os seus dias (Js 4.14);

4º) Alcançava vitórias sobre os adversários (Js 12.7, 24 [31 reis derrotados]; Moisés [2 reis derrotados] – é interessante a alternância de estilo na liderança: Moisés, um legislador; Josué, um desbravador);

5º) Cumpriu sua missão: conduziu o povo a conquistar a terra da promessa e promoveu a distribuição do território e despojos conquistados. (Js 12.7, 24). Duas palavrinhas importantíssimas: CONQUISTAR e DISTRIBUIR!

Fazer as coisas acontecerem é marca registrada de um verdadeiro líder. Um reparador de brechas e restaurador de veredas (Is 58.12). Ele não existe para realizar tudo sozinho; o verdadeiro líder é aquele que FAZ FAZER. Dizem que PASTOR faz PASTOR e, OVELHA, faz OVELHA. Dá gosto ver as sociedades internas de uma igreja trabalhando, com todo empenho e criatividade, afinadas com a liderança da igreja e cooperando umas com as outras, para o bem da obra. Um grupo que realiza, reforça o sentimento de PERTENCIMENTO, nos seus participantes.

 

Conclusão:

Finalmente,

Esses quatro movimentos estavam muito presentes na vida de Jesus, nosso supremo pastor e líder. Só alguns flashes, uma pequeníssima amostra:

  1. Poder legítimo: “que saia adiante deles”

“A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”( Mc 9.7; comp. At 2.22) 

  1. Poder de especialista: “e que entre adiante deles”

“Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina;  porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mt 7.28-29)

  1. Poder de mobilização: “e que os faça sair”

“Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas. Também os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos.” (Mt 9.1-2)

  1. Poder de realização: “e que os faça entrar”

“Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!” (Lc 10.17)

 

Como igreja, necessitamos de uma liderança sinérgica, que potencialize e canalize os recursos e talentos do grupo e os direcione para a edificação do grupo e para a glória de Deus.

“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Que assim Deus nos ajude!

Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria

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[1] Seja Líder de Si Mesmo – O Maior Desafio do Ser Humano (Augusto Cury [psiquiatra] – Sextante)

[2] Igreja: Visível ou Invisível; Militante ou Gloriosa; Local ou Universal


Catedral Presbiteriana do Rio
17/12/2006 – Culto Matutino (10h 15min) – Dia do Pastor
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

Destruindo Fortalezas

“Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão.” (2Co 10.3-6)

 

Introdução

Você já parou para pensar nas causas que levam os tsunamis, como o de 26/12/2004 no Sul da Ásia, a matar tanta gente (mais de 280 mil pessoas naquela tragédia da natureza)?

1º) Estavam no raio de ação dele – quanto mais próximas do epicentro, maior o estrago;

2º) Estavam distraídas, não sabiam do perigo iminente, não foram alertadas;

3º) É um grande volume de água em forte movimento que arrasta tudo o que está em seu caminho, matando as pessoas por afogamento ou contusão, pois lança pessoas contra objetos flutuantes e estruturas fixas, e objetos contra as pessoas etc.

A humanidade tem sido vítima de muitos tsunamis literais: naturais (provocadas pela natureza), sociais/intelectuais (provocadas pelo homem) e espirituais (planejadas por Satanás e executado por homens, sob sua influência e poder). E isso sempre deixa um rastro de destruição no ambiente e nos sobreviventes mais próximos.

Vivemos, neste mundo, uma grande batalha espiritual e mental. Quem acha que não, ou já foi levado pela enxurrada ou ainda não se deu conta disso e precisa ficar mais alerta. Vejam, por exemplo, o enorme poder da mídia que praticamente acabou com o fumo; entretanto promove a bebida, o sexo fora do casamento, a causa homossexual etc.

Mais recentemente, isto é, de cem anos para cá, podemos perceber claramente o ataque sem tréguas desferido contra a Trindade Santa:

1ª onda: contra Deus:

A Teoria da Evolução destitui Deus de toda a obra da criação e coloca o acaso em seu lugar. Se não há um Criador, não há um princípio moral absoluto; a sociedade está por sua própria conta, se torna amoral e relativiza os absolutos de Deus.

2ª onda: contra Jesus:

A Doutrina da Reencarnação transforma Jesus apenas num espírito evoluído, tal qual muitos outros que também foram aperfeiçoados após muitas passagens por este mundo. A grande mídia, impressa e televisiva, está sempre querendo destruir a imagem histórica de Jesus; tentando provar que ele não existiu ou que tinha fraquezas e paixões carnais escondidas.

3ª onda: contra o Espírito Santo:

A crença de que o homem tem potencialidades mentais e intelectuais inimagináveis, de que o homem é deus, tenta anular a presença e poder do Espírito Santo, que veio habitar no meio da igreja.

A ideia geral tem sido de acabar com a Trindade Santa e colocar a ciência como verdadeira deusa.

Alderi Souza de Matos, em “Carta a um universitário cristão”, em artigo publicado pela Revista Ultimato (set-out 2004), diz:

“O universitário cristão, pode ouvir em sala de aula questionamentos de diversas modalidades:

– acerca da religião em geral (uma construção humana para responder aos anseios e temores humanos);

de Deus (não existe ou então existe, mas é impessoal e não se relaciona com o mundo);

da Bíblia (um livro meramente humano, repleto de mitos e contradições);

de Jesus Cristo (nunca existiu ou foi apenas um líder carismático);

da criação (é impossível, visto que a evolução explica tudo o que existe);

dos milagres (invenções supersticiosas, uma vez que conflitam com os postulados da ciência), e assim por diante.”

Ele continua:

“A ideia de que professores e cientistas sempre pautam as suas ações pela mais absoluta isenção e objetividade é um mito. Por exemplo, muitos intelectuais acusam a religião de ser dogmática e autoritária, de cercear a liberdade das pessoas e desrespeitar a sua consciência. Isso até pode ocorrer em muitos casos, mas a questão aqui é a seguinte: Estão os intelectuais livres desse problema? A experiência mostra que os ambientes acadêmicos e científicos podem ser tão autoritários e cerceadores quanto quaisquer outras esferas da atividade humana. Existem departamentos universitários que são controlados por professores materialistas de diversos naipes – agnósticos, existencialistas e marxistas. Muitos alunos cristãos desses cursos são ridicularizados por causa de suas convicções, não têm a liberdade de expor seus pontos de vista religiosos e são tolhidos em seu desejo de apresentar perspectivas cristãs em suas monografias, teses ou dissertações. Portanto, verifica-se que certas ênfases encontradas nesses meios podem ser ditadas simplesmente por pressupostos ou preconceitos anti-religiosos e anticristãos, em contraste com o verdadeiro espírito de tolerância e liberdade acadêmica.”

Parece tão difícil, para muitos, aceitar a mensagem bíblica. Entretanto, aceitam tantas coisas sem qualquer sentido. Noutro dia, duas jovens conversavam, no restaurante, sobre a importância do mapa astral para datas importantes: nascimento, casamento, abertura de uma empresa etc. Dizia, ainda, para a outra, que determinada data era boa para o casamento devido à confluência de Saturno[=compromisso] com a Lua[=família]). Quanto bobagem!

Segundo a Bíblia, os 3 inimigos do homem são: O Mundo (mundanismo), Satanás e a Carne: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.” (Ef 2.1-3)

Vejamos as quatro estratégias de Satanás sobre a humanidade – os “4 C”:

 

1. CONFUNDIR (Operação Eva)

Fundir juntamente, misturar a verdade de Deus com as suas mentiras.

– Ele é o pai da mentira!

“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” (Jo 8.44)

– Eva foi enganada por Satanás (Gn 3.1,4-5):

1º) Questiona e distorce a palavra de Deus

    É assim que Deus disse? (v.1)

2º) Encobre o juízo de Deus

    É certo que não morrereis. (v.4)

3º) Oferece ilusões

     Como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (v.5)

– Nem Jesus escapou das suas investidas na sua tentação no deserto (Mt 4).

– Hoje (1993) há no Brasil cerca de 4800 seitas para confundir as mentes das pessoas. “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência,” (1Tm 4.1-2)

 

2. CONQUISTAR (Operação Ló)

Atrair, Seduzir, com o propósito de desviar do caminho da dignidade.

– Ló foi atraído e seduzido pelo que viu (Gn 13.10, 12-13)

– Balaão: este falso profeta seduziu o povo de Israel a prevaricar contra Deus (Nm 31.16; 25.1-9)

– Demas: em 61 d.C. era cooperador de Paulo  (Fm 24; Cl 4.14); já em 66 d.C. há o triste registro de que ele apostatou da fé, foi atraído e seduzido, “tendo amado o presente século” (2Tm 4.10).

 

3. CONTROLAR (Operação Gerasa)

Exercer o controle, dirigir.

– Controle por possessão: o homem geraseno, por exemplo (Mc 5.2-4)

– Controle da mente: Meditação transcenden­tal – Nova Era.

 

4. COMBATER (Operação Jó)

Pelejar, lutar contra.

Quando lhe resistimos nas demais estratégias ou investidas só lhe resta o combate direto ou indireto.

– Operação Jó (Jó 1.3, 8-12): a insinuação de Satanás era de que se fosse retirado de Jó tudo o que ele tinha, este blasfemaria contra Deus.

– Não tem sido pouca a perseguição sofrida pelos cristãos desde o início da igreja.

 

Conclusão

Felizmente, “as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas,”:

– A excelência da Obra de Cristo é a garantia da vitória!

“Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.” (Hb 10.14)

– A fé é o requisito para a vitória.

“porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (1Jo 5.4-5)

– A “armadura de Deus” é o recurso para a vitória! (Ef 6.13-18)

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.10-12)

– O “trono” de Deus é o prêmio pela vitória! (Ap 3.21)

“Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.”


Catedral Presbiteriana do Rio
30/01/2005 – Culto Vespertino (19h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

Família e Igreja


Relação entre a família humana e a família da fé

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus,….” (Mt 6.9)

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19)

“Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.” (Gl 6.10)

Introdução          

Família é algo tão singular que se manifesta originalmente, de forma misteriosa, na Trindade; se reproduz na esfera dos seres humanos; e, também se expressa, de forma mística, na instituição Igreja: “Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra,” (Ef 3.14-15).

No sentido humano, não é qualquer agrupamento de pessoas que caracteriza uma família tradicional ou consanguínea, nos moldes instituídos por Deus. Ela começa com uma união (casamento, aliança) heterossexual, pois sem o concurso de um homem e de uma mulher, como se daria a reprodução e consequente preservação da espécie humana?

A própria Constituição Federal, no seu Artigo 226, estabelece a família como base da sociedade:

“§3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. §4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.”

A confissão de Fé de Westminster estabelece (Cap. XXIV):

“I. O casamento deve ser entre um homem e uma mulher; ao homem não é licito ter mais de uma mulher nem à mulher mais de um marido, ao mesmo tempo. (Ref. Gen. 2:24; Mat. 19:4-6; Rom. 7:3).  II. O matrimônio foi ordenado para o mútuo auxílio de marido e mulher, para a propagação da raça humana por uma sucessão legítima e da Igreja por uma semente santa, e para impedir a impureza. (Ref. Gen. 2:18, e 9:1; Mal.2:15; I Cor. 7:2,9).”

É no convívio familiar do lar que se realiza a primeira socialização do ser humano. Além da família desfrutar do abrigo físico da casa, é no exercício dos seus papéis que os pais providenciam o suprimento das necessidades de todos os seus membros, provendo, ainda, para os filhos, proteção e educação para a vida, por meio da transmissão de valores éticos, morais e espirituais: “Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na vossa alma; atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontal entre os olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentados em vossa casa, e andando pelo caminho, e deitando-vos, e levantando-vos.” (Dt 11.18-19). Essa é a tarefa primeira e indelegável dos pais ou responsáveis. É certo que a igreja pode e deve contribuir na formação espiritual dos membros da família, bem como as instituições escolares na sua formação geral e profissional para a carreira.

A Trindade Santa nos provê o modelo e referência de pessoas relacionadas, não isoladas, que mantém comunhão e harmonia. Na oração do “Pai Nosso” Jesus estende o conceito de família, ampliando os seus limites, quando nos ensina que há um Pai Celestial comum e todos somos irmãos (Mt 6.9; 23.8). Em outra ocasião ele acrescenta: “Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Mt 12.50). Nesta mesma linha, o apóstolo Paulo denomina a igreja como a “família da fé” (Gl 6.10) ou “família de Deus” (Ef 2.19).

Desenvolvimento              

Neste estudo, desenvolveremos o tema proposto, identificando e explicitando o que há de comum, ou a relação entre família humana e família da fé – a igreja. Vejamos, então, alguns desses elementos comuns:

1. Constituição (Formação)

Em se tratando de constituição ou formação, família e igreja tem muitos elementos comuns, sendo que mencionaremos apenas alguns:

1.1 Origem divina

A família origina-se na vontade soberana de Deus que percebeu que não era bom para o homem viver só (Gn 2.18; Mt 19.4). A igreja, também, origina-se na vontade soberana de Deus que se dispõe a entrar em aliança com o homem (2Co 5.19).

1.2 Separação efetiva

Tanto para a família quanto para a igreja se requer separação e renúncia. No caso da família é preciso cortar o “cordão umbilical” que nos liga à “placenta familiar”, para permitir a formação de uma nova “placenta familiar”. “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn 2.24). Igreja é ECCLESIA (lat.) ou EKKLESIA (gr.). “EK”, que significa “movimento para fora” e “KLESIA”, do verbo KALEO (gr.), chamar. Logo, “ekklesia” é a assembleia dos “chamados para fora” do sistema mundano que aí está, para viverem como filhos de Deus, na casa do Pai Celeste (Mt 10.37; 16.24).

1.3 União com exclusividade

A nova família se consuma na união do casal, pelo casamento: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn 2.24); “De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mt 19.6). Tendo Cristo por cabeça, a igreja constitui-se um só corpo: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Ef 4.4-6). A amizade do mundo constitui-se uma quebra dessa união com exclusividade e, consequentemente, provoca a inimizade de Deus (Tg 4.4).

1.4 Declarações e Promessas

Uma nova família se inicia com declarações e promessas feitas entre os cônjuges. Na cerimônia de casamento são feitas declarações de amor e promessas de companheirismo, apoio e cuidado: “– Prometes amá-la(lo), honrá-la(lo), consolá-la(lo) e cuidar dela(e), tanto na saúde como na enfermidade, na prosperidade e na escassez, e te conservares exclusivamente para ela(e)?”; “– SIM PROMETO!” Isso demanda fé e confiança de que a outra parte honrará as promessas feitas.

Em se tratando da igreja, há expressas manifestações de amor e promessas preciosas da parte de Deus que abrangem o tempo presente e o porvir. “Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.” (Mc 10.29-30); “..Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”  (1Co 2.9). Ainda que possamos falhar, ele permanecerá fiel ao que prometeu e disposto a nos restaurar, se arrependidos, confessarmos os nossos pecados: “se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” (2Tm 2.13).

1.5 Mudança de vida

Com o casamento e a formação de uma nova família muita coisa tem que mudar na vida dos cônjuges:

a) Nova identidade: além da mudança do estado civil dos cônjuges, normalmente, a nova família passa a ser identificada por um sobrenome comum.

b) Nova agenda: os cônjuges deixam de lado a “vida de solteiro” para dedicarem-se prioritariamente, um ao outro e à família. A declaração de Rute à sua sogra exemplifica bem o tipo de compromisso que deve haver entre marido e esposa no casamento (Rt 1.16-17).

c) Novo compromisso: o compromisso de caminhar juntos, em plena comunhão, sem segredos entre si, provendo o sustento e bem-estar um do outro, dedicando-se totalmente a fazer o outro feliz.

d) Novo sinal externo: o anel (aliança) no dedo anelar esquerdo torna visível, para memória dos pactuantes e para a sociedade, o compromisso assumido: “– Com este anel eu selo a minha aliança contigo, unindo a ti meu coração e minha vida, e te faço participante de todos os meus bens.”

Ao nos tornarmos seguidores de Cristo e membros da sua igreja, muita coisa tem que mudar em nosso estilo de vida:

a) Nova identidade: passamos a ser identificados com um nome comum, derivado do nome daquele a quem seguimos: cristão (At 11.26)

b) Nova agenda: que consiste em buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33), deixando para trás a “vida antiga” (2Co 5.17), para nos dedicarmos, prioritariamente, a Deus, à família sanguínea e à igreja, na sua missão.

c) Novo compromisso: o compromisso de caminharmos juntos, em plena comunhão com os irmãos na fé, provendo o sustento da igreja, dedicando-nos totalmente a fazer a vontade de Deus.

d) Novo sinal externo: A pública profissão de fé e o batismo são sinais externos iniciais de uma fé interna. Entretanto, o sinal externo permanente e relevante é o testemunho cristão, para os de dentro e os de fora da igreja. O exemplo de Jesus: “contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou.” (Jo 14.31a)

1.6 Celebração da Comunhão

Não há momento mais íntimo do que aquele da família reunida à mesa para a sua refeição cotidiana, trocando olhares e compartilhando suas vivências. No início da igreja os cristãos se reuniam para celebrar a comunhão com a festa do amor (ágape), juntamente com a Ceia do Senhor. Esse segundo rito observado pela igreja – A Ceia do Senhor – será sempre um momento de celebração da Nova Aliança, em memória do Senhor e da sua redenção no Calvário, até que ele volte, e de celebração da comunhão da família da fé.

1.7 Duração

Todo pacto ou aliança estabelece não só os benefícios decorrentes de seu cumprimento, como também as consequências negativas para a parte que não se mantiver fiel. O casamento que dá origem à família é para toda a vida – “Até que a morte os separe”: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher.” (1Co 7.10-11). Os membros da família e a sociedade têm colhido frutos amargos devido à quebra da aliança conjugal e consequente desestruturação familiar. A igreja está inserida num pacto ou aliança de Deus com seus remidos de duração eterna: “Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém!” (Hb 13.20-21).

Vale lembrar que a família consanguínea está limitada e restrita a este mundo terreno e transitório: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.” (Mt 22.30). Já a família da fé, a igreja militante, transpõe essa dimensão terrena e se transforma na igreja triunfante, no outro lado da eternidade.

2. Reprodução (Crescimento)

“E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.” (Gn 1.28)

Sem reprodução a família humana se extingue na face da terra. Então, pode-se afirmar que esta é a missão primeira e básica da família. É fato que, por uma questão biológica de infertilidade e de esterilidade, nem todo casal consegue cumprir essa missão familiar. Obviamente, há outras razões e motivações que levam um casal a não gerar filhos; não cabe aqui apresentá-las ou discuti-las.

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19)

Sem reprodução espiritual, sem novos discípulos, a igreja se extingue na face da terra. Então, por analogia, pode-se afirmar que esta é a missão primeira e básica da igreja. É o que se denomina de Evangelismo e Missões. É fato que, por razões diversas, tais como – apostasia, conformismo com o mundo, pecado encoberto, falta de compromisso e empenho com sua missão – uma igreja não cresce ou não cresce, quantitativamente, como deveria.

3. Organização (Funcionamento)

Para uma família funcionar bem, há que ter governança e seus membros precisam desempenhar seus respectivos papéis. A bíblia não se omite e fornece muitos ensinamentos sobre o assunto. O Pr. Ariovaldo Ramos desdobra esses papéis pelos três princípios ou elementos basilares da família: Paternidade, Maternidade e “Filidade”, a saber:

PATERNIDADE (Pai): Provisão, Proteção e Direção.
MATERNIDADE (Mãe): Inspiração, Acolhimento, Consolo e Nutrição.
FILIDADE (Filho): Alinhamento, Obediência e Continuidade.

A sociedade secular pode até ter outra visão sobre o papel do homem e da mulher na liderança da família, o que não é de se estranhar porque ela não está alinhada com os padrões divinos expressos na bíblia: “porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo.” (Ef 5.23). Não importa que pensem que esse princípio bíblico seja machista, retrógrado e ultrapassado.

A paternidade na Família Igreja emerge, espiritualmente, de Deus-Pai; e flui, efetivamente, através dos seus líderes. Essa liderança visível da Igreja foi instituída por Deus para exercer as funções de provisão, proteção e direção; através de homens segundo o coração de Deus que, naturalmente, precisam contar com o auxílio indispensável das mulheres.

A maternidade na Família Igreja emerge, espiritualmente, de Deus-Espírito Santo; e flui, efetivamente, através do mesmo Espírito, derramado sobre todos os remidos do Senhor, pertencentes à Nova Aliança. Portanto, o Espírito Santo e a Palavra de Deus, além da regeneração e crescimento, produzem inspiração, acolhimento, consolo e nutrição.

A “filidade” na Família Igreja emerge, espiritualmente, através de Deus-Filho; e flui, efetivamente, pelos filhos de Deus, membros do corpo de Cristo. Jesus é o nosso exemplo e modelo de “filidade”, isto é, de alinhamento com o propósito e a vontade do Pai, obediência aos valores do Pai e continuidade da missão (1Pe 2.21).

4. Preservação (Sobrevivência)

Por último, vale lembrar que é tarefa dos pais cuidar e zelar, por eles mesmos e pelos filhos, no que diz respeito ao sustento e desenvolvimento intelectual, social e espiritual. Nesse estilo de vida pós-moderno, homem e mulher, precisam ser mais do que pais provedores. Quer pela necessidade de buscar recursos financeiros, quer pelo glamour de uma carreira tentadora, eles podem sonegar o precioso tempo e dedicação, tão necessários ao investimento na família, de modo a preservá-la. Esse estar junto, cuidando e zelando, inclui também o estabelecer limites e exercer a disciplina preventiva e corretiva.

“ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20)

Assim como na família dinheiro não é tudo e não há a figura de cliente ou expectador, na igreja, o que se espera é o compromisso e participação de todos. O sacerdócio universal dos crentes não pode ser apenas retórica, um discurso vazio e utópico. A liderança da igreja jamais dará conta sozinha de tudo o que precisa ser feito e não pode descuidar da disciplina preventiva e corretiva (1Co 11.32). Somos um organismo vivo, constituído por muitos membros, sendo cada um chamado a desempenhar a sua função. É o Espírito Santo quem capacita a cada um, mas cabe à liderança espiritual da igreja ser instrumento facilitador para que toda essa engrenagem funcione bem (Ef 4.15-16). E, assim, cada um desempenhando o seu papel, como crente-servo e não como crente-cliente, estaremos contribuindo para a preservação e crescimento da igreja, sustentados, sobretudo, pelo Senhor da Igreja, “até à consumação do século”.

Conclusão:

Que Deus nos ajude a compreender essas semelhanças entre família e igreja, duas instituições que nasceram no coração de Deus. Que, entendendo o papel de cada parte, possamos ser bênção e receber as bênçãos, ao participar de ambas.

 

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