SALMOS – Visão Panorâmica

Introdução

“Eu também te louvo com a lira, celebro a tua verdade, ó meu Deus; cantar-te-ei salmos na harpa, ó Santo de Israel.” (Sl 71.22)
“Louvem o nome do SENHOR, porque só o seu nome é excelso; a sua majestade é acima da terra e do céu.” (Sl 148.13)

Muito nos enche de alegria o privilégio de ter acesso a um livro tão especial como a Bíblia Sagrada. Na amplitude do seu conteúdo, abrange o início e descortina o desfecho de todas as coisas. Na diversidade literária do seu conteúdo, nos fornece narrativas históricas, leis e regras de convivência, ensinos e instruções, princípios e valores para a vida. Como recheio mais do que especial nos presenteia e enriquece com os cinco livros poéticos – Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão. É a nossa única e infalível regra de fé e prática!

O livro de Salmos contém 150 capítulos e é uma coleção de poemas e cânticos inspirados por Deus, que expressam a fé, a esperança, o louvor, a súplica e a adoração do povo de Israel. Os Salmos são o hinário nacional de Israel.

Os Salmos são predominantemente poéticos e líricos, utilizando metáforas, simbolismos e ritmos para expressar uma ampla gama de emoções e experiências humanas. Encontramos neles a vida do cristão retratada em experiências de júbilo e tristeza, vitória e fracasso.

1. TÍTULO e AUTORIA

“A palavra ‘Salmos` tem origem no grego antigo, onde é transliterada como ‘psalmoi` (ψαλμοί). O termo grego por sua vez deriva do verbo ‘psallo` (ψάλλω), que significa ‘tocar uma corda` ou ‘tocar música`. Os Salmos são um conjunto de poemas e cânticos religiosos que fazem parte do Antigo Testamento da Bíblia. No hebraico, são chamados de ‘Tehillim` (תהילים), que também significa ‘louvores` ou ‘cânticos de louvor`.”

Os Salmos foram escritos por vários autores, sendo o mais conhecido o rei Davi, que compôs quase a metade deles. Outros autores são Moisés, Asafe, os filhos de Coré (ou Corá), Salomão, Etã e Hemã. Há cinquenta Salmos cuja autoria é desconhecida. A síntese da autoria, conforme os títulos dos vários Salmos, é a seguinte:

QUANT%AUTORIASALMOS
7348,6Rei Davi3-9, 11-32, 34-41, 51-65, 68-70, 86, 101, 103, 108-110, 122, 124, 131, 133, 138-145
5033,3Desconhecida1, 2, 10, 33, 43, 66, 67, 71, 91-100, 102, 104-107, 111-121, 123, 125, 126, 128-130, 132, 134-137, 146-150
128,0Asafe (levita, líder na música)50, 73-83
106,7Filhos de Coré (ou Corá)42, 44-49, 84, 85, 87
021,3Rei Salomão72, 127
010,7Hemã88
010,7Etã89
010,7Moisés90
150100TOTAL 

2. DATA

O Livro de Salmos abrange um período de vários séculos (cerca de 1000 anos) já que o Salmo 90 é de autoria de Moisés (1543–1423 a.C.), chegando à sua forma atual algum tempo após o exílio dos judeus na Babilônia em cerca de 440 a.C. (Sl 126). A maioria dos Salmos foi escrita durante o período de Davi e Salomão (1095–945 a.C.).

3. A POESIA HEBRAICA

Ao contrário da maior parte da poesia ocidental, a poesia hebraica não se baseia em rima ou métrica, mas no ritmo e no paralelismo. O ritmo não é obtido pela disposição exata de sílabas acentuadas e não acentuadas, mas pela ênfase tonal e pela situação de palavras importantes. A característica mais importante da poesia hebraica é a repetição de ideias, denominada paralelismo. Uma ideia é afirmada e, logo em seguida, é novamente expressa com palavras diferentes, sendo que os conceitos das 2 linhas se equivalem de forma aproximada. Existem vários tipos de paralelismo na poesia hebraica. Os principais incluem:

(i) Paralelismo Sinônimo (ou Sinonímico):

As linhas expressam a mesma ideia ou mensagem de maneira semelhante, reforçando o significado.

Exemplo: Salmo 15.1
“Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo?
Quem há de morar no teu santo monte?”

(ii) Paralelismo Antitético:

As linhas apresentam uma oposição ou contraste entre as ideias.

Exemplo: Salmo 1.6
“Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos,
mas o caminho dos ímpios perecerá.”

(iii) Paralelismo Sintético (ou Construtivo):

As linhas constroem ou ampliam a ideia apresentada, muitas vezes acrescentando detalhes ou desenvolvendo o tema.

Exemplo: Salmo 145.18
“Perto está o SENHOR de todos os que o invocam,
de todos os que o invocam em verdade.”

(iv) Paralelismo Emblemático (ou Formal):

As linhas apresentam uma relação formal ou estrutural, sem necessariamente repetir ou contrastar ideias.

Exemplo: Salmo 150
“Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário;
louvai-o no firmamento, obra do seu poder.”

Estes são apenas alguns exemplos e há variações e combinações dos tipos de paralelismo ao longo dos textos poéticos na Bíblia. O paralelismo é uma ferramenta importante na poesia hebraica, contribuindo para a musicalidade, memorabilidade e aprofundamento da mensagem transmitida.

O acróstico alfabético também é utilizado (no Salmo 119; Introdução à Lamentações).

4. ESTRUTURA

O Livro de Salmos se divide em 5 livros, cada um dos quais termina com uma doxologia. São os seguintes:

– Livro I  (Salmos 1-41)
– Livro II (Salmos 42-72)
– Livro III (Salmos 73-89)
– Livro IV (Salmos 90-106)
– Livro V  (Salmos 107-150)

5. CLASSIFICAÇÃO DOS SALMOS

Os Salmos apresentam uma grande variedade de gêneros literários, que refletem as diferentes situações e emoções dos seus autores, bem como dos seus leitores de todas as épocas.

Alguns dos principais gêneros são:

  • Salmos de louvor: Expressam a gratidão e a admiração por Deus e pelos seus feitos.
  • Salmos de lamentação: Expressam a angústia e o pedido de socorro diante do sofrimento, da opressão, da culpa ou da morte.
  • Salmos de confiança: Expressam a fé e a esperança em Deus, que é o refúgio, o protetor e o provedor dos que nele confiam.
  • Salmos de sabedoria: Expressam os princípios e as instruções para uma vida piedosa e abençoada, baseada na lei de Deus.
  • Salmos reais: Expressam a relação entre Deus e o rei de Israel, que era o seu ungido e representante. Alguns desses salmos também apontam para o futuro Messias, descendente de Davi.
  • Salmos de celebração: Expressam a alegria e a gratidão pelas festas e pelos ritos religiosos de Israel, como as peregrinações, as ofertas, as bênçãos e as alianças.

Algumas peculiaridades dos Salmos:

a) Salmos históricos

Enquanto alguns Salmos celebram a criação e outros acontecimentos históricos, uma seção particular é toda histórica: os Salmos 104-106, que começa com a criação e termina com o cativeiro. No grupo histórico também poderíamos incluir os Salmos que tratam exclusivamente da glória da cidade de Jerusalém e o seu templo, no passado e no futuro (especialmente Sl 48; 84; 122; 132).

b) Salmos Penitenciais

Na liturgia da igreja cristã, vários salmos são utilizados para expressar arrependimento ou tristeza por causa de certos pecados cometidos. O cristão sincero se arrepende de tais atos e condições. São eles: Sl 6; 32; 38; 51; 102; 130; 143.

c) Salmos do Peregrino

Quinze Salmos (120 a 134) são chamados de “Cânticos da Ascensão” ou “Cântico dos Degraus” ou “Cânticos de Romagem”. Um dos pontos de vista aceito é que estes Salmos formavam um hinário utilizado pelos peregrinos os entoavam enquanto subiam à Jerusalém, vindos de todas as partes da Palestina, para as celebrações das festas anuais da Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos (Dt 16.16).

d) O centro da Bíblia

A Bíblia tem 31.104 versículos (Versão Almeida, Revista e Atualizada – SBB).  Por ser uma quantidade par, há dois versículos centrais (31.104/2 –> 15.552º e o 15.553º) que corresponde ao Salmo 102.27-28.  E o que diz estes versículos:

“Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim.  Os filhos dos teus servos habitarão seguros, e diante de ti se estabelecerá a sua descendência.”

Lindo texto, não? Depois de falar da brevidade da vida e da transitoriedade do mundo criado, o salmista exalta a imutabilidade do Deus Eterno. Fala também da segurança que usufruem os servos de Deus; o Israel do passado e, por extensão,  a igreja de Jesus Cristo do presente.

Sobre o verso central da Bíblia, veja o artigo:

e) Outros

  • O singular Salmo de ação de graças (Sl 136).
  • Os Salmos das Aleluias, às vezes chamados de Halel. A palavra “Aleluia” é uma transliteração do termo hebraico “Hallelu Yah”, que significa “Louvai ao Senhor”. Os Salmos iniciados com “Aleluia!”  (Sl 106, 111 e 112);  terminados (115-117, 147);  iniciados e terminados (113, 135, 146, 148-150).
  • A fragilidade humana e a glória de Deus contrastadas (Sl 90) e o cuidado protetor de Deus (Sl 91).
  • O maior dos Salmos e maior capítulo da Bíblia, que enaltece a Palavra de Deus (Sl 119). O menor dos Salmos e menor capítulo da Bíblia, que conclama a todos os povos a louvarem ao Senhor por sua imensa misericórdia e permanente fidelidade (Sl 117).
  • Os Salmos mais citados no Novo Testamento (Sl 110 e 118).

Quadro Resumo:

TIPO DE SALMOSQUANTIDADEDESCRIÇÃO
1.Lamentação+ de 60Ex.: Sl 3. A maioria destes salmos são imprecatórios (*). Contra: acusações falsas; inimigos do corpo (doenças). A maioria termina com um grito de vitória, mas alguns em desespero.
2.Ações de Graças e Louvor+ de 30Ex.: Sl 18
3.HinosCerca de 18Ex.: Sl 8
4.ReaisCerca de 17Ex.: Sl 2. Também conhecidos como Salmos régios ou Salmos do Reino, são um conjunto de Salmos na Bíblia que estão relacionados com reis e o reino de Israel.
5.MessiânicosCerca de 15Ex.: Sl 2; 8. Tradicionalmente têm sido interpretados como profecias ou prenúncios do Messias na tradição judaico-cristã.
6.LitúrgicosCerca de 11Ex.: Sl 24. Foram musicados e utilizados nos ritos e cerimônias da adoração pública do Templo.
7.SabedoriaCerca de 11Ex.: Sl 1; 19
8.História sagradaCerca de 9Ex.: Sl 78. Estes salmos provavelmente eram utilizados em festas de celebração
9.Chamamento a AdoraçãoCerca de 8Ex.: 29. Associados aos salmos litúrgicos.
10.ConfiançaCerca de 5Ex.: Sl 4. Contém elementos de confiança.
11.Cânticos de SiãoCerca de 3Ex.: Sl 48
12.Louvor à LeiCerca de 3Ex.: Sl 1
13.Proteção e LouvorCerca de 91Ex.: Sl 31; 39
14.MistosVáriosDiversas classificações podem ser dadas a partes desses salmos, porém nenhuma delas é dominante.
15.Oração pela vitóriaSl 20 e partes de outrosEx.: Sl 20. A guerra inspirava receio e o receio inspirava gritos (orações) implorando ajuda do alto.
16.DidáticosPartes de váriosEx.: Sl 1; 15. Servem para ensinar lições importantes.
17.DoxologiaSl 117; 150Ex.: Sl 117; 150 e versículos isolados de outros salmos. A doxologia é uma expressão de louvor a Deus. O termo deriva do grego “doxa”, que significa “glória”, e “logos”, que significa “palavra” ou “discurso”. Assim, a doxologia é uma expressão formal ou litúrgica de louvor e glória a Deus.

6. SALMOS IMPRECATÓRIOS(*)

“Estes Salmos (7, 35, 55, 58, 59, 69, 79, 109, 137 e 139), que invocam os juízos ou maldições sobre os inimigos do salmista têm deixado perplexos muitos comentaristas. Deve-se considerar, entretanto, que os propósitos destas imprecações são:
(1) demonstrar o justo e reto juízo de Deus contra os ímpios (58.11);
(2) demonstrar a autoridade de Deus sobre os ímpios (59.13);
(3) levar o ímpio a buscar o Senhor (83.16);
(4) fazer com que os justos louvem a Deus (7.17).

Por isso, motivados por seu zelo para com Deus e sua repulsa para com o pecado, os salmistas clamam a Deus para que puna o perverso e vindique a sua justiça.”

O comentário a seguir, atribuído a C. I. Scofield, é bastante sugestivo: “Os Salmos imprecatórios são um grito dos oprimidos, em Israel, pedido justiça, um clamor apropriado e correto da parte do povo terreno de Deus, e alicerçado sob promessas distintas do pacto abraâmico (ver Gn 15.8); porém, um clamor impróprio para a igreja, um povo celeste que já tomou seu lugar junto com um rejeitado e crucificado Cristo (ver Lc 9.52-55).”

Sobre “Oração de Imprecação”, veja o artigo:

Sobre as particularidades do Antigo Testamento, veja o artigo:

7. CITAÇÕES NO NOVO TESTAMENTO (NT)

“A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” (Lc 24.44)

É significativo que Jesus tenha feito referência aos Salmos, o que os tornam ainda mais especiais. Os Salmos são citados no Novo Testamento (NT) cerca de 80 vezes, o que significa que, dentre todos os livros do Antigo Testamento, esse foi o mais citado. A muitas dessas citações foi dada uma interpretação messiânica – Profecias Messiânicas cumpridas em Jesus. Salmos que contêm profecias importantes relativas ao Messias incluem os Salmos 2, 8, 16, 22, 40, 45, 72, 110 e 118. As citações de outros salmos não claramente messiânicos, no NT, apontam para uma prefiguração de Cristo. Referindo-se profeticamente ou de forma prefigurada a Cristo podemos citar:

(i) Seus sofrimentos (Sl 22; 69);
(ii) Sua ressurreição (Sl 16);
(iii) Cristo como rei (Sl 2; 21; 45; 72);
(iv) Sua segunda vinda (Sl 50; 97; 98); e,
(v) Cristo como Filho de Deus e Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110).

Clique aqui para acessar o quadro que correlaciona os Salmos às suas citações no Novo Testamento.

Conclusão

Os Salmos continuam a ser uma fonte de inspiração espiritual, reflexão e consolo para pessoas ao redor do mundo, independentemente de sua fé específica.

Os Salmos são uma fonte rica de inspiração, consolo, orientação e adoração para todos os que amam a Deus e a sua palavra. Eles revelam o caráter, os atributos, os propósitos e as promessas de Deus, bem como a sua fidelidade e misericórdia para com o seu povo. Eles também revelam a humanidade, a fragilidade, a sinceridade e a devoção dos seus autores, que buscaram a Deus em todas as circunstâncias da vida.

Os Salmos nos convidam a entrar em comunhão com Deus, a expressar os nossos sentimentos e a reconhecer a sua grandeza e bondade.

“1  Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento, obra do seu poder.
  2  Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza.
  3  Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e com harpa.
  4  Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.
  5  Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes.
  6  Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!”
(Salmo 150)

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Almeida Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. A Bíblia Anotada (MC – Editora Mundo Cristão).
4. Bíblia de Estudo de Genebra (SBB e Ed. Cultura Cristã).
5. Bíblia Sagrada (SBB – Anotações de C. I. Scofield)
6. R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo – Ed. Hagnos – 2001.
7. Reese, Edward / Klassen, Frank – A BÍBLIA em ordem cronológica – Ed. Vida – 2003.
8. Internet / ChatGPT.