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A liderança em 4 movimentos

“Então, disse Moisés ao SENHOR: O SENHOR, autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação que saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar, para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor.” (Nm 27.15-17)

 

Você já ouviu aquela velha frase sobre manutenção? “Quando tudo vai bem, ninguém se lembra que ela existe. Quando vai mal, todos reclamam.” Tenho a impressão de que o mesmo se aplica às lideranças.

Na igreja, quando as lideranças são muito mais destacadas do que a coletividade, é bem provável que Deus esteja sendo usurpado da sua glória. Considerando a relevância do tema, vale a pena, pelo menos de vez em quando, resgatar a importância das lideranças nas relações e nas organizações humanas.

Liderança é, sem sombra de dúvida, um assunto relevante, interessante e inesgotável. Há uma quantidade enorme de livros e artigos no mundo sobre o tema. Na internet, há cerca de 2.500.000 (em 2006; em 2017 já são 25.700.000) ocorrências no Google, só em português, para esse verbete. Por que é relevante? Porque ela precisa estar presente em todos os agrupamentos humanos, desde a família menor, até a maior das organizações humanas globalizadas (ONU etc), passando por todas as instituições que aí estão postas neste mundo. Em algumas épocas e lugares ela foi e tem sido substituída pela dominação, que é o poder pela força das armas. Certamente esse nunca foi o projeto de Deus para os seres humanos. Homens e Mulheres foram criados por Deus para dominar sobre animais e coisas (Gn 1.28) e liderar pessoas, sendo que desde a queda coube ao homem liderar sua mulher (Gn 3.16).

O que vem a ser liderança? Uma conceituação interessante diz que:

Liderança é a arte ou habilidade, de influenciar um indivíduo[1] ou grupo, a fazer algo, entusiasticamente ou de boa vontade, em prol do bem comum.

O que é um grupo?

Um conjunto de pessoas sob a mesma liderança e com os mesmos ideais.

É interessante observar nesta definição que, liderança comum e ideais comuns são elementos indispensáveis na caracterização do grupo.

Quais são as funções básicas de um grupo?

A realização de objetivos específicos do grupo; a manutenção ou fortalecimento do próprio grupo.

A igreja[2] é um grupo com liderança e objetivos bem definidos!

Seu líder e cabeça, seu fundador e fundamento, é Jesus Cristo (Mt 16.18; Ef 2.19-22).

Seus membros, os regenerados desde o Pentecostes até o arrebatamento. No sentido local, os crentes professos e batizados em nome de Jesus Cristo.

Seus ideais comuns: Adoração, Comunhão, Evangelização, Educação Cristã e Ação Social.

O conceito de liderança segundo Moisés apresentado no texto, parece tão rudimentar quanto restrito a um comando militar. Ainda que não tenha sido explicitamente citado e aplicado à igreja pelos escritores do NT, sua essência pode ser percebida nas lideranças neotestamentárias, a começar por Jesus.

A fala de Moisés revela sua capacidade de síntese de algo extremamente complexo, como liderar um povo naquelas circunstâncias. Vejam o contexto:

O povo Israel havia passado por todas as fases porque passa um ser humano, da concepção até alcançar a idade adulta (Nm 11.12): FECUNDAÇÃO, GESTAÇÃO, TRABALHO DE PARTO, NASCIMENTO, CORTE DO CORDÃO UMBILICAL, FESTEJO, CHORO/AMAMENTAÇÃO, INSTRUÇÃO, DISCIPLINA ETC.

1º) Depois de 40 anos conduzindo o povo de Israel, do Egito para a terra de Canaã, Moisés os faz acampar do lado oriental do rio Jordão.

2º) Dos 603.550 homens com mais de 20 anos, segundo o censo de Números 1.46, apenas Josué e Calebe foram preservados. Os demais morreram no deserto como castigo pela incredulidade quando os 12 espias foram enviados para observar a terra (Nm 14.26-35; 26.64-65).

3º) Um novo censo é feito e contados agora 601.730 homens com mais de 20 anos, segundo registro de Números 26.51, o que equivale a um total entre 2 e 3 milhões de pessoas.

4º) Moisés, já com seus 120 anos (Dt 34.7), à entrada da terra de Canaã, sem seus irmãos Arão e Miriã, mortos durante a caminhada, recebe palavras duras da parte do Senhor, de que sua carreira se encerraria ali mesmo. Isto significava que outro tomaria o seu lugar a partir daquele ponto.

Consciente da importância de um líder e dos tremendos desafios que esse novo líder teria que enfrentar, a começar pela travessia do Jordão, depois derrotar todos os povos que ocupavam aquela terra, distribuir a terra conquistada e governar a nação; volta-se para o Senhor e descreve em linhas gerais o perfil desse novo líder.

Nessa conceituação de liderança em quatro movimentos formulada por Moisés, pode-se identificar as quatro principais bases de poder e autoridade que sustentam a liderança na igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos esses 4 movimentos:

 

1. PODER LEGÍTIMO (autêntico, genuíno, legal etc)

“que saia adiante deles”

Então, Moisés está dizendo que um líder é alguém que sai do meio do povo de Deus e se posiciona a frente desse povo? É quase isso. Precisamos apenas consertar o final da frase: ele não se posiciona, ele é posicionado por Deus. Se assim não for é quebrada a primeira base de sustentação da liderança. O movimento do banco da igreja para o púlpito não é tão simples assim! Não se dá porque eu quero, mas porque Deus quer! Não se dá apenas porque eu fiz um curso de teologia e fui ordenado. Não se dá por sucessão hereditária, vínculo de parentesco ou vínculo conjugal. Também não se dá porque o mercado de trabalho está difícil ou porque aquele ofício pode me levar a uma posição de destaque, de visibilidade etc.

Esse primeiro movimento tem a ver com indicação, chamada e vocação divinas, conforme expresso na resposta de Deus em Números 27.18-20, referindo-se a Josué:

“Toma Josué, filho de Num” – separação, identificação e reconhecimento (alguém específico);

“homem em que há o Espírito” – alguém habitado e dirigido pelo Espírito Santo;

“e impõe-lhe as mãos” – ato simbólico de consagrar alguém para um serviço especial;

“apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação” – satisfação à lei (estrutura de governo espiritual) e ao povo;

“e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens” – transferência de responsabilidade;

“Põe sobre ele da tua autoridade…” – transferência de poder.

 

2. PODER DE ESPECIALISTA (de conhecimento)

“e que entre adiante deles”

Levantemo-nos e vão” é uma frase interessante que diz respeito a alguém que tem boa oratória, porém que não está disposto(a) a tomar a dianteira.

Carro estacionado não precisa de motorista”. Partindo dessa premissa será que é correto dizer que o Líder só tem razão de existir se há um movimento a ser feito e este a partir dele? Será que no mundo atual alguma organização ou organismo sobrevive se não se mover? Dizem por aí que “jacaré parado vira bolsa”.

Ir para onde? É simplesmente ir de uma situação atual para uma situação melhor. A resposta é óbvia, ainda que não seja facilmente assimilada, pois as pessoas tendem a se acomodar e não querer correr o risco de deixar a zona de conforto em que se encontram.

Para realizar esse movimento de entrar adiante é necessário ter algumas características que estavam presentes em Josué, tais como:

  • Sabedoria (divina e humana – juntas e misturadas ao ponto de não se saber quando acaba uma e começa a outra) (Dt 34.9 – “cheio do espírito de sabedoria”)
  • Conhecimento da lei (vontade) divina, para a cumprir (Js 1.7-8; 2Tm 2.15; 1Tm 3.6)
  • Percepção da situação atual e Visão do alvo a ser alcançado (Js 1.1-6 – por Deus)

Fé: “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb 11.1)

  • Experiência prática (adquirida como servidor de Moisés: Ex 17.9,10,14; Nm 33.11)

 

3. PODER DE MOBILIZAÇÃO (rompimento com a inércia)

“e que os faça sair”

Muitas são as vozes que emanam de dentro do grupo e do ambiente externo ao grupo, na tentativa de nos fazer mover do lugar onde estamos, ou para induzir-nos a fazer o que propõem. Está se desenvolvendo na sociedade globalizada em que vivemos, em proporções jamais vistas em qualquer outra época da história humana, uma batalha implacável pela conquista da minha e da sua mente, do meu e do seu bolso (dinheiro). Entre tantas vozes e apelos, Jesus, o Verbo que se fez carne, precisa ter proeminência em nossas vidas; a voz profética e bíblica dos líderes do seu rebanho precisa sobressair, com firmeza e serenidade, a todas as outras. Mais do que ouvir a voz de um líder é indispensável conferir na Bíblia o que está sendo dito, como os de Beréia faziam e, por isso foram considerados ouvintes mais nobres do que os de Tessalônica. (At 17.11). No mundo em que vivemos não há mais espaço para crente ingênuo (superficial e distraído), levado por qualquer vento de doutrina, do tipo que decidiu terceirizar o conhecimento bíblico e os serviços cristãos, com o seu pastor, seu professor de EBD etc. Não é isso que Jesus quis dizer com “ser simples como as pombas e prudentes como as serpentes”.

Há outras características em Josué que ajudam a fazer acontecer esse movimento:

  • Exemplo pessoal (Js 24.15). “As palavras convencem, os exemplos arrastam.” Nada mais triste do que pregar aquilo que não se crê e não se vive.
  • Coragem e Determinação / Amor e Sacrifício (Js 14.6-9): são dois binômios inerentes e inseparáveis do currículo de um verdadeiro líder (Josué: comandante militar, um diferencial entre os espias etc.

Walt, homem que cursara apenas até a sexta série, membro de uma pequena igreja num bairro hostil ao evangelho, na Filadélfia (USA), querendo se tornar professor da EBD e não encontrando espaço, foi “desafiado” a arranjar alunos para formar sua classe. Ele conseguiu reunir 13 garotos das ruas do bairro, sendo 9 deles filhos de pais separados. Passado algum tempo eles se tornaram adultos, sendo que 11 (85%) se engajaram no serviço cristão em tempo integral. “Para ser sincero, não seria capaz de citar muita coisa do que ele nos disse, mas dele próprio posso dizer muita coisa porque aquele homem me amou por amor a Cristo. Amou-me mais do que meus pais.” (Relato de HOWARD HENDRICKS, um desses garotos, que se tornou professor de Seminário e escritor evangélico, no livro: Ensinando para transformar vidas – Editora Betânia).

  • Confiabilidade e Honestidade. Quem realmente está disposto a seguir um líder em quem não confia?

 

4. PODER DE REALIZAÇÃO (satisfação, coesão)

“e que os faça entrar”

Há muitas lideranças aventureiras espalhadas por aí. Pretensos líderes especializados em fazer as pessoas saírem de onde estão para não chegarem a lugar algum. É gente que só sabe fazer fumaça. Eles se aproveitam da avidez das pessoas pela mudança, para experimentar o novo, na esperança de dar algum sentido à sua triste existência.

Josué deu provas de ser um líder realizador, porque:

1º) Agia de forma organizada, com ordem e disciplina (Js 3.1-6);

2º) Atuava como um habilidoso maestro (Js 6.7-21);

3º) Zelava pela união das 12 tribos e foi respeitado todos os seus dias (Js 4.14);

4º) Alcançava vitórias sobre os adversários (Js 12.7, 24 [31 reis derrotados]; Moisés [2 reis derrotados] – é interessante a alternância de estilo na liderança: Moisés, um legislador; Josué, um desbravador);

5º) Cumpriu sua missão: conduziu o povo a conquistar a terra da promessa e promoveu a distribuição do território e despojos conquistados. (Js 12.7, 24). Duas palavrinhas importantíssimas: CONQUISTAR e DISTRIBUIR!

Fazer as coisas acontecerem é marca registrada de um verdadeiro líder. Um reparador de brechas e restaurador de veredas (Is 58.12). Ele não existe para realizar tudo sozinho; o verdadeiro líder é aquele que FAZ FAZER. Dizem que PASTOR faz PASTOR e, OVELHA, faz OVELHA. Dá gosto ver as sociedades internas de uma igreja trabalhando, com todo empenho e criatividade, afinadas com a liderança da igreja e cooperando umas com as outras, para o bem da obra. Um grupo que realiza, reforça o sentimento de PERTENCIMENTO, nos seus participantes.

 

Conclusão:

Finalmente,

Esses quatro movimentos estavam muito presentes na vida de Jesus, nosso supremo pastor e líder. Só alguns flashes, uma pequeníssima amostra:

  1. Poder legítimo: “que saia adiante deles”

“A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”( Mc 9.7; comp. At 2.22) 

  1. Poder de especialista: “e que entre adiante deles”

“Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina;  porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mt 7.28-29)

  1. Poder de mobilização: “e que os faça sair”

“Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas. Também os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos.” (Mt 9.1-2)

  1. Poder de realização: “e que os faça entrar”

“Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!” (Lc 10.17)

 

Como igreja, necessitamos de uma liderança sinérgica, que potencialize e canalize os recursos e talentos do grupo e os direcione para a edificação do grupo e para a glória de Deus.

“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Que assim Deus nos ajude!

Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria

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[1] Seja Líder de Si Mesmo – O Maior Desafio do Ser Humano (Augusto Cury [psiquiatra] – Sextante)

[2] Igreja: Visível ou Invisível; Militante ou Gloriosa; Local ou Universal


Catedral Presbiteriana do Rio
17/12/2006 – Culto Matutino (10h 15min) – Dia do Pastor
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

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As qualificações dos diáconos

O embrião do ofício de diácono está no texto de Atos 6.1-6, tendo ocorrido a partir de delegação da autoridade apostólica e, portanto, constitui-se num exercício de autoridade na igreja. Desta forma, coerentemente com o “princípio divino da autoridade de gênero”, foram escolhidos sete homens. Entretanto, as qualificações para o ofício de diácono na igreja apareceram posteriormente, no texto de 1 Timóteo 3.8-13. Antes de tratarmos das qualificações dos diáconos é importante analisar a questão da diaconia, na bíblia.

Cremos na diaconia universal dos crentes, homens e mulheres, ao lado do sacerdócio universal dos crentes. Todos os remidos foram chamados pelo Senhor para servir, para realizar as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). Servir, no grego, “doulos” (escravo, aquele que deve cumprir a vontade do seu Senhor, sem se importar com sua própria vontade) ou “diakonos” (aquele que realiza tarefas para ajudar os outros) é a nobre missão de cada crente, pois o Senhor Jesus é o exemplo maior. “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45). Para servir não é necessário ter um cargo ou um ofício. Assim é que o termo servir é empregado em todo o NT no sentido não-técnico, referindo-se a homens e mulheres que serviam a essa ou àquela igreja local: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia,..” (Rm 16.1). Na igreja primitiva, a pergunta que se fazia a outro cristão era: “– em que igreja você está servindo ao Senhor?”; enquanto hoje se pergunta: “– de que igreja você é?”

Cremos que o ofício de diácono, ao lado do ofício de presbítero, são para ser exercidos por homens, cujas qualificações são descritas na Bíblia em duas únicas listas: 1Timóteo 3.1-13 e Tito 1.5-9. E não é por acaso que tais instruções aparecem na Bíblia, lado a lado: “Semelhantemente…” (1Tm 3.8). As qualificações dos diáconos são muito parecidas com as dos presbíteros, pois se trata da liderança maior da igreja, os presbíteros, e da liderança supervisionada por eles, os diáconos. Vale lembrar que o termo “diaconisa” não aparece na Bíblia, nem muito menos “presbítera”. Já que o governo das igrejas locais e o ensino público oficial nas mesmas são funções de presbíteros e pastores (cf. 1Tm 3.2, 4-5; 5.17; Tt 1.9), infere-se que tais funções não fazem parte do chamado cristão das nossas queridas irmãs.

O texto bíblico apresenta, em forma de instrução e prescrição, as qualificações dos diáconos. São listados cerca de 9 requisitos “necessários” que não são meramente caprichos do apóstolo. Para propiciar uma melhor visão didática, essas qualificações individuais e familiares, podem ser agrupadas sob os seguintes aspectos/segmentos: “caráter/temperamento”, “comportamento/hábito”, e, “situação conjugal e familiar”. Portanto, cada diácono deve atender a essas qualificações, sendo que em algumas delas precisará contar com a colaboração da família (esposa e filhos).

Apresentamos, a seguir, as 9 qualificações vinculadas a seus respectivos segmentos. Ainda que tecnicamente alguma qualificação possa ser mais bem enquadrada em outro segmento, o mais importante, sem dúvida, é entender o significado de cada uma delas e que esta instrução bíblica seja praticada na igreja. O assunto é muito extenso, mas será abordado aqui de forma sucinta. Os textos bíblicos seguem a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

I.   CARÁTER/TEMPERAMENTO

Considera-se aqui o “jeito de ser” da pessoa.

1 Qualificação: “é necessário que sejam respeitáveis” (1Tm 3.8)
Significado: Respeitável → Digno de respeito, apreço, atenção, consideração, acatamento.

Comentário: Já diziam os antigos que respeito não se impõe, se conquista; e não é uma conquista fácil. Como? Com atitudes coerentes, falando e fazendo a coisa certa, da forma certa e na hora certa. Em outras traduções, “que sejam honestos”, “que sejam sérios”. Esta seriedade não tem nada a ver com ser uma pessoa sempre fechada e sisuda; indica a reverência com que se deve tratar os anciãos, por exemplo. Entretanto, a pessoa que não se valoriza, que está sempre fazendo criancices, é imatura, que não tem controle e domínio de si e dos seus atos, vai ter dificuldade para conquistar esse respeito. O ofício diaconal requer pessoas maduras, capazes de entender e atender o que a pessoa necessita e não, necessariamente, o que a pessoa pede. O diácono precisará ter discernimento e sabedoria para lidar com “pedintes profissionais” que chegam até eles com as mais criativas estórias.

2 Qualificação: “de uma só palavra” (1Tm 3.8)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Eis aqui uma qualificação bastante interessante. É rotina do ofício de diácono tratar com pessoas, mediar situações entre partes em conflito, distribuir recursos destinados à ação social sendo o intermediário entre os recursos disponibilizados e os destinatários necessitados etc etc. Assim sendo é mandatório para este ofício que o diácono seja íntegro, honesto e franco no falar, homem “de uma só palavra” ou homem de palavra. Em hipótese alguma é admissível que ele tenha favoritismos e predileções, tratando os iguais de forma desigual, favorecendo a uns em detrimento de outros. Ele não pode dizer uma coisa para um, e outra coisa para o outro; a verdade tem que ser única na sua boca. Por falar nisso, em muitos casos ele precisará ser discreto, sigiloso e confiável, não comentando os problemas das pessoas atendidas por ele.

 

II.      COMPORTAMENTO/HÁBITO

Considera-se aqui o “modo de agir, de proceder” da pessoa.

3 Qualificação: “irrepreensível” (1Tm 3.10)
Significado: Que não dá motivo à repreensão ou censura.

Comentário: Excelente “carro chefe” nas duas listas de qualificações, pois supre facilmente algum requisito que porventura o apóstolo Paulo tenha deixado de mencionar. Irrepreensível não quer dizer perfeito, pois perfeito é atributo somente do Senhor Deus. Irrepreensível é aquele que as pessoas, de dentro ou de fora da igreja, não tenham pecado para apontar, pois não vive na prática do pecado (1Jo 3.9). No caso de diáconos aparece esta novidade: Também sejam estes primeiramente experimentados; e, se se mostrarem irrepreensíveis, exerçam o diaconato.” (1Tm 3.10). Aquela mesma ideia de que não devem ser neófitos, novos convertidos, aparece também aqui. Os diáconos têm a responsabilidade de manter a ordem nos cultos. Assim sendo, precisam ter autoridade espiritual pois, eventualmente, precisarão atender casos de possessão demoníaca, dentre outros. Presbíteros e diáconos não são escolhidos pela igreja, são escolhidos por Deus e reconhecidos pela igreja. Para que sejam reconhecidos, a igreja precisa avaliar o trabalho que já estão fazendo e não se iludir com o suposto potencial que, teoricamente, aparentam possuir.

4 Qualificação: “não inclinados a muito vinho,” (1Tm 3.8)
Significado: Não dominado por bebida alcoólica.

Comentário: Cada país tem suas tradições e bebidas típicas. No Brasil, a caipirinha; no México, a Tequila; na Alemanha, a cerveja; na Rússia, a vodca; etc. Naquela época e região, o vinho tinha os seus apreciadores. Vale lembrar que o apóstolo não desqualificou quem bebia vinho, mas sim quem não se dominava no seu consumo. Particularmente, nunca fui chegado a bebidas alcoólicas e nunca fui fã da expressão “beber socialmente” como hábito de um cristão (Pv 23.31-35).  Um pouco de vinho, com baixo teor alcoólico, consumido eventualmente nas refeições, tem até seus benefícios medicinais (1Tm 5.23). Entretanto, para quem tem tendência ao alcoolismo, basta começar para não mais conseguir parar. Combate-se acertadamente o fumo, porém a bebida patrocina quase tudo. Assim, infelizmente, as estatísticas do alcoolismo crescem no mundo inteiro.

5 Qualificação: “não cobiçosos de sórdida ganância,” (1Tm 3.8)
Significado: Avareza → desejo e apego exagerado de acumular riquezas.Avarento → que não dá, mesquinho.

Comentário: A avareza é pecado (Mt 6.24); ter dinheiro e ser rico não. O problema não é o dinheiro e sim o amor e apego a ele (1Tm 6.17). Se ele for avarento, o foco da sua vida será cada vez acumular mais dinheiro e deleitar-se com os prazeres que este pode comprar (Pv 23.4-5; 1Tm 6.10). Entretanto, se ele não for apegado ao dinheiro, poderá dispor de mais tempo para servir ao Senhor, dedicar-se mais ao rebanho de Deus e a todos os desafios e projetos da igreja.

6 Qualificação: “conservando o mistério da fé com a consciência limpa.” (1Tm 3.9)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Além de regenerado, é claro, ele deve ser: um fiel seguidor do Senhor Jesus Cristo; guardar no coração e obedecer a Palavra de Deus, para não pecar; conhecer e praticar a sã doutrina bíblica; enfim, guardar e viver a fé cristã. Deve estar sempre pronto a testemunhar de sua fé e evangelizar, tendo em mente os lindos exemplos deixados nas Escrituras pelos diáconos Estêvão (At 6.8 a 7.60) e Filipe (At 8.5-40). Sua consciência não deve acusá-lo, muito menos os de dentro ou os de fora da igreja. Deve demonstrar idoneidade e transparência na administração dos recursos disponibilizados pela igreja.

III.   SITUAÇÃO CONJUGAL E FAMILIAR

Considera-se aqui a “vida familiar” da pessoa.

7 Qualificação: “seja marido de uma só mulher” (1Tm 3.12)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Esta qualificação pode ser interpretada pelo menos de três maneiras:

1ª) Que, obrigatoriamente, ele terá que ser um homem casado (com uma mulher, naturalmente).

2ª) Que, em toda a sua vida, ele tenha sido casado com apenas uma mulher, isto é, que não tenha casado outras vezes.

3ª) Que ele não pode ser poligâmico, pois em algumas sociedades e culturas isso era e ainda é uma situação legalmente permitida.

Qual das três é a interpretação correta? O texto bíblico não favorece uma resposta conclusiva. É desejável que ele seja casado e aplique na igreja a maturidade e experiência da liderança do seu lar. Mas, um homem viúvo, que vive só, também pode ser igualmente útil. Será que um homem viúvo, ao contrair novas núpcias, perderia a qualificação para o diaconato? Quanto ao solteiro, nada é referido explicitamente, a favor ou contra. Quanto ao homem ser casado simultânea e legalmente com mais de uma esposa, parece não ser esse o propósito de Deus, quando instituiu o casamento (Gn 2.24), o que Jesus ratificou (Mt 19.5). Quanto ao homem divorciado, que vive só ou casou-se outra vez, a situação não é muito simples de avaliar. Há alguns anos atrás, muitas igrejas não realizavam casamento de cônjuge divorciado. Dizia-se, também, que homem divorciado não deveria assumir posição de liderança na igreja, por uma questão de não viver uma situação exemplar. Tomavam como base as várias referências bíblicas de que o líder tem que ser modelo para o rebanho (1Pe 5.3; 1Tm 4.22; Fp 3.17). O assunto é muito complexo e não é nosso objetivo tratar dele aqui. Neste final dos tempos, em que há tanto desprezo pela Palavra de Deus e aceitação dos usos e costumes de uma sociedade pagã, que o Senhor nos ilumine e nos dê uma consciência tal que não sejamos irresponsáveis e permissivos, nem legalistas e injustos.

8 Qualificação: “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.” (1Tm 3.11)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Este versículo tem sido motivo de muita polêmica, sendo que para uns, está aqui em foco as esposas dos diáconos e, para outros, as qualificações resumidas das diaconisas. Minha posição pessoal se alinha com os que consideram aqui as qualificações resumidas das esposas dos diáconos e, portanto, suas auxiliadoras idôneas. Os argumentos são os seguintes: 1º)Várias traduções da Bíblia já adotam esta posição, pois no grego  “gunê” é traduzido por mulher (Mt 5.28) ou por esposa (Mt 5.31,31; 14.3). “Suas esposas devem ser cuidadosas….” (A Bíblia Viva – Mundo Cristão); “A esposa do diácono também deve ser….” (NTLH – SBB); etc. 2º)O ofício de diácono, desde sua origem (At 6), representa uma delegação de autoridade mas continua sendo exercício de governo na igreja, o que biblicamente é sempre de responsabilidade do homem (princípio divino de autoridade de gênero), o cabeça da mulher. Prova de que o diaconato exerce governo delegado pelo presbiterato é a qualificação de “governo” expressa no versículo 12.  3º)Se o apóstolo quisesse apresentar as qualificações de diaconisa ele seria mais claro e não se limitaria a uma lista tão resumida e inexpressiva. 4º)Não faz qualquer sentido o apóstolo, que é tão sistemático, começar a apresentar as qualificações dos diáconos, interromper para falar de diaconisas, em um minúsculo e brevíssimo versículo (v.11), e depois, continuar com sua apresentação.  Por outro lado, faz todo o sentido ele falar do diácono (vv.8-10), de sua esposa (v.11) e de sua relação familiar (v.12). 5º)É razoável que as esposas dos diáconos sejam mencionadas aqui pois sua cooperação no ministério do marido era e sempre será de grande valor. Vale ressaltar aqui que repudiamos qualquer favorecimento de conceito machista ou feminista na interpretação bíblica. Também não podemos aceitar que qualquer igreja ou denominação se atreva a distorcer o texto bíblico na tentativa de fundamentar suas decisões. Se quiser seguir modelos ou costumes do mundo pagão, a título de “evolução e modernidade”, que o faça e assuma os riscos e consequências, mas, por favor, não coloque a Bíblia nisso!

9 Qualificação: “governe bem seus filhos e a própria casa.” (1Tm 3.12)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Biblicamente, a responsabilidade maior do “governo” do lar é do homem; assim aprendemos e assim praticamos. Obviamente, que essa não é uma tarefa a ser exercida pelo homem de forma isolada, solitária e autoritária. Antes, porém, deverá ser exercida com sabedoria e com todo o apoio de sua esposa, sua auxiliadora idônea. Então, mais uma vez estamos diante de uma qualificação que é exigida dele, mas que depende essencialmente dela, da esposa, e também dos filhos. O texto é de fácil entendimento e a lógica é simples. Quem demonstra estar governando bem a sua casa, terá grande probabilidade de fazer um bom trabalho no governo da igreja, na área da diaconia. Quem no seu juízo perfeito colocaria uma pessoa toda atrapalhada na sua vida pessoal para gerenciar o seu negócio?

Concluímos esta sucinta abordagem com as seguintes considerações:

a) O texto termina com o seguinte versículo: “Pois os que desempenharem bem o diaconato alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus.” (2Tm 3.13). Nenhum servo de Deus, fiel e leal ao seu Senhor, faz o seu serviço buscando glória e honra para si mesmo, senão para o seu Senhor. Entretanto, o seu serviço e dedicação não ficarão esquecidos, diante de Deus e dos homens. Cabe aqui um alerta: diácono não é trampolim para presbítero! Cada ofício tem suas peculiaridades e algumas qualificações distintas. Alguns erros fundamentais têm sido cometidos na tentativa de premiar um diácono operoso “promovendo-o” a presbítero.

b) É difícil imaginar alguém que esteja cem por cento dentro deste padrão. Não é por isso que vamos agora ficar discutindo com a Bíblia ou com o apóstolo Paulo sobre o assunto. Padrão é meta, é desafio. Não é o caso também de desprezarmos o padrão bíblico e adotarmos nossos próprios critérios. A Bíblia é a nossa única e infalível regra de fé e prática.

c) Se eu e você achamos difícil reconhecer um homem cristão que atenda a todas essas prescrições, não fique perplexo se eu te afirmar que todo cristão, e não exclusivamente os diáconos, deveriam ter estas qualificações! Ou você acha que só os diáconos precisam ser respeitáveis, não avarentos, não dados a bebidas alcoólicas etc e os demais cristãos podem? Todos temos o desafio de viver de forma irrepreensível. Não é o que o Senhor Jesus diz? “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48)

d) Não custa lembrar que, biblicamente, não é a igreja quem escolhe diáconos! O processo é o seguinte:

1º) Deus os escolhe, os constitui (vocação e chamado).

2º) O homem cristão, regenerado, faz a obra.

3º) A igreja reconhece aquele que está fazendo a obra, sob a orientação do Senhor.

e) Quando a exigência é pouca e as qualificações bíblicas são desconsideradas, o nível da liderança é fraco e a igreja sofrerá as consequências. É como diz o provérbio popular, aqui adaptado: “Cada igreja tem o governo que merece.”

Finalmente, irmãos se alguém aspira ao diaconato, excelente obra almeja, então deve se empenhar para atender ao padrão prescrito na Palavra de Deus. Por outro lado, irmãos, vamos observar o jeito de ser da pessoa, seu modo de agir, sua capacidade de realização a partir do que a pessoa já vem realizando e, sua vida familiar, ao reconhecer diáconos na igreja de Deus!

Que o Senhor nos ajude!

Clique ao lado para imprimir → As qualificações dos diáconos (pdf)

As qualificações dos presbíteros

Há dois textos bíblicos principais que apresentam, em forma de instrução e prescrição, as qualificações necessárias dos presbíteros: 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9. O assunto é extremamente importante e sempre atual para cada igreja local. O cristão consciente sabe muito bem o quanto é valioso para a igreja ter  presbíteros que satisfaçam a essas referências bíblicas. São listados cerca de 21 requisitos, sendo 5 apenas em 1 Timóteo 3.1-7,  7 em Tito 1.5-9 e,  9 comuns aos dois textos. Para propiciar uma melhor visão didática, essas qualificações individuais e familiares, podem ser agrupadas sob os seguintes aspectos/segmentos: “caráter/temperamento”, “comportamento/hábito”, “habilidade/competência/maturidade” e, “situação conjugal e familiar”. Portanto, cada presbítero deve atender a essas qualificações, sendo que em algumas delas precisará contar com a colaboração da família (esposa e filhos).

Apresentamos, a seguir, as 21 qualificações vinculadas a seus respectivos segmentos. Ainda que tecnicamente alguma qualificação possa ser mais bem enquadrada em outro segmento, o mais importante, sem dúvida, é entender o significado de cada uma delas e que esta instrução bíblica seja praticada na igreja. O assunto é muito extenso, mas será abordado aqui de forma sucinta. Os textos bíblicos seguem a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

I.   CARÁTER/TEMPERAMENTO

Considera-se aqui o “jeito de ser” da pessoa.

Qualificação: “temperante” (1Tm 3.2) / “que tenha domínio de si” (Tt 1.8)
Significado: Poder ou virtude pela qual o homem pode refrear os apetites desordenados.

Comentário: O homem temperante ou moderado é aquele que não se deixa arrebatar por extremos. Não pode ser extremista. Precisa ter controle e domínio de si e dos seus atos. Precisa ser autodisciplinado e autocontrolado.

Qualificação: “não violento, porém cordato” (1Tm 3.3; Tt 1.7)
Significado: Cordato → Que concorda, que tem gênio manso e pacífico. Sensato; prudente.

Comentário: O presbítero precisará lidar com opiniões diferentes e até com oposição; dos seus pares ou dos irmãos.  Alguém com gênio manso e pacífico é recomendável.

Qualificação: “inimigo de contendas” (1Tm 3.3)
Significado: Contenda → Altercação, controvérsia, debate, disputa, litígio, demanda.

Comentário: O presbítero precisa ser uma pessoa pacífica e pacificadora e, não, um criador de caso. Entretanto, ser pacífico não significa dizer sim a tudo, como uma vaquinha de presépio, para não se expor e, assim, se sentir confortável junto à maioria dos seus pares.  Vale lembrar, que antes de tudo, o presbítero tem o dever maior de zelar pela ética, pela moral e pelos bons costumes; zelar pelos princípios e doutrinas bíblicas; e, zelar pelo que for melhor para a igreja. Se necessário for, ele vai debater e discutir sim e exaustivamente as questões; com todo o respeito às pessoas, com inteligência e sensatez. Jamais deverá se omitir, sentindo-se acuado pela maldosa insinuação de alguém de que não está promovendo a paz. Seu dever é expor seu ponto de vista com argumentos, fatos e dados. Se a maioria decidir de forma diferente, sua postura tem que ser de respeito, reflexão e entrega para o Senhor, em oração. É preciso ter sempre em mente a possibilidade de estar equivocado ou, por outro lado, que o Senhor Deus pretenda usar uma eventual má decisão do grupo para fins que escapam a nossa visão pessoal, mas não a soberania de Deus.

Qualificação: “não arrogante” (Tt 1.7)
Significado: Arrogante → Altivo, insolente, soberbo.

Comentário: Ele não deve ser orgulhoso, arrogante no trato com as pessoas. Alguém que se acha superior e despreza as opiniões e sentimentos dos outros, não está qualificado para o ofício.

Qualificação: “não irascível” (Tt 1.7)
Significado: Não Propenso à irritação. Que não se irrita facilmente.

Comentário: “Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” (Tg 1.19b) Principalmente o presbítero precisa enquadrar-se neste perfil recomendado por Tiago. Alguém explosivo, “com pavio curto”, não está qualificado para o ofício.

II.      COMPORTAMENTO/HÁBITO

Considera-se aqui o “modo de agir, de proceder” da pessoa.

Qualificação: “irrepreensível” (1Tm 3.2; Tt 1.5)
Significado: Que não dá motivo à repreensão ou censura.

Comentário: Excelente “carro chefe” nas duas listas de qualificações, pois supre facilmente algum requisito que porventura o apóstolo Paulo tenha deixado de mencionar. Irrepreensível não quer dizer perfeito, pois perfeito é atributo somente do Senhor Deus. Irrepreensível é aquele que as pessoas, de dentro ou de fora da igreja, não tenham pecado para apontar, pois não vive na prática do pecado (1Jo 3.9).

Qualificação: “sóbrio” (1Tm 3.2; Tt 1.8)
Significado: Moderado, não dado a excessos, especialmente no comer, beber e vestir.

Comentário: Uma pessoa sóbria é uma pessoa equilibrada nos seus hábitos alimentares e discreta no vestir-se. Não chama a atenção com os seus exageros.

Qualificação: “modesto” (1Tm 3.2)
Significado: Que pensa ou fala de si sem orgulho; humilde.

Comentário: Uma pessoa modesta é aquela que entendeu o exemplo do Mestre. Um servo não tem o direito de ter vontade própria, quanto mais pensar de si mesmo além do que convém.

Qualificação: “não dado ao vinho” (1Tm 3.3; Tt 1.7)
Significado: Não dominado por bebida alcoólica.

Comentário: Cada país tem suas tradições e bebidas típicas. No Brasil, a caipirinha; no México, a Tequila; na Alemanha, a cerveja; na Rússia, a vodca; etc. Naquela época e região, o vinho tinha os seus apreciadores. Vale lembrar que o apóstolo não desqualificou quem bebia vinho, mas sim quem não se dominava no seu consumo. Particularmente, nunca fui chegado a bebidas alcoólicas e nunca fui fã da expressão “beber socialmente” como hábito de um cristão (Pv 23.31-35).  Um pouco de vinho, com baixo teor alcoólico, consumido eventualmente nas refeições, tem até seus benefícios medicinais (1Tm 5.23). Entretanto, para quem tem tendência ao alcoolismo, basta começar para não mais conseguir parar. Combate-se acertadamente o fumo, porém a bebida patrocina quase tudo. Assim, infelizmente, as estatísticas do alcoolismo crescem no mundo inteiro.

10  Qualificação: “não avarento” (1Tm 3.3) / “nem cobiçoso de torpe ganância” (Tt 1.7)
Significado: Avareza → desejo e apego exagerado de acumular riquezas.  Avarento → que não dá, mesquinho.

Comentário: A avareza é pecado (Mt 6.24); ter dinheiro e ser rico não. O problema não é o dinheiro e sim o amor e apego a ele (1Tm 6.17). Se ele for avarento, o foco da sua vida será cada vez acumular mais dinheiro e deleitar-se com os prazeres que este pode comprar (Pv 23.4-5; 1Tm 6.10). Entretanto, se ele não for apegado ao dinheiro, poderá dispor de mais tempo para estudar a Palavra, preparar-se melhor para ensinar e aconselhar, dedicar-se mais ao rebanho de Deus e a todos os desafios e projetos da igreja.

11  Qualificação: “que tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo.” (1Tm 3.7)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Ele deve ter boa reputação perante os de fora da igreja, para que nem ele nem a igreja sejam envergonhados ou caiam no descrédito, nem na cilada do diabo. Se não for assim ele não será irrepreensível, conforme já visto. Chego a pensar que “laço do diabo” também pode ser a falsa impressão de alguém que, consciente ou inconscientemente, sendo um “ficha suja”, se sinta confortável ao ser reconhecido presbítero pela igreja.

12  Qualificação: “amigo do bem” (Tt 1.8)
Significado: Afeiçoado àquilo que promova o bem.

Comentário: A ideia é bem clara e é o mínimo que se espera de qualquer cristão.

13  Qualificação: “justo” (Tt 1.8)
Significado: Conforme à justiça, à razão e ao direito.  Reto, imparcial, íntegro. Homem virtuoso, que observa exatamente as leis da moral ou da religião.

Comentário: O termo tem o mesmo sentido hoje. É a virtude de viver acatando e respeitando as leis de Deus e as leis dos homens.

14  Qualificação: “piedoso” (Tt 1.8)
Significado: Que tem amor e respeito às coisas sagradas; misericordioso, compadecido.

Comentário: Piedoso é aquele que tem prazer nas coisas de Deus e procura viver de modo a ser agradável a Deus, em todo o tempo e em todos os seus atos.

III.    HABILIDADE/COMPETÊNCIA/MATURIDADE

Considera-se aqui a “capacidade de realização” da pessoa (para o ofício).

15  Qualificação: “apto para ensinar” (1Tm 3.2) / “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem.” (Tt 1.9)
Significado:  Ver comentário abaixo.

Comentário:  Todo presbítero deve ser ensinador e pastor, segundo os padrões bíblicos. O apóstolo Paulo, não só acreditava como contava com isso para a continuação da obra que iniciara:  “De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.” (At 20.17, 28). Ele não precisa ser doutor na Palavra, mas deve saber transmitir os seus ensinos, a doutrina. Ele precisa ter intimidade com a Bíblia, para poder combater as heresias e ensinar o reto caminho. Há algum tempo atrás, num certo seminário sobre diaconia, ouvi um pastor dizer que numa igreja governada por um conselho formado de pastor e presbíteros, há pastores que preferem que sejam eleitos presbíteros ricos e rasos no conhecimento bíblico. Por que? Porque desta forma, estes presbíteros “bancam” os seus projetos e não questionam suas pregações e ensinos. Triste pastor e pobre igreja que embarca nessa canoa furada!

16  Qualificação: “não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo.” (1Tm 3.6)
Significado: Neófito → Novato, sem maturidade na fé.

Comentário: Segundo o ensino bíblico, um recém-convertido não está qualificado para a função. O mesmo se pode dizer de um crente imaturo na fé, ainda que tenha muitos anos de “banco de igreja”. Por que não?

1º) Porque ele precisa ter experiência para lidar com os problemas que surgem no dia a dia da igreja.

2º) Porque ele poderá se escandalizar ao tomar conhecimento de certas coisas que podem eventualmente acontecer em qualquer igreja, pois a igreja visível não é perfeita.

3º) Porque ele deve conhecer a Bíblia, sua doutrina, para colaborar na edificação dos seus irmãos.

4º) Para não incorrer na condenação do diabo. Para não inflar, orgulhando-se de estar ocupando uma posição de destaque, de liderança. O cristão maduro saberá entender as palavras de Jesus quando disse aos seus discípulos que maior é aquele que serve, com toda a dedicação e amor. O neófito poderá incorrer no erro de achar que o oficial de igreja é reconhecido pelos seus irmãos para ostentar um título, para ser servido, para ter regalias e gozar de privilégios!

17  Qualificação: “despenseiro de Deus” (Tt 1.7)
Significado: Aquele que distribui.

Comentário: Ele precisa ter qualidades para ser um bom mordomo, um bom gerente, um bom administrador da casa de Deus. O mordomo tem a responsabilidade de administrar bem pessoas e coisas, fazendo sempre prevalecer a vontade do seu Senhor e não a sua própria. Ele nunca pode perder de vista que é um simples representante do dono e não o dono. Nessa administração, algumas vezes os presbíteros precisarão tratar de assuntos mais técnicos, relacionados a diversas áreas: jurídica, trabalhista, engenharia, economia e finanças, informática, áudio e vídeo etc etc. Se alguém, além de atender as qualificações dos presbíteros, também for especialista em alguma dessas áreas, será útil. Entretanto, não havendo algum presbítero especialista, com muita tranquilidade, o conselho de presbíteros poderá requisitar a presença ou o parecer técnico de um especialista dentre os membros da igreja ou até mesmo de fora dela, sempre que julgar necessário. Não se pode perder de vista que igreja não é empresa, mas um organismo vivo, o corpo de Cristo. Nela, o espiritual tem prevalência sobre o material!

IV.   SITUAÇÃO CONJUGAL E FAMILIAR

Considera-se aqui a “vida familiar” da pessoa.

18  Qualificação: “esposo de uma só mulher” (1Tm 3.2; Tt 1.5)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Esta qualificação pode ser interpretada pelo menos de três maneiras:

1ª) Que, obrigatoriamente, ele terá que ser um homem casado (com uma mulher, naturalmente).

2ª) Que, em toda a sua vida, ele tenha sido casado com apenas uma mulher, isto é, que não tenha casado outras vezes.

3ª) Que ele não pode ser poligâmico, pois em algumas sociedades e culturas isso era e ainda é uma situação legalmente permitida.

Qual das três é a interpretação correta? O texto bíblico não favorece uma resposta conclusiva. É desejável que ele seja casado e aplique na igreja a maturidade e experiência da liderança do seu lar. Mas, um homem viúvo, que vive só, também pode ser igualmente útil. Será que um homem viúvo, ao contrair novas núpcias, perderia a qualificação para o presbiterato? Quanto ao solteiro, nada é referido explicitamente, a favor ou contra. Quanto ao homem ser casado simultânea e legalmente com mais de uma esposa, parece não ser esse o propósito de Deus, quando instituiu o casamento (Gn 2.24), o que Jesus ratificou (Mt 19.5). Quanto ao homem divorciado, que vive só ou casou-se outra vez, a situação não é muito simples de avaliar. Há alguns anos atrás, muitas igrejas não realizavam casamento de cônjuge divorciado. Dizia-se, também, que homem divorciado não deveria assumir posição de liderança na igreja, por uma questão de não viver uma situação exemplar. Tomavam como base as várias referências bíblicas de que o líder tem que ser modelo para o rebanho (1Pe 5.3; 1Tm 4.22; Fp 3.17). O assunto é muito complexo e não é nosso objetivo tratar dele aqui. Neste final dos tempos, em que há tanto desprezo pela Palavra de Deus e aceitação dos usos e costumes de uma sociedade pagã, que o Senhor nos ilumine e nos dê uma consciência tal que não sejamos irresponsáveis e permissivos, nem legalistas e injustos.

19  Qualificação: “hospitaleiro” (1Tm 3.2; Tt 1.8)
Significado: Que dá hospedagem por generosidade ou bondade; que acolhe com satisfação.

Comentário: Esta qualificação está colocada aqui nesta categoria, porque não depende somente dele, mas muito da esposa e um pouco dos filhos. É fácil convidar pessoas para a nossa casa, o difícil é fazer todos os preparativos para recebê-las. Quem cuida dos visitantes? Normalmente é a esposa. E se ela não tiver esse espírito hospitaleiro? Se hospedar dá trabalho, por outro lado pode propiciar muita bênção para a família naquele convívio temporário. Há, entretanto, pelo menos dois aspectos que podem dificultar o exercício da hospitalidade: a situação financeira deste irmão e as limitações de espaço na sua moradia.

20  Qualificação: “que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?)” (1Tm 3.4-5)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: Biblicamente, a responsabilidade maior do “governo” do lar é do homem; assim aprendemos e assim praticamos. Obviamente, que essa não é uma tarefa a ser exercida pelo homem de forma isolada, solitária e autoritária. Antes, porém, deverá ser exercida com sabedoria e com todo o apoio de sua esposa, sua auxiliadora idônea. Então, mais uma vez estamos diante de uma qualificação que é exigida dele, mas que depende essencialmente dela, da esposa, e também dos filhos. O texto é de fácil entendimento e a lógica é simples. Quem demonstra estar governando bem a sua casa, terá grande probabilidade de fazer um bom trabalho no governo da igreja. Quem no seu juízo perfeito colocaria uma pessoa toda atrapalhada na sua vida pessoal para gerenciar o seu negócio?

21  Qualificação: “que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados.” (Tt 1.6)
Significado: Ver comentário abaixo.

Comentário: O texto parece fácil de entender, mas nem tão simples de atender ou comentar. A salvação é obra dos pais ou do Espírito Santo? É verdade que o testemunho de vida dos pais exerce forte influência na vida dos filhos. É verdade, ainda, que a Bíblia diz: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv 22.6). Porém, até onde vai a responsabilidade de um pai crente nesse processo? Há pais tão fiéis no testemunho, mas que não são agraciados com a bênção de ver seus filhos nos caminhos do Senhor. Há outros que são convertidos pelo testemunho dos filhos. Há pais fiéis e cuidadosos que criam filhos da mesma forma, nos caminhos do Senhor, sendo que uns permanecem nele e outros o abandonam. Difícil esta questão, não? Então, é preciso ter muito cuidado com julgamentos precipitados, que somente aumentam a tristeza de alguns pais. É preciso lembrar que também há filhos crentes, não por conta do mérito dos pais crentes, mas apesar deles.

Concluímos esta sucinta abordagem com as seguintes considerações:

a) Além dessas, há outras duas qualificações que são tão básicas e tão óbvias que o apóstolo nem julgou necessário mencioná-las: o presbítero deveria ser um homem e um regenerado, nascido de novo.

b) É difícil imaginar alguém que esteja cem por cento dentro deste padrão. Não é por isso que vamos agora ficar discutindo com a Bíblia ou com o apóstolo Paulo sobre o assunto. Padrão é meta, é desafio. Não é o caso também de desprezarmos o padrão bíblico e adotarmos nossos próprios critérios. A Bíblia é a nossa única e infalível regra de fé e prática.

c) Se eu e você achamos difícil reconhecer um homem cristão que atenda à todas essas prescrições, não fique perplexo se eu te afirmar que todo cristão, e não exclusivamente os presbíteros, deveriam ter estas qualificações! Ou você acha que só os presbíteros não podem ser violentos, arrogantes, avarentos, não dados a bebidas alcoólicas etc e os demais cristãos podem? Todos temos o desafio de viver de forma irrepreensível. Não é o que o Senhor Jesus diz? “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48)

d) Não custa lembrar que, biblicamente, não é a igreja quem escolhe presbíteros! O processo é o seguinte:

1º) Deus os escolhe, os constitui (vocação e chamado).

2º) O homem cristão, regenerado, faz a obra.

3º) A igreja reconhece aquele que está fazendo a obra, sob a orientação do Senhor.

e) Quando a exigência é pouca e as qualificações bíblicas são desconsideradas, o nível da liderança é fraco e a igreja sofrerá as consequências. É como diz o provérbio popular, aqui adaptado: “Cada igreja tem o governo que merece.”

Finalmente, irmãos “se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja”, então deve se empenhar para atender ao padrão prescrito na Palavra de Deus. Por outro lado, irmãos, vamos observar o jeito de ser da pessoa, seu modo de agir, sua capacidade de realização a partir do que a pessoa já vem realizando e, sua vida familiar, ao reconhecer presbíteros na igreja de Deus!

Que o Senhor nos ajude!

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