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A liderança em 4 movimentos

“Então, disse Moisés ao SENHOR: O SENHOR, autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação que saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar, para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor.” (Nm 27.15-17)

 

Você já ouviu aquela velha frase sobre manutenção? “Quando tudo vai bem, ninguém se lembra que ela existe. Quando vai mal, todos reclamam.” Tenho a impressão de que o mesmo se aplica às lideranças.

Na igreja, quando as lideranças são muito mais destacadas do que a coletividade, é bem provável que Deus esteja sendo usurpado da sua glória. Considerando a relevância do tema, vale a pena, pelo menos de vez em quando, resgatar a importância das lideranças nas relações e nas organizações humanas.

Liderança é, sem sombra de dúvida, um assunto relevante, interessante e inesgotável. Há uma quantidade enorme de livros e artigos no mundo sobre o tema. Na internet, há cerca de 2.500.000 (em 2006; em 2017 já são 25.700.000) ocorrências no Google, só em português, para esse verbete. Por que é relevante? Porque ela precisa estar presente em todos os agrupamentos humanos, desde a família menor, até a maior das organizações humanas globalizadas (ONU etc), passando por todas as instituições que aí estão postas neste mundo. Em algumas épocas e lugares ela foi e tem sido substituída pela dominação, que é o poder pela força das armas. Certamente esse nunca foi o projeto de Deus para os seres humanos. Homens e Mulheres foram criados por Deus para dominar sobre animais e coisas (Gn 1.28) e liderar pessoas, sendo que desde a queda coube ao homem liderar sua mulher (Gn 3.16).

O que vem a ser liderança? Uma conceituação interessante diz que:

Liderança é a arte ou habilidade, de influenciar um indivíduo[1] ou grupo, a fazer algo, entusiasticamente ou de boa vontade, em prol do bem comum.

O que é um grupo?

Um conjunto de pessoas sob a mesma liderança e com os mesmos ideais.

É interessante observar nesta definição que, liderança comum e ideais comuns são elementos indispensáveis na caracterização do grupo.

Quais são as funções básicas de um grupo?

A realização de objetivos específicos do grupo; a manutenção ou fortalecimento do próprio grupo.

A igreja[2] é um grupo com liderança e objetivos bem definidos!

Seu líder e cabeça, seu fundador e fundamento, é Jesus Cristo (Mt 16.18; Ef 2.19-22).

Seus membros, os regenerados desde o Pentecostes até o arrebatamento. No sentido local, os crentes professos e batizados em nome de Jesus Cristo.

Seus ideais comuns: Adoração, Comunhão, Evangelização, Educação Cristã e Ação Social.

O conceito de liderança segundo Moisés apresentado no texto, parece tão rudimentar quanto restrito a um comando militar. Ainda que não tenha sido explicitamente citado e aplicado à igreja pelos escritores do NT, sua essência pode ser percebida nas lideranças neotestamentárias, a começar por Jesus.

A fala de Moisés revela sua capacidade de síntese de algo extremamente complexo, como liderar um povo naquelas circunstâncias. Vejam o contexto:

O povo Israel havia passado por todas as fases porque passa um ser humano, da concepção até alcançar a idade adulta (Nm 11.12): FECUNDAÇÃO, GESTAÇÃO, TRABALHO DE PARTO, NASCIMENTO, CORTE DO CORDÃO UMBILICAL, FESTEJO, CHORO/AMAMENTAÇÃO, INSTRUÇÃO, DISCIPLINA ETC.

1º) Depois de 40 anos conduzindo o povo de Israel, do Egito para a terra de Canaã, Moisés os faz acampar do lado oriental do rio Jordão.

2º) Dos 603.550 homens com mais de 20 anos, segundo o censo de Números 1.46, apenas Josué e Calebe foram preservados. Os demais morreram no deserto como castigo pela incredulidade quando os 12 espias foram enviados para observar a terra (Nm 14.26-35; 26.64-65).

3º) Um novo censo é feito e contados agora 601.730 homens com mais de 20 anos, segundo registro de Números 26.51, o que equivale a um total entre 2 e 3 milhões de pessoas.

4º) Moisés, já com seus 120 anos (Dt 34.7), à entrada da terra de Canaã, sem seus irmãos Arão e Miriã, mortos durante a caminhada, recebe palavras duras da parte do Senhor, de que sua carreira se encerraria ali mesmo. Isto significava que outro tomaria o seu lugar a partir daquele ponto.

Consciente da importância de um líder e dos tremendos desafios que esse novo líder teria que enfrentar, a começar pela travessia do Jordão, depois derrotar todos os povos que ocupavam aquela terra, distribuir a terra conquistada e governar a nação; volta-se para o Senhor e descreve em linhas gerais o perfil desse novo líder.

Nessa conceituação de liderança em quatro movimentos formulada por Moisés, pode-se identificar as quatro principais bases de poder e autoridade que sustentam a liderança na igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos esses 4 movimentos:

 

1. PODER LEGÍTIMO (autêntico, genuíno, legal etc)

“que saia adiante deles”

Então, Moisés está dizendo que um líder é alguém que sai do meio do povo de Deus e se posiciona a frente desse povo? É quase isso. Precisamos apenas consertar o final da frase: ele não se posiciona, ele é posicionado por Deus. Se assim não for é quebrada a primeira base de sustentação da liderança. O movimento do banco da igreja para o púlpito não é tão simples assim! Não se dá porque eu quero, mas porque Deus quer! Não se dá apenas porque eu fiz um curso de teologia e fui ordenado. Não se dá por sucessão hereditária, vínculo de parentesco ou vínculo conjugal. Também não se dá porque o mercado de trabalho está difícil ou porque aquele ofício pode me levar a uma posição de destaque, de visibilidade etc.

Esse primeiro movimento tem a ver com indicação, chamada e vocação divinas, conforme expresso na resposta de Deus em Números 27.18-20, referindo-se a Josué:

“Toma Josué, filho de Num” – separação, identificação e reconhecimento (alguém específico);

“homem em que há o Espírito” – alguém habitado e dirigido pelo Espírito Santo;

“e impõe-lhe as mãos” – ato simbólico de consagrar alguém para um serviço especial;

“apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação” – satisfação à lei (estrutura de governo espiritual) e ao povo;

“e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens” – transferência de responsabilidade;

“Põe sobre ele da tua autoridade…” – transferência de poder.

 

2. PODER DE ESPECIALISTA (de conhecimento)

“e que entre adiante deles”

Levantemo-nos e vão” é uma frase interessante que diz respeito a alguém que tem boa oratória, porém que não está disposto(a) a tomar a dianteira.

Carro estacionado não precisa de motorista”. Partindo dessa premissa será que é correto dizer que o Líder só tem razão de existir se há um movimento a ser feito e este a partir dele? Será que no mundo atual alguma organização ou organismo sobrevive se não se mover? Dizem por aí que “jacaré parado vira bolsa”.

Ir para onde? É simplesmente ir de uma situação atual para uma situação melhor. A resposta é óbvia, ainda que não seja facilmente assimilada, pois as pessoas tendem a se acomodar e não querer correr o risco de deixar a zona de conforto em que se encontram.

Para realizar esse movimento de entrar adiante é necessário ter algumas características que estavam presentes em Josué, tais como:

  • Sabedoria (divina e humana – juntas e misturadas ao ponto de não se saber quando acaba uma e começa a outra) (Dt 34.9 – “cheio do espírito de sabedoria”)
  • Conhecimento da lei (vontade) divina, para a cumprir (Js 1.7-8; 2Tm 2.15; 1Tm 3.6)
  • Percepção da situação atual e Visão do alvo a ser alcançado (Js 1.1-6 – por Deus)

Fé: “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb 11.1)

  • Experiência prática (adquirida como servidor de Moisés: Ex 17.9,10,14; Nm 33.11)

 

3. PODER DE MOBILIZAÇÃO (rompimento com a inércia)

“e que os faça sair”

Muitas são as vozes que emanam de dentro do grupo e do ambiente externo ao grupo, na tentativa de nos fazer mover do lugar onde estamos, ou para induzir-nos a fazer o que propõem. Está se desenvolvendo na sociedade globalizada em que vivemos, em proporções jamais vistas em qualquer outra época da história humana, uma batalha implacável pela conquista da minha e da sua mente, do meu e do seu bolso (dinheiro). Entre tantas vozes e apelos, Jesus, o Verbo que se fez carne, precisa ter proeminência em nossas vidas; a voz profética e bíblica dos líderes do seu rebanho precisa sobressair, com firmeza e serenidade, a todas as outras. Mais do que ouvir a voz de um líder é indispensável conferir na Bíblia o que está sendo dito, como os de Beréia faziam e, por isso foram considerados ouvintes mais nobres do que os de Tessalônica. (At 17.11). No mundo em que vivemos não há mais espaço para crente ingênuo (superficial e distraído), levado por qualquer vento de doutrina, do tipo que decidiu terceirizar o conhecimento bíblico e os serviços cristãos, com o seu pastor, seu professor de EBD etc. Não é isso que Jesus quis dizer com “ser simples como as pombas e prudentes como as serpentes”.

Há outras características em Josué que ajudam a fazer acontecer esse movimento:

  • Exemplo pessoal (Js 24.15). “As palavras convencem, os exemplos arrastam.” Nada mais triste do que pregar aquilo que não se crê e não se vive.
  • Coragem e Determinação / Amor e Sacrifício (Js 14.6-9): são dois binômios inerentes e inseparáveis do currículo de um verdadeiro líder (Josué: comandante militar, um diferencial entre os espias etc.

Walt, homem que cursara apenas até a sexta série, membro de uma pequena igreja num bairro hostil ao evangelho, na Filadélfia (USA), querendo se tornar professor da EBD e não encontrando espaço, foi “desafiado” a arranjar alunos para formar sua classe. Ele conseguiu reunir 13 garotos das ruas do bairro, sendo 9 deles filhos de pais separados. Passado algum tempo eles se tornaram adultos, sendo que 11 (85%) se engajaram no serviço cristão em tempo integral. “Para ser sincero, não seria capaz de citar muita coisa do que ele nos disse, mas dele próprio posso dizer muita coisa porque aquele homem me amou por amor a Cristo. Amou-me mais do que meus pais.” (Relato de HOWARD HENDRICKS, um desses garotos, que se tornou professor de Seminário e escritor evangélico, no livro: Ensinando para transformar vidas – Editora Betânia).

  • Confiabilidade e Honestidade. Quem realmente está disposto a seguir um líder em quem não confia?

 

4. PODER DE REALIZAÇÃO (satisfação, coesão)

“e que os faça entrar”

Há muitas lideranças aventureiras espalhadas por aí. Pretensos líderes especializados em fazer as pessoas saírem de onde estão para não chegarem a lugar algum. É gente que só sabe fazer fumaça. Eles se aproveitam da avidez das pessoas pela mudança, para experimentar o novo, na esperança de dar algum sentido à sua triste existência.

Josué deu provas de ser um líder realizador, porque:

1º) Agia de forma organizada, com ordem e disciplina (Js 3.1-6);

2º) Atuava como um habilidoso maestro (Js 6.7-21);

3º) Zelava pela união das 12 tribos e foi respeitado todos os seus dias (Js 4.14);

4º) Alcançava vitórias sobre os adversários (Js 12.7, 24 [31 reis derrotados]; Moisés [2 reis derrotados] – é interessante a alternância de estilo na liderança: Moisés, um legislador; Josué, um desbravador);

5º) Cumpriu sua missão: conduziu o povo a conquistar a terra da promessa e promoveu a distribuição do território e despojos conquistados. (Js 12.7, 24). Duas palavrinhas importantíssimas: CONQUISTAR e DISTRIBUIR!

Fazer as coisas acontecerem é marca registrada de um verdadeiro líder. Um reparador de brechas e restaurador de veredas (Is 58.12). Ele não existe para realizar tudo sozinho; o verdadeiro líder é aquele que FAZ FAZER. Dizem que PASTOR faz PASTOR e, OVELHA, faz OVELHA. Dá gosto ver as sociedades internas de uma igreja trabalhando, com todo empenho e criatividade, afinadas com a liderança da igreja e cooperando umas com as outras, para o bem da obra. Um grupo que realiza, reforça o sentimento de PERTENCIMENTO, nos seus participantes.

 

Conclusão:

Finalmente,

Esses quatro movimentos estavam muito presentes na vida de Jesus, nosso supremo pastor e líder. Só alguns flashes, uma pequeníssima amostra:

  1. Poder legítimo: “que saia adiante deles”

“A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”( Mc 9.7; comp. At 2.22) 

  1. Poder de especialista: “e que entre adiante deles”

“Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina;  porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mt 7.28-29)

  1. Poder de mobilização: “e que os faça sair”

“Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas. Também os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos.” (Mt 9.1-2)

  1. Poder de realização: “e que os faça entrar”

“Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!” (Lc 10.17)

 

Como igreja, necessitamos de uma liderança sinérgica, que potencialize e canalize os recursos e talentos do grupo e os direcione para a edificação do grupo e para a glória de Deus.

“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Que assim Deus nos ajude!

Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria

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[1] Seja Líder de Si Mesmo – O Maior Desafio do Ser Humano (Augusto Cury [psiquiatra] – Sextante)

[2] Igreja: Visível ou Invisível; Militante ou Gloriosa; Local ou Universal


Catedral Presbiteriana do Rio
17/12/2006 – Culto Matutino (10h 15min) – Dia do Pastor
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

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Raabe e seu tempo de restauração

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Introdução:

Por mais que você esteja vivendo um daqueles momentos em que se diz “se melhorar estraga”, temos que admitir que esta nossa existência terrena é um tempo de aflição. Tudo parece ir bem, mas de repente uma demissão do emprego, um acidente trágico envolvendo um membro da família, um diagnóstico de câncer, uma fala inesperada do cônjuge “não dá mais, estou te deixando” etc, muda tudo. O apóstolo Paulo nos apresenta o contraponto entre o tempo presente e a glória futura: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.” (Rm 8.18). Quem é de Deus não pode fechar-se no seu mundinho, quando tudo está bem, desprezando todo o sofrimento ao seu redor. Também, não pode absorver todo o sofrimento alheio ao ponto de adoecer, de entrar em depressão. Deus é um Deus de restauração! Quem está em Cristo já experimentou essa ação transformadora do Espírito Santo, fazendo-nos novas criaturas, prontos para viver uma vida abundante. Ainda que venham as dificuldades, ele está conosco e nos sustenta. Mas, muito perto de nós, há pessoas que ainda precisam experimentar a verdadeira restauração que vem de Deus. Nem todos vão atender ao chamado de Deus, mas se alguém o fizer, já é alguma coisa. Raabe ilustra bem isso.

1. O CENÁRIO DA CALAMIDADE (Js 2.1-2)

Se você está preocupado em morar no bairro ou na rua onde está morando. Se você está preocupado e inseguro com o cenário nacional. Então, penetre um pouco no cenário de calamidade em que vivia Raabe.

a) Vida desprezível – mulher prostituta.

Ser mulher, naquela época, era algo extremamente desafiador. Não era contada no censo, não tinha direitos nem vontade própria. O pai ou o marido podiam interromper o voto que fizesse (Nm 30.3-8). Se isso ainda fora pouco, imaginem o desprezo de ser uma meretriz, uma mulher prostituta. Naquela época de raras oportunidades de trabalho para a mulher, algumas, em desespero, apelavam para essa forma de vida para não morrer de fome.

b) Destruição total iminente

Ela vivia em Jericó. A notícia de que um povo saíra do Egito de forma espantosa já havia chegado lá. Esse povo, ajudado por um Deus mais poderoso do que todos, estava varrendo todas as nações em seu caminho. Agora, estava às portas da sua terra para destruir tudo: cada homem, cada mulher, cada idoso, cada criança (Js 6.21).

Ponha-se no lugar dela. O que de pior ela podia esperar? É que os espias do povo inimigo e invasor escolhessem justamente sua casa, e seu rei fosse avisado disso. No pior momento da vida de uma pessoa, Deus pode transformar calamidade em oportunidade. Mas certamente isso irá depender da nossa reação, da nossa atitude, da nossa decisão naquela hora.

2. O CENÁRIO DA OPORTUNIDADE (Js 2.3-13)

Na verdade, a oportunidade bateu à porta da casa de Raabe. Não eram mais dois clientes para usufruírem dos seus serviços, propiciando recursos para sua subsistência por mais alguns dias. Antes, porém, eram dois agentes de oportunidade, com potencial para reverter o seu estado de calamidade, capazes de mudar completamente a história da sua vida e família. Os passos da restauração foram os seguintes:

a) Acolhimento (vv. 3-7)

Quando a oportunidade bate à nossa porta, é pegar ou largar. Nesta hora, o tempo não é um aliado, mas um carrasco. Quando se leva uma vidinha vazia de tudo, quando se chega ao fundo do poço, quando não se tem mais nada a perder, o melhor mesmo é agarrar a oportunidade com todas as forças. Em alguns minutos todo o seu passado, presente e futuro passou em sua mente e ela decidiu acolher aquela oportunidade; esconder e proteger os espias de Israel.

b) Fé (vv. 8-11)

Raabe não é lembrada ou mencionada na Bíblia por sua mentira aos enviados do seu rei, nem por ter exercido um alto cargo em Jericó ou Israel, mas por sua fé: “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias.” (Hb 11.31). Ou, segundo Tiago, por obras que comprovavam sua fé: “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? (Tg 2.25). Há muitas mulheres que desempenharam papel importante nas histórias narradas na Bíblia, mas que não foram contempladas com qualquer registro de algo que tenham falado. Entretanto, a fala de Raabe é registrada. Qual a visão que você tem de uma prostituta? Raabe é surpreendente nas confissões que faz:

  • Ela tinha convicção dos propósitos do Senhor: “Deus vos deu esta terra” (v.9). Talvez nem Josué tivesse tanta certeza disso.
  • Ela estava bem informada dos feitos do Senhor: ”Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.” (v. 10).
  • Ela fazia uma leitura correta do estado de espírito do seu povo: “…Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença;” (v. 11a)
  • Ela fez uma declaração extraordinária sobre quem era aquele Deus de Israel: porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” (v. 11b)

c) Clamor e Súplica (vv. 12-13)

Acolher, crer e confessar, depois suplicar são os passos que conduzem à restauração de uma vida. Raabe continua nos surpreendendo.

  • Ela é uma mulher de família; com pai, mãe, irmãos e irmãs.
  • Ela intercede por sua vida e pela casa do seu pai.
  • Ela pede um “sinal certo” de que seria atendida.

3. O CENÁRIO DO COMPROMETIMENTO (Js 2.14-22)

É notório verificar que Raabe, tão necessitada de restauração e ajuda, foi capaz de importar-se com a:

  • Preservação da sua família.
  • Preservação dos espias.
  • Preservação do trato ou juramento ou pacto.

Já li esta história muitas vezes, mas desta vez algo muito forte me chamou a atenção: Uma parte deveria preservar a outra e ambas deveriam cumprir o trato para que houvesse um final feliz para ambas as partes. Há aqui duas preciosas mensagens para cada crente e para a igreja de Cristo.

1ª) Igreja é corpo de Cristo e no corpo, cada membro precisa preservar o outro membro do corpo. O apóstolo Paulo nos convoca à reflexão e nos alerta: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos.” (Gl 5.13-15). Portanto, precisamos estar comprometidos com a preservação do corpo de Cristo.

2ª) Havia ali duas partes envolvidas e um trato. Ambas as partes deveriam se comprometer com o trato e cumpri-lo. Raabe deveria: não denunciar os espias, trazer sua família para dentro de sua casa e sinalizar sua casa. Os dois espias deveriam informar tal trato a Josué que juntamente com o exército de Israel deveriam poupar a casa sinalizada. Há em alguns elementos desta narrativa uma boa ilustração do pacto da Graça salvadora de Deus, em Cristo Jesus. Josué e os espias representam a parte divina; Raabe e sua família representam a parte humana. Josué representa Deus e os espias representam Jesus, o enviado de Deus e mediador da Nova Aliança. Tanto nesta ilustração da graça, como na do sacrifício oferecido por Abraão, Isaque e os espias foram poupados, porque o que estava na pauta divina era o teste da fé de Abraão e de Raabe. Raabe representa os remidos do Senhor, alcançados pela graça e misericórdia de Deus. A família de Raabe representa aqueles são abençoados nesta vida pela proximidade e convívio com os remidos do Senhor, embora isso não lhes garanta a vida eterna. O cordão de fio escarlata amarrado à janela (Js 2.18) tem o mesmo simbolismo do sangue do cordeiro aplicado nas “ombreiras e verga da porta” da casa de cada israelita, quando da saída do Egito (Ex 12.7); representa o sangue de Cristo vertido na Cruz, o único meio de aplacar a ira divina contra o pecador. Jericó representa o mundo ímpio e pecador a ser totalmente destruído no dia do juízo: “Porém a cidade será condenada, ela e tudo quanto nela houver; somente viverá Raabe, a prostituta, e todos os que estiverem com ela em casa, porquanto escondeu os mensageiros que enviamos.” (Js 6.17). O trato representa o pacto da graça. Para ser poupado era indispensável estar dentro do lugar designado e sinalizado. Na graça, este lugar não é físico. Não é um templo com uma cruz no topo da sua fachada (simbolizando a casa de Raabe e o cordão escarlata). Não é o rol de membros de uma igreja local. Antes, porém, é o lugar da obediência ao pacto da graça, da resposta positiva, pela fé, ao chamado divino (Jo 1.12-13).

Conclusão:

É motivador constatar que a restauração:

a) Conduz a uma nova vida, digna e abundante: “Mas Josué conservou com vida a prostituta Raabe, e a casa de seu pai, e tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje, porquanto escondera os mensageiros que Josué enviara a espiar Jericó.” (Js 6.25).

“Somos propensos, muitas vezes, a pensar que Deus, para ser justo, deve restringir sua oferta de salvação apenas às pessoas moralmente dignas. Mas a mensagem bíblica, revelada tanto no Antigo Testamento como no Novo, é que a oferta de salvação é extensiva a todos os pecadores. São de Cristo as palavras: ‘Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento’ (Lc 5.31 e 32). Em Isaías 1.18 é apresentado o convite: ‘Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.’” (Alberto R. Timm)

b) Pode nos surpreender com privilégios inimagináveis, como o de Raabe ter sido inserida na genealogia de Jesus. (Mt 1.5)

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