Restauração, Solidariedade e Responsabilidade

(Gálatas 6.1-5)

Introdução

A epístola de Paulo aos gálatas foi destinadas “às igrejas da Galácia” (Gl 1.2), portanto, às igrejas de uma região da Ásia Menor, atualmente território da Turquia. Segundo a teoria mais aceita estavam em vista as igrejas de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, cidades que aparecem na primeira viagem missionária de Paulo (Atos 13 e 14).

Já na introdução, o apóstolo Paulo defende a autenticidade e autoridade do seu chamado e apostolado, da parte de Jesus Cristo e de Deus Pai, e não de homens (Gl 1.1). E, não para por aí. Ele investe boa parte da epístola (Gl 1.10-24) para expressar e enfatizar sua autoridade apostólica, descrevendo sua autobiografia, bem como a autenticidade e autoridade do evangelho por ele anunciado, que não era segundo os homens, “mas mediante revelação de Jesus Cristo”.  Ele acrescenta – “não consultei carne e sangue” (Gl 1.16) – isto é, os demais apóstolos, pois aprouve a Deus revelar-lhe o seu Filho. Além disso, afirma que, catorze anos depois, subiu a Jerusalém, ali expondo à igreja o evangelho que pregava aos gentios (“o evangelho da incircuncisão”)(Gl 2.7), obtendo, assim, a aprovação da igreja e de seus líderes principais – Tiago, Cefas (Pedro) e João – que lhe estenderam a destra de comunhão (Gl 2.1-10). Essa sua autoridade foi também reconhecida quando repreendeu a Pedro, porque este se tornara repreensível (Gl 2.11-20).  

Todo esse esforço de Paulo tinha uma razão de ser. Logo após sua saudação ele faz uma repreensão: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho,” (Gl 1.6). Ele expressa sua surpresa ou perplexidade de estarem dando ouvidos aos judaizantes e legalistas, que os estavam conduzindo de volta à lei, à salvação pelas obras e a necessidade da circuncisão, abandonando, assim, a salvação pela graça (Gl 5.12). Depois de cerca de 1500 anos sob a lei mosaica era difícil, para muitos, descolar-se dela. Daí a insistência dos legalistas em influenciar os gentios cristãos. Muitos dos judaizantes eram cristãos professos, isto é, pessoas que criam que Jesus era o Messias. Entretanto, eles acrescentavam à fé em Cristo a obrigatoriedade da observância da Lei de Moisés como condição para a salvação ou para a plena aceitação por Deus. Foi exatamente esse acréscimo que Paulo combateu vigorosamente, especialmente em Gálatas.

Portanto, diante de tais circunstâncias, o apóstolo foi usado por Deus para combater tal desvio, fazendo uma importante defesa e exposição da doutrina da justificação somente pela fé em Cristo (Gl 2.15 a 4.31). A expressão “o justo viverá pela fé” (Gl 3.11) foi resgatada pelo apóstolo de Habacuque 2.4, também mencionada em Romanos 1.17 e fortemente enfatizada na Reforma Protestante.

No início do capítulo 5 (vv. 1-12) e no final do capítulo 6 (vv. 11-18), o apóstolo procura mostrar que a liberdade cristã é incompatível com a submissão ao jugo da escravidão da lei: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gl 5.6).

Ao abordar a liberdade em Cristo Paulo julgou necessário advertir sobre limites, sobre não dar lugar a carne (ao pecado), sobre a preservação mútua pela prática sincera do amor ao próximo (Gl 5.13-15). E, no final do capítulo 5 (vv. 16-26) encontramos um belo ensino sobre andar no Espírito, ser guiado pelo Espírito, manifestando o fruto do Espírito que se opõe às obras da carne.

Enfim, sobre o valor desta epístola vale registrar o pronunciamento de Robert Lee:
“Esta epístola tem feito mais do que qualquer outro livro do Novo Testamento, pela emancipação dos cristãos do judaísmo, romanismo, ritualismo e toda a forma de exterioridade que tem ameaçado a liberdade e a espiritualidade do Evangelho”[1]

1. RESTAURAÇÃO

Depois de advertir os seus leitores sobre os limites da liberdade cristã, sobre a luta entre a carne e o Espírito, de admoestá-los a se colocarem na posição de servos uns dos outros, em amor, andando e vivendo no Espírito para não dar lugar às obras da carne (Gl 5.13-26), Paulo, em Gálatas 6.1-5,  ensina a maneira como os cristãos devem lidar com o pecado, a fraqueza, as demandas e as responsabilidades uns dos outros. Enfim, após ensinar sobre o fruto do Espírito, ele mostra como esse fruto deve se manifestar no relacionamento entre os irmãos, na comunidade de fé.

Paulo combateu, ao longo de toda a carta, o legalismo dos judaizantes, que ensinavam que a salvação dependia da observância da Lei de Moisés. Em contraste, ele afirma que o cristão vive pela fé e é guiado pelo Espírito Santo. No final do capítulo 5, ele adverte: “Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros.” (Gl 5.26). É exatamente nestes cinco primeiros versículos do capítulo 6 que ele procura orientar e corrigir certas situações e atitudes, para o bem e  preservação do relacionamento e testemunho cristão.

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.” (Gl 6.1)

A expressão “surpreendido” sugere alguém que foi apanhado cometendo um pecado (“com a boca na botija”). Não descreve necessariamente uma rebelião deliberada, mas uma queda da qual a pessoa precisa ser restaurada.

A palavra grega traduzida por “falta” (gr. paráptōma) significa transgressão, desvio ou tropeço. O salvo por Cristo é liberto da pena ou condenação do pecado (Rm 8.1), do poder do pecado (Rm 6.14), mas, não da presença do pecado enquanto estiver neste corpo. Portanto, mesmo os crentes podem pecar. O pecado na igreja exige intervenção e não omissão. Disciplina é um assunto muito sensível, às vezes, mal compreendido e, muitas vezes, negligenciado. Não temos a intenção de aprofundar o assunto aqui, mas expressar que, em linhas gerais, o princípio bíblico mostra que a disciplina deve ser aplicada de maneira proporcional, conforme a natureza da falta, sua publicidade, sua gravidade e a resposta do faltoso. Não existe um único procedimento para todos os casos. A disciplina deve começar, sempre que possível, de forma pessoal e reservada; entretanto, quando o pecado é público, a disciplina também pode ser pública.

É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis:  preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa[2].

👉A disciplina preventiva é aquela que se esforça para ensinar os referenciais bíblicos, portanto seguros e confiáveis, de conduta e comportamento, de modo que o crente tenha onde se ancorar. Isso é feito através da ministração da Palavra de Deus e de bons exemplos de vida dos líderes. O apóstolo Paulo se ocupava e se empenhava diuturnamente nessa lida, diante de tantas igrejas emergentes. Esse precisa ser um trabalho contínuo com vistas a construir alicerces inabaláveis de princípios e padrões morais e espirituais, na tentativa de prevenir a prática do pecado.

👉A disciplina corretiva se impõe como necessária quando a prática do pecado é verificada. No ensino do Senhor Jesus Cristo, em Mateus 18.15-20, ela pode e deve ser exercida de forma equilibrada e curativa, respeitando-se três estágios de poder de persuasão crescentes e progressivos: 1º)O ofendido e o ofensor; 2º)O ofendido, algumas testemunhas e o ofensor; 3º)a Igreja e o ofensor.

👉A disciplina cirúrgica ablativa é o nível extremo e, portanto, a mais traumática e se impõe quando todas as tentativas anteriores não surtiram efeito e o infrator mantém-se impenitente. O termo “cirúrgico ablativo” se aplica pela similaridade figurada entre se extirpar do corpo humano um tumor e se desligar do corpo de Cristo, a Igreja, um membro que se recusa a arrepender-se e a deixar o pecado. A responsabilidade de julgar, disciplinar, cassar privilégios e excluir do rol de membros é prerrogativa da igreja ou de sua liderança formalmente constituída e por delegação desta, fundamentado nas Escrituras e na autoridade delegada pelo Senhor e cabeça da Igreja (Mt 18.17-20).

“Vós, que sois espirituais”. Quem são esses? Não são uma elite espiritual, mas os cristãos que vivem sob a direção do Espírito (Gl 5.16-25), manifestando o fruto do Espírito. Em 1Coríntios 3.1-3 Paulo faz certa distinção entre crentes espirituais e crentes carnais. Os cristãos carnais são como crianças espirituais, não se desenvolveram rumo a maturidade da fé, ainda andam segundo o homem e não segundo o Espírito. Quem corrige deve fazê-lo porque é maduro na fé, e não porque se considera superior.

“Corrigi-o”. O verbo grego (katartízō) era usado em várias situações, tais como:
– Colocar um osso quebrado no lugar.
– Consertar uma rede de pesca.
– Restaurar algo danificado.
A ideia principal não é condenar e punir, mas restaurar. O objetivo da disciplina cristã é devolver o irmão à comunhão com Deus e com a igreja.

“Com espírito de brandura”. A maneira de abordar é tão importante quanto o objetivo a ser alcançado. Brandura (gr. praýtēs) é uma das manifestações do fruto do Espírito – mansidão (Gl 5.23). Corrigir com brandura não significa relativizar o pecado, mas agir com humildade, paciência e amor.

“Guarda-te para que não sejas também tentado”. Quem corrige deve lembrar que também é vulnerável, sujeito a pecar. Esse alerta é contra o orgulho espiritual. O restaurador deve agir com vigilância, consciente de que poderia cair na mesma tentação.

Costuma-se citar em sermões que: “Uma igreja sem disciplina, morre; mas, com excesso de disciplina, mata.” Embora a autoria seja desconhecida, o pensamento expressa um princípio bíblico bastante equilibrado: A ausência de disciplina leva à tolerância do pecado, à perda da santidade e ao enfraquecimento do testemunho da igreja (1Co 5.6-7; Ap 2–3). Por outro lado, uma disciplina aplicada sem graça, misericórdia e propósito restaurador pode destruir pessoas espiritualmente. Paulo advertiu os coríntios que, após a disciplina produzir arrependimento, o faltoso deveria ser perdoado e consolado, “para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza” (2Co 2.6-8). Assim, a frase resume bem o equilíbrio entre verdade e graça, justiça e misericórdia, firmeza e restauração.

2. SOLIDARIEDADE

“Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6.2)

Cargas” (gr. barē) refere-se a pesos difíceis de suportar: sofrimentos, dificuldades, situações extremas, fraquezas e lutas. A igreja não é um conjunto de pessoas isoladas, mas um corpo em que os membros cuidam uns dos outros.

Levar as cargas inclui aconselhar, consolar, orar, ajudar materialmente, apoiar emocionalmente e restaurar quem caiu.

“Assim cumprireis a lei de Cristo”. A “lei de Cristo” é o mandamento do amor – “Novo mandamento vos dou…” (Jo 13.34; Gl 5.14). Quando ajudamos um irmão a carregar seu peso, estamos obedecendo ao Senhor.

“Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.” (Gl 6.3)

O maior obstáculo para ajudar alguém é a arrogância. Quem pensa ser superior acaba olhando o irmão de cima para baixo. Paulo lembra que toda graça vem de Deus. Não há espaço para vanglória.

“Mas prove cada um o seu labor e, então, terá motivo de gloriar-se unicamente em si e não em outro.” (Gl 6.4)

Antes de comparar sua vida com a dos outros, cada cristão deve examinar a si mesmo. O padrão não é o irmão ao lado, mas Deus. Essa avaliação pessoal evita dois extremos: orgulho e inveja.

3. RESPONSABILIDADE PESSOAL

“Porque cada um levará o seu próprio fardo.” (Gl 6.5)

À primeira vista, parece haver aqui uma contradição com o que foi dito no versículo 2. Mas Paulo usa duas palavras gregas diferentes.

– No versículo 2, “cargas” é barē, indicando pesos excessivos que uma pessoa dificilmente consegue carregar sozinha.
– No versículo 5, “fardo” é phortíon, termo usado para uma carga pessoal, como a mochila de um viajante.

O sentido é:
– Há responsabilidades que podemos compartilhar.
– Há responsabilidades que ninguém pode assumir por nós.

Cada cristão responderá diante de Deus por sua própria vida.

Esses dois versículos ensinam duas verdades complementares.
⊳ Devemos ajudar os irmãos quando enfrentam situações que os sobrecarregam (v. 2).
⊳ Ao mesmo tempo, cada cristão deve assumir sua responsabilidade pessoal diante de Deus (v. 5).

Em outras palavras:
– A igreja pratica solidariedade.
– O indivíduo pratica responsabilidade.

4. APLICAÇÕES PRÁTICAS

1ª) A disciplina cristã visa restaurar
O objetivo nunca é humilhar ou destruir, mas recuperar o irmão faltoso.

2ª) A ação de restaurar exige maturidade espiritual
Nem todo cristão está preparado para corrigir outro. É necessário amor, sabedoria, humildade e equilíbrio.

3ª) A humildade resguarda quem corrige
Quem hoje restaura poderá amanhã precisar ser restaurado.

4ª) A igreja deve ser uma comunidade de apoio
Cristãos não caminham sozinhos, carregam juntos os pesos da vida.

5ª) Cada crente é responsável diante de Deus
A ajuda da igreja nunca elimina a responsabilidade pessoal.

Conclusão

Nestes poucos versículos temos ensinamentos equilibrados e úteis para a convivência como igreja. A comunidade cristã não deve ignorar o pecado nem tratar o faltoso com dureza impiedosa. Pelo contrário, aqueles que andam no Espírito são chamados a restaurar o irmão caído com mansidão, conscientes de sua própria fragilidade. Ao mesmo tempo, os membros da igreja devem compartilhar as cargas, uns dos outros, em amor, sem perder de vista que cada pessoa prestará contas a Deus por sua própria vida.

Assim, Paulo harmoniza três princípios essenciais da vida cristã: restauração, solidariedade e responsabilidade pessoal. Esse é o espírito da verdadeira disciplina cristã, que busca refletir o caráter de Cristo: firme na verdade, humilde na atitude e amorosa no propósito.

Que Deus nos ajude!


[1] A Bíblia em Esboço – 6ª Edição – 1994.
[2] CIRURGIA ABLATIVA:  Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.

Raabe e seu tempo de restauração

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Introdução:

Por mais que você esteja vivendo um daqueles momentos em que se diz “se melhorar estraga”, temos que admitir que esta nossa existência terrena é um tempo de aflição. Tudo parece ir bem, mas de repente uma demissão do emprego, um acidente trágico envolvendo um membro da família, um diagnóstico de câncer, uma fala inesperada do cônjuge “não dá mais, estou te deixando” etc, muda tudo. O apóstolo Paulo nos apresenta o contraponto entre o tempo presente e a glória futura: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.” (Rm 8.18). Quem é de Deus não pode fechar-se no seu mundinho, quando tudo está bem, desprezando todo o sofrimento ao seu redor. Também, não pode absorver todo o sofrimento alheio ao ponto de adoecer, de entrar em depressão. Deus é um Deus de restauração! Quem está em Cristo já experimentou essa ação transformadora do Espírito Santo, fazendo-nos novas criaturas, prontos para viver uma vida abundante. Ainda que venham as dificuldades, ele está conosco e nos sustenta. Mas, muito perto de nós, há pessoas que ainda precisam experimentar a verdadeira restauração que vem de Deus. Nem todos vão atender ao chamado de Deus, mas se alguém o fizer, já é alguma coisa. Raabe ilustra bem isso.

1. O CENÁRIO DA CALAMIDADE (Js 2.1-2)

Se você está preocupado em morar no bairro ou na rua onde está morando. Se você está preocupado e inseguro com o cenário nacional. Então, penetre um pouco no cenário de calamidade em que vivia Raabe.

a) Vida desprezível – mulher prostituta.

Ser mulher, naquela época, era algo extremamente desafiador. Não era contada no censo, não tinha direitos nem vontade própria. O pai ou o marido podiam interromper o voto que fizesse (Nm 30.3-8). Se isso ainda fora pouco, imaginem o desprezo de ser uma meretriz, uma mulher prostituta. Naquela época de raras oportunidades de trabalho para a mulher, algumas, em desespero, apelavam para essa forma de vida para não morrer de fome.

b) Destruição total iminente

Ela vivia em Jericó. A notícia de que um povo saíra do Egito de forma espantosa já havia chegado lá. Esse povo, ajudado por um Deus mais poderoso do que todos, estava varrendo todas as nações em seu caminho. Agora, estava às portas da sua terra para destruir tudo: cada homem, cada mulher, cada idoso, cada criança (Js 6.21).

Ponha-se no lugar dela. O que de pior ela podia esperar? É que os espias do povo inimigo e invasor escolhessem justamente sua casa, e seu rei fosse avisado disso. No pior momento da vida de uma pessoa, Deus pode transformar calamidade em oportunidade. Mas certamente isso irá depender da nossa reação, da nossa atitude, da nossa decisão naquela hora.

2. O CENÁRIO DA OPORTUNIDADE (Js 2.3-13)

Na verdade, a oportunidade bateu à porta da casa de Raabe. Não eram mais dois clientes para usufruírem dos seus serviços, propiciando recursos para sua subsistência por mais alguns dias. Antes, porém, eram dois agentes de oportunidade, com potencial para reverter o seu estado de calamidade, capazes de mudar completamente a história da sua vida e família. Os passos da restauração foram os seguintes:

a) Acolhimento (vv. 3-7)

Quando a oportunidade bate à nossa porta, é pegar ou largar. Nesta hora, o tempo não é um aliado, mas um carrasco. Quando se leva uma vidinha vazia de tudo, quando se chega ao fundo do poço, quando não se tem mais nada a perder, o melhor mesmo é agarrar a oportunidade com todas as forças. Em alguns minutos todo o seu passado, presente e futuro passou em sua mente e ela decidiu acolher aquela oportunidade; esconder e proteger os espias de Israel.

b) Fé (vv. 8-11)

Raabe não é lembrada ou mencionada na Bíblia por sua mentira aos enviados do seu rei, nem por ter exercido um alto cargo em Jericó ou Israel, mas por sua fé: “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias.” (Hb 11.31). Ou, segundo Tiago, por obras que comprovavam sua fé: “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? (Tg 2.25). Há muitas mulheres que desempenharam papel importante nas histórias narradas na Bíblia, mas que não foram contempladas com qualquer registro de algo que tenham falado. Entretanto, a fala de Raabe é registrada. Qual a visão que você tem de uma prostituta? Raabe é surpreendente nas confissões que faz:

  • Ela tinha convicção dos propósitos do Senhor: “Deus vos deu esta terra” (v.9). Talvez nem Josué tivesse tanta certeza disso.
  • Ela estava bem informada dos feitos do Senhor: ”Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.” (v. 10).
  • Ela fazia uma leitura correta do estado de espírito do seu povo: “…Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença;” (v. 11a)
  • Ela fez uma declaração extraordinária sobre quem era aquele Deus de Israel: porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” (v. 11b)

c) Clamor e Súplica (vv. 12-13)

Acolher, crer e confessar, depois suplicar são os passos que conduzem à restauração de uma vida. Raabe continua nos surpreendendo.

  • Ela é uma mulher de família; com pai, mãe, irmãos e irmãs.
  • Ela intercede por sua vida e pela casa do seu pai.
  • Ela pede um “sinal certo” de que seria atendida.

3. O CENÁRIO DO COMPROMETIMENTO (Js 2.14-22)

É notório verificar que Raabe, tão necessitada de restauração e ajuda, foi capaz de importar-se com a:

  • Preservação da sua família.
  • Preservação dos espias.
  • Preservação do trato ou juramento ou pacto.

Já li esta história muitas vezes, mas desta vez algo muito forte me chamou a atenção: Uma parte deveria preservar a outra e ambas deveriam cumprir o trato para que houvesse um final feliz para ambas as partes. Há aqui duas preciosas mensagens para cada crente e para a igreja de Cristo.

1ª) Igreja é corpo de Cristo e no corpo, cada membro precisa preservar o outro membro do corpo. O apóstolo Paulo nos convoca à reflexão e nos alerta: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos.” (Gl 5.13-15). Portanto, precisamos estar comprometidos com a preservação do corpo de Cristo.

2ª) Havia ali duas partes envolvidas e um trato. Ambas as partes deveriam se comprometer com o trato e cumpri-lo. Raabe deveria: não denunciar os espias, trazer sua família para dentro de sua casa e sinalizar sua casa. Os dois espias deveriam informar tal trato a Josué que juntamente com o exército de Israel deveriam poupar a casa sinalizada.

Assim como no quase sacrifício de Isaque (Gn 22) e na libertação do povo de Israel da escravidão do Egito (Êx 12), há em alguns elementos desta narrativa uma boa ilustração do pacto da Graça salvadora de Deus, em Cristo Jesus. Josué e os espias representam a parte divina; Raabe e sua família representam a parte humana. Josué representa Deus e os espias representam Jesus, o enviado de Deus e mediador da Nova Aliança. Tanto nesta ilustração da graça, como na do sacrifício oferecido por Abraão, Isaque e os espias foram poupados, porque o que estava na pauta divina era o teste da fé de Abraão e de Raabe. Raabe representa os remidos do Senhor, alcançados pela graça e misericórdia de Deus. A família de Raabe representa aqueles são abençoados nesta vida pela proximidade e convívio com os remidos do Senhor, embora isso não lhes garanta a vida eterna; ou, aqueles que, assim como Raabe, também creram e obedeceram às condições estabelecidas pelos espias e foram salvos. O cordão de fio escarlata amarrado à janela (Js 2.18) tem o mesmo simbolismo do sangue do cordeiro aplicado nas “ombreiras e verga da porta” da casa de cada israelita, quando da saída do Egito (Êx 12.7); representa o sangue de Cristo vertido na Cruz, o único meio de aplacar a ira divina contra o pecador. Jericó representa o mundo ímpio e pecador a ser totalmente destruído no dia do juízo: “Porém a cidade será condenada, ela e tudo quanto nela houver; somente viverá Raabe, a prostituta, e todos os que estiverem com ela em casa, porquanto escondeu os mensageiros que enviamos.” (Js 6.17). O trato representa o pacto da graça. Para ser poupado era indispensável estar dentro do lugar designado e sinalizado. Na graça, este lugar não é físico. Não é um templo com uma cruz no topo da sua fachada (simbolizando a casa de Raabe e o cordão escarlata). Não é o rol de membros de uma igreja local. Antes, porém, é o lugar da obediência ao pacto da graça, da resposta positiva, pela fé, ao chamado divino (Jo 1.12-13).

Conclusão:

É motivador constatar que a restauração:

a) Conduz a uma nova vida, digna e abundante: “Mas Josué conservou com vida a prostituta Raabe, e a casa de seu pai, e tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje, porquanto escondera os mensageiros que Josué enviara a espiar Jericó.” (Js 6.25).

“Somos propensos, muitas vezes, a pensar que Deus, para ser justo, deve restringir sua oferta de salvação apenas às pessoas moralmente dignas. Mas a mensagem bíblica, revelada tanto no Antigo Testamento como no Novo, é que a oferta de salvação é extensiva a todos os pecadores. São de Cristo as palavras: ‘Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento’ (Lc 5.31 e 32). Em Isaías 1.18 é apresentado o convite: ‘Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.’” (Alberto R. Timm)

b) Pode nos surpreender com privilégios inimagináveis, como o de Raabe ter sido inserida na genealogia de Jesus. (Mt 1.5)

As dez portas de Jerusalém

As dez portas

As dez portas mencionadas em Neemias 3, quando da restauração dos muros de Jerusalém, nos sugerem as seguintes mensagens, com a devida licença teológica:

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1. A Porta das Ovelhas:

Esta porta ficava nas proximidades do templo e do tanque de Betesda (Jo 5.2). Foi a primeira mencionada em Neemias 3.1 e simbolicamente é a mais importante. Ela nos remete a Jesus:

“Jesus, pois, lhes afirmou de novo: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas.” (Jo 10.7).  Ele é o Cordeiro de Deus, o autor da salvação. “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem.” (Jo 10.9).

Sua mensagem: Restauração da nova vida em Cristo.

É um retorno ao início de tudo, ao primeiro amor.

2. A Porta do Peixe:

Esta porta se refere a peixes e por extensão a pescadores. Jesus começou seu ministério chamando pescadores e lhes propôs fazê-los “pescadores de homens”: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4.19)

Sua mensagem: Restauração de uma vida de testemunho.

Fala de reprodução e crescimento através do serviço mais sublime de ganhar almas para Cristo. É o resgate do IDE de Jesus – “Ir Diariamente Evangelizando”. É testemunhar o que Cristo fez em mim e quer fazer em você.

Evangelização é ordem do Senhor Jesus; Missão da Igreja; Privilégio e dever do cristão; a necessidade de cada criatura humana ainda não alcançada.

3. A Porta Velha:

…Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para a vossa alma;…” (Jr 6.16).

O Senhor Jesus disse: “Eu sou o caminho …”. O caminho apertado que começa lá cruz, mas que foi construído desde os céus, passando pelas páginas proféticas do Antigo Testamento.

Sua mensagem: Restauração e retomada do velho, mas sempre “novo e vivo caminho” (Hb 10.20).

O caminho trilhado pelos antigos profetas e apóstolos e por todos os que tomaram a decisão de viver sob a graça de Deus.

4. A Porta do Vale:

Esta porta, situada no lado sul do muro, dava acesso ao Vale de Hinom. Vale, nos remete a provação, angústia e dificuldade. A Bíblia diz:

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; …” (Sl 23.4).

Sua mensagem: Restauração da fé e confiança em Deus que há de nos sustentar nos momentos mais difíceis da caminhada.

A caminhada do cristão não é feita só de gozo e facilidades. Entretanto, as turbulências da vida, a sombra da morte, não trazem temor ao cristão, pois ali sempre haverá uma porta de escape; para o refúgio providenciado por Deus para os seus remidos ou para a Jerusalém celestial, se o Senhor o chamar.

5. A Porta do Monturo:

Monturo é lugar de despejo de lixo e imundícies. Tanto a Porta do Vale, quanto a do Monturo, ficavam na parte sul do muro. Ambas davam acesso ao vale de Hinom, lugar em que inicialmente os idólatras sacrificavam seus filhos a moloque. O lugar foi contaminado pelo rei Josias e se tornou emblema de pecado e maldição. Ali o fogo ardia continuamente sobre o lixo, dando origem a palavra Geena, o lugar dos castigos eternos. A Bíblia diz:

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Sua mensagem: Restauração da comunhão com Deus após os eventuais tropeços e escorregadelas da caminhada.

Toda a contaminação do pecado durante a caminhada deve ser lançada pela porta do monturo. O sangue de Cristo nos purifica de todo o pecado.

6. A Porta da Fonte:

Esta porta estava situada no lado leste do muro e sugere a presença de uma fonte ali. A Bíblia diz:

Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.” (Jo 7.38).

Sua mensagem: Restauração da unção do Espírito Santo em nossa vida.

O Espírito Santo faz habitação no crente e realiza neste o novo nascimento e conversão (Jo 3.5). Entretanto, ao longo da caminhada ele pode ser colocado de lado e sua atuação fica sufocada. Ele precisa encher-nos outra vez, pois precisamos de sua plenitude e dos seus dons para uma caminhada com autoridade espiritual.

7. A Porta das Águas:

Estava situada no mesmo lado da Porta da Fonte, contígua a esta. A Bíblia diz:

Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3).

Sua mensagem: Restauração da santidade de vida pela assimilação e prática das Escrituras.

A Palavra de Deus nos lava a cada contato com ela, como faz a água (Ef 5.26). Ela nos aproxima de Deus e revela a sua boa, agradável e perfeita vontade (Rm 12.2). Ela também nos ilumina, guia e instrui pelo caminho que devemos andar, para não pecarmos contra Deus. Assim como a água é necessária e indispensável, para o corpo e para a vida, a Palavra de Deus é essencial para a preservação da vida espiritual.

8. A Porta dos Cavalos:

Os cavalos eram usados pelos soldados na guerra e em muitos serviços do cotidiano dos seus donos. O crente é salvo para servir sempre e de forma incondicional ao seu Senhor. Jesus disse aos seus discípulos, após lavar-lhes os pés:

Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.” (Jo 13.15).

Sua mensagem: Restauração da entrega incondicional ao serviço do Senhor.

Nossa oração deve ser: Usa-me Senhor Jesus, como usastes aquele simples e humilde jumentinho na tua entrada triunfal em Jerusalém. E, assim, através do serviço prestado a ti, nesta minha curta caminhada terrena, seja exaltado e glorificado o teu nome.

9. A Porta Oriental:

Como o nome sugere, esta porta ficava no lado leste do muro e do lado leste do Templo. Era o acesso principal ao Templo. Ficava do lado do nascer do sol, que desde o horizonte se projetava sobre o templo. Tal imagem e figura tornam-se ricas em simbolismos escatológicos.

“Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas;” (Ml 4.2a).

Sua mensagem: Restauração do Reino do Senhor Jesus sobre a terra.

Aquele que lança os seus primeiros raios sobre o templo prefigura o Senhor Jesus, o sol da justiça, que estenderá sobre toda a terra o seu governo e justiça, quando do seu reino milenar. O crente espera pelo raiar desse dia, quando o Senhor Jesus voltará para levá-lo consigo. “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa;” (Os 6.3a).

10. A Porta da Guarda (Mifcade):

Finalmente, temos a Porta da Guarda ou Mifcade. Alguns a interpretam como porta de acesso a lugar de revista de tropas ou inspeção; outros, a acesso a lugar de julgamento. Isso nos remete à ideia de prestação de contas. Portanto, esta última porta traz a mensagem do que devemos guardar e, também, daquilo que Deus tem guardado para nós. A Bíblia diz:

“Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.” (Ap 3.3)

Enquanto aguardamos a Segunda Vinda de Cristo, somos alertados neste último livro da Bíblia, a preservarmos tudo o que Deus nos tem revelado. Nada disso pode ser comparado e trocado pelos prazeres efêmeros ou propostas do presente século. Por outro lado, o Senhor há de recompensar os que permanecerem fiéis, dedicando-se a realizar a sua vontade, conforme sua promessa:

“E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras.” (Ap 22.12)

Sua mensagem: Restauração da esperança nas promessas do Senhor.

Esperança que conduz a guardar-se da contaminação do mundo e a guardar, com todo o cuidado e zelo, o tesouro da revelação de Deus. Para estes o Senhor tem guardado o seu galardão.

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