
(Gálatas 6.1-5)
Introdução
A epístola de Paulo aos gálatas foi destinadas “às igrejas da Galácia” (Gl 1.2), portanto, às igrejas de uma região da Ásia Menor, atualmente território da Turquia. Segundo a teoria mais aceita estavam em vista as igrejas de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, cidades que aparecem na primeira viagem missionária de Paulo (Atos 13 e 14).
Já na introdução, o apóstolo Paulo defende a autenticidade e autoridade do seu chamado e apostolado, da parte de Jesus Cristo e de Deus Pai, e não de homens (Gl 1.1). E, não para por aí. Ele investe boa parte da epístola (Gl 1.10-24) para expressar e enfatizar sua autoridade apostólica, descrevendo sua autobiografia, bem como a autenticidade e autoridade do evangelho por ele anunciado, que não era segundo os homens, “mas mediante revelação de Jesus Cristo”. Ele acrescenta – “não consultei carne e sangue” (Gl 1.16) – isto é, os demais apóstolos, pois aprouve a Deus revelar-lhe o seu Filho. Além disso, afirma que, catorze anos depois, subiu a Jerusalém, ali expondo à igreja o evangelho que pregava aos gentios (“o evangelho da incircuncisão”)(Gl 2.7), obtendo, assim, a aprovação da igreja e de seus líderes principais – Tiago, Cefas (Pedro) e João – que lhe estenderam a destra de comunhão (Gl 2.1-10). Essa sua autoridade foi também reconhecida quando repreendeu a Pedro, porque este se tornara repreensível (Gl 2.11-20).
Todo esse esforço de Paulo tinha uma razão de ser. Logo após sua saudação ele faz uma repreensão: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho,” (Gl 1.6). Ele expressa sua surpresa ou perplexidade de estarem dando ouvidos aos judaizantes e legalistas, que os estavam conduzindo de volta à lei, à salvação pelas obras e a necessidade da circuncisão, abandonando, assim, a salvação pela graça (Gl 5.12). Depois de cerca de 1500 anos sob a lei mosaica era difícil, para muitos, descolar-se dela. Daí a insistência dos legalistas em influenciar os gentios cristãos. Muitos dos judaizantes eram cristãos professos, isto é, pessoas que criam que Jesus era o Messias. Entretanto, eles acrescentavam à fé em Cristo a obrigatoriedade da observância da Lei de Moisés como condição para a salvação ou para a plena aceitação por Deus. Foi exatamente esse acréscimo que Paulo combateu vigorosamente, especialmente em Gálatas.
Portanto, diante de tais circunstâncias, o apóstolo foi usado por Deus para combater tal desvio, fazendo uma importante defesa e exposição da doutrina da justificação somente pela fé em Cristo (Gl 2.15 a 4.31). A expressão “o justo viverá pela fé” (Gl 3.11) foi resgatada pelo apóstolo de Habacuque 2.4, também mencionada em Romanos 1.17 e fortemente enfatizada na Reforma Protestante.
No início do capítulo 5 (vv. 1-12) e no final do capítulo 6 (vv. 11-18), o apóstolo procura mostrar que a liberdade cristã é incompatível com a submissão ao jugo da escravidão da lei: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gl 5.6).
Ao abordar a liberdade em Cristo Paulo julgou necessário advertir sobre limites, sobre não dar lugar a carne (ao pecado), sobre a preservação mútua pela prática sincera do amor ao próximo (Gl 5.13-15). E, no final do capítulo 5 (vv. 16-26) encontramos um belo ensino sobre andar no Espírito, ser guiado pelo Espírito, manifestando o fruto do Espírito que se opõe às obras da carne.
Enfim, sobre o valor desta epístola vale registrar o pronunciamento de Robert Lee:
“Esta epístola tem feito mais do que qualquer outro livro do Novo Testamento, pela emancipação dos cristãos do judaísmo, romanismo, ritualismo e toda a forma de exterioridade que tem ameaçado a liberdade e a espiritualidade do Evangelho”[1]
1. RESTAURAÇÃO
Depois de advertir os seus leitores sobre os limites da liberdade cristã, sobre a luta entre a carne e o Espírito, de admoestá-los a se colocarem na posição de servos uns dos outros, em amor, andando e vivendo no Espírito para não dar lugar às obras da carne (Gl 5.13-26), Paulo, em Gálatas 6.1-5, ensina a maneira como os cristãos devem lidar com o pecado, a fraqueza, as demandas e as responsabilidades uns dos outros. Enfim, após ensinar sobre o fruto do Espírito, ele mostra como esse fruto deve se manifestar no relacionamento entre os irmãos, na comunidade de fé.
Paulo combateu, ao longo de toda a carta, o legalismo dos judaizantes, que ensinavam que a salvação dependia da observância da Lei de Moisés. Em contraste, ele afirma que o cristão vive pela fé e é guiado pelo Espírito Santo. No final do capítulo 5, ele adverte: “Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros.” (Gl 5.26). É exatamente nestes cinco primeiros versículos do capítulo 6 que ele procura orientar e corrigir certas situações e atitudes, para o bem e preservação do relacionamento e testemunho cristão.
“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.” (Gl 6.1)
A expressão “surpreendido” sugere alguém que foi apanhado cometendo um pecado (“com a boca na botija”). Não descreve necessariamente uma rebelião deliberada, mas uma queda da qual a pessoa precisa ser restaurada.
A palavra grega traduzida por “falta” (gr. paráptōma) significa transgressão, desvio ou tropeço. O salvo por Cristo é liberto da pena ou condenação do pecado (Rm 8.1), do poder do pecado (Rm 6.14), mas, não da presença do pecado enquanto estiver neste corpo. Portanto, mesmo os crentes podem pecar. O pecado na igreja exige intervenção e não omissão. Disciplina é um assunto muito sensível, às vezes, mal compreendido e, muitas vezes, negligenciado. Não temos a intenção de aprofundar o assunto aqui, mas expressar que, em linhas gerais, o princípio bíblico mostra que a disciplina deve ser aplicada de maneira proporcional, conforme a natureza da falta, sua publicidade, sua gravidade e a resposta do faltoso. Não existe um único procedimento para todos os casos. A disciplina deve começar, sempre que possível, de forma pessoal e reservada; entretanto, quando o pecado é público, a disciplina também pode ser pública.
É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis: preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa[2].
👉A disciplina preventiva é aquela que se esforça para ensinar os referenciais bíblicos, portanto seguros e confiáveis, de conduta e comportamento, de modo que o crente tenha onde se ancorar. Isso é feito através da ministração da Palavra de Deus e de bons exemplos de vida dos líderes. O apóstolo Paulo se ocupava e se empenhava diuturnamente nessa lida, diante de tantas igrejas emergentes. Esse precisa ser um trabalho contínuo com vistas a construir alicerces inabaláveis de princípios e padrões morais e espirituais, na tentativa de prevenir a prática do pecado.
👉A disciplina corretiva se impõe como necessária quando a prática do pecado é verificada. No ensino do Senhor Jesus Cristo, em Mateus 18.15-20, ela pode e deve ser exercida de forma equilibrada e curativa, respeitando-se três estágios de poder de persuasão crescentes e progressivos: 1º)O ofendido e o ofensor; 2º)O ofendido, algumas testemunhas e o ofensor; 3º)a Igreja e o ofensor.
👉A disciplina cirúrgica ablativa é o nível extremo e, portanto, a mais traumática e se impõe quando todas as tentativas anteriores não surtiram efeito e o infrator mantém-se impenitente. O termo “cirúrgico ablativo” se aplica pela similaridade figurada entre se extirpar do corpo humano um tumor e se desligar do corpo de Cristo, a Igreja, um membro que se recusa a arrepender-se e a deixar o pecado. A responsabilidade de julgar, disciplinar, cassar privilégios e excluir do rol de membros é prerrogativa da igreja ou de sua liderança formalmente constituída e por delegação desta, fundamentado nas Escrituras e na autoridade delegada pelo Senhor e cabeça da Igreja (Mt 18.17-20).
“Vós, que sois espirituais”. Quem são esses? Não são uma elite espiritual, mas os cristãos que vivem sob a direção do Espírito (Gl 5.16-25), manifestando o fruto do Espírito. Em 1Coríntios 3.1-3 Paulo faz certa distinção entre crentes espirituais e crentes carnais. Os cristãos carnais são como crianças espirituais, não se desenvolveram rumo a maturidade da fé, ainda andam segundo o homem e não segundo o Espírito. Quem corrige deve fazê-lo porque é maduro na fé, e não porque se considera superior.
“Corrigi-o”. O verbo grego (katartízō) era usado em várias situações, tais como:
– Colocar um osso quebrado no lugar.
– Consertar uma rede de pesca.
– Restaurar algo danificado.
A ideia principal não é condenar e punir, mas restaurar. O objetivo da disciplina cristã é devolver o irmão à comunhão com Deus e com a igreja.
“Com espírito de brandura”. A maneira de abordar é tão importante quanto o objetivo a ser alcançado. Brandura (gr. praýtēs) é uma das manifestações do fruto do Espírito – mansidão (Gl 5.23). Corrigir com brandura não significa relativizar o pecado, mas agir com humildade, paciência e amor.
“Guarda-te para que não sejas também tentado”. Quem corrige deve lembrar que também é vulnerável, sujeito a pecar. Esse alerta é contra o orgulho espiritual. O restaurador deve agir com vigilância, consciente de que poderia cair na mesma tentação.
Costuma-se citar em sermões que: “Uma igreja sem disciplina, morre; mas, com excesso de disciplina, mata.” Embora a autoria seja desconhecida, o pensamento expressa um princípio bíblico bastante equilibrado: A ausência de disciplina leva à tolerância do pecado, à perda da santidade e ao enfraquecimento do testemunho da igreja (1Co 5.6-7; Ap 2–3). Por outro lado, uma disciplina aplicada sem graça, misericórdia e propósito restaurador pode destruir pessoas espiritualmente. Paulo advertiu os coríntios que, após a disciplina produzir arrependimento, o faltoso deveria ser perdoado e consolado, “para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza” (2Co 2.6-8). Assim, a frase resume bem o equilíbrio entre verdade e graça, justiça e misericórdia, firmeza e restauração.
2. SOLIDARIEDADE
“Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6.2)
“Cargas” (gr. barē) refere-se a pesos difíceis de suportar: sofrimentos, dificuldades, situações extremas, fraquezas e lutas. A igreja não é um conjunto de pessoas isoladas, mas um corpo em que os membros cuidam uns dos outros.
Levar as cargas inclui aconselhar, consolar, orar, ajudar materialmente, apoiar emocionalmente e restaurar quem caiu.
“Assim cumprireis a lei de Cristo”. A “lei de Cristo” é o mandamento do amor – “Novo mandamento vos dou…” (Jo 13.34; Gl 5.14). Quando ajudamos um irmão a carregar seu peso, estamos obedecendo ao Senhor.
“Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.” (Gl 6.3)
O maior obstáculo para ajudar alguém é a arrogância. Quem pensa ser superior acaba olhando o irmão de cima para baixo. Paulo lembra que toda graça vem de Deus. Não há espaço para vanglória.
“Mas prove cada um o seu labor e, então, terá motivo de gloriar-se unicamente em si e não em outro.” (Gl 6.4)
Antes de comparar sua vida com a dos outros, cada cristão deve examinar a si mesmo. O padrão não é o irmão ao lado, mas Deus. Essa avaliação pessoal evita dois extremos: orgulho e inveja.
3. RESPONSABILIDADE PESSOAL
“Porque cada um levará o seu próprio fardo.” (Gl 6.5)
À primeira vista, parece haver aqui uma contradição com o que foi dito no versículo 2. Mas Paulo usa duas palavras gregas diferentes.
– No versículo 2, “cargas” é barē, indicando pesos excessivos que uma pessoa dificilmente consegue carregar sozinha.
– No versículo 5, “fardo” é phortíon, termo usado para uma carga pessoal, como a mochila de um viajante.
O sentido é:
– Há responsabilidades que podemos compartilhar.
– Há responsabilidades que ninguém pode assumir por nós.
Cada cristão responderá diante de Deus por sua própria vida.
Esses dois versículos ensinam duas verdades complementares.
⊳ Devemos ajudar os irmãos quando enfrentam situações que os sobrecarregam (v. 2).
⊳ Ao mesmo tempo, cada cristão deve assumir sua responsabilidade pessoal diante de Deus (v. 5).
Em outras palavras:
– A igreja pratica solidariedade.
– O indivíduo pratica responsabilidade.
4. APLICAÇÕES PRÁTICAS
1ª) A disciplina cristã visa restaurar
O objetivo nunca é humilhar ou destruir, mas recuperar o irmão faltoso.
2ª) A ação de restaurar exige maturidade espiritual
Nem todo cristão está preparado para corrigir outro. É necessário amor, sabedoria, humildade e equilíbrio.
3ª) A humildade resguarda quem corrige
Quem hoje restaura poderá amanhã precisar ser restaurado.
4ª) A igreja deve ser uma comunidade de apoio
Cristãos não caminham sozinhos, carregam juntos os pesos da vida.
5ª) Cada crente é responsável diante de Deus
A ajuda da igreja nunca elimina a responsabilidade pessoal.
Conclusão
Nestes poucos versículos temos ensinamentos equilibrados e úteis para a convivência como igreja. A comunidade cristã não deve ignorar o pecado nem tratar o faltoso com dureza impiedosa. Pelo contrário, aqueles que andam no Espírito são chamados a restaurar o irmão caído com mansidão, conscientes de sua própria fragilidade. Ao mesmo tempo, os membros da igreja devem compartilhar as cargas, uns dos outros, em amor, sem perder de vista que cada pessoa prestará contas a Deus por sua própria vida.
Assim, Paulo harmoniza três princípios essenciais da vida cristã: restauração, solidariedade e responsabilidade pessoal. Esse é o espírito da verdadeira disciplina cristã, que busca refletir o caráter de Cristo: firme na verdade, humilde na atitude e amorosa no propósito.
Que Deus nos ajude!
[1] A Bíblia em Esboço – 6ª Edição – 1994.
[2] CIRURGIA ABLATIVA: Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.



