Restauração, Solidariedade e Responsabilidade

(Gálatas 6.1-5)

Introdução

A epístola de Paulo aos gálatas foi destinadas “às igrejas da Galácia” (Gl 1.2), portanto, às igrejas de uma região da Ásia Menor, atualmente território da Turquia. Segundo a teoria mais aceita estavam em vista as igrejas de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, cidades que aparecem na primeira viagem missionária de Paulo (Atos 13 e 14).

Já na introdução, o apóstolo Paulo defende a autenticidade e autoridade do seu chamado e apostolado, da parte de Jesus Cristo e de Deus Pai, e não de homens (Gl 1.1). E, não para por aí. Ele investe boa parte da epístola (Gl 1.10-24) para expressar e enfatizar sua autoridade apostólica, descrevendo sua autobiografia, bem como a autenticidade e autoridade do evangelho por ele anunciado, que não era segundo os homens, “mas mediante revelação de Jesus Cristo”.  Ele acrescenta – “não consultei carne e sangue” (Gl 1.16) – isto é, os demais apóstolos, pois aprouve a Deus revelar-lhe o seu Filho. Além disso, afirma que, catorze anos depois, subiu a Jerusalém, ali expondo à igreja o evangelho que pregava aos gentios (“o evangelho da incircuncisão”)(Gl 2.7), obtendo, assim, a aprovação da igreja e de seus líderes principais – Tiago, Cefas (Pedro) e João – que lhe estenderam a destra de comunhão (Gl 2.1-10). Essa sua autoridade foi também reconhecida quando repreendeu a Pedro, porque este se tornara repreensível (Gl 2.11-20).  

Todo esse esforço de Paulo tinha uma razão de ser. Logo após sua saudação ele faz uma repreensão: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho,” (Gl 1.6). Ele expressa sua surpresa ou perplexidade de estarem dando ouvidos aos judaizantes e legalistas, que os estavam conduzindo de volta à lei, à salvação pelas obras e a necessidade da circuncisão, abandonando, assim, a salvação pela graça (Gl 5.12). Depois de cerca de 1500 anos sob a lei mosaica era difícil, para muitos, descolar-se dela. Daí a insistência dos legalistas em influenciar os gentios cristãos. Muitos dos judaizantes eram cristãos professos, isto é, pessoas que criam que Jesus era o Messias. Entretanto, eles acrescentavam à fé em Cristo a obrigatoriedade da observância da Lei de Moisés como condição para a salvação ou para a plena aceitação por Deus. Foi exatamente esse acréscimo que Paulo combateu vigorosamente, especialmente em Gálatas.

Portanto, diante de tais circunstâncias, o apóstolo foi usado por Deus para combater tal desvio, fazendo uma importante defesa e exposição da doutrina da justificação somente pela fé em Cristo (Gl 2.15 a 4.31). A expressão “o justo viverá pela fé” (Gl 3.11) foi resgatada pelo apóstolo de Habacuque 2.4, também mencionada em Romanos 1.17 e fortemente enfatizada na Reforma Protestante.

No início do capítulo 5 (vv. 1-12) e no final do capítulo 6 (vv. 11-18), o apóstolo procura mostrar que a liberdade cristã é incompatível com a submissão ao jugo da escravidão da lei: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gl 5.6).

Ao abordar a liberdade em Cristo Paulo julgou necessário advertir sobre limites, sobre não dar lugar a carne (ao pecado), sobre a preservação mútua pela prática sincera do amor ao próximo (Gl 5.13-15). E, no final do capítulo 5 (vv. 16-26) encontramos um belo ensino sobre andar no Espírito, ser guiado pelo Espírito, manifestando o fruto do Espírito que se opõe às obras da carne.

Enfim, sobre o valor desta epístola vale registrar o pronunciamento de Robert Lee:
“Esta epístola tem feito mais do que qualquer outro livro do Novo Testamento, pela emancipação dos cristãos do judaísmo, romanismo, ritualismo e toda a forma de exterioridade que tem ameaçado a liberdade e a espiritualidade do Evangelho”[1]

1. RESTAURAÇÃO

Depois de advertir os seus leitores sobre os limites da liberdade cristã, sobre a luta entre a carne e o Espírito, de admoestá-los a se colocarem na posição de servos uns dos outros, em amor, andando e vivendo no Espírito para não dar lugar às obras da carne (Gl 5.13-26), Paulo, em Gálatas 6.1-5,  ensina a maneira como os cristãos devem lidar com o pecado, a fraqueza, as demandas e as responsabilidades uns dos outros. Enfim, após ensinar sobre o fruto do Espírito, ele mostra como esse fruto deve se manifestar no relacionamento entre os irmãos, na comunidade de fé.

Paulo combateu, ao longo de toda a carta, o legalismo dos judaizantes, que ensinavam que a salvação dependia da observância da Lei de Moisés. Em contraste, ele afirma que o cristão vive pela fé e é guiado pelo Espírito Santo. No final do capítulo 5, ele adverte: “Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros.” (Gl 5.26). É exatamente nestes cinco primeiros versículos do capítulo 6 que ele procura orientar e corrigir certas situações e atitudes, para o bem e  preservação do relacionamento e testemunho cristão.

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.” (Gl 6.1)

A expressão “surpreendido” sugere alguém que foi apanhado cometendo um pecado (“com a boca na botija”). Não descreve necessariamente uma rebelião deliberada, mas uma queda da qual a pessoa precisa ser restaurada.

A palavra grega traduzida por “falta” (gr. paráptōma) significa transgressão, desvio ou tropeço. O salvo por Cristo é liberto da pena ou condenação do pecado (Rm 8.1), do poder do pecado (Rm 6.14), mas, não da presença do pecado enquanto estiver neste corpo. Portanto, mesmo os crentes podem pecar. O pecado na igreja exige intervenção e não omissão. Disciplina é um assunto muito sensível, às vezes, mal compreendido e, muitas vezes, negligenciado. Não temos a intenção de aprofundar o assunto aqui, mas expressar que, em linhas gerais, o princípio bíblico mostra que a disciplina deve ser aplicada de maneira proporcional, conforme a natureza da falta, sua publicidade, sua gravidade e a resposta do faltoso. Não existe um único procedimento para todos os casos. A disciplina deve começar, sempre que possível, de forma pessoal e reservada; entretanto, quando o pecado é público, a disciplina também pode ser pública.

É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis:  preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa[2].

👉A disciplina preventiva é aquela que se esforça para ensinar os referenciais bíblicos, portanto seguros e confiáveis, de conduta e comportamento, de modo que o crente tenha onde se ancorar. Isso é feito através da ministração da Palavra de Deus e de bons exemplos de vida dos líderes. O apóstolo Paulo se ocupava e se empenhava diuturnamente nessa lida, diante de tantas igrejas emergentes. Esse precisa ser um trabalho contínuo com vistas a construir alicerces inabaláveis de princípios e padrões morais e espirituais, na tentativa de prevenir a prática do pecado.

👉A disciplina corretiva se impõe como necessária quando a prática do pecado é verificada. No ensino do Senhor Jesus Cristo, em Mateus 18.15-20, ela pode e deve ser exercida de forma equilibrada e curativa, respeitando-se três estágios de poder de persuasão crescentes e progressivos: 1º)O ofendido e o ofensor; 2º)O ofendido, algumas testemunhas e o ofensor; 3º)a Igreja e o ofensor.

👉A disciplina cirúrgica ablativa é o nível extremo e, portanto, a mais traumática e se impõe quando todas as tentativas anteriores não surtiram efeito e o infrator mantém-se impenitente. O termo “cirúrgico ablativo” se aplica pela similaridade figurada entre se extirpar do corpo humano um tumor e se desligar do corpo de Cristo, a Igreja, um membro que se recusa a arrepender-se e a deixar o pecado. A responsabilidade de julgar, disciplinar, cassar privilégios e excluir do rol de membros é prerrogativa da igreja ou de sua liderança formalmente constituída e por delegação desta, fundamentado nas Escrituras e na autoridade delegada pelo Senhor e cabeça da Igreja (Mt 18.17-20).

“Vós, que sois espirituais”. Quem são esses? Não são uma elite espiritual, mas os cristãos que vivem sob a direção do Espírito (Gl 5.16-25), manifestando o fruto do Espírito. Em 1Coríntios 3.1-3 Paulo faz certa distinção entre crentes espirituais e crentes carnais. Os cristãos carnais são como crianças espirituais, não se desenvolveram rumo a maturidade da fé, ainda andam segundo o homem e não segundo o Espírito. Quem corrige deve fazê-lo porque é maduro na fé, e não porque se considera superior.

“Corrigi-o”. O verbo grego (katartízō) era usado em várias situações, tais como:
– Colocar um osso quebrado no lugar.
– Consertar uma rede de pesca.
– Restaurar algo danificado.
A ideia principal não é condenar e punir, mas restaurar. O objetivo da disciplina cristã é devolver o irmão à comunhão com Deus e com a igreja.

“Com espírito de brandura”. A maneira de abordar é tão importante quanto o objetivo a ser alcançado. Brandura (gr. praýtēs) é uma das manifestações do fruto do Espírito – mansidão (Gl 5.23). Corrigir com brandura não significa relativizar o pecado, mas agir com humildade, paciência e amor.

“Guarda-te para que não sejas também tentado”. Quem corrige deve lembrar que também é vulnerável, sujeito a pecar. Esse alerta é contra o orgulho espiritual. O restaurador deve agir com vigilância, consciente de que poderia cair na mesma tentação.

Costuma-se citar em sermões que: “Uma igreja sem disciplina, morre; mas, com excesso de disciplina, mata.” Embora a autoria seja desconhecida, o pensamento expressa um princípio bíblico bastante equilibrado: A ausência de disciplina leva à tolerância do pecado, à perda da santidade e ao enfraquecimento do testemunho da igreja (1Co 5.6-7; Ap 2–3). Por outro lado, uma disciplina aplicada sem graça, misericórdia e propósito restaurador pode destruir pessoas espiritualmente. Paulo advertiu os coríntios que, após a disciplina produzir arrependimento, o faltoso deveria ser perdoado e consolado, “para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza” (2Co 2.6-8). Assim, a frase resume bem o equilíbrio entre verdade e graça, justiça e misericórdia, firmeza e restauração.

2. SOLIDARIEDADE

“Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6.2)

Cargas” (gr. barē) refere-se a pesos difíceis de suportar: sofrimentos, dificuldades, situações extremas, fraquezas e lutas. A igreja não é um conjunto de pessoas isoladas, mas um corpo em que os membros cuidam uns dos outros.

Levar as cargas inclui aconselhar, consolar, orar, ajudar materialmente, apoiar emocionalmente e restaurar quem caiu.

“Assim cumprireis a lei de Cristo”. A “lei de Cristo” é o mandamento do amor – “Novo mandamento vos dou…” (Jo 13.34; Gl 5.14). Quando ajudamos um irmão a carregar seu peso, estamos obedecendo ao Senhor.

“Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.” (Gl 6.3)

O maior obstáculo para ajudar alguém é a arrogância. Quem pensa ser superior acaba olhando o irmão de cima para baixo. Paulo lembra que toda graça vem de Deus. Não há espaço para vanglória.

“Mas prove cada um o seu labor e, então, terá motivo de gloriar-se unicamente em si e não em outro.” (Gl 6.4)

Antes de comparar sua vida com a dos outros, cada cristão deve examinar a si mesmo. O padrão não é o irmão ao lado, mas Deus. Essa avaliação pessoal evita dois extremos: orgulho e inveja.

3. RESPONSABILIDADE PESSOAL

“Porque cada um levará o seu próprio fardo.” (Gl 6.5)

À primeira vista, parece haver aqui uma contradição com o que foi dito no versículo 2. Mas Paulo usa duas palavras gregas diferentes.

– No versículo 2, “cargas” é barē, indicando pesos excessivos que uma pessoa dificilmente consegue carregar sozinha.
– No versículo 5, “fardo” é phortíon, termo usado para uma carga pessoal, como a mochila de um viajante.

O sentido é:
– Há responsabilidades que podemos compartilhar.
– Há responsabilidades que ninguém pode assumir por nós.

Cada cristão responderá diante de Deus por sua própria vida.

Esses dois versículos ensinam duas verdades complementares.
⊳ Devemos ajudar os irmãos quando enfrentam situações que os sobrecarregam (v. 2).
⊳ Ao mesmo tempo, cada cristão deve assumir sua responsabilidade pessoal diante de Deus (v. 5).

Em outras palavras:
– A igreja pratica solidariedade.
– O indivíduo pratica responsabilidade.

4. APLICAÇÕES PRÁTICAS

1ª) A disciplina cristã visa restaurar
O objetivo nunca é humilhar ou destruir, mas recuperar o irmão faltoso.

2ª) A ação de restaurar exige maturidade espiritual
Nem todo cristão está preparado para corrigir outro. É necessário amor, sabedoria, humildade e equilíbrio.

3ª) A humildade resguarda quem corrige
Quem hoje restaura poderá amanhã precisar ser restaurado.

4ª) A igreja deve ser uma comunidade de apoio
Cristãos não caminham sozinhos, carregam juntos os pesos da vida.

5ª) Cada crente é responsável diante de Deus
A ajuda da igreja nunca elimina a responsabilidade pessoal.

Conclusão

Nestes poucos versículos temos ensinamentos equilibrados e úteis para a convivência como igreja. A comunidade cristã não deve ignorar o pecado nem tratar o faltoso com dureza impiedosa. Pelo contrário, aqueles que andam no Espírito são chamados a restaurar o irmão caído com mansidão, conscientes de sua própria fragilidade. Ao mesmo tempo, os membros da igreja devem compartilhar as cargas, uns dos outros, em amor, sem perder de vista que cada pessoa prestará contas a Deus por sua própria vida.

Assim, Paulo harmoniza três princípios essenciais da vida cristã: restauração, solidariedade e responsabilidade pessoal. Esse é o espírito da verdadeira disciplina cristã, que busca refletir o caráter de Cristo: firme na verdade, humilde na atitude e amorosa no propósito.

Que Deus nos ajude!


[1] A Bíblia em Esboço – 6ª Edição – 1994.
[2] CIRURGIA ABLATIVA:  Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.

Forma e Conteúdo

Forma e Conteúdo

O que é mais importante pra você, forma ou conteúdo? Qual é a sua escolha? Quer saber qual é a minha? Eu fico com os dois, forma e conteúdo, sem titubear. Veja o porquê.

Forma tem a ver com aparência, com beleza exterior.
Conteúdo tem a ver com caráter, com beleza interior.

Forma não é “fôrma” ou molde!  Forma é o jeito de se apresentar, de se mostrar, de ser visto.
Conteúdo é o que está contido em algum recipiente, mas quase sempre transcende a este.

Forma tem tudo a ver com a matéria, com o que é físico e tangível.
Conteúdo tem muito a ver com o que é abstrato, com o que é intangível e, até mesmo espiritual.

A forma esbanja esplendor e riqueza; o conteúdo enobrece a sabedoria e a humildade.
A forma é tão efêmera e transitória quanto a imagem do contorno de uma nuvem levada pelo vento. O conteúdo é tão permanente quanto a fé salvadora em Cristo Jesus que nos conduz firmemente à eternidade. O Jesus da História era uma visão passageira disponibilizada a uns poucos privilegiados da sua época; o Jesus da Fé é uma presença permanente na porção finita da vida física e na porção eterna da vida espiritual, dos salvos. A forma corpórea e visível do Espírito Santo, como pomba, descendo sobre Jesus, no seu batismo (Lc 3.22), ou ainda de línguas como de fogo, no Pentecostes (At 2.3), sobre os apóstolos e discípulos, eram passageiras; mas sua ação na vida de Jesus, dos apóstolos e dos salvos preencheu-os de forma permanente.

Na busca de um futuro cônjuge, forma e conteúdo são aspectos relevantes. A forma desperta a atração e paixão e o conteúdo aperfeiçoa o amor e companheirismo. A paixão não resiste ao tempo, mas o amor eterniza a relação. Nessa busca, tem gente que só valoriza a forma (aparência); outras ou outros, só se interessam mesmo pelo conteúdo, da conta bancária, é claro. Há pessoas que querem entender o que aproxima casais tão diferentes em suas formas individuais de ser (altura, peso, raça e cor etc), formas essas que o coração apaixonado ignora. Afinal, Deus os fez homem e mulher, formas diferentes e complementares que se atraem. Na verdade, o que não é natural é a atração entre as formas iguais ou as relações homoafetivas ou homossexuais.

No mundo tecnológico, hardware e software são parceiros inseparáveis. O hardware expressa a forma material e o software o conteúdo inteligente. A forma atrai pela beleza, conforto e praticidade; o conteúdo pela utilidade e desempenho. Nem dá pra imaginar comprar um smartphone ou automóvel etc. sem avaliar hardware e software, forma e conteúdo.

É interessante como a forma ajuda no processo de identificação. Por isso usamos foto no nosso documento de identidade. Como esse recurso ainda é pouco, os setores de identificação colhem também as nossas digitais, que são formas únicas e exclusivas e nos diferenciam dos demais seres humanos. Mas a nossa identidade também tem a ver com o “nosso conteúdo” mais oculto! É através do conteúdo do nosso DNA que, por comparação, se revela de quem fomos gerados e a quem geramos. Mas DNA também tem forma, o que nos remete à extraordinária relação entre forma e conteúdo já na própria essência da vida.

Na sociedade os políticos são imbatíveis na exploração da forma, tudo para vender uma aparência que renda muitos votos. Do outro lado, os tecnocratas são especialistas e fascinados em conteúdo. De certa forma a população humana está segmentada em dois grandes grupos, os que têm mais vocação pela forma e os que se interessam mais em produzir conteúdo; entretanto, todos consumimos tanto forma quanto conteúdo.

A pedagogia é a arte de instruir, ensinar ou educar; a didática, um ramo da ciência pedagógica que se dedica a técnicas e métodos de aprendizagem. Em síntese, ambas se ocupam mais com a forma de ensinar. Já a disciplina ou matéria é o conteúdo a ser ensinado.  Isso é mais uma demonstração de que forma e conteúdo caminham lado a lado.

Na área de Comunicação e Marketing parece que a forma tem precedência ao conteúdo. Mesmo que o conteúdo, isto é, o produto ou serviço, não seja lá grande coisa, o criativo trabalho de marketing pode agregar-lhe uma nova imagem, capaz de impactar o mercado consumidor e alavancar muitas vendas.

Enquanto na Comunicação e Marketing a forma parece afetar o conteúdo, na Psicologia, certamente o conteúdo da psique afeta rigorosamente a forma exterior. É como diz o texto bíblico: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate.” (Pv 15.13)

O Pregador do Evangelho tem que levar muito a sério duas áreas interessantes, duas disciplinas ou matérias que fazem parte do currículo de um curso de teologia: Homilética e Hermenêutica. A Homilética trata da arte de pregar, cuja ênfase está no pregador (sua aparência, sua comunicação, seu uso do idioma, sua voz, seus gestos, sua ética, sua metodologia etc). Isso tem a ver com a forma. A Hermenêutica trata da arte da interpretação do texto, neste caso, do texto sagrado. Isso, é claro, tem a ver com o conteúdo da prédica. Portanto, ambas são importantes e necessárias para se alcançar os objetivos propostos.

A forma também está presente na escrita, no alfabeto que devidamente aplicado produz o texto, que passa o conteúdo, a mensagem.

Símbolo também é forma, capaz de sintetizar uma mensagem ou um conteúdo:

Há conteúdos que eternizam a forma e há formas que eternizam o conteúdo. A cruz é uma velha conhecida da humanidade. No passado era símbolo de vergonha e maldição (Gl 3.13). Entretanto, quando a cruz teve Jesus “como conteúdo” nunca mais foi a mesma. Passou a transmitir duas mensagens de consequências eternas: REDENÇÃO (Jesus na Cruz) e RESSURREIÇÃO (Cruz vazia).

O velho e surrado legalismo até parecia se importar com o conteúdo, mas, na verdade se ocupava e se preocupava mesmo é com a forma, com a manifestação exterior, que é mais facilmente vista pelas pessoas.

Jesus rompeu com essa tradição doentia de nortear e avaliar a conduta humana e trouxe nova perspectiva para a lei mosaica, baseada não na forma, mas no conteúdo, na motivação da mente e coração. Por exemplo:

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.” (Mt 5.27)
“Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.” (Mt 5.28)

Os fariseus se importavam e julgavam segundo o ato praticado. Entretanto, Jesus vai muito além, argumentando que o pecado começa e se manifesta na mente, no desejo ilícito e se expressa visível e tangivelmente na cama. A origem é conteúdo, a consumação é forma. Deus é espírito e se importa com o prioritariamente com o conteúdo! O ser humano é matéria, e valoriza muito as aparências, a forma. Não faz muito tempo que as igrejas valorizavam muito mais a forma exterior, no que diz respeito aos usos e costumes de seus membros, e nem tanto o seu ser interior destes.

“A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2)

No princípio, quando tudo começou, havia um porém, a terra estava sem forma e vazia. A fascinante ação do Deus Criador deu forma e conteúdo ao que era caos. Assim, do nada, todas as coisas vieram a existir, ganharam forma e conteúdo. Nesse universo gigantesco e indescritível, até hoje não se encontrou qualquer outro planeta semelhante a Terra, com sua multiplicidade e riqueza de formas e conteúdo. É estupidamente incrível que um ser humano normal, contemple essa realidade incontestável e, mesmo assim, não encontre o Deus Criador.

No final de sua obra criadora, Deus também criou o homem. Primeiramente ele fez a forma, do pó da terra, depois insuflou em suas narinas o conteúdo, o próprio sopro do altíssimo, o fôlego de vida. Com essa forma e conteúdo o homem passou a ser alma vivente (Gn 2.7).

Apesar de todo esse diferencial planetário, apesar de todo o processo civilizatório pelo qual a humanidade tem passado, o olhar divino e dos seres humanos mais atentos, ao se dirigir para a terra, para o mundo dos seres humanos, constata, com pesar, a lamentável repetição do caos, do estado “sem forma e vazia”. Apesar de tantas formas arquitetônicas imponentes, de cidades fantásticas, de empresas sem conta, de produtos e serviços nunca antes vistos, das tecnologias de ponta, de religiosos sem conta e religiões para todos os gostos e intentos; a mente e o coração de um número cada vez maior de pessoas está “sem forma e vazia”. Há falta de forma e vazio do temor a Deus, do amor e respeito ao próximo, de caráter, de valores e princípios, de honestidade, de verdade e justiça, de tolerância, de prioridades consistentes, de solidariedade prática, de fidelidade conjugal, de amor a instituição familiar, enfim, de respeito à própria vida. As consequências da perversidade humana trará, no devido tempo, o juízo divino. Então, o caos que habita a sociedade humana voltará a se estabelecer sobre o planeta, conforme a palavra profética de Jeremias: “Olhei para a terra, e ei-la sem forma e vazia; para os céus, e não tinham luz.” (Jr 4.23)

Jamais perca a esperança! Todo esse cenário caótico sinaliza o fim dos tempos, a consumação dos séculos, a segunda vinda do Senhor Jesus. Ele já veio na forma de Servo (Fp 2.6,7; Is 53), agora virá na forma de Rei (Ap 11.15). Resista até o fim e não se deixe levar pelo que está aí, ao nosso redor. Isso não é forma e nem conteúdo pra você; é tão somente caos. Isso é a ausência da verdadeira forma e do verdadeiro conteúdo que só Jesus pode prover na vida dos que creem nele e o seguem.

Confie nesse Deus que não tem forma visível, conforme as palavras de Jesus: “O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma.” (Jo 5.37). O Senhor Deus se revelou a Moisés como o: “EU SOU O QUE SOU” (Ex 3.14).  Ele não precisa de forma e condena os idólatras, os que lhe querem atribuir forma, ou adoram formas, que são ídolos nulos. Ele é todo conteúdo, que quer estar em nós e mostrar a sua forma invisível através das nossas vidas visíveis!

CUIDADO COM A FORMA:

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.2)

PRESERVE O CONTEÚDO:

“Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós.” (2Tm 1.13-14)