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Cuidado, não despreze o Antigo Testamento (AT)

AT x NT1

Nenhum cristão autêntico desconhece o fato de que vivemos debaixo da Graça, na Nova Aliança estabelecida por Jesus Cristo, na cruz do Calvário, há quase dois mil anos atrás. A primeira vinda do Senhor Jesus inaugurou um novo tempo e estabeleceu um divisor de águas. O desabrochar desse novo momento histórico, mais precisamente o primeiro século da era cristã, está registrado nas páginas do Novo Testamento (NT), da Bíblia. Podemos afirmar seguramente que são os ensinamentos e doutrinas contidos no NT que fundamentam a vida do cristão e da igreja de Cristo. Entretanto, concluir daí, que o Antigo Testamento (AT) não precisa mais ser lido e estudado, não deve ser usado em pregações à igreja etc etc é, no mínimo, um grande equívoco. Nossa intenção neste artigo é mostrar o quanto o AT é, e sempre há de ser, importante e valioso para o cristão. Resumir 3600 anos nessas poucas linhas foi o grande desafio ao escrever este artigo. Vou compartilhar com você apenas dez razões pelas quais você precisa repensar sua relação com o AT:

1. As Alianças de Deus

A palavra portuguesa “testamento” corresponde à palavra hebraica berith, que significa “aliança”, “pacto”, “acordo”. O AT e o NT contém os registros das Alianças de Deus com a raça humana. Uma Aliança é um pronunciamento soberano de Deus, através do qual ele estabelece um relacionamento de responsabilidade entre ele mesmo e um indivíduo ou uma família ou uma nação ou parte da humanidade ou a humanidade em geral. Segundo alguns estudiosos, são oito as Alianças estabelecidas por Deus, sendo que sete estão no AT e uma no NT. As do AT são: 1ª) A Edêmica (Gn 1.28; 2.15-17); 2ª) A Adâmica (G.3.15-21); 3ª) A Noética (Gn 9.1-17); 4ª) A Abraâmica (Gn 12.1-3); 5ª) A Mosaica, também chamada de Antiga Aliança (Ex. 19.1-25; Gl 3.17); 6ª)A Palestiniana (Dt 28.1 a 30.3) e a 7ª) A Davídica (2Sm 7.16; Lc 1.32-33). A que se encontra no NT é a 8ª) A Nova Aliança (Hb 8.6-13; Gl 3.24), bem conhecida da igreja de Cristo. Nem preciso defender a importância de conhecer o que Deus estabeleceu em cada uma dessas Alianças, como os seres humanos envolvidos responderam ao que foi estabelecido por Deus e como Deus reagiu à resposta humana!!! Que riqueza de informação! Isso nos dá uma visão mais clara de “quem é o ser humano” e de “quem é o nosso soberano Deus”; e a maior parte dessas Alianças se encontra no AT.

2. Nossas origens

É relevante observar a extensão do AT, a partir da valiosa declaração de Jesus aos escribas e fariseus: “para que desta geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus.” (Lc 11.50-51a). Portanto, vai do livro de Gênesis, o primeiro do cânon hebraico, onde está registrada a fundação do mundo e a morte de Abel, até Crônicas, o último livro do cânon hebraico, onde é mencionada a morte de Zacarias (2Cr 24.20-21, nas bíblias em português). Os 24 livros do cânon hebraico[1] correspondem aos 39 do AT, da nossa Bíblia em português. Ressalte-se que Jesus excluiu os Livros Apócrifos (inseridos na Bíblia Católica), os quais já existiam naquela época.

Assim, no primeiro livro do AT, Gênesis, encontramos a mais extraordinária revelação da criação do mundo e de tudo o que nele há. É claro que a Bíblia não é um livro de exposição do saber científico, mas tal informação é única e totalmente confiável. Jamais ceda à pressão dos evolucionistas ou dos anticriacionistas de tratar essas narrativas como lendas!!! Já estive envolvido no estudo da questão Criação x Evolução e posso assegurar que a TEORIA DA EVOLUÇÃO é uma falácia que não se sustenta cientificamente (não é ciência, porque não pode ser reproduzida a partir de experimentos controlados em laboratório). Não tenha vergonha da verdade divina. Leia, releia, confie e defenda essa revelação divina. Há boa literatura criacionista disponível; vale a pena conferir.

3. Milagres espetaculares

A crítica bíblica de ontem, de hoje e de sempre, aliada aos opositores da Palavra de Deus, tentarão ridicularizar os milagres bíblicos, principalmente os do AT: as dez pragas no Egito, a abertura do Mar Vermelho ou a do Rio Jordão, colunas de nuvem ou de fumaça (no céu), maná e codornizes que caem do céu e águas que jorram de pedras feridas com vara, as peripécias de Sansão, machados que flutuam, jumento que fala, os amigos de Daniel na fornalha, Daniel na cova do leões, Jonas no ventre do grande peixe etc etc. Uma forma sutil e ardilosa, porém cruel, de tentar desacreditar a Bíblia é infiltrar e mesclar elementos ou fenômenos naturais que “coincidentemente” teriam atuado naquelas ocasiões. Assim, sugerem eles que pessoas simplórias e com grande imaginação se encarregaram de “criar os milagres”. Podem dizer o que quiserem, mas nós continuaremos lendo o AT e crendo no poder de Deus manifestado ao longo da história! Não foi por acaso que Jesus se referiu a alguns desses milagres. Se o nosso Mestre acreditava neles, eu também acredito! Veja, por exemplo: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40). Não vamos nos sentir intimidados pelos racionalistas e secularistas que nos rodeiam, pois estes não conhecem o Deus altíssimo!

4. Histórias emocionantes e edificantes

Se a Bíblia é feita de registros de alianças, por que não é uma lista interminável de cláusulas, como num contrato? A sabedoria divina é admirável e a Palavra de Deus reflete isso e muito mais. Deus preferiu utilizar a pedagogia e o poder inimaginável de uma história, para passar conteúdos relevantes e práticos, de forma direta e vívida. A vida é feita de histórias e há impressionantes histórias de vida. O AT é repleto de histórias que emocionam, edificam e são capazes de afetar, de moldar o caráter do leitor, ou, pelos menos torná-lo sensível a alguns princípios, influenciando comportamentos. Muitas vezes uma história fala mais profundamente ao coração do que um sermão moralista. Jesus não se desviou do estilo divino; ele doutrinou através de histórias e parábolas e, nos deixou muitas histórias para este mesmo propósito. Como deixar de ler, não apreciar, não deixar-se influenciar pelas impressionantes histórias contidas no AT? A história do dilúvio, dos patriarcas (Jó, Abraão, Isaque, Jacó, José), de Moisés e Josué, de Elias e Eliseu, de Samuel, Davi, Daniel, Rute, Ester, Neemias etc etc. Estas e tantas outras são pedras preciosas dadas pelo nosso Deus a humanidade. Até mesmo muitos não cristãos as apreciam e as consideram verdadeiras pérolas literárias.

5. Uma lei à frente do seu tempo

dez mandamentosTodo povo e nação precisa do seu sistema legal. Que povo teve o privilégio de receber diretamente de Deus um sistema de leis tão completo como a legislação mosaica?

Quando os descendentes de Jacó se tornaram numerosos. Quando foram libertos do jugo do Egito pela mão do Senhor Deus, sob a liderança de Moisés e Arão. Quando emancipados se tornaram uma nação. Ali, ao pé do monte Sinai, receberam a lei que os permitiria ter o status de uma verdadeira nação. A lei é uma, e toda a lei é espiritual, quer trate de colheitas, criminosos ou adoração. No entanto é conveniente considerá-la em três divisões:

– Lei Moral (os dez mandamentos) – A que manda fazer o bem e evitar o mal;

– Lei Civil ou Social – A que regula as mútuas relações entre os cidadãos;

– Lei Cerimonial ou Religiosa – A que determina as regras de culto a Deus.

Obs.: A Lei Judicial ou Criminal ou Penal, que define os delitos e determina a forma de os punir, está entrelaçada com a Lei Civil.

É claro que essa Lei foi dada a Moisés no contexto dos costumes de um povo (Israel) e de uma época (cerca de 1462 a.C.), ou seja, há aproximadamente 3500 anos atrás. Quando eu era jovem, fiquei bem impressionado com a leitura do livro “A provisão divina para sua saúde” (S. I. McMillen M. D. – Editora Fiel). O autor aborda aspectos sanitários e de prevenção de enfermidades e epidemias já presentes nessa legislação mosaica, muito à frente do seu tempo e da literatura com a qual Moisés teve contato na corte do Egito, a potência cultural da época. Certamente há muitas leis ali que não fazem mais sentido hoje, mas não se pode negar que tantas outras foram o embrião das legislações que existem pelo mundo afora. É bastante enriquecedor ler e reler essa legislação mosaica no AT!

Vale aqui ressaltar que a essência da lei se encontra nos dez mandamentos. É o que chamaríamos hoje de “Constituição da humanidade”. Estabelece os princípios do governo divino.

“Certo rabino frisa que existem 613 mandamentos de Moisés (248 afirmativos e 365 negativos); mas que Davi reduziu-os a 11 conceitos principais (Sl 15.2-5); Isaías a apenas 6 (Is 33.15); Miquéias a 3 (Mq 6.8); Amós a 2 (Am 5.4) e Habacuque a apenas 1 (Hc 2.4). A regra áurea é o mais perfeito desses sumários.” A essência da essência de toda a Lei foi definida por Jesus. Ao ser perguntado por um intérprete da lei, Jesus a resumiu em dois grandes mandamentos: “amar a Deus” e “amar ao próximo” (Mt 22.34-40).

6. Reis e reinados

Quando se lê a história dos reis de Israel, antes e depois da divisão do reino, tem-se a real dimensão da influência dos governantes e dos líderes espirituais sobre o povo, bem como as consequências disso. Quando se levantavam reis e sacerdotes tementes a Deus, que combatiam as práticas pecaminosas e contrárias à vontade de Deus e incentivavam a obediência e adoração somente a Deus, o resultado era vitória contra os povos inimigos, seguida de paz e prosperidade. Quando os governantes e sacerdotes eram maus, a derrota e destruição era certa. A simples leitura dessas histórias é extremamente proveitosa; ajuda-nos a manter a vigilância e obediência à vontade do Senhor Deus, pois os resultados não serão diferentes hoje. É só lembrar da “lei da colheita” conforme a semeadura.

7. Sabedoria e Poesia

Os livros poéticos e de sabedoria no AT são simplesmente maravilhosos! Trazem verdadeiro deleite para a alma e muita orientação prática e proveitosa para a vida cotidiana. Somente tropeça nas questões mais básicas e elementares do viver diário quem não quer se apropriar de tais ensinos e instruções. Por exemplo, em Provérbios, há orientações e dicas em abundância, começando com a dica principal: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9.10). Além disso, quanta poesia Inspirada e inspiradora pode ser encontrada nos Salmos. É claro que não posso deixar de expressar aqui o meu veemente repúdio àquelas “modernas” traduções (NTLH e outras) que subtraem do texto bíblico original sua preciosa poesia!!!

8. Juízos, Violência e Imprecações

Você já deve ter ouvido falar, ou até dito, que “o Deus do AT não é o mesmo do NT”. As narrativas encontradas nos dois testamentos parecem servir de base para estas visões antagônicas de um mesmo Deus, único e verdadeiro, Criador dos céus e da terra. É, também, mais uma razão para alguns se apegarem mais ao NT, desprezando o AT. Afinal, quem se sentiria confortável na presença de um Deus que não abre mãos da prática da justiça e da punição do pecado. Preferem, antes, um Deus que é amor, compassivo e misericordioso. Muitos são os julgamentos e punições, individuais e coletivos, registrados no AT. Já começa no Gênesis com Adão e Eva, Caim, A Torre de Babel, O Dilúvio, Sodoma e Gomorra, A mulher de Ló. Deus se manifesta no Êxodo como um trator passando por cima de Faraó, seus deuses e seu povo, através das dez pragas. No AT, a ordem do dia e de cada dia era “Perfeito serás para com o Senhor teu Deus” (Dt 18.13). Sua presença é aterradora; só Moisés podia se aproximar dele e o Monte Sinai fumegava (Ex 19.18). Trovões e relâmpagos anunciavam sua presença e o povo, à distância, estremecia (Ex 19.16). Deus manda Israel eliminar vários povos (homens, mulheres, jovens, velhos e crianças) para que o seu povo, Israel, ocupasse aquelas terras, porque havia se enchido a medida da iniquidade deles (Gn 15.16; Lv 18.24-25; Dt 9.5). E, esse mesmo tom, continua por todo o AT. Dentre os do seu próprio povo, os transgressores da lei eram condenados à morte, até mesmo por transgredir o descanso do sábado ou tentar segurar a Arca para que não caísse. Por fim, o Israel dividido (Samaria e Judá) é destroçado e levados para o exílio pela Assíria e Babilônia, como castigo divino pela rebeldia aos mandamentos do Senhor.

Em muitos Salmos e textos do AT há um tom de imprecação. A oração imprecatória não soa bem aos ouvidos cristãos. Diante da maldade, da opressão, da violência ou da injustiça, não só clamavam ao Senhor por suas vidas, mas também pediam a Deus que fizesse cair sobre os seus inimigos os piores males. Assim, se unem numa mesma oração, as súplicas mais ardentes e as mais violentas imprecações (Sl 58.6-11; 83.9-18; 109.6-19; 137.7-9).

Contrapondo-se a todo este cenário do AT, chegamos ao NT e nos deparamos, por exemplo, com o registro de uma mulher apanhada em flagrante adultério e trazida aos pés de Jesus. Segundo a Lei ela deveria morrer apedrejada, mas Jesus a perdoa e lhe diz: “vai e não peques mais” (Jo 8.3-11). Assim, o NT expressa a imagem de um Deus de amor, perdoador e misericordioso. Um Pai que quer ver os filhos obedecendo, não pela força do castigo, mas pelo apelo do amor.

Como entender esses juízos, violência e imprecações? A figura abaixo sintetiza bem o modus operandi de Deus, no AT e no NT, segundo minha visão teológica:

Pecou x Pagou

De fato, na época do AT, naquele contexto, prevalecia no âmbito do povo de Israel o conceito de que a obediência a Deus e aos seus mandamentos, deveria ser recompensada na vida presente, com longevidade e prosperidade; enquanto os transgressores da lei mosaica (judeus) e os ímpios (pagãos) deveriam receber o seu justo castigo o quanto antes, para que ficasse evidente que há um Deus vivo e presente, retribuindo a cada um conforme suas ações (Sl 7.9; 37.28; 75.10; 58.11).

É um grave equívoco achar que o “Deus do AT” é um Deus intolerante ao pecado e punidor, enquanto o “Deus do NT” é um Deus tolerante ao pecado e perdoador!!!  O Deus único e soberano a quem servimos é três vezes Santo, Puro e Justo; sempre amará o pecador e sempre condenará e punirá o pecado, quer seja imediatamente (AT), quer nos juízos que estão por vir (NT). Esse modus operandi de Deus, no NT, não significa indiferença frente ao mal, passividade quando triunfam a injustiça, a violência, a opressão aos mais fracos e o desprezo ao sagrado. Vale lembrar, ainda, que o nível de exigência no NT é superior ao do AT. Enquanto a lei enquadrava o ato consumado, Jesus revisitou o texto legal original “ouvistes o que foi dito” para enquadrar, como pecado, o pensamento ou a intenção do ato (Mt 5.21-22; 27-30 etc).

É importante ressaltar que tanto no AT como no NT há um “sistema de perdão”, de expiação de pecados. No AT, o pecador deveria confessar o seu pecado impondo as mãos sobre o animal, que, em seguida, era sacrificado. É muito interessante registrar aquele episódio em que o perverso rei Acabe sensibilizou a Deus, que adiou o juízo sobre sua casa, porque se humilhou perante ele (1Rs 21.29). No NT, Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Ele morreu, e com um único e perfeito sacrifício pode expiar o pecado que nos leva à morte eterna e os pecados cometidos e confessados após a conversão. Também é interessante lembrar que mesmo no contexto do NT, Ananias e sua esposa Safira foram punidos com morte imediata, no início da igreja, porque mentiram ao Espírito Santo (At 5.1-11). Podemos considerar que ocorrências como esta, ou a da punição com cegueira de Elimas, o mágico, pelo apóstolo Paulo (At 13.8-11) foram casos isolados, pois, a partir do NT, vivemos a era da graça e longanimidade de Deus, abrindo a oportunidade de salvação a todos e, deixando para o dia do juízo final a condenação e punição dos impenitentes. Entretanto, ninguém se iluda; o pecado sempre será odioso aos olhos de Deus: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14). Não custa lembrar que, apesar do juízo divino estar “temporariamente suspenso” Deus é soberano para realizar intervenções ou juízos pontuais, quando ele assim o desejar. Também não é demais lembrar que, mesmo que o juízo divino não ocorra imediatamente, cada um sofrerá compulsoriamente as consequências naturais dos atos que praticar!

9. Promessas e Profecias

 Nosso Deus é tão maravilhoso que se chega a nós, simples mortais, e faz alianças que contém preciosas promessas. Para os que permanecem fiéis no cumprimento de sua parte nesses pactos, a bênção é garantida. É confortante e motivador ler o AT e nos depararmos com as inúmeras promessas divinas ali registradas e, na linha do tempo, constatar o seu fiel cumprimento. O mesmo se pode dizer das inúmeras profecias reveladas e já realizadas ou cumpridas. Mas há, também, no AT, aquelas relevantes profecias previstas para os últimos dias, que ajudam a clarear o entendimento das profecias do NT, nesta mesma linha. O livro de Daniel é uma preciosidade, neste sentido. Os juízos e punições de Deus registrados no AT são “fichinha” se comparados com o que está por vir, registrado no NT!

 10.   Figura e Realidade

 No processo de educação infantil é comum trabalhar o concreto e depois o abstrato. De certa forma Deus trabalhou com Israel, o seu povo do AT, o concreto; para que a igreja, o seu povo do NT, entendesse o abstrato, as realidades espirituais. É impressionante a quantidade de figuras presentes no AT cuja realidade está expressa no NT; ou de tipos, no AT, cujos antítipos estão no NT.  A palavra antítipo literalmente quer dizer: correspondente ao tipo. Jesus fez várias referências a tipos do AT, sendo que em alguns casos, ele mesmo é o antítipo: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40) “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” (Jo 3.14-15). Como é abençoador comparar uns com os outros! Como o conhecimento de um ajuda a entender melhor o outro.

Conclusão:

Por que se contentar com menos? Por que perder o início do filme se você pode ver o filme todo e entende-lo melhor? Eu amo a Bíblia toda, a preciosa e incomparável Palavra de Deus!

Se você não tem tempo ou interesse na leitura e estudo de toda a Bíblia, de participar da Escola Bíblica Dominical ou de algum grupo de estudo bíblico, precisa urgentemente reavaliar sua vida espiritual, sua relação com Deus e até que ponto ama e está disposto a conhecer e obedecer a sua Palavra.


[1] Cânon hebraico: LEI (5 Livros), PROFETAS (8 Livros) e ESCRITOS (11 Livros) – Introdução Bíblica, J. Cabral, pgs. 75 e 76

Forma e Conteúdo

Forma e Conteúdo

O que é mais importante pra você, forma ou conteúdo? Qual é a sua escolha? Quer saber qual é a minha? Eu fico com os dois, forma e conteúdo, sem titubear. Veja o porquê.

Forma tem a ver com aparência, com beleza exterior.
Conteúdo tem a ver com caráter, com beleza interior.

Forma não é “fôrma” ou molde!  Forma é o jeito de se apresentar, de se mostrar, de ser visto.
Conteúdo é o que está contido em algum recipiente, mas quase sempre transcende a este.

Forma tem tudo a ver com a matéria, com o que é físico e tangível.
Conteúdo tem muito a ver com o que é abstrato, com o que é intangível e, até mesmo espiritual.

A forma esbanja esplendor e riqueza; o conteúdo enobrece a sabedoria e a humildade.
A forma é tão efêmera e transitória quanto a imagem do contorno de uma nuvem levada pelo vento. O conteúdo é tão permanente quanto a fé salvadora em Cristo Jesus que nos conduz firmemente à eternidade. O Jesus da História era uma visão passageira disponibilizada a uns poucos privilegiados da sua época; o Jesus da Fé é uma presença permanente na porção finita da vida física e na porção eterna da vida espiritual, dos salvos. A forma corpórea e visível do Espírito Santo, como pomba, descendo sobre Jesus, no seu batismo (Lc 3.22), ou ainda de línguas como de fogo, no Pentecostes (At 2.3), sobre os apóstolos e discípulos, eram passageiras; mas sua ação na vida de Jesus, dos apóstolos e dos salvos preencheu-os de forma permanente.

Na busca de um futuro cônjuge, forma e conteúdo são aspectos relevantes. A forma desperta a atração e paixão e o conteúdo aperfeiçoa o amor e companheirismo. A paixão não resiste ao tempo, mas o amor eterniza a relação. Nessa busca, tem gente que só valoriza a forma (aparência); outras ou outros, só se interessam mesmo pelo conteúdo, da conta bancária, é claro. Há pessoas que querem entender o que aproxima casais tão diferentes em suas formas individuais de ser (altura, peso, raça e cor etc), formas essas que o coração apaixonado ignora. Afinal, Deus os fez homem e mulher, formas diferentes e complementares que se atraem. Na verdade, o que não é natural é a atração entre as formas iguais ou as relações homoafetivas ou homossexuais.

No mundo tecnológico, hardware e software são parceiros inseparáveis. O hardware expressa a forma material e o software o conteúdo inteligente. A forma atrai pela beleza, conforto e praticidade; o conteúdo pela utilidade e desempenho. Nem dá pra imaginar comprar um smartphone ou automóvel etc sem avaliar hardware e software, forma e conteúdo.

É interessante como a forma ajuda no processo de identificação. Por isso usamos foto no nosso documento de identidade. Como esse recurso ainda é pouco, os setores de identificação colhem também as nossas digitais, que são formas únicas e exclusivas e nos diferenciam dos demais seres humanos. Mas a nossa identidade também tem a ver com o “nosso conteúdo” mais oculto! É através do conteúdo do nosso DNA que, por comparação, se revela de quem fomos gerados e a quem geramos. Mas DNA também tem forma, o que nos remete à extraordinária relação entre forma e conteúdo já na própria essência da vida.

Na sociedade os políticos são imbatíveis na exploração da forma, tudo para vender uma aparência que renda muitos votos. Do outro lado, os tecnocratas são especialistas e fascinados em conteúdo. De certa forma a população humana está segmentada em dois grandes grupos, os que têm mais vocação pela forma e os que se interessam mais em produzir conteúdo; entretanto, todos consumimos tanto forma quanto conteúdo.

A pedagogia é a arte de instruir, ensinar ou educar; a didática, um ramo da ciência pedagógica que se dedica a técnicas e métodos de aprendizagem. Em síntese, ambas se ocupam mais com a forma de ensinar. Já a disciplina ou matéria é o conteúdo a ser ensinado.  Isso é mais uma demonstração de que forma e conteúdo caminham lado a lado.

Na área de Comunicação e Marketing parece que a forma tem precedência ao conteúdo. Mesmo que o conteúdo, isto é, o produto ou serviço, não seja lá grande coisa, o criativo trabalho de marketing pode agregar-lhe uma nova imagem, capaz de impactar o mercado consumidor e alavancar muitas vendas.

Enquanto na Comunicação e Marketing a forma parece afetar o conteúdo, na Psicologia, certamente o conteúdo da psique afeta rigorosamente a forma exterior. É como diz o texto bíblico: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate.” (Pv 15.13)

O Pregador do Evangelho tem que levar muito a sério duas áreas interessantes, duas disciplinas ou matérias que fazem parte do currículo de um curso de teologia: Homilética e Hermenêutica. A Homilética trata da arte de pregar, cuja ênfase está no pregador (sua aparência, sua comunicação, seu uso do idioma, sua voz, seus gestos, sua ética, sua metodologia etc). Isso tem a ver com a forma. A Hermenêutica trata da arte da interpretação do texto, neste caso, do texto sagrado. Isso, é claro, tem a ver com o conteúdo da prédica. Portanto, ambas são importantes e necessárias para se alcançar os objetivos propostos.

A forma também está presente na escrita, no alfabeto que devidamente aplicado produz o texto, que passa o conteúdo, a mensagem.

Símbolo também é forma, capaz de sintetizar uma mensagem ou um conteúdo:

Há conteúdos que eternizam a forma e há formas que eternizam o conteúdo. A cruz é uma velha conhecida da humanidade. No passado era símbolo de vergonha e maldição (Gl 3.13). Entretanto, quando a cruz teve Jesus “como conteúdo” nunca mais foi a mesma. Passou a transmitir duas mensagens de consequências eternas: REDENÇÃO (Jesus na Cruz) e RESSURREIÇÃO (Cruz vazia).

O velho e surrado legalismo até parecia se importar com o conteúdo, mas, na verdade se ocupava e se preocupava mesmo é com a forma, com a manifestação exterior, que é mais facilmente vista pelas pessoas.

Jesus rompeu com essa tradição doentia de nortear e avaliar a conduta humana e trouxe nova perspectiva para a lei mosaica, baseada não na forma, mas no conteúdo, na motivação da mente e coração. Por exemplo:

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.” (Mt 5.27)
“Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.” (Mt 5.28)

Os fariseus se importavam e julgavam segundo o ato praticado. Entretanto, Jesus vai muito além, argumentando que o pecado começa e se manifesta na mente, no desejo ilícito e se expressa visível e tangivelmente na cama. A origem é conteúdo, a consumação é forma. Deus é espírito e se importa com o prioritariamente com o conteúdo! O ser humano é matéria, e valoriza muito as aparências, a forma. Não faz muito tempo que as igrejas valorizavam muito mais a forma exterior, no que diz respeito aos usos e costumes de seus membros, e nem tanto o seu ser interior destes.

“A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2)

No princípio, quando tudo começou, havia um porém, a terra estava sem forma e vazia. A fascinante ação do Deus Criador deu forma e conteúdo ao que era caos. Assim, do nada, todas as coisas vieram a existir, ganharam forma e conteúdo. Nesse universo gigantesco e indescritível, até hoje não se encontrou qualquer outro planeta semelhante a Terra, com sua multiplicidade e riqueza de formas e conteúdo. É estupidamente incrível que um ser humano normal, contemple essa realidade incontestável e, mesmo assim, não encontre o Deus Criador.

No final de sua obra criadora, Deus também criou o homem. Primeiramente ele fez a forma, do pó da terra, depois insuflou em suas narinas o conteúdo, o próprio sopro do altíssimo, o fôlego de vida. Com essa forma e conteúdo o homem passou a ser alma vivente (Gn 2.7).

Apesar de todo esse diferencial planetário, apesar de todo o processo civilizatório pelo qual a humanidade tem passado, o olhar divino e dos seres humanos mais atentos, ao se dirigir para a terra, para o mundo dos seres humanos, constata, com pesar, a lamentável repetição do caos, do estado “sem forma e vazia”. Apesar de tantas formas arquitetônicas imponentes, de cidades fantásticas, de empresas sem conta, de produtos e serviços nunca antes vistos, das tecnologias de ponta, de religiosos sem conta e religiões para todos os gostos e intentos; a mente e o coração de um número cada vez maior de pessoas está “sem forma e vazia”. Há falta de forma e vazio do temor a Deus, do amor e respeito ao próximo, de caráter, de valores e princípios, de honestidade, de verdade e justiça, de tolerância, de prioridades consistentes, de solidariedade prática, de fidelidade conjugal, de amor a instituição familiar, enfim, de respeito à própria vida. As consequências da perversidade humana trará, no devido tempo, o juízo divino. Então, o caos que habita a sociedade humana voltará a se estabelecer sobre o planeta, conforme a palavra profética de Jeremias: “Olhei para a terra, e ei-la sem forma e vazia; para os céus, e não tinham luz.” (Jr 4.23)

Jamais perca a esperança! Todo esse cenário caótico sinaliza o fim dos tempos, a consumação dos séculos, a segunda vinda do Senhor Jesus. Ele já veio na forma de Servo (Fp 2.6,7; Is 53), agora virá na forma de Rei (Ap 11.15). Resista até o fim e não se deixe levar pelo que está aí, ao nosso redor. Isso não é forma e nem conteúdo pra você; é tão somente caos. Isso é a ausência da verdadeira forma e do verdadeiro conteúdo que só Jesus pode prover na vida dos que creem nele e o seguem.

Confie nesse Deus que não tem forma visível, conforme as palavras de Jesus: “O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma.” (Jo 5.37). O Senhor Deus se revelou a Moisés como o: “EU SOU O QUE SOU” (Ex 3.14).  Ele não precisa de forma e condena os idólatras, os que lhe querem atribuir forma, ou adoram formas, que são ídolos nulos. Ele é todo conteúdo, que quer estar em nós e mostrar a sua forma invisível através das nossas vidas visíveis!

CUIDADO COM A FORMA:

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.2)

PRESERVE O CONTEÚDO:

“Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós.” (2Tm 1.13-14)

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