A Grande Comissão

Introdução

Ao final do grande ministério na Galileia, Jesus realizou uma mudança significativa na formação dos seus discípulos. Até aquele momento, eles haviam caminhado ao lado do Mestre, observando-o ensinar, pregar, libertar os oprimidos, curar os enfermos e manifestar o Reino de Deus. Eram aprendizes que assimilavam lições pela convivência diária com o Mestre.

Entretanto, chega o momento em que Jesus lhes confia uma missão prática. Em Marcos 6.6b-13, Mateus 9.35–11.1 e Lucas 9.1-6, encontramos a chamada Missão dos Doze. Pela primeira vez, eles deixam de ser apenas observadores para se tornarem executores da obra. O Mestre continua presente, mas agora eles precisam agir, sustentados pela autoridade recebida, pelo poder do Espírito Santo e pela confiança naquele que os enviou.

Esse foi um período de treinamento intensivo. Eles aprenderam fazendo. Experimentaram dificuldades, alegrias, rejeições, vitórias e dependência de Deus. Era a preparação para uma tarefa muito maior que lhes seria entregue após a ressurreição de Cristo.

Depois de vencer a morte e antes de ascender aos céus, Jesus confiou à sua Igreja aquilo que chamamos de A Grande Comissão. Ela não representa apenas uma ordem missionária, mas a continuidade do próprio ministério de Cristo através do seu povo.

É interessante observar que cada evangelista apresenta esse mandamento sob um enfoque diferente. Os quatro relatos não competem entre si; ao contrário, completam-se como diferentes faces de uma mesma missão.

1. O MAPA DA MISSÃO – Mateus (Mt 28.18-20)

18  Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.
19  Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
20  ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.

Mateus apresenta a dimensão geográfica e universal da missão. O evangelho que começou mostrando Jesus como o Messias prometido a Israel, avança abrindo as portas para todas as nações. A missão não ficaria restrita aos judeus. O Reino de Deus alcançaria povos, culturas, idiomas e etnias. O centro da ordem não é simplesmente “ide”, mas “fazei discípulos”.

Evangelizar é o início, fazer discípulos é o objetivo.
Um discípulo é alguém que:
⊳ Crê em Cristo.
⊳ Segue a Cristo.
⊳ Aprende continuamente de Cristo.
⊳ Obedece a Cristo.
⊳ Vive para Cristo.
⊳ Forma outros discípulos de Cristo.

Os quatro verbos fundamentais da Grande Comissão:

  • Ir – romper fronteiras.
  • Fazer discípulos – gerar seguidores de Jesus.
  • Batizar – incorporar os convertidos à comunidade da aliança.
  • Ensinar – conduzir à maturidade espiritual.

Observe que o ensino não consiste apenas em transmitir conhecimento bíblico, mas em ensinar as pessoas “a guardar todas as coisas” que Cristo ordenou. O discipulado produz obediência.

A base da missão
Jesus inicia declarando:
“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”
A missão não depende do poder da Igreja, mas da autoridade do Senhor ressurreto.

A promessa aos comissionados
“E eis que estou convosco todos os dias.”
A Grande Comissão começa com autoridade e se sustenta com presença. Não vamos sozinhos.

2. A PROFUNDIDADE DA MISSÃO – Marcos (Mc 16.15-16)

15  E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
16  Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.

Se Mateus enfatiza os povos, as nações, Marcos enfatiza as pessoas a serem alcançadas. Cada indivíduo importa. Não basta alcançar nações é preciso alcançar corações. O evangelho não é dirigido apenas às multidões, mas ao ser humano individualmente. Cada pessoa possui uma alma eterna. Cada pessoa necessita ouvir a mensagem da salvação. Cada pessoa deverá responder diante de Deus.

Por isso Marcos destaca duas respostas possíveis:
– Quem crê será salvo.
– Quem rejeita permanece sob condenação.

O evangelho exige uma decisão. Não existe neutralidade diante de Cristo. A missão da Igreja é anunciar fielmente. A obra de convencer pertence ao Espírito Santo.

3. O MÉTODO DA MISSÃO – Lucas (Lc 24.46-49; At 1.7-8)

7  Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade;
8  mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.

Antes de enviar, Jesus promete poder – “mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas…”. A missão não seria realizada pela capacidade humana, mas pela ação do Espírito Santo. A palavra “testemunha” (gr. μαρτυρίαν ou marturian) descreve alguém que testemunha aquilo que viu e experimentou. Mais tarde, essa palavra passou a designar aqueles que estavam dispostos a morrer pela verdade que anunciavam – mártires (gr. μάρτυρας ou marturias).

Lucas revela a sequência do avanço do Evangelho e, quem sabe, a estratégia missionária de Cristo:
Ação progressiva – A expansão do Evangelho segue uma progressão: Jerusalém, Judéia, Samaria e confins da terra.

Essa sequência pode ser resumida em três expressões:
TANTO… COMO… ATÉ…

Ou seja:
⊳ Tanto perto.
⊳ Como mais distante.
⊳ Até onde Cristo ainda não é conhecido.

Não era o caso de abandonar um lugar para evangelizar outro. Entretanto, era preciso evangelizar em todas as direções, a partir de Jerusalém, alcançando o mundo inteiro.

Há aqui uma aplicação prática:
⊳ Jerusalém representa nossa família, vizinhos e cidade.
⊳ Judéia representa nossa região.
⊳ Samaria representa aqueles diferentes de nós – cultural, social, religiosa ou etnicamente.
⊳ Os confins da terra representam os povos ainda não alcançados.

Uma igreja saudável participa de todas essas dimensões da missão.

4. O CUSTO/PREÇO DA MISSÃO – João (Jo 20.20-21; cf. Lc 9.57-62)

20  E, dizendo isto, lhes mostrou as mãos e o lado. Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor.
21  Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.

João apresenta o aspecto mais profundo da Grande Comissão – “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.”

Jesus não apenas envia, ele estabelece o modelo do envio.
E, como o Pai enviou Jesus?
⊳ Em humildade.
⊳ Em serviço.
⊳ Em obediência.
⊳ Em sofrimento.
⊳ Em renúncia.
⊳ Em amor sacrificial.
Assim também a Igreja é enviada.

O discípulo não é chamado para uma vida de conforto, mas de fidelidade. Lucas registra que seguir Jesus exige disposição para deixar segurança, interesses pessoais e prioridades secundárias (Lc 9.57-62). A missão possui um preço. Ao longo da história, milhares de cristãos entregaram bens, carreiras, sonhos e até a própria vida para que o Evangelho chegasse a outros povos.

A cruz precede a coroa!

Uma visão integrada da Grande Comissão em que cada Evangelho acrescenta um elemento indispensável:

EvangelhoÊnfasePergunta respondida
MateusO mapaAonde devemos ir?
MarcosA profundidadeA quem devemos anunciar?
LucasO métodoComo a missão deve avançar?
JoãoO custoQuanto estamos dispostos a pagar?

Nenhuma dessas perspectivas é suficiente isoladamente. A missão precisa unir: autoridade, compaixão, estratégia, dependência do Espírito Santo, disposição para sacrificar-se.

Aplicações para a Igreja de hoje

A Grande Comissão continua válida. Ela não foi dirigida apenas aos onze apóstolos, mas à Igreja de todas as épocas.

Cada cristão participa dela de maneiras diferentes:
⊳ Orando pelos missionários.
⊳ Contribuindo financeiramente.
⊳ Testemunhando de Cristo onde vive.
⊳ Discipulando novos convertidos.
⊳ Usando seus dons para fortalecer a Igreja.
⊳ Indo, quando Deus chamar.

“Missões se faz com os 🦶 pés dos que vão, com as 🫴 💰 mãos dos que contribuem e com os 🦵 joelhos que se dobram em oração 🙏.”

A pergunta não deve ser apenas: “Quem irá?”
A pergunta correta é: “Qual é a minha participação na Grande Comissão?”

Conclusão

A Grande Comissão se fundamenta na autoridade de Cristo, se desenvolve na dependência do poder do Espírito Santo e permanece sustentada pela presença constante do Senhor. Ela tem origem no Filho de Deus que declara: “Toda a autoridade me foi dada”, e se sustenta em uma promessa igualmente poderosa: “E eis que estou convosco todos os dias.”

Entre essas duas declarações encontra-se a responsabilidade da Igreja. A Igreja existe para adorar a Deus, edificar os santos e anunciar o Evangelho. A missão não é uma atividade entre muitas; ela faz parte da própria identidade do povo de Deus. Desde o chamado de Abraão (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”), passando pelos profetas, culminando em Cristo e chegando à Igreja, toda a Escritura aponta para o propósito redentor de Deus de reunir para si um povo de todas as tribos, línguas, povos e nações (Ap 7.9).

Assim, a Grande Comissão não é apenas uma ordem a ser obedecida, mas um privilégio a ser vivido. Somos chamados a continuar a obra iniciada por Cristo, proclamando o Evangelho até que “os confins da terra” tenham ouvido a mensagem da salvação e até que o Senhor volte em glória.

A missão continua: O Filho ainda envia, sob a autoridade concedida pelo Pai. O Espírito ainda capacita. E a promessa permanece: “Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século.”

Eis-me aqui, usa-me Senhor!


Veja, também:

A conversão de Cornélio (Parte 2)

Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

  • O encontro de Pedro com Cornélio (vv.24-29)

24  No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos.

A viagem não era tão longa assim (cerca de 51 Km em linha reta) para os padrões da época, pois chegaram lá no dia seguinte. Nas atitudes de Cornélio descritas no texto podemos deduzir que: (i) Ele estava seguro e tinha fé de que a missão teria bom êxito e Pedro viria com seus servos; (ii) Ele não achava correto reservar apenas para si a oportunidade e privilégio de vivenciar aquele momento tão especial de ouvir um enviado por Deus. Seu altruísmo o levou a estender esse privilégio aos seus parentes e amigos mais próximos.

25  Aconteceu que, indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe aos pés, o adorou.

Finalmente, Pedro chegou à casa de Cornélio que o estava esperando. Percebe-se que Cornélio ainda estava sob o impacto da visão e sem a adequada noção do significado dos fatos. Certamente ele tinha muito a aprender sobre o mundo espiritual e o mundo material. O fato de Pedro ter sido apontado na visão como um interlocutor divino, não o tinha promovido ao status de um ser superior ou celestial, diante de quem se deveria prostrar e adorar. Se nem os seres celestiais são dignos de veneração e adoração, quanto mais os seres humanos e mortais. Somos apenas servos “inúteis” aos quais foi conferido o privilégio de servir ao Deus dos deuses e Senhor dos senhores. O equívoco de Cornélio pode se repetir na comunidade cristã de qualquer época, quando os liderados confundem e trocam submissão e apreço, por devoção e exaltação a seus líderes!

26  Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu também sou homem.

Podemos até imaginar o constrangimento de Pedro diante da cena de Cornélio prostrado aos seus pés. Rapidamente ele interferiu e reverteu a situação esclarecendo que todos somos iguais e objeto da mesma graça divina.

27  Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali,

28  a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo;

29  por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar. Pergunto, pois: por que razão me mandastes chamar?

Diante daquele público gentio, isto é, de Cornélio e seus convidados, bem como dos judeus que o acompanhava, Pedro achou por bem começar expondo e ratificando a prática dos judeus de não aproximação dos não judeus. Pelo seu falar, isso era algo de conhecimento de todos. Justifica, então, sua presença ali, rompendo tal prática, como algo que decorria de uma experiência mística com Deus. Assim se expressando, demonstra que compreendeu o significado daquela visão do lençol com vários tipos de animais impuros. Faltava-lhe, ainda, ser esclarecido da razão porque lhe mandaram chamar.

  • Cornélio conta a visão (vv.30-33)

30  Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes

31  e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas, lembradas na presença de Deus.

32  Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de Simão, curtidor, à beira-mar.

33  Portanto, sem demora, mandei chamar-te, e fizeste bem em vir. Agora, pois, estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.

A fala inicial de Cornélio nos permite esboçar a provável cronologia dos acontecimentos.

1º dia – às 15h (hora nona): Cornélio teve a visão. Início da viagem(?)

2º dia: Viagem da comitiva até Jope, chegada, encontro com Pedro e pernoite.

3º dia: Viagem de volta da comitiva, acompanhada de Pedro e outros.

4º dia – às 15h (hora nona): Término da viagem e encontro de Pedro com Cornélio e seus convidados.

Ao contar a visão, Cornélio expressa algumas variações em relação à narrativa anterior. O horário era “cerca da hora nona do dia”; agora, “por volta” desta mesma hora, e durante a observação da “hora nona de oração”, em sua casa. Anteriormente fora uma visão quando dele se aproximou um anjo; desta feita um “varão de vestes resplandecentes” se apresentou diante dele. A fala daquele ser se manteve na mesma linha: As orações e esmolas de Cornélio chegaram diante de Deus e Pedro deveria ser chamado.

Finalmente, Cornélio declara que cumpriu a sua parte, em obediência à orientação divina, e que Pedro também fez bem em ter atendido o chamado. Então, estando todos ali prontos e à disposição, passou a palavra a Pedro.

  • A pregação de Pedro (vv.34-36)

O que dizer dessa pregação de Pedro? Que ela foi inspirada pelo Espírito de Deus não há qualquer dúvida. Na verdade, sua mensagem foi visceral no sentido que traduzia tudo aquilo que ele viu, ouviu e vivenciou intensa e diretamente como testemunha ocular do Mestre. Então, a síntese da mensagem pode ser expressa nos seguintes sete pontos:

1º) Uma nova visão de Deus (vv.34-35).

34  Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas;

35  pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.

Pedro percebe ou reconhece algo mais sobre Deus. Um Deus que não é propriedade particular de um povo – os judeus – mas que comprou para si, pelo sangue do seu Filho, um povo de propriedade exclusiva sua, que alcança todas as tribos, raças, línguas, povos e nações. Um Deus que não faz acepção de pessoas; que acolhe homens e mulheres, pobres e ricos, gente nova e idosos. Um Deus que procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23). Um Deus que está atento aos que o temem e fazem o que é reto e justo; lhes oferecendo salvação, não por causa dos seus méritos pessoais, mas pela graça salvadora de Cristo. “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.” (Sl 145.18)

2º) O Evangelho da Paz (v.36)

36  Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.

Cornélio e os demais convidados aguardavam a “palavra” de Deus por intermédio de Pedro. Jesus era e é o verbo de Deus que se fez carne; a palavra encarnada, enviada inicialmente aos filhos de Israel. A essência da pregação de Pedro é Jesus, o enviado de Deus, aquele que anunciou o evangelho da paz: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1); o evangelho da reconciliação: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,” (2Co 5.18). Este Jesus é o “Senhor e Salvador”, expressão essa muito apreciada e usada por Pedro (2Pe 1.11; 2.20; 3.2; 3.18). 

3º) A vida e ministério de Jesus (vv.37-39a)

37  Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou,

38  como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele;

39  e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Aparentemente Pedro tinha a percepção de que os seus ouvintes haviam tomado conhecimento da vida de Jesus. Realmente seus feitos e fama se espalharam rapidamente por toda a parte. Entretanto, achou por bem relembrar os fatos, começando com o batismo de arrependimento pregado e realizado por João Batista, bem como mencionando a unção de Jesus pelo Espírito Santo. Pedro, na qualidade de testemunha ocular, não podia deixar de citar o poder de Deus que atuava através de Jesus, curando e libertando vidas por toda a parte.

4º) Sua morte (v.39b)

… ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Não há Evangelho da Paz ou pregação do Evangelho sem mencionar a morte de Jesus, sua morte na cruz! “agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis,” (Cl 1.22)

5º) Sua ressurreição (vv.40-41)

40  A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto,

41  não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos;

O grande diferencial do cristianismo é exatamente a morte sacrificial seguida da ressurreição sobrenatural do seu líder maior – Jesus. Todos os demais estão em seus túmulos ou permanecem mortos. A ressurreição de Cristo tem alguns significados relevantes para a Fé Cristã, tais como: O motivo: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Rm 4.25); – A garantia: “Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.” (1Co 6.14; ver tb 2Co 4.14; 1Ts 4.14); – A validação: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1Co 15.14; ver tb 1Co 15.17, 20); – O alvo superior: “que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1Pe 1.21) 

6º) A grande comissão (v.42)

42  e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos.

As boas novas do Evangelho deveriam ser anunciadas a todos os povos. Pedro, já se encaminhando para o final da sua pregação e da síntese que fazia da vida e obra de Jesus, não poderia deixar de fora a menção da grande comissão, assim expressa por Jesus: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19).

7º) A supremacia de Jesus e sua obra redentora (v.43)

43  Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados.

Esse era e é o projeto de Deus para a salvação dos pecadores, estabelecido por ele, antes mesmo da fundação do mundo, anunciado pelos profetas e realizado no fim dos tempos: “mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.19-20). E, ainda: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,” (Ef 1.3-6). Assim, a pregação de Pedro é cristocêntrica; começa, se desenvolve e termina com Jesus Cristo: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.” (Hb 8.6).

  • A descido do Espírito Santo (vv.44-47)

Este acontecimento também pode ser chamado de “Pentecostes gentílico”.

44  Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.

45  E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo;

46  pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então, perguntou Pedro:

Pensar que a salvação messiânica tivesse limites raciais – os judeus – era negar a evidência da revelação profética. Por outro lado, aceitar uma salvação universal não implicava em entender o “modus operandi” de Deus entre os futuros salvos, dos diversos povos. De fato, essa salvação universal viria a tomar forma através de uma igreja que não deveria conhecer fronteiras raciais, sociais, políticas etc.

O próximo “ato do Espírito”, na direção do estabelecimento de uma Igreja Universal era o rompimento do “racismo judaico”. Para um povo que durante séculos foi chamado de “povo de Deus”, proibido por lei de se misturar matrimonialmente com outros povos (Dt 7.3), proibido de entrar na casa de estrangeiros e fazer refeições com estes (At 10.28; 11.3); ter que modificar toda essa herança cultural, admitindo agora uma união fraternal com cristãos de outras nações, não seria tarefa fácil.

A Pedro coube a missão de abrir a porta do evangelho aos gentios (Mt 16.18-19). Antes disso, o Espírito já estava chamando a Saulo-Paulo, para que, aberta a porta da graça aos gentios, este pudesse levar a igreja “até aos confins da terra”.

Entretanto, Pedro estava acomodado, interessado apenas nos compatriotas da Judéia (Lida, Sarona e Jope – At 9.32-36). O capítulo 10 de Atos relata então toda a operação do Espírito em Pedro (At 10.9-22), através dele (At 10.23-43) e independentemente dele (At 10.1-8; 44-48), para que a integração da igreja gentílica fosse uma realidade.

Sobre o derramamento especial do Espírito na casa de Cornélio devemos considerar os seguintes pontos:

1°) Chegada a hora dos gentios, Deus intervém. A igreja deveria avançar em direção aos confins da terra, porém Pedro estava acomodado, em Jope, a beira-mar. Foi necessário então que “os confins da terra”, ávidos para receber o evangelho, fossem ao encontro dele;

2°) Para que Pedro pudesse se convencer do caráter universal da igreja e, mais tarde, tivesse argumentos para se defender perante os judeus (At 11.1-18) foi necessária uma manifestação especial da parte de Deus: uma visão celestial a cada parte envolvida (Pedro e Cornélio) e um derramamento do Espírito sobre os dois grupos reunidos;

3°) A identificação deste derramamento como um “Pentecostes gentílico” é perfeitamente aceitável:

– O Espírito foi concedido a todos, de forma inesperada (como no princípio), portanto, sem imposição de mãos (como em Samaria), causando perplexidade aos judeus presentes;

– A forma exterior usada para autenticar o dom do Espírito não foi exatamente igual à do primeiro Pentecostes, porém teve em comum o falar em línguas; 

– Pedro, em sua defesa perante a igreja de Jerusalém, colocou o acontecimento   de   Cesaréia no mesmo nível  do  primeiro Pentecostes – “como  também  sobre  nós no princípio”  (At 11.15; comp. At 11.17);   

– Pedro concluiu que esses derramamentos estavam relacionados com o cumprimento da promessa de Jesus sobre o “batismo com o Espírito Santo” (At 11.16).

4°) Para aqueles que defendem o batismo com o Espírito Santo como uma segunda bênção, sendo a primeira a conversão, fica muito difícil explicar este texto. Pedro não havia sequer concluído sua pregação e o Espírito “caiu sobre ele”. Não se pode caracterizar aqui essas supostas etapas da carreira cristã;

5°) Seria humanamente improvável que Pedro viesse a batizar esses cristãos de Cesaréia se o Espírito não o tivesse antecedido, com manifestações inequívocas da aprovação divina.

47  Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?

Certamente aqueles gentios, tendo crido no Senhor Jesus e tendo recebido o batismo com o Espírito Santo, já faziam parte da igreja de Cristo. No entanto, tiveram de ser batizados com água, pois, deveriam ser reconhecidos pelas autoridades cristãs, como membros da assembleia local. O Sr. Landes comentando este texto diz: “A palavra – ‘negar’ – no grego é – kolusai – e também se traduz por ‘impedir, proibir, recusar ou vedar’. A expressão ‘negar (recusar) a água’ dá a entender que a água devia ser trazida e que ninguém devia impedir este ato… Em Lucas 18.16 Jesus usou o mesmo verbo para dizer: ‘Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais’. Disto nos parece que Pedro não desejava que alguém impedisse de ser trazida a água para batizar Cornélio e seus amigos (estes)”.

48  E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias.

Na sua defesa em Jerusalém, a respeito desse caso, aquela experiência descrita como “caiu o Espírito Santo sobre todos”, “foi derramado”, foi identificada por Pedro em Atos 11.15-16 como o cumprimento da promessa de Jesus: “Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At 11.16). O “cair” ou “derramar” foi identificado como batismo. Portanto, foi derramada ou aspergida água sobre Cornélio e seus amigos.


Veja também:

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)