A conversão de Cornélio (Parte 3)

Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

  • A reação ao ocorrido (vv.1-3)

1  Chegou ao conhecimento dos apóstolos e dos irmãos que estavam na Judéia que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus.

O que aconteceu na casa de Cornélio não passou despercebido, nem em Cesaréia, nem no restante da Palestina. Foi um acontecimento singular, incomum e sobrenatural; não foi o primeiro, nem seria o último. O livro de Atos registra cinco “derramamentos” ou “batismos” do Espírito Santo que testificam a participação divina na história do cristianismo, além de selar, desta forma, o progressivo avanço da igreja. São eles:

– O “Pentecostes apostólico” (At 2.1-13) (Línguas)
– O “Pentecostes eclesiástico” (At 4.31)
– O “Pentecostes samaritano” (At 8.14-17)
– O “Pentecostes gentílico” (At 10.44-47) (Línguas)
– O “Pentecostes efésio” (At 19.1-7) (Línguas)

Todos sabemos que o Pentecostes de Atos 2 foi único no sentido de marcar o início de uma nova época, o início da igreja de Cristo. Vale lembrar o que disse Merrill Unger: “Pentecostes não pode ser repetido assim como a criação do mundo ou do homem; é de uma vez para sempre, como a encarnação e morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Isto vem dos seguintes fatos: (1) O Espírito de Deus só poderia vir, chegar e fazer morada na igreja uma vez, o que fez no Pentecostes. (2) O Espírito de Deus só poderia ser dado, recebido e depositado na igreja uma vez e isso aconteceu no Pentecostes. (3) O evento ocorreu num tempo específico (Atos 2.1), cumprindo um tipo específico do Antigo Testamento (Levítico 23.15-22), num lugar específico (Jerusalém, cf.  Lucas 24.49), sobre uns poucos específicos (Atos 1.13-14), para um propósito específico (1Corintians 12.12-20), a fim de introduzir uma nova ordem. O evento não constituía de fatores contínuos e recorrentes da nova ordem uma vez instituída.”. Com a devida licença  teológica, estas cinco ocorrências parecem testificar a forma de avanço do evangelho expressa em Atos 1.8: “…e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Entretanto, parece que isto não estava muito claro na mente dos apóstolos e cristãos judeus.   

2  Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: 3  Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles.

O registro bíblico não deixa claro que Pedro tenha sido expressamente convocado a ir a Jerusalém para se explicar. O fato é que quando lá chegou ele foi questionado pelos legalistas e defensores da circuncisão. Pela pergunta feita a Pedro parece que aquilo que chegou até estes inquisidores foi uma versão reduzida ou recortada do ocorrido. Outra opção de interpretação é que, de tudo quanto tomaram conhecimento, o que mais lhes interessava ou importava ou incomodava foi a aproximação de Pedro de gentios, rompendo padrões ou tradições ou tabus judaicos.  

  • As explicações de Pedro (vv.4-17)

4  Então, Pedro passou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo:

Não há dúvida de que Pedro precisava contar toda a história para convencê-los de que não havia cometido qualquer transgressão. Pode-se dizer que a tarefa de Lucas, o escritor de Atos, neste ponto, veio bem ao encontro do seu estilo e vocação: “igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,” (Lc 1.3).

5  Eu estava na cidade de Jope orando e, num êxtase, tive uma visão em que observei descer um objeto como se fosse um grande lençol baixado do céu pelas quatro pontas e vindo até perto de mim.
6  E, fitando para dentro dele os olhos, vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu.
7  Ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come.
8  Ao que eu respondi: de modo nenhum, Senhor; porque jamais entrou em minha boca qualquer coisa comum ou imunda.
9  Segunda vez, falou a voz do céu: Ao que Deus purificou não consideres comum.
10  Isto sucedeu por três vezes, e, de novo, tudo se recolheu para o céu.
11  E eis que, na mesma hora, pararam junto da casa em que estávamos três homens enviados de Cesaréia para se encontrarem comigo.

A história contada aqui por Pedro é praticamente idêntica ao que foi narrado anteriormente, inclusive, no versículo 11, consta o detalhe de que ali chegaram exatamente aqueles três os homens que foram enviados por Cornélio: “dois dos seus domésticos e um soldado piedoso” (At 10.7).   

12  Então, o Espírito me disse que eu fosse com eles, sem hesitar. Foram comigo também estes seis irmãos; e entramos na casa daquele homem.

Temos aqui outro detalhe adicional que é o de Pedro ter sido acompanhado por seis irmãos ali de Jope, quantidade essa bastante significativa. Anteriormente não fora dito a quantidade desses irmãos (At 10.23).

13  E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro,
14  o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa.

Depreende-se, de toda a narrativa, que Lucas, o escritor deste Livro, deve ter tido a intenção de ir acrescentando os detalhes gradativamente. Na primeira menção ao que o anjo disse a Cornélio é revelado que ele apenas deveria mandar chamar Pedro (At 10.6). Ao relatar aquela visão, Cornélio ratifica essa versão (At 10.33). Agora, em sua exposição do que o anjo falou, Pedro traz à luz algo extremamente relevante, provavelmente já interpretando a verdadeira razão dele ter sido chamado para essa missão: “o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa”. Essa explicação de Pedro deixa muito claro o que já afirmamos anteriormente, a saber, que Cornélio era tão somente um homem piedoso e religioso que precisava de salvação, bem como as pessoas da sua casa – “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (1Pe 1.23); “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17). A salvação é individual, não é por atacado. Fica claro o propósito divino de alcançar muitas vidas ali para a salvação eterna.

15  Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio.
16  Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.
17  Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?

Já tivemos a oportunidade de comentar esta narrativa sobre a descida do Espírito Santo em Atos 10.44-46. Vale destacar aqui a percepção de tudo aquilo por parte de Pedro:

1º) A manifestação do Espírito Santo foi algo involuntário, inesperado, não programado e não ocorrido como resposta a um clamor. Portanto, foi algo que transcendeu à vontade ou intenção humanas.

2º) Foi semelhante ao que já havia acontecido no princípio com eles (judeus), provavelmente no Pentecostes (At 2.1-13). Isso deveria levá-los a entender que Deus não fazia distinção entre judeus e gentios, pois Cristo veio para ambos.

3º) Foi o cumprimento da promessa de Cristo quanto a um batismo diferente, com o Espírito Santo. Desta forma, depreende-se que o ato de “cair sobre” (movimento de cima para baixo) foi interpretado como “batismo”.

4º) Que o dom ou dádiva do Espírito Santo está associado ao crer.

5º) Que precisamos estar atentos para discernir os sinais, interpretando-os à luz do contexto bíblico, para não nos acharmos na contramão da vontade de Deus.

  • O desfecho conciliador (v.18)

18  E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.

Percebe-se que, inicialmente, os ânimos estavam acirrados e contrários à atitude de Pedro se aproximando dos gentios. Entretanto, a igreja judaica reunida, finalmente se deu conta de que novos tempos eram chegados. A atuação eficaz do Espírito permitiu-lhes perceber que Jesus é o Salvador de todos os que creem na sua obra redentora, tornando-se assim membros do seu corpo – a Igreja Invisível.

Veja também:


Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

A conversão de Cornélio (Parte 2)

Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

  • O encontro de Pedro com Cornélio (vv.24-29)

24  No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos.

A viagem não era tão longa assim (cerca de 51 Km em linha reta) para os padrões da época, pois chegaram lá no dia seguinte. Nas atitudes de Cornélio descritas no texto podemos deduzir que: (i) Ele estava seguro e tinha fé de que a missão teria bom êxito e Pedro viria com seus servos; (ii) Ele não achava correto reservar apenas para si a oportunidade e privilégio de vivenciar aquele momento tão especial de ouvir um enviado por Deus. Seu altruísmo o levou a estender esse privilégio aos seus parentes e amigos mais próximos.

25  Aconteceu que, indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe aos pés, o adorou.

Finalmente, Pedro chegou à casa de Cornélio que o estava esperando. Percebe-se que Cornélio ainda estava sob o impacto da visão e sem a adequada noção do significado dos fatos. Certamente ele tinha muito a aprender sobre o mundo espiritual e o mundo material. O fato de Pedro ter sido apontado na visão como um interlocutor divino, não o tinha promovido ao status de um ser superior ou celestial, diante de quem se deveria prostrar e adorar. Se nem os seres celestiais são dignos de veneração e adoração, quanto mais os seres humanos e mortais. Somos apenas servos “inúteis” aos quais foi conferido o privilégio de servir ao Deus dos deuses e Senhor dos senhores. O equívoco de Cornélio pode se repetir na comunidade cristã de qualquer época, quando os liderados confundem e trocam submissão e apreço, por devoção e exaltação a seus líderes!

26  Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu também sou homem.

Podemos até imaginar o constrangimento de Pedro diante da cena de Cornélio prostrado aos seus pés. Rapidamente ele interferiu e reverteu a situação esclarecendo que todos somos iguais e objeto da mesma graça divina.

27  Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali,

28  a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo;

29  por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar. Pergunto, pois: por que razão me mandastes chamar?

Diante daquele público gentio, isto é, de Cornélio e seus convidados, bem como dos judeus que o acompanhava, Pedro achou por bem começar expondo e ratificando a prática dos judeus de não aproximação dos não judeus. Pelo seu falar, isso era algo de conhecimento de todos. Justifica, então, sua presença ali, rompendo tal prática, como algo que decorria de uma experiência mística com Deus. Assim se expressando, demonstra que compreendeu o significado daquela visão do lençol com vários tipos de animais impuros. Faltava-lhe, ainda, ser esclarecido da razão porque lhe mandaram chamar.

  • Cornélio conta a visão (vv.30-33)

30  Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes

31  e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas, lembradas na presença de Deus.

32  Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de Simão, curtidor, à beira-mar.

33  Portanto, sem demora, mandei chamar-te, e fizeste bem em vir. Agora, pois, estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.

A fala inicial de Cornélio nos permite esboçar a provável cronologia dos acontecimentos.

1º dia – às 15h (hora nona): Cornélio teve a visão. Início da viagem(?)

2º dia: Viagem da comitiva até Jope, chegada, encontro com Pedro e pernoite.

3º dia: Viagem de volta da comitiva, acompanhada de Pedro e outros.

4º dia – às 15h (hora nona): Término da viagem e encontro de Pedro com Cornélio e seus convidados.

Ao contar a visão, Cornélio expressa algumas variações em relação à narrativa anterior. O horário era “cerca da hora nona do dia”; agora, “por volta” desta mesma hora, e durante a observação da “hora nona de oração”, em sua casa. Anteriormente fora uma visão quando dele se aproximou um anjo; desta feita um “varão de vestes resplandecentes” se apresentou diante dele. A fala daquele ser se manteve na mesma linha: As orações e esmolas de Cornélio chegaram diante de Deus e Pedro deveria ser chamado.

Finalmente, Cornélio declara que cumpriu a sua parte, em obediência à orientação divina, e que Pedro também fez bem em ter atendido o chamado. Então, estando todos ali prontos e à disposição, passou a palavra a Pedro.

  • A pregação de Pedro (vv.34-36)

O que dizer dessa pregação de Pedro? Que ela foi inspirada pelo Espírito de Deus não há qualquer dúvida. Na verdade, sua mensagem foi visceral no sentido que traduzia tudo aquilo que ele viu, ouviu e vivenciou intensa e diretamente como testemunha ocular do Mestre. Então, a síntese da mensagem pode ser expressa nos seguintes sete pontos:

1º) Uma nova visão de Deus (vv.34-35).

34  Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas;

35  pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.

Pedro percebe ou reconhece algo mais sobre Deus. Um Deus que não é propriedade particular de um povo – os judeus – mas que comprou para si, pelo sangue do seu Filho, um povo de propriedade exclusiva sua, que alcança todas as tribos, raças, línguas, povos e nações. Um Deus que não faz acepção de pessoas; que acolhe homens e mulheres, pobres e ricos, gente nova e idosos. Um Deus que procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23). Um Deus que está atento aos que o temem e fazem o que é reto e justo; lhes oferecendo salvação, não por causa dos seus méritos pessoais, mas pela graça salvadora de Cristo. “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.” (Sl 145.18)

2º) O Evangelho da Paz (v.36)

36  Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos.

Cornélio e os demais convidados aguardavam a “palavra” de Deus por intermédio de Pedro. Jesus era e é o verbo de Deus que se fez carne; a palavra encarnada, enviada inicialmente aos filhos de Israel. A essência da pregação de Pedro é Jesus, o enviado de Deus, aquele que anunciou o evangelho da paz: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1); o evangelho da reconciliação: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,” (2Co 5.18). Este Jesus é o “Senhor e Salvador”, expressão essa muito apreciada e usada por Pedro (2Pe 1.11; 2.20; 3.2; 3.18). 

3º) A vida e ministério de Jesus (vv.37-39a)

37  Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou,

38  como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele;

39  e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Aparentemente Pedro tinha a percepção de que os seus ouvintes haviam tomado conhecimento da vida de Jesus. Realmente seus feitos e fama se espalharam rapidamente por toda a parte. Entretanto, achou por bem relembrar os fatos, começando com o batismo de arrependimento pregado e realizado por João Batista, bem como mencionando a unção de Jesus pelo Espírito Santo. Pedro, na qualidade de testemunha ocular, não podia deixar de citar o poder de Deus que atuava através de Jesus, curando e libertando vidas por toda a parte.

4º) Sua morte (v.39b)

… ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro.

Não há Evangelho da Paz ou pregação do Evangelho sem mencionar a morte de Jesus, sua morte na cruz! “agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis,” (Cl 1.22)

5º) Sua ressurreição (vv.40-41)

40  A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto,

41  não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos;

O grande diferencial do cristianismo é exatamente a morte sacrificial seguida da ressurreição sobrenatural do seu líder maior – Jesus. Todos os demais estão em seus túmulos ou permanecem mortos. A ressurreição de Cristo tem alguns significados relevantes para a Fé Cristã, tais como: O motivo: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Rm 4.25); – A garantia: “Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.” (1Co 6.14; ver tb 2Co 4.14; 1Ts 4.14); – A validação: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;” (1Co 15.14; ver tb 1Co 15.17, 20); – O alvo superior: “que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1Pe 1.21) 

6º) A grande comissão (v.42)

42  e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos.

As boas novas do Evangelho deveriam ser anunciadas a todos os povos. Pedro, já se encaminhando para o final da sua pregação e da síntese que fazia da vida e obra de Jesus, não poderia deixar de fora a menção da grande comissão, assim expressa por Jesus: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mt 28.19).

7º) A supremacia de Jesus e sua obra redentora (v.43)

43  Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados.

Esse era e é o projeto de Deus para a salvação dos pecadores, estabelecido por ele, antes mesmo da fundação do mundo, anunciado pelos profetas e realizado no fim dos tempos: “mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.19-20). E, ainda: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,” (Ef 1.3-6). Assim, a pregação de Pedro é cristocêntrica; começa, se desenvolve e termina com Jesus Cristo: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.” (Hb 8.6).

  • A descido do Espírito Santo (vv.44-47)

Este acontecimento também pode ser chamado de “Pentecostes gentílico”.

44  Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.

45  E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo;

46  pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então, perguntou Pedro:

Pensar que a salvação messiânica tivesse limites raciais – os judeus – era negar a evidência da revelação profética. Por outro lado, aceitar uma salvação universal não implicava em entender o “modus operandi” de Deus entre os futuros salvos, dos diversos povos. De fato, essa salvação universal viria a tomar forma através de uma igreja que não deveria conhecer fronteiras raciais, sociais, políticas etc.

O próximo “ato do Espírito”, na direção do estabelecimento de uma Igreja Universal era o rompimento do “racismo judaico”. Para um povo que durante séculos foi chamado de “povo de Deus”, proibido por lei de se misturar matrimonialmente com outros povos (Dt 7.3), proibido de entrar na casa de estrangeiros e fazer refeições com estes (At 10.28; 11.3); ter que modificar toda essa herança cultural, admitindo agora uma união fraternal com cristãos de outras nações, não seria tarefa fácil.

A Pedro coube a missão de abrir a porta do evangelho aos gentios (Mt 16.18-19). Antes disso, o Espírito já estava chamando a Saulo-Paulo, para que, aberta a porta da graça aos gentios, este pudesse levar a igreja “até aos confins da terra”.

Entretanto, Pedro estava acomodado, interessado apenas nos compatriotas da Judéia (Lida, Sarona e Jope – At 9.32-36). O capítulo 10 de Atos relata então toda a operação do Espírito em Pedro (At 10.9-22), através dele (At 10.23-43) e independentemente dele (At 10.1-8; 44-48), para que a integração da igreja gentílica fosse uma realidade.

Sobre o derramamento especial do Espírito na casa de Cornélio devemos considerar os seguintes pontos:

1°) Chegada a hora dos gentios, Deus intervém. A igreja deveria avançar em direção aos confins da terra, porém Pedro estava acomodado, em Jope, a beira-mar. Foi necessário então que “os confins da terra”, ávidos para receber o evangelho, fossem ao encontro dele;

2°) Para que Pedro pudesse se convencer do caráter universal da igreja e, mais tarde, tivesse argumentos para se defender perante os judeus (At 11.1-18) foi necessária uma manifestação especial da parte de Deus: uma visão celestial a cada parte envolvida (Pedro e Cornélio) e um derramamento do Espírito sobre os dois grupos reunidos;

3°) A identificação deste derramamento como um “Pentecostes gentílico” é perfeitamente aceitável:

– O Espírito foi concedido a todos, de forma inesperada (como no princípio), portanto, sem imposição de mãos (como em Samaria), causando perplexidade aos judeus presentes;

– A forma exterior usada para autenticar o dom do Espírito não foi exatamente igual à do primeiro Pentecostes, porém teve em comum o falar em línguas; 

– Pedro, em sua defesa perante a igreja de Jerusalém, colocou o acontecimento   de   Cesaréia no mesmo nível  do  primeiro Pentecostes – “como  também  sobre  nós no princípio”  (At 11.15; comp. At 11.17);   

– Pedro concluiu que esses derramamentos estavam relacionados com o cumprimento da promessa de Jesus sobre o “batismo com o Espírito Santo” (At 11.16).

4°) Para aqueles que defendem o batismo com o Espírito Santo como uma segunda bênção, sendo a primeira a conversão, fica muito difícil explicar este texto. Pedro não havia sequer concluído sua pregação e o Espírito “caiu sobre ele”. Não se pode caracterizar aqui essas supostas etapas da carreira cristã;

5°) Seria humanamente improvável que Pedro viesse a batizar esses cristãos de Cesaréia se o Espírito não o tivesse antecedido, com manifestações inequívocas da aprovação divina.

47  Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?

Certamente aqueles gentios, tendo crido no Senhor Jesus e tendo recebido o batismo com o Espírito Santo, já faziam parte da igreja de Cristo. No entanto, tiveram de ser batizados com água, pois, deveriam ser reconhecidos pelas autoridades cristãs, como membros da assembleia local. O Sr. Landes comentando este texto diz: “A palavra – ‘negar’ – no grego é – kolusai – e também se traduz por ‘impedir, proibir, recusar ou vedar’. A expressão ‘negar (recusar) a água’ dá a entender que a água devia ser trazida e que ninguém devia impedir este ato… Em Lucas 18.16 Jesus usou o mesmo verbo para dizer: ‘Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais’. Disto nos parece que Pedro não desejava que alguém impedisse de ser trazida a água para batizar Cornélio e seus amigos (estes)”.

48  E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então, lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias.

Na sua defesa em Jerusalém, a respeito desse caso, aquela experiência descrita como “caiu o Espírito Santo sobre todos”, “foi derramado”, foi identificada por Pedro em Atos 11.15-16 como o cumprimento da promessa de Jesus: “Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At 11.16). O “cair” ou “derramar” foi identificado como batismo. Portanto, foi derramada ou aspergida água sobre Cornélio e seus amigos.


Veja também:

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

A conversão de Cornélio (Parte 1)

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)

Lucas, o escritor do livro de Atos, inspirado por Deus, mostra-se muito atento aos acontecimentos que marcaram os primeiros passos da igreja. Em algumas ocasiões ele registra a fenomenal expansão da igreja e faz questão de quantificar as multidões que receberam e creram no Evangelho. Esse foi o grande milagre nos primórdios da igreja. O escritor deste livro, tão importante e empolgante, nos presenteia e nos enriquece com sua sensibilidade ao mencionar e descrever as experiências vividas por alguns personagens, gente simples ou de maior relevância na sociedade, gente de fora e de dentro da igreja, judeus e gentios, tais como: o coxo da porta do templo (At 3); Estêvão (At 7); Simão, o mágico (At 8); o eunuco etíope (At 8); Saulo (At 9); Enéias (At 9); Dorcas (At 9) e, neste caso em análise, Cornélio. São vidas preciosas alcançadas pela pregação do evangelho e pela graça divina. São registros que conseguem desempenhar o papel de “humanizar” o divino e elevar o humano “aos lugares celestiais”, às “insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

  • Quem era Cornélio? (vv.1-2)

1  Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana,

Cornélio era um oficial do exército romano que comandava 100 homens, daí o termo “centurião”. Ele morava em Cesaréia, uma cidade situada nas margens do mar Mediterrâneo, a cerca de 82 Km (em linha reta) a noroeste de Jerusalém. Segundo os historiadores, naquela época era o local onde residiam os procuradores romanos e quartel-general de suas atividades na Palestina. Tornou-se um importante centro comercial marítimo e cultural.

2  piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus.

Sem dúvida o perfil de Cornélio descrito aqui neste versículo 2 é diferenciado e exemplar. Não há evidências neste registro bíblico de que ele fosse um prosélito do judaísmo. Entretanto, é dito que ele era piedoso e temente a Deus; e não a vários deuses. É provável que seu estilo de vida tenha sido de tal monta que influenciou significativamente os de sua casa; familiares e servos. Que tipo de exemplo e liderança espiritual estamos exercendo em nossa casa ou na vida daqueles com quem convivemos mais de perto (escola, trabalho etc.)? Além da sua vida devocional vertical (com Deus) estável e contínua, não era um homem teórico, vivendo um ascetismo recluso, introspectivo e focado em exercícios espirituais de autodisciplina. Ele tinha uma vida horizontal prática; ele olhava para o próximo e, de alguma forma, com os recursos que possuía procurava mitigar sua dor, sofrimento e carência. Ao longo da narrativa descobriremos algumas de suas virtudes: piedade, reverência, influência, liberalidade, oração, receptividade e obediência. Ele não era um cristão professo, porém sua conduta pode superar a de muitos de nós que somos cristãos. Quais são as evidências práticas da nossa fé, do nosso amor a Deus e ao próximo? Vale lembrar o que Tiago diz: “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tg 2.18). Para aqueles que ainda não foram esclarecidos e alcançados pela graça salvadora em Cristo Jesus, tal perfil o colocaria no rol dos filhos de Deus. Porém, a salvação não vem pela religiosidade, piedade e boas obras. Ele precisava ter um encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado.      

  • A visão de Cornélio (vv.3-6)

3  Esse homem observou claramente durante uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse:

A palavra do profeta Jeremias se revela verdadeira na vida de Cornélio: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jr 29.13). Nenhuma vida e nenhuma busca sincera e verdadeira passa despercebida diante de Deus. Na hora nona, do cômputo judaico, ou seja, às quinze horas ou às três horas da tarde, Jesus expirou ali na cruz (Mc 15.34-37), Pedro e João subiram ao templo para a “oração da hora nona” e o coxo na porta do templo foi curado. Cornélio estava em sua casa observando a “hora nona da oração” quando teve esta visão de Deus (At 10.30). O ministério dos anjos se fez presente também no início da igreja, libertando Pedro da prisão (At 5.19), orientando Filipe (At 8.26) e agora falando com Cornélio. 

4  Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus.

Não é muito comum ter encontros com anjos, ainda que em visão. Daí o temor e tremor de Cornélio e tantos outros que vivenciaram essa experiência. Esses seres celestiais são mensageiros de Deus e estão sempre a seu serviço. A palavra do anjo confirma o que todos sabemos, que ninguém e nada do que fazemos passa despercebido diante de Deus. De um modo especial, orações e esmolas. A prática constante da oração expressa a importante e significativa atitude de buscar a Deus. Também é significativa a menção das esmolas, o que demonstra o valor que o nosso Deus dá àqueles que se importam e são solidários para com os carentes e necessitados.

5  Agora, envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro.
6  Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar.

O “processo da salvação” envolve os três “P”: o Pregador, a Palavra e o Perdido (ou Pecador). O perdido era Cornélio. Bem que os anjos gostariam de ser pregadores do evangelho, mas essa tarefa e missão foi delegada a nós humanos, servos de Deus. Pedro foi o pregador escolhido e ele tinha a palavra de Deus a ser  transmitida a Cornélio. Assim sendo, este personagem tão relevante deveria ser acionado ali em Jope para que viesse abrir as portas do evangelho naquela vida, família e comunidade, conforme a palavra de Jesus: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” (Mt 16.19)

  • Obedecendo a visão (vv.7-8)

7  Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus domésticos e um soldado piedoso dos que estavam a seu serviço
8  e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope.

Vale ressaltar a reação de Cornélio à visão angelical. Ele não teve dúvida de que aquela experiência foi perfeitamente real. Também, não teve receio de compartilhar com os seus dois servos e com o soldado da comitiva. Chama a atenção, também, o fato dele ter contado toda a visão e não apenas os orientado a chamar e trazer o apóstolo. Provavelmente sua intenção fora a de abastecê-los de informação capaz de convencer Pedro a atender ao chamado. Entretanto, o Espírito Santo já estava incumbido de providenciar esse convencimento.

  • A visão de Pedro (vv.9-16)

9  No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar.

A cidade de Jope situava-se a cerca de 51Km (em linha reta) ao sul de Cesaréia. Enquanto a comitiva estava a caminho, Pedro cumpre sua disciplina de oração da hora sexta ou meio-dia e, para isso, subiu ao eirado ou terraço. Daniel orava três vezes ao dia (Dn 6.10), talvez na hora terceira (9h), na hora sexta (12h) e na hora nona (15h). Talvez isso fosse uma prática comum entre os judeus e Pedro a observava. O fato é que quando se busca a Deus, com frequência e anseio de estar na sua presença, algo acontece.

10  Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase;

Não era sem razão que Pedro estava com fome; era chegada a hora de almoçar. Bom para ele que sendo visitante naquela casa tinha quem lhe preparasse uma boa refeição enquanto podia se dedicar a oração.

11  então, viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas,
12  contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu.
13  E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come.

Não, não mesmo! Pedro não estava delirando por estar faminto! Era Deus mesmo querendo revelar-lhe alguma coisa em visão. Na sua experiência pregressa de pescador, Pedro estava acostumado a ver redes sendo lançadas para o alto, ao mar e, depois, sendo puxadas com nenhum, poucos ou muitos peixes. Porém, não lhe era nem um pouco familiar aquela visão divina de um lençol sendo baixado à terra com tal variedade e representatividade da fauna: quadrúpedes, que andam sobre suas quatro patas; répteis, que rastejam; e, aves que voam. Não há qualquer referência à cor deste lençol, já que isso não tinha importância; porém, desde a primeira vez que tive contato com essa história, me vem à mente a ideia de um lençol branco. Talvez por conta do contexto da voz falando de purificação. Além da imagem, Pedro ouve uma voz que se dirige diretamente e nominalmente a ele: “Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Em outras palavras: Pedro, você está com fome e eu te trouxe alimento com fartura. Vá em frente, prepara o teu almoço e come!

14  Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda.

A primeira constatação é a de que Pedro entendeu que Deus estava falando com ele, quem sabe para o testar. Na verdade, era para o ensinar algo muito além de hábito ou restrição alimentar. A instrução divina sobre ingestão de alimentos vem de longe. Depois do dilúvio o Senhor disse a Noé e a seus filhos: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.” (Gn 9.3). Entretanto, os judeus sabiam perfeitamente que a lei de Moisés estabeleceu claras restrições quanto a determinados animais que vivem na terra, nas águas, bem como a aves e insetos, os declarando imundos ou impuros e impróprios para se comer (Lv 11; Dt 14). A questão não era apenas de impureza cerimonial, mas sanitária, de saúde pública – “Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda alma vivente que se move nas águas, e de toda criatura que povoa a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo e entre os animais que se podem comer e os animais que se não podem comer.” (Lv 11.46-47). Pedro e os demais judeus levavam muito a sério essa lei mosaica. Eles não apenas se consideravam o povo de Deus, um povo santo com uma “alimentação santa”, como consideravam os gentios gente “imunda” e, portanto, não se misturavam e nem comiam com eles.

15  Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou não consideres comum.
16  Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.

Qualquer tentativa de interpretar essa purificação divina, aqui mencionada, como uma ressignificação da lei mosaica, liberando para ingestão tudo o que era estabelecido como imundo, deve ser vista como mera especulação ou equívoco. A questão é bem outra, isto é, tem a ver com a inclusão de todos os povos, tribos, raças e nações na Nova Aliança da Graça de Deus. É o cumprimento da promessa de Deus a Abraão: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos.” (Gl 3.8; ver tb Gn 12.3; At 3.25). E Isaías profetizou: “Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” (Is 49.6). Era chegada a hora de Pedro, dos demais apóstolos e da igreja judaica abrirem a mente, o coração e os braços para receberem e acolherem a todos aqueles que eram alvos da graça divina.

Parece que para Pedro se dar conta as coisas precisavam acontecer três vezes. Ele negou Jesus três vezes (Lc 22.54-62), Jesus o perguntou três vezes se ele o amava (Jo 21.15-17). Porém, Samuel também foi chamado por Deus, por três vezes (1Sm 3.8). Há outros casos interessantes de uma terceira vez (1Rs 18.34; 2Rs 1.13; Mt 26.44; Mc 14.4; Lc 23.22).

  • A chegada da comitiva (vv.17-18)

17  Enquanto Pedro estava perplexo sobre qual seria o significado da visão, eis que os homens enviados da parte de Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam junto à porta;
18  e, chamando, indagavam se estava ali hospedado Simão, por sobrenome Pedro.

O lençol foi recolhido e verifica-se que Pedro ainda estava perplexo, tentando entender o significado de tudo aquilo. É interessante como a revelação divina é gradativa e progressiva; como Deus vai preparando as pessoas, respeitando o tempo de cada indivíduo. Enquanto isso, a comitiva vai indagando e chegando até à casa onde Pedro estava hospedado.

  • A orientação do Espírito (vv.19-20)

19  Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram;
20  levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.

Talvez agora, algum tempo depois, um pouco menos perplexo e mais pensativo, Pedro continuava aguardando as respostas. Se ele perdeu o apetite ou almoçou, não sabemos. Então, o Espírito Santo se dirige diretamente a ele passando mais algumas instruções. É curioso que essas novas instruções avançam um pouco mais, mas não elucidam toda a situação. Pedro é convocado a acompanhar aqueles estranhos, depositando confiança plena na condução divina. O grande desafio de ser um seguidor de Cristo é o de se sujeitar à sua vontade e obedecer ao seu comissionamento, mesmo sem ter a visão completa da situação, aprendendo dia a dia a viver na sua dependência.

  • O encontro de Pedro com a comitiva (vv.21-23)

21  E, descendo Pedro para junto dos homens, disse: Aqui me tendes; sou eu a quem buscais? A que viestes?

O Espírito de Deus já havia preparado Pedro para aquele encontro. Assim, quando ele vê ou escuta aquela movimentação toda junto à entrada da casa de Simão, o curtidor, tratou de descer e se apresentar aos homens enviados pelo centurião Cornélio. Era chegada a hora dele saber o que estava acontecendo, então se apressou em lhes perguntar o motivo da vinda deles.

22  Então, disseram: O centurião Cornélio, homem reto e temente a Deus e tendo bom testemunho de toda a nação judaica, foi instruído por um santo anjo para chamar-te a sua casa e ouvir as tuas palavras.

Ao ouvirem a indagação de Pedro, parece que aqueles homens nem tiveram a preocupação de se apresentarem; se o fizeram Lucas foi suscinto no registro omitindo essa parte. A resposta da comitiva foi direta ao ponto, ressaltando as virtudes do seu senhor e sintetizando a experiência incomum que ele teve. Como servos de Deus também devemos focar e apresentar o Senhor que nos enviou ao mundo, bem como sua mensagem.

23  Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua companhia.

Pedro sentia-se bem à vontade, na casa de Simão, acolhendo os viajantes e hospedando-os. A viagem foi cansativa; era hora de descansar, se alimentar e conversar um pouco. No dia seguinte Pedro partiu com eles rumo a Cesaréia. Vale destacar o cuidado da igreja ou dos irmãos ali em Jope, enviando ou se voluntariando a fazer companhia a Pedro naquela missão. Estes eram judeus adiante denominados de “fiéis que eram da circuncisão” (At 10.45).


Veja também:
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

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