A conversão de Cornélio (Parte 3)

Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

  • A reação ao ocorrido (vv.1-3)

1  Chegou ao conhecimento dos apóstolos e dos irmãos que estavam na Judéia que também os gentios haviam recebido a palavra de Deus.

O que aconteceu na casa de Cornélio não passou despercebido, nem em Cesaréia, nem no restante da Palestina. Foi um acontecimento singular, incomum e sobrenatural; não foi o primeiro, nem seria o último. O livro de Atos registra cinco “derramamentos” ou “batismos” do Espírito Santo que testificam a participação divina na história do cristianismo, além de selar, desta forma, o progressivo avanço da igreja. São eles:

– O “Pentecostes apostólico” (At 2.1-13) (Línguas)
– O “Pentecostes eclesiástico” (At 4.31)
– O “Pentecostes samaritano” (At 8.14-17)
– O “Pentecostes gentílico” (At 10.44-47) (Línguas)
– O “Pentecostes efésio” (At 19.1-7) (Línguas)

Todos sabemos que o Pentecostes de Atos 2 foi único no sentido de marcar o início de uma nova época, o início da igreja de Cristo. Vale lembrar o que disse Merrill Unger: “Pentecostes não pode ser repetido assim como a criação do mundo ou do homem; é de uma vez para sempre, como a encarnação e morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Isto vem dos seguintes fatos: (1) O Espírito de Deus só poderia vir, chegar e fazer morada na igreja uma vez, o que fez no Pentecostes. (2) O Espírito de Deus só poderia ser dado, recebido e depositado na igreja uma vez e isso aconteceu no Pentecostes. (3) O evento ocorreu num tempo específico (Atos 2.1), cumprindo um tipo específico do Antigo Testamento (Levítico 23.15-22), num lugar específico (Jerusalém, cf.  Lucas 24.49), sobre uns poucos específicos (Atos 1.13-14), para um propósito específico (1Corintians 12.12-20), a fim de introduzir uma nova ordem. O evento não constituía de fatores contínuos e recorrentes da nova ordem uma vez instituída.”. Com a devida licença  teológica, estas cinco ocorrências parecem testificar a forma de avanço do evangelho expressa em Atos 1.8: “…e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Entretanto, parece que isto não estava muito claro na mente dos apóstolos e cristãos judeus.   

2  Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: 3  Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles.

O registro bíblico não deixa claro que Pedro tenha sido expressamente convocado a ir a Jerusalém para se explicar. O fato é que quando lá chegou ele foi questionado pelos legalistas e defensores da circuncisão. Pela pergunta feita a Pedro parece que aquilo que chegou até estes inquisidores foi uma versão reduzida ou recortada do ocorrido. Outra opção de interpretação é que, de tudo quanto tomaram conhecimento, o que mais lhes interessava ou importava ou incomodava foi a aproximação de Pedro de gentios, rompendo padrões ou tradições ou tabus judaicos.  

  • As explicações de Pedro (vv.4-17)

4  Então, Pedro passou a fazer-lhes uma exposição por ordem, dizendo:

Não há dúvida de que Pedro precisava contar toda a história para convencê-los de que não havia cometido qualquer transgressão. Pode-se dizer que a tarefa de Lucas, o escritor de Atos, neste ponto, veio bem ao encontro do seu estilo e vocação: “igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,” (Lc 1.3).

5  Eu estava na cidade de Jope orando e, num êxtase, tive uma visão em que observei descer um objeto como se fosse um grande lençol baixado do céu pelas quatro pontas e vindo até perto de mim.
6  E, fitando para dentro dele os olhos, vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu.
7  Ouvi também uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come.
8  Ao que eu respondi: de modo nenhum, Senhor; porque jamais entrou em minha boca qualquer coisa comum ou imunda.
9  Segunda vez, falou a voz do céu: Ao que Deus purificou não consideres comum.
10  Isto sucedeu por três vezes, e, de novo, tudo se recolheu para o céu.
11  E eis que, na mesma hora, pararam junto da casa em que estávamos três homens enviados de Cesaréia para se encontrarem comigo.

A história contada aqui por Pedro é praticamente idêntica ao que foi narrado anteriormente, inclusive, no versículo 11, consta o detalhe de que ali chegaram exatamente aqueles três os homens que foram enviados por Cornélio: “dois dos seus domésticos e um soldado piedoso” (At 10.7).   

12  Então, o Espírito me disse que eu fosse com eles, sem hesitar. Foram comigo também estes seis irmãos; e entramos na casa daquele homem.

Temos aqui outro detalhe adicional que é o de Pedro ter sido acompanhado por seis irmãos ali de Jope, quantidade essa bastante significativa. Anteriormente não fora dito a quantidade desses irmãos (At 10.23).

13  E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro,
14  o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa.

Depreende-se, de toda a narrativa, que Lucas, o escritor deste Livro, deve ter tido a intenção de ir acrescentando os detalhes gradativamente. Na primeira menção ao que o anjo disse a Cornélio é revelado que ele apenas deveria mandar chamar Pedro (At 10.6). Ao relatar aquela visão, Cornélio ratifica essa versão (At 10.33). Agora, em sua exposição do que o anjo falou, Pedro traz à luz algo extremamente relevante, provavelmente já interpretando a verdadeira razão dele ter sido chamado para essa missão: “o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa”. Essa explicação de Pedro deixa muito claro o que já afirmamos anteriormente, a saber, que Cornélio era tão somente um homem piedoso e religioso que precisava de salvação, bem como as pessoas da sua casa – “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.” (1Pe 1.23); “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17). A salvação é individual, não é por atacado. Fica claro o propósito divino de alcançar muitas vidas ali para a salvação eterna.

15  Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio.
16  Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.
17  Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?

Já tivemos a oportunidade de comentar esta narrativa sobre a descida do Espírito Santo em Atos 10.44-46. Vale destacar aqui a percepção de tudo aquilo por parte de Pedro:

1º) A manifestação do Espírito Santo foi algo involuntário, inesperado, não programado e não ocorrido como resposta a um clamor. Portanto, foi algo que transcendeu à vontade ou intenção humanas.

2º) Foi semelhante ao que já havia acontecido no princípio com eles (judeus), provavelmente no Pentecostes (At 2.1-13). Isso deveria levá-los a entender que Deus não fazia distinção entre judeus e gentios, pois Cristo veio para ambos.

3º) Foi o cumprimento da promessa de Cristo quanto a um batismo diferente, com o Espírito Santo. Desta forma, depreende-se que o ato de “cair sobre” (movimento de cima para baixo) foi interpretado como “batismo”.

4º) Que o dom ou dádiva do Espírito Santo está associado ao crer.

5º) Que precisamos estar atentos para discernir os sinais, interpretando-os à luz do contexto bíblico, para não nos acharmos na contramão da vontade de Deus.

  • O desfecho conciliador (v.18)

18  E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.

Percebe-se que, inicialmente, os ânimos estavam acirrados e contrários à atitude de Pedro se aproximando dos gentios. Entretanto, a igreja judaica reunida, finalmente se deu conta de que novos tempos eram chegados. A atuação eficaz do Espírito permitiu-lhes perceber que Jesus é o Salvador de todos os que creem na sua obra redentora, tornando-se assim membros do seu corpo – a Igreja Invisível.

Veja também:


Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

5 comentários em “A conversão de Cornélio (Parte 3)”

  1. Glórias a Deus,um estudo edificante para nossa alma.Deus abençoe ricamente o senhor e sua família.Deus seja louvado pela sua vida.

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  2. Profundo!! Há uma interpretação dos pentecostais diferente da nossa ref batismo espírito santo… mas é de fato bem polêmico quanto ao falar em línguas….um complexo tema para debater!

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    1. Estes três artigos sobre a conversão de Cornélio despertaram o interesse pela questão das línguas. Por isso, estou terminando de escrever um E-book gratuito com o título: FALAR EM LÍNGUAS – DOM DE LÍNGUAS. Espero que seja objetivo, esclarecedor e edificante.

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