O Peso do Governo

1Samuel 8.1-18; Deuteronômio 17.14-20

Introdução

Libertado do Egito, o povo de Israel fora conduzido para a Terra Prometida – Canaã – sob a liderança de Moisés. Durante aqueles quarenta anos de travessia do deserto toda aquela gente anteriormente submetida a escravidão durante tanto tempo começou a ser forjada como uma nação. Em cerca de 1423 a.C. termina a liderança de Moisés. Ele não teve o privilégio de entrar na terra prometida, bem como toda uma geração pecadora (homens com mais de 20 anos na ocasião da sentença divina – Números 14.29-30), exceto Josué e Calebe. Assim, Josué assume a liderança de Israel (Dt 34.9). Na sequência se desenvolve o período dos juízes. Somente em 1065 a.C. começa o período da Monarquia, com o reinado de Saul, depois de quase 400 anos do êxodo (1462-1065 a.C.). Até então havia vigorado o sistema de governo Teocrático em Israel.

A transição de sistema de governo é assim registrada em 1Samuel 8.1-9:     

1  Tendo Samuel envelhecido, constituiu seus filhos por juízes sobre Israel.
2  O primogênito chamava-se Joel, e o segundo, Abias; e foram juízes em Berseba.
3  Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito.
4  Então, os anciãos todos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá,
5  e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações.
6  Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos governe. Então, Samuel orou ao SENHOR.
7  Disse o SENHOR a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele.
8  Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti.
9  Agora, pois, atende à sua voz, porém adverte-o solenemente e explica-lhe qual será o direito do rei que houver de reinar sobre ele.

1. A TEOCRACIA EM ISRAEL

A teocracia de Israel (período do êxodo, conquista e juízes), antes da monarquia, não seguia a divisão moderna dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Ainda assim, podemos identificar funções equivalentes, a saber:

“Legislativo” – A Lei

Na teocracia de Israel, a Torá não era apenas um código religioso, mas um conjunto de normas abrangentes que regulava toda a vida do povo. Podemos classificá-la em três dimensões principais:

1ª) Lei Moral
2ª) Lei Civil / Social
3ª) Lei Religiosa / Cerimonial

  • Não havia parlamento, nem legisladores humanos.
    A Torá (Lei ) dada por Deus a Moisés, no Sinai, era a constituição do povo.
  • Moisés foi o mediador da revelação e organizador da aplicação.
  • Os sacerdotes e levitas tinham o dever de ensinar a Lei (Lv 10.11; Dt 33.10).
  • Portanto, a legislação não era fruto de debate humano, mas de revelação divina.

✍️ Função legislativa = Deus como Legislador; Moisés e depois os sacerdotes como transmissores/intérpretes.

“Executivo” – Governo e liderança

  • Moisés exerceu função de chefe de governo durante o êxodo.
  • Josué foi seu sucessor, liderando militarmente a conquista da terra.
  • No período dos Juízes, líderes eram levantados por Deus para governar, organizar, libertar e proteger o povo.
  • As tribos tinham certa autonomia, mas se reuniam em momentos de crise sob um juiz ou líder.

✒️ Função executiva = Moisés, Josué e os Juízes (liderança prática, política e militar).

“Judiciário” – Administração da justiça

  • Moisés inicialmente julgava todas as causas, mas sobrecarregado, instituiu juízes auxiliares por orientação de Jetro, seu sogro (Êx 18.13-26).
  • Esses juízes atuavam em diferentes níveis: líderes de mil, de cem, de cinquenta e de dez.
  • Casos mais difíceis eram levados a Moisés e, posteriormente, ao sumo sacerdote ou ao juiz principal.
  • A justiça deveria ser baseada exclusivamente na Lei de Deus, sem suborno ou parcialidade (Dt 16.18-20).

⚖ Função judiciária = juízes locais + Moisés (ou líderes principais) + sacerdotes para casos complexos.

A Estrutura da Teocracia em Israel (antes da monarquia) pode ser assim resumida:

Poder ModernoEquivalente na Teocracia de IsraelCaracterísticas
LegislativoDeus como Legislador. Lei entregue a Moisés (Torá). Sacerdotes e levitas ensinavam a Lei.A lei não era criada por homens, mas revelada por Deus. Cabia aos sacerdotes transmiti-la e instruir o povo (Dt 33.10).
ExecutivoMoisés, depois Josué, e mais tarde os Juízes.Função de liderança, governo, defesa militar, organização da vida civil e religiosa – liderança levantada por Deus.
JudiciárioJuízes locais nomeados (Êx 18.13-26). Casos difíceis eram encaminhados a Moisés, ao sumo sacerdote ou ao juiz principal.Justiça descentralizada e escalonada. Julgamentos baseados na Torá. Proibição de suborno e parcialidade (Dt 16.18-20).

2.  A ORIENTAÇÃO DIVINA QUANTO AO REI

O pedido de um rei não agradou a Samuel que compartilhou tal situação com o Senhor seu Deus (1Sm 8.6-9). Sobre essa demanda há duas considerações a serem feitas.

Primeiramente, quanto às razões que levaram os anciãos a fazerem tal pedido. O texto bíblico explicita as seguintes:

a) O fato do líder maior – Samuel – ter envelhecido. Ele exercia múltiplos papeis e funções essenciais na condução da nação, tanto na esfera espiritual, quanto material, isto é, típicas de governança. Então, fazia-se necessário providenciar seu substituto.

b) O próprio Samuel teve a iniciativa de constituir a seus filhos como juízes sobre Israel. Entretanto, esses seus filhos, Joel e Abias, não corresponderam, tornando-se avarentos, corruptos e injustos no exercício do ofício. Não se pode afirmar que a culpa desse desvio de caráter e conduta tenha sido do pai, “um ponto fraco de Samuel”, que teria se dedicado tanto ao ministério, aos de fora, que teria se descuidado dos de casa. Pode-se constatar, na atualidade, que esse tem sido o ponto fraco de muitos pastores e líderes. O fato é que, lamentavelmente, os filhos de Samuel reproduziram o mesmo mau padrão de conduta dos filhos do sacerdote Eli (1Sm 2.12-17; 22-25).

c) Eles manifestaram o desejo de adotar o mesmo sistema monárquico das outras nações. Eles queriam um rei e comandante militar; alguém que os governasse e, também, os liderasse nas batalhas e guerras (1Sm 8.20).

Qual o erro deles? Eles poderiam ter levado essa situação a Samuel, demandando que ele buscasse diante de Deus a solução. Tal posicionamento dos anciãos foi claramente explicitado por Deus como uma rejeição a ele, e não a Samuel (1Sm 8.7). Eles não estavam reconhecendo a Deus como o seu Rei.

A segunda consideração é que, além de Deus nunca ser pego de surpresa com as demandas, ações ou reações humanas, ele já havia provido na outorga da Lei, em Deuteronômio 17.14-20, mandamentos específicos para os futuros reis, a começar sobre a escolha:  “Quando entrares na terra que te dá o SENHOR, teu Deus, e a possuíres, e nela habitares, e disseres: Estabelecerei sobre mim um rei, como todas as nações que se acham em redor de mim, estabelecerás, com efeito, sobre ti como rei aquele que o SENHOR, teu Deus, escolher; homem estranho, que não seja dentre os teus irmãos, não estabelecerás sobre ti, e sim um dentre eles.”

O referido texto traz instruções de Deus para o futuro rei de Israel:

Escolha do rei – Quando o povo desejar um rei, ele deve ser escolhido por Deus, dentre os israelitas, e não pode ser estrangeiro (vv. 14-15).

✍ Restrições – O rei não deve multiplicar cavalos (poder militar), nem acumular muitas mulheres (luxúria e alianças políticas), nem juntar riquezas em excesso (vv. 16-17).

✍ Deveres – O rei deve escrever para si uma cópia da Lei, ler esta cópia todos os dias, temer a Deus, obedecer aos seus mandamentos, não se exaltar sobre o povo e não se desviar da Lei (vv. 18-20).

3.  A MONARQUIA DE ISRAEL vs GOVERNO ATUAL

O texto de 1Samuel 8.10-17 apresenta a transmissão da mensagem divina, por Samuel a Israel, advertindo sobre o que um rei humano – em lugar de Deus – faria ao povo. A partir dessas “advertências”, podemos traçar paralelos e ver como muitos elementos persistem, em formas reguladas e legitimadas, nos sistemas de governo modernos.

10  Referiu Samuel todas as palavras do SENHOR ao povo, que lhe pedia um rei,
11a  e disse: Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós:

a) Servidores públicos (militares e civis)

11b ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros, para que corram adiante deles;
12  e os porá uns por capitães de mil e capitães de cinquenta; outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros.

👑Rei: Recrutamento forçado para serviço militar (cavalaria) e trabalhos reais.

🗓️Hoje:   
– Serviço militar obrigatório (em países que o mantêm).
– Corpo de funcionários financiados e recrutados pelo Estado.

b) Servidoras públicas (civis)

13 Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras.

👑Rei: Recrutamento de mão de obra feminina para funções domésticas na corte.

🗓️Hoje: Recrutamento de servidores (ambos os sexos) para todo tipo de instituição pública.

Além disso, regulação do trabalho assalariado do povo, com o estabelecimento de leis trabalhistas e encargos sociais.

c) Domínio sobre propriedades

14  Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores.

👑Rei: Confisco e redistribuição de terras às elites reais.

🗓️Hoje:   
– Desapropriação compulsória, para obras públicas (rodovias, aeroportos), mediante indenização.
– Política agrária e urbana, com zoneamento, concessões de uso e incentivos fiscais para grandes investidores.

d) Tributos e Impostos sobre a produção privada

15  As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos seus servidores.

👑Rei:
– Imposto fixo de 10% sobre colheitas, destinado ao custeio da administração real.

🗓️Hoje:

– Impostos diretos e indiretos (renda, propriedade, consumo, contribuição social).
– Orçamento público distribuído entre ministérios, servidores civis, programas sociais e infraestrutura.

e) Serviços Terceirizados

16  Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho.

👑Rei:
– Requisição de mão de obra e dos melhores animais para serviço régio.

🗓️Hoje:

– Contratação de empresas para a prestação de certos serviços ao Estado.
– Requisição em casos de calamidade pública (uso de veículos privados, exército em auxílio civil).

f) Tributos e Impostos sobre propriedades

17  Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos.

👑Rei Imposto sobre pequena propriedade rural.

🗓️Hoje:
– Impostos progressivos sobre propriedades rurais e urbanas.
– Taxas e taxas anuais que recaem sobre proprietários de imóveis e pecuaristas.
– Tributos sobre propriedade de bens (veículos, embarcações, aeronaves) via impostos específicos.

Conclusão

O povo sabe da importância das instituições governamentais e públicas. A grande questão que se coloca é se elas sabem da importância do povo e trabalham para o seu bem-estar. Governos e instituições públicas são necessários numa nação. Eles não têm receita própria e se sustentam, essencialmente, com o que arrecadam dos pagadores de tributos e impostos, pessoas físicas e jurídicas.

Cada vez mais o cidadão de bem questiona o fato de pagar tantos impostos, tributos e taxas:

💰 Paga-se o Imposto de Renda (IR), na fonte, sobre o trabalho assalariado.
💰 Paga-se o imposto pelo serviço prestado.
💰 Paga-se o imposto quando se compra um bem móvel ou imóvel.
💰 Paga-se imposto, anualmente, por ter a propriedade de um bem móvel ou imóvel.
💰 Paga-se imposto pelo que se consome – Energia Elétrica, Água, Gás, Telefone, Internet etc.
💰 Paga-se imposto na compra de produtos, materiais, alimentos, vestuário etc.
💰 Paga-se imposto quando se faz certos investimentos/aplicações de capital.
💰 Paga-se imposto federal (IPI), Estadual (ICMS) e Municipal (ISS), IOF, IPTU, IPVA, ITBI, dentre outros.

Para um cidadão assalariado médio no Brasil, trabalhando o ano inteiro, ele provavelmente trabalha algo entre 3,5 a 5 meses apenas para pagar todos os impostos e tributos (diretos + indiretos). Tudo isso para sustentar os governos e instituições públicas. E, a carga tributária total brasileira só vem crescendo, chegando atualmente a cerca de 33% do PIB. Isso coloca o Brasil como o país com maior carga tributária entre 26 economias da América Latina. A média de tributação na América Latina está em torno de 21,5% do PIB.

Os capitalistas e liberais defendem o enxugamento da máquina pública, visando reduzir a carga tributária que recai sobre o cidadão – em síntese, defendem menos Estado e mais liberdade para o setor produtivo.

Em contrapartida, os socialistas e populistas costumam defender o inchaço do Estado, apresentando como justificativa a suposta redução da desigualdade social, bandeira amplamente utilizada em discursos eleitorais. Na prática, porém, tal modelo serve para conquistar e perpetuar-se no poder, ampliando cargos e estruturas públicas para favorecer aliados e grupos de interesse.

Enquanto os líderes desfrutam dos privilégios e regalias do poder, o povo permanece em condições de dependência e vulnerabilidade, útil apenas enquanto garantir votos. Nesse processo, empresários e geradores de emprego são frequentemente hostilizados, enquanto se propaga aquele velho discurso de defesa dos trabalhadores.

O povo – especialmente os mais simples – não precisa de bolsas assistenciais permanentes que os mantenham em dependência do governo. O que realmente necessitam é de respeito e de investimentos efetivos do Estado em Educação e Formação Profissional, para que conquistem bons empregos, recebam salários justos e possam viver com dignidade.

Para isso, é indispensável que os governantes e agentes públicos abandonem a corrupção e seus interesses pessoais, e passem a gerir com responsabilidade os vastos recursos do orçamento público. Ao invés de servir unicamente ao luxo e deleite do governante e seus coligados, os recursos públicos precisam financiar educação, saúde, segurança, infraestrutura e programas sociais essenciais (com porta de entrada e de saída). Só assim será possível promover o verdadeiro desenvolvimento da nação e garantir ao pagador de impostos o retorno legítimo em forma de serviços e benefícios de qualidade. Por mais óbvio que isso possa parecer é preciso sempre lembrar!

Que Deus nos ajude!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online (SBB).
3. Internet / ChatGPT / IA.


Veja como o populismo eleitoreiro irresponsável desestimula o trabalho e colapsa a economia de uma nação, colocando em risco a aposentadoria exatamente dos que trabalham e não vivem à custa do Estado.

A Liderança e a Glória de Deus

“Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (1Pe 4.11)

Introdução:

No ano de 2007 foi pedido a um grupo de estudantes que elegessem as 7 novas maravilhas do mundo. Foi aí que um deles deu uma resposta destoante dos demais, a saber: Ver, Ouvir, Tocar, Provar, Sentir, Rir e Amar. Num tempo de superproduções humanas, em todas as áreas; num tempo de avalanche de produtos tecnológicos, onde o mundo cabe dentro de uma tela, pequena como de um celular ou grande como de um televisor de 103 polegadas ou mais, que atenção estamos dando ao nosso Deus criador e aos seus feitos? Será que as realizações humanas estão ofuscando a glória de Deus, tal qual o céu de uma grande metrópole à noite é tão insignificante quando comparado ao céu estrelado de uma localidade no interior?

O Catecismo de Westminster inicia com uma significativa pergunta: “Qual é o fim supremo e principal do homem?” Ele mesmo responde, sabiamente: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.” E isso não é projeto pós-morte. Deve começar aqui e agora e continuar lá e então, na eternidade. Como é bom louvar a Deus assim…

Quão formoso és, Rei do Universo.
Tua glória enche a terra e enche os céus.
Tua glória enche a terra. (Sl 19.1)
Tua glória enche os céus.
Tua glória enche a minha vida Senhor.

Maravilhoso é estar em tua presença.
Maravilhoso é poder te adorar.
Maravilhoso é tocar as tuas vestes.
Maravilhoso é te contemplar Senhor.

três palavras que marcaram três momentos importantes na vida do povo de Israel. São três palavras que sintetizam o sucesso ou insucesso de três líderes na nobre e difícil tarefa de promover a glória de Deus no meio do povo. Estas palavras podem ser usadas para designar épocas ou tempos que se alternam e permeiam a história da humanidade. Essas épocas ou tempos trazem uma mensagem muito significativa para pastores, pais, professores, líderes e liderados na igreja.

1) Tempos de SHEKINAH

“A glória de Deus entre nós”

Esse termo – Shekinah – que não aparece na bíblia, diz respeito à manifestação visível da glória de Deus, isto é, Deus habitando no meio do seu povo. Creio que a humanidade foi presenteada pelo Deus Soberano com dois “Tempos de Shekinah inigualáveis”. Tempos para marcar indelevelmente a história humana.

Primeiro Tempo de Shekinah:

No livro de Gênesis há registro de que Deus se comunicou verbalmente, por sonhos e por anjos (Teofania[1]), com algumas pessoas. Entretanto, é a partir do livro de Êxodo, no período da liderança de Moisés, por cerca de 40 anos, que a Shekinah atinge o seu clímax no AT. A sarça que ardia e não se consumia era apenas o prenúncio do que viria pela frente. Após a partida do povo de Israel do Egito, sob a liderança de Moisés, a presença de Deus se manifestou de forma visível, através de uma coluna de nuvem (durante o dia) e de uma coluna de fogo (durante a noite). “O SENHOR ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho; durante a noite, numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite. Nunca se apartou do povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite. (Êx 13.21-22). É impressionante a manifestação e movimentação da Shekinah, nessa forma (nuvem e fogo), até a morte de Moisés, para:

  • Proteção e Orientação do povo durante a viagem (Êx 13.21; 14.20);
  • Provisão de alimentos para o povo (Êx 16.10);
  • Atestar a liderança de Moisés diante do povo (Êx 19.9);
  • Atestar a Lei de Deus (Êx 19.16);
  • Falar com Moisés, na Tenda da Congregação (provisória) (Êx 33.9-11);
  • Habitação no Tabernáculo concluído (Ex 40.34-38; comp. Lv 16.2; Nm 9.16-22);
  • Unção dos 70 anciãos e superintendentes do povo (Nm 11.25);
  • Defesa da liderança de Moisés diante da crítica de Miriã (Nm 12.5);
  • Defesa da liderança de Moisés diante da rebelião de Coré, Datã e Abirão (Nm 16.42);
  • Falar pela última vez a Moisés, antes da sua morte (Dt 31.5).

Segundo Tempo de Shekinah:

O NT começa com um anjo aparecendo, pessoalmente, a Zacarias e a Maria; e a José, em sonho. Mas, finalmente nasce o Emanuel, Deus conosco (Mt 1.23). João assim se expressa: “E o Verbo se fez carne e habitou (tabernaculou) entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). E, em Hebreus lemos: “Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação,” (Hb 9.11).

A Shekinah encheu o Tabernáculo de Moisés (Êx 40.34), encheu o Templo de Salomão (2Cr 5.13b-14), encheu o Santuário do Tabernáculo Celestial (Ap 15.5, 8) e, quer encher a nossa vida: “…. Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” (2Co 6.16). Também, cobriu o monte da transfiguração (Mt 17.5) e Jesus, na sua ascensão (At 1.9).

Qual a razão desses dois tempos especiais de Shekinah e o que eles têm em comum? Sem dúvida foram janelas de luz, clarões (Lei e Graça).

Aprouve a Deus realizar dois projetos especiais, envolvendo dois povos escolhidos, Israel e a Igreja, envolvendo propósitos soberanos de Deus de libertar e conduzir esses grupos do Egito (figura do mundo) para Canaã (figura do Céu). Na segunda Shekinah, somos chamados para fora do mundo (ou mundanismo) e para tirar o mundanismo de dentro de nós e, em seguida, somos enviados ao mundo, para pregar o Evangelho. Sem dúvida esses dois tempos de Shekinah se constituem em providências divinas para dar fundamento à nossa fé. Como foi o desempenho de cada líder?

Moisés não era um líder perfeito; mas, era especial para Deus: (Nm 12.6-9; Dt 14.10-12). Ele não admitia dar um só passo, sem a presença do Senhor com ele (Êx 33.15). Não se contentava apenas em falar com Deus face a face; ele queria vê-lo face a face (Êx 3318-23).

Jesus era e é o Filho de Deus, perfeito em todos os seus caminhos, que cumpriu cabalmente o seu ministério terreno. Em Apocalipse temos as 3 fases do seu ministério: “e da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha (SOFREDOR), o Primogênito dos mortos (GLORIFICADO) e o Soberano dos reis da terra (REI). Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1.5-6)

Há ainda um Terceiro Tempo de Shekinah profetizado:

Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!” (Ap 1.7). É a Segunda Vinda do Senhor Jesus Cristo!

Esse tempo é poeticamente descrito no cântico dos Vencedores por Cristo:

Quando a glória do Senhor for vista,
por toda vista, em todo lugar,
quando a glória se perder de vista
como as águas cobrem todo o mar,
então de vida se encherá a terra,
de alegria e paz pra nunca mais faltar.
Cessado o pranto, a morte, a dor e a guerra,
o Rei, que é Cristo, sempre vai reinar.

2) Tempos de ICABÔ ou ICABODE

“Foi-se a glória de Deus”
“Mas chamou ao menino Icabô, dizendo: Foi-se a glória de Israel, porquanto a arca de Deus foi levada presa e por causa de seu sogro e de seu marido. E disse mais: De Israel a glória é levada presa, pois é tomada a arca de Deus.” (1Sm 4.21-22)

Depois de um período de glória, Tempo de Shekinah, que durou cerca de 40 anos, sob a liderança de Moisés, Israel permaneceu iluminado e fiel ao Senhor por algumas décadas, sob a liderança de Josué e dos anciãos superintendentes (Jz 2.6-9). Com a morte desses últimos, se levantaram gerações que não viveram aquele Tempo de Shekinah,  gerações más e idólatras, que desprezaram a aliança do Senhor. Durante o período dos juízes, de cerca de 325 anos, Israel viveu dias caóticos. Nesse período, o povo experimentou os sucessivos ciclos do fracasso humano e da graça divina: Pecado – Opressão/Servidão – Clamor/Arrependimento – Libertação – Paz temporária – Pecado ….. Essa repetição continuada se caracteriza por um verdadeiro apagão espiritual, no tempo do juiz e sacerdote Eli – sintetizado no nome Icabô ou Icabode dado ao menino que nascera, neto de Eli.

Vejamos alguns aspectos desse apagão espiritual: (serve de alerta a pais e líderes)

a) Abandono da lei de Deus, da Palavra de Deus, da Aliança com Deus;
b) Associação com pessoas de povos que não temiam a Deus; assimilação e prática dos seus maus costumes;
c) Liderança (Eli) que não conseguia distinguir fervor espiritual, de embriaguez etílica (1Sm 1.12-16);
d) Sacerdotes (filhos de Eli) que não se importavam com o Senhor e se apropriavam das ofertas dos sacrifícios trazidos pelo povo além do que a lei determinava (1Sm 2.12-17);
e) Sacerdotes (filhos de Eli) que se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação (1Sm 2.22); (promiscuidade)
f) Liderança (Eli) que honrava os filhos mais do que a Deus e junto com eles se regalava com as melhores ofertas trazidas pelo povo (1Sm 2.29);
g) Liderança (Eli) que havia perdido o controle sobre seus filhos. Não estabeleceu limites na época certa. Seus filhos se tornaram execráveis e ele não os repreendeu (1Sm 3.13). Há pais com tamanho sentimento de culpa pela ausência na vida dos filhos, que quando presentes preferem deixar o barco correr, mesmo percebendo a necessidade e oportunidade de corrigir algum mau comportamento;
h) Tempo em que a palavra e as visões do Senhor eram raras (1Sm 3.1);
i)Povo que, quando em desvantagem na batalha contra os filisteus, achava que podia alcançar a vitória tão somente introduzindo no meio deles a Arca do Senhor (1Sm 4.3-4).

Os tempos de Icabô se caracterizam por completa falta de temor a Deus e banalização do sagrado. Culminou na derrota dos exércitos de Israel, morte dos execráveis sacerdotes Hofni e Finéias, filhos de Eli, perda da Arca e morte de Eli.

Apagão Espiritual => Apagão Ético e Moral => Corrupção em toda a parte => Destruição de um grupo, de uma organização, de uma sociedade, de uma nação. O exemplo maior ocorreu no dilúvio. Outros exemplos vêm acontecendo na história dos povos e sociedades (Sodoma e Gomorra / etc).

3) Tempos de EBENÉZER (Reavivamento)

“Até aqui nos ajudou o Senhor” (1Sm 7.12)
“A glória do Senhor outra vez entre nós”

Se os Tempos de Shekinah foram magníficos, não foram suficientes para evitar os Tempos de Icabô ou Icabode que vêm pontilhando a história do chamado povo de Deus. Tornou-se necessário contrabalançar esses tempos SEM GLÓRIA e SEM GRAÇA com os Tempos de Ebenézer.

Num tempo de apagão espiritual um homem temente a Deus, Elcana, conduzia continuamente sua família para o lugar de adoração ao Senhor em Silo, onde ficava o Tabernáculo (Js 18.1). Nesse mesmo tempo, Ana, sua mulher estéril, faz um voto a Deus de consagrar ao Senhor o fruto do seu ventre. E, assim, nasce Samuel, o 15º e último juíz (1Sm 7.6; At 13.20), o primeiro de uma ordem regular de profetas (1Sm 3.20; At 3.24; 13.20) e o elo entre a Teocracia e a Monarquia. Começa, então, mais um Tempo de Ebenézer, ou Tempo de Reavivamento (Santificação e Busca), ou Tempo de trazer de volta a glória do Senhor, ou Tempo de alcançar vitória sobre os inimigos, ou Tempo de fazer resplandecer a luz, sobre as trevas.

Desta forma, Deus tem usado os Tempos de Ebenézer para contrabalançar os Tempos de Icabô ou Icabode!

Período (a.C.) Duração (anos) Obs
1375-1050 325 15 juízes, de Otoniel à Samuel
1050 – 930 120 Reino Unido – 3 reis: Saul (M) / Davi (B) / Salomão (B=>M)
930 – 722 208 Reino do Norte – 19 Reis Maus
930 – 586 344 Reino do Sul – 20 Reis (12 Maus e 8 Bons)
605 – 430 175 Exílio e Retorno, até Malaquias, último profeta
430 – 6 aC 424 Período Interbíblico ou Intertestamentário (Silêncio profético)

Final do Império Persa, Império Grego, Independência Judaica e Início do Império Romano

No contexto da Reforma[2], quando a igreja oficial também ameaçava destruir o verdadeiro culto a Deus, aparecem em cena homens como: João Wyclif (1324-1384), Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-1564) e João Knox (1515-1572).

Nos séculos 18 e 19, marcados por grandes avivamentos e expansão missionária, destacam-se: Jônatas Edwards (1703-1758), João Wesley (1703-1791), Guilherme Carey (1761-1834), Carlos Finney (1792-1875), Jorge Müller (1805-98), Davi Livingstone (1813-73), Hudson Taylor (1832-1905); Carlos Spurgeon (1834-92) e Dwight L. Moody (1837-1899).

Conclusão:

Finalmente, mais conscientes da importância da liderança e da sua influência sobre os liderados, no sucesso ou insucesso da promoção da glória de Deus, precisamos todos, líderes e liderados, seguir os sete conselhos do apóstolo Pedro em 1Pedro 4.7-11:

1º) Ter consciência de que o fim de todas as coisas está próximo;
2º) Ser criteriosos e sóbrios;
3º) Ter amor intenso uns para com os outros;
4º) Ser, mutuamente, hospitaleiro;
5º) Servir uns aos outros conforme o dom que recebeu;
6º) Falar de acordo com os oráculos de Deus;
7º) Servir na força e poder de Deus, procedendo, em todo o tempo, “para que em todas as coisas seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!”

Soli Deo Gloria!
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[1] Teofania: Manifestação visível de Deus: a)com mensagem direta {Êx 19.9-25};  b)em SONHO com mensagem {Gn 28.12-17};  c)em visão com mensagem {Is 6.1-13}; d)com mensagem por um anjo {Êx 3.2-4.17}. O “ANJO do Senhor” é uma teofania que se enquadra nas características da segunda pessoa da Trindade {Gn 16.7-13; Êx 3.2-6; Jz 6}.

[2] Reforma: Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja castelo em Wittenberg, Alemanha, em 31 de Outubro de 1517.


Catedral Presbiteriana do Rio
12/08/2007 – Culto Matutino (10h 15min) – Dia do Pastor e Dia dos Pais
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia