
Lamentações 3.21-26
Introdução
O texto bíblico fala em trazer à memória algo renovador, capaz de dar alento e esperança. Segundo estudiosos do assunto, a memória humana possui características gerais de funcionamento, mas seu desempenho varia de pessoa para pessoa.
Há a memória de curto prazo, quando as informações são armazenadas por segundos ou minutos. Também há a memória de médio prazo, que pode se converter em memória de longo prazo quando revisitamos ou realimentamos conteúdos periodicamente – seja para o bem ou para o mal.
O cérebro humano é um órgão fantástico, capaz de conectar ideias, sons, imagens, cheiros, lugares, emoções e muito mais. Ao ativar ou visitar uma lembrança na memória, essa lembrança costuma puxar outras criando uma cadeia associativa. Há também aquela “memória autônoma” que armazena habilidades automáticas, como andar, tocar um instrumento musical, andar de bicicleta, dirigir um veículo etc.
a) Memória seletiva
O cérebro humano não armazena tudo aquilo que se ouve ou se vê, mas seleciona o que a pessoa aprendeu a valorizar ou foi condicionada a considerar relevante – por exemplo, aquilo que desperta interesse especialmente naquele momento da nossa vida, ou o que tem muito a ver com a nossa ocupação diária, hobby etc. É curioso observar, por exemplo: quando um profissional do ramo gráfico está num grupo de estudo bíblico, e uma revista é distribuída a cada participante, a sua atenção se volta imediatamente para a textura do papel, a qualidade da impressão e do acabamento etc. Da mesma forma, para uma mulher grávida, caminhando numa rua movimentada, não passará despercebido a presença de outras mulheres grávidas.
b) Memória imprecisa e subjetiva
Numa boa gravação em áudio e vídeo os fatos são registrados exatamente como aconteceram. De um modo geral a mente humana reconstrói aquilo que guardamos na memória. A cada nova consulta à memória pode acontecer uma reconstituição imprecisa daquele acontecimento, com a supressão ou esquecimento de algum detalhe, bem como, a inserção subjetiva e interpretativa de elementos que não correspondem exatamente ao ocorrido. Assim, a cada lembrança abre-se espaço para pequenas distorções, ênfases diferentes e ressignificações do fato real.
c) Memória e emoção
Está comprovado que experiências emocionalmente intensas, situações que provoquem emoções fortes, principalmente as negativas – as ameaças, as perdas, as que geram apreensão ou medo ou dor – costumam marcar profundamente a mente da pessoa. Então, pode-se afirmar que a emoção atua como uma espécie de “cola” da memória.
d) Memória e repetição
A exposição da pessoa, de forma repetitiva, a determinados estímulos externos, fará com que esses conteúdos fiquem fortemente retidos em sua memória, produzindo algum tipo de ação ou reação. A memória pode ser treinada por meio de exercícios de repetição, foco e reflexão, fortalecendo, assim, as conexões neurais (sinapses).
Jesus afirmou: “Porque a boca fala do que está cheio o coração.” (Mt 12.34b). De fato, é necessário acumular um bom tesouro na mente e isso irá direcionar boas ações (Lc 6.45b). E, o modus operandi divino recomendado é esse: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.6-7)
Do exposto pode-se concluir que:
A memória humana não é um “arquivo estático e não degradável”, mas uma espécie de arquivo dinâmico resultado de um processo seletivo, emocional, repetitivo, impreciso e subjetivo.
É possível, de maneira consciente e intencional exercitar e direcionar a mente para aquilo que pode dar esperança, fortalecer a fé e promover a paz interior. A memória pode ser moldada pela atenção e dedicação a algo verdadeiramente importante. Trazer à memória exige intencionalidade, é dirigir voluntariamente o foco, a atenção, para o que edifica a vida cristã e agrada a Deus.
A ciência diz que:
• recordar eventos positivos ou de superação aumenta a resiliência,
• ativa áreas do cérebro ligadas à motivação,
• reduz ansiedade.
E, o que o profeta Jeremias nos diz?
Jeremias está mergulhado em dor, luto e sensação de abandono. O contexto é o cativeiro babilônico de 70 anos. A lamentação é a exteriorização da dor da alma, difícil de ser contida, que aperta e sufoca. Tanto faz se essa se expressa de forma escrita ou verbal. Em qualquer dos casos a tristeza e o choro são coadjuvantes sempre presentes.
A calamidade que se abateu sobre Israel foi algo pavoroso, indescritível, ao ponto de se afirmar: “Mais felizes foram as vítimas da espada do que as vítimas da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos.” (Lm 4.9).
Em resumo, o estrago foi devastador:
- Seus palácios, suas casas e o templo foram destruídos e queimados (Lm 2.5-60);
- Seus príncipes caíram e seu povo foi levado para o exílio sob grande escravidão (Lm 1.3-6);
- Deram suas coisas mais estimadas em troca de mantimentos (Lm 1.11);
- As crianças desfaleciam pelas ruas da cidade (Lm 2.11; 4.10);
- Mães cozinharam seus filhos para comer, tamanha foi a fome durante o cerco de aproximadamente 18 meses (Lm 2.20; 4.10);
- Os velhos, os jovens e as virgens foram mortos à espada (Lm 2.21); virgens foram estupradas (Lm. 5.11);
- Os inimigos desprezaram e debocharam dos que restaram (Lm 2.15).
Daí a razão de tamanho lamento, muitas vezes expresso em forma de metáforas (Lm 1.1, 9, 16, 20; 2.11, 18).
Imerso nesse contexto calamitoso Jeremias não se rende, não se desespera, mas reage:
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21)
Esse é um ato intencional. Jeremias decide direcionar a mente para a memória humana que não é passiva; que é ativa, seletiva e emocionalmente construída. Não se pode controlar tudo o que acontece conosco ou ao nosso redor, mas, felizmente, podemos escolher o que lembrar. A mente pode permanecer livre mesmo quando o corpo está preso – como Paulo e Silas, que, encarcerados, oravam e louvavam ao Senhor (At 16.25).
E, o que me pode dar esperança, principalmente em dias sombrios? Certamente um conteúdo mental de valor: convicções, fatos ou lembranças, capazes de produzir em meu ser a esperança. E, o que seria isso?
Jeremias se lembra do Deus de Israel, do seu caráter, do seu poder, dos seus feitos passados e do que ele pode fazer.
1. O DEUS MISERICORDIOSO
“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã.” (Lm 3.22-23a)
A calamidade que se abateu sobre Israel era resultado do juízo divino sobre a rebeldia e desobediência do povo e dos seus líderes. O pecado destrói e tem feito um tremendo estrago na humanidade, tanto maior quanto mais se aproxima o fim de todas as coisas e a volta de Cristo. Cristãos e não cristãos sofrem as consequências da rebeldia humana contra Deus. Entretanto, calamidades pessoais nem sempre são consequência direta do pecado próprio. Na Bíblia, na história e na nossa mente há o registro de inúmeros exemplos de gente fiel e temente a Deus que passou ou está passando por situações difíceis. Jeremias olha para a calamidade e encontra misericórdia onde só se via ruínas. Sua visão não muda os fatos, mas os ressignifica.
2. O DEUS FIEL
“Grande é a tua fidelidade.” (Lm 3.23b)
O profeta não estava decepcionado com Deus, nem intencionava questioná-lo. Deus se mostrou fiel à sua palavra de advertência. Deus não tem compromisso com os desobedientes e rebeldes, mas vela por sua palavra para a cumprir. “Fez o SENHOR o que intentou; cumpriu a ameaça que pronunciou desde os dias da antiguidade; derrubou e não se apiedou;” (Lm 2.17); “Deu o SENHOR cumprimento à sua indignação, derramou o ardor da sua ira; acendeu fogo em Sião, que consumiu os seus fundamentos.” (Lm 4.11). “Justo é o Senhor, pois me rebelei contra a sua palavra;” (Lm 1.18). É extremamente proveitoso para o cristão refletir sobre o preço do afastamento de Deus e da prática do pecado. Deus não é tolerante ao pecado como muitos chamados cristão o são.
Deus Pai não é fiel, nem a mim e nem a você, mas a si mesmo. Cristo permanece fiel a si mesmo: “pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” (2Tm 2.13).
• Fiel à sua santidade, que repudia o pecado.
• Fiel à sua justiça, que disciplina o seu povo.
• Fiel ao seu amor, que oferece redenção ao arrependido.
Ainda que pudesse haver no povo algum sentimento de abandono, por parte de Deus, o Senhor responde: “Mas Sião diz: O SENHOR me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” (Is 49.14-15)
3. O DEUS DA ESPERANÇA
“A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.” (Lm 3.24-25)
É muito impressionante, para não dizer bizarro, como tantas pessoas depositam sua esperança em coisas vãs e efêmeras. Já a esperança maior do cristão está no Deus único e verdadeiro.
No passado e no presente a igreja tem enfrentado perseguições severas. É difícil até imaginar o que passaram ou estão passando muitos servos de Deus, quando despojados de sua casa, de seus bens e de seus pertences, de seus familiares e de seus irmãos em Cristo e amigos, de cuidados e de um tratamento digno. Quando tudo isso lhe é tirado, o crente regenerado ainda tem o que ninguém jamais pode retirar dele – a minha porção é o SENHOR. É como disse o salmista: “Digo ao SENHOR: Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente.” (Sl 16.2)
Essa sim é a verdadeira esperança. E, o Senhor manifesta a sua bondade para os que assim agem, para os que confiam e esperam por ele. Quando o crente enfrenta qualquer situação difícil é sempre possível encontrar, no bom depósito da memória, elementos ou mesmo uma cadeia de verdades espirituais que dão esperança.
4. O DEUS SALVADOR
“Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio.” (Lm 3.26)
A vida cristã não é de passividade e de inércia, em que Deus faz tudo e o cristão fica confortavelmente esperando o agir de Deus. Na verdade, a salvação sim é obra exclusiva de Deus. Em qualquer tempo, de normalidade ou dificuldade, deve prevalecer aquela parceria harmônica com Deus, em que: “Devemos orar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós. Só orar não! Só agir não!”
Entretanto, precisamos considerar que, na caminhada da vida, há circunstâncias e situações que escapam ao nosso controle e capacidade de alterar, mas não da intervenção divina. Então, é preciso esperar em Deus.
Esperar em Deus é:
a) Confiar no caráter de Deus
É ancorar a alma em quem Deus é e na sua palavra (Sl 130.5), sem se deixar abater pelas circunstâncias e, mesmo antes que estas deem sinais de melhoria.
b) Ter paciência
Deus trabalha no tempo dele, no seu kairós e não no nosso chronos, o tempo do calendário e do relógio. É perseverar sem perder a confiança e a esperança no seu agir.
c) Renovar as forças
Em certas situações, quanto mais a pessoa se agita, mais perde as forças, nada consegue, tendendo a sucumbir. “mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Is 40.31)
d) Descansar em silêncio
Essa espera confiante e silenciosa significa rendição, ausência de queixa, quietude do coração, abandono da ansiedade. “Descansa no SENHOR e espera nele, não te irrites por causa do homem que prospera em seu caminho, por causa do que leva a cabo os seus maus desígnios.” (Sl 37.7)
Conclusão
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.” (Pv 4.23)
Certamente, não está em foco aqui o órgão físico – o coração –, mas, simbolicamente, a mente, que é o centro dos pensamentos, escolhas, decisões, comportamentos e, em última instância, da condução da vida. É o núcleo do conhecimento, das emoções e da espiritualidade. Guardar a mente é vigiar, selecionar e protegê-la quanto ao que nela entra; é cuidar do que nela é gestado e encaminhado para a ação; é cultivar virtudes e afastar-se do mal; é colocar Deus no centro e submeter-lhe o nosso eu.
Finalmente, é preciso fazer um alerta. A humanidade tem vivenciado cinco grandes períodos ou regimes de poder baseados nos recursos e condições de cada época. Embora, por vezes, se sobreponham e coexistam em muitos momentos, se distinguem e caminham numa direção.
1. Poder pela Força Física e Militar (Idade Tribal → Antiguidade).
2. Poder pela Riqueza e Economia (Antiguidade → Mercantilismo → Capitalismo).
3. Poder Tecnológico e Científico (Séculos XIX e XX).
4. Poder pela Informação (Final do século XX → início do XXI).
5. Poder pela Mente e Consciência (Início e avanço do século XXI → futuro próximo).
Portanto, vivemos numa época em que, mais do que nunca está acontecendo uma batalha pela conquista da mente. É a investida no controle das emoções, desejos e decisões; são algoritmos que moldam comportamento; são as estratégias para influenciar sem que o influenciado perceba. Quem influencia a mente, controla sem resistência – o domínio é interno e sutil. Enfim, não é mais a força, a riqueza, a ciência ou a informação em si, mas a capacidade de moldar percepções, crenças e decisões. Portanto, cuide bem da sua mente e memória, porque a nossa luta, acima de tudo, é espiritual – “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.12)
Que Deus nos ajude!
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