Memória e Esperança

Lamentações 3.21-26

Introdução

O texto bíblico fala em trazer à memória algo renovador, capaz de dar alento e esperança. Segundo estudiosos do assunto, a memória humana possui características gerais de funcionamento, mas seu desempenho varia de pessoa para pessoa.

Há a memória de curto prazo, quando as informações são armazenadas por segundos ou minutos. Também há a memória de médio prazo, que pode se converter em memória de longo prazo quando revisitamos ou realimentamos conteúdos periodicamente – seja para o bem ou para o mal.

O cérebro humano é um órgão fantástico, capaz de conectar ideias, sons, imagens, cheiros, lugares, emoções e muito mais. Ao ativar ou visitar uma lembrança na memória, essa lembrança costuma puxar outras criando uma cadeia associativa. Há também aquela “memória autônoma” que armazena habilidades automáticas, como andar, tocar um instrumento musical, andar de bicicleta, dirigir um veículo etc.

a) Memória seletiva

O cérebro humano não armazena tudo aquilo que se ouve ou se vê, mas seleciona o que a pessoa aprendeu a valorizar ou foi condicionada a considerar relevante – por exemplo, aquilo que desperta interesse especialmente naquele momento da nossa vida, ou o que tem muito a ver com a nossa ocupação diária, hobby etc. É curioso observar, por exemplo: quando um profissional do ramo gráfico está num grupo de estudo bíblico, e uma revista é distribuída a cada participante, a sua atenção se volta imediatamente para a textura do papel, a qualidade da impressão e do acabamento etc. Da mesma forma, para uma mulher grávida, caminhando numa rua movimentada, não passará despercebido a presença de outras mulheres grávidas.

b) Memória imprecisa e subjetiva    

Numa boa gravação em áudio e vídeo os fatos são registrados exatamente como aconteceram. De um modo geral a mente humana reconstrói aquilo que guardamos na memória. A cada nova consulta à memória pode acontecer uma reconstituição imprecisa daquele acontecimento, com a supressão ou esquecimento de algum detalhe, bem como, a inserção subjetiva e interpretativa de elementos que não correspondem exatamente ao ocorrido. Assim, a cada lembrança abre-se espaço para pequenas distorções, ênfases diferentes e ressignificações do fato real.

c) Memória e emoção

Está comprovado que experiências emocionalmente intensas, situações que provoquem emoções fortes, principalmente as negativas – as ameaças, as perdas, as que geram apreensão ou medo ou dor – costumam marcar profundamente a mente da pessoa. Então, pode-se afirmar que a emoção atua como uma espécie de “cola” da memória.

d) Memória e repetição

A exposição da pessoa, de forma repetitiva, a determinados estímulos externos, fará com que esses conteúdos fiquem fortemente retidos em sua memória, produzindo algum tipo de ação ou reação. A memória pode ser treinada por meio de exercícios de repetição, foco e reflexão, fortalecendo, assim, as conexões neurais (sinapses).    

Jesus afirmou: “Porque a boca fala do que está cheio o coração.” (Mt 12.34b). De fato, é necessário acumular um bom tesouro na mente e isso irá direcionar boas ações (Lc 6.45b). E, o modus operandi divino recomendado é esse: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração;  tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.6-7)

Do exposto pode-se concluir que:

A memória humana não é um “arquivo estático e não degradável”, mas uma espécie de arquivo dinâmico resultado de um processo seletivo, emocional, repetitivo, impreciso e subjetivo.   

É possível, de maneira consciente e intencional exercitar e direcionar a mente para aquilo que pode dar esperança, fortalecer a fé e promover a paz interior. A memória pode ser moldada pela atenção e dedicação a algo verdadeiramente importante. Trazer à memória exige intencionalidade, é dirigir voluntariamente o foco, a atenção, para o que edifica a vida cristã e agrada a Deus.

A ciência diz que:
• recordar eventos positivos ou de superação aumenta a resiliência,
• ativa áreas do cérebro ligadas à motivação,
• reduz ansiedade.

E, o que o profeta Jeremias nos diz?

Jeremias está mergulhado em dor, luto e sensação de abandono. O contexto é o cativeiro babilônico de 70 anos. A lamentação é a exteriorização da dor da alma, difícil de ser contida, que aperta e sufoca. Tanto faz se essa se expressa de forma escrita ou verbal. Em qualquer dos casos a tristeza e o choro são coadjuvantes sempre presentes.

A calamidade que se abateu sobre Israel foi algo pavoroso, indescritível, ao ponto de se afirmar: “Mais felizes foram as vítimas da espada do que as vítimas da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos.” (Lm 4.9).

Em resumo, o estrago foi devastador:

  • Seus palácios, suas casas e o templo foram destruídos e queimados (Lm 2.5-60);
  • Seus príncipes caíram e seu povo foi levado para o exílio sob grande escravidão (Lm 1.3-6);
  • Deram suas coisas mais estimadas em troca de mantimentos (Lm 1.11);
  • As crianças desfaleciam pelas ruas da cidade (Lm 2.11; 4.10);
  • Mães cozinharam seus filhos para comer, tamanha foi a fome durante o cerco de aproximadamente 18 meses (Lm 2.20; 4.10);
  • Os velhos, os jovens e as virgens foram mortos à espada (Lm 2.21); virgens foram estupradas (Lm. 5.11);
  • Os inimigos desprezaram e debocharam dos que restaram (Lm 2.15).

Daí a razão de tamanho lamento, muitas vezes expresso em forma de metáforas (Lm 1.1, 9, 16, 20; 2.11, 18).

Imerso nesse contexto calamitoso Jeremias não se rende, não se desespera, mas reage:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21)

Esse é um ato intencional. Jeremias decide direcionar a mente para a memória humana que não é passiva; que é ativa, seletiva e emocionalmente construída. Não se pode controlar tudo o que acontece conosco ou ao nosso redor, mas, felizmente, podemos escolher o que lembrar. A mente pode permanecer livre mesmo quando o corpo está preso – como Paulo e Silas, que, encarcerados, oravam e louvavam ao Senhor (At 16.25).

E, o que me pode dar esperança, principalmente em dias sombrios? Certamente um conteúdo mental de valor: convicções, fatos ou lembranças, capazes de produzir em meu ser a esperança. E, o que seria isso?

Jeremias se lembra do Deus de Israel, do seu caráter, do seu poder, dos seus feitos passados e do que ele pode fazer.

1. O DEUS MISERICORDIOSO

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã.” (Lm 3.22-23a)

A calamidade que se abateu sobre Israel era resultado do juízo divino sobre a rebeldia e desobediência do povo e dos seus líderes. O pecado destrói e tem feito um tremendo estrago na humanidade, tanto maior quanto mais se aproxima o fim de todas as coisas e a volta de Cristo. Cristãos e não cristãos sofrem as consequências da rebeldia humana contra Deus. Entretanto, calamidades pessoais nem sempre são consequência direta do pecado próprio. Na Bíblia, na história e na nossa mente há o registro de inúmeros exemplos de gente fiel e temente a Deus que passou ou está passando por situações difíceis. Jeremias olha para a calamidade e encontra misericórdia onde só se via ruínas. Sua visão não muda os fatos, mas os ressignifica.

2. O DEUS FIEL

“Grande é a tua fidelidade.” (Lm 3.23b)

O profeta não estava decepcionado com Deus, nem intencionava questioná-lo. Deus se mostrou fiel à sua palavra de advertência. Deus não tem compromisso com os desobedientes e rebeldes, mas vela por sua palavra para a cumprir. “Fez o SENHOR o que intentou; cumpriu a ameaça que pronunciou desde os dias da antiguidade; derrubou e não se apiedou;” (Lm 2.17); “Deu o SENHOR cumprimento à sua indignação, derramou o ardor da sua ira; acendeu fogo em Sião, que consumiu os seus fundamentos.” (Lm 4.11). “Justo é o Senhor, pois me rebelei contra a sua palavra;” (Lm 1.18). É extremamente proveitoso para o cristão refletir sobre o preço do afastamento de Deus e da prática do pecado. Deus não é tolerante ao pecado como muitos chamados cristão o são.

Deus Pai não é fiel, nem a mim e nem a você, mas a si mesmo. Cristo permanece fiel a si mesmo: “pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” (2Tm 2.13).
• Fiel à sua santidade, que repudia o pecado.
• Fiel à sua justiça, que disciplina o seu povo.
• Fiel ao seu amor, que oferece redenção ao arrependido.

Ainda que pudesse haver no povo algum sentimento de abandono, por parte de Deus, o Senhor responde: “Mas Sião diz: O SENHOR me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” (Is 49.14-15)

3. O DEUS DA ESPERANÇA

“A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.” (Lm 3.24-25)

É muito impressionante, para não dizer bizarro, como tantas pessoas depositam sua esperança em coisas vãs e efêmeras. Já a esperança maior do cristão está no Deus único e verdadeiro.

No passado e no presente a igreja tem enfrentado perseguições severas. É difícil até imaginar o que passaram ou estão passando muitos servos de Deus, quando despojados de sua casa, de seus bens e de seus pertences, de seus familiares e de seus irmãos em Cristo e amigos, de cuidados e de um tratamento digno. Quando tudo isso lhe é tirado, o crente regenerado ainda tem o que ninguém jamais pode retirar dele – a minha porção é o SENHOR. É como disse o salmista: “Digo ao SENHOR: Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente.” (Sl 16.2)

Essa sim é a verdadeira esperança. E, o Senhor manifesta a sua bondade para os que assim agem, para os que confiam e esperam por ele. Quando o crente enfrenta qualquer situação difícil é sempre possível encontrar, no bom depósito da memória, elementos ou mesmo uma cadeia de verdades espirituais que dão esperança.     

4. O DEUS SALVADOR

“Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio.” (Lm 3.26)

A vida cristã não é de passividade e de inércia, em que Deus faz tudo e o cristão fica confortavelmente esperando o agir de Deus. Na verdade, a salvação sim é obra exclusiva de Deus. Em qualquer tempo, de normalidade ou dificuldade, deve prevalecer aquela parceria harmônica com Deus, em que: “Devemos orar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós. Só orar não! Só agir não!”  

Entretanto, precisamos considerar que, na caminhada da vida, há circunstâncias e situações que escapam ao nosso controle e capacidade de alterar, mas não da intervenção divina. Então, é preciso esperar em Deus.

Esperar em Deus é:

a) Confiar no caráter de Deus
É ancorar a alma em quem Deus é e na sua palavra (Sl 130.5), sem se deixar abater pelas circunstâncias e, mesmo antes que estas deem sinais de melhoria.

b) Ter paciência
Deus trabalha no tempo dele, no seu kairós e não no nosso chronos, o tempo do calendário e do relógio. É perseverar sem perder a confiança e a esperança no seu agir.

c) Renovar as forças
Em certas situações, quanto mais a pessoa se agita, mais perde as forças, nada consegue, tendendo a sucumbir. “mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Is 40.31)

d) Descansar em silêncio
Essa espera confiante e silenciosa significa rendição, ausência de queixa, quietude do coração, abandono da ansiedade. “Descansa no SENHOR e espera nele, não te irrites por causa do homem que prospera em seu caminho, por causa do que leva a cabo os seus maus desígnios.” (Sl 37.7)

Conclusão

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.” (Pv 4.23)

Certamente, não está em foco aqui o órgão físico – o coração –, mas, simbolicamente, a mente, que é o centro dos pensamentos, escolhas, decisões, comportamentos e, em última instância, da condução da vida. É o núcleo do conhecimento, das emoções e da espiritualidade. Guardar a mente é vigiar, selecionar e protegê-la quanto ao que nela entra; é cuidar do que nela é gestado e encaminhado para a ação; é cultivar virtudes e afastar-se do mal; é colocar Deus no centro e submeter-lhe o nosso eu.

Finalmente, é preciso fazer um alerta. A humanidade tem vivenciado cinco grandes períodos ou regimes de poder baseados nos recursos e condições de cada época. Embora, por vezes, se sobreponham e coexistam em muitos momentos, se distinguem e caminham numa direção.

1. Poder pela Força Física e Militar (Idade Tribal → Antiguidade).

2. Poder pela Riqueza e Economia (Antiguidade → Mercantilismo → Capitalismo).

3. Poder Tecnológico e Científico (Séculos XIX e XX).

4. Poder pela Informação (Final do século XX → início do XXI).

5. Poder pela Mente e Consciência (Início e avanço do século XXI → futuro próximo).

Portanto, vivemos numa época em que, mais do que nunca está acontecendo uma batalha pela conquista da mente.     É a investida no controle das emoções, desejos e decisões; são algoritmos que moldam comportamento; são as estratégias para influenciar sem que o influenciado perceba. Quem influencia a mente, controla sem resistência – o domínio é interno e sutil. Enfim, não é mais a força, a riqueza, a ciência ou a informação em si, mas a capacidade de moldar percepções, crenças e decisões. Portanto, cuide bem da sua mente e memória, porque a nossa luta, acima de tudo, é espiritual – “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.12)

Que Deus nos ajude!


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Renovando a Esperança

Introdução          

Dizem que “Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo que amar e algo que esperar…”

O que é esperança?

“Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?” (Rm 8.24b)

Esperança ou expectativa são termos que expressam, de um lado, o ato de “esperar”, porém, também incluem a ideia do “objeto esperado”. Esse objeto esperado é algo positivo e desejado, que ainda não se tornou real (Rm 8.24); baseado em promessas (Hb 10.23) ou possibilidade de tornar-se realidade, mesmo quando há indicações do contrário (Rm 4.18); e, com elementos confiáveis que sustentem esta esperança, caso contrário não passaria de sonho ou ilusão ou imaginação. “Anseio” é um termo que denota impaciência nessa espera ou desejo que o objeto se torne realidade o mais breve possível.

Esperança é a segunda das três “virtudes teologais” (tríade cristã primitiva ou os três elementos fundamentais da vida cristã) mencionada em 1Coríntios 13.13: “Agora, pois, permanecem a , a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” Nenhuma dessas virtudes pode existir sem as demais.

Sentimento de culpa, pensamentos negativos, estresse, depressão, desânimo, conflitos relacionais, separação conjugal, ressentimentos, doença ou morte na família, perdas materiais, são alguns dos muitos problemas que podem roubar nossa paz, nossa qualidade de vida e precisam ser superados. Há muitas pessoas precisando reencontrar a alegria de viver; renovar o ânimo; reacender a chama da esperança: “E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13). Lembre-se que a verdadeira esperança é a nossa tábua de salvação para sair da crise! É ela que nos dá o fôlego para prosseguir na caminhada da vida (Is 40.31). 

Você está sendo consumido pelas adversidades da vida? Como anda sua esperança? Em que consiste sua esperança? Como direcionar corretamente e fortalecer a esperança em tempos difíceis? Neste estudo procuraremos abordar alguns aspectos sobre a importância de conhecer e alimentar uma viva esperança (1Pe 1.3).

1. O SIGNIFICADO BÍBLICO DA “ESPERANÇA”

Cada povo, em cada época, e a humanidade como um todo, vive sua peculiar experiência de esperança.

1.1 – Esperança, no Antigo Testamento (AT)

O termo “esperança” ocorre 50 vezes no Antigo Testamento (AT), além de inúmeras ocorrências de outros termos que caracterizam a mesma ideia. Na história de Israel, registrada no AT, encontramos um povo diferenciado em sua crença – monoteísta, isto é, cultuando um só Deus, Javé, enquanto os outros povos eram idólatras, cultuavam vários deuses. Diante de tanta violência, invasões, guerras, inferioridade “militar” (por vezes), adversidades, o povo precisava contar com a ajuda do alto e refugiar-se em Deus. Diferentemente daqueles povos pagãos, Israel podia chamar Javé de “Esperança” e orar assim: “Pois tu és a minha esperança, SENHOR Deus,..” (Sl 71.5). E, Jeremias dizer: “Ó Esperança de Israel e Redentor seu no tempo da angústia,…” (Jr 14.8; ver tb Jr 17.13). Os israelitas esperavam pelo seu nome (Sl 52.9), pela sua palavra de perdão (Sl 130.5), pelo seu braço forte (Is 51.5), pela sua salvação (2Sm 22.3). Os profetas vaticinaram a restauração da “sorte de Israel” (Jr 31.23). A vinda do Messias é prometida e esperada desde Gênesis 3.15 e ratificada ao longo do AT (Dt 18.15-19; 2Sm 7.16; Sl 2; Sl 16.10; Sl 22; Is 4.2-6; Is 7.13-14; Is 9; Is 60.1-2; Ez 34; Dn 9.24-27; Mq 5.2-5; Zc 6.13; 9.10 etc.).  

1.2 – Esperança, no Novo Testamento (NT)

O termo “esperança” ocorre 55 vezes no Novo Testamento (NT), além de inúmeras ocorrências de outros termos que caracterizam a mesma ideia. No grego, o substantivo “esperança” é “elpis” e o verbo “esperar” é  “elpizõ” . É curioso que a palavra “esperança” não apareça nos Evangelhos e no Apocalipse. Ocorre em Atos (8 vezes), nas epístolas paulinas (38 vezes) e, nas epístolas gerais (9 vezes). Portanto, a ênfase se acha nos escritos de Paulo.

Enquanto no AT se convivia com o “ainda não” da realização da salvação, no NT o Messias já veio e inaugurou o “hoje sim, porém, ainda não” no que se refere à salvação eterna e todas as bênçãos, presentes e futuras, dela decorrentes. “Aquilo que antes era futuro agora se tornou presente nele para a fé: a justificação, o relacionamento com Deus como filho dele, a habitação do Espírito Santo na pessoa, o novo povo de Deus que se compõe de crentes de Israel e das nações.”[1] (E. Hoffmann)       

No NT, os cristãos também reconhecem que Javé é o Deus da esperança (Rm 15.13). E que este constituiu a Jesus Cristo, seu Filho, como nossa esperança (1Tm 1.1; 4.10).

2. A ESPIRAL DA ESPERANÇA

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.” (Rm 5.3-4)

Sabemos, perfeitamente, que é de provação e aflição a nossa vida aqui. Jesus nos preveniu a esse respeito: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33). Nesta mesma linha o apóstolo Paulo acrescenta:  “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação,” (2Co 4.17). O apóstolo também nos apresenta uma espécie de “espiral da esperança” no texto de Romanos 5.3-4: Tribulação -> Perseverança -> Experiência -> Esperança.

No texto de Romanos 8.18-25 destacam-se alguns aspectos tristes e desfavoráveis dessa nossa transitória vida terrena, tais como: a realidade do sofrimento do tempo presente; a sujeição da criação à vaidade; o jugo do cativeiro da corrupção; o gemido da criação por conta da maldição desde a queda no Éden, o que inclui os remidos do Senhor que aguardam a redenção do corpo, a redenção completa. É daí que provém a nossa angústia, que pela graça de Deus pode ser superada pela esperança em tudo o que o Senhor já fez, está fazendo e ainda fará por nós. Ele não nos deixou só no enfrentamento das tormentas desta vida: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20b). E, ainda mais, somos desafiados e exortados a mantermos firme a nossa fé e confiança no Senhor, para podermos permanecer de pé no dia mau: “Os que confiam no SENHOR são como o monte Sião, que não se abala, firme para sempre.” (Sl 125.1).

3. ESPERANÇA E PACIÊNCIA

Enquanto aguardamos a manifestação dessa redenção prometida é necessário aguardar, com paciência (Rm 15.14) e perseverança, crendo que quem prometeu não há de falhar. Em vez de olharmos para as circunstâncias negativas precisamos manter o foco na missão recebida, renovando nossas forças e motivação na promessa divina: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.” (Rm 8.18). Se aquilo que está diante de nós, se aquilo que vemos só nos traz tristeza e desalento, é preciso exercitar a paciência, fixando-nos naquilo que ainda não vemos,  perseverando na esperança da intervenção divina, no tempo por ele determinado (Rm 8.25).

4. ESPERANÇA E RAZÃO

“Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência.” (Rm 4.18)

Por vezes a “esperança” há de duelar com a “razão”, isto é, quando a esperança desafia a lógica humana. Não se pode perder de vista que a esperança não se submete à razão pois a ela transcende. A lógica humana se expressa com base em condições e possibilidades verificadas no mundo material e racional. Entretanto, a realidade humana também está sujeita a elementos que transcendem o natural e material, ou seja, ao sobrenatural. Deus é o Deus dos impossíveis e nada pode limitar sua ação (Mt 19.26; Mc 10.27; Lc 1.37; 18.26-27).

A referência no texto bíblico acima a Abraão ilustra perfeitamente essa relação entre esperança e razão. “Esperando contra a esperança”, isto é, quando a razão e a lógica humanas negavam qualquer possibilidade de Sara engravidar, o humanamente impossível se rendeu à sempre possível e irresistível ação divina. Portanto, diante dessa verdade incontestável, nossa esperança deve se renovar e fortalecer.

Diante dos maiores desafios e adversidades, algumas pessoas cedem lugar ao pessimismo e se entregam ao desânimo. Por outro lado, o verdadeiro cristão não se intimida e não recua, por mais desfavoráveis e graves que sejam as circunstâncias. Porque a esperança cristã surpreende e supera qualquer dificuldade, inclusive a morte: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá;” (Jo 11.25).

5. A ESPERANÇA CRISTÃ

Alguns aspectos da esperança cristã são assim descritos no NT:

– A esperança da ressurreição dos justos e injustos (At 24.15).
– A esperança da glória de Deus (Rm 5.2).
– Uma esperança inconfundível (Rm 5.5).
– A esperança da remissão do cativeiro da corrupção (Rm 8.21).
– A esperança que nos traz regozijo (Rm 12.12).
– A esperança que nos vem pela consolação das Escrituras (Rm 15.4).
– A esperança que transcende os portais desta vida terrena (1Co 15.19).
– Uma só esperança da nossa vocação em Cristo Jesus (Ef 4.4).
– Uma esperança que nos está preservada nos céus (Cl 1.5).
– A esperança que nos vem do Evangelho (Cl 1.23).
– A esperança que se sustenta em Cristo (1Ts 1.3).
– A esperança que nos equipa com o capacete da salvação (1Ts 5.8).
– A esperança da vida eterna prometida antes dos tempos eternos (Tt 1.2; 3.7).
– Uma esperança superior pela qual nos chegamos a Deus (Hb 7.19).
– Uma viva esperança (1Pe 1.3).
– Uma fé e esperança postas em Deus (1Pe 1.21; 1Jo 3.3).
– Uma esperança que deve ser explicada à tantos quantos a questionarem (1Pe 3.15).

Não há que duvidar quanto a essa bendita esperança. Na caminhada rumo à maturidade cristã devemos percorrer uma outra espiral, a espiral das confissões da esperança cristã declaradas pelo apóstolo Paulo: “cremos” (gr. pisteuomen)(Rm 6.8); “Estou bem certo” (gr. pepeismai)(Rm 8.38); e, “Estou plenamente certo” (gr. pepoithos)(Fp 1.6). O cristão, tendo a plena certeza de que serão concretizadas as promessas divinas, algumas aqui e agora, e outras, lá e então, gloria-se na sua esperança, pois “… o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos” (Tt 1.2).

“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).

A esperança cristã é aquele elo e ponte que interliga o tempo presente (marcado por sofrimentos) com a consumação do futuro escatológico (tempo de glória). A esperança cristã nos conclama a esperar com paciência, disciplina e confiança até a nossa chamada à casa do Pai Celestial, ou a manifestação gloriosa do Senhor Jesus na sua Segunda Vinda. Enquanto esperamos, vivemos uma vida abundante e vitoriosa em Cristo Jesus (Rm 8.37; 1Co 15.57; 2Co 2.14).

Conclusão

Quando se é iludido com a percepção de que se tem tudo, nada se espera; quando se acha que se tem muito, pouco se espera; quando se reconhece que o que se tem nada é, tudo se espera! Esta vida terrena é passageira e nada é quando comparada ao que Deus tem preparado para aqueles que o amam (1Co 2.9).

“Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas. (2Co 4.16-18)

Que a presente vida terrena está envolta em dificuldades e sofrimentos, não há dúvida; muito embora possamos desfrutar de bons momentos de refrigério e regozijo. Entretanto, o que nos está reservado no porvir mantém acesa a nossa esperança. Embora a espera seja dolorosa, esta pode ser vista de forma animadora quando comparada com o “trabalho de parto”. A dor e sofrimento da parturiente é compensada pela alegria de ter em seus braços aquele pequenino ser por ela gerada.

Finalmente, vale lembrar que a esperança é comparada a uma “âncora da alma” (Hb 6.18-19). “Assim como o navio fica seguro quando está no ancoradouro, nossa vida se firma na esperança que nos liga a Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote que entrou no santuário.” [2] (E. Hoffmann)

“Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR.” (Sl 27.14)

Que Deus nos ajude!

Bibliografia:

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Didaquê – Vida Abundante – DE BEM com a vida.
4. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 1985, Vol. II.
5. Internet.


[1] Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 1985, Vol. II, Pg.117

[2] Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 1985, Vol. II, Pg.120