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Culto Individual, Familiar e Comunitário

Introdução

Com a intenção de testar Jesus e coloca-lo em dificuldade, o intérprete da Lei pergunta: – Mestre, qual é o principal, o primeiro, de todos os mandamentos? Considerando a imensa quantidade de mandamentos, abrangendo tantas áreas e aspectos importantes, a tarefa de escolher um ou fazer um resumo de todos, parecia simplesmente impossível. Para os homens comuns, sim; mas para Jesus, não. De forma magnífica Jesus responde: “…O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mc 12.29-31).

Na nossa curta existência terrena precisamos levar muito a sério essas palavras de Jesus, priorizando-as acima de tantas outras que chegam até nós, ou seja:

  • Há um só Deus e Senhor, sobre tudo e sobre todos. Ele é o Deus criador e sustentador de toda a criação e deve ser distinguido e cultuado em espírito e em verdade.
  • Em decorrência desta primeira e sublime realidade, nossos pensamentos e ações precisam estar intimamente ligados a ele, distinguindo-o acima de tudo e de todos. Somente ele é digno de receber a maior manifestação do nosso amor, devoção e obediência.
  • E, complementando a síntese, Jesus nos ensina que, abaixo de Deus, o nosso próximo deve ser alvo de nosso amor, na mesma medida com que amamos a nós mesmos e, ainda mais, na medida que Cristo nos amou (Jo 13.34).

Então, de forma prática e efetiva, nossa vida precisa ser um contínuo culto a Deus, cuja liturgia se desenvolve através de atitudes e ações direcionadas diretamente a ele ou, indiretamente, quando amamos e servimos ao nosso próximo. É o que veremos a seguir:

1. CULTO INDIVIDUAL
(O Alicerce da vida cristã)

Assim como na biologia existem vários níveis hierárquicos de organização dos seres vivos, começando pelos átomos, depois moléculas e terminando no corpo vivo; de igual forma, a igreja, o corpo vivo de Cristo é constituída por indivíduos e famílias. Podemos afirmar que igreja saudável é uma igreja que agrada a Deus. Para uma igreja ser saudável, os indivíduos e famílias que a compõem também precisam ser espiritualmente saudáveis. Igreja também é comparada a um edifício. Um edifício sólido e estável é aquele edificado sobre a rocha, que é Cristo, o alicerce sólido sobre o qual as pedras vivas (os crentes) são colocadas (Ef 2.19-22; Cl 2.6-7). Essas e outras figuras metafóricas expressam a estreita ligação entre Deus e sua igreja.

É na intimidade com Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo que a vida cristã se fundamenta e se desenvolve: “A intimidade do SENHOR é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.” (Sl 25.14); “porque o SENHOR abomina o perverso, mas aos retos trata com intimidade.” (Pv 3.32). Esse estreito relacionamento entre o crente e o Senhor é que produz crentes “Alegres na Esperança, Fortes na fé, Dedicados no Amor, Unidos no trabalho”, como diz o moto da UMP (União de Mocidade Presbiteriana).

É no Culto Individual que desenvolvemos esta intimidade com Deus. Temos belíssimos exemplos, na bíblia e na história, de servos de Deus que fizeram a diferença em seu tempo por conta de seu estreito relacionamento com Deus: Enoque andava com Deus (Gn 5.22-24); Moisés tratava com Deus face a face (Dt 34.10-12); Ana, na sua intimidade com o Senhor foi atendida (1Sm 1 e 2); Samuel, em tempos de apagão espiritual foi usado por Deus para a restauração espiritual do povo de Israel, pois o Senhor se manifestava a ele (1Sm 3.21). Davi, apesar de suas fraquezas era um homem segundo o coração de Deus (At 13.22). Os salmos de autoria de Davi são testemunhas da sua intimidade com Deus, onde ele expressa louvores, ações de graças, sua confiança em Deus, mas, também, suas perplexidades e clamor. E, o que dizer de Daniel? O registro bíblico já diz tudo: “Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer.” (Dn 6.10). Mesmo sob ameaça e correndo o risco de perder a sua vida, ele não alterou sua rotina cotidiana.

Jesus nos ensina que precisamos buscar um momento a sós com Deus: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mt 6.6). Além de orar, em hora apropriada e lugar sossegado, precisamos, primariamente, nos enriquecer com a leitura da bíblia[1], e, complementarmente com a leitura de bons textos devocionais, livros etc. O cântico de louvores é parte integrante e relevante do culto a Deus (Sl 34.1; Mt 26.30; At 16.25).   Finalmente, é bom deixar claro que o culto individual não fica restrito a um momento reservado e isolado. O servo de Deus deve cultuar a Deus em todo o tempo e em todo o lugar, com seus pensamentos, palavras, atitudes e ações.

2. CULTO FAMILIAR
(O Alicerce da família cristã)

Famílias cristãs espiritualmente fortalecidas são bênção para a igreja. Ao invés de drenar recursos e esforços da liderança, na solução de seus problemas, elas contribuem para ampliar os recursos a serem utilizados para alcançar os perdidos. Para que isso aconteça, os pais ou responsáveis precisam desempenhar o seu papel, ao invés de querer delegar ou terceirizar o que é seu dever. Isso deve ser feito com muita sabedoria, dedicação e oração, nunca por decreto ou por força ou por violência. Não é eficaz obrigar os filhos pequenos a participar de culto doméstico, ler a bíblia e ir à igreja. Conduzir não é obrigar! Antes de tudo é preciso viver uma vida cristã tão linda que contagie os outros membros da família a amar a Deus, obedecê-lo e fazer a sua vontade. É preciso respeitar sempre a individualidade de cada um e usar de sabedoria para conduzi-los.

Vejamos alguns aspectos importantes do culto doméstico ou familiar:

a) É mandato de Deus para os pais (Dt 6.6-9)

“Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.6-7).

É preciso ensinar, primeiramente com o exemplo pessoal, mas também com as palavras; repetindo quantas vezes for necessário e insistindo até a absorção e prática natural.

b) Proporciona a oportunidade de transmissão de valores para a formação de caráter (Gn 35.2; Js 24.15; Ml 2.6)

“Então, disse Jacó à sua família e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes;” (Gn 35.2)

“Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: …. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR. (Js 24.15)

“A verdadeira instrução esteve na sua boca, e a injustiça não se achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão e da iniquidade apartou a muitos.” (Ml 2.6)

O pai, e na sua ausência a mãe ou outro responsável, precisa exercer os papéis de profeta, sacerdote e pastor da sua família. Como profeta, ele recebe a palavra de Deus e a transmite para a sua família. Como sacerdote, ele zela pela pureza e santidade da sua família. Como pastor, ele guia e cuida da sua família.

c) Tem a promessa de resultado duradouro (Pv 22.6)

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv 22.6)

Para que o resultado seja alcançado é preciso observar cuidadosamente o início do texto: “ensina a criança”. É a partir da mais tenra idade que o processo deve começar. A criança é uma verdadeira esponja, absorvendo tudo o que ouve e vê na sua família. Inicialmente ela reage por imitação; depois, por sua própria vontade e decisão. Vale ressaltar que o ensino se dá “no caminho”, isto é, durante a caminhada e convivência.

d) Tem a promessa de prolongamento da vida (Dt 6.2)

“para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados.” (Dt 6.2)

No período do AT, aquele que se desviava dos mandamentos divinos, sendo rebelde e transgressor, não vivia muito tempo, inclusive porque a tolerância divina era mínima para com os ímpios. Observando-se a história humana, não será difícil constatar que, de um modo geral, aquelas pessoas que foram bem cuidadas e orientadas quando crianças tiveram vida mais longa. E, essa constatação é muito mais evidente e tangível quando essa orientação familiar se dá a partir de princípios e valores cristãos.

d) Proporciona a oportunidade de um prazeroso convívio familiar.

Há muitos momentos de convívio familiar prazeroso. Família é bênção de Deus em nossas vidas! Entretanto, esse momento em que a família se reúne para cultuar a Deus é especialmente prazeroso. Apenas quem já o vivenciou pode testemunhar essa realidade. São momentos de deleite e edificação: na leitura e meditação na Palavra de Deus, no ouvir aquela oração simples e sincera da criança, no compartilhar as vivências do dia, no esclarecimento de dúvidas. São momentos de plantar memórias que servirão de esteio para os filhos para o resto de suas vidas. São momentos temporários, mas com desdobramentos eternos.

e) Deve ser feito com criatividade e de forma lúdica.

Há que usar de sabedoria e criatividade para tornar esse momento tão atrativo que a criança fique na expectativa de chegar a hora do próximo “cultinho”. Os pais não precisam ser teólogos ou professores para conduzir esse momento. Basta buscarem um conhecimento básico daquilo que será ensinado e compartilhado. Certamente o conteúdo bíblico será a base. Além da Bíblia, as livrarias evangélicas (físicas ou virtuais) oferecem inúmeros materiais ou recursos de apoio para serem utilizados no culto familiar ou doméstico (livros, cadernos, jogos, CDs, DVDs etc). Na internet podem ser encontradas muitas dicas sobre o assunto.

Finalmente, a pergunta que não quer calar é: por que o culto familiar é tão negligenciado, se há pleno conhecimento, tanto da sua importância, quanto do estrago causado quando não é praticado? A influência dos pais sobre os filhos pode ser impactante e duradoura, como aquela de Jonadabe, filho de Recabe, usada por Deus como exemplo de obediência (Jr 35.1-19). Por que não aproveitar esse momento para exercer influência benéfica sobre a família?

3. CULTO COMUNITÁRIO
(O Alicerce da igreja cristã)

Longe de ser uma rotina dominical ou uma obrigação religiosa, o culto comunitário deve ser algo muito esperado e desejado por todos (2Cr 20.13), algo que gera alegria e júbilo (Ne 12.43), algo a ser preservado (At 2.42; Hb 10.25). Qualquer que seja a forma de culto – individual, familiar ou comunitário – o culto bíblico deve ser norteado por alguns princípios.

Vejamos alguns aspectos importantes do culto comunitário:

a) Princípio da destinação

“….Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4.10)

O culto bíblico é oferecido única e exclusivamente a Deus, portanto, é teocêntrico e não antropocêntrico.

b) Princípio da autoridade

“ Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo.” (1Co 11.3)

Considerando a presença de muitas pessoas no culto comunitário, há que se ter pessoas responsáveis pela liderança da programação. Não é razoável que cada um resolva fazer o que tiver vontade. A autoridade de gênero estabelecida por Deus não deve ser desprezada.

c) Princípio da comunhão

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.3)

Além da adoração a Deus, o culto deve promover a comunhão e unidade do corpo de Cristo, a igreja.

d) Princípio da decência e ordem

“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.” (1Co 14.40)

Deus merece o nosso melhor, tanto em termos de forma como de conteúdo.

e) Princípio da participação

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26)

Ainda que alguns atuem mais diretamente na liturgia do culto – orando, pregando, cantando no coral ou tocando um instrumento musical – não podemos nos comportar como meros espectadores ou, muito menos, como quem frequenta o culto apenas para avaliar e criticar. Somos parte integrante daquilo que está sendo realizado, associando nossas mentes e emoções.

f) Princípio da edificação

“Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua.” (1Co 14.19)

Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26b)

No culto se exalta a Deus e se promove o crescimento espiritual dos crentes, rumo à maturidade cristã.

g) Princípio da reverência

“Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá.” (Jo 2.17)

É preciso manifestar respeito profundo ao cultuarmos a Deus. Ele está presente para receber o culto que lhe oferecemos. Enquanto se desenvolve a programação litúrgica: onde estão os nossos pensamentos? Cantamos refletindo sobre a letra? Acompanhamos cada palavra da oração que está sendo feita? Prestamos atenção na mensagem? Ou: conversamos com quem está perto a qualquer tempo, nos distraímos com a criança que está à nossa frente, consultamos o celular a todo instante.

h) Princípio do amor

“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais,…” (1Co 14.1)

Quando o amor a Deus e ao próximo se torna a base de tudo em nossas vidas, inclusive a base do culto que prestamos a Deus, tudo flui melhor. Ainda que as nossas imperfeições pessoais sejam fatores de limitação na realização do culto comunitário, esse amor vem preencher as lacunas (1Pe 4.8).

Conclusão:

Esclarecidos a respeito dessas três formas de culto (individual, familiar e comunitária), quanto ao que consiste e quanto à sua importância, resta a todos nós o desafio permanente de praticá-las e incentivar outros a fazerem o mesmo.


[1] Sugerimos o uso do Plano de Leitura Bíblica em 2 anos disponibilizado neste blog:
https://pauloraposocorreia.com.br/category/leitura-biblica/portugues/

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A espiritualidade no culto do NT

Introdução          

Neste estudo, abordaremos a espiritualidade no culto do Novo Testamento (NT), no período que precede o nascimento da igreja e, principalmente, no período da igreja.

É relevante lembrar aqui alguns aspectos relacionados ao culto. Adoração e culto são termos fortemente entrelaçados. A adoração é a essência do culto, porém o culto vai além da adoração. O culto envolve o(s) cultuador(es) e o(s) objeto(s) de culto (At 17.23). O culto bíblico é a resposta do povo de Deus, ao Deus único e verdadeiro que a ele se revela, através da Bíblia, tributando-lhe adoração, louvor, honra e glória por aquilo que ele é; louvando e agradecendo por aquilo que ele tem feito. Culto é mais do que um evento; é orgânico, é visceral, é vida com Deus que se expressa em todo o tempo e no lugar onde estivermos. Assim sendo, pode ser considerado como culto pessoal, familiar e público. A base deste culto não é a livre vontade e espontaneidade do cultuador, mas os termos estabelecidos por Deus naquela aliança que liga o Criador às criaturas. Assim, em cada uma das alianças de Deus com os homens, havia elementos específicos para o culto. Nessas alianças, Deus fazia promessas de bênçãos que eram condicionadas à obediência desses aos seus decretos.

No AT, a principal aliança, a Mosaica ou da Lei ou Antiga Aliança continha elementos para o culto a Deus, pelo povo de Israel, que serviram de referência para o culto na Nova Aliança, pela Igreja:

a) Um dia separado para o culto;
b) Um local para o ajuntamento;
c) Um sistema sacrificial e rituais de purificação etc.

Nosso objetivo, neste estudo, não é investigar a espiritualidade no NT, mas como ela se expressava e se desenvolvia no culto:

1. Antes do Ministério Público de Cristo

Pode-se dizer que a rebeldia do povo de Israel, na Antiga Aliança, chegou a níveis insuportáveis, acarretando o exílio e cativeiro; primeiramente do Reino do Norte e, depois, do Reino do Sul. Vale ressaltar que, no início, no meio e no final do AT encontramos recados explícitos de Deus aos cultuadores e ofertantes, a saber (dentre outros):

  • Tanto o ofertante, quanto a sua oferta precisam agradar a Deus (Abel e Caim – Gn 4.3-5).
  • Obedecer é melhor do que sacrificar (Samuel disse isso a Saul – 1Sm 15.22).
  • Deus não suporta iniquidade associada ao Culto (Is 1.10-15; Am 5.21-23).
  • O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu contentamento. (Pv 15.8).

Com a destruição do principal local de culto, o Templo de Jerusalém, e o exílio, o povo começou a cultuar nas sinagogas. O NT começa com o povo de Israel cultuando a Deus no Templo reconstruído por Zorobabel (516 aC) e remodelado por Herodes (1º Séc. dC), bem como nas Sinagogas, nas mesmas bases da Antiga Aliança (Lc 1.8-10; 2.22-23; 2.41-50).

2. Durante o Ministério Público de Cristo

Precedendo o ministério público de Jesus entra em cena João Batista, o precursor predito pelos profetas (Mc 1.2-3; Ml 3.1; Is 40.3). Que tipo de culto ele prestava a Deus? O que sabemos é que ele atuava fora das quatro paredes e extramuros, pregando e realizando o batismo de arrependimento, anunciando Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele começa a fazer a ponte entre a Antiga e a Nova Alianças.

A primeira menção a culto no NT saiu da boca de Jesus, no deserto da tentação (Mt 4.10).

“Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” (Lc 4.16)

Ele tinha o costume de frequentar o templo e as sinagogas (Lc 4.16; 4.31-37; 21.37-38; Mc 1.21-22; Mt 12.9) e, ainda, o Monte das Oliveiras (Lc 22.39).

Desde o início Jesus declarou que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas para cumprir (Mt 5.17). Ele começou a fazer uma releitura da Lei: “eu porém vos digo”. E, assim, deu continuidade à ponte entre a Antiga e a Nova Alianças. O seu campo de ação preferido eram as áreas externas, sempre cercado de multidões. Também se reunia em casas. Na sua conversa com a mulher samaritana, que estava tão confusa quanto a um lugar específico para adoração ou culto a Deus, ele esclarece que o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.19-24). Pode-se dizer que isso era uma verdadeira quebra de paradigma. Para Jesus, o templo de Jerusalém não tinha a relevância que os religiosos lhe davam (Mt 24.1-2).

Que informações temos de espiritualidade e culto neste período? O que Jesus leu na sinagoga sintetiza sua missão e forma de cultuar a Deus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18). Evangelizar, pregar, ensinar, curar e operar milagres era parte desse culto (Mc 1.32-34; 2.13; 4.1-2; Mc 9.35; Lc 5.17; 8.1). Ele também tinha o hábito de orar (Mc 1.35; Mt 14.23; 26.36; Lc 6.12; Jo 17.1-26) e cantar (Mt 26.30). Jesus também tinha o costume de participar das festas judaicas, principalmente da páscoa. Na sua última páscoa, instituiu a ceia memorial (Mc 14.22-25; Mt 26.26-29; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26) que haveria de ser observada pela igreja.

3. Na igreja do Novo Testamento (neotestamentária)

No período de “gestação da igreja”, o Senhor ressurreto diz aos seus discípulos: “…permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder.” (Lc 24.49b). Após a ascensão, Lucas registra: “e estavam sempre no templo, louvando a Deus.” (Lc 24.53). No Livro de Atos, este mesmo Lucas diz que eles subiram para o Cenáculo (salão construído em cima do andar térreo de uma casa) (At 1.13), lugar provável onde nasceu a igreja, no dia de Pentecostes (At 2.1).

Como o Templo de Jerusalém estava muito atrelado ao judaísmo, a igreja nascente se expande para além dele, na mesma linha de João Batista e de Jesus: “o campo é o mundo”, isto é, espaços ao ar livre (outdoor) (praças – At 17.17b; praia – At 21.5; junto ao rio – At 16.13) e em ambientes fechados (indoor)(Ainda no Templo – At 3.1; 5.25; 5.42; Cenáculos – At 20.8; Casas – At 2.46; 5.42; 20.20; Rm 16.5; Sinagogas – At 13.14; 14.1; 17.1-9; 17.10-15 etc).

3.1 O paralelo entre o culto no AT e no NT

Há três aspectos importantes a se considerar, quando se compara o culto nos AT e o culto no NT:

 a) O Templo (o lugar)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava um local e construção específicos (Dt 12.13-14), como o Tabernáculo e, depois, o Templo; na era da igreja ela se desloca para o santuário do corpo do salvo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16; ver tb 1Co 6.19). Isso significa que este deve prestar um culto contínuo a Deus, na liturgia da vida. Numa analogia bastante modesta, o culto no Antiga Aliança (AT) está para o telefone fixo, assim como o culto na Nova Aliança (NT) está para o telefone móvel. No primeiro caso era necessário ir ao “telefone fixo” (templo) para falar (cultuar); no segundo, o “telefone móvel” (corpo-templo) para falar (cultuar) vai conosco.

b) O Sacerdócio (o mediador)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a intermediação de um Sumo Sacerdote, da linhagem de Levi; na era da igreja ela se desloca para o nosso eterno Sumo Sacerdote – Jesus Cristo – um Sumo Sacerdote perfeito (santo, inculpável e sem mácula) (Hb 7.26-28). Nenhuma figura ou líder humano deve se atrever a tentar ocupar este lugar de mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), tanto no que diz respeito a salvação eterna, quanto no que diz respeito ao acesso a Deus; pois o Espírito Santo foi dado a todos os remidos do Senhor.

c) O Sacrifício (o sistema de expiação)

Se no AT a centralidade e espiritualidade no culto demandava a utilização de um sistema de sacrifícios; na era da igreja o sacrifício de Jesus na cruz foi único, eficaz, perfeito e definitivo, para expiar o pecado e nos reconciliar com Deus (Hb 9). Os povos pagãos cultuavam seus deuses oferecendo-lhes seus filhos em sacrifício; mas o Deus único revela a todos os seres humanos que apenas o sacrifício do seu Filho Unigênito pode aplacar a sua ira e conceder-lhes eterna salvação (Rm 5.9; 1Ts 1.10). Nenhuma obra ou sacrifícios pessoais (penitências) são requeridos do cristão com vistas a aproximá-lo de Deus; mas espera-se que as suas obras e seu viver diário testemunhem a todos sua nova vida em Cristo.

3.2 Expressões da espiritualidade no culto, nas epístolas e Apocalipse:

a) Culto racional (Rm 12.1)

Na epístola aos romanos encontramos o seguinte apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm 12.1). Na graça devemos comparecer diante de Deus não com animais (para sacrifício e morte), mas com o nosso corpo ou ser, muito vivo e lhe dizer: “Eis-me aqui, envia-me, a mim” (Is 6.8); “usa-me, Senhor”. Templo sempre foi lugar de santidade e nós somos o templo do Espírito Santo, santuário de Deus que também precisa ser santo (1Co 3.16). Este culto racional é realizado para agradar a Deus. Para tanto, tem que ser em conformidade com as suas exigências.

b) Culto com ordem (1Co 14.26-40)

“Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1Co 14.26). A igreja de Corinto, tinha muitos problemas, que foram tratados pelo apóstolo Paulo. Ele também teve que orientá-la quanto à liturgia do culto, particularmente quanto ao uso dos dons espirituais (1Co 14.26-40). Também teve que orientá-la quanto à “Ceia do Senhor” (1Co 11.20-29). Tudo isso porque culto tem que ser prestado com ordem e visando a edificação.

c) Culto com conteúdo (Ef 5.19-21)

À igreja de Éfeso Paulo instrui: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais,” (Ef 5.19).

À igreja de Colossos Paulo recomenda: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16).

Na epístola de Tiago somos instruídos que, de certa forma, também cultuamos a Deus quando servimos ao nosso irmão, ao nosso próximo (Tg 2.14-26). Cultuar a Deus não pode ser algo teórico e abstrato, da boca pra fora; mas algo muito concreto que afeta a nossa vida a tal ponto que redunde na glorificação de Deus e bênção na vida dos que nos cercam.

No culto público, a essência precisa prevalecer sobre a forma, assim como a espiritualidade sobre a religiosidade. Portanto, na Nova Aliança, fazem parte do culto neotestamentário: a pregação da Palavra (At 20.7), a leitura das Escrituras (1Tm 4.13), a oração (1Tm 2.8), os cânticos de louvor (Ef 5.19) e as ofertas (1Co 16.1-2), além do Batismo (At 2.37-41) e da Ceia do Senhor (1Co 11.23-29) e o serviço cristão (Tg 2.14-26).

d) Culto dominical

No AT, os israelitas suspiravam pela chegada do dia de participarem das festividades em Jerusalém e irradiavam alegria enquanto peregrinavam rumo ao Templo (Sl 122.1). O ajuntamento do povo da cruz, para cultuar a Deus, deve ser motivo alegria. A igreja neotestamentária também se reunia no primeiro dia da semana, no domingo (At 20.7). O autor de Hebreus ressalta a importância de nos estimularmos, uns aos outros, a nos congregarmos: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hb 10.25)

e) Culto eterno

O Cordeiro de Deus que é cultuado e adorado pela igreja, na terra, no livro de Apocalipse é adorado eternamente (Ap 5.8-14; 15.2-4).

Conclusão:

Que Deus nos ajude a compreender essa espiritualidade no culto bíblico que deve nortear o culto na igreja de Cristo em qualquer época. Que tenhamos sempre em mente que culto não é show, beleza estética ou ritual para animar uma plateia; mas algo orientado por Deus e centrado em Deus, portanto, teocêntrico e cristocêntrico. Que compreendamos que culto é algo contínuo, pois quando termina a liturgia do templo, começa a liturgia da vida; sendo que a liturgia do templo só será aceita se tiver lastro numa consistente e santa liturgia da vida. Que, sejamos encontrados por Deus como aqueles que o adoram e o cultuam em espírito e verdade.

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