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O caminho de Caim

OCaminhodeCaim

“Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim,…” (Jd 11)

Em que tipo de estrada da vida Caim andava? Quais são as marcas desse caminho? O registro bíblico da história de Caim, o primeiro descendente humano, se encontra em Gênesis 4.1-17. Ele não ficou sozinho por muito tempo, logo recebeu a companhia do seu irmão Abel. Viver em família deveria e deve ser motivo de felicidade e gratidão a Deus, mas para Caim parece que não foi bem assim; pois a competição sobrepujou a fraternidade. É natural que na vida em família (ou na igreja) cada um desempenhe o seu papel. Assim, Caim se tornou um lavrador e Abel um pastor de ovelhas. Cada pessoa tem a sua importância e valor, naquilo que é e naquilo que faz, na família, na igreja e na sociedade. Há espaço para todos cumprirem seus papéis numa dimensão horizontal, mas, principalmente, dedicarem suas ofertas, honra e glória ao Criador, numa dimensão vertical. As quatro marcas desse caminho se revelam a partir do momento em que os dois irmãos se apresentam e se expressam diante de Deus. É fácil representar diante dos homens, mas quando nos aproximamos de Deus tudo é revelado. Essas marcas são:

1ª) Culto sem lastro

“Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” (Gn 4.3-5a)

Não se sabe ao certo qual foi a razão ou motivação que levou os dois irmãos a se apresentarem a Deus com ofertas. O fato concreto é que em determinado momento isso aconteceu. Cada um extraiu do que tinha uma porção e ofertou a Deus. Há muitos aspectos semelhantes aqui, mas um resultado bem diferente: ambos conheciam a Deus, ambos se apresentaram diante dele e ambos lhe ofertaram algo. Não vale a pena discutir o mérito da oferta, pois o texto deixa claro que Deus se agradou de Abel e de sua oferta e não se agradou de Caim e de sua oferta. Certamente alguns chamados cristãos, de uma linha mais progressista, não teriam dificuldade em vociferar que Deus foi o pivô de toda essa crise familiar. Diriam eles que faltou-lhe sensibilidade e benevolência para com alguém que se dispusera ofertar-lhe algo. Tais pessoas parecem desconhecer a essência santa e a onisciência do Soberano Deus. Avaliam a Deus tomando por base seus próprios valores e ética. Deus não está procurando bajuladores, mas adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23). Mais tarde, o povo de Israel entrou no automatismo dos sacrifícios e Deus declarou pela boca do profeta Samuel: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.” (1Sm 15.22b). Na área financeira de um país, lastro é o depósito em ouro que serve de garantia ao papel-moeda que circula. Assim, no que se refere aos valores espirituais, o “papel-moeda” representa a oferta apresentada a Deus que só terá valor se tiver como lastro uma vida santa e piedosa. Deus não se agradou da oferta ou culto sem lastro apresentado por Caim. Os dissimuladores denunciados por Judas prosseguiam no mesmo caminho de Caim: faziam de tudo para serem vistos no meio dos cristãos como quem cultua a Deus, como quem se apresenta diante dele com ofertas. Só que prestavam um culto de aparência, sem lastro, sem sinceridade e verdade, no estilo de Ananias e Safira. O que agrada a Deus é fazer como Abel: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas.” (Hb 11.4)

2ª) Amargura sem reparação

“Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn 4.5b-7)

Não se espera que alguém comemore uma repreensão ou uma frustração, nem mesmo de um cristão: “Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.” (Hb 12.11). Quando isto acontece, há, pelo menos, dois caminhos a seguir. O caminho da autoanalise, da introspecção, de rever tudo o que está errado, reparar e seguir em frente, agradando a Deus e fazendo a sua vontade. O outro caminho é se fazer de vítima, se sentir injustiçado, se irar contra Deus e contra aquele a quem ele escolheu e acolheu. O semblante se transfigura, o olhar destila ódio, de tal forma que até os animais de estimação evitam passar perto. Deus não o abandona e tenta pastoreá-lo com palavras mansas, cheias de misericórdia: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito?” Mas ele não quer ser pastoreado. Não aceita ser contrariado. Não aceita ter sido repreendido. O Senhor não desiste dele, chega junto, adverte-o a dominar o seu rancor, pois se perseverar teimosamente no caminho errado, dando vazão ao seu instinto pecaminoso, isso crescerá de maneira incontrolável e avassaladora trazendo sequelas irreparáveis. Mas ele está longe de dar ouvidos à voz da sabedoria divina. Não era seu hábito antes, muito menos agora, depois de ser repreendido.

3ª) Vingança sem piedade

“Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou.” (Gn 4.8)

Quem é que nunca se perguntou por que Deus permite tanta maldade e violência no mundo? Por que ele não impede que os ímpios pratiquem tanto mal? Alguns chegam até a negar a existência de Deus por conta dessa sua suposta inatividade diante desse estado de coisas. O salmista Asafe, no salmo 73, se dedica a tratar do problema da aparente prosperidade dos maus. A certa altura ele reconhece suas limitações e diz: “Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles.” (Sl 73.16-17). Certamente há um triste fim para os ímpios, embora agora pareça que estão prevalecendo. Repreendido por Deus, Caim permitiu-se ser possuído pela ira, esta ira gestou nele o desejo de vingança. Como não lhe era possível se vingar de Deus, destinou toda a força do seu ódio contra aquele que foi eleito e favorecido por Deus. Quer saber qual é o grande desafio que eu e você temos nesta vida? Então veja o que diz Davi: “Cantem de júbilo e se alegrem os que têm prazer na minha retidão; e digam sempre: Glorificado seja o SENHOR, que se compraz na prosperidade do seu servo!” (Sl 35.27). É isso mesmo, nos alegrarmos com a retidão de vida e prosperidade do nosso irmão! O ódio de Caim o levou a matar Abel muito antes do ato físico praticado, isto é, na sua mente. Não é sem razão que o apóstolo João diz: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si.” (1Jo 3.15). É preciso ficar muito atento a essa questão. Aquele que odeia a seu irmão em Cristo ou a outra pessoa qualquer, já cometeu o homicídio em sua mente e se tornou culpado desse pecado. Todo crime premeditado tem penas mais severas na legislação de um país. Assim se enquadra o crime de Caim: “Vamos ao campo”. Ali no campo, longe da família, ele, covardemente, descarregou toda a sua ira e todo o seu desejo de vingança sobre o seu irmão, desferindo sobre ele um violento golpe mortal; tudo premeditado.

4ª) Fuga da responsabilidade

“Disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão? E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim. És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão.” (Gn 4.9-11)

Pensar que a violência e assassinato já estavam presentes nos primórdios, quando só existia uma família humana na face da terra, nos causa perplexidade. Constatar que desde o início Deus procurou não interferir nos atos humanos pode nos causar grande desconforto. Mas é preciso confiar em Deus, pois ele está no controle de todas as coisas. Sendo Deus Onisciente, Onipresente e Onipotente, não interferiu nesse ato horrendo de Caim. Por outro lado, seu ato não passou despercebido aos olhos de Deus, tal como aconteceu com o pecado de Adão e Eva, no Éden. Deus vai ao seu encontro e o questiona sobre o paradeiro do seu irmão. Não porque não o soubesse, mas para confrontá-lo com o seu pecado, para chamá-lo à responsabilidade. Tal tipo de gente acha que pode pecar contra Deus e contra o seu irmão e sair impune. Acha que pode mentir para Deus ou fugir da responsabilidade dos seus atos: “Não sei.” Aliás, esse tipo de resposta, de tão comum, chega a estar desgastada e se tornar ridícula: “não vi”, “não sabia”, “não fui eu” etc. Não pense Caim e seus seguidores que ficarão impunes: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6.7). Assim, Deus vingou imediatamente o sangue de Abel; Caim foi amaldiçoado. No Antigo Testamento era assim, PECOU, PAGOU. Quando tratamos de fuga da responsabilidade, devemos considerar dois aspectos igualmente importantes e pecaminosos. O primeiro é a tentativa de fuga da responsabilidade dos atos errados que cometemos. O segundo é a fuga da responsabilidade dos atos corretos que deveríamos praticar e nos omitimos. O primeiro é o pecado por comissão e o segundo, o pecado por omissão. A nossa omissão pode ser considerada indiferença, o que é muito grave.

Finalizando, vale lembrar as admoestações do apóstolo João quanto ao amor entre os irmãos: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas. Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade.” (1Jo 3.11, 17 e 18). Diferentemente destes que andam no caminho de Caim, tirando a vida do seu irmão, devemos seguir o caminho de Cristo, que deu a sua vida pelos irmãos: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.” (1Jo 3.16)


Este é o primeiro artigo baseado no versículo abaixo:

“Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Coré. (Judas 11)

Veja, também, os seguintes artigos:

  • Balaão e o Jogo dos 7 Erros
  • A revolta de Coré
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