
Introdução:
“Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis, e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2Pe 3.14-16)
É impressionante como certos indivíduos usam a bíblia a pretexto de difundirem heresias para confundir as pessoas com pouco ou nenhum conhecimento teológico. De um modo geral a bíblia nos foi entregue por Deus para ser lida e entendida até mesmo pelas pessoas mais simples, pelo menos os seus principais ensinos que nos revelam o caminho da salvação. Entretanto, a bíblia não é um livro como outro qualquer e precisamos contar, acima de tudo, com a iluminação do Espírito Santo para entender a mensagem divina nela contida. Há nela, também, textos difíceis de ser entendidos, talvez, alguns, jamais entenderemos plenamente neste corpo e nesta vida: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.” (Dt 29.29). É, no mínimo, leviano e irresponsável, fazer a análise e interpretação dos textos bíblicos sem o uso adequado das normas básicas da hermenêutica bíblica, o que inclui, necessária e indispensavelmente, o conhecimento dos usos e costumes dos povos na época em que os textos foram escritos ou se referem.
O propósito deste breve estudo é apresentar bíblica e cronologicamente o que aconteceu nos últimos três dias do Senhor Jesus Cristo, incluindo sua ressurreição. Rejeitamos, como heresia, qualquer ideia ou tentativa de situar a ressurreição de Jesus no sábado e sua morte e ressurreição antes da sexta-feira da preparação da Páscoa. Todo esse malabarismo argumentativo é feito certamente com a intenção de defender a guarda do sábado, desprezando a importância do domingo para o cristão, o “primeiro dia da semana”, assim mencionado na bíblia (Mc 16.9; At 20.7), sendo que não é nossa intenção tratar desse assunto aqui. Isso fazem porque uma das fortes argumentações para a observância ou guarda do domingo é que Jesus ressuscitou no domingo. É muito comum que tais produtores de heresias tomem por base textos fora do seu contexto.
1. CRONOLOGIA DOS TRÊS DIAS

Diferentemente de nós, que contamos o dia completo das zero até às 24h, os judeus consideravam a contagem de 24 horas do dia, do pôr do sol (18h) de um dia, até o pôr do sol (18h) do outro dia. É por isso, por exemplo, que o sábado judaico, na realidade, ia das 18h da sexta-feira (pôr-do-sol), até às 18h do sábado (pôr do sol) (Gn 1.8). Portanto, a noite era dividida em quatro vigílias: Primeira: 18h às 21h; Segunda: 21h às 24h; Terceira: zero às 3h; Quarta: 3h às 6h. O dia era dividido em 12 horas: 6h (hora zero) até às 18h (hora duodécima).
- A multidão de peregrinos se dirigia para Jerusalém para a celebração da Páscoa (Jo 11.55). Jesus também subiu para a celebração da Páscoa, seis dias antes, provavelmente na sexta-feira à tarde. Ele se hospedava em Betânia (a cerca de 3Km de Jerusalém) e ia e voltava a Jerusalém. Depois do sábado (judaico), faz sua entrada triunfal em Jerusalém (Mc 11.1-11; Mt 21.1-11; Lc 19.29-44; Jo 12.12-19).
- Aproximando-se o dia da celebração da Páscoa, na quinta-feira, à tarde, Jesus orienta os discípulos a fazerem os preparativos, no cenáculo mobilado e pronto (Mc 14.12-16; Mt 26.17-19; Lc 22.7-13). Era quando se fazia o sacrifício do cordeiro pascal (Mc 14.12).
- Na noite de quinta-feira, que é o início da sexta-feira judaica, Jesus se reúne com os doze, no cenáculo, para a celebração da Páscoa judaica (Mc 14.17; Mt 26.20; Lc 22.14).
- Durante a celebração Jesus institui a Ceia Cristã (Mc 14.22-25; Mt 26.26-29; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26).
- Encerrada a celebração, tendo cantado um hino, eles saíram para o Monte das Oliveiras (Mc 14.26; Mt 26.30; Lc 22.39).
- No Jardim do Getsêmani Jesus é traído e preso (Mc 14.43-52; Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.2-12).
- Naquela madrugada de sexta-feira Jesus é interrogado, ferido e zombado.
- Na manhã daquela sexta-feira, o processo de julgamento continua, diante das autoridades judaicas e romanas (Mc 15.1; Mt 27.1; Lc 22.66-71).
- Condenado, e depois de percorrer a “via dolorosa” até o Calvário, na hora terceira (9h da manhã de sexta-feira) Jesus é crucificado (Mc 15.24-25).
- Jesus, estando na cruz, da hora sexta até a nona (12h até às 15h), aconteceu que houve trevas sobre toda a terra (Mc 15.33-37; Mt 27.45-50; Lc 23.44, 46).
- Por volta da hora nona (15h), Jesus bradou em alta voz e depois expirou. (Mc 15.34-37; Mt 27.46-50).
- Ao cair da tarde daquela sexta-feira, dia da preparação, como era a véspera do sábado (que começava às 18h de sexta-feira), os corpos não poderiam ficar na cruz, então, José de Arimatéia, obteve a autorização de Pilatos, cedeu um túmulo novo e providenciou o sepultamento de Jesus (Mc 15.42-46; Mt 27.57-60; Lc 23.50-54; Jo 19.31-42). A lei mosaica estabelecia que o cadáver não deveria permanecer no madeiro durante a noite (Dt 21.23). Todo sábado[1] era especial para os judeus, mas o evangelista João se refere àquele sábado assim: “pois era grande o dia daquele sábado”. Ele assim se expressou porque aquele sábado, naquele ano, coincidia com a Páscoa, que também coincidia com o primeiro dia dos pães asmos (Êx 12.16; Lv 23.7). No 14º dia de Nisã (ou Abibe, o primeiro mês do calendário religioso judaico[2], que corresponde a março-abril no nosso calendário gregoriano[3]), dia da preparação, o cordeiro pascal era imolado, no crepúsculo da tarde (Êx 12.5-6). À noite, já no início do 15º dia, a carne assada no fogo do cordeiro era comida com pães asmos e ervas amargas (Êx 12.8). Era o primeiro dia da festa dos pães asmos (sem fermento) que durava sete dias (Êx 12.15-20). É importante ressaltar que o 14º dia de Nisã, quando deveria ser celebrada a Páscoa ou Pessach em hebraico, pode cair em qualquer dia da semana. A “Sexta-feira Santa”, como é conhecida na tradição cristã, é a data em que muitos cristãos celebram a crucificação de Jesus, que ocorreu durante aquela Páscoa judaica. Isso não significa necessariamente que os judeus comemoravam a Páscoa na sexta-feira, mas sim que a morte de Jesus aconteceu durante o período da Páscoa judaica, e os cristãos associam esse evento à “Sexta-feira Santa”. Entretanto, para o cristão, o mais importante memorial, que foi instituído por Jesus, é a Ceia do Senhor (1Co 11.23-29).
[1] Etimologicamente, a palavra “sábado” tem suas raízes no hebraico “Shabbat”, que significa “descanso” ou “cessação”. Na tradição judaica, o sábado é considerado um dia sagrado, estabelecido como um dia de descanso em memória da criação do mundo por Deus, conforme descrito na Bíblia (Gn 2.2; Êx 16.23; 20.8).
[2] Os judeus usavam um calendário lunissolar, que é uma combinação de elementos do calendário lunar e solar. O calendário mencionado na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, é baseado nesse sistema. Este calendário era usado para determinar as datas das festas religiosas e cerimônias importantes, bem como para marcar eventos históricos.
[3] O calendário gregoriano é o calendário solar internacionalmente aceito hoje em dia. Ele é baseado no ciclo anual da Terra em torno do Sol e foi introduzido pelo Papa Gregório XIII em 1582 como uma reforma do calendário juliano anterior.
- Por solicitação dos principais sacerdotes e dos fariseus, feita a Pilatos, o túmulo foi guardado com segurança (com soldados e, também, lacraram a pedra de entrada) porque Jesus tinha dito que ressuscitaria: “Depois de três dias ressuscitarei” (Mt 27.62-66).
- O evangelista Lucas registra que as mulheres que vieram da Galileia viram onde Jesus foi sepultado e se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento (Lc 23.56).
- O evangelista Marcos registra: “Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo.” (Mc 16.1). O sábado terminava às 18h, quando começava (entrava, despontava) o primeiro dia da semana, o domingo, ao anoitecer. Nesta mesma linha, o evangelista Mateus registra o que parece ter sido uma “primeira” visita: “No findar do sábado, ao entrar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.” (Mt 28.1)
- O evangelista Mateus registra (de forma isolada) que, em algum momento do domingo (provavelmente no final da madrugada), houve uma intervenção angelical no sepulcro: “E eis que houve um grande terremoto; porque um anjo do Senhor desceu do céu, chegou-se, removeu a pedra e assentou-se sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago, e a sua veste, alva como a neve. E os guardas tremeram espavoridos e ficaram como se estivessem mortos.” (Mt 28.2-4). Vale ressaltar que os textos registrados nos Evangelhos não obedecem necessariamente a uma ordem cronológica. Portanto, é um equívoco colocar este registro de Mateus 28.2-4 imediatamente após Mateus 28.1!
- Sem fazer menção ao término do sábado e início noturno do domingo, os evangelistas Marcos, Lucas e João registram o que seria a “segunda” visita das mulheres, agora próximo ao início diurno do domingo, o primeiro dia da semana, a saber:
“E, muito cedo, no primeiro dia da semana, ao despontar do sol, foram ao túmulo.” (Mc 16.2)
“Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado.” (Lc 24.1)
“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revolvida.” (Jo 20.1)
Desses três textos, bem como do contexto, podemos fazer algumas considerações:
- Elas saíram muito cedo para irem ao túmulo. Entretanto, não é dito de onde partiram, quanto tempo levaram para chegar e a que horas chegaram ao túmulo.
- Ao chegarem ao túmulo, viram que a pedra fora removida, não que fora removida quando ainda estava escuro.
- Não sabemos se naquela época do ano, às 6h da manhã, o dia ainda estava escuro.
- É fato que quando chegaram ao túmulo as mulheres não viram o corpo de Jesus.
Portanto, desconsiderar o claro registro desses três evangelistas, fixando-se apenas no registro de Mateus 28.1 associado ao texto de Mateus 28.2-3 é de uma incoerência gigantesca e desrespeito completo às regras, princípios e métodos da hermenêutica.
- Os anjos anunciaram às mulheres que Jesus havia ressuscitado (Mc 16.5-8; Mt 28.5-8; Lc 24.4-8).
- É fato que Jesus ressuscitou no domingo, no final do período noturno ou no início do período diurno, isto é, antes ou um pouco depois da 6h da manhã.
- Aparições de Jesus no domingo da ressurreição.
2. QUANTO TEMPO JESUS FICOU NO TÚMULO?
Conforme já exposto, o sepultamento de Jesus ocorreu no final da tarde de sexta-feira, antes do início (noturno) do sábado e ressuscitou próximo ao raiar do sol de domingo.
Entretanto, existem aqueles que se dedicam arduamente a tarefa de demonstrar que Jesus permaneceu no sepulcro por 72 horas – o equivalente a três dias e três noites – para que pudesse se cumprir o “sinal de Jonas”. Para tratar e refutar essa ideia podemos analisar quatro casos, além das declarações explícitas nos evangelhos sobre os dias da crucificação. Então vejamos:
1º) O SINAL DE JONAS (Mt 12.39-40; 16.4; Lc 11.29-30; comp. Jn 1.17)
“Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40)
“Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. E, deixando-os, retirou-se.” (Mt 16.4)
“Como afluíssem as multidões, passou Jesus a dizer: Esta é geração perversa! Pede sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. Porque, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, o Filho do Homem o será para esta geração.” (Lc 11.29-30)
“Deparou o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe.” (Jn 1.17)
Verifica-se aqui que apenas o evangelista Mateus registra detalhadamente este sinal anunciado por Jesus.
É amplamente conhecido que os judeus tinham o costume de considerar uma parte do dia como equivalente a “um dia”. Assim, uma fração de dia ou noite seria contada como um dia inteiro, considerando o termo “dia” em ambos os sentidos – abrangendo tanto o período diurno quanto o noturno, com o dia contrastando com a noite. Era uma forma natural deles se expressarem. Nesse contexto, uma fração de sexta-feira seria considerada um dia, o sábado outro, e a fração de domingo, o terceiro dia. Esse método de contagem de tempo era bem aceito entre os judeus e não gerava controvérsias. Então, no costume judaico, quando se diz “três dias e três noites”, simplesmente se quer dizer três dias.
2º) O SINAL DO TEMPLO (Jo 2.19; 2.20; Mt 26.61; Mc 14.58; Mt 27.40; Mc 15.29)
“Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.” (Jo 2.19)
“Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?” (Jo 2.20)
No início do seu ministério de três anos, estando próxima a Páscoa, Jesus sobe a Jerusalém e efetua a primeira purificação do templo (Jo 2.13-22). Os judeus protestam sua ação e lhe perguntam: “Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?” (Jo 2.18b). Foi neste contexto que Jesus lhes respondeu (Jo 2.19) e eles replicaram a partir de um entendimento literal do templo físico (Jo 2.20). Então, o evangelista João traz uma palavra de esclarecimento: “Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.” (Jo 2.21). E, ainda mais, que quando da ressurreição de Jesus seus discípulos se lembraram dessa sua fala (Jo 2.22).
“Este disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias.” (Mt 26.61)
“Nós o ouvimos declarar: Eu destruirei este santuário edificado por mãos humanas e, em três dias, construirei outro, não por mãos humanas.” (Mc 14.58)
Três anos depois, no processo de julgamento de Jesus pelas autoridades judaicas, quando tentavam reunir provas para condená-lo, eis que surgem duas testemunhas lembrando dessa fala de Jesus (Mt 26.57-61; Mc 14.53-59)
“Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! (Mt 27.40)
“Os que iam passando, blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ah! Tu que destróis o santuário e, em três dias, o reedificas!” (Mc 15.29)
Por fim, quando Jesus estava pendurado na cruz, os que iam passando blasfemavam citando aquela fala de Jesus sobre a destruição e reconstrução do templo em três dias, sem a compreensão de que Jesus havia se referido ao seu corpo (Mt 27.35-39; Mc 15.24-29).
Enfim, temos aqui mais um sinal contundente e predição dos três dias entre a morte e ressurreição de Jesus!
3º) “NO” ou “AO” TERCEIRO DIA (Mt 16.21; 17.23; 20.19; Lc 9.22; 24.7; 24.46; At 10.40; 1Co 15.4; ver tb Lc 24.21)
“Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia.” (Mt 16.21)
“e estes o matarão; mas, ao terceiro dia, ressuscitará. Então, os discípulos se entristeceram grandemente.” (Mt 17.23)
“A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto,” (At 10.40)
“e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” (1Co 15.4)
As expressões “no terceiro dia” e “ao terceiro dia” têm que significar que a ressurreição ocorreu nesse dia; porque, se ocorresse depois do terceiro dia, seria no quarto dia, e não no terceiro. Ora, acontece que esta expressão “no” ou “ao” “terceiro dia” ocorre oito vezes referindo-se ao tempo da ressurreição de Cristo. Portanto, são abundantes e irrefutáveis evidências, de caráter profético e histórico, de que Jesus ressurgiu “no ou ao terceiro dia”.
“Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam.” (Lc 4.21)
Além das oito evidências anteriores, temos aqui uma nona. “Naquele mesmo dia” (Lc 24.13), o dia da ressurreição, ainda no domingo, Jesus aparece a dois discípulos no caminho de Emaús. Eles nos dão conta do tempo decorrido desde a condenação à morte e crucificação de Jesus: 1º dia: sexta-feira; 2º dia: sábado; e 3º dia: domingo.
4º) DEPOIS DE TRÊS DIAS (Mc 8.31; 9.31; 10.34; Mt 27.63)
“Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse.” (Mc 8.31)
“porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará.” (Mc 9.31)
“hão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo; mas, depois de três dias, ressuscitará.” (Mc 10.34)
“disseram-lhe: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, enquanto vivia, disse: Depois de três dias ressuscitarei.” (Mt 27.63)
Não há razão para encontrar aqui uma contradição entre as expressões “depois de três dias” e “no/ao terceiro dia” como se o “depois” pudesse forçar uma interpretação de que as vinte e quatro horas do terceiro dia deveriam ter transcorrido. Seria uma outra forma de dizer a mesma coisa, diante dos argumentos já expostos.
3. CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES
a) Jonas não é um tipo de Cristo, é apenas um sinal, como o sinal do templo (destruição e reconstrução em três dias). Jonas estava fugindo e se esquivando de obedecer à vontade e missão de Deus; Jesus veio ao mundo em obediência e para cumprir a vontade de Deus. Jonas permaneceu vivo dentro do peixe; Jesus permaneceu um tempo morto no sepulcro.
b) O sinal de Jonas não deve ser considerado como um fator de vital importância para confirmar o plano da salvação. O fato da morte e ressurreição de Cristo é sim muito mais importante do que o tempo que ele ficou sepultado.
c) O sinal de Jonas está muito longe de ser a única prova da autenticidade de Jesus como o Messias prometido. São muitas as predições da primeira vinda de Jesus, o Messias, no Antigo Testamento, que se cumpriram, além das prefigurações da expiação de Cristo (a oferta de Abel, a Arca da Salvação, o sacrifício de Isaque, a Páscoa judaica, o Dia da Expiação, a serpente abrasadora). A mulher samaritana esperava pelo Messias e creu que Jesus era o Messias, pela autoridade com que falava e por lhe ter revelado tudo quanto tinha feito (Jo 4.25-26); da mesma forma creram muitos samaritanos (Jo 4.39-42). Na pregação do Pentecostes, o apóstolo Pedro ressalta a messianidade de Jesus manifestada nos milagres, prodígios e sinais por ele realizados (At 2.22ss). Portanto, Jesus jamais declarou que o sinal de Jonas era a única prova da autenticidade da sua messianidade, porém que era o único sinal que aqueles religiosos incrédulos receberiam dele.
d) É fato que Deus é perfeito e detalhista na obra que realiza, particularmente na criação. No que se refere a profecias, ele nos revela muitos detalhes. Entretanto, no que se refere ao tempo, ele não nos revela precisamente data e hora: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.” (Mt 24.36). Ele sempre nos orienta a observar os sinais (Mt 16.3). Por que, então, alguns insistem no equívoco de afirmar que Jonas e Jesus, permaneceram no peixe e no sepulcro, respectivamente, 72 horas (3 dias inteiros de 24h)? Onde está explicitada na bíblia esta quantidade de horas?
Conclusão:
Para aqueles que fincam muito o pé no “sinal de Jonas”, nos três dias e três noites ou 72 horas que Jesus deveria ficar sepultado, deixamos algumas considerações finais para reflexão:
1ª) A fala de Jesus quanto ao “sinal de Jonas” ocorre num contexto beligerante produzido pelos religiosos hipócritas da época. Primeiramente, escribas e fariseus, provocam Jesus pedindo-lhe um sinal provando que ele era o Messias. Não há, da parte de Jesus, a intenção de “lançar pérolas aos porcos” (Mt 7.6). Se observarmos bem o registro deste incidente (Mt 12.38-42), veremos que o foco de Jesus está posto no que vem depois da citação dos “três dias e três noites”, isto é, a receptividade à pregação de arrependimento que ocorreu em Nínive, o que Jesus não via neles e nem naquela geração. Da mesma forma, no segundo evento, quando fariseus e saduceus tentando-o lhes pediram um sinal vindo do céu, a resposta de Jesus foi o sinal de Jonas, sem referência a tempo (Mt 16.1-4).
2ª) Quando Jesus se dirigia diretamente aos seus discípulos, a quem desejava instruir e preparar para o que haveria de acontecer com ele, a sua ênfase era a respeito da sua morte e ressurreição “no ou ao terceiro dia”, conforme os vários textos já mencionados, registrados por Mateus, Lucas e o apóstolo Paulo.
3ª) Não é razoável desconsiderar, ou não dar a devida atenção, para os vários textos que narram, e deixam muito claro, o que aconteceu nesses três últimos dias do Jesus encarnado, incluindo a sua ressurreição no terceiro dia.
Finalmente, é preciso dizer que há pessoas sempre ávidas a se dedicar a minúcias doutrinárias, visando a descontruir a doutrina da fé alheia, enaltecendo a sua própria visão doutrinária. Acima e antes de tudo precisamos realmente é de testemunhar do Cristo morto e ressurreto, para a salvação de tantos que estão por aí perdidos, chafurdados nos seus delitos e pecados.
