As Bem-aventuranças (7ª e 8ª)

Mateus 5.1-12; Lucas 6.17-23

Veja a Bem-aventurança anterior, clicando aqui.


😊Sétima bem-aventurança

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5.9)

Pacificadores são aqueles que promovem a paz e a concórdia. Não se deve confundir o pacificador com o pacifista.  O pacificador é aquele que atua ativamente para restaurar ou manter a paz, especialmente em situações de conflito. Tem um sentido bíblico e prático: alguém que intervém com sabedoria, reconcilia partes em conflito, promove entendimento e reconciliação. O pacificador não foge do conflito – ele entra nele para curar, reconciliar, transformar. O pacifista é aquele que defende ideologicamente a não-violência e a oposição a qualquer guerra ou uso da força. É um termo mais filosófico ou político, comum em debates sobre ética, guerras, justiça social etc. Um pacifista geralmente rejeita o uso de armas, força militar ou violência sob qualquer circunstância. O pacifista recusa o conflito, por princípio.

Cada cristão, cada seguidor de Cristo, de acordo com esta bem-aventurança, deve ser um pacificador, onde quer que esteja. O texto de hebreus 12.14 expressa bem essa ideia e a vincula a bem-aventurança anterior: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,”.  O apóstolo Paulo orienta: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18).

“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.  Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim;” (Mt 10.34-37)

Pode parecer que a declaração de Cristo, no texto acima, contradiga essa ideia de pacificação. Não, não contradiz! O fato é que quando Cristo entra numa vida, há transformação de princípios e valores, de comportamento, e, é comum a reação contrária daqueles que não aceitam essa mudança. Assim, o conflito é inevitável. Além disso, o seguir a Cristo, implica num compromisso de amor a ele superior ao dedicado a qualquer outra pessoa, inclusive pai, mãe, cônjuge e filhos, o que pode não ser entendido e aceito pelo outro e provocar o conflito.

Jesus é o “Príncipe da paz” (Is 9.6) e jamais ensinou os seus seguidores a procurar o conflito. Ele veio para promover a paz, para reconciliar o homem com Deus: “e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl 1.20; ver tb Ef 2.15)

Essa pacificação nada tem a ver com a tolerância ao erro e ao pecado! Jesus não está se referindo a uma paz a qualquer custo, nem sugerindo que se deve fechar os olhos diante do pecado, do erro ou da injustiça. Os profetas do Antigo Testamento falaram da parte de Deus denunciando o pecado. João Batista denunciou o pecado de Herodes e acabou sendo morto por isso. A paz do Reino de Deus não é a simples ausência de conflito, nem uma neutralidade que se cala diante do mal. Antes, trata-se de uma paz fundamentada na verdade, na justiça e na reconciliação com Deus.

O verdadeiro pacificador é um embaixador da paz divina – e não da conivência. Ele age em nome de Deus para promover reconciliação entre os homens, e entre o homem e Deus, e isso requer confronto amoroso, arrependimento e mudança de vida. A Escritura deixa claro que não pode haver paz verdadeira onde há pecado não tratado: “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o SENHOR.” (Is 48.22). “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6.14). O pacificador, portanto, não negocia princípios espirituais em nome de uma convivência harmoniosa artificial. Ele ama a verdade e busca a paz por meio dela, mesmo que isso implique exortar, corrigir ou denunciar o erro – sempre com espírito manso e objetivo de restauração.

Deus só nos perdoa quando nos arrependemos, e Jesus nos ensinou: “Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lc 17.3). Portanto, ser pacificador, à luz de Mateus 5.9, não é silenciar diante do pecado, mas ser um instrumento de Deus para que, por meio da verdade, a paz do Evangelho seja estabelecida onde hoje há conflito, rebelião ou distanciamento de Deus. Não existe pacificação e união no corpo de Cristo sem pureza de doutrina e de conduta!

Jesus é o nosso modelo de pacificador. Ele não foi conivente com os pecados dos fariseus nem tolerante com as injustiças dos poderosos. Denunciou o pecado, chamou ao arrependimento, e ainda assim é chamado o “Príncipe da Paz” (Is 9.6), pois trouxe ao mundo a paz verdadeira, que começa com a reconciliação do homem com Deus. Se seguirmos esse exemplo seremos chamados de filhos de Deus.

😊Oitava bem-aventurança

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.10)

A oitava bem-aventurança diz respeito àqueles que são “perseguidos por causa da justiça”, isto é, por defenderem a justiça a qualquer preço. Qualquer pessoa piedosa que tenha apreço pela justiça, mesmo não sendo cristã,  pode ser perseguida. Principalmente se defender a prática da justiça em uma sociedade corrupta. Entretanto, em se tratando de um cristão, defender a justiça parece resultar em maior perseguição devido a preconceito e discriminação religiosa.

É significativo que Jesus passe diretamente dos pacificadores à perseguição – da obra de reconciliação à experiência da hostilidade. Isso revela uma realidade profunda: nem sempre o esforço sincero pela paz resulta em paz com todos. Por mais que busquemos a reconciliação, algumas pessoas simplesmente se recusam a viver em paz conosco. Nem toda tentativa de harmonia encontra resposta favorável.

Na verdade, há aqueles que, longe de se abrirem ao diálogo, optam por nos rejeitar, insultar e perseguir. E isso não por causa de nossas falhas pessoais ou peculiaridades, mas, como Jesus explicou, “por causa da justiça” (Mt 5.10) e “por minha causa” (Mt 5.11) — ou seja, porque se opõem à justiça que desejamos com fome e sede (Mt 5.6), e rejeitam o Cristo a quem seguimos.

A perseguição, nesse contexto, é o resultado inevitável do confronto entre dois sistemas de valores que não podem coexistir pacificamente – o Reino de Deus e o sistema deste mundo. Onde o Evangelho avança, haverá resistência; onde a luz brilha, as trevas se incomodam. Por isso, ser perseguido por causa da justiça é, paradoxalmente, um selo de autenticidade da vida cristã e uma bem-aventurança diante de Deus.


Veja a anterior ou a continuação, clicando no link desejado (abaixo).

As Bem-aventuranças:
Introdução e 1ª Bem-aventurança.
2ª Bem-aventurança.
3ª e 4ª Bem-aventuranças.
5ª e 6ª Bem-aventuranças.
9ª Bem-aventurança e Conclusão.

 

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

2 comentários em “As Bem-aventuranças (7ª e 8ª)”

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