Perdidos e Achados (Lucas 15.1-32)

Introdução       

Há capítulos interessantes e diferenciados na Bíblia. Por exemplo:

Isaías 53: “O retrato falado de Jesus”
Mateus 24: “O pequeno apocalipse de Jesus”
Hebreus 11: “A galeria dos heróis da fé”

Nessa mesma linha, quero apresentar agora outro capítulo:

Lucas 15: “O departamento de achados & perdidos”

Você já ouviu falar de um serviço prestado pelos Correios de “Achados e Perdidos”? A Bíblia também tem algo assim. Encontra-se em Lucas 15! Você sabe quantos casos de Perdidos Lucas registrou nesse capítulo tão comentado da Bíblia? Eu sempre pensei que fossem três; afinal, são três parábolas com três casos explícitos de Perdidos, com final feliz. Entretanto há um quarto caso, o caso do irmão mais velho do filho pródigo, também conhecido como “síndrome do irmão mais velho” que me parece um autêntico caso de Perdido e o único onde não fica evidenciado o desfecho de resgate, de final feliz.

O que Jesus estaria querendo nos ensinar com essas parábolas?

1  Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir.
2  E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles.

1º) O CENÁRIO INICIAL E A MOTIVAÇÃO

Nos dois primeiros versículos desse capítulo 15 de Lucas fica evidente o cenário e motivação para Jesus proferir essas três parábolas. Na visão dos fariseus e escribas (Lc 15.1-2) quem seriam os salvos e quem seriam os perdidos? Que nível de relacionamento os “salvos” poderiam ou deveriam ter com os “perdidos”?

Os fariseus e escribas se viam como os justos, os puros, os fiéis à Lei de Moisés, portanto os verdadeiros herdeiros da bênção e da aliança de Deus com Israel. Consideravam-se separados dos pecadores. O nome “fariseu” vem do hebraico perushim, que significa “separados”. Sua confiança estava na obediência rigorosa à Lei e às tradições orais (Mishná). Por isso, achavam que estavam em plena comunhão com Deus.

Para eles os “perdidos” eram: Os pecadores públicos: prostitutas, cobradores de impostos (publicanos), samaritanos, gentios, e qualquer judeu que não cumprisse a Lei como eles julgavam correto. Esses grupos eram vistos como espiritualmente excluídos ou impuros. Publicanos, por exemplo, eram desprezados porque trabalhavam para o império romano (inimigo de Israel), cobrando impostos, e eram acusados de desonestidade. Ou seja, quem não seguia a Lei como os fariseus era considerado “fora do caminho”, longe de Deus, e, portanto, perdido.

2º) A IMPORTÂNCIA DO PERDIDO

a) Não importa a quantidade:

Fica evidente em todos os casos que a “coisa perdida” ou o “ser perdido”, animal ou humano, era muito importante para quem o tinha, sem exceção. E isso independia da quantidade ou da proporção que o perdido representasse: 1 em 100, 1 em 10, 1 em 2 ou 2 em 2. Por isso, todo esforço deveria ser despendido para encontrar a ovelha e a dracma perdidos; bem como todo o esforço deveria ser feito para não interferir no processo pedagógico divino de resgate dos dois irmãos perdidos.

O perdido é importante para Jesus! Por isso ele se aproximava dos publicanos e pecadores. “Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores.” (Mc 2.17). Os fariseus se consideravam os legítimos súditos do reino de Deus e desprezavam todos aqueles que não se guiavam pela cartilha deles. E você? Que tipo de relação mantém com os perdidos? Você está no mesmo barco com eles, indo a pique? Ou será que já teve sua condição de perdido revertida, em Cristo?

b) Nenhum esforço é demasiado quando se trata de resgatar o perdido!

c) O júbilo, o regozijo pelo resgate do perdido:

– A alegria é tamanha que transborda, alcançando os que estão ao redor e subindo até o céu. (Lc 15.10).

– Aquele que não concorda com essas lições ensinadas por Jesus é provável que também esteja perdido! Aquele que não está procurando os perdidos, também está perdido, no mínimo em relação à sua missão como cristão.

Que tipos de Perdidos e Achados encontramos neste capítulo?

Ao analisar uma parábola, é preciso ter em mente que parábola não é insumo para a produção de doutrina para a igreja. É preciso ter cuidado com a interpretação dos detalhes, pois estes cumprem o propósito maior de dar sentido real à história. É preciso manter o foco na lição principal que Jesus desejava ensinar.

1. A OVELHA PERDIDA (Lc 15.3-7) 

            Um tipo de perdido que pede para ser encontrado!

3  Então, lhes propôs Jesus esta parábola:
4  Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?
5  Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo.
6  E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.
7  Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

a) Qual é a situação dessa ovelha?

  • Diz a narrativa que a ovelha se perdeu….
    • Passado um tempo, percebe, por instinto, que está perdida;
    • Não sabe como voltar;
    • Experimenta uma sensação terrível de isolamento, fragilidade etc.;
    • Sinaliza, o quanto pode e para quem puder ouvir, que está perdida. Um ponto de atenção: o berro que clama por socorro é o mesmo que atrai os predadores.
    • Precisa de alguém para ir buscá-la.

b) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • Alguém precisa procurar nos arredores do caminho;
    • Ficar em estado de atenção máxima, para tentar vê-la ou ouvi-la;
    • Ao avistá-la, ir imediatamente ao seu encontro;
    • Conduzi-la de volta ao rebanho.

2. A DRACMA PERDIDA (Lc 15.8-10)

            Um tipo de perdido difícil de ser encontrado!

8  Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la?
9  E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido.
10  Eu vos afirmo que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.

Alguns comentam que a moeda pertencia a algum enfeite de cabeça, do tipo usado pelas esposas palestinas, como parte do dote que lhes era dado quando de seu matrimônio. Entretanto, não há elementos históricos que o comprovem.

a) Qual é a situação dessa dracma?

  • Diz a narrativa que a dracma foi perdida….
    • Nunca terá consciência de que está perdida;
    • Não sabe como voltar;
    • Não sinaliza pedindo ajuda;

b) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • Alguém precisa procurar nos arredores do lugar onde se deu o extravio;
    • Em face da dificuldade é preciso se equipar, se preparar melhor e usar adequadamente esses recursos: LUZ (A Palavra de Deus, entendimento, sabedoria para discernir etc.); VASSOURA e DEDICAÇÃO.

3. O FILHO PRÓDIGO (Lc 15.11-24)

            Um tipo de perdido que precisa encontrar a si mesmo

11  Continuou: Certo homem tinha dois filhos;
12  o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres.
13  Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente.
14  Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade.
15  Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos.
16  Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada.
17  Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!
18  Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;
19  já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.
20  E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou.
21  E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
22  O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés;
23  trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos,
24  porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.

a) Qual é a situação desse jovem?

  • Diz a narrativa que este jovem estava perdido, “morto….”
    • Tem consciência de que está perdido;
    • Sabe como voltar;
    • Precisa tomar a decisão de voltar;
    • Precisa ser acolhido e perdoado na sua volta.

b) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • Não impedir de ir;
    • Esperar até que as circunstâncias desfavoráveis da vida o desperte para a triste realidade da vida:
    • Esperar até que se convença de que tentativas paliativas não vão resolver seu problema;
    • Esperar até que a voz da consciência fale mais alto;
    • Esperar até que a visão saudosa da casa do pai o encoraje a voltar;
    • Recebê-lo  e perdoá-lo quando voltar e confessar seu erro.

4. O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO (Lc 15.25-32) 

            Um tipo de perdido que precisa ser considerado

25  Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
26  Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo.
27  E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde.
28  Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo.
29  Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos;
30  vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado.
31  Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.
32  Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

a) Qual é a situação desse irmão mais velho?

  • A narrativa não menciona explicitamente que este jovem estivesse perdido;
    • Não tem consciência de que está perdido;
    • Dá sinais comportamentais de que está perdido;
    • Alguém precisa procurá-lo entre os não perdidos.

b) Vejamos alguns detalhes deste tipo de perdido. (Uma provável referência aos fariseus legalistas)

  • Estava trabalhando no campo, a serviço do pai (v.25);
    • Fica indignado com os atos de compaixão do pai (vv.27-28);
    • Estava na casa do pai, mas do lado de fora (v.28). Não participava do gozo e da celebração que ali se desenvolvia;
    • Omite o tratamento respeitoso “Pai”. Por outro lado, o filho pródigo chamou seu progenitor de Pai;
    • No seu deturpado juízo de valor o que realmente importava era (v.29):

– “Tempo de Casa”;
– Obedecer às ordens e regras (mérito próprio, boas obras, legalismo insensível);
– Ser recompensado, valorizado e destacado pelos seus méritos;
– Priorizar coisas, em vez de pessoas (v.30).

  • Culpa o pai, ou os outros, por seus próprios fracassos (v.29). Provavelmente nunca matou aquele cabrito por usura ou porque era antissocial, egocêntrico.
    • Despreza, rejeita e não trata o que caiu como irmão (v.30)
    • Não toma posse da bênção da comunhão com o pai (v.31). Serve ao pai sem ter comunhão com ele;
    • Demonstra que uma pessoa não precisa sentir-se perdida para estar perdida.

c) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • É preciso ir ao seu encontro, no estado e no lugar onde está (v.28);
    • É preciso falar-lhe ao coração, com paciência (v.28)
    • É preciso ouvi-lo, deixá-lo despejar toda amargura interior (v.29);
    • É preciso fazê-lo perceber o valor de um resgatado (v.32).

Conclusão:

Dessas três parábolas podemos extrair algumas lições.

1ª) A parábola da ovelha perdida

Quem sabe a ovelha se distraiu com alguma coisa, pelo caminho, foi ficando para trás e se perdeu do rebanho.

Na jornada da vida, o cristão se depara com muitos atrativos, distrações e propostas sedutoras. Se não vigiar, pode acabar se envolvendo, desviando-se, perdendo o foco e o verdadeiro sentido da missão – e assim, afastar-se do rebanho de Deus. Mas é confortante saber que o Supremo Pastor jamais abandona os que lhe pertencem. Ele conhece os caminhos do resgate e, mesmo quando o retorno envolve dor, seu propósito é restaurar, não condenar.     

2ª) A parábola da dracma perdida

A dracma não se perdeu sozinha – alguém foi responsável por essa perda.

Na comunidade da fé, às vezes, palavras inapropriadas, atitudes e atos desastrosos, podem ferir mais do que a ponta de uma faca afiada. Ao invés de acolhermos carinhosamente os que começam a trilhar a jornada da fé, de conhecer e dar espaço para seus dons e talentos, os afastamos e os escandalizamos com nossa frieza e indiferença. A igreja não é um clube fechado de encontros sociais de antigos amigos. É, por vocação, um lugar de acolhimento, cuidado e restauração dos que estavam perdidos e foram alcançados pela graça divina. Por isso, precisamos de vigilância constante para não perder ninguém pelo caminho, e de zelo intencional para buscar e resgatar aqueles que se afastaram. A graça que nos alcançou também nos comissiona a estendê-la aos outros.

3ª) A parábola do Filho Pródigo

Este jovem foi atrás de um sonho dourado, foi seduzido pelo mundo e se perdeu.

Não é raro encontrarmos pessoas criadas desde cedo na igreja, cercadas de amor, fé e propósito – e ainda assim inconscientes da bênção que isso representa. Sem perceberem o valor do que têm, acabam seduzidas por uma ideia distorcida de liberdade, pela ilusão de “viver a vida ao máximo”, entregando-se aos prazeres e promessas passageiras que o mundo oferece.

Lançam-se, então, em uma jornada inconsequente, buscando realização onde não há raiz nem verdade. Mas, inevitavelmente, chega o momento em que a realidade dessa vida sem limites – e sem os valores cristãos – se revela frustrante, vazia e dolorosa. É nesse ponto de ruptura que a memória daquilo que um dia possuíram – e desprezaram – começa a florescer no coração.

Essa lembrança, alimentada pela semente do evangelho plantada lá atrás, é vivificada pelo Espírito Santo. É ele quem os leva a ‘cair em si’ e despertar para o arrependimento, conduzindo-os de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído: os braços do Pai.   

4ª) O irmão do Filho Pródigo

Ele deixou-se levar pelo legalismo, pelo senso de justiça própria, e perdeu a sensibilidade e compaixão.

Sem dúvida, há nesta parábola uma resposta direta aos fariseus daquela época – mas também um alerta atemporal a certos crentes de todas as gerações. Trata-se daqueles que se julgam justos e merecedores da aceitação divina, mas não compreendem verdadeiramente o que é a graça de Deus. O evangelho é graça, não mérito.

Muitos estão dentro da comunidade de fé, na “casa do Pai”, atuantes, piedosos, dedicados à obra – e, ainda assim, com o coração endurecido. Tecnicamente, não estão “perdidos”, mas espiritualmente, sim: perderam a alegria da salvação e a compaixão por quem retorna. É preciso vigilância quando alguém começa a se considerar superior aos demais e não consegue se alegrar com a restauração de um irmão.

Por outro lado, essa parábola não é um incentivo à complacência com quedas constantes e repetidas. A graça não é conivência. A Palavra é clara: “Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu.” (1Jo 3.6). O arrependimento verdadeiro é sempre acompanhado de transformação. A graça perdoa, restaura  e santifica.

Enfim:

Você está perdido ou procurando os perdidos?

Não importa como se deu o extravio, é hora de ser achado ou de voltar!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online (SBB).
3. R. N. Champlin, Ph. D. – O Novo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 1982).
4. Internet / ChatGPT / IA.

O que tens na mão?

Êxodo 4.1-5

Introdução

Depois de mais de quatrocentos anos no Egito (Gn 15.13; Êx 12.40-41; At 7.6), o povo de Israel estava sendo duramente escravizado por Faraó e submetido a trabalhos forçados. Clamando continuamente ao Senhor, este o atendeu (Êx 3.7-9). Moisés foi o libertador escolhido por Deus e preservado do infanticídio masculino decretado por Faraó. Providencialmente poupado e direcionado por Deus, Moisés chega ao palácio egípcio, é criado pela filha de Faraó, passando ali os primeiros 40 anos de sua vida. Resolvendo agir por conta própria, para defender e aliviar o sofrimento dos seus irmãos hebreus, matou um egípcio e o escondeu, porém tal fato chegou ao conhecimento de Faraó que procurou matá-lo. Então, Moisés decidiu fugir, encontrando refúgio e acolhida na terra de Midiã, na casa do sacerdote Jetro. Ali viveu mais 40 anos e, com 80 anos, recebeu o chamado de Deus, quando pastoreava o rebanho do seu sogro Jetro, no monte Horebe, chamado o “monte de Deus”, e o Anjo do Senhor lhe apareceu numa sarça que ardia, mas não se consumia, um fenômeno misterioso (Êx 3.1-2).

Nem todos os chamados por Deus reagiram como Abraão que obedeceu imediatamente (Gn 12.1-4). Alguns hesitaram ou questionaram, se sentiram inseguros e duvidaram da sua capacidade, tais como: Gideão (Jz 6.11-15 – “Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai.”), Jeremias (Jr 1.6-8 – “não sei falar, porque não passo de uma criança.”), Jonas (Jn 1.1-3, que fugiu para Társis). Entretanto, o chamado de Moisés é sem dúvida distinto, pela quantidade de objeções que expressou e respectivas respostas de Deus, no total de 5 (cinco), registradas em 29 versículos (Êx 3.11 a 4.17).

As cinco objeções de Moisés ao chamado divino podem ser assim sintetizadas:

  1. “Quem sou eu?” (Êx 3.11)
    – Baixa autoestima e senso de inadequação diante daquele tremendo desafio de enfrentar o império da época – sentimento de insuficiência pessoal para a tarefa. “O Moisés confiante e impulsivo aprendera a humildade; agora tinha de aprender a ter fé”.
  2. “Qual é o teu nome?” ou seja, “Quem me enviou? Que autoridade tem?”
    – Busca por segurança e respaldo de autoridade, a partir do conhecimento ou confirmação da identidade de Deus.
  3. “Eles não crerão em mim.”
    – Medo da rejeição e descrédito, preocupação com a não aceitação pelo seu próprio povo que poderia vê-lo com desconfiança.
  4. “Eu não sei falar bem.”
    – Insegurança e dúvida quanto a sua habilidade de comunicação e eloquência, necessárias na execução da missão.
  5. “Envia outro.”
    – Resistência e tentativa de escapar do chamado para se manter na sua zona de conforto e evitar responsabilidades desafiadoras. E Deus, já irado, respondeu, em outras palavras – Não! É você mesmo o meu escolhido!

Cada objeção de Moisés expressa um bloqueio interior – baixa autoestima, receio de fracassar e de se expor etc. – que Deus, ao responder cada objeção, cura, incentiva e fortalece. Assim, esse diálogo de Moisés com Deus nos ensina que, por trás de todo “não sou capaz”, há a oportunidade de experienciar a graça, autoridade e capacitação do próprio Deus. Deus o havia preparado cuidadosamente, primeiramente, em toda a cultura da civilização egípcia, depois, nas peculiaridades da vida no deserto, por onde haveria de conduzir o povo liberto, agora, no auge da sua maturidade de vida. Sabemos que isso era importante, porém, o êxito da missão se deve à intervenção sobrenatural de Deus.

É na terceira objeção de Moisés, principalmente na correspondente resposta de Deus que fixaremos a nossa atenção, neste estudo – “Que é isso que tens na mão?”.

1. Significado simbólico das mãos

“1 Respondeu Moisés: Mas eis que não crerão, nem acudirão à minha voz, pois dirão: O SENHOR não te apareceu.
2 Perguntou-lhe o SENHOR: Que é isso que tens na mão? Respondeu-lhe: Um bordão.” (Êx 4)

1.1 As mãos humanas

Na hermenêutica bíblica as mãos, de um modo geral, simbolizam: ação, atividade ou trabalho; poder; ajuda; e, comunhão.  Por exemplo:

🖐 Mão direita: símbolo de honra e distinção (Êx 15.6; 1Rs 2.19; Mt 25.33).
🖐 Mãos abertas: liberalidade.
🖐 Mãos fechadas: mesquinhez.
🖐 Mãos limpas ou santas: pureza moral, integridade, retidão de vida e proceder justo (Sl 24.4).
🖐 Obra das mãos: resultado do trabalho (Sl 90.17).
🖐 Imposição de mãos: bênção, consagração e transferência. Reis, profetas e líderes recebiam autoridade “pela imposição das mãos” (Nm 27.18-23). 
🖐 Etc.

1.2 As mãos de Deus

Referindo-se à mão de Deus, destacamos os seguintes símbolos:

a) Poder e autoridade

“A mão do Senhor” representa poder soberano, direção e intervenção divina.
“Veio sobre mim a mão do Senhor …” (Ez 37.1)

b) Proteção e cuidado

Deus é descrito como aquele que guarda com sua mão:
“O SENHOR firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o SENHOR o segura pela mão.” (Sl 37.23-24)

c) Juízo

A mão de Deus pode representar disciplina, correção ou juízo:
“Porque havia terror de morte em toda a cidade, e a mão de Deus castigara duramente ali.” (1Sm 5.11b)
“Pois, agora, eis aí está sobre ti a mão do Senhor,…” (At 13.11, sobre Elias, o mágico)

2. O significado do bordão

“2 Perguntou-lhe o SENHOR: Que é isso que tens na mão? Respondeu-lhe: Um bordão.
3  Então, lhe disse: Lança-o na terra. Ele o lançou na terra, e o bordão virou uma serpente. E Moisés fugia dela.
4  Disse o SENHOR a Moisés: Estende a mão e pega-lhe pela cauda (estendeu ele a mão, pegou-lhe pela cauda, e ela se tornou em bordão);
5  para que creiam que te apareceu o SENHOR, Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.” (Êx 4)

2.1 O uso dos termos

A resposta de Moisés a Deus sobre o que tinha na mão foi “um bordão”, מַטָה (matteh).

Os exegetas bíblicos, analisando os originais, nos dão conta de algumas palavras no hebraico e uma no grego, envolvidas neste assunto, por exemplo:

a) No hebraico do Antigo Testamento:

מַטָה (matteh), cajado, bordão (Êx 4.2, 4), vara (1Sm 14.27), cetro (Ez 19.11; Is 14.5), tribo (Mq 6.9; Êx 31.2).

שֵׁבֶט (sebet ou shebel), vara (Pv 10.13; 29.15), cajado (Ez 20.37), bordão (Êx 21.20; Lv 27.32), bastão, cetro (Nm 24.17), tribo (Gn 49.16).

מַקְל (maqqel), bordão, bastão (Ez 39.9), vara (Jr 1.11; Os 4.12), cajado (Gn 32.10; Êx 12.11; 1Sm 17.40).

b) No grego do Novo Testamento:

ράβδων (rabdon), bordão (Mt 10.10; Hb 11.21), vara (1Co 4.21), cetro (Hb 1.8), cetro de ferro (Ap 2.27).

Alguns textos bíblicos dão a entender que o pastor de rebanho utilizava dois instrumentos para o exercício da sua função, o bordão (ou vara) e o cajado: “o teu bordão e o teu cajado me consolam.” (Sl 23.4). Outros textos, parecem indicar um só instrumento: “dizei: Como se quebrou a vara forte, o cajado formoso!” (Jr 48.17); “O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos.” (Gn 49.10).  

A vara ou bordão era um ramo de árvore ou o tronco fino de um arbusto, sendo moldado para uso individual, reto e com uma extremidade mais grossa ou com um gancho de pastor. As palavras hebraicas mais usadas são difíceis de distinguir uma da outra, pois suas raízes são praticamente iguais. A palavra shebel, a princípio significava uma “muleta”, depois um cajado de pastor, e, finalmente, um cetro.

2.2 Os significados do bordão

O bordão ou vara ou cajado, sem importar qual o original hebraico ou grego, tem os seguintes significados, no caso do chamado de Moisés:

a) Símbolo de vocação

Na Bíblia, vocação (do latim vocare, que significa chamar) é entendida como um chamado particular de Deus (para cada indivíduo), com características únicas e um propósito específico. O bordão de Moisés era um elemento simples e de uso comum naquela época. Na mão de um pastor de rebanho era usado para ele apoiar-se ao caminhar, para guiar ou defender o rebanho e para representar sua identidade como pastor. No entanto, torna-se símbolo claro do modo como Deus costuma agir. Revela-se aqui o modus operandi de Deus ao usar aquilo que a pessoa é ou tem: Ele utiliza aquilo que a pessoa já possui — ressignificando e potencializando para cumprir seus propósitos. Nas mãos de Deus, objetos simples e pessoas comuns se tornam instrumentos relevantes. Um exemplo marcante é o dos cinco pães e dois peixinhos, que, recolhidos das mãos de um simples rapaz, foram multiplicados por Jesus para alimentar uma multidão (Jo 6.9-14).

Na mão de Moisés o bordão simbolizava sua vocação e missão de libertar o seu povo da escravidão do Egito. A vocação exige uma resposta ativa da parte do indivíduo, que deve estar aberto a ouvir a voz de Deus e a seguir o seu chamado. Todos os salvos têm um chamado geral e comum: o IDE de Jesus, o de ser sal da terra e luz do mundo. Nossos dons e talentos, nossas profissões, nossas posições na família, na igreja e na sociedade, representam nossos bordões ou cajados a serviço de Deus e por amor ao próximo, quando ressignificados e potencializados pelo Espírito Santo.

Diante disso, o que temos a oferecer a Deus? 

b) Símbolo de autoridade

“Toma, pois, este bordão na mão, com o qual hás de fazer os sinais.” (Êx 4.17). A missão confiada a Moisés era, do ponto de vista humano, impossível. Por isso, tornava-se indispensável a atuação do sobrenatural. Os sinais e maravilhas não eram apenas demonstrações de poder, mas evidências da autoridade delegada por Deus. Era assim que Moisés haveria de comprovar sua autoridade, diante dos anciãos e do seu povo (Êx 4.29-31), bem como, diante de Faraó e sua corte (Êx 7.8-13).

Deus transformou o objeto comum e natural de Moisés em um instrumento sobrenatural de autoridade. O bordão se tornou símbolo de que Deus estava com ele – não era mais apenas seu, mas de Deus. O obreiro e líder eclesiástico só tem autoridade legítima quando esta lhe é concedida por Deus, não por posição ou habilidade pessoal.

O bordão de Moisés se tornou instrumento de sinais e milagres, usado para:

🪄- Transformar-se em serpente (Êx 4.3)
🪄- Ferir o Nilo  e tornar a água em sangue (Êx 7.20)
🪄- Abrir o Mar Vermelho (Êx 14.16, 21)
🪄- Fazer sair água da rocha (Êx 17.6)

Deus pode usar o que está em nossas mãos – dons simples, talentos comuns – para realizar obras extraordinárias em seu nome.

c) Símbolo de obediência

“Moisés levava na mão o bordão de Deus.” (Êx 4.20b), com o qual ele e Arão operariam numerosos prodígios. Moisés havia recebido o inconfundível chamado de Deus e a correspondente autoridade por ele delegada, materializada no seu bordão, mas não apenas nesse instrumento. Também lhe foi dado como recursos extraordinários, o sinal da lepra (Êx 4.6-8) e o sinal da transformação de água em sangue (Êx 4.9). Além desses, Deus ainda havia reservado os poderosos sinais das dez pragas. Finalmente, depois de rejeitadas e respondidas suas cinco objeções, ele obedece ao chamado divino. Retornar ao Egito, considerando a reputação de assassino que lá deixou; depois de quarenta anos vivendo em outra terra, com família constituída e vida estabilizada; para enfrentar Faraó contando, com o apoio do seu povo, era um tremendo desafio. De fato, ele obedeceu e foi cumprir a missão, pois não há quem possa resistir ao chamado de Deus!

2.3 Outros significados do bordão/vara

a) A “vara da disciplina” (Pv 22.15) era aplicada a crianças / filhos (Pv 13.24; 23.13-14), às costas dos insensatos (Pv 10.13; 26.3), e aos escravos (Êx 21.20).

b) Orientação e o cuidado divinos, “… o teu bordão (a tua vara) e o teu cajado me consolam” (Sl 23.4).

c) Símbolo da ira e do castigo divinos (2Sm 7.14; Jó 9.34; Lm 3.1).

d) Representava o governo divino. A predição de que Jesus governará todas as nações com “cetro de ferro” foi predito em Salmos 2.9 e ratificado em Apocalipse 12.5 e 19.15.

e) A vara também era usada na contagem das ovelhas (Lv 27.32). Simbolicamente, o supremo Pastor (Cristo) passará em revista o seu rebanho, separando os rebeldes e dando aos seus as bênçãos da nova aliança no reino (Ez 20.37).

f) Finalmente, uma vara foi usada, nas visões de João, para medir a Nova Jerusalém (Ap 11.1 e 21.15-16).

Conclusão

Moisés passou os primeiros 40 anos de sua vida na corte egípcia aprendendo a ser alguém (At 7.22). Teve que ser arrancado do pináculo do poder real, despojado de todos os títulos e riquezas terrenas, quando, por conta própria, tentou fazer alguma coisa pelo seu povo e fracassou (At 7.23; Hb 11.24-26). Depois, passou o segundo período de 40 anos de sua vida aprendendo que não era nada e que nada poderia fazer de si mesmo. Por fim, aquele que já tinha apreendido a ter humildade, passa o terceiro e último período de 40 anos de sua vida aprendendo a ter fé e a depender de Deus; aprendendo que Deus é tudo.

Se Deus perguntasse a muitos crentes hoje: “– Que é isso que tens na mão?”, o que responderiam? A resposta mais sincera seria: “– Senhor, tu sabes que é um celular. É incrível o que esse aparelhinho faz. Não consigo mais ficar longe dele e, é verdade que já estou preocupado(a) com o tempo que estou desperdiçando com ele.

Pois é, há muitas coisas ocupando nossas mãos, olhos, mentes e vidas que em nada contribuem para um fim mais útil e proveitoso. De fato, Deus quer ressignificar e potencializar a sua vida, seus dons e talentos, para realizações com desmembramentos eternos. “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios,   remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor.” (Ef 5.15-17).

O que tem impedido você de um maior e mais produtivo compromisso com a obra de Deus? Como você tem respondido ao chamado de Deus? Acredite, Deus pode aperfeiçoar e maximizar o modesto recurso que você tenha a lhe oferecer! O Deus de Moisés e de Elias é o mesmo hoje, capaz de prover os meios e recursos necessários para que façamos a sua obra (Tg 5.17-18).

– Que é isso que tens na mão?

Bens materiais? Dons e talentos? Oportunidades? Faça bom uso disso, principalmente para a honra e glória de Deus!

Que Deus nos ajude!

Bibliografia

  1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
  2. Bíblia Online (SBB).
  3. Willem A. VanGemeren, Ph. D. – Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento (Ed. Cultura Cristã – 2011).
  4. R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 2001).
  5. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia (Ed. Hagnos).
  6. Sobrinho, Antonieto Grangeiro – Hermenêutica Bíblica.
  7. Internet / ChatGPT / IA.