Perdidos e Achados (Lucas 15.1-32)

Introdução       

Há capítulos interessantes e diferenciados na Bíblia. Por exemplo:

Isaías 53: “O retrato falado de Jesus”
Mateus 24: “O pequeno apocalipse de Jesus”
Hebreus 11: “A galeria dos heróis da fé”

Nessa mesma linha, quero apresentar agora outro capítulo:

Lucas 15: “O departamento de achados & perdidos”

Você já ouviu falar de um serviço prestado pelos Correios de “Achados e Perdidos”? A Bíblia também tem algo assim. Encontra-se em Lucas 15! Você sabe quantos casos de Perdidos Lucas registrou nesse capítulo tão comentado da Bíblia? Eu sempre pensei que fossem três; afinal, são três parábolas com três casos explícitos de Perdidos, com final feliz. Entretanto há um quarto caso, o caso do irmão mais velho do filho pródigo, também conhecido como “síndrome do irmão mais velho” que me parece um autêntico caso de Perdido e o único onde não fica evidenciado o desfecho de resgate, de final feliz.

O que Jesus estaria querendo nos ensinar com essas parábolas?

1  Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir.
2  E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles.

1º) O CENÁRIO INICIAL E A MOTIVAÇÃO

Nos dois primeiros versículos desse capítulo 15 de Lucas fica evidente o cenário e motivação para Jesus proferir essas três parábolas. Na visão dos fariseus e escribas (Lc 15.1-2) quem seriam os salvos e quem seriam os perdidos? Que nível de relacionamento os “salvos” poderiam ou deveriam ter com os “perdidos”?

Os fariseus e escribas se viam como os justos, os puros, os fiéis à Lei de Moisés, portanto os verdadeiros herdeiros da bênção e da aliança de Deus com Israel. Consideravam-se separados dos pecadores. O nome “fariseu” vem do hebraico perushim, que significa “separados”. Sua confiança estava na obediência rigorosa à Lei e às tradições orais (Mishná). Por isso, achavam que estavam em plena comunhão com Deus.

Para eles os “perdidos” eram: Os pecadores públicos: prostitutas, cobradores de impostos (publicanos), samaritanos, gentios, e qualquer judeu que não cumprisse a Lei como eles julgavam correto. Esses grupos eram vistos como espiritualmente excluídos ou impuros. Publicanos, por exemplo, eram desprezados porque trabalhavam para o império romano (inimigo de Israel), cobrando impostos, e eram acusados de desonestidade. Ou seja, quem não seguia a Lei como os fariseus era considerado “fora do caminho”, longe de Deus, e, portanto, perdido.

2º) A IMPORTÂNCIA DO PERDIDO

a) Não importa a quantidade:

Fica evidente em todos os casos que a “coisa perdida” ou o “ser perdido”, animal ou humano, era muito importante para quem o tinha, sem exceção. E isso independia da quantidade ou da proporção que o perdido representasse: 1 em 100, 1 em 10, 1 em 2 ou 2 em 2. Por isso, todo esforço deveria ser despendido para encontrar a ovelha e a dracma perdidos; bem como todo o esforço deveria ser feito para não interferir no processo pedagógico divino de resgate dos dois irmãos perdidos.

O perdido é importante para Jesus! Por isso ele se aproximava dos publicanos e pecadores. “Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores.” (Mc 2.17). Os fariseus se consideravam os legítimos súditos do reino de Deus e desprezavam todos aqueles que não se guiavam pela cartilha deles. E você? Que tipo de relação mantém com os perdidos? Você está no mesmo barco com eles, indo a pique? Ou será que já teve sua condição de perdido revertida, em Cristo?

b) Nenhum esforço é demasiado quando se trata de resgatar o perdido!

c) O júbilo, o regozijo pelo resgate do perdido:

– A alegria é tamanha que transborda, alcançando os que estão ao redor e subindo até o céu. (Lc 15.10).

– Aquele que não concorda com essas lições ensinadas por Jesus é provável que também esteja perdido! Aquele que não está procurando os perdidos, também está perdido, no mínimo em relação à sua missão como cristão.

Que tipos de Perdidos e Achados encontramos neste capítulo?

Ao analisar uma parábola, é preciso ter em mente que parábola não é insumo para a produção de doutrina para a igreja. É preciso ter cuidado com a interpretação dos detalhes, pois estes cumprem o propósito maior de dar sentido real à história. É preciso manter o foco na lição principal que Jesus desejava ensinar.

1. A OVELHA PERDIDA (Lc 15.3-7) 

            Um tipo de perdido que pede para ser encontrado!

3  Então, lhes propôs Jesus esta parábola:
4  Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?
5  Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo.
6  E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.
7  Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

a) Qual é a situação dessa ovelha?

  • Diz a narrativa que a ovelha se perdeu….
    • Passado um tempo, percebe, por instinto, que está perdida;
    • Não sabe como voltar;
    • Experimenta uma sensação terrível de isolamento, fragilidade etc.;
    • Sinaliza, o quanto pode e para quem puder ouvir, que está perdida. Um ponto de atenção: o berro que clama por socorro é o mesmo que atrai os predadores.
    • Precisa de alguém para ir buscá-la.

b) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • Alguém precisa procurar nos arredores do caminho;
    • Ficar em estado de atenção máxima, para tentar vê-la ou ouvi-la;
    • Ao avistá-la, ir imediatamente ao seu encontro;
    • Conduzi-la de volta ao rebanho.

2. A DRACMA PERDIDA (Lc 15.8-10)

            Um tipo de perdido difícil de ser encontrado!

8  Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la?
9  E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido.
10  Eu vos afirmo que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.

Alguns comentam que a moeda pertencia a algum enfeite de cabeça, do tipo usado pelas esposas palestinas, como parte do dote que lhes era dado quando de seu matrimônio. Entretanto, não há elementos históricos que o comprovem.

a) Qual é a situação dessa dracma?

  • Diz a narrativa que a dracma foi perdida….
    • Nunca terá consciência de que está perdida;
    • Não sabe como voltar;
    • Não sinaliza pedindo ajuda;

b) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • Alguém precisa procurar nos arredores do lugar onde se deu o extravio;
    • Em face da dificuldade é preciso se equipar, se preparar melhor e usar adequadamente esses recursos: LUZ (A Palavra de Deus, entendimento, sabedoria para discernir etc.); VASSOURA e DEDICAÇÃO.

3. O FILHO PRÓDIGO (Lc 15.11-24)

            Um tipo de perdido que precisa encontrar a si mesmo

11  Continuou: Certo homem tinha dois filhos;
12  o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres.
13  Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente.
14  Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade.
15  Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos.
16  Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada.
17  Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!
18  Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;
19  já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.
20  E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou.
21  E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
22  O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés;
23  trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos,
24  porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.

a) Qual é a situação desse jovem?

  • Diz a narrativa que este jovem estava perdido, “morto….”
    • Tem consciência de que está perdido;
    • Sabe como voltar;
    • Precisa tomar a decisão de voltar;
    • Precisa ser acolhido e perdoado na sua volta.

b) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • Não impedir de ir;
    • Esperar até que as circunstâncias desfavoráveis da vida o desperte para a triste realidade da vida:
    • Esperar até que se convença de que tentativas paliativas não vão resolver seu problema;
    • Esperar até que a voz da consciência fale mais alto;
    • Esperar até que a visão saudosa da casa do pai o encoraje a voltar;
    • Recebê-lo  e perdoá-lo quando voltar e confessar seu erro.

4. O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO (Lc 15.25-32) 

            Um tipo de perdido que precisa ser considerado

25  Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
26  Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo.
27  E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde.
28  Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo.
29  Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos;
30  vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado.
31  Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.
32  Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

a) Qual é a situação desse irmão mais velho?

  • A narrativa não menciona explicitamente que este jovem estivesse perdido;
    • Não tem consciência de que está perdido;
    • Dá sinais comportamentais de que está perdido;
    • Alguém precisa procurá-lo entre os não perdidos.

b) Vejamos alguns detalhes deste tipo de perdido. (Uma provável referência aos fariseus legalistas)

  • Estava trabalhando no campo, a serviço do pai (v.25);
    • Fica indignado com os atos de compaixão do pai (vv.27-28);
    • Estava na casa do pai, mas do lado de fora (v.28). Não participava do gozo e da celebração que ali se desenvolvia;
    • Omite o tratamento respeitoso “Pai”. Por outro lado, o filho pródigo chamou seu progenitor de Pai;
    • No seu deturpado juízo de valor o que realmente importava era (v.29):

– “Tempo de Casa”;
– Obedecer às ordens e regras (mérito próprio, boas obras, legalismo insensível);
– Ser recompensado, valorizado e destacado pelos seus méritos;
– Priorizar coisas, em vez de pessoas (v.30).

  • Culpa o pai, ou os outros, por seus próprios fracassos (v.29). Provavelmente nunca matou aquele cabrito por usura ou porque era antissocial, egocêntrico.
    • Despreza, rejeita e não trata o que caiu como irmão (v.30)
    • Não toma posse da bênção da comunhão com o pai (v.31). Serve ao pai sem ter comunhão com ele;
    • Demonstra que uma pessoa não precisa sentir-se perdida para estar perdida.

c) Qual a estratégia para se resgatar esse tipo de perdido?

  • É preciso ir ao seu encontro, no estado e no lugar onde está (v.28);
    • É preciso falar-lhe ao coração, com paciência (v.28)
    • É preciso ouvi-lo, deixá-lo despejar toda amargura interior (v.29);
    • É preciso fazê-lo perceber o valor de um resgatado (v.32).

Conclusão:

Dessas três parábolas podemos extrair algumas lições.

1ª) A parábola da ovelha perdida

Quem sabe a ovelha se distraiu com alguma coisa, pelo caminho, foi ficando para trás e se perdeu do rebanho.

Na jornada da vida, o cristão se depara com muitos atrativos, distrações e propostas sedutoras. Se não vigiar, pode acabar se envolvendo, desviando-se, perdendo o foco e o verdadeiro sentido da missão – e assim, afastar-se do rebanho de Deus. Mas é confortante saber que o Supremo Pastor jamais abandona os que lhe pertencem. Ele conhece os caminhos do resgate e, mesmo quando o retorno envolve dor, seu propósito é restaurar, não condenar.     

2ª) A parábola da dracma perdida

A dracma não se perdeu sozinha – alguém foi responsável por essa perda.

Na comunidade da fé, às vezes, palavras inapropriadas, atitudes e atos desastrosos, podem ferir mais do que a ponta de uma faca afiada. Ao invés de acolhermos carinhosamente os que começam a trilhar a jornada da fé, de conhecer e dar espaço para seus dons e talentos, os afastamos e os escandalizamos com nossa frieza e indiferença. A igreja não é um clube fechado de encontros sociais de antigos amigos. É, por vocação, um lugar de acolhimento, cuidado e restauração dos que estavam perdidos e foram alcançados pela graça divina. Por isso, precisamos de vigilância constante para não perder ninguém pelo caminho, e de zelo intencional para buscar e resgatar aqueles que se afastaram. A graça que nos alcançou também nos comissiona a estendê-la aos outros.

3ª) A parábola do Filho Pródigo

Este jovem foi atrás de um sonho dourado, foi seduzido pelo mundo e se perdeu.

Não é raro encontrarmos pessoas criadas desde cedo na igreja, cercadas de amor, fé e propósito – e ainda assim inconscientes da bênção que isso representa. Sem perceberem o valor do que têm, acabam seduzidas por uma ideia distorcida de liberdade, pela ilusão de “viver a vida ao máximo”, entregando-se aos prazeres e promessas passageiras que o mundo oferece.

Lançam-se, então, em uma jornada inconsequente, buscando realização onde não há raiz nem verdade. Mas, inevitavelmente, chega o momento em que a realidade dessa vida sem limites – e sem os valores cristãos – se revela frustrante, vazia e dolorosa. É nesse ponto de ruptura que a memória daquilo que um dia possuíram – e desprezaram – começa a florescer no coração.

Essa lembrança, alimentada pela semente do evangelho plantada lá atrás, é vivificada pelo Espírito Santo. É ele quem os leva a ‘cair em si’ e despertar para o arrependimento, conduzindo-os de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído: os braços do Pai.   

4ª) O irmão do Filho Pródigo

Ele deixou-se levar pelo legalismo, pelo senso de justiça própria, e perdeu a sensibilidade e compaixão.

Sem dúvida, há nesta parábola uma resposta direta aos fariseus daquela época – mas também um alerta atemporal a certos crentes de todas as gerações. Trata-se daqueles que se julgam justos e merecedores da aceitação divina, mas não compreendem verdadeiramente o que é a graça de Deus. O evangelho é graça, não mérito.

Muitos estão dentro da comunidade de fé, na “casa do Pai”, atuantes, piedosos, dedicados à obra – e, ainda assim, com o coração endurecido. Tecnicamente, não estão “perdidos”, mas espiritualmente, sim: perderam a alegria da salvação e a compaixão por quem retorna. É preciso vigilância quando alguém começa a se considerar superior aos demais e não consegue se alegrar com a restauração de um irmão.

Por outro lado, essa parábola não é um incentivo à complacência com quedas constantes e repetidas. A graça não é conivência. A Palavra é clara: “Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu.” (1Jo 3.6). O arrependimento verdadeiro é sempre acompanhado de transformação. A graça perdoa, restaura  e santifica.

Enfim:

Você está perdido ou procurando os perdidos?

Não importa como se deu o extravio, é hora de ser achado ou de voltar!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online (SBB).
3. R. N. Champlin, Ph. D. – O Novo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 1982).
4. Internet / ChatGPT / IA.

A parábola do fermento

Foco: O crescimento do reino.
Textos base: Mateus 13.33-35; Marcos 4.33-34; Lucas 13.20-21

Introdução

Este estudo tem como foco o reino de Deus ou o reino dos céus, particularmente o propósito de Jesus de afirmar ou profetizar a realidade futura do seu crescimento, explicando e ilustrando tal fato através da parábola do fermento. Cabem aqui algumas perguntas: Por que Jesus empregava esse estilo de comunicação por parábolas? Aqueles ouvintes, sendo pessoas simples, conseguiriam entender as parábolas de Jesus, sem o recurso de uma explicação da sua parte?

Quanto ao termo “parábola”; quanto às 11 (onze) “parábolas do reino”; e, quanto ao uso de parábolas por Jesus, veja a introdução do estudo da “Parábola do grão de mostarda”.

20  Disse mais: A que compararei o reino de Deus? (Lc 13)
21  É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado. (Lc 13)
33  Disse-lhes outra parábola: O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado.(Mt 13)

1) O REINO E O FERMENTO

Talvez nenhuma outra parábola tenha sido alvo de tantas interpretações radicalmente divergentes entre si como esta. A maior dificuldade gira em torno do sentido do símbolo do fermento.

“O fermento era uma substância que se empregava para produzir a fermentação da massa e fazê-la crescer, Êxodo 12.15, 19; 13.7. Nos tempos das Escrituras, o fermento fazia-se com um pouco de massa velha e fermentada. O pão fermentado por esse processo, tinha sabor desagradável e mau cheiro. Para evitar estes defeitos empregavam a levedura. Toda a oferta que se fazia ao Senhor não devia levar fermento, Levítico 2.11. Quando a oferta era consumida pelo ofertante, poderia levar fermento, Levítico 7.13; 23.17. O motivo principal da proibição baseava-se em que o fermento é uma decomposição incipiente, e servia de símbolo para representar a corrupção moral. Também para simbolizar as doutrinas falsas, Mateus 16.11; Marcos 8.15, e a perversidade do coração, 1Coríntios 5.6-8. As influências boas ou más comparam-se aos efeitos do fermento. A lei cerimonial proibia o uso de pão levedado e tê-lo em suas casas durante a festa da Páscoa. A ausência do fermento simbolizava a santidade de vida que se requer no serviço de Deus; relembrava a pressa com que abandonaram a terra do Egito, a farinha que trouxeram amassada sem tempo para meter-lhe o fermento e a insipidez do pão, Êxodo 12.39; Deuteronômio 16.3; 1Coríntios 5.7,8.” (Dic. da Bíblia)

2) AS DUAS PRINCIPAIS LINHAS DE INTERPRETAÇÃO

1ª) Fermento é símbolo de maldade, corrupção. Portanto, segundo os que defendem esta linha de interpretação, a parábola refere-se a influência penetrante do pecado, quer do diabo, da religião falsa, da política maliciosa ou dos homens em geral. Ou seja:

O uso do fermento nas três medidas de farinha era igualmente para representar o mal dentro do Reino dos Céus. O ensino de que o fermento nesta parábola representa a influência benéfica do Evangelho permeando o mundo não tem justificativa bíblica. Em parte alguma das Escrituras o fermento representa o bem; a ideia de um mundo convertido no fim dos tempos é contestada pela presença do joio entre o trigo e dos peixes ruins entre os bons no próprio Reino. A parábola é, portanto, uma advertência de que a verdadeira doutrina, representada pela farinha, pode ser corrompida pela falsa doutrina (comparar 1Tm 4.1-3;  2Tm 2.17-18;  4.3-4; 2Pe 2.1-3). Segundo alguns intérpretes, a intenção desta parábola é ilustrar como o reino haveria de receber elementos pervertidos e assim se estragaria com o aparecimento de heresias etc. Outros concluem que a mulher é a falsa igreja e que introduziu os falsos ensinamentos até tudo ficar contaminado.

2ª) Esta parábola ilustra o poder de penetração do reino dos céus, gerando crescimento. Por outro lado, segundo os que defendem esta outra linha de interpretação, embora seja verdade que as Escrituras apresentam o fermento como símbolo da corrupção, e que os rabinos tenham usado o termo nesse mesmo sentido, não há razão para crer que Jesus não tenha tido coragem suficiente para mudar o símbolo, neste caso, a fim de que passasse a simbolizar outra coisa. Parece que muitos não admitem as palavras simples (e sem interpretação de Jesus) que ele proferiu. Os símbolos nem sempre são fixos, como se pode observar em diversos casos: a) A semente, na parábola do semeador, significa a palavra. Porém, na parábola do joio, significa os resultados da palavra, que são os “filhos do reino dos céus”. b) Nas Escrituras e nos escritos rabinos, a serpente sempre tem um sentido mau, usualmente indicando Satanás ou o mau caráter de sua pessoa; porém, em Mateus 10.16 descobrimos que Jesus empregou esse símbolo  com bom sentido. c) O símbolo do leão é usado tanto para indicar a Satanás (1Pe 5.8) como para indicar o próprio Cristo (Ap 5.5). d) Nem sempre as Escrituras usam o fermento como símbolo de coisa má. Diz Levítico 23.17: “Das vossas habitações trareis dois pães de movimento; de duas dízimas de farinha serão, levedados se cozerão; primícias são ao Senhor”. Dificilmente podemos entender que essas “primícias” de Deus são coisa má.

3) UMA INTERPRETAÇÃO SENSATA

Devemos evitar as interpretações que ensinam significados estranhos e exagerados, e que obviamente ultrapassam a simples intenção das palavras do texto. Questões complexas de teologia, história eclesiástica ou história universal não têm lugar legítimo na interpretação dessas parábolas. Por essa ótica, a segunda interpretação é a mais viável. Enquanto a primeira interpretação parece muito mais o resultado de uma análise do desenvolvimento do reino dos céus, do seu início até hoje, do que a intenção de Jesus nessa parábola.

A parábola do fermento, assim como a do grão de mostarda, simbolizam o crescimento. No entanto, a parábola do grão de mostarda retrata crescimento por si próprio, orgânico e divino determinado pelo Criador, ao passo que a do fermento, destaca um crescimento induzido ou estimulado  da massa original que, com o auxílio externo (mulher e fermento), produz a expansão do volume do elemento original, sem, no entanto, alterar o seu peso. Através destas duas parábolas estaria Jesus simplesmente querendo comunicar a ideia de um crescimento espetacular ou de um crescimento espetacular divino-humano?  Não sabemos! O fato é que o reino crescerá admiravelmente e exercerá a sua influência e poder no mundo. “Esse poder é intenso e transformador; a causa não é visível, mas os resultados se tornam notórios”. É importante notar que esta parábola não pretende ensinar que o mundo inteiro se converterá, como alguns, especialmente entre os pós-milenistas, têm sugerido.

Conclusão

Através desta parábola do fermento Jesus está transmitindo a ideia de que o reino de Deus começa pequeno, porém, nas suas entranhas há um poder transformador e expansivo que afeta tudo ao seu redor, assim como o fermento faz com a massa de pão. Trata-se de uma ação invisível, porém poderosa em seus efeitos.

Assim como o fermento participa do processo com uma pequena quantidade misturada na massa, proporcionalmente muito maior do que ele, o reino de Deus podia parecer pequeno e insignificante no início, como a pregação de Jesus ou como o testemunho e pregação de um pequeno grupo de discípulos. No entanto, sua ação é profunda e expansiva. Mesmo agindo de forma invisível, o fermento transforma toda a massa. Essa transformação não acontece instantaneamente, porém, progressivamente, até que sua influência esteja completamente disseminada. O mesmo acontece no reino de Deus.

Por fim, fica aqui a pergunta: Qual tem sido o meu e o seu papel nesse crescimento do reino?

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ENSINOS DO REINO (Ed. Didaquê).
4. Boyer, Orlando – MATEUS, O Evangelho do Rei.
5. Davis, John D. – Dicionário da Bíblia (JUERP).
6. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia  (Ed. Hagnos).
7. Internet / ChatGPT.


APÊNDICE

O que é, e como atua o fermento?

“Os fermentos são ingredientes que dão volume, textura e maciez às preparações culinárias. Existem dois tipos de fermento, classificados segundo sua origem: fermento biológico, utilizado na fabricação de pães e pizzas e fermento químico ou em pó, indicado para bolos e biscoitos.

O fermento biológico é composto de microorganismos vivos[1] (saccharomyces cerevisae) que se reproduzem na presença de temperatura e do açúcar presente na massa. Este açúcar é o alimento do microorganismo, que se reproduz e libera o gás carbônico (CO2) necessário ao crescimento da massa.

O fermento químico é um composto de bicarbonato de sódio e um ácido que na presença de umidade e calor reagem e liberam gás carbônico. O gás carbônico (dióxido de carbono – CO2) liberado fica preso na massa formando bolhas. Com a temperatura do forno, as bolhas são expulsas para cima, levantando a massa, enquanto os outros ingredientes das receitas são assados. Como resultado, temos produtos fofos, macios e com volume.

Origem do Fermento (químico)

Por volta de 1800 descobriu-se que o bicarbonato de sódio produzia gás dióxido de carbono na presença de certos ácidos. As donas de casa da época descobriram que o bolo poderia crescer mais e ficar mais alto quando se utilizava o bicarbonato. Mas a utilização tinha os seus limitantes devido à tecnologia: o bicarbonato reagia muito rapidamente quando misturado à massa. Em 1835, o ´cremor de tártaro` foi misturado ao bicarbonato de sódio e o resultado foi surpreendente. Assim, foi criado o primeiro fermento. Por volta de 1850, o ácido utilizado passou a ser o “ácido fosfato monocálcico”. O poder do bicarbonato de sódio com este ácido melhorava o desempenho em cerca de 60%. O fermento químico passou, então, a ser utilizado cada vez mais.“[2]

“Em 1859, Louis Pasteur, o pai da microbiologia moderna, descobriu como o fermento funcionava. Alimentando-se de farinha de amido, o fermento produzia dióxido de carbono. Este gás expande o glúten na farinha e leva a massa de pão a expandir e crescer.”[3]

“A razão pela qual as pessoas geralmente preferem o fermento à levedura é porque esta demora muito, de 2 a 3 horas, para produzir as bolhas. O fermento em pó é instantâneo e você pode preparar uma massa de biscoito e comê-los depois de 15 minutos.”[4]

Considerando o fermento como algo mau, símbolo do pecado e da corrupção humana, podemos sugerir que o tempo de atuação do fermento biológico (antigo) está para o tempo de atuação do fermento químico (moderno), assim como a velocidade de propagação do pecado na antiguidade está para a velocidade de propagação do pecado hoje, que conta com todo o aparato tecnológico de transporte de pessoas e de ideias, cenas, imagens, comportamentos etc.

[1] Inofensivos à saúde.
[2] Internet: site Dona Benta (2009).
[3] Internet (2009).
[4] Internet (2009).

A parábola do grão de mostarda

Foco: O crescimento do reino.
Textos base: Mateus 13.31-32; Marcos 4.30-32; Lucas 13.18-19

Introdução

Este estudo tem como foco o reino de Deus ou o reino dos céus, particularmente o propósito de Jesus de afirmar ou profetizar a realidade futura do seu crescimento, explicando e ilustrando tal fato através da parábola do grão de mostarda. Cabem aqui algumas perguntas: Por que Jesus empregava esse estilo de comunicação por parábolas? Aqueles ouvintes, sendo pessoas simples, conseguiriam entender as parábolas de Jesus, sem o recurso de uma explicação da sua parte?

As parábolas

A palavra “parábola” vem do grego “παραβολή” (parabolē), que é composta de “para” (ao lado de, junto) e “bole” (jogar, lançar). Literalmente, significa “lançar ao lado” ; “colocar lado a lado com”; “comparar”. O termo foi adotado no latim como “parabola“, mantendo o significado de comparação ou analogia.

31a  Outra parábola lhes propôs, dizendo: (Mt 13)
30  Disse mais: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? (Mc 4)
18  E dizia: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? (Lc 13)

O evangelho de Mateus faz a exposição dos “mistérios  do reino dos céus” (Mt 13.11) e reúne dez “parábolas do reino”, isto é, parábolas que são iniciadas com a frase: “O reino dos céus é (será) (também)(ainda) semelhante….”, algumas com registro paralelo em outros evangelhos. O evangelho de Marcos acrescenta mais uma parábola. Organizando essas onze “parábolas do reino” de acordo com o seu foco e mensagem, temos:

a) O Crescimento do reino:

1ª) A parábola do grão de mostarda (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32; Lc 13.18-19).
2ª) A parábola do fermento (Mt 13.33; Lc 13.20-21).
3ª) A semente crescendo por si mesma (Mc 4.26-29).

b) O valor do reino:

4ª) A parábola do tesouro escondido (Mt 13.44).
5ª) A parábola da pérola preciosa (Mt 13.45-46).

c) Um lugar de perdão:

6ª) A parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35).

d) Um lugar de serviço e recompensa:

7ª) A parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16).

e) A separação final:

8ª) A parábola do joio e do trigo (Mt 13.24-30; 36-43).
9ª) A parábola da rede lançada ao mar (Mt 13.47-50).
10ª) A parábola das bodas (Mt 22.1-14).
11ª) A parábola das dez virgens (Mt 25.1-13).

Em toda a literatura, não há livro mais rico em material alegórico e em parábolas do que a Bíblia. As parábolas têm sido utilizadas desde a antiguidade. Embora Jesus tenha contribuído com parábolas inigualáveis para os escritos sagrados, elevando esse método de ensino ao mais alto grau, ele estava ciente da longa tradição desse meio de apresentar a verdade. Na época e região em que Jesus viveu, as parábolas, assim como as fábulas, eram um método popular de instrução entre todos os povos orientais. Essas histórias cativantes proferidas por Jesus, com seu encanto e simplicidade, nos desafiam a compreender verdades espirituais profundas.

Para explicar o reino dos céus ou de Deus, que têm o mesmo sentido, Jesus recorre não a discursos sistematicamente elaborados, como faziam os filósofos e teólogos. Ele lança mão de parábolas. Estas parábolas alusivas ao reino abrangem um período que vai do primeiro advento até a segunda vinda de Cristo, em que está inserido o período da igreja. A parábola da rede, por exemplo, ilustra o seu final, a consumação do século (Mt 13.47-50). Algumas dessas parábolas foram proferidas às multidões e outras, em particular, aos discípulos. O fato é que através de cada uma delas Jesus revelava alguns aspectos do reino. O reino é algo dinâmico e as parábolas ilustram ações em processo de execução: é um crescimento, uma busca, um semear, um retorno, uma massa que leveda etc.

Enfim:

– A parábola é como um enigma que deixa as pessoas pensativas.

– As parábolas utilizam imagens e situações do dia a dia que eram familiares aos ouvintes de Jesus; partindo de elementos tangíveis para fixar conceitos espirituais complexos.

– As parábolas, sendo histórias curtas, são mais facilmente retidas na memória das pessoas.

– As parábolas cativam a atenção das pessoas, convidando-as a refletir e buscar o significado mais profundo.

– As parábolas frequentemente evocam uma resposta emocional ou moral, ajudando os ouvintes a internalizar as lições.

Antes de prosseguir é importante esclarecer que, segundo a hermenêutica bíblica, que é a ciência, a arte de interpretação das Sagradas Escrituras, as parábolas proferidas por Jesus são narrativas alegóricas destinadas a transmitir verdades e conceitos gerais importantes. Portanto, não tiveram o propósito de servir de fonte de doutrina da fé cristã para a igreja, nem tampouco os detalhes e pormenores das narrativas se prestam a isso.

“Então, se aproximaram os discípulos e lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas? Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido.” (Mt 13.10-11)

Se, por um lado, as parábolas são histórias cativantes e de fácil memorização, enganam-se os que acham que as verdades espirituais que elas transmitem são de fácil entendimento. Os discípulos frequentemente pediam a Jesus que lhes explicasse as parábolas que ele contava. Por exemplo: “E sem parábolas não lhes falava; tudo, porém, explicava em particular aos seus próprios discípulos.” (Mc 4.34; ver tb Mt 13.36; Mc 4.10; Lc 8.9). A linguagem figurada e metafórica, a analogia extraída de experiências do cotidiano, ocultava mistérios que Jesus passou a revelar, porém, de forma seletiva – aos seus: “…; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles.” (Mc 4.11b-12). Jesus menciona Isaías 6.9-10, quando o profeta foi enviado a declarar uma cegueira judicial sobre a geração pecaminosa do seu tempo. Assim, o Senhor advertiu a geração má do seu tempo que, devido à dureza dos seus corações, Deus lhes cegará os olhos.

Desenvolvimento

1. O GRÃO DE MOSTARDA (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32; comp. Lc 13.18-19)

O reino e o grão de mostarda:

1.1 Sua origem intencional

31b O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; (Mt 13)
31a  É como um grão de mostarda, que, quando semeado, (Mc 4)
19a  É semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta; (Lc 13)

O reino não surge por acaso, ele foi semeado no campo (mundo) por Cristo.

1.2 Seu crescimento espetacular

32a  o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, (Mt 13)
31b é a menor de todas as sementes sobre a terra; (Mc 4)
32a  mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças,  (Mc 4)
19b e cresceu e fez-se árvore; (Lc 13)

A mostarda comum da Palestina é a Brassica nigra, ou mostarda negra. Cresce espontaneamente elevando-se à altura de um homem a cavalo, segundo dizem os viajantes e, segundo outros, de 3 a 5 metros. Também a cultivam nas hortas, por causa das sementes empregadas como condimento ou tempero. Semente de mostarda era frase que os judeus empregavam proverbialmente, como Jesus o fez, (Mt 17.20; Lc 17.6 – fé) para representar coisa muito pequena.

Qual a menor de todas as sementes?

A menor semente conhecida é a semente da Orquídea. Especificamente, as sementes de algumas orquídeas tropicais são extremamente pequenas, quase como partículas de poeira. Elas podem medir apenas 0,2 milímetros de comprimento e são tão leves que podem ser facilmente carregadas pelo vento. Entretanto, a menor semente que se torna uma árvore é, de fato, o grão de mostarda. Suas pequenas sementes podem medir cerca de 1 a 2 milímetros de diâmetro. É uma transformação impressionante, especialmente considerando o tamanho inicial da semente.

Qual a maior das hortaliças?

A mostarda é considerada uma hortaliça. Especificamente, as plantas de mostarda pertencem ao gênero Brassica (como a Brassica nigra, a mostarda-preta) e são cultivadas tanto por suas folhas comestíveis quanto pelas sementes, que são usadas para fazer condimentos, como a mostarda amarela.

De qualquer forma, as expressões “menor das sementes” e “maior das hortaliças”, se não indicassem uma verdade absoluta, poderiam ser vistas como uma forma de hipérbole (figura de linguagem onde se faz um exagero proposital).

O que está evidente nesta parábola?

A grandeza da planta produzida por semente assim tão pequena, serve para ilustrar o aumento espetacular do reino de Deus, e a sua origem tão humilde, insignificante, segundo os padrões do mundo, sem contar com qualquer  autoridade religiosa ou política e com poucos discípulos verdadeiros.

O que não está evidente nesta parábola?

Há quem interprete equivocadamente que a Igreja crescerá até ser um vasto poder mundial, até abranger toda a humanidade. Essa interpretação contradiz tanto as lições das duas parábolas (mostarda e fermento) como outras Escrituras. A Palavra de Deus não prediz tal êxito para a verdadeira Igreja durante a presente época. Os últimos dias serão os piores, conforme Lucas 18.8; 2Timóteo 3.1.

Outros interpretam que a igreja experimentará um crescimento falso e espúrio, tornando-se um poderio mundial – como se vê no desenvolvimento da Igreja Romana. As “aves”, as quais na primeira parábola (Semeador) representam os emissários de Satanás, então se refugiarão nos ramos da ilegítima igreja. Mas a parábola não dá a entender que o crescimento do grão de mostarda, até se tornar uma árvore, é anormal nem que representa crescimento desagradável a Deus. Não há certeza de que as “aves” na parábola do semeador significam o mesmo que na parábola do grão de mostarda. De fato, houve um crescimento anormal e falso na história da igreja que professa ser de Cristo; mas não há prova de Cristo querer ensinar tal coisa nessa parábola.

1.3 Sua falsa proteção?

32b e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos. (Mt 13)
32b e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra. (Mc 4)
19b-c e cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos. (Lc 13)

Na hermenêutica bíblica as árvores são símbolo de reinos ou seus governantes. Este entendimento era muito comum entre os judeus, como se vê em diversos textos bíblicos (Dn 4.10-12, 20-22; Ez 31.3-9). Israel era a videira trazida do Egito (Sl 80.8-10; Is 5.2-7) e Jesus se apresentou como a videira verdadeira (Jo 15.1-2). Então, nesta mesma linha, Jesus procurou ilustrar o crescimento do seu reino ao espetacular crescimento que ocorre a partir do grão de mostarda até se tornar um arbusto. A comparação faz sentido. Reinos prósperos e seus governantes são como árvores que reúnem e sustentam pessoas e animais: “A sua folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e todos os seres viventes se mantinham dela.” (Dn 4.12; ver tb Ez 31.3-6).

Observa-se nestas comparações e na fala de Jesus a figura das aves do céu, aninhadas nos galhos dessas “árvores”. No caso de Daniel 4.12, seria uma proteção ou segurança falsas, porquanto logo a árvore seria cortada e destruída, símbolo do reinado de Nabucodonosor (Dn 4.19-27). Na parábola do semeador Jesus explicou que as aves representam as forças do mal. Quando alguém ouve a mensagem do reino, mas não a compreende, o maligno vem e arrebata o que foi semeado em seu coração, assim como as aves comem as sementes que caem pelo caminho. Essas aves simbolizam as distrações, tentações e influências negativas que podem nos afastar da verdade e da fé (Mt 13.4, 19). Nesta parábola do grão de mostarda não há motivos para ver nessas aves algo negativo. Provavelmente elas foram mencionadas para comunicar  a ideia de que aquela hortaliça cresce tanto que se torna uma árvore capaz de acomodar ninhos de aves, para comunicar a ideia de que este reino de Deus será grandioso.

Portanto, ainda que nesta parábola as aves não simbolizem uma falsa busca de proteção e segurança, sabemos que ao longo dos anos muitos falsos seguidores de Cristo têm procurado e ainda procurarão se abrigar ou aninhar neste reino, na igreja. Outra parábola, a do joio e do trigo, ilustra isso.

Conclusão

A igreja começou no Pentecostes com um grupo relativamente pequeno de discípulos de Jesus – cerca de 120 pessoas (At 1.13-15; At 2.1-4). Com o derramamento do Espírito Santo a igreja vai para as ruas e, após a pregação de Pentecostes há um acréscimo, num só dia, de quase três mil pessoas (At 2.41). Mesmo sob ameaças e perseguições a igreja continua crescendo: “Muitos, porém, dos que ouviram a palavra a aceitaram, subindo o número de homens a quase cinco mil.” (At 4.4). Antes que a grande perseguição dispersasse a igreja, para que o Evangelho chegasse a outras regiões (At 8), a igreja de Jerusalém já contava com uma multidão de convertidos (At 4.32). Em Apocalipse 7.9-10 é revelada a multidão de remidos, que ninguém podia enumerar, diante do trono.

Por fim, fica aqui a pergunta: Qual tem sido o meu e o seu papel nesse crescimento do reino?

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ENSINOS DO REINO (Ed. Didaquê).
4. Boyer, Orlando – MATEUS, O Evangelho do Rei.
5. Davis, John D. – Dicionário da Bíblia (JUERP).
6. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia  (Ed. Hagnos).
7. Internet / ChatGPT.

A parábola do trigo e do joio

Trigo e Joio

I) A parábola do trigo e do joio (Mt 13.24-30)

Esta parábola de Jesus foi mencionada apenas por Mateus. Pode ser considerada uma parábola essencialmente profética, alcançando até o juízo final.

24  Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo;
25  mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se.

O dono semeou apenas a boa semente. Entretanto o inimigo veio e semeou o joio. Na botânica o joio é chamado de “LOLIUM TEMULENTUM”, uma espécie de imitação do trigo, cuja diferença somente é notada no final do seu desenvolvimento. Daí ser perigoso tentar separá-la ou removê-lo antes da ceifa.

26  E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio.

O símbolo é bem apropriado porque a diferença somente é notada no estágio de desenvolvimento da espiga (fruto). O fruto do joio é inútil, inapropriado para a alimentação e nocivo ao homem, pois são grãos venenosos.

27  Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?
28a  Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso….

Somente quando começou a espigar é que os servos notaram o problema e foram reportar ao proprietário do campo. O proprietário não teve dificuldade para perceber que aquilo era obra do inimigo.

28b  …. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio?
29  Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo.

Vale ressaltar que o joio costuma prejudicar o solo, provocando problema por vários anos. Diante daquela situação, os servos se ofereceram para remover o joio. Entretanto, o dono estava seguro do melhor a ser feito naquele momento, que era esperar. Ele tinha a convicção de que o zelo resultante da impaciência pode ser um desastre. A prudência e a oportunidade são boas conselheiras da sabedoria. Ainda que fosse possível distinguir uma planta da outra, pelo aspecto exterior, as raízes podiam estar entrelaçadas e a remoção do joio danificar o trigo. Também havia o risco da remoção acidental da planta errada.

30  Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.

O proprietário estava certo da vitória final sobre o inimigo. Aqui o joio é colhido primeiro. Na escatologia bíblica é o salvo que é colhido primeiro. Isso reforça o fato de que os detalhes de uma parábola não devem ser levados em conta, mas sim a sua mensagem ou verdade central.

II) A explicação da parábola do trigo e do joio (Mt 13.36-43)

36  Então, despedindo as multidões, foi Jesus para casa. E, chegando-se a ele os seus discípulos, disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo.
37  E ele respondeu: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem;

Mais uma vez o foco é posto sobre a pessoa de Jesus. O semeador é o Filho do Homem – Jesus. Ele é o primeiro a semear a palavra do reino. Ele inicia a semeadura e, depois, convoca a todos: “Ide…”

38  o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno;

“O campo é o mundo”. Que mundo é esse? Apesar dessa afirmação ser relativamente clara e objetiva, tem dado motivo para várias interpretações. Não cabe aqui o conceito mais amplo de mundo, o mundo físico que inclui todos os povos, de todos os tempos. Mas, muito provavelmente, o mundo que recebeu a mensagem e influência de Jesus e que se diz seguidor dele, que se convencionou chamar de cristandade. Certamente, os não religiosos ou seguidores de outras seitas e religiões, não se enquadram aqui. “A parábola fala de ´joio` e ´trigo`. O ´joio` é imitação do ´trigo`. Essa ideia requer interpretação, porquanto o ´joio` não é somente qualquer pessoa irreligiosa ou incrédula, mas aqueles que fingem ser parte do ´reino`, postando-se entre os cristãos…Contudo, a experiência humana da igreja demonstra que, de fato, existem ´joios` em qualquer denominação ou igreja.”

“A boa semente são os filhos do reino”. O símbolo da semente, nesta parábola, tem uma pequena variação em relação à parábola da semente e os solos. Lá, a semente era a “palavra do reino” (Mt 13.19) ou a “palavra de Deus” (Lc 8.11), a mensagem do evangelho ou as boas novas de salvação. Porém, aqui, a “boa semente” é representada pelo resultado da operação da palavra, isto é, “os filhos do reino”, a boa terra, que recebe a semente, germina, cresce e produz frutos. “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas.”(Tg 1.18)

“O joio são os filhos do maligno”. O joio não são os incrédulos; mas os religiosos, os falsos cristãos, os imitadores dos verdadeiros cristãos, os lobos travestidos de ovelhas, os falsos discípulos do reino. Assim como a Palavra de Deus produz verdadeiros cristãos, os filhos do reino; a palavra do maligno e sua influência, produzem não só os declaradamente ímpios, mas também os “falsos discípulos”, que produzem escândalos e praticam a iniquidade. Ambos têm por pai o diabo, que é o maligno.

39a  o inimigo que o semeou é o diabo; ….

O inimigo que semeia o joio é o adversário, o maligno, Satanás, o diabo. Obviamente que ele não dorme, nem descansa e não cessa de fazer o mal. O Diabo, aqui e nas Escrituras, é um ser pessoal e não um mero símbolo de maldade. Ele trabalha ocultamente, na permissão de Deus.

Na sua explicação, Jesus não fez referência a dois detalhes. Assim sendo, qualquer tentativa de interpretação pode ser considerada mera especulação. É provável que esses detalhes só tenham sido mencionados para formar uma história interessante e completa.

(i) O momento dessa semeadura: “enquanto os homens dormiam”. Dentre os que se adiantam a expressar a sua própria explicação, há aqueles que dizem haver aqui uma referência a atitude de descuido dos líderes da igreja, a falta de disciplina, o espírito mundano, a fraqueza moral, a negligência etc.

(ii) Os servos. Da mesma forma, alguns os identificam como os líderes da igreja, ou aqueles cristãos que deveriam estar atentos aos ataques do inimigo contra a igreja.

39  ….; a ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são os anjos.

“A ceifa é a consumação do século.” Alguns contavam que isso aconteceria na primeira vinda de Cristo. Entretanto, o Novo Testamento desloca esse momento para a segunda vinda de Cristo. Todo desenrolar da mensagem bíblica aponta para um julgamento final, um dia de prestação de contas. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo,..” (Hb 9.27)(comp. Mt 24.3; 28.20; Ap 20.11-15). Primeiramente se dará a colheita dos remidos (trigo)(Ap 14.14-16),  depois, a ceifa do joio e dos ímpios (Ap 14.17-20) e, por fim, o milênio. “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. (Mt 13.49-50).

“Esta parábola descreve o período da história do mundo que teve início com o ministério de Cristo e que terminará com o julgamento, ou seja, que abrange a era da graça, em que a igreja estará em funcionamento. Jesus se refere a esse período como se fosse uma estação do ano própria para a semeadura e a colheita.”

“A ceifa demonstra que só há dois tipos de homens: crentes verdadeiros e imitações.”

“Os ceifeiros são os anjos”. Aos servos do dono da plantação foi negado arrancarem o joio, para que não arrancassem também o trigo. Há um tempo determinado para essa colheita e os anjos serão os ceifeiros (Dn 7.9,10; 12.1,2; Ap 14.14-20).

Deve ser rejeitada a ideia de alguns, que, baseados nesta parábola, dizem que a igreja local não tem base bíblica para aplicar uma disciplina de exclusão. Isto é um equívoco, pois no âmbito local a igreja deve fazê-lo, conforme o ensinamento bíblico.

40  Pois, assim como o joio é colhido e lançado ao fogo, assim será na consumação do século.
41  Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade
42  e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes.
43  Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

A separação entre o verdadeiro e o falso será completa e perfeita. As características do joio são: “os que servem de tropeço e os que praticam a iniquidade”.

O destino final de justos e de ímpios já está determinado – o fogo eterno.

Conclusões:

a) A parábola não ensina que, no tempo presente, não dá para identificar a presença do joio. O joio foi visto e até causou perplexidade.

b) A parábola ensina que no tempo presente não se deve proceder à destruição do “joio” ou imitador do verdadeiro cristão.

c) Quem é trigo, sabe que é trigo? Com certeza sabe, pois: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. (Rm 8.16)

d) Quem é joio, sabe que é joio? Claro que sim! Sabe que não é de Cristo. Sabe que é pedra de tropeço na vida de muitos. Sabe que está praticando a iniquidade e que lhe é conveniente continuar assim. Sabe que é mero imitador e se esforça para parecer com o verdadeiro cristão e para não ser descoberto.

e) Pode o joio virar trigo? Tudo leva a crer que não! Humanamente falando, pela sua natureza, certamente que não. Da mesma forma que o trigo, simbolizando aqui o salvo, não perde a salvação, isto é, não pode virar joio; o joio, simbolizando aqui o perdido, não pode virar trigo.

f) A mensagem central da parábola é que os filhos de Deus e os filhos do maligno hão de conviver até o dia da ceifa, na consumação do século. “Ele, porém, respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada.” (Mt 15.13)