A Soberania de Deus

Texto base: Provérbios 16.1, 9, 21, 33; 19.21

Introdução          

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!
Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?
Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?
Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36)

Será sempre um enorme desafio para qualquer ser humano tentar entender ou desvendar o mistério da “Soberania de Deus” versus a “Responsabilidade do homem”. O que nos resta é, com muita humildade, pincelar algumas considerações sobre o assunto. Esses dois assuntos são como duas linhas paralelas que só se encontram no infinito.

Sabemos que o livro de Provérbios é permeado por inúmeros ensinos, instruções e conselhos para um viver piedoso, bem-sucedido e que agrada a Deus. Trata-se de uma coleção de frases curtas, porém amplas no significado e verdadeiramente úteis para o viver diário. Neste estudo, abordaremos alguns aspectos mais profundos, que vão além da vontade humana e que, de alguma forma a afeta e determina os acontecimentos – a Soberania de Deus.

Iremos encontrar por aí casos extremos em relação a soberania de Deus. Tem aqueles que duvidam ou ignoram a intervenção divina na realidade humana; ou não creem na existência de Deus ou, como na visão deísta, creem que ele deu o pontapé inicial na criação e deixou a humanidade entregue à sua própria sorte, seguindo seu curso natural, sem fazer qualquer intervenção. No outro extremo há aqueles que defendem a tese de que tudo o que acontece já está determinado por Deus e não há o que fazer. Pensam que o sentido da oração não é para mudarmos qualquer situação, mas para nos conformarmos à vontade de Deus. Nessa mesma linha, dizem que, a igreja, evangelizando ou não, os predestinados serão salvos e os demais não.

Será que Deus impediria o ser humano  de desenvolver suas capacidades e potencialidades (pensar, planejar e tomar decisões)? Será que tudo o que o ser humano realiza é por influência divina? “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2.13). Até onde vai a ação divina e qual a real participação do homem na história? Neste estudo procuraremos abordar alguns aspectos sobre essas e outras questões.

1. O ALCANCE DA SOBERANIA DE DEUS

Aqueles que respaldam sua fé e convicções nas Sagradas Escrituras – a Bíblia – entendem perfeitamente e creem que Deus está no governo e controle de todas as coisas.

Há pelo menos quatro aspectos relacionados à soberania de Deus que podemos refletir: legitimidade, governo, controle e vontade.

a) Sendo Deus o Criador de tudo o que há, nos céus e na terra, fica evidente a legitimidade  da sua soberania sobre tudo e sobre todos (Gn 1.1, 26-27; Êx 20.11; 1Sm 2.8; Sl 8.3; 33.6; 146.6; Is 40.12; Jr 51.15; At 14.15; Ef 3.9).

– O universo foi formado pelo poder da sua palavra (Hb 11.3), por causa da sua vontade (Ap 4.11).

– Ao Senhor pertence a terra e tudo quanto há nela (Sl 24.1; Mt 11.25; At 17.24).

– Deus, não apenas é o Criador, como aquele que preserva a vida e sustenta a sua criação: “Só tu és SENHOR, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora.” (Ne 9.6)

b) Deus governa sobre tudo e sobre todos, hoje e eternamente (Êx 15.18; Dt 4.39; Js 2.11; 1Cr 29.11; Sl 96.10; Dn 6.26; 1Tm 6.15; Ap 19.6).

“Reina o SENHOR. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o SENHOR e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila. Desde a antiguidade, está firme o teu trono; tu és desde a eternidade.” (Sl 93.1)

A Pergunta 11 do Breve Catecismo de Westminster  – “Quais são as obras da providência de Deus?” – tem a seguinte resposta: “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas.”

c) Nada escapa ao controle de Deus (Jó 38.1–42.6)

“Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados.” (Mt 10.29-30)

O controle divino é real e efetivo ainda que o ser humano não consiga percebê-lo ou compreendê-lo em face da sua limitação. Na sua onisciência, onipresença e onipotência nada escapa ao seu controle e determinação de promover a harmonia e  equilíbrio da sua criação.

d) A vontade de Deus é soberana sobre tudo e sobre todos (Jo 6.40; Rm 12.2; Ef 1.11).

“No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada.” (Sl 115.3)

No capítulo III item I da Confissão de Fé de Westminster encontramos a seguinte declaração: “I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.”

Não há dúvida da prevalência da vontade soberana de Deus e devemos ressaltar que não há limites no seu agir. Então, como fica a vontade do homem? É o que abordaremos no tópico seguinte.

2. A RESPONSABILIDADE DO HOMEM

Vejamos o que o sábio tem a nos dizer sobre o assunto objeto deste estudo:

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR.” (Pv 16.1)
“O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos.” (Pv 16.9)
“A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão.” (Pv 16.33)
“Muitos propósitos há no coração do homem, mas o desígnio do SENHOR permanecerá.” (Pv 19.21)

A ação, o planejamento e a vontade humanas não são anulados, descartados ou dispensados em face da soberania de Deus. Somos seres morais, racionais, pensantes, criados à semelhança de Deus, diferentemente dos animais. Fomos criados por Deus para planejar, estabelecer objetivos e metas, tomar decisões, avaliar resultados e corrigir o rumo.

Ao criar a raça humana, Deus estabeleceu algumas condições de relacionamento entre criador e criatura. A isso a Bíblia e a teologia denominam de aliança. Segundo alguns teólogos Deus fez uma aliança inicial com a criatura e estabeleceu pelo menos três diferentes mandatos para a humanidade: o mandato espiritual (que diz respeito ao seu relacionamento com o Criador), o mandato social (que diz respeito ao seu relacionamento em família) e o mandato cultural (que diz respeito ao seu relacionamento com a sociedade). Pode-se dizer que quebramos os três! O homem rebelou-se contra o seu Criador, desobedecendo suas ordens; quebrou os seus elos familiares com mentiras, acusações e esquivando-se de suas responsabilidades; e, falhou no mandato cultural, estabelecendo um legado de violência e destruição.

Apesar do fracasso humano, este não está dispensado do cumprimento dos mandatos do Criador. Jesus fala da necessidade de planejamento quando se refere à construção da torre (Lc 14.28-30). Entretanto, não podemos ser arrogantes e tão autoconfiantes ao ponto de descartarmos a imprescindível dependência de Deus nos nossos planos e projetos, conforme adverte Tiago: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.” (Tg 4.13-14).

Nosso grande desafio será sempre sincronizar a vontade humana com vontade de Deus que é sempre boa, agradável e perfeita (Rm 12.2). O próprio Senhor Jesus nos dá o exemplo: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou.” (Jo 6.38). E, o apóstolo Paulo admoesta: “Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor.” (Ef 5.17)

3. A VONTADE DE DEUS E A VONTADE DO HOMEM

Somos limitados demais, diante da magnitude de Deus, para compreender sua mente, seus planos e até onde vai a liberdade humana de exercer sua vontade. Neste tópico consideraremos refletir sobre o assunto, mencionando algumas considerações, emitida numa palestra, por um renomado pastor com grande conhecimento bíblico e teológico, que prefiro não identifica-lo. O assunto é muito complexo e o máximo que podemos fazer aqui é discuti-lo sem a pretensão de compreendê-lo totalmente.

“Deus só pode prever aquilo que ele determinou.” Será?

A questão aqui supostamente defendida é que se o homem pudesse exercer livremente a sua vontade, o futuro estaria em aberto e Deus não poderia prevê-lo. Isso não faz sentido pois Deus, na sua presciência, conhece o futuro desde antes da fundação do mundo – “e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.” (Ap 13.8). Naturalmente, é de se esperar que Deus conduza a história, interferindo o quanto julgar necessário. Deus trocou o nome de Abrão, para Abraão, pai de numerosas nações (Gn 17.5), antes mesmo dele ter um filho. Quando Deus mandou Samuel ungir Davi como Rei (1Sm 16), Saul ainda estava no poder e Davi era um simples pastor de ovelhas na casa de seu pai. Davi teve que percorrer sua via-crúcis até assumir o trono de Israel.  Deus disse a Jeremias: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações.” (Jr 1.5). No capítulo III item II da Confissão de Fé de Westminster encontramos a seguinte declaração: “II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.” (Ver 1Sm 23.11-12)

Será que tem áreas que Deus predeterminou e outras que ele deixou o ser humano tomar suas próprias decisões? A essa questão o referido pastor respondeu assim: “Dá a impressão de que se eu for ao supermercado e tiver ali uma gravata azul e outra vermelha e eu escolher a azul, Deus nada tem a ver com isso. É o tipo da coisa que Deus diz a você: – Fulano, fique à vontade, você pode escolher a gravata que quiser. Você responde: – Senhor, gosto mais da azul. – Claro, pode pegar a azul. Então eu pego a azul e Deus dá uma risadinha e diz: – É exatamente essa que eu queria que você pegasse!” Será? Não creio que tudo o que fazemos é influenciado por Deus, se é que eu entendi corretamente a ilustração! Para mim, a resposta divina seria: É exatamente essa que eu sabia que você iria pegar! Deus é Senhor absoluto de tudo e sobre tudo o que acontece. Não creio que a vontade decretiva e a vontade permissiva de Deus sejam apenas uma questão de semântica.

“Eu me sinto livre para fazer escolhas e Deus pisca o olho lá dos céus. Deus é soberano, mas você é responsável pelas escolhas que você faz. Deus faz a vontade dele e, no final, você vai olhar para trás e dizer: – Todas as escolhas que fiz foi porque eu quis. Como é que combina isso é um grande mistério da teologia.”  Como assim? Isso não faz sentido! Para esse pastor há vários antinômios[1] na Bíblia, sendo um deles a soberania de Deus e a responsabilidade do homem.

Se Deus é soberano o homem é uma máquina? “O ser humano não é um robô; ele continua com a capacidade de fazer escolhas, ainda que com inclinação para o mal. Se Deus não vir ao seu coração e regenerá-lo, nenhum ser humano faria escolhas certas. Não é que Deus faz as escolhas por ele, mas é que agora ele pode fazer as escolhas certas.” É muito complicado entender essa linha de raciocínio.

Aí fizeram a seguinte pergunta: Como é que pessoas não crentes fazem escolhas certas? Ele respondeu:

“Eu sou um ser moral porque faço escolhas morais, diferentemente dos animais. Os animais não têm uma natureza moral, agem por instinto. Não tomam decisões baseadas em valores morais, no certo e errado, no bom e ruim. Como ser moral, eu faço escolhas baseadas no conceito de certo e errado. Adão e Eva foram criados assim – seres morais – livres agentes. A queda não tirou deles a capacidade de tomar decisões e fazer escolhas morais. O problema é que antes eles podiam fazer escolhas certas, por eles mesmos (livre arbítrio); depois da queda, não podemos mais fazer escolhas certas por nós mesmos. Se Deus não vier me ajudar eu nunca farei escolhas certas.”

Acrescenta ele: “Porque Deus é Deus de toda a criação. No seu amor pela humanidade ele restringe o mal. É preciso entender o que é graça comum e o que é graça especial. Graça comum é a graça que Deus dá aos não eleitos. É por isso que pessoas tomam decisões certas, restringindo o mal. Graça especial é a graça relacionada com a soteriologia (doutrina da salvação) que Deus só dá para os eleitos. É a graça salvadora. Os cristãos têm as duas.”

Do que foi dito acima fica difícil de entender aonde ele quer chegar. Afinal, até que ponto o ser humano faz ou não escolhas por sua própria vontade? Particularmente eu entendo que faz e responderá por elas: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6.7). Se os salvos, regenerados e habitados pelo Espírito Santo se submeterem ao senhorio de Cristo acertarão mais do que errarão, porém não estão isentos de errar. Não é por isso que Deus deixará de ser soberano sobre tudo e sobre todos! 

Conclusão

Enfim, nós fazemos planos, mas Deus é quem dá a última palavra, isto é, permitindo ou não que eles se concretizem, ou interferindo para redirecionar as coisas segundo o seu propósito. Ainda que não entendamos as coisas quando elas acontecem, mais tarde as entenderemos. É preciso confiar e obedecer. Fazer tudo o que estiver ao nosso alcance e confiar que Deus fará segundo a sua vontade. Jesus ressuscitou a Lázaro, mas foi necessário que as pessoas tirassem a pedra da entrada do túmulo. Davi teve que lançar a pedra para derrotar Golias. Precisamos fazer a nossa parte. Que seja feita a vontade do Pai Celeste, assim na terra, como no céu!

“Confia no SENHOR e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade.  Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará.” (Sl 37.3-5)

Que Deus nos ajude!

Bibliografia:
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Didaquê – Vida Abundante – VIVENDO E Aprendendo.
4. A Confissão de Fé de Westminster – Editora Cultura Cristã – 2011.
5. O Breve Catecismo de Fé de Westminster – Editora Cultura Cristã – 2005.
6. Internet.


[1] Antinômio: Duas verdades ensinadas na Bíblia que são aparentemente contraditórias e você não consegue uma explicação para elas.

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

4 comentários em “A Soberania de Deus”

  1. Gosto muito do seu trabalho.
    Muito esmero e dedicação.
    O Senhor continue abençoando sua vida para levar sempre essas mensagens para conhecimento e crescimento espiritual de muitos.

  2. Congratulo-me com o dileto amigo, sempre compartilhando instrução bíblica para edificação, fruto de seu estudo acurado !

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