O que tens na mão?

Êxodo 4.1-5

Introdução

Depois de mais de quatrocentos anos no Egito (Gn 15.13; Êx 12.40-41; At 7.6), o povo de Israel estava sendo duramente escravizado por Faraó e submetido a trabalhos forçados. Clamando continuamente ao Senhor, este o atendeu (Êx 3.7-9). Moisés foi o libertador escolhido por Deus e preservado do infanticídio masculino decretado por Faraó. Providencialmente poupado e direcionado por Deus, Moisés chega ao palácio egípcio, é criado pela filha de Faraó, passando ali os primeiros 40 anos de sua vida. Resolvendo agir por conta própria, para defender e aliviar o sofrimento dos seus irmãos hebreus, matou um egípcio e o escondeu, porém tal fato chegou ao conhecimento de Faraó que procurou matá-lo. Então, Moisés decidiu fugir, encontrando refúgio e acolhida na terra de Midiã, na casa do sacerdote Jetro. Ali viveu mais 40 anos e, com 80 anos, recebeu o chamado de Deus, quando pastoreava o rebanho do seu sogro Jetro, no monte Horebe, chamado o “monte de Deus”, e o Anjo do Senhor lhe apareceu numa sarça que ardia, mas não se consumia, um fenômeno misterioso (Êx 3.1-2).

Nem todos os chamados por Deus reagiram como Abraão que obedeceu imediatamente (Gn 12.1-4). Alguns hesitaram ou questionaram, se sentiram inseguros e duvidaram da sua capacidade, tais como: Gideão (Jz 6.11-15 – “Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai.”), Jeremias (Jr 1.6-8 – “não sei falar, porque não passo de uma criança.”), Jonas (Jn 1.1-3, que fugiu para Társis). Entretanto, o chamado de Moisés é sem dúvida distinto, pela quantidade de objeções que expressou e respectivas respostas de Deus, no total de 5 (cinco), registradas em 29 versículos (Êx 3.11 a 4.17).

As cinco objeções de Moisés ao chamado divino podem ser assim sintetizadas:

  1. “Quem sou eu?” (Êx 3.11)
    – Baixa autoestima e senso de inadequação diante daquele tremendo desafio de enfrentar o império da época – sentimento de insuficiência pessoal para a tarefa. “O Moisés confiante e impulsivo aprendera a humildade; agora tinha de aprender a ter fé”.
  2. “Qual é o teu nome?” ou seja, “Quem me enviou? Que autoridade tem?”
    – Busca por segurança e respaldo de autoridade, a partir do conhecimento ou confirmação da identidade de Deus.
  3. “Eles não crerão em mim.”
    – Medo da rejeição e descrédito, preocupação com a não aceitação pelo seu próprio povo que poderia vê-lo com desconfiança.
  4. “Eu não sei falar bem.”
    – Insegurança e dúvida quanto a sua habilidade de comunicação e eloquência, necessárias na execução da missão.
  5. “Envia outro.”
    – Resistência e tentativa de escapar do chamado para se manter na sua zona de conforto e evitar responsabilidades desafiadoras. E Deus, já irado, respondeu, em outras palavras – Não! É você mesmo o meu escolhido!

Cada objeção de Moisés expressa um bloqueio interior – baixa autoestima, receio de fracassar e de se expor etc. – que Deus, ao responder cada objeção, cura, incentiva e fortalece. Assim, esse diálogo de Moisés com Deus nos ensina que, por trás de todo “não sou capaz”, há a oportunidade de experienciar a graça, autoridade e capacitação do próprio Deus. Deus o havia preparado cuidadosamente, primeiramente, em toda a cultura da civilização egípcia, depois, nas peculiaridades da vida no deserto, por onde haveria de conduzir o povo liberto, agora, no auge da sua maturidade de vida. Sabemos que isso era importante, porém, o êxito da missão se deve à intervenção sobrenatural de Deus.

É na terceira objeção de Moisés, principalmente na correspondente resposta de Deus que fixaremos a nossa atenção, neste estudo – “Que é isso que tens na mão?”.

1. Significado simbólico das mãos

“1 Respondeu Moisés: Mas eis que não crerão, nem acudirão à minha voz, pois dirão: O SENHOR não te apareceu.
2 Perguntou-lhe o SENHOR: Que é isso que tens na mão? Respondeu-lhe: Um bordão.” (Êx 4)

1.1 As mãos humanas

Na hermenêutica bíblica as mãos, de um modo geral, simbolizam: ação, atividade ou trabalho; poder; ajuda; e, comunhão.  Por exemplo:

🖐 Mão direita: símbolo de honra e distinção (Êx 15.6; 1Rs 2.19; Mt 25.33).
🖐 Mãos abertas: liberalidade.
🖐 Mãos fechadas: mesquinhez.
🖐 Mãos limpas ou santas: pureza moral, integridade, retidão de vida e proceder justo (Sl 24.4).
🖐 Obra das mãos: resultado do trabalho (Sl 90.17).
🖐 Imposição de mãos: bênção, consagração e transferência. Reis, profetas e líderes recebiam autoridade “pela imposição das mãos” (Nm 27.18-23). 
🖐 Etc.

1.2 As mãos de Deus

Referindo-se à mão de Deus, destacamos os seguintes símbolos:

a) Poder e autoridade

“A mão do Senhor” representa poder soberano, direção e intervenção divina.
“Veio sobre mim a mão do Senhor …” (Ez 37.1)

b) Proteção e cuidado

Deus é descrito como aquele que guarda com sua mão:
“O SENHOR firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o SENHOR o segura pela mão.” (Sl 37.23-24)

c) Juízo

A mão de Deus pode representar disciplina, correção ou juízo:
“Porque havia terror de morte em toda a cidade, e a mão de Deus castigara duramente ali.” (1Sm 5.11b)
“Pois, agora, eis aí está sobre ti a mão do Senhor,…” (At 13.11, sobre Elias, o mágico)

2. O significado do bordão

“2 Perguntou-lhe o SENHOR: Que é isso que tens na mão? Respondeu-lhe: Um bordão.
3  Então, lhe disse: Lança-o na terra. Ele o lançou na terra, e o bordão virou uma serpente. E Moisés fugia dela.
4  Disse o SENHOR a Moisés: Estende a mão e pega-lhe pela cauda (estendeu ele a mão, pegou-lhe pela cauda, e ela se tornou em bordão);
5  para que creiam que te apareceu o SENHOR, Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.” (Êx 4)

2.1 O uso dos termos

A resposta de Moisés a Deus sobre o que tinha na mão foi “um bordão”, מַטָה (matteh).

Os exegetas bíblicos, analisando os originais, nos dão conta de algumas palavras no hebraico e uma no grego, envolvidas neste assunto, por exemplo:

a) No hebraico do Antigo Testamento:

מַטָה (matteh), cajado, bordão (Êx 4.2, 4), vara (1Sm 14.27), cetro (Ez 19.11; Is 14.5), tribo (Mq 6.9; Êx 31.2).

שֵׁבֶט (sebet ou shebel), vara (Pv 10.13; 29.15), cajado (Ez 20.37), bordão (Êx 21.20; Lv 27.32), bastão, cetro (Nm 24.17), tribo (Gn 49.16).

מַקְל (maqqel), bordão, bastão (Ez 39.9), vara (Jr 1.11; Os 4.12), cajado (Gn 32.10; Êx 12.11; 1Sm 17.40).

b) No grego do Novo Testamento:

ράβδων (rabdon), bordão (Mt 10.10; Hb 11.21), vara (1Co 4.21), cetro (Hb 1.8), cetro de ferro (Ap 2.27).

Alguns textos bíblicos dão a entender que o pastor de rebanho utilizava dois instrumentos para o exercício da sua função, o bordão (ou vara) e o cajado: “o teu bordão e o teu cajado me consolam.” (Sl 23.4). Outros textos, parecem indicar um só instrumento: “dizei: Como se quebrou a vara forte, o cajado formoso!” (Jr 48.17); “O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos.” (Gn 49.10).  

A vara ou bordão era um ramo de árvore ou o tronco fino de um arbusto, sendo moldado para uso individual, reto e com uma extremidade mais grossa ou com um gancho de pastor. As palavras hebraicas mais usadas são difíceis de distinguir uma da outra, pois suas raízes são praticamente iguais. A palavra shebel, a princípio significava uma “muleta”, depois um cajado de pastor, e, finalmente, um cetro.

2.2 Os significados do bordão

O bordão ou vara ou cajado, sem importar qual o original hebraico ou grego, tem os seguintes significados, no caso do chamado de Moisés:

a) Símbolo de vocação

Na Bíblia, vocação (do latim vocare, que significa chamar) é entendida como um chamado particular de Deus (para cada indivíduo), com características únicas e um propósito específico. O bordão de Moisés era um elemento simples e de uso comum naquela época. Na mão de um pastor de rebanho era usado para ele apoiar-se ao caminhar, para guiar ou defender o rebanho e para representar sua identidade como pastor. No entanto, torna-se símbolo claro do modo como Deus costuma agir. Revela-se aqui o modus operandi de Deus ao usar aquilo que a pessoa é ou tem: Ele utiliza aquilo que a pessoa já possui — ressignificando e potencializando para cumprir seus propósitos. Nas mãos de Deus, objetos simples e pessoas comuns se tornam instrumentos relevantes. Um exemplo marcante é o dos cinco pães e dois peixinhos, que, recolhidos das mãos de um simples rapaz, foram multiplicados por Jesus para alimentar uma multidão (Jo 6.9-14).

Na mão de Moisés o bordão simbolizava sua vocação e missão de libertar o seu povo da escravidão do Egito. A vocação exige uma resposta ativa da parte do indivíduo, que deve estar aberto a ouvir a voz de Deus e a seguir o seu chamado. Todos os salvos têm um chamado geral e comum: o IDE de Jesus, o de ser sal da terra e luz do mundo. Nossos dons e talentos, nossas profissões, nossas posições na família, na igreja e na sociedade, representam nossos bordões ou cajados a serviço de Deus e por amor ao próximo, quando ressignificados e potencializados pelo Espírito Santo.

Diante disso, o que temos a oferecer a Deus? 

b) Símbolo de autoridade

“Toma, pois, este bordão na mão, com o qual hás de fazer os sinais.” (Êx 4.17). A missão confiada a Moisés era, do ponto de vista humano, impossível. Por isso, tornava-se indispensável a atuação do sobrenatural. Os sinais e maravilhas não eram apenas demonstrações de poder, mas evidências da autoridade delegada por Deus. Era assim que Moisés haveria de comprovar sua autoridade, diante dos anciãos e do seu povo (Êx 4.29-31), bem como, diante de Faraó e sua corte (Êx 7.8-13).

Deus transformou o objeto comum e natural de Moisés em um instrumento sobrenatural de autoridade. O bordão se tornou símbolo de que Deus estava com ele – não era mais apenas seu, mas de Deus. O obreiro e líder eclesiástico só tem autoridade legítima quando esta lhe é concedida por Deus, não por posição ou habilidade pessoal.

O bordão de Moisés se tornou instrumento de sinais e milagres, usado para:

🪄- Transformar-se em serpente (Êx 4.3)
🪄- Ferir o Nilo  e tornar a água em sangue (Êx 7.20)
🪄- Abrir o Mar Vermelho (Êx 14.16, 21)
🪄- Fazer sair água da rocha (Êx 17.6)

Deus pode usar o que está em nossas mãos – dons simples, talentos comuns – para realizar obras extraordinárias em seu nome.

c) Símbolo de obediência

“Moisés levava na mão o bordão de Deus.” (Êx 4.20b), com o qual ele e Arão operariam numerosos prodígios. Moisés havia recebido o inconfundível chamado de Deus e a correspondente autoridade por ele delegada, materializada no seu bordão, mas não apenas nesse instrumento. Também lhe foi dado como recursos extraordinários, o sinal da lepra (Êx 4.6-8) e o sinal da transformação de água em sangue (Êx 4.9). Além desses, Deus ainda havia reservado os poderosos sinais das dez pragas. Finalmente, depois de rejeitadas e respondidas suas cinco objeções, ele obedece ao chamado divino. Retornar ao Egito, considerando a reputação de assassino que lá deixou; depois de quarenta anos vivendo em outra terra, com família constituída e vida estabilizada; para enfrentar Faraó contando, com o apoio do seu povo, era um tremendo desafio. De fato, ele obedeceu e foi cumprir a missão, pois não há quem possa resistir ao chamado de Deus!

2.3 Outros significados do bordão/vara

a) A “vara da disciplina” (Pv 22.15) era aplicada a crianças / filhos (Pv 13.24; 23.13-14), às costas dos insensatos (Pv 10.13; 26.3), e aos escravos (Êx 21.20).

b) Orientação e o cuidado divinos, “… o teu bordão (a tua vara) e o teu cajado me consolam” (Sl 23.4).

c) Símbolo da ira e do castigo divinos (2Sm 7.14; Jó 9.34; Lm 3.1).

d) Representava o governo divino. A predição de que Jesus governará todas as nações com “cetro de ferro” foi predito em Salmos 2.9 e ratificado em Apocalipse 12.5 e 19.15.

e) A vara também era usada na contagem das ovelhas (Lv 27.32). Simbolicamente, o supremo Pastor (Cristo) passará em revista o seu rebanho, separando os rebeldes e dando aos seus as bênçãos da nova aliança no reino (Ez 20.37).

f) Finalmente, uma vara foi usada, nas visões de João, para medir a Nova Jerusalém (Ap 11.1 e 21.15-16).

Conclusão

Moisés passou os primeiros 40 anos de sua vida na corte egípcia aprendendo a ser alguém (At 7.22). Teve que ser arrancado do pináculo do poder real, despojado de todos os títulos e riquezas terrenas, quando, por conta própria, tentou fazer alguma coisa pelo seu povo e fracassou (At 7.23; Hb 11.24-26). Depois, passou o segundo período de 40 anos de sua vida aprendendo que não era nada e que nada poderia fazer de si mesmo. Por fim, aquele que já tinha apreendido a ter humildade, passa o terceiro e último período de 40 anos de sua vida aprendendo a ter fé e a depender de Deus; aprendendo que Deus é tudo.

Se Deus perguntasse a muitos crentes hoje: “– Que é isso que tens na mão?”, o que responderiam? A resposta mais sincera seria: “– Senhor, tu sabes que é um celular. É incrível o que esse aparelhinho faz. Não consigo mais ficar longe dele e, é verdade que já estou preocupado(a) com o tempo que estou desperdiçando com ele.

Pois é, há muitas coisas ocupando nossas mãos, olhos, mentes e vidas que em nada contribuem para um fim mais útil e proveitoso. De fato, Deus quer ressignificar e potencializar a sua vida, seus dons e talentos, para realizações com desmembramentos eternos. “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios,   remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor.” (Ef 5.15-17).

O que tem impedido você de um maior e mais produtivo compromisso com a obra de Deus? Como você tem respondido ao chamado de Deus? Acredite, Deus pode aperfeiçoar e maximizar o modesto recurso que você tenha a lhe oferecer! O Deus de Moisés e de Elias é o mesmo hoje, capaz de prover os meios e recursos necessários para que façamos a sua obra (Tg 5.17-18).

– Que é isso que tens na mão?

Bens materiais? Dons e talentos? Oportunidades? Faça bom uso disso, principalmente para a honra e glória de Deus!

Que Deus nos ajude!

Bibliografia

  1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
  2. Bíblia Online (SBB).
  3. Willem A. VanGemeren, Ph. D. – Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento (Ed. Cultura Cristã – 2011).
  4. R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 2001).
  5. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia (Ed. Hagnos).
  6. Sobrinho, Antonieto Grangeiro – Hermenêutica Bíblica.
  7. Internet / ChatGPT / IA.