A cruz e o trigo

“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12.24)

Introdução

O contexto desta declaração de Jesus (Jo 12.24) é a sua última semana que culminou com a crucificação. Após sua entrada triunfal em Jerusalém no domingo, vem a segunda-feira. Alguns gregos, isto é, gentios prosélitos que tinham ido a Jerusalém para a festa da Páscoa desejavam vê-lo (Jo 12.20-21), o que contrastava com os líderes religiosos dos judeus que procuravam matá-lo. Uma verdadeira cadeia de comunicação se estabelece: Os gregos rogam a Filipe uma desejada “audiência” com Jesus, ele repassa para André, e, enfim, ambos comunicam a Jesus. Jesus percebe que sua hora de ser glorificado (ou seja, de sofrer, morrer e ressuscitar) estava chegando. E, então, se pronuncia de forma misteriosa, usando essa metáfora do grão de trigo para referir-se aos desdobramentos da sua morte.

1. O significado da metáfora

Jesus compara a si mesmo a um grão de trigo. Ele usa a lógica da agricultura:

  • Um grão, não semeado, nada gera.
  • Mas se for plantado e “morrer”, ele germina e dá fruto – muito fruto.

Portanto, Jesus usa uma ilustração simples da agricultura – algo que todos podiam entender. Mas ele está falando de algo muito profundo: o poder da morte que gera vida.

2. A Aplicação a Jesus

Jesus está falando sobre sua própria morte:

  • Ele precisa morrer (como o grão que morre ao ser enterrado).
  • Para que, através disso, muitos tenham vida – ou seja, sejam salvos.
  • Sua morte na cruz não seria uma perda, mas uma semeadura que traria grande colheita espiritual.

Jesus é o grão que cai na terra e morre. Ele não foi vencido pela morte – ele se entregou voluntariamente para que a sua morte trouxesse vida a muitos. Se Jesus não tivesse morrido, não haveria salvação, não haveria fruto.

O fruto somos nós! Sua morte não foi em vão. Da cruz nasceu um povo: nós, sua igreja.

  • Cada alma salva é um fruto do sacrifício de Jesus.
  • A igreja é a plantação de Deus que brotou da morte do Salvador.

3. Lições do Trigo

“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará.” (Jo 12.25-26)

Na sequência da sua fala, Jesus se dirige aos seus discípulos e, por extensão, a todos os seus seguidores. Esta mesma ideia e conceito também se aplica a nós. Quando vivemos para nós mesmos, até podemos estar “vivos”, mas nossa vida será estéril. Entretanto, quando morremos para o eu, nos tornamos frutíferos – em amor, serviço, generosidade, impacto.

Somos convidados a refletir sobre o processo de transformação que conduz à vida plena. O trigo, símbolo da semente que precisa “morrer” para dar vida a uma colheita abundante, nos ensina valiosas lições para nossa jornada espiritual.

A metáfora do trigo é uma das imagens mais interessantes do evangelho. Jesus utiliza esse exemplo para ilustrar como a morte do “velho homem” é necessária para que a renovação e o crescimento aconteçam (Rm 6.6; Ef 4.22; Cl 3.9). Em cada etapa do ciclo do trigo, encontramos um paralelo com nossa caminhada cristã, um chamado para abandonar o “velho eu” e abraçar a transformação que resulta em uma vida frutífera.

A seguir, abordaremos seis etapas desse processo:

1ª) Desaparecimento ou entrega

“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.19b-20)

A primeira etapa é o desaparecimento, representado pela semente que, ao ser plantada, deixa de ser vista, pois está coberta pela terra. Esse desaparecimento não é um fim, mas uma entrega total. Na vida do cristão, o desaparecimento do “eu” anterior – marcado pelo pecado, pelo orgulho e pelas limitações humanas – é essencial para abrir espaço para algo novo. Assim, o abandono das velhas práticas e atitudes é o ponto de partida para a renovação espiritual.

Muitos crentes vivem em solidão, não porque lhes falte companhia, mas porque recusam-se a passar pelo processo da entrega. Em vez de se doarem, se protegem. Em vez de se entregarem, se fecham. Defendem sua própria vida, e acabam presos em si mesmos. Quanto mais resistem à “morte do eu”, mais suas vidas giram em torno de si, e menos frutíferas se tornam.

2ª) Transformação ou renovação interior

“Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna;” (Rm 6.22)

Após o desaparecimento, vem a transformação. Assim que o grão de trigo cai na terra e é coberto, inicia-se um processo invisível, mas poderoso – uma transformação química e biológica que dá início a uma nova vida. De igual modo, o cristão, ao se submeter à vontade de Deus, experimenta uma profunda mudança interna. A velha natureza, endurecida e inflexível, precisa morrer para que surja uma vida transformada – mais dócil, mais sensível, mais parecida com Cristo, e mais agradável aos que convivem com ela. Essa transformação é marcada pela regeneração pelo Espírito Santo, que reconfigura nossa identidade e nos capacita a viver segundo os princípios do Reino de Deus.

3ª) Ampliação ou Multiplicação

“cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Fp 1.11)

A etapa da ampliação reflete o potencial que foi liberado com a transformação. Quando o grão de trigo morre, ele gera uma planta que cresce e se expande, produzindo muitos grãos. Para o cristão, essa ampliação se manifesta na propagação do evangelho e no impacto transformador que sua vida pode ter sobre os outros. Cada mudança pessoal se torna uma semente para influenciar e inspirar o próximo, multiplicando os frutos da fé.

4ª) Rompimento ou Quebra de Barreiras

“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça.” (Rm 6.12-13)

O rompimento é a força que quebra as barreiras do antigo estado. No ciclo do trigo, a emergência da planta representa o rompimento da casca que o aprisionava. Na vida espiritual, esse rompimento simboliza o afastamento definitivo das estruturas e hábitos que impedem a plena vivência da fé. É o momento em que o crente se liberta das amarras do passado e se lança para uma nova realidade, determinada pela graça e pelo amor de Deus.

5ª) Enraizamento ou Consolidação

“Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças.” (Cl 2.6-7)

Após romper, a planta se enraíza profundamente no solo, garantindo sua estabilidade e a absorção dos nutrientes necessários para o crescimento. No contexto cristão, o enraizamento representa o fortalecimento na fé e na comunhão com Deus. É o período em que o crente consolida sua identidade em Cristo, estabelecendo raízes sólidas na Palavra (Bíblia), na oração e na comunhão com a comunidade de fé, o que o prepara para enfrentar as adversidades e continuar crescendo.

6ª) Ressurreição ou Renascimento em Cristo

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus;” (Ef 2.4-6)

Finalmente, o processo culmina na ressurreição. O trigo que “morre” gera uma nova planta que floresce e produz abundância. Assim também, a entrega total de nossa vida a Deus resulta na ressurreição espiritual, na renovação que traz esperança e a promessa de vida eterna. Essa ressurreição não é apenas a promessa de um futuro glorioso, mas uma realidade presente, manifestada na transformação contínua do coração e na renovação diária que reflete a presença de Cristo em nossas vidas.

É importante lembrar que o trigo era moído até se tornar farinha fina, a qual era usada para preparar o pão sagrado no tabernáculo. Deus nos mói para nos tornar alimento espiritual para outros. Esse processo de moagem e santificação continua até que as últimas partes duras do nosso ser sejam eliminadas.

Conclusão

“Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso.” (Lv 2.1)

Flor de farinha é o nome dado à parte mais fina, pura e refinada da farinha de trigo, resultado de um processo de peneiramento cuidadoso. É semelhante ao que hoje chamamos de farinha tipo 00 ou farinha superfina, usada para pães delicados e bolos leves. No hebraico, o termo é “solet” (סֹלֶת), e aparece em vários textos sobre ofertas no templo.

“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.5-6)

A flor de farinha é uma representação da pessoa de Cristo. “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35). Ainda que não houvesse dureza nele, ele foi moído e peneirado por nossas iniquidades, ele foi levado à fornalha acesa dos sofrimentos, para a salvação de todo aquele que crê. “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Is 53.11)

“Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma.” (2Co 12.15a)

Jesus nos deu o exemplo a ser seguido. A Bíblia tem vários textos que falam sobre entrega, sacrifício pessoal, dedicação intensa – até o ponto de “se deixar gastar” pela causa de Cristo. É o tipo de vida que não se poupa, mas se derrama como oferta. O apóstolo Paulo expressa sua disposição de se doar totalmente, mesmo sem retorno.

O sacrifício vicário de Cristo e as lições do trigo nos convidam a abraçar a mudança e a transformação como partes essenciais do processo de crescimento espiritual. Ao renunciar ao antigo “eu” e permitir que a graça de Deus atue em nossas vidas, experimentamos o desaparecimento, a transformação, a ampliação, o rompimento, o enraizamento e, finalmente, a ressurreição. Essas etapas nos ensinam que, assim como o grão de trigo precisa “morrer” para dar fruto, nossa jornada de fé também requer a entrega e a renovação contínua, conduzindo-nos a uma vida abundante e repleta do amor redentor de Jesus Cristo.


A travessia da fé

Marcos 4.35-41; Mateus 8.18, 23-27; Lucas 8.22-25

Introdução

No findar de mais um dia de ensinamentos e doutrinamentos, Jesus se dirige aos que estavam com ele, num tom de comando, e diz: “- Passemos para a outra margem”. Na verdade, há nessas palavras do Mestre muito mais que a intenção de empreender uma viagem marítima. Observando atentamente os acontecimentos anteriores e posteriores, podemos perceber que Jesus intencionava conduzir os discípulos da margem teórica para a margem prática; da margem do conhecimento, das doutrinas, dos princípios, enfim, das palavras, para a margem da ação, da vivência, da experiência prática e real.

1. A MARGEM DE CÁ

“Tempo de arrependimento, confissão e aprendizado (discipulado)”

35 Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem.(Mc 4)
18 Vendo Jesus muita gente ao seu redor, ordenou que passassem para a outra margem.(Mt 8)
22 Aconteceu que, num daqueles dias, entrou ele num barco em companhia dos seus discípulos e disse-lhes: Passemos para a outra margem do lago; …(Lc 8)

Jesus estava apenas no início do seu ministério. Entretanto, já conseguia reunir em torno de si uma numerosa multidão. Desta feita, ele fez de um barco à beira-mar (mar ou lago da Galileia) o seu púlpito e ensinava muitas coisas, por parábolas, àquela congregação à sua frente, na praia (Mc 4.1-2). Quem era este que tinha tanto a ensinar e tantos para lhe ouvir?

A característica mais marcante da margem de cá está expressa pelo evangelista em Marcos 4.2, 33-34. Esta margem se refere ao mundo das palavras, que expressam ideias, formam convicções e determinam comportamentos. Emerson se expressou assim: “Semeai um pensamento e colhereis um ato; Semeai um ato e colhereis um hábito; Semeai um hábito e colhereis um caráter; Semeai um caráter e colhereis um destino”.

A missão de Jesus incluía uma ampla exposição a respeito de coisas que o ser humano precisava saber. Coisas que Deus já havia revelado parcialmente “aos pais pelos profetas”, mas que agora falava diretamente pelo Filho (Hb 1.1-2). As palavras de Jesus revelavam, basicamente: Os mistérios, os princípios do reino de Deus, que estava sendo estabelecido entre os homens; os padrões de conduta requeridos por Deus e os acontecimentos futuros que afetariam a vida de cada criatura humana. Enfim, todo o conhecimento necessário ao homem, no qual ele pudesse alicerçar a sua vida, por nele a sua fé e viver em harmonia com o resto da criação e com o Criador.

Três grupos de pessoas:

Jesus tinha diante de si uma multidão, composta por grupos que, de certa forma, ainda nos cercam hoje. Do ponto de vista intelectual e de personalidade, podemos identificar três grupos principais – enfatizando tanto os aspectos materiais quanto os espirituais:

– Personalidade Massificada:

Formado por indivíduos que absorvem ideias dispersas e experiências cotidianas, esse grupo, também denominado “massa atrasada”, é o maior em qualquer época. Assim somos alertados em Romanos 14.5b: “Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente.”

– Personalidade Induzida:

Caracterizado por pessoas influenciadas por líderes ou ideologias de determinados segmentos – sejam entidades de classe, sindicatos, partidos políticos, religiões ou seitas – esse grupo se forma a partir da adoção de princípios e crenças alheias. É preciso ter cautela, conforme Colossenses 2.4: “Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes.”

– Personalidade Lapidada:

Formado por indivíduos que constroem sua visão de mundo com base em ideias e fatos investigados, estudados e comprovados, esse grupo se destaca pelo discernimento. Em 1Tessalonicenses 5.21, somos exortados: “… julgai todas as coisas, retende o que é bom.”

Sejamos cristãos ou não, e independentemente do campo – religioso ou secular – cada um de nós pode ser enquadrado em um desses grupos. Em qual deles estamos? Ter consciência dessa realidade é fundamental para que possamos tomar decisões significativas em nossas vidas.

No universo das palavras, o Evangelho se destaca como o único capaz de salvar e aperfeiçoar o homem, conforme enfatizado em Colossenses 1.26-28.

2. A TRAVESSIA

“Tempo de experiência pessoal com Deus”

A vida não é feita só de palavras e pensamentos! Quantos ficariam assentados, indefinidamente, ouvindo palavras de sabedoria. A rainha de Sabá não mediu esforços para estar diante de Salomão e ouvir de viva voz palavras de extrema sabedoria. Não há limites para se registrar palavras e ideias, entretanto, se essas palavras não forem capazes de melhorar a situação do homem, então serão apenas palavras vazias, para o engano da alma e do intelecto.

Após um dia repleto das sábias e inspiradoras palavras de Jesus, era chegada a hora de vê-las ganhar forma e transformar-se em vida. Era tempo de sair da zona de conforto e vivenciar a fé. Em outra ocasião, mais adiante, no monte da transfiguração, Pedro sugeriu ficarem ali, “com a cabeça nas nuvens”, desfrutando daquele momento glorioso (Mc 9.5), porém havia uma missão a cumprir, muita gente a ser alcançada, libertada e curada, como o jovem possesso, no pé do monte (Mc 9.14-29).

A travessia é:

  • Uma Ordem Divina – “Passemos…”
  • Obrigatória para se alcançar a outra margem, isto é, algo mais.
  • Dinâmica como o deslizar do barco sobre as águas.

No campo da fé, ela retrata a experiência pessoal, através da qual a Palavra de Deus passa a ter um significado real em nossa vida. É quando as promessas divinas deixam de ser apenas palavras e passam a ser realidade.

a) O início da travessia

36 E eles, despedindo a multidão, o levaram assim como estava, no barco; e outros barcos o seguiam.(Mc 4)
23 Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram. (Mt 8)
22 ….; e partiram.(Lc 8)

Este é o cenário do início da travessia. A multidão permanece na praia enquanto o barco de Jesus assume a dianteira, seguido por outras embarcações. Elementos simples – barco, mar, viagem – simbolizam a essência da vida. Podemos imaginar que somos como um barco navegando pelo vasto mar do mundo: uma imensidão repleta de recursos e belezas, mas também sujeita a surpresas desagradáveis.

Quatro tipos de atitudes para com Jesus:

O quadro do início da travessia nos sugere ou remete a algumas atitudes que em todas as épocas as pessoas têm tido para com Jesus:

1º) Os Indiferentes
Há uma grande multidão que nem sequer está interessada em saber quem é Jesus e ouvir o que ele tem a dizer. São pessoas muito ocupadas e entretidas trilhando o caminho largo.

2º) Os Oportunistas
Há uma pequena multidão que até gosta de ouvir sobre Jesus, mas fica na praia e, logo após, retorna a seus velhos hábitos.

3º) Os Simpatizantes
Há também aqueles, que se dizem interessados, ou até mesmo cristãos, mas seguem Jesus de longe, sem assumir compromisso.

4º) Os Autênticos
O menor e mais privilegiado grupo é formado por aqueles que têm Jesus no barco da sua vida, isto é, que desfrutam da sua intimidade e comunhão.

Esses grupos sempre existirão. Em qual deles você está?

b) O meio da travessia

O quadro do meio da travessia se mostra ameaçador, tenebroso, como na provação. Por cima, a negridão da noite; por baixo, o mar revolto; em volta, ao redor, a tempestade de vento levantando fortes ondas que se arremessavam contra o barco. Que situação terrível! É na provação que chegamos mais perto de Deus. Ela nos proporciona a oportunidade de conhecer melhor a Deus e a nós mesmos. Os momentos de crise têm mudado a vida de muitos, levando-os a uma vida de inteiro compromisso e dependência de Deus (Jó 42.5). Por que? Porque a Palavra de Deus se reveste de vida. A presença de Deus se torna real.

Quatro fases da crise:

1º) Crise e Autossuficiência

37 Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. (Mc 4)
24 E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia. (Mt 8)
23 Enquanto navegavam, ele adormeceu. E sobreveio uma tempestade de vento no lago, correndo eles o perigo de soçobrar. (Lc 8)

É interessante observar como as coisas acontecem. Aquele tipo de tempestade de vento era muito comum no Mar da Galileia. O levantamento do ar quente do dia permitia ao ar mais frio das colinas ao redor, descer rapidamente sobre o lago, girando e rodopiando. Aqueles homens, como bons conhecedores do mar, certamente sabiam disso. Entretanto, confiados na habilidade que tinham, parece que inicialmente dispensaram a presença de Jesus, talvez até mesmo com a nobre intenção de deixá-lo descansar. Jesus ficou atrás, na popa, e dormia. Na nossa vida não é muito diferente. Nos julgamos capazes de lidar com os desafios sozinhos, com os nossos próprios recursos, com as nossas habilidades, talvez, até com as palavras de Jesus na mente, mas quanto a Jesus, ele fica “dormindo”, atrás.

2º) Crise e Clamor

38 E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? (Mc 4)
25 Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos! (Mt 8)
24 Chegando-se a ele, despertaram-no dizendo: Mestre, Mestre, estamos perecendo!… (Lc 8)

Quando o barco começa a encher-se de água, porque o “barco” do cristão não está isento das tempestades desta vida; quando nos tornamos completamente impotentes para dominar a situação, só então nos lembramos de recorrer a Jesus. Como Deus tem sido misericordioso! Jesus nunca rejeita um coração quebrantado e aflito. Ele se mantém fiel e pronto a ajudar, apesar de tudo.

3º) Crise e Solução

39 E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. (Mc 4)
40 Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? (Mc 4)
26 Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança. (Mt 8)
24 ….Despertando-se Jesus, repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo cessou, e veio a bonança. (Lc 8)
25 Então, lhes disse: Onde está a vossa fé? ….. (Lc 8)

Diante dos clamores daqueles homens, Jesus acorda (a autenticidade da sua humanidade) e repreende o vento e aquieta o mar (a autenticidade da sua divindade). Felizes são aqueles que podem contar com Jesus, por perto, pois ele pode salvar a alma das tempestades repentinas da vida e da destruição final!

Após o majestoso milagre, Jesus se dirige àqueles homens questionando-lhes a falta de fé. Por que? “O apelo que lhe fizeram, estando ele dormindo, não foi a calma da invocação de um poder em que se confia, mas a reprimenda assustada daqueles cuja fé foi derrotada pelo perigo”. Deus espera muito mais de nós em termos de fé!

4º) Crise e Crescimento

41 E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (Mc 4)
27 E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mt 8)
25 …. Eles, possuídos de temor e admiração, diziam uns aos outros: Quem é este que até aos ventos e às ondas repreende, e lhe obedecem? (Lc 8)

O descobrimento da grandeza daquele Jesus que estava ao lado deles era tal que as suas mentes ficaram confusas e atemorizadas com o que seus olhos presenciaram. O reconhecimento da grandeza deste Deus vivo e verdadeiro, através de uma experiência pessoal é indispensável para alcançarmos a outra margem da vida cristã.

3. A MARGEM DE LÁ

“Tempo de vida frutífera”

É o lugar de ação, do serviço cristão. É o lugar onde se encontram as multidões famintas e necessitadas. Quando Jesus desembarcou na outra margem (Mc 5.1), ele enfrentou e venceu os maiores desafios que conhecemos: O poder satânico (Mc 5.1-20), a enfermidade incurável (Mc 5.25-34) e a morte (Mc 5.21-24; 35-43). Provou assim toda a sua autoridade.

Jesus, porém, não reservou para si próprio a tarefa de libertar, curar e pregar; antes, capacitou e continua capacitando aqueles seus servos que se dispõem a pagar o preço dessa viagem para a outra margem, dessa travessia da fé (Mc 6.7-13).

Conclusão

A margem de cá representa o tempo de forjar a fé, alicerçando-a solidamente na Bíblia, a Palavra de Deus. Na travessia do cotidiano, é o tempo de aprofundar a comunhão e a intimidade com o Senhor — tanto nos dias serenos quanto nos embates da vida. E, na margem de lá, salvos e capacitados por Deus, fortalecidos pelo Espírito Santo, é tempo de sermos instrumentos úteis: cumprindo nossa missão, servindo ao próximo, levando a mensagem da vida eterna e sendo apoio nas suas eventuais necessidades e desafios.

A poesia abaixo resume os três tópicos:

A Travessia da Fé

Na margem de cá,
Onde a calmaria nos aquieta
o coração se abre à brisa suave
de lições sagradas e promessas contidas.
Ali, em cada palavra e olhar,
descobrimos os ensinamentos
que, como sementes, aguardam o tempo
de germinar na alma.

Então, surge a travessia,
o mar se agita, tempestade e desafio,
e o barco balança a fé.
A experiência prática pulsa,
no uivar do vento e no agito da dúvida,
mas então, a voz de Jesus
acalma as ondas,
e a travessia se torna
um caminho de confiança renovada,
onde cada gota de medo
se transforma em confiança no Salvador.

E chegamos à margem de lá,
a luz se ergue em frutos de serviço,
Ali, a fé amadurece e é comprovada.
O que foi aprendido e vivido se traduz em ação:
em cada gesto de amor,
em cada palavra de esperança,
floresce o fruto da graça
que transforma o mundo ao nosso redor.

………………………..

Entre a margem de cá, a travessia e a margem de lá, a travessia se revela como um caminho de transformação e ação:
Na calmaria, aprendemos;
na tormenta, experimentamos;
e, no amanhecer, servimos …
com a grandiosidade do Deus que acalma todas as tempestades.

A sociedade clama por socorro. Temos ouvido a sua voz?

Você que ainda não tem Jesus no “barco”, como vai reagir a tudo que tem ouvido?