As Bem-aventuranças (3ª e 4ª)

Mateus 5.1-12; Lucas 6.17-23

Veja a Bem-aventurança anterior, clicando aqui.


😊Terceira Bem-aventurança

“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (Mt 5.5)

A palavra grega para “mansos” é πραεις (praeiv) uma declinação de πραυς (praus) significa “manso”, “gentil”, “humilde” (Mt 21.5), “espírito manso e tranquilo” (1Pe 3.4).

Mansidão não é fraqueza, mas força domada pelo Espírito; é o autocontrole ou domínio próprio. O apóstolo Paulo fala sobre a “mansidão e benignidade” de Cristo: “E eu mesmo, Paulo, vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo, eu que, na verdade, quando presente entre vós, sou humilde; mas, quando ausente, ousado para convosco,” (2Co 10.1). Esta mansidão de Cristo exige uma transformação interior dos seus discípulos. A mansidão denota uma atitude humilde e gentil para com os outros.

Imagine alguém que, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando pelo próprio pecado diante de Deus, reage com igual ou maior agressividade ao menor comentário negativo. Essa postura anula todo o testemunho anterior, pois revela a ausência de mansidão – virtude essencial para legitimar o arrependimento e a humildade professados. “A mansidão é, em essência, a verdadeira visão que temos de nós mesmos, e que se expressa na atitude e na conduta para com os outros.” (Dr. Lloyd-Jones)

A “herança da terra” é a bênção prometida conforme mencionado pelo salmista: “Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz.” (Sl 37.11). À primeira vista, esse cenário soa contraditório. Imaginamos que os “mansos” nada conquistam – são ignorados, tratados com descaso ou desprezo – enquanto os arrogantes e impetuosos triunfam na vida, e os tímidos acabam derrotados. Até o povo de Israel teve de guerrear bravamente para herdar a terra prometida, embora o Senhor a tivesse reservado para eles. Contudo, no plano espiritual de Cristo, a herança não se conquista pela força, mas pela mansidão. Pois, a nossa herança espiritual em Cristo já nos pertence se somos de Cristo.

Os mansos, ainda que sejam despojados e privados dos seus bens e direitos, pelos homens, no tempo presente, sabem o que é viver e reinar com Cristo, e podem desfrutar e até mesmo “possuir” a terra, a qual pertence a Cristo. Então, no dia da “regeneração”, haverá “um novo céu e uma nova terra” para herdar (Mt 19.28; 2Pe 3.13; Ap 21.1). Portanto, o caminho de Cristo é diferente do caminho do mundo, e cada cristão, mesmo sendo como Paulo e “nada tendo”, pode dizer-se “possuindo tudo”: “entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.” (2Co 6.10)

😊Quarta Bem-aventurança

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”(Mt 5.6)
“Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos.” (Lc 6.21a)

Assim como observado na primeira bem-aventurança, Mateus tem em vista uma fome e sede imaterial, enquanto Lucas, uma fome não qualificada, que pode ser a física, de alimento, (considerando que Lucas tem uma visão humanitária) ou, a mesma referida por Mateus. No cântico de Maria – o Magnificat – registrado apenas por Lucas, é declarado: “Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.” (Lc 1.51-53). Destaca-se aqui a rejeição de Deus aos soberbos e poderosos, e a exaltação aos humildes, bem como, o favorecimento dos famintos e a preterição dos ricos.

John Stott[1] entende que a justiça na Bíblia tem pelo menos três aspectos: o legal, o moral e o social, a saber:

A justiça legal é a justificação, um relacionamento certo com Deus. Os judeus “buscavam a lei da justiça”, escreveu Paulo mais tarde, mas não a alcançaram porque a buscaram pelo modo errado. Procuraram “estabelecer a sua própria” justiça e “não se sujeitaram à que vem de Deus”, que é o próprio Cristo (Rm 9.30 – 10.4). Alguns comentaristas acham que Jesus se refere a isso, mas é provável que não, pois Jesus está se dirigindo àqueles que já lhe pertencem.

A justiça moral é aquela justiça de caráter e de conduta que agrada a Deus. Jesus prossegue, depois das bem-aventuranças, contrastando essa justiça cristã com a do fariseu (Mt 5.20). Esta última era uma conformidade exterior às regras; a primeira é uma justiça interior, do coração, da mente e das motivações. É desta que devemos sentir fome e sede.

E a justiça social, conforme aprendemos na lei e nos profetas, refere-se à busca pela libertação do homem da opressão, junto com a promoção dos direitos civis, da justiça nos tribunais, da integridade nos negócios e da honra no lar e nos relacionamentos familiares. Assim, os cristãos estão empenhados em sentir fome de justiça em toda a comunidade humana para agradar a um Deus justo.

Entretanto, nesta vida nossa fome jamais será totalmente saciada, assim como nossa sede não será totalmente aplacada. Recebemos, de fato, a satisfação da esperança prometida pela bem-aventurança.  Para além desta vida, aguardamos o dia do juízo, quando a justiça triunfará e a iniquidade será vencida. Então, Deus renovará todas as coisas, estabelecendo “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13). Essa certeza da vindicação final fortalece nossa esperança, e nela jamais seremos frustrados.


[1] Contracultura Cristã – ABU Editora.


Veja a anterior ou a continuação, clicando no link desejado (abaixo).

As Bem-aventuranças:
Introdução e 1ª Bem-aventurança.
2ª Bem-aventurança.
5ª e 6ª Bem-aventuranças.
7ª e 8ª Bem-aventuranças.
9ª Bem-aventurança e Conclusão.

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

3 comentários em “As Bem-aventuranças (3ª e 4ª)”

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