João 3.16 (Evangelho)

Pobreza e Riqueza

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Uma visão bíblica sobre o assunto.

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Igreja e Política – Mídia Tendenciosa

Tudo para chamar a atenção

Imagine-se voltando no tempo há uns 40 anos atrás. Você passa numa banca de jornal e vê estampado num jornal, numa das matérias em destaque da primeira página, o título – “PASTOR FAZ MAL A MOÇA”.  É, ou não é, algo curioso e irresistível, considerando a reputação dos crentes e pastores naquela época! Alguns parariam para ler a matéria. Ao ler, descobria-se a verdade dos fatos: “Aconteceu nesta terça-feira. Um cão da raça pastor alemão atacou uma moça deixando-a gravemente ferida…..”. Um misto de chateação, por ter sido enganado com aquele título apelativo, se misturava com a dor daquela tragédia. E o que aconteceria com quem ficou só no título, foi em frente, não leu a matéria toda? Provavelmente ficaria com uma impressão não muito boa dos crentes, dos pastores evangélicos. Pois bem, o que a mídia não é capaz de fazer para chamar a atenção e alcançar seus objetivos?

Tentando influenciar o cidadão

No último dia 30 de janeiro de 2020 um site publicou uma matéria com o seguinte título: Igreja Presbiteriana condena apoio a partido de Bolsonaro[1]. Imediatamente as redes sociais se agitaram repercutindo a matéria. Por que razão? Qual a primeira impressão que esse título causa ou passa? Não seria algo do tipo: “– É, parece que os evangélicos estão retirando o seu apoio ao presidente Bolsonaro, pois os presbiterianos estão condenando o apoio ao seu partido”. Então, a matéria diz: “A cúpula da Igreja Presbiteriana do Brasil, a décima maior denominação protestante do país, publicou uma nota rechaçando a postura do Pastor e bolsonarista Filipe Barros (PSL-PR), que usou os fiéis para coletar assinaturas para criação do partido de Bolsonaro ‘Aliança pelo Brasil’”. Mais adiante vem a verdade dos fatos: “Em resolução de sua reunião ordinária em 1990, o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil orienta seus concílios em geral que evitem apoio ostensivo a partidos políticos e que as igrejas não cedam seus templos ou locais de culto a Deus para debates ou apresentações de cunho político”. O fato é que a IPB tem um posicionamento claro de não apoiar “ostensivamente” partidos políticos, seja ele qual for, o que é correto. Seria algum exagero ou preciosismo essa minha abordagem sobre a referida publicação? Certamente que não! Quem checar a linha ideológica do site “Brasil 247” verá que é de esquerda e em oposição ao governo Bolsonaro. Isso explica tudo!

Na mesma data acima mencionada, outro site se mostra mais cuidadoso ao noticiar o mesmo fato: “Em nota, Igreja Presbiteriana afirma que não apoia partidos[2]”. Na sequência diz: “Denominação contraria pastor de Londrina que usou estrutura da igreja para pedir apoio ao Aliança pelo Brasil.”

A posição da Igreja Presbiteriana do Brasil

Nas Publicações acima mencionadas há uma referência ao posicionamento da IPB em documento datado de 1990. Considerando ser oportuno esclarecer presbiterianos e não presbiterianos sobre o assunto, estamos ajudando a divulgar, abaixo, o inteiro teor do referido documento. Como tantas outras decisões do Supremo Concílio da IPB, vale à pena uma leitura cuidadosa de um documento elaborado com tanto zelo, qualidade e coerência com as Sagradas Escrituras. Numa tentativa de resumir tal documento e posição, sem perder sua essência, diríamos que a IPB se posiciona assim:

1) Tríplice compromisso da IPB:

– Com a democracia.
– Com o bem-estar das pessoas.
– Com a paz, dentro e fora da igreja.

 2) Recomendações para concílios, igrejas, pastores e crentes:

– Oração incessante pela política nacional e pelas autoridades constituídas.

– Participação cidadã, consciente e responsável, no exercício dos seus direitos constitucionais.

– Evitar apoio ostensivo a partidos políticos.

– Apoio, com moderação, a candidatos oriundos de igrejas Evangélicas, de reconhecida idoneidade moral e político-social.

– Distanciamento de candidatos reconhecidamente descompromissados com a ética cristã-social.

– Preservação do templo não o cedendo para eventos e atividades de cunho político.

– Inibição de propaganda política no âmbito interno da igreja.

– Restrição total de apoio e compromisso de voto, em troca de favores de candidatos políticos.

Vale a pena investir um tempo na leitura cuidadosa do inteiro teor do documento acima resumido e transcrito, a seguir:

“…. Do Supremo Concílio da IPB –
A todos os concílios, igrejas, pastores, Oficiais e Membros, irmãos em Cristo Jesus, o Senhor.
Graça a vós e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Filho, nosso Salvador e do Espírito Santo, nosso Consolador, em cujo nome vos exortamos quanto ao comportamento ético-cristão diante das oportunidades, dos desafios, dos dilemas e perigos hoje representados pela atividade e participação na vida política nacional.
Recebei, pois, irmãos no amor de Cristo, este pronunciamento e ponde-o em prática no âmbito da vossa vida e ação.

1) A IPB, consciente da sua herança judaico-cristã-reformada, tem um compromisso histórico e ideológico com a democracia, entendida como a participação direta do povo nos seus destinos através do voto, de apoiá-la e contribuir positivamente para o seu desenvolvimento no Brasil e no mundo.

2) A IPB, da mesma forma, tem um compromisso, fundamentado no amor ao próximo, (Lv 19.18) com a justiça social, com o bem estar do povo, com a eliminação da miséria e da pobreza, (Dt 15.4) com a igualdade dos homens em todos os lugares, níveis, situações, independentemente de sexo, idade, ou condição social individual. (Dt 16).

3) A IPB tem um compromisso com o desenvolvimento e a manutenção da paz entre os homens, a promoção da harmonia e da concórdia, tanto no seio da Igreja, como da comunidade nacional. (Mt 5.9).

4) Assim, a IPB consciente de seu tríplice compromisso e no desejo de contribuir para que eles sejam implementados na vida de seus concílios, igrejas, pastores e crentes, recomenda-lhes:

4.1) Orem incessantemente a Deus pelo processo político nacional, seus projetos e planos, bem como por todos aqueles que estão investidos de autoridade, atendendo desta forma a exortação do apóstolo Paulo em 1Tm 2.1-15.

4.2) Participem, como de direito em geral, da escolha de seus dirigentes, sejam eles nacionais, estaduais ou municipais, fazendo jus à condição de eleitores e cidadãos da pátria, no exercício dos seus direitos constitucionais.

4.3) Aos concílios em geral, que evitem dar apoio ostensivos a Partidos Políticos, ou a candidatos a cargos eletivos exceto, neste caso, aqueles oriundos de igrejas Evangélicas, de reconhecida idoneidade moral e político-social.

4.4) Que se evite todo e qualquer apoio a candidatos reconhecidamente descompromissados com os ideais de democracia, justiça e paz propugnados pela nossa Igreja, que visam apenas o interesse pessoal, pactuam com os injustos e corruptos, aceitam subornos, negam justiça aos pobres (Is 5.18, 22-23), decretam leis injustas (Is 10.1) e se afastam da Palavra de Deus como “regra de fé e prática”.

4.5) Que se evite a cessão do templo, ou santuário, local de culto a Deus, para debates ou apresentações de cunho político, podendo as mesmas serem realizadas em suas dependências.

4.6) Que se evite propaganda política no âmbito interno da Igreja, do seu templo ou por seus órgãos e departamentos, exceto se mantidos democraticamente os direitos, a liberdade e o respeito aos contrários.

4.7) Que, em nenhuma circunstância, a Igreja, o Pastor, os concílios, ou Sociedades Domésticas aceitem favores de candidatos políticos que possam resultar em comprometimento de voto, que deve ser pessoal, direto e secreto” (Constituição Federal Art. 14).

5) A IPB, pois, reconhece como legítima a dignidade dos membros seus, incentiva a assumirem ‘uma cidadania responsável, como testemunhas de Cristo, nos sindicatos, nos partidos políticos, nos diretórios acadêmicos, nas fábricas, nos escritórios, nas cátedras, nas eleições e nos corpos administrativos, legislativos e judiciários do país’ (Pronunciamento de 1962, item X, 2), sempre pautada no respeito às instituições e a ordem legal. Reconhece ao mesmo tempo, que ‘nenhum sistema ideológico de interpretação da realidade social, seja em termos filosóficos, políticos ou econômicos pode ser aceito como infalível ou final (Ibid., item IX), mas que a ética cristã-social vivida no sentido da plenitude do Reino de Deus continua a ser a proposta mais significativa, satisfatória e profunda para o homem do nosso século e de nosso país.’”

(Extraído da decisão do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil SC – 1990 – DOC. CLII).

Finalmente, vale dizer que o assunto CRISTÃO, IGREJA e POLÍTICA é muito amplo e requer outras abordagens. Entretanto, entendemos ser imprescindível adiantar desde já que a relação do Cristão com o Estado é diferente da relação da Igreja com o Estado. Sendo o Estado laico não há que se pensar em interferência direta da instituição Igreja na Instituição Estado. O inverso também não é aceito. Por outro lado, sendo o Cristão um cidadão da pátria tem ele a responsabilidade de exercer os seus direitos constitucionais e legais, participando diretamente (ou não) das instituições públicas e da política, também cuidando de cumprir os seus deveres; mas sempre fazendo a diferença, dando um bom testemunho da sua ética cristã.


[1] https://www.brasil247.com/brasil/igreja-presbiteriana-condena-apoio-a-partido-de-bolsonaro

[2] https://www.gospelprime.com.br/em-nota-igreja-presbiteriana-afirma-que-nao-apoia-partidos/

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Veja também:
Igreja e Política – Pronunciar-se ou silenciar-se?

Outros temas a serem desenvolvidos:
Cristão e Política – Pronunciar-se ou silenciar-se?
Cristão e Política – Participação ou distanciamento?
Cristão e Comunismo – Como conciliar?

A Verdade que Liberta

“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8.31-32)

Introdução

Lá pelos idos da década de 1980, com um filho bem pequeno, fui sozinho à uma farmácia comprar remédio pra ele. Estando lá dentro, bem ao fundo, de repente começou um certo tumulto. Percebi, então, que havia um homem na entrada anunciando um assalto. Nunca tinha passado por isso e fiquei um tanto quanto apreensivo. Numa hora como essa a gente sente a total falta de liberdade. Não se pode sair do local para escapar e nem pensar em reagir, enfrentando o meliante. É só contar com a graça e misericórdia de Deus para que nenhuma tragédia aconteça. Felizmente o desfecho foi muito melhor do que se podia imaginar. O sujeito estufava a camisa parecendo estar com uma arma por baixo dela. De algum modo perceberam que era uma simulação, que não era uma arma, mas um toco de madeira e colocaram o homem pra correr. Sem dúvida, quando a verdade veio à tona fomos libertos daquela situação.

Nosso propósito aqui é refletir sobre a Verdade que traz a mais grandiosa liberdade.

1) A necessidade de liberdade

Por que necessitamos de algo? Porque não temos. Porque de alguma forma estamos convencidos de que precisamos. Porque este algo trará um certo equilíbrio ao nosso ser, como um todo. Através do equilíbrio do nosso organismo (metabolismo físico), do nosso intelecto (mente, razão) e do nosso emocional (sentimentos, afetos), teoricamente se consegue um estado de bem estar, de paz e de tranquilidade. Na prática tenho a certeza de que o ser humano, por si só, é incapaz de conseguir isso.  As variáveis são muitas e não temos o controle sobre todas elas.

A natureza que nos cerca busca o estado de equilíbrio em todo o tempo.  A diferença entre o que temos ou somos, e o que queremos ter ou ser, constitui um desequilíbrio que gera a vontade, que por sua vez exige condições mínimas para nos mover. E a vontade é a força motriz da vida!

Supondo que o ser humano natural sempre pudesse exercer a sua vontade no sentido de buscar as coisas verdadeiramente necessárias para trazer equilíbrio ao seu ser, o que seria muito nobre (desde que não infringisse a lei dos homens e a de Deus), ainda assim ele não conseguiria alcançar a plenitude do seu ser, porque além das barreiras naturais (as necessidades humanas são infinitas e insaciáveis) existe a barreira da vontade do outro que não necessariamente é conciliável com a dele e, certamente, em algum momento entrará em choque com a sua.

Parece que numa acepção mais simples da palavra, liberdade é o exercício da vontade, sem restrições internas ou externas ao ser. Se assim é, então, podemos dizer que a liberdade se constitui no alvo mais importante a ser conquistado pelo ser humano natural.

2) A busca da liberdade

Por que buscamos algo? Porque não temos. Quem sabe já tivemos, porém perdemos. Ou, nunca tivemos e sentimos a necessidade de ter.

A busca da liberdade, então, é a busca pela realização da nossa vontade, no sentido da realização completa do nosso ser. Para melhor entender essa situação, precisamos retornar às nossas origens.

Deus criou com todo o esmero todas as coisas necessárias à sobrevivência do homem. Por fim, criou também o ser humano, à sua imagem e semelhança (Gn 1.27 – pessoal, racional e moral). Deus colocou toda a criação sob o domínio de Adão (Gn 1.27-28). Porém, faltava-lhe algo. Adão não se completava naqueles animais ou nas demais coisas criadas (Gn 2.20). Deus, então, lhe fez uma companheira idônea e Adão suspirou aliviado (Gn 2.21-24). Então, Deus propôs ao casal o exercício da sua vontade (Gn 1.28-30), num tempo em que havia perfeita harmonia na natureza. Antes, porém, Deus os submeteu a um teste para provar sua vontade (Gn 2.16-17) e o casal falhou (Gn 3). Surgem aqui algumas perguntas que precisam ser consideradas e esclarecidas à luz da verdade: 1ª) Deus foi o culpado: a)Ele restringiu a liberdade de um ser que foi criado para exercer sua própria vontade. Errado! Adão, ao exercer sua vontade, violou a vontade de outrem que lhe era infinitamente superior. Com isso demonstrou que seria incapaz de respeitar a vontade dos seus semelhantes, muito mais ainda porque estes estariam no mesmo nível humano dele. Com a falta de domínio sobre sua vontade ficou provado que ele não tinha condições para viver harmoniosamente em sociedade. b) Deus não o alertou sobre a tragédia que essa desobediência traria para ele e para o mundo. Errado! É só conferir em Gênesis 2.17 a advertência divina. c) Deus falhou na constituição do ser humano. Errado! Deus criou um ser à sua imagem, com vontade própria e não um robô. Além disso se propunha a orientá-lo diretamente, se esse lhe fosse submisso.  d) Deus deixou tudo pronto para Adão e com isso ele não tinha onde aplicar a sua vontade. Errado! Deus lhe entregou um mundo na “forma bruta”, lhe deu todos os recursos materiais e inteligência para dele cuidar. O grande problema de Adão e Eva é que eles escolheram dar ouvidos a uma outra voz que questionava a ordem de Deus. Esta voz satânica lhe apresentou uma nova versão da ordem divina, mais fácil, mais atraente e ambiciosa, porém mentirosa, “ser como Deus”.

3) A verdadeira liberdade

As consequências da queda do homem no Éden foram devastadoras. Desde a queda se vê a atuação de Deus no mundo controlando gente pecadora e um mundo contaminado pelo pecado. No dilúvio Deus destruiu o mundo de então, promovendo um novo início da humanidade, a partir da família de Noé e dos animais que foram preservados na arca. Porém os pecadores e seus pecados continuaram. Entretanto, em todo o tempo, Deus tinha em mente resgatar e salvar o ser humano caído. Ele pavimentou esse caminho e manifestou seu propósito à humanidade através de uma revelação progressiva: o patriarca Abraão, o povo de Israel e, por fim, Jesus Cristo, seu filho encarnado. Este, além de dar a sua vida para pagar o preço dos nossos pecados e nos reconciliar com Deus, nos deu a sua nova lei, a sua palavra (Mt 22.36-39). Deus, também, no deu o seu Espírito Santo, para habitar em nós e instituiu a sua igreja, para ajuntamento do seu povo (1Co 6.9-11).

Jesus é a Verdade que Liberta; através da sua vida, da sua redenção, da sua palavra e do Espírito Santo que em nós habita!

Conclusão

Estas palavras do apóstolo Paulo expressam bem a missão de Jesus realizada em nosso favor para nos conduzir à verdadeira liberdade.

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,  aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,  o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.” (Tt 2.11-14).

Essa verdadeira liberdade pode ser descrita como a nossa vontade pessoal dentro da vontade perfeita de Deus, dirigida e controlada pelo Espírito de Deus que habita em nós, o que foi objeto da oração de Jesus ao Pai Celestial: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.20-21)

Relacionar-se é …..CONHECER-SE MELHOR E O OUTRO

Quem sou eu? O que pensamos ser e o que os outros pensam de nós? A Janela de Johari, modelo conceitual elaborado por Joseph Luft e Harry Ingham, nos ajuda a entender um pouco mais essa questão. O termo “Johari” foi obtido a partir da junção dos dois nomes dos autores, Joseph e Harry.

Entendendo a Janela de Johari……

a)   EU ABERTO

A região do “eu aberto”, representa os aspectos da personalidade de que o indivíduo tem conhecimento e aceita compartilhar com os outros. Esta área limita-se àquilo de que nossos parentes e amigos estão cônscios  e ao que nós consideramos óbvio, tais como nossas características, nossa maneira de falar, nossa atitude geral, algumas de nossas habilidades etc.

b)   EU SECRETO

A região do “eu secreto”, representa os aspectos que a pessoa conhece, mas consciente e deliberadamente esconde dos outros por motivos diversos, tais como: insegurança, status, medo da reação, medo do ridículo etc. Essa região constitui a chamada fachada em que o indivíduo se comporta de maneira defensiva. A defesa é inerente a toda pessoa. Mas a questão é saber qual a quantidade de defesa tolerável que não iniba o inter-relacionamento nem impeça seu crescimento.

c)   EU CEGO

A região do “eu cego” representa nossas características de comportamento que são facilmente percebidas pelos outros, mas das quais geralmente não estamos cientes. Por exemplo, alguma manifestação nervosa, nosso comportamento sob tensão, nossas reações agressivas, nosso desprezo por aqueles que discordam de nós etc. Em suas atitudes e comportamentos muita coisa é transmitida, sem que o próprio indivíduo perceba. Podemos especular o porquê destes padrões de comportamento permanecerem desconhecidos para nós e, no entanto, são óbvios para os outros.

Há evidências de que é nessa área que, frequentemente, somos mais críticos com o comportamento dos outros sem percebermos que estamos nos comportando da mesma forma.

d)   EU DESCONHECIDO

Finalmente a região do “eu desconhecido”, é a área desconhecida pelo próprio e pelos outros. Nela estão incluídas as potencialidades, talentos e habilidades ignoradas, os impulsos e sentimentos mais profundos e reprimidos, memórias de infância, a criatividade bloqueada. Como exemplo da área desconhecida, pesquisadores em Criatividade afirmam que, em geral, utilizamos apenas cerca de 15 ou 20 por cento de nosso potencial criativo. Essa região pode tornar-se conhecida à medida que aumenta a eficácia interpessoal dentro de um processo dinâmico.

Conclusão

E daí, o que essa tal Janela de Johari tem a ver com o meu casamento? Veja só. Num relacionamento conjugal é muito comum cada cônjuge ter uma visão ótima a seu respeito e não tão boa do outro. Por que? Porque cada um de nós só tem a percepção de parte do que realmente somos! Uma visão adequada de nós mesmos e a aceitação do que somos (nossas limitações, fraquezas e falhas) são pontos básicos para uma postura de humildade diante de Deus, das pessoas e, principalmente do nosso cônjuge e facilitadora do relacionamento. É claro que nem sempre a visão do outro, isoladamente, reflete toda a verdade do que realmente sou. Entretanto, ninguém melhor para nos ajudar a identificar aqueles maus comportamentos do “eu cego” do que quem vive ao nosso lado.


Veja também:

Comunicar é ……. SABER SE EXPRESSAR!

Comunicar é …………. SABER OUVIR!

Comunicar é ……. SABER OUVIR!

“As grandes pessoas monopolizam a arte de escutar. As pequenas a arte de falar.”

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“Responder antes de ouvir é estultícia (estupidez) e vergonha.” (Pv 18.13)

“Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” (Tg 1.19.b)

Comunicar é arte dupla: a arte de falar, se expressar; e a arte de ouvir. Para compreender bem é preciso ouvir bem o que está sendo dito. Como, numa conversa entre duas ou mais pessoas o que vai ser dito em seguida depende do que se entendeu daquilo que foi dito antes,  é preciso concentrar-se no que se ouve, e, se necessário for, pedir para esclarecer (-Não entendi bem o que você disse) ou, confirmar o entendimento (-Então, você está dizendo que…).  

“Raríssimas são as pessoas que procuram ouvir exatamente o que a outra está dizendo”,  diz Artur da Távola (1936-2008) em seu artigo “o difícil facilitário do verbo ouvir”.  A partir de uma série de observações sobre o assunto ele cita os 12 pontos, a seguir:

1º) Em geral o receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que o outro não está dizendo.

2º) O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que quer ouvir.

3º) O receptor não ouve o que o outro fala. Ele ouve o que já escutara antes e coloca o que o outro está falando naquilo que se acostumou a ouvir.

4º) O receptor não ouve o que o outro fala. Ele ouve o que imagina que o outro ia falar.

5º) Numa discussão, em geral, os discutidores não ouvem o que o outro está falando. Eles ouvem quase que só o que estão pensando para dizer em seguida.

6º) O receptor não ouve o que o outro fala. Ele ouve o que gostaria ou de ouvir ou que o outro dissesse.

7º) A pessoa não ouve o que a outra fala. Ela ouve o que está sentindo.

8º) A pessoa não ouve o que a outra fala. Ela ouve o que já pensava a respeito daquilo que a outra está falando.

9º) A pessoa não ouve o que a outra está falando. Ela retira da fala da outra apenas as partes que tenham a ver com ela e a emocionem, agradem ou molestem.

10º) A pessoa não ouve o que a outra está falando. Ouve o que confirme ou rejeite o seu próprio pensamento. Vale dizer, ela transforma o que a outra está falando em objeto de concordância ou discordância.

11º) A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que possa se adaptar ao impulso de amor, raiva ou ódio que já sentia pela outra.

12º) A pessoa não ouve o que a outra fala. Ouve da fala dela apenas aqueles pontos que possam fazer sentido para as ideias e pontos de vista que no momento a estejam influenciando ou tocando mais diretamente.

Ele mesmo conclui…:

“Esses doze pontos mostram como é raro e difícil conversar. Como é raro e difícil se comunicar! O que há, em geral, são monólogos simultâneos trocados à guisa de conversa, ou são monólogos paralelos, à guisa de diálogo. O próprio diálogo pode haver sem que, necessariamente, haja comunicação. Pode haver até um conhecimento a dois sem que necessariamente haja comunicação. Esta só se dá quando ambos os polos ouvem-se, não, é claro, no sentido material de ´escutar`, mas no sentido de procurar compreender em sua extensão e profundidade o que o outro está dizendo.

Ouvir, portanto, é muito raro. É necessário limpar a mente de todos os ruídos e interferências do próprio pensamento durante a fala alheia.

Ouvir implica uma entrega ao outro, uma diluição nele. Daí a dificuldade de as pessoas inteligentes efetivamente ouvirem. A sua inteligência em funcionamento permanente, o seu hábito de pensar, avaliar, julgar e analisar tudo interferem como um ruído na plena recepção daquilo que o outro está falando.

Não é só a inteligência a atrapalhar a plena audiência. Outros elementos perturbam o ato de ouvir. Um deles é o mecanismo de defesa. Há pessoas que se defendem de ouvir o que as outras estão dizendo, por verdadeiro pavor inconsciente de se perderem a si mesmas. Elas precisam ´não ouvir` porque, `não ouvindo´, livram-se da retificação dos próprios pontos de vista, da aceitação de realidades diferentes das próprias, de verdades idem, e assim por diante. Livra-se do novo, que é saúde, mas as apavora. Não é, pois, um sólido mecanismo de defesa.

Ouvir é um grande desafio. Desafio de abertura interior; de impulso na direção do próximo, de comunhão com ele, de aceitação dele como é e como pensa. Ouvir é proeza, ouvir é raridade. Ouvir é ato de sabedoria.

Depois que a pessoa aprende a ouvir ela passa a fazer descobertas incríveis escondidas ou patentes em tudo aquilo que os outros estão dizendo a propósito de falar.”


Veja também:

Comunicar é ……. SABER SE EXPRESSAR!

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Comunicar é ……. SABER SE EXPRESSAR!

 “A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto.” (Pv 18.21)

    “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem.” (Ef 4.29)

   “Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.” (Ef 4.25)

………………..

Introdução

Se você acha complicado lidar com o terminal de autoatendimento do Banco, ou com um computador, ou com o painel de controle de uma aeronave, saiba que nada disso é comparável ao lidar com outro ser humano. E, por que? Porque nós, seres humanos, somos muito mais complexos do que qualquer máquina. Nós nos “reprogramamos” mentalmente a cada nova informação recebida, temos temperamentos diferentes,  sentimentos, vontade própria, necessidades, interesses, capacidade de mentir, enganar etc. Como se isso não fosse o suficiente, ainda temos a possibilidade de nos relacionarmos com o mundo espiritual, invisível mais real, que certamente, também exerce influência em nosso comportamento. O que realmente é complicado é o relacionamento entre pessoas e não o casamento.  Como o casamento exige um elevado grau de relacionamento e comunicação, acaba se tornando um desafio. Por outro lado, oferece uma excelente oportunidade de exercitar e aprimorar a capacidade de se relacionar e se comunicar, o que é essencial para nós que vivemos em sociedade.

Neste estudo focaremos a comunicação do casal como elemento importante para a harmonia no casamento.

O que é, e como funciona a comunicação?

Uma das mais simples e interessantes conceituações diz que: Comunicação, é a “ação de tornar algo comum”. Por exemplo: o que eu acho, o que eu desejo, o que eu estou sentindo etc. É interessante como cada um dos sentidos que Deus nos deu – visão, audição, olfato, paladar e tato – participa desse processo de comunicação; nossa, com o mundo exterior. É a comunicação verbal e não-verbal. A boca fala, mas também todo o nosso corpo “fala e ouve”, se comunica – é a linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. Marido e esposa se comunicam com tanta frequência e intensidade, que depois de um certo tempo de convivência, só em olhar o outro, já sabe o que ele está sentindo, ou escondendo, ou comunicando.

Uma cena simples de escola:

– Bruno senta perto de Rebeca, na sala de aula. No intervalo entre aulas, se demoram um pouco a sair da sala. “Rebeca é uma garota muito legal e linda!” (pensa)

– Sente que deve se aproximar dela e que seria interessante convidá-la para ir ao shopping, no próximo sábado. (objetivo)

– Seu sistema nervoso central (fonte/emissor), agindo como fonte de comunicação, cria a mensagem e aciona seu mecanismo vocal etc, para executar a missão de codificá-la. (codificador)

– Seu mecanismo vocal (codificador) produz a seguinte mensagem: – Quer ir comigo ao shopping no próximo sábado, Rebeca? A mensagem é transmitida em ondas sonoras através das moléculas do ar (canal) até ao mecanismo auditivo de Rebeca (decodificador) que transforma as ondas sonoras em impulso nervoso (decodificação), enviando-o ao sistema nervoso central de Rebeca (receptor/destinatário)

Aspectos facilitadores da comunicação:

Vejamos alguns aspectos facilitadores no processo da comunicação humana; certamente importantes, ainda que pareçam óbvios.

1º) Pense bem antes de falar ou se expressar corporalmente através dos gestos e/ou expressões faciais. Lembre-se de que o que falamos, expressamos e fazemos revela aos outros quem nós somos! “O coração do justo medita o que há de responder, mas a boca dos perversos transborda maldades.” (Pv 15.28)

2º) Tenha consciência do objetivo que está movendo a essa comunicação para que depois você possa verificar se foi ou não alcançado. De um modo geral, usamos a comunicação para: informar (apelo à mente); persuadir (apelo à alma); divertir (divertimento) e influenciar (afetar com intenção). “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR.” (Pv 16.1)

………………..

“Nosso objetivo básico na comunicação é tornarmo-nos agentes influentes e afetarmos outros, nosso ambiente físico e nós próprios, é tornarmo-nos agentes determinantes, é termos opção no andamento das coisas. Em suma, nós nos comunicamos para influenciar – para afetar com intenção.” (David K. Berlo)

………………..

3º) Estruture bem a mensagem a ser transmitida para que ela expresse exatamente aquilo que você quer comunicar. Vale lembrar que o outro não ouve os nossos pensamentos; apenas o que expressamos, de forma verbal e não-verbal. Portanto, uma mensagem deve ter uma quantidade adequada de informações para o bom entendimento pelo outro. Use o “código” adequado, isto é,  o linguajar que o outro entenda e irá usar para “decodificar” a mensagem. Não perca de vista que aquilo que tem um significado para você pode ter outro para a outra pessoa (Estrutura de Significação).

4º) Transmita a mensagem de forma adequada, isto é, com a carga adequada de conteúdo racional e emocional. Afinal, somos seres racionais e emocionais. Coisas certas, ditas do modo errado,  colocam tudo a perder. Module a voz  e use expressões não-verbais, de acordo com a mensagem que está sendo transmitida. É importante impressionar bem o outro. “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.” “A língua serena é árvore de vida, mas a perversa quebranta o espírito.” “O sábio de coração é chamado prudente, e a doçura no falar aumenta o saber.” (Pv 15.1, 4; 16.21)

5º) Avalie bem se o momento e o lugar são apropriados; se o seu estado de espírito e o do outro estão favoráveis; se você e o outro estão preparados para emitir e receber essa mensagem etc. “O homem se alegra em dar resposta adequada, e a palavra, a seu tempo, quão boa é!” (Pv 15.23)


Veja também:

Comunicar é …………. SABER OUVIR!

Relacionar-se é …..CONHECER-SE MELHOR E O OUTRO

Áquila e Priscila

Introdução:

A Bíblia está repleta de narrativas de personagens dos quais podemos dizer que vivenciaram uma espécie de “carreira solo”, isto é, eles aparecem em primeiro plano, recebendo maior foco, como protagonistas; tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Quando o foco é o casal, o Antigo Testamento registra a história de alguns deles, desde Adão e Eva, passando por Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Salmon e Raabe, Sansão e Dalila, Boaz e Rute, Elcana e Ana, Davi e Bate-Seba, Acabe e Jezabel etc. Ao chegar no Novo Testamento nos deparamos com dois casais que se destacam nas narrativas dos Evangelhos: Zacarias e Isabel, por terem trazido ao mundo João Batista, aquele que veio preparar o caminho de Jesus; e, José e Maria, que cuidaram do Jesus menino, gerado em Maria, pelo Espírito Santo, como o Messias Salvador. Entretanto, a partir da ascensão de Cristo e da inauguração da igreja, um casal se destaca negativamente dos demais, Ananias e Safira e outro, positivamente, Áquila e Priscila. Abordaremos aqui este último e veremos que não é sem razão ou por acaso que ele é lembrado pelos cristãos.

1. Um casal que é uma carta aberta  (At 18.1-2)

“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens,” (2Co 3.2)

A vida deste casal é, sem dúvida, uma carta aberta, conhecida e lida por todos os que têm alguma intimidade com o livro sagrado – a bíblia. Ao refletir sobre a história de vida deles muito podemos enriquecer a nossa própria história e certamente seremos desafiados a seguir o seu exemplo.

Para quem imaginava que na antiguidade só havia machismo, inclusive na igreja nascente, vai se surpreender com o equilíbrio de tratamento, de valor e de desempenho de papéis no que se refere a este casal. Nas seis citações sempre aparece, no registro bíblico, os dois nomes, sendo que duas vezes na ordem “Áquila e Priscila” (1Co 16.19 e At 18.2) e, quatro vezes, “Priscila (ou Prisca) e Áquila” (At 18.18, 26; Rm 16.3 e 2Tm 4.19). O fato do nome da esposa ter aparecido tantas vezes na frente do nome do marido tem levado alguns comentaristas bíblicos a deduzirem que Priscila tinha uma personalidade mais forte ou que ela descendia de uma família romana proeminente, mas que não se tem como provar.

Por falar em nome, Áquila significa “águia” e Priscila significa “que pertence a Prisco” ou “da natureza de Prisco”, “familiar de alguém venerável”. “Prisco”, por sua vez, do latim Priscus tem o sentido de “o antigo”, “o velho” ou “o venerável”, de modo que Priscila significa “familiar de alguém venerável”1.

Áquila era judeu, natural do Ponto, uma província da Ásia Menor, no norte da atual Turquia. Naquela região morava um certo número de judeus, que estiveram em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.9) e, posteriormente, é mencionada por Pedro como local onde se encontravam eleitos, forasteiros da dispersão (1Pe 1.1). Não temos mais informações sobre a origem de sua esposa Priscila.

Este distinto casal é citado no NT, sempre pelo apóstolo Paulo, seis vezes. A primeira informação que temos do casal é que havia chegado recentemente em Corinto, quando Paulo se aproximou deles, tendo sido expulsos de Roma, pelo imperador Claudio2  (41 a 54 dC), que decretou que os judeus se retirassem da capital do Império, por volta de 49 dC.

Segundo o historiador Suetônio, ele teria expulsado os judeus de Roma por estarem envolvidos em agitações devido a um certo “Cresto” (Chrestus), um termo que poderia referir-se a Cristo (Christus). Se isso é verdade, então é provável que o Evangelho estava chegando às Sinagogas Romanas e encontrando resistência e reações fortes por parte dos judeus mais arraigados à lei mosaica. É o que acontecia em toda a parte e deu ensejo a uma acusação como a de Tessalônica: “…Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui,” (At 17.6b).

Segue um quadro resumo dessas seis citações do casal:

Texto Bíblico Data Local onde Áquila e Priscila estavam ou residiram
Atos 18.1-3 52-53 dC Em Corinto, juntos com Paulo (2ª viagem missionária)
Atos 18.18-19 54 dC Em Éfeso, juntos com Paulo (2ª viagem missionária)
Atos 18.24-27 54 dC Em Éfeso, sem Paulo (3ª viagem missionária)
1Coríntios 16.19 57 dC Em Éfeso, com Paulo quando ele escreveu 1Coríntios (1Co 16.8)
Romanos 16.3-5 57-58 dC Em Roma, sem Paulo quando ele escreveu Romanos, de Corinto.
2Timóteo 4.19 67 dC Em local ignorado, sem Paulo quando ele escreveu 2Timóteo, de Roma.

2. Um casal de mente e coração abertos (At 18.2b)

Não está claro no texto bíblico se o casal foi evangelizado por Paulo ou se já eram convertidos quando o apóstolo se aproximou deles (At 18.2b). O fato é que em algum momento das suas vidas, provavelmente em Roma, eles abriram a mente e o coração para o Evangelho de Cristo e sua obra. Pelo que é dito deles foi uma entrega por inteiro!

3. Um casal de mãos abertas  (At 18.3-5)

Áquila e Priscila, marido e esposa, tinham a profissão de fazer tendas (At 18.3). Ambos estavam juntos no mercado de trabalho buscando o sustento da família. Expulsos de Roma, chegaram a Corinto e estabeleceram o seu negócio. Foi ali que se encontraram com o apóstolo Paulo, na sua segunda viagem missionária. Em terra estrangeira era comum os judeus se aproximarem de seus compatriotas e Paulo tinha um motivo a mais, que era a sua identificação com o mesmo ofício deles. Assim, Paulo passou a morar e a trabalhar com eles. Durante a semana o apóstolo trabalhava e aos sábados discorria na sinagoga. Isso mostra que a cobertura financeira para a viagem missionária de Paulo também dependia do seu trabalho. Assim, seu trabalho evangelístico maior se desenvolvia aos sábados, quando os judeus e gregos se reuniam nas sinagogas (At 18.4). O texto bíblico relata que apenas quando Silas e Timóteo chegaram ali é que Paulo pôde se dedicar em tempo integral à Evangelização e Ensino da Palavra (At 18.5).

Fica evidente que esse casal trabalhador logo apoiou e ajudou a sustentar a obra missionária da Igreja, através de Paulo, concedendo-lhe moradia e oportunidade de trabalho.

4. Um casal de olhos abertos (At 18.18)

Quando Paulo parte para Éfeso ele se despede de alguns irmãos, o que evidencia a existência de uma igreja nascente ali em Corinto (At 18.18). Entretanto, é significativo que ele leva em sua companhia o casal Priscila e Áquila. Por um lado, certamente ele via no casal uma vocação para apoio à obra missionária, não somente no sentido material, mas também no sentido espiritual, no que se refere à consistência e maturidade da sua fé. Por outro lado, chama a atenção o desprendimento do casal de acompanhar o apóstolo. Não temos a informação se Paulo os convidou ou se eles se ofereceram. Entretanto, a expressão “levando em sua companhia” (At 18.18) transmite a impressão de que o casal já fazia parte da equipe de Paulo. Ter os olhos abertos significa ter visão de vida e visão ministerial. Ter o foco em Deus e na sua obra. Dispor-se a deixar a sua zona de conforto e avançar na missão, no “IDE” de Jesus. Buscar o Reino de Deus como prioridade de vida, na certeza que as demais coisas nos serão acrescentadas.

5. Um casal de boca aberta (At 18.19, 23-28)

“Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava aos judeus.” (At 18.19).

O casal amigo de Paulo, Áquila e Priscila, chega à cidade de Éfeso onde parece haver a intenção do apóstolo de estabelecer ali na casa deles uma base de apoio missionário para toda aquela região da Ásia. Eles se estabelecem ali e Paulo prossegue no seu avanço missionário, já concluindo sua segunda viagem e retornando à Antioquia (54 dC).

Passado algum tempo, ainda no ano de 54 dC, enquanto o apóstolo Paulo empreendia a sua terceira viagem missionária, surge um fato relevante ali em Éfeso que mereceu o registro bíblico, por Lucas. Um judeu, chamado Apolo, homem bastante eloquente e conhecedor das Escrituras, passa  discorrer ali na sinagoga de Éfeso. Apesar do seu poder de persuasão ele tinha um conhecimento limitado ao batismo de João. Naquela ocasião, Priscila e Áquila também frequentavam a sinagoga de Éfeso. Usando de grande sabedoria, prudência e discrição, conhecedores da fé cristã, em vez de colocar o vibrante pregador em dificuldade diante dos seus ouvintes, tomam-no à parte e lhe expõe “o caminho de Deus” com mais exatidão (At 18.23-26). O casal nos ensina que não basta conhecer alguma coisa da fé cristã; é preciso buscar a integridade doutrinária e ajudar os outros neste sentido.

Portanto, a estratégia de Paulo começa a surtir efeito e serve de exemplo para os pastores e líderes do povo de Deus. A liderança não é capaz de dar conta de toda a obra, sozinha. É preciso multiplicar pontos de apoio onde haja pessoas preparadas para ensinar, instruir, orientar e aconselhar, inclusive os novos pregadores. Por outro lado, todo o crente é desafiado a se preparar para os embates da vida cristã: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.15).

Apolo era um pregador valoroso e entusiasmado com o que fazia. Tendo sido devidamente instruído e desejando prosseguir nesta obra, percorrendo a Acaia, encontra no casal de “boca aberta” e nos outros irmãos de Éfeso, palavras e atitudes de encorajamento (At 18.27-28).

6. Um casal de portas abertas (1Co 16.19; Rm 16.3-5)

“As igrejas da Ásia vos saúdam. No Senhor, muito vos saúdam Áquila e Priscila e, bem assim, a igreja que está na casa deles.” (1Co 16.19)

“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus,…. saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles.” (Rm 16.3, 5a)

Vale lembrar que o casal residiu (ou permaneceu algum tempo) em várias cidades: Roma, Corinto, Éfeso, Roma e, depois, em local ignorado (talvez Éfeso). Quando Paulo escreveu a Primeira Epístola aos Coríntios, em 57 dC, ele estava em Éfeso, onde Áquila e Priscila residiam.  Fica evidente na saudação de 1Coríntios 16.19 que o casal acolhia em sua casa a igreja de Cristo. Quando Paulo escreveu a Epístola aos Romanos, em 57-58 dC, ele estava em Corinto, sendo que Áquila e Priscila residiam em Roma, onde também se reunia uma igreja na casa deles. Entretanto, há estudiosos que consideram o capítulo 16 de Romanos como um apêndice de uma outra epístola escrita para Éfeso. Neste caso, o casal não estaria em Roma, mas permanecia em Éfeso.

Naquela ocasião era muito comum as igrejas locais estarem sediadas em casas e não em templos, como se vê hoje. Isso demonstra desprendimento e compromisso total do casal com o reino; com o Deus da obra e com a obra de Deus.  Colocar a nossa vida, nossa casa e nossos bens a serviço de Deus é o grande desafio do cristão. Tem tudo a ver com o renunciar qualquer coisa por amor a Cristo.

7. Um casal de espírito aberto (Rm 16.3-4)

“Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios;” (Rm 16.3-4)

a) Espírito aberto a cooperar.

Cooperação é uma ação conjunta para uma finalidade ou objetivo em comum. Fica evidente naquilo que se diz a respeito deles, o quanto viviam em sintonia e cooperação, um com o outro, o casal com o apóstolo Paulo e demais irmãos, e todos os crentes com Deus, pois fomos chamados de “cooperadores de Deus” (1Co 3.9). A igreja é chamada de “corpo de Cristo” e individualmente, membros desse corpo (1Co 12.27), para agirmos da forma como acontece no corpo humano, onde cada membro ou parte do corpo, com sua função específica, contribui para o funcionamento do todo (Ef 4.15-16). Áquila e Priscila entenderam bem essa questão e fizeram parte do rol dos cooperadores de Paulo.

b) Espírito aberto a se sacrificar.

Naquela época ser cristão era correr o risco de ser perseguido e de perder a vida. O casal Priscila e Áquila deixaram um testemunho para nós e para a história da igreja que foi muito além do risco pessoal. Tal era o comprometimento deles com Deus e com a igreja de Cristo que eles arriscaram suas vidas pelo apóstolo Paulo, gerando gratidão no coração de Paulo e em todas as igrejas que amavam, zelavam e oravam pela vida e integridade física do apóstolo dos gentios. Não sabemos exatamente como isso aconteceu.

Servir e cooperar na obra de Deus é muito bom; entretanto ser encontrado digno de sofrer ou morrer por amor a Cristo (não por ser uma pessoa inconveniente ou insuportável) e em defesa do Evangelho é galgar um nível mais elevado (At 5.41).

Conclusão:

“Saúda Prisca, e Áquila, e a casa de Onesíforo.” (2Tm 4.19)

Esta última menção de Paulo ao casal de amigos, se deu dez anos depois (67 dC). Paulo, prisioneiro em Roma (2Tm 1.8, 17) como resultado da perseguição de Nero aos cristãos, estava próximo da sua execução e morte (2Tm 4.6) quando escreveu a segunda Epístola ao seu filho na fé Timóteo. Mesmo naquelas circunstâncias ele não deixou de enviar suas saudações a Áquila e Priscila (ou Prisca), por intermédio de Timóteo. Pessoas da estatura desse casal jamais são esquecidas e ficam como exemplo a ser seguido.

Se quiséssemos encontrar frases para sintetizar o que foi esse casal na história da igreja, diríamos assim:

– Juntos, em Cristo e por Cristo.

– Trabalho e cooperação, sem murmuração.

– Conhecimento e prática a serviço da igreja de Cristo.

– Instrumentos escolhidos e capacitados por Deus para dar apoio à sua obra.

– Coragem para enfrentar sofrimento e perseguição.

– Desprendimento e disposição para ir ou para ficar, segundo a vontade de Deus.

– Resiliência e adaptação às situações da vida.

– Vida e bens à disposição do Senhor.

– Cristãos relevantes e dedicados à expansão e fortalecimento do Reino de Deus.

Finalmente, não podemos deixar de ressaltar que, ao contrário de muitos cristãos ou obreiros de hoje, que são movidos por cargos ou gratificações financeiras, não se menciona que Áquila e Priscila tivessem algum cargo eclesiástico ou recebessem alguma remuneração. Simplesmente se contentavam com o privilégio de serem servos de Deus. Estavam mais preocupados em fazer do que em serem elevados, engrandecidos; em dar, do que em receber. Que isto nos sirva de exemplo e motivação!

Bibliografia:

  1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
  2. Bíblia Online – SBB.
  3. Reese, Edward; Klassen, Frank – A Bíblia em ordem cronológica.
  4. Champlin, Russell Norman, Ph.D. – O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo – Melenium.
  5. Pfeiffer, Charles F. ; Harrison, Everett F. – Os Evangelhos e Atos – Comentário Bíblico Moody.
  6. Dicionário de Nomes Próprios (Internet).
  7. Wikipédia (Internet).

[1] Dicionário de Nomes Próprios (Internet).

[2] Claudio: Tibério Cláudio César Augusto Germânico (em latim Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus), o quarto imperador romano, sucessor de Calígula e antecessor de Nero. (Wikipédia)

ARREPENDIMENTO, a ponta do iceberg

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A família do profeta Samuel

Texto(s) base: 1Sm 1.1-28; 2.1-10

Introdução

O estudo de hoje focaliza uma família poligâmica constituída, inicialmente. assim: Elcana; suas duas esposas, Ana e Penina; e os filhos de Elcana com Penina. Apesar de ser uma família religiosa, que buscava cumprir as ordenanças da Lei Cerimonial ou Religiosa – a que determina as regras de culto a Deus – na realidade, eles não viviam em paz e harmonia; o que nos leva a pensar que se trata de uma família infeliz. Cada membro dessa família vivia a sua frustação e angústia pessoais. Penina, apesar de ter dado filhos e filhas ao seu marido, por se considerar como “a outra”; menos amada e menos agraciada no recebimento de porções para o sacrifício anual (1Sm 1.4-5). Ana, por ser estéril e por ser provocada contínua e excessivamente pela rival Penina (1Sm 1.2, 5-8). Elcana, por ter que administrar as frustrações e angústias das suas esposas. Certamente os filhos e filhas de Penina, por terem que viver num ambiente familiar tão desagradável como esse. Não é razoável que uma família que serve a Deus viva num ambiente assim!

“As ostras são animais pertencentes ao filo Mollusca e classe Bivalvia, cuja concha é dividida em duas valvas que se unem através de um ligamento. São os únicos animais capazes de produzirem as pérolas, objetos tão apreciados por joalheiros. Não são todas as espécies de ostras que conseguem produzir a pérola, sendo que as que produzem são chamadas de perlíferas, e fazem parte da família Pteriidae (de água salgada) e Unionidae (de água doce). A produção da pérola pela ostra nada mais é do que um mecanismo de defesa do animal, quando ocorre a penetração de corpos estranhos, como grãos de areia, parasitas, pedaços de coral ou rocha, entre a concha e o manto. Quando esse corpo estranho está no interior da ostra, o manto do animal envolve essa partícula em uma camada de células epidérmicas, que produzem sobre ela várias camadas de nácar, originando a pérola. O processo de fabricação de uma pérola pela ostra demora em média três anos, e geralmente elas são retiradas com 12 mm de diâmetro.” [1]

Assim como nem todas as ostras produzem pérolas, nem todas as pessoas são capazes de tirar proveito, se enriquecer e amadurecer espiritualmente quando passam por provações.

 

1. Poligamia e Esterilidade feminina.

Diante de uma narrativa como esta, não se pode deixar de analisar, inicialmente, os temas “poligamia” e “esterilidade feminina” no contexto do Antigo Testamento.

1.1 Poligamia

O termo se refere a casamento com múltiplos cônjuges. É um equívoco afirmar que a poligamia de Elcana era sinal da iniquidade daquela época. Na antiguidade a prática da poligamia era quase universal. O Antigo Testamento (AT) não fundamenta esse tipo de juízo moral. No AT, a poligamia era tolerada, porém não recomendada (Dt 21.15; 25.5-10, lei do levirato). A primeira menção de poligamia na bíblia é a de Lameque (Gn 4.19). Foram polígamos os patriarcas Abraão (Sara, Hagar e Quetura) e Jacó (Lia, Raquel, Bila e Zilpa); os reis Davi e Salomão (várias esposas e concubinas); dentre muitos outros.

Algumas informações interessantes sobre as sociedades que reconhecem, legal e religiosamente, a instituição da poligamia:

a) O ciúme maior entre as esposas não é por questões sexuais, mas pela posição social, número de filhos e favores recebidos do marido.

b) Elas preferem essa forma porque uma co-esposa provê companhia e ajuda no trabalho doméstico.

c) O número maior de esposas indica mais prosperidade financeira e prestígio social, e supre maior força de trabalho.

Outro aspecto a se levar em conta era que, na antiguidade, as inúmeras e constantes guerras dizimavam milhares de homens e desequilibrava o quadro estatístico populacional homens x mulheres.

Nas sociedades ocidentais predomina a monogamia como regime legal. Mas não se pode descartar a “poligamia informal” através de amantes e casos extraconjugais, que caracterizam o pecado do adultério.  

“Nos dias de Jesus, ainda havia a poligamia em Israel, e o divórcio era tão fácil que casamentos plurais, em sucessão, tornaram-se extremamente comuns”[2]. Poligamia e divórcios e novos casamentos fogem do ideal estabelecido por Deus e são prejudiciais à família.

A monogamia é sim o modelo instituído por Deus, desde o princípio (Gn 2.24) e ratificado por Jesus e nas epístolas do Novo Testamento (Mt 19.3-9; Mc 10.1-12; 1Co 6.16; 7.1-2; Ef 5.22-33 e 1Tm 3.2).

1.2 Esterilidade feminina

No oriente e na antiguidade a esterilidade era uma questão muito séria. A mulher estéril sofria de vergonha diante de si mesma e do povo. Na visão teológica popular daquela época uma mulher estéril estava sob juízo divino (Gn 16.2; 30.1-23; 1Sm 1.6, 19-20. Assim, a reversão da esterilidade era considerada um ato de misericórdia através da intervenção divina, como resposta à oração: “Faz que a mulher estéril viva em família e seja alegre mãe de filhos. Aleluia!” (Sl 113.9). Havia outros dois aspectos relevantes que agravavam a problemática da esterilidade, a tal ponto de fomentar, de alguma forma a poligamia. O primeiro era a questão da “imortalidade” através da continuação da linhagem física. Um israelita temia “morrer”, se sua linhagem física fosse descontinuada, devido à ausência de filhos. O segundo era a questão da herança de terras e a perpetuação do patrimônio e do nome da família.

 

2. O cenário dos acontecimentos

Os acontecimentos aqui narrados ocorreram por volta de 1126 a 1115 aC, tendo Samuel nascido em cerca de 1115 aC[3]. Na ocasião o tipo de governo de Israel era Teocrático.

Deus ->

Sacerdotes ->

Juízes ->

Povo

O cenário espiritual da época era caótico. A liderança espiritual, corrompida. Eli, o sacerdote, muito velho, inerte, acomodado, incapaz de pôr limites e de corrigir as prevaricações dos filhos (1Sm 2.22-26; 3.13), incapaz de fazer a diferença entre uma expressão de comunhão íntima com Deus e uma embriaguez (1Sm 1.12-18). Seus filhos, Hofini e Finéias, perversos, chamados de “filhos de Belial” (2.12-17), avaliados pelo Senhor como execráveis (1Sm 3.13).

Apesar desse cenário caótico, de uma liderança acomodada e corrompida, o Tabernáculo estava erguido em Silo (ou Siló), na região central de Israel, na tribo de Efraim. De Gilgal o Tabernáculo foi transferido para Silo, ali permanecendo durante todo o período dos juízes (Js 18.1). O texto bíblico descreve sua posição geográfica: “Então, disseram: Eis que, de ano em ano, há solenidade do SENHOR em Siló, que se celebra para o norte de Betel, do lado do nascente do sol, pelo caminho alto que sobe de Betel a Siquém e para o sul de Lebona” (Jz 21.19). A família de Elcana morava em Ramataim-Zofim (1Sm 1.1), cujo nome reduzido é Ramá (1Sm 1.19), região montanhosa de Efraim e não muito distante de Silo. Estava localizada a uns 15Km de Betel e 32 Km de Jerusalém.

O Tabernáculo erguido ali em Silo era o centro da adoração nacional do povo judeu, antes da construção do Templo por Salomão, algum tempo depois. A “arca da aliança”, símbolo da presença de Deus estava ali. O povo não tinha a liberdade de cultuar em qualquer lugar. A ordenança da lei é que todos deveriam celebrar festa ao Senhor três vezes no ano (Ex 23.14-19; 34.23; Dt 16.16; Lv 23): no 1º mês – Páscoa / Pães Asmos / Primícia; no 3º mês – Pentecostes; e, no 7º mês – Trombetas / Expiação / Tabernáculos.

 

3. Os personagens dessa história

3.1 Penina – Uma mulher rixosa

Pode-se deduzir da narrativa bíblica que Penina, cujo nome no hebraico significa “pedra preciosa”, “pérola” ou “coral”, o que no grego e no latim, é Margaret[4],   tinha uma religiosidade nominal. Parece que ela não fazia jus ao nome que tinha. Era do tipo que apenas acompanhava a família na ida ao Tabernáculo. Suas atitudes de provocação e zombaria para com Ana, a ponto de irritá-la e deixá-la transtornada de modo a perder o apetite, denunciava a sua falta de amor a Deus e ao próximo, pontos basilares da lei mosaica. Pode ser considerada uma mulher rixosa – aquela que tende a causar rixas, brigas; briguenta, brigona[5]. Os quatro textos sobre mulher rixosa encontrados em Provérbios parecem inspirados nesse tipo de gente. Em resumo, pode-se dizer que é melhor morar no canto do eirado, ou em terra deserta, do que junto a ela na mesma casa; pois ela é como o gotejar contínuo no dia de grande chuva (Pv 21.9, 19; 25.24; 27.15).

3.2 Elcana – Um marido pacificador

Samuel foi um personagem importante na história do povo hebreu, pois atuou como juiz, profeta e sacerdote. Na sua época ocorreu a transição do tipo de governo em Israel, de juízes, para a monarquia. Portanto, o escritor bíblico, que é o próprio Samuel, nos deixou esse importante legado biográfico de suas origens, através de seu pai Elcana e de sua mãe Ana. Elcana, que no hebraico significa “Deus se apossou”, ou “Deus criou”[6] era levita, descendente de Coate, mas não da linhagem araônica, conforme descrito na genealogia bíblica, como segue:  Samuel, filho de Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliel, filho de Toá, filho de Zufe, filho de Elcana, filho de Maate, filho de Amasai, filho de Elcana, filho de Joel, filho de Azarias, filho de Sofonias, filho de Taate, filho de Assir, filho de Ebiasafe, filho de Coré, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi (Ver 1Cr 6.33-38). Elcana, morava em Ramataim-Zofim ou Ramá, no território da tribo de Efraim, já que os levitas não herdaram terras e habitavam entre os seus irmãos, mas pertencia à tribo de Levi. Era, portanto, levita por descendência e efraimita, por residência. Foi por esse motivo que o seu filho Samuel pôde envolver-se nas atividades do tabernáculo.

Elcana tinha algumas virtudes, a saber:

a) Ele era um homem piedoso.

A narrativa bíblica diz que anualmente, ele reunia toda a família e peregrinava até Silo, para oferecer os sacrifícios ao Senhor, em obediência às ordenanças da lei.

b) Ele era um marido e pai cuidadoso.

Como sacerdote da sua casa, ele não apenas levava as esposas e os filhos. Ele oferecia o seu sacrifício e dava porções para cada membro da família. O exemplo pessoal é fundamental para a edificação da família.

c) Ele era um marido amoroso e compensador.

Como sua esposa Ana era estéril ele procurava compensar sua angústia e frustração dando-lhe porção dupla para o sacrifício, porque a amava (1Sm 1.5). Não sabemos se ele repreendia Penina por sua má conduta em relação a Ana. Nem ao menos sabemos se ele tinha conhecimento dessa provocação. Mas quando viu Ana chorando e sem querer comer, mostrou-se sensível e atencioso, e procurou oferecer-lhe apoio e consolo (1Sm 1.8). Na sua fala “– Não te sou eu melhor do que dez filhos?” fica evidenciado o quanto ele a prestigiava.

d) Ele era um marido sexualmente ativo.

Naturalmente, ele coabitou com Ana, na volta de Silo, com o propósito da procriação, mas não podemos descartar o aspecto da busca do prazer e afeto (1Sm 1.19). Este é outro aspecto que o casal não deve descuidar, para não gerar frustrações conjugais e tentações extraconjugais.

e) Ele era um marido que respeitava sua esposa.

Ele respeitou a vontade de Ana de não subir ao sacrifício anual após o nascimento de Samuel. Ele respeitou a vontade de Ana de só subir quando pudesse apresentá-lo e deixá-lo lá. Também respeitou seu voto de entregar Samuel para ficar no tabernáculo, consagrado ao serviço do Senhor (1Sm 1.21-23). Agindo assim, ele atendia plenamente à recomendação de Pedro aos maridos, quanto a ter consideração para com a sua esposa (1Pe 3.7).

3.3 Ana – Uma mulher de fé

O nome Ana significa, no hebraico, “graça”, “favor”. Ana faz parte da galeria das sete mulheres estéreis que receberam destaque na bíblia, por terem sua situação revertida, a saber: Sara, Rebeca, Raquel, a mãe de Sansão, Ana, a mulher sunamita (2Rs 4.14-16) e Isabel (a mãe de João Batista).

Alguns aspectos relevantes sobre Ana:

a) Ela era uma mulher compreensiva.

É provável que ela tenha sido a primeira esposa de Elcana. Por ser estéril e não dar filhos ao marido deve ter concordado que o marido tomasse outra esposa para lhe dar herdeiros e lhe perpetuar o nome. Não há registro bíblico sobre isso, mas é provável que tenha acontecido desta forma.

b) Ela era uma mulher atribulada de espírito (1Sm 1.15).

Primeiramente porque sua condição de esterilidade era vista naquela época como um castigo divino (1Sm 1.5). Aliado a isso havia a questão da vergonha e humilhação social, por não poder prover descendência ao marido. Por fim, para tornar as coisas insuportáveis, o desprezo e provocações da rival Penina.

c) Ela era uma mulher amada e respeitada.

Certamente, essa atitude de amor e respeito por parte do seu marido foi fundamental para ela conseguir suportar as adversidades e aflições decorrentes da sua situação de esterilidade e provocação doméstica. 

d) Ela era uma mulher de oração.

Acima de tudo, porém, ela colocou sua confiança e fé em Deus. Num tempo de apagão espiritual, ela resolveu não olhar para a liderança espiritual apóstata e corrompida do Tabernáculo. Antes, porém, na sua ansiedade e aflição (1Sm 1.16) buscou a Deus em fervente oração, derramando a sua alma perante o Senhor (1Sm 1.15). Somos orientados pelos apóstolos Paulo e Pedro a agir como Ana: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.” (Fp 4.6); “lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (1Pe 5.7).

e) Ela era uma mulher fiel.

Na sua angústia e aflição Ana foi além, não apenas orou e chorou, mas fez um voto ao Senhor. Se o Senhor lhe desse um filho varão ela o entregaria a ele como “nazireu”, isto é, separado e consagrado a Deus (1Sm 1.10-11). O Senhor ouviu o seu clamor e atendeu à sua oração. E, no tempo certo ela cumpriu o seu voto (1Sm 1.24-28). Quantas pessoas, em momentos de aflição e angústia, fazem tantas promessas a Deus. Porém, quando passa a tempestade existencial, se esquecem completamente dessas promessas e compromissos. Assim, continuam a viver vidas vazias de propósito, cheias de problemas.

f) Ela era uma mulher de louvor.

Depois de entregar seu filho, Ana mostra que além de ser uma mulher de fé, temente a Deus, era grata. Anteriormente ela havia derramado o seu coração diante de Deus, silenciosamente, agora, ela ora, provavelmente de forma audível, diante da congregação, expressando seu louvor a Deus: por sua santidade e unicidade (ou singularidade)(1Sm 2.2); por sua sabedoria (1Sm 2.3); por sua soberania e poder, sobre pessoas e circunstâncias (1Sm 2.4-8); e, pelo seu juízo (1Sm 2.9-10). Aqueles que desfrutam de plena comunhão com Deus, são por ele ouvidos e sustentados, vivendo para a glória do seu nome.

g) Ela era uma mulher recompensada.

A sua fidelidade, no cumprimento do seu voto, bem como a sua atitude de louvor e exaltação a Deus não passaram despercebidos. O Senhor a abençoou e a recompensou com a concepção e nascimento de mais três filhos e duas filhas. Sem dúvida, ela deixa um exemplo de mulher vitoriosa!

Conclusão:

a) Havia convergência de interesses:

Ana precisava de um filho e Deus de um líder (Fp 2.13). A vida só tem sentido se estiver repleta de “Propósitos Divinos”. Deus “precisa” de pessoas para executarem o que está no seu coração e na sua mente (1Sm 2.35). Às vezes, nossas orações não são atendidas porque são egoístas: “..pedis e não recebeis porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3)

b) Havia uma parceria de sucesso:

– Ana fez a sua parte – coabitou com seu marido (1Sm 1.19)

– Deus fez a parte dele – liberou o seu ventre (1Sm 1.19)


[1] Mundo educação: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/biologia/formacao-uma-perola.htm

[2] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo.

[3] Reese, Edward; Klassen, Frank – A Bíblia em Ordem Cronológica. Ed. Vida, 2003

[4] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo.

[5] Wikipédia.

[6] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo.

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