Eventos mortais, na Bíblia

Introdução

Ao longo da história humana, a morte em larga escala tem sido uma realidade recorrente. Registros da história secular descrevem guerras devastadoras, conflitos civis, conquistas territoriais e episódios de violência que ceifaram milhões de vidas. De impérios antigos a conflitos mais recentes, a humanidade carrega marcas profundas de sua própria capacidade de destruição. Esse cenário evidencia que a violência coletiva não é um fenômeno isolado, mas parte constante da trajetória humana em um mundo marcado por disputas, pecado e ruptura moral.

Dentro desse contexto, o relato bíblico não se apresenta como uma narrativa desconectada da realidade histórica, mas como um testemunho inserido nela. Ao longo das Escrituras, encontramos diversos episódios em que ocorreram muitas mortes, seja por guerras, juízos divinos, rebeliões ou consequências diretas do comportamento humano. Desde o Dilúvio em Gênesis até os juízos descritos em Apocalipse, a Bíblia não oculta a gravidade da violência, mas a expõe com sobriedade e propósito.

Entretanto, diferentemente de muitos registros puramente históricos, a Bíblia não apresenta esses eventos apenas como dados ou estatísticas. Cada episódio está inserido em uma perspectiva teológica que aponta para a justiça divina, a seriedade do pecado e, ao mesmo tempo, a necessidade de arrependimento e redenção. Assim, os “eventos mortais” nas Escrituras não devem ser lidos apenas como relatos de destruição, mas como advertências espirituais e revelações do caráter de Deus diante da condição humana.

Portanto, ao abordar o tema “EVENTOS MORTAIS, NA BÍBLIA”, é importante compreender que tais registros não são exceção, mas refletem uma realidade já amplamente observada na história humana. A diferença está no significado: enquanto a história secular descreve os fatos, a Bíblia os interpreta à luz de um propósito maior, convidando o leitor à reflexão, ao temor e à busca por vida em Deus.

A seguir, apresentamos duas tabelas (usando a versão ARA) com alguns dos eventos bíblicos em que ocorreram grandes números de mortes, considerando as descrições e referências das Escrituras. Vale lembrar que os números exatos nem sempre são informados e, em muitos casos, utilizamos termos como “incalculáveis” ou “completa destruição” para refletir a dimensão dos acontecimentos:

1. EVENTOS MORTAIS, NO ANTIGO TESTAMENTO

DESCRIÇÃO RESUMIDA DO EVENTOREFERÊNCIA BÍBLICA (ARA)QUANTIDADE DE MORTOS (aproximada)
Juízo global de Deus através do Dilúvio, preservando apenas Noé e sua família.Gênesis 6 a 9Toda a humanidade, exceto 8 pessoas (milhões, estimado)
Juízo divino com destruição das cidades de Sodoma e Gomorra por causa da corrupção moral extrema.Gênesis 19Incalculável (toda a população das cidades)
Morte dos primogênitos do Egito como juízo final para libertação de Israel (décima praga).Êxodo 12.29-30Incalculável (provavelmente dezenas de milhares)
Destruição do exército egípcio, por afogamento, ao atravessar o Mar Vermelho em perseguição a Israel.Êxodo 14.27-28Incalculável (provavelmente milhares)
Execução de idólatras após o episódio do bezerro de ouro no deserto.Êxodo 32.27-28Cerca de 3.000 homens
Rebelião de Corá, Datã e Abirão, seguida de juízo divino e praga no arraial.Números 16.31-35, 49Cerca de 14.950 (250 + 14.700)
Praga em Israel por causa da idolatria e imoralidade com os moabitas (Baal-Peor).Números 25.9 (1Coríntios 10.8)24.000 (23.000) pessoas
Guerra contra os midianitas como juízo divino, com destruição dos homens e parte da população.Números 31.7-17Incalculável (milhares)
Destruição completa da cidade de Jericó na conquista da Terra Prometida.Josué 6.21Incalculável (toda a população da cidade)
Derrota de Israel em Ai (primeira tentativa)Josué 7.5Cerca de 36 homens
Extermínio dos habitantes de Ai após derrota inicial de Israel por causa do pecado de Acã.Josué 8.2512.000 pessoas
Campanhas militares de Josué contra reis cananeus na conquista de Canaã.Josué 10 a 12Incalculável (milhares)
Vitória inicial de Judá sobre cananeus e ferezeus com grande mortandade.Juízes 1.410.000 homens
Libertação de Israel por Eúde com derrota significativa dos moabitas.Juízes 3.2910.000 homens
Derrota massiva dos midianitas nos dias de Gideão após intervenção divina.Juízes 8.10120.000 homens
Abimeleque, filho de Gideão, mata seus “70” irmãos para reinar em Siquém.Juízes 9.1-6Provavelmente 69 homens mortos, pois o mais novo, Jotão, escapou.
Destruição da torre de Siquém por Abimeleque, queimando seus ocupantes.Juízes 9.49Cerca de 1.000 pessoas
Matança dos efraimitas nos vaus do Jordão durante conflito com os gileaditas (fogo amigo).Juízes 12.642.000 (homens ?)
Mortes causadas por Sansão, incluindo batalha com queixada e destruição do templo filisteu.Juízes 15.15-16; 16.27-30Cerca de 4.000 (1.000 + 3.000)
Guerra civil em Israel após o crime de estupro e morte da concubina do homem levita, quase extinguindo os homens da tribo de Benjamim.(*)Juízes 19 e 20Cerca de 65.130 homens:
(Israel = 40.030) (Benjamim = 25.100)
Massacre em Jabes-Gileade, por não terem enviado tropas contra a tribo de Benjamim, ainda como consequência da morte da concubina.Juízes 21.10-12400 virgens poupadas; restante morto (não totalizado)
Primeira derrota de Israel para os filisteus antes da captura da Arca, nos dias do sacerdote Eli.1Samuel 4.2Cerca de 4.000 homens
Grande derrota de Israel com a captura da Arca da Aliança pelos filisteus.1Samuel 4.1030.000 homens
Campanhas de Davi contra os sírios (aramitas) consolidando seu reino.2Samuel 8.5
1Crônicas 18.5
22.000 homens
Vitória de Davi sobre os edomitas no Vale do Sal.2Samuel 8.13
1Crônicas 18.12
18.000 homens
Derrota dos sírios aliados dos amonitas nas guerras de Davi.2Samuel 10.18
1Crônicas 19.18
40.000 homens
Guerra interna no reinado de Davi contra o seu filho Absalão, com grande mortandade.2Samuel 18.720.000 homens
Peste enviada por Deus, na sua ira, após censo realizado por Davi.2Samuel 24.15  1Crônicas 21.1470.000 pessoas
Execução dos profetas de Baal durante o confronto com o profeta Elias em Jezreel.1Reis 18.19, 40450 profetas de Baal
Vitória de Israel contra os sírios com grande mortandade em batalha campal.1Reis 20.29100.000 homens
Morte adicional causada pela queda de um muro na cidade de Afeca.1Reis 20.3027.000 homens
Massacre ordenado por Jeú contra a casa de Acabe.2Reis 10.7, 1770 filhos de Acabe + outros (não totalizado)
Vitória de Amazias sobre os edomitas no Vale do Sal.2Reis 14.7
2Crônicas 25.11
10.000 homens
Destruição sobrenatural do exército assírio que sitiava Jerusalém.2Reis 19.35
Isaías 37.36
185.000 homens
Queda de Jerusalém pelos babilônios com destruição e deportação.2Reis 25Não especificado
Grande guerra entre Judá e Israel com enorme número de mortos.2Crônicas 13.17500.000 homens
Vitória dos filhos de Judá sobre os edomitas, com execução de prisioneiros lançados do cume de um penhasco.2Crônicas 25.1210.000 homens
Ataques de tropas israelitas contra cidades de Judá com destruição e mortes.2Crônicas 25.133.000 pessoas
Mortandade em Judá causada por Israel nos dias do rei Peca.2Crônicas 28.6120.000 homens
Judeus matam seus inimigos em legítima defesa nos dias da rainha Ester.Ester 9.1675.000 pessoas

(*) Quanto ao caso da morte da concubina (Juízes 19 e 20), vale ressaltar os seguintes números:

⚔️A força de guerra da tribo de Benjamim, mais os de Gibeá, contava com 26.700 homens (Jz 20.15). No conflito foram mortos 18.000 (Jz 20.44), mais 5.000 e 2.000 (Jz 20.45), totalizando cerca de 25.000 homens (Jz 20.46) ou 25.100 homens (Jz 20.35).

⚔️ A força de guerra de Israel, fora a tribo de Benjamim, contava com 400.000 homens (Jz 20.17). No conflito foram mortos 22.000 (Jz 20.21), mais 18.000 (Jz 20.25), mais uns 30 (Jz 20.31), totalizando cerca de 40.030 homens.

2. EVENTOS MORTAIS, NO NOVO TESTAMENTO

DESCRIÇÃO RESUMIDA DO EVENTOREFERÊNCIA BÍBLICA (ARA)QUANTIDADE DE MORTOS (aproximada)
Morte dos meninos com menos de 2 anos, em Belém e arredores, ordenada por Herodes, o Grande, tentando eliminar o Messias.Mateus 2.16Não especificado (provavelmente dezenas ou centenas)
Execução de João Batista por ordem de Herodes Antipas.Mateus 14.1-12
Marcos 6.14-29
1 (João Batista)
Galileus mortos por Pilatos.Lucas 13.1Vários
Mortos, acidentalmente, com o desabamento da Torre de Siloé.Lucas 13.418 pessoas
Destruição de Jerusalém (profecia). Não narrado no NT.Mateus 24 Lucas 21Centenas de milhares (histórico)
Crucificação de Jesus Cristo.Mateus 27 Marcos 15 Lucas 23 João 191 (Jesus Cristo)
Morte de Judas Iscariotes após trair Jesus.Mateus 27.3-5
Atos 1.18
1 (Judas Iscariotes)
Morte súbita de Ananias e Safira por mentirem ao Espírito Santo.Atos 5.1-102 (Ananias e Safira)
Martírio de Estevão por apedrejamento.Atos 7.54-601 (Estêvão)
Execução de Tiago, filho de Zebedeu por ordem de Herodes Agripa I.Atos 12.1-21 (Tiago, irmão de João)
Morte de Herodes Agripa I ferido por um anjo do Senhor.Atos 12.20-231 (Herodes Agripa I)
Juízos descritos na abertura dos selos (guerras, fome, morte) (profecia).Apocalipse 6.8Cerca de 1/4 da humanidade
Juízos das trombetas com destruição em massa (profecia).Apocalipse 9.18Cerca de 1/3 da humanidade
Guerras e juízos finais contra as nações rebeldes (profecia).Apocalipse 16 e 19Não especificado (grande mortandade)

No Novo Testamento não há tantos registros de eventos com muitas mortes. Mesmo assim, mencionamos acima alguns casos com poucas mortes ou mortes individuais, incluindo a mais importante de todas, a do Filho de Deus.   

Conclusão

Desde Caim, que matou seu irmão Abel (Gn 4.8), a história humana é marcada pela realidade da morte: homens mataram e homens foram mortos. Ao longo dos séculos, levantaram-se conflitos, guerras e violências; homens oprimiram, e homens também lutaram e morreram para proteger suas famílias e seu povo. A Escritura revela que a raiz dessa tragédia está na rebelião e no pecado humano. Por isso, há momentos em que o próprio Deus executa juízo ou ordena juízos, manifestando sua justiça diante da corrupção humana (Gn 6 e 7; Nm 25.9).

Contudo, já no início da história, vemos também a manifestação da graça divina. Após a queda, Deus providenciou para Adão e Eva uma cobertura (Gn 3.21), não apenas física, mas carregada de significado espiritual. As vestes de peles indicam que um animal foi sacrificado, apontando para o princípio de que a vida seria dada para cobrir a culpa. Assim, desde o Éden, a narrativa bíblica não apenas expõe a realidade da morte causada pelo pecado, mas também revela a iniciativa de Deus em restaurar a comunhão com o ser humano, antecipando, de forma simbólica, a redenção futura.

Ao percorrermos as Escrituras, percebemos um contraste marcante entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento no que diz respeito aos registros de mortes. No Antigo Testamento, são numerosos os episódios em que multidões perecem, seja por juízos diretos de Deus, guerras ou pelas consequências do próprio pecado humano (Gn 6 e 7; Nm 16.49; 2Cr 13.17). Esses relatos evidenciam a gravidade do pecado e a justiça divina diante de uma humanidade em constante rebelião.

Já no Novo Testamento, embora ainda existam registros de morte, eles são bem menos frequentes e, em sua maioria, pontuais. No entanto, destaca-se um evento absolutamente singular: a morte de Jesus Cristo. Diferente de todos os demais casos, ele, sendo sem pecado (1Pe 2.22), morreu pelos pecadores, oferecendo-se como sacrifício substitutivo: “Cristo morreu pelos nossos pecados” (1Co 15.3), e “o justo pelos injustos” (1Pe 3.18). Assim, uma única morte assume um significado infinitamente maior do que as muitas mortes registradas anteriormente, pois nela está o fundamento da redenção.

Essa obra redentora encontra seu pleno alcance revelado no Apocalipse, onde não apenas aparecem juízos, mas também a gloriosa visão de uma multidão incontável de salvos: “vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro,” (Ap 7.9), aqueles que “lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro,” (Ap 7.14).

Dessa forma, enquanto no Antigo Testamento vemos muitas mortes como consequência do pecado, no Novo Testamento contemplamos a morte única e suficiente de Cristo como provisão de vida. E, em Apocalipse, vislumbramos o resultado dessa obra: não uma multidão de mortos, mas uma multidão de redimidos, alcançados pela graça de Deus por meio do sacrifício de seu Filho.

“Ao Senhor, nosso Deus, pertence a misericórdia e o perdão, pois nos temos rebelado contra ele” (Dn 9.9)

Cuidado, não despreze o Antigo Testamento (AT)

AT x NT1

Nenhum cristão autêntico desconhece o fato de que vivemos debaixo da Graça, na Nova Aliança estabelecida por Jesus Cristo, na cruz do Calvário, há quase dois mil anos atrás. A primeira vinda do Senhor Jesus inaugurou um novo tempo e estabeleceu um divisor de águas. O desabrochar desse novo momento histórico, mais precisamente o primeiro século da era cristã, está registrado nas páginas do Novo Testamento (NT), da Bíblia. Podemos afirmar seguramente que são os ensinamentos e doutrinas contidos no NT que fundamentam a vida do cristão e da igreja de Cristo. Entretanto, concluir daí, que o Antigo Testamento (AT) não precisa mais ser lido e estudado, não deve ser usado em pregações à igreja etc etc é, no mínimo, um grande equívoco. Nossa intenção neste artigo é mostrar o quanto o AT é, e sempre há de ser, importante e valioso para o cristão. Resumir 3600 anos nessas poucas linhas foi o grande desafio ao escrever este artigo. Vou compartilhar com você apenas dez razões pelas quais você precisa repensar sua relação com o AT:

1. As Alianças de Deus

A palavra portuguesa “testamento” corresponde à palavra hebraica berith, que significa “aliança”, “pacto”, “acordo”. O AT e o NT contém os registros das Alianças de Deus com a raça humana. Uma Aliança é um pronunciamento soberano de Deus, através do qual ele estabelece um relacionamento de responsabilidade entre ele mesmo e um indivíduo ou uma família ou uma nação ou parte da humanidade ou a humanidade em geral. Segundo alguns estudiosos, são oito as Alianças estabelecidas por Deus, sendo que sete estão no AT e uma no NT. As do AT são: 1ª) A Edêmica (Gn 1.28; 2.15-17); 2ª) A Adâmica (G.3.15-21); 3ª) A Noética (Gn 9.1-17); 4ª) A Abraâmica (Gn 12.1-3); 5ª) A Mosaica, também chamada de Antiga Aliança (Ex. 19.1-25; Gl 3.17); 6ª)A Palestiniana (Dt 28.1 a 30.3) e a 7ª) A Davídica (2Sm 7.16; Lc 1.32-33). A que se encontra no NT é a 8ª) A Nova Aliança (Hb 8.6-13; Gl 3.24), bem conhecida da igreja de Cristo. Nem preciso defender a importância de conhecer o que Deus estabeleceu em cada uma dessas Alianças, como os seres humanos envolvidos responderam ao que foi estabelecido por Deus e como Deus reagiu à resposta humana!!! Que riqueza de informação! Isso nos dá uma visão mais clara de “quem é o ser humano” e de “quem é o nosso soberano Deus”; e a maior parte dessas Alianças se encontra no AT.

2. Nossas origens

É relevante observar a extensão do AT, a partir da valiosa declaração de Jesus aos escribas e fariseus: “para que desta geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus.” (Lc 11.50-51a). Portanto, vai do livro de Gênesis, o primeiro do cânon hebraico, onde está registrada a fundação do mundo e a morte de Abel, até Crônicas, o último livro do cânon hebraico, onde é mencionada a morte de Zacarias (2Cr 24.20-21, nas bíblias em português). Os 24 livros do cânon hebraico[1] correspondem aos 39 do AT, da nossa Bíblia em português. Ressalte-se que Jesus excluiu os Livros Apócrifos (inseridos na Bíblia Católica), os quais já existiam naquela época.

Assim, no primeiro livro do AT, Gênesis, encontramos a mais extraordinária revelação da criação do mundo e de tudo o que nele há. É claro que a Bíblia não é um livro de exposição do saber científico, mas tal informação é única e totalmente confiável. Jamais ceda à pressão dos evolucionistas ou dos anticriacionistas de tratar essas narrativas como lendas!!! Já estive envolvido no estudo da questão Criação x Evolução e posso assegurar que a TEORIA DA EVOLUÇÃO é uma falácia que não se sustenta cientificamente (não é ciência, porque não pode ser reproduzida a partir de experimentos controlados em laboratório). Não tenha vergonha da verdade divina. Leia, releia, confie e defenda essa revelação divina. Há boa literatura criacionista disponível; vale a pena conferir.

3. Milagres espetaculares

A crítica bíblica de ontem, de hoje e de sempre, aliada aos opositores da Palavra de Deus, tentarão ridicularizar os milagres bíblicos, principalmente os do AT: as dez pragas no Egito, a abertura do Mar Vermelho ou a do Rio Jordão, colunas de nuvem ou de fumaça (no céu), maná e codornizes que caem do céu e águas que jorram de pedras feridas com vara, as peripécias de Sansão, machados que flutuam, jumento que fala, os amigos de Daniel na fornalha, Daniel na cova do leões, Jonas no ventre do grande peixe etc etc. Uma forma sutil e ardilosa, porém cruel, de tentar desacreditar a Bíblia é infiltrar e mesclar elementos ou fenômenos naturais que “coincidentemente” teriam atuado naquelas ocasiões. Assim, sugerem eles que pessoas simplórias e com grande imaginação se encarregaram de “criar os milagres”. Podem dizer o que quiserem, mas nós continuaremos lendo o AT e crendo no poder de Deus manifestado ao longo da história! Não foi por acaso que Jesus se referiu a alguns desses milagres. Se o nosso Mestre acreditava neles, eu também acredito! Veja, por exemplo: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40). Não vamos nos sentir intimidados pelos racionalistas e secularistas que nos rodeiam, pois estes não conhecem o Deus altíssimo!

4. Histórias emocionantes e edificantes

Se a Bíblia é feita de registros de alianças, por que não é uma lista interminável de cláusulas, como num contrato? A sabedoria divina é admirável e a Palavra de Deus reflete isso e muito mais. Deus preferiu utilizar a pedagogia e o poder inimaginável de uma história, para passar conteúdos relevantes e práticos, de forma direta e vívida. A vida é feita de histórias e há impressionantes histórias de vida. O AT é repleto de histórias que emocionam, edificam e são capazes de afetar, de moldar o caráter do leitor, ou, pelos menos torná-lo sensível a alguns princípios, influenciando comportamentos. Muitas vezes uma história fala mais profundamente ao coração do que um sermão moralista. Jesus não se desviou do estilo divino; ele doutrinou através de histórias e parábolas e, nos deixou muitas histórias para este mesmo propósito. Como deixar de ler, não apreciar, não deixar-se influenciar pelas impressionantes histórias contidas no AT? A história do dilúvio, dos patriarcas (Jó, Abraão, Isaque, Jacó, José), de Moisés e Josué, de Elias e Eliseu, de Samuel, Davi, Daniel, Rute, Ester, Neemias etc etc. Estas e tantas outras são pedras preciosas dadas pelo nosso Deus a humanidade. Até mesmo muitos não cristãos as apreciam e as consideram verdadeiras pérolas literárias.

5. Uma lei à frente do seu tempo

dez mandamentos

Todo povo e nação precisa do seu sistema legal. Que povo teve o privilégio de receber diretamente de Deus um sistema de leis tão completo como a legislação mosaica?

Quando os descendentes de Jacó se tornaram numerosos. Quando foram libertos do jugo do Egito pela mão do Senhor Deus, sob a liderança de Moisés e Arão. Quando emancipados se tornaram uma nação. Ali, ao pé do monte Sinai, receberam a lei que os permitiria ter o status de uma verdadeira nação. A lei é uma, e toda a lei é espiritual, quer trate de colheitas, criminosos ou adoração. No entanto é conveniente considerá-la em três divisões:

– Lei Moral (os dez mandamentos) – A que manda fazer o bem e evitar o mal;

– Lei Civil ou Social – A que regula as mútuas relações entre os cidadãos;

– Lei Cerimonial ou Religiosa – A que determina as regras de culto a Deus.

Obs.: A Lei Judicial ou Criminal ou Penal, que define os delitos e determina a forma de os punir, está entrelaçada com a Lei Civil.

É claro que essa Lei foi dada a Moisés no contexto dos costumes de um povo (Israel) e de uma época (cerca de 1462 a.C.), ou seja, há aproximadamente 3500 anos atrás. Quando eu era jovem, fiquei bem impressionado com a leitura do livro “A provisão divina para sua saúde” (S. I. McMillen M. D. – Editora Fiel). O autor aborda aspectos sanitários e de prevenção de enfermidades e epidemias já presentes nessa legislação mosaica, muito à frente do seu tempo e da literatura com a qual Moisés teve contato na corte do Egito, a potência cultural da época. Certamente há muitas leis ali que não fazem mais sentido hoje, mas não se pode negar que tantas outras foram o embrião das legislações que existem pelo mundo afora. É bastante enriquecedor ler e reler essa legislação mosaica no AT!

Vale aqui ressaltar que a essência da lei se encontra nos dez mandamentos. É o que chamaríamos hoje de “Constituição da humanidade”. Estabelece os princípios do governo divino.

“Certo rabino frisa que existem 613 mandamentos de Moisés (248 afirmativos e 365 negativos); mas que Davi reduziu-os a 11 conceitos principais (Sl 15.2-5); Isaías a apenas 6 (Is 33.15); Miquéias a 3 (Mq 6.8); Amós a 2 (Am 5.4) e Habacuque a apenas 1 (Hc 2.4). A regra áurea é o mais perfeito desses sumários.” A essência da essência de toda a Lei foi definida por Jesus. Ao ser perguntado por um intérprete da lei, Jesus a resumiu em dois grandes mandamentos: “amar a Deus” e “amar ao próximo” (Mt 22.34-40).

6. Reis e reinados

Quando se lê a história dos reis de Israel, antes e depois da divisão do reino, tem-se a real dimensão da influência dos governantes e dos líderes espirituais sobre o povo, bem como as consequências disso. Quando se levantavam reis e sacerdotes tementes a Deus, que combatiam as práticas pecaminosas e contrárias à vontade de Deus e incentivavam a obediência e adoração somente a Deus, o resultado era vitória contra os povos inimigos, seguida de paz e prosperidade. Quando os governantes e sacerdotes eram maus, a derrota e destruição era certa. A simples leitura dessas histórias é extremamente proveitosa; ajuda-nos a manter a vigilância e obediência à vontade do Senhor Deus, pois os resultados não serão diferentes hoje. É só lembrar da “lei da colheita” conforme a semeadura.

7. Sabedoria e Poesia

Os livros poéticos e de sabedoria no AT são simplesmente maravilhosos! Trazem verdadeiro deleite para a alma e muita orientação prática e proveitosa para a vida cotidiana. Somente tropeça nas questões mais básicas e elementares do viver diário quem não quer se apropriar de tais ensinos e instruções. Por exemplo, em Provérbios, há orientações e dicas em abundância, começando com a dica principal: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9.10). Além disso, quanta poesia Inspirada e inspiradora pode ser encontrada nos Salmos. É claro que não posso deixar de expressar aqui o meu veemente repúdio àquelas “modernas” traduções (NTLH e outras) que subtraem do texto bíblico original sua preciosa poesia!!!

8. Juízos, Violência e Imprecações

Você já deve ter ouvido falar, ou até dito, que “o Deus do AT não é o mesmo do NT”. As narrativas encontradas nos dois testamentos parecem servir de base para estas visões antagônicas de um mesmo Deus, único e verdadeiro, Criador dos céus e da terra. É, também, mais uma razão para alguns se apegarem mais ao NT, desprezando o AT. Afinal, quem se sentiria confortável na presença de um Deus que não abre mãos da prática da justiça e da punição do pecado. Preferem, antes, um Deus que é amor, compassivo e misericordioso. Muitos são os julgamentos e punições, individuais e coletivos, registrados no AT. Já começa no Gênesis com Adão e Eva, Caim, A Torre de Babel, O Dilúvio, Sodoma e Gomorra, A mulher de Ló. Deus se manifesta no Êxodo como um trator passando por cima de Faraó, seus deuses e seu povo, através das dez pragas. No AT, a ordem do dia e de cada dia era “Perfeito serás para com o Senhor teu Deus” (Dt 18.13). Sua presença é aterradora; só Moisés podia se aproximar dele e o Monte Sinai fumegava (Ex 19.18). Trovões e relâmpagos anunciavam sua presença e o povo, à distância, estremecia (Ex 19.16). Deus manda Israel eliminar vários povos (homens, mulheres, jovens, velhos e crianças) para que o seu povo, Israel, ocupasse aquelas terras, porque havia se enchido a medida da iniquidade deles (Gn 15.16; Lv 18.24-25; Dt 9.5). E, esse mesmo tom, continua por todo o AT. Dentre os do seu próprio povo, os transgressores da lei eram condenados à morte, até mesmo por transgredir o descanso do sábado ou tentar segurar a Arca para que não caísse. Por fim, o Israel dividido (Samaria e Judá) é destroçado e levados para o exílio pela Assíria e Babilônia, como castigo divino pela rebeldia aos mandamentos do Senhor.

Em muitos Salmos e textos do AT há um tom de imprecação. A oração imprecatória não soa bem aos ouvidos cristãos. Diante da maldade, da opressão, da violência ou da injustiça, não só clamavam ao Senhor por suas vidas, mas também pediam a Deus que fizesse cair sobre os seus inimigos os piores males. Assim, se unem numa mesma oração, as súplicas mais ardentes e as mais violentas imprecações (Sl 58.6-11; 83.9-18; 109.6-19; 137.7-9).

Contrapondo-se a todo este cenário do AT, chegamos ao NT e nos deparamos, por exemplo, com o registro de uma mulher apanhada em flagrante adultério e trazida aos pés de Jesus. Segundo a Lei ela deveria morrer apedrejada, mas Jesus a perdoa e lhe diz: “vai e não peques mais” (Jo 8.3-11). Assim, o NT expressa a imagem de um Deus de amor, perdoador e misericordioso. Um Pai que quer ver os filhos obedecendo, não pela força do castigo, mas pelo apelo do amor.

Como entender esses juízos, violência e imprecações? A figura abaixo sintetiza bem o modus operandi de Deus, no AT e no NT, segundo minha visão teológica:

Pecou x Pagou

De fato, na época do AT, naquele contexto, prevalecia no âmbito do povo de Israel o conceito de que a obediência a Deus e aos seus mandamentos, deveria ser recompensada na vida presente, com longevidade e prosperidade; enquanto os transgressores da lei mosaica (judeus) e os ímpios (pagãos) deveriam receber o seu justo castigo o quanto antes, para que ficasse evidente que há um Deus vivo e presente, retribuindo a cada um conforme suas ações: Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos; e dá o pago diretamente aos que o odeiam, fazendo-os perecer; não será demorado para com o que o odeia; prontamente, lho retribuirá.” (Dt 7.9-10; ver tb, Sl 7.9; 37.28; 75.10; 58.11).

É um grave equívoco achar que o “Deus do AT” é um Deus intolerante ao pecado e punidor, enquanto o “Deus do NT” é um Deus tolerante ao pecado e perdoador!!!  O Deus único e soberano a quem servimos é três vezes Santo, Puro e Justo; sempre amará o pecador e sempre condenará e punirá o pecado, quer seja imediatamente (AT), quer nos juízos que estão por vir (NT). Esse modus operandi de Deus, no NT, não significa indiferença frente ao mal, passividade quando triunfam a injustiça, a violência, a opressão aos mais fracos e o desprezo ao sagrado. Vale lembrar, ainda, que o nível de exigência no NT é superior ao do AT. Enquanto a lei enquadrava o ato consumado, Jesus revisitou o texto legal original “ouvistes o que foi dito” para enquadrar, como pecado, o pensamento ou a intenção do ato (Mt 5.21-22; 27-30 etc.).

É importante ressaltar que tanto no AT como no NT há um “sistema de perdão”, de expiação de pecados. No AT, o pecador deveria confessar o seu pecado impondo as mãos sobre o animal, que, em seguida, era sacrificado. É muito interessante registrar aquele episódio em que o perverso rei Acabe sensibilizou a Deus, que adiou o juízo sobre sua casa, porque se humilhou perante ele (1Rs 21.29). No NT, Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Ele morreu, e com um único e perfeito sacrifício pode expiar o pecado que nos leva à morte eterna e os pecados cometidos e confessados após a conversão. Também é interessante lembrar que mesmo no contexto do NT, Ananias e sua esposa Safira foram punidos com morte imediata, no início da igreja, porque mentiram ao Espírito Santo (At 5.1-11). Podemos considerar que ocorrências como esta, ou a da punição com cegueira de Elimas, o mágico, pelo apóstolo Paulo (At 13.8-11) foram casos isolados, pois, a partir do NT, vivemos a era da graça e longanimidade de Deus, abrindo a oportunidade de salvação a todos e, deixando para o dia do juízo final a condenação e punição dos impenitentes. Entretanto, ninguém se iluda; o pecado sempre será odioso aos olhos de Deus: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14). Não custa lembrar que, apesar do juízo divino estar “temporariamente suspenso” Deus é soberano para realizar intervenções ou juízos pontuais, quando ele assim o desejar. Também não é demais lembrar que, mesmo que o juízo divino não ocorra imediatamente, cada um sofrerá compulsoriamente as consequências naturais dos atos que praticar!

9. Promessas e Profecias

 Nosso Deus é tão maravilhoso que se chega a nós, simples mortais, e faz alianças que contém preciosas promessas. Para os que permanecem fiéis no cumprimento de sua parte nesses pactos, a bênção é garantida. É confortante e motivador ler o AT e nos depararmos com as inúmeras promessas divinas ali registradas e, na linha do tempo, constatar o seu fiel cumprimento. O mesmo se pode dizer das inúmeras profecias reveladas e já realizadas ou cumpridas. Mas há, também, no AT, aquelas relevantes profecias previstas para os últimos dias, que ajudam a clarear o entendimento das profecias do NT, nesta mesma linha. O livro de Daniel é uma preciosidade, neste sentido. Os juízos e punições de Deus registrados no AT são “fichinha” se comparados com o que está por vir, registrado no NT!

 10.   Figura e Realidade

 No processo de educação infantil é comum trabalhar o concreto e depois o abstrato. De certa forma Deus trabalhou com Israel, o seu povo do AT, o concreto; para que a igreja, o seu povo do NT, entendesse o abstrato, as realidades espirituais. É impressionante a quantidade de figuras presentes no AT cuja realidade está expressa no NT; ou de tipos, no AT, cujos antítipos estão no NT.  A palavra antítipo literalmente quer dizer: correspondente ao tipo. Jesus fez várias referências a tipos do AT, sendo que em alguns casos, ele mesmo é o antítipo: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40) “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” (Jo 3.14-15). Como é abençoador comparar uns com os outros! Como o conhecimento de um ajuda a entender melhor o outro.

Conclusão:

Por que se contentar com menos? Por que perder o início do filme se você pode ver o filme todo e entende-lo melhor? Eu amo a Bíblia toda, a preciosa e incomparável Palavra de Deus!

Se você não tem tempo ou interesse na leitura e estudo de toda a Bíblia, de participar da Escola Bíblica Dominical ou de algum grupo de estudo bíblico, precisa urgentemente reavaliar sua vida espiritual, sua relação com Deus e até que ponto ama e está disposto a conhecer e obedecer a sua Palavra.


[1] Cânon hebraico: LEI (5 Livros), PROFETAS (8 Livros) e ESCRITOS (11 Livros) – Introdução Bíblica, J. Cabral, pgs. 75 e 76