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Cuidado, não despreze o Antigo Testamento (AT)

AT x NT1

Nenhum cristão autêntico desconhece o fato de que vivemos debaixo da Graça, na Nova Aliança estabelecida por Jesus Cristo, na cruz do Calvário, há quase dois mil anos atrás. A primeira vinda do Senhor Jesus inaugurou um novo tempo e estabeleceu um divisor de águas. O desabrochar desse novo momento histórico, mais precisamente o primeiro século da era cristã, está registrado nas páginas do Novo Testamento (NT), da Bíblia. Podemos afirmar seguramente que são os ensinamentos e doutrinas contidos no NT que fundamentam a vida do cristão e da igreja de Cristo. Entretanto, concluir daí, que o Antigo Testamento (AT) não precisa mais ser lido e estudado, não deve ser usado em pregações à igreja etc etc é, no mínimo, um grande equívoco. Nossa intenção neste artigo é mostrar o quanto o AT é, e sempre há de ser, importante e valioso para o cristão. Resumir 3600 anos nessas poucas linhas foi o grande desafio ao escrever este artigo. Vou compartilhar com você apenas dez razões pelas quais você precisa repensar sua relação com o AT:

1. As Alianças de Deus

A palavra portuguesa “testamento” corresponde à palavra hebraica berith, que significa “aliança”, “pacto”, “acordo”. O AT e o NT contém os registros das Alianças de Deus com a raça humana. Uma Aliança é um pronunciamento soberano de Deus, através do qual ele estabelece um relacionamento de responsabilidade entre ele mesmo e um indivíduo ou uma família ou uma nação ou parte da humanidade ou a humanidade em geral. Segundo alguns estudiosos, são oito as Alianças estabelecidas por Deus, sendo que sete estão no AT e uma no NT. As do AT são: 1ª) A Edêmica (Gn 1.28; 2.15-17); 2ª) A Adâmica (G.3.15-21); 3ª) A Noética (Gn 9.1-17); 4ª) A Abraâmica (Gn 12.1-3); 5ª) A Mosaica, também chamada de Antiga Aliança (Ex. 19.1-25; Gl 3.17); 6ª)A Palestiniana (Dt 28.1 a 30.3) e a 7ª) A Davídica (2Sm 7.16; Lc 1.32-33). A que se encontra no NT é a 8ª) A Nova Aliança (Hb 8.6-13; Gl 3.24), bem conhecida da igreja de Cristo. Nem preciso defender a importância de conhecer o que Deus estabeleceu em cada uma dessas Alianças, como os seres humanos envolvidos responderam ao que foi estabelecido por Deus e como Deus reagiu à resposta humana!!! Que riqueza de informação! Isso nos dá uma visão mais clara de “quem é o ser humano” e de “quem é o nosso soberano Deus”; e a maior parte dessas Alianças se encontra no AT.

2. Nossas origens

É relevante observar a extensão do AT, a partir da valiosa declaração de Jesus aos escribas e fariseus: “para que desta geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus.” (Lc 11.50-51a). Portanto, vai do livro de Gênesis, o primeiro do cânon hebraico, onde está registrada a fundação do mundo e a morte de Abel, até Crônicas, o último livro do cânon hebraico, onde é mencionada a morte de Zacarias (2Cr 24.20-21, nas bíblias em português). Os 24 livros do cânon hebraico[1] correspondem aos 39 do AT, da nossa Bíblia em português. Ressalte-se que Jesus excluiu os Livros Apócrifos (inseridos na Bíblia Católica), os quais já existiam naquela época.

Assim, no primeiro livro do AT, Gênesis, encontramos a mais extraordinária revelação da criação do mundo e de tudo o que nele há. É claro que a Bíblia não é um livro de exposição do saber científico, mas tal informação é única e totalmente confiável. Jamais ceda à pressão dos evolucionistas ou dos anticriacionistas de tratar essas narrativas como lendas!!! Já estive envolvido no estudo da questão Criação x Evolução e posso assegurar que a TEORIA DA EVOLUÇÃO é uma falácia que não se sustenta cientificamente (não é ciência, porque não pode ser reproduzida a partir de experimentos controlados em laboratório). Não tenha vergonha da verdade divina. Leia, releia, confie e defenda essa revelação divina. Há boa literatura criacionista disponível; vale a pena conferir.

3. Milagres espetaculares

A crítica bíblica de ontem, de hoje e de sempre, aliada aos opositores da Palavra de Deus, tentarão ridicularizar os milagres bíblicos, principalmente os do AT: as dez pragas no Egito, a abertura do Mar Vermelho ou a do Rio Jordão, colunas de nuvem ou de fumaça (no céu), maná e codornizes que caem do céu e águas que jorram de pedras feridas com vara, as peripécias de Sansão, machados que flutuam, jumento que fala, os amigos de Daniel na fornalha, Daniel na cova do leões, Jonas no ventre do grande peixe etc etc. Uma forma sutil e ardilosa, porém cruel, de tentar desacreditar a Bíblia é infiltrar e mesclar elementos ou fenômenos naturais que “coincidentemente” teriam atuado naquelas ocasiões. Assim, sugerem eles que pessoas simplórias e com grande imaginação se encarregaram de “criar os milagres”. Podem dizer o que quiserem, mas nós continuaremos lendo o AT e crendo no poder de Deus manifestado ao longo da história! Não foi por acaso que Jesus se referiu a alguns desses milagres. Se o nosso Mestre acreditava neles, eu também acredito! Veja, por exemplo: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40). Não vamos nos sentir intimidados pelos racionalistas e secularistas que nos rodeiam, pois estes não conhecem o Deus altíssimo!

4. Histórias emocionantes e edificantes

Se a Bíblia é feita de registros de alianças, por que não é uma lista interminável de cláusulas, como num contrato? A sabedoria divina é admirável e a Palavra de Deus reflete isso e muito mais. Deus preferiu utilizar a pedagogia e o poder inimaginável de uma história, para passar conteúdos relevantes e práticos, de forma direta e vívida. A vida é feita de histórias e há impressionantes histórias de vida. O AT é repleto de histórias que emocionam, edificam e são capazes de afetar, de moldar o caráter do leitor, ou, pelos menos torná-lo sensível a alguns princípios, influenciando comportamentos. Muitas vezes uma história fala mais profundamente ao coração do que um sermão moralista. Jesus não se desviou do estilo divino; ele doutrinou através de histórias e parábolas e, nos deixou muitas histórias para este mesmo propósito. Como deixar de ler, não apreciar, não deixar-se influenciar pelas impressionantes histórias contidas no AT? A história do dilúvio, dos patriarcas (Jó, Abraão, Isaque, Jacó, José), de Moisés e Josué, de Elias e Eliseu, de Samuel, Davi, Daniel, Rute, Ester, Neemias etc etc. Estas e tantas outras são pedras preciosas dadas pelo nosso Deus a humanidade. Até mesmo muitos não cristãos as apreciam e as consideram verdadeiras pérolas literárias.

5. Uma lei à frente do seu tempo

dez mandamentosTodo povo e nação precisa do seu sistema legal. Que povo teve o privilégio de receber diretamente de Deus um sistema de leis tão completo como a legislação mosaica?

Quando os descendentes de Jacó se tornaram numerosos. Quando foram libertos do jugo do Egito pela mão do Senhor Deus, sob a liderança de Moisés e Arão. Quando emancipados se tornaram uma nação. Ali, ao pé do monte Sinai, receberam a lei que os permitiria ter o status de uma verdadeira nação. A lei é uma, e toda a lei é espiritual, quer trate de colheitas, criminosos ou adoração. No entanto é conveniente considerá-la em três divisões:

– Lei Moral (os dez mandamentos) – A que manda fazer o bem e evitar o mal;

– Lei Civil ou Social – A que regula as mútuas relações entre os cidadãos;

– Lei Cerimonial ou Religiosa – A que determina as regras de culto a Deus.

Obs.: A Lei Judicial ou Criminal ou Penal, que define os delitos e determina a forma de os punir, está entrelaçada com a Lei Civil.

É claro que essa Lei foi dada a Moisés no contexto dos costumes de um povo (Israel) e de uma época (cerca de 1462 a.C.), ou seja, há aproximadamente 3500 anos atrás. Quando eu era jovem, fiquei bem impressionado com a leitura do livro “A provisão divina para sua saúde” (S. I. McMillen M. D. – Editora Fiel). O autor aborda aspectos sanitários e de prevenção de enfermidades e epidemias já presentes nessa legislação mosaica, muito à frente do seu tempo e da literatura com a qual Moisés teve contato na corte do Egito, a potência cultural da época. Certamente há muitas leis ali que não fazem mais sentido hoje, mas não se pode negar que tantas outras foram o embrião das legislações que existem pelo mundo afora. É bastante enriquecedor ler e reler essa legislação mosaica no AT!

Vale aqui ressaltar que a essência da lei se encontra nos dez mandamentos. É o que chamaríamos hoje de “Constituição da humanidade”. Estabelece os princípios do governo divino.

“Certo rabino frisa que existem 613 mandamentos de Moisés (248 afirmativos e 365 negativos); mas que Davi reduziu-os a 11 conceitos principais (Sl 15.2-5); Isaías a apenas 6 (Is 33.15); Miquéias a 3 (Mq 6.8); Amós a 2 (Am 5.4) e Habacuque a apenas 1 (Hc 2.4). A regra áurea é o mais perfeito desses sumários.” A essência da essência de toda a Lei foi definida por Jesus. Ao ser perguntado por um intérprete da lei, Jesus a resumiu em dois grandes mandamentos: “amar a Deus” e “amar ao próximo” (Mt 22.34-40).

6. Reis e reinados

Quando se lê a história dos reis de Israel, antes e depois da divisão do reino, tem-se a real dimensão da influência dos governantes e dos líderes espirituais sobre o povo, bem como as consequências disso. Quando se levantavam reis e sacerdotes tementes a Deus, que combatiam as práticas pecaminosas e contrárias à vontade de Deus e incentivavam a obediência e adoração somente a Deus, o resultado era vitória contra os povos inimigos, seguida de paz e prosperidade. Quando os governantes e sacerdotes eram maus, a derrota e destruição era certa. A simples leitura dessas histórias é extremamente proveitosa; ajuda-nos a manter a vigilância e obediência à vontade do Senhor Deus, pois os resultados não serão diferentes hoje. É só lembrar da “lei da colheita” conforme a semeadura.

7. Sabedoria e Poesia

Os livros poéticos e de sabedoria no AT são simplesmente maravilhosos! Trazem verdadeiro deleite para a alma e muita orientação prática e proveitosa para a vida cotidiana. Somente tropeça nas questões mais básicas e elementares do viver diário quem não quer se apropriar de tais ensinos e instruções. Por exemplo, em Provérbios, há orientações e dicas em abundância, começando com a dica principal: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9.10). Além disso, quanta poesia Inspirada e inspiradora pode ser encontrada nos Salmos. É claro que não posso deixar de expressar aqui o meu veemente repúdio àquelas “modernas” traduções (NTLH e outras) que subtraem do texto bíblico original sua preciosa poesia!!!

8. Juízos, Violência e Imprecações

Você já deve ter ouvido falar, ou até dito, que “o Deus do AT não é o mesmo do NT”. As narrativas encontradas nos dois testamentos parecem servir de base para estas visões antagônicas de um mesmo Deus, único e verdadeiro, Criador dos céus e da terra. É, também, mais uma razão para alguns se apegarem mais ao NT, desprezando o AT. Afinal, quem se sentiria confortável na presença de um Deus que não abre mãos da prática da justiça e da punição do pecado. Preferem, antes, um Deus que é amor, compassivo e misericordioso. Muitos são os julgamentos e punições, individuais e coletivos, registrados no AT. Já começa no Gênesis com Adão e Eva, Caim, A Torre de Babel, O Dilúvio, Sodoma e Gomorra, A mulher de Ló. Deus se manifesta no Êxodo como um trator passando por cima de Faraó, seus deuses e seu povo, através das dez pragas. No AT, a ordem do dia e de cada dia era “Perfeito serás para com o Senhor teu Deus” (Dt 18.13). Sua presença é aterradora; só Moisés podia se aproximar dele e o Monte Sinai fumegava (Ex 19.18). Trovões e relâmpagos anunciavam sua presença e o povo, à distância, estremecia (Ex 19.16). Deus manda Israel eliminar vários povos (homens, mulheres, jovens, velhos e crianças) para que o seu povo, Israel, ocupasse aquelas terras, porque havia se enchido a medida da iniquidade deles (Gn 15.16; Lv 18.24-25; Dt 9.5). E, esse mesmo tom, continua por todo o AT. Dentre os do seu próprio povo, os transgressores da lei eram condenados à morte, até mesmo por transgredir o descanso do sábado ou tentar segurar a Arca para que não caísse. Por fim, o Israel dividido (Samaria e Judá) é destroçado e levados para o exílio pela Assíria e Babilônia, como castigo divino pela rebeldia aos mandamentos do Senhor.

Em muitos Salmos e textos do AT há um tom de imprecação. A oração imprecatória não soa bem aos ouvidos cristãos. Diante da maldade, da opressão, da violência ou da injustiça, não só clamavam ao Senhor por suas vidas, mas também pediam a Deus que fizesse cair sobre os seus inimigos os piores males. Assim, se unem numa mesma oração, as súplicas mais ardentes e as mais violentas imprecações (Sl 58.6-11; 83.9-18; 109.6-19; 137.7-9).

Contrapondo-se a todo este cenário do AT, chegamos ao NT e nos deparamos, por exemplo, com o registro de uma mulher apanhada em flagrante adultério e trazida aos pés de Jesus. Segundo a Lei ela deveria morrer apedrejada, mas Jesus a perdoa e lhe diz: “vai e não peques mais” (Jo 8.3-11). Assim, o NT expressa a imagem de um Deus de amor, perdoador e misericordioso. Um Pai que quer ver os filhos obedecendo, não pela força do castigo, mas pelo apelo do amor.

Como entender esses juízos, violência e imprecações? A figura abaixo sintetiza bem o modus operandi de Deus, no AT e no NT, segundo minha visão teológica:

Pecou x Pagou

De fato, na época do AT, naquele contexto, prevalecia no âmbito do povo de Israel o conceito de que a obediência a Deus e aos seus mandamentos, deveria ser recompensada na vida presente, com longevidade e prosperidade; enquanto os transgressores da lei mosaica (judeus) e os ímpios (pagãos) deveriam receber o seu justo castigo o quanto antes, para que ficasse evidente que há um Deus vivo e presente, retribuindo a cada um conforme suas ações (Sl 7.9; 37.28; 75.10; 58.11).

É um grave equívoco achar que o “Deus do AT” é um Deus intolerante ao pecado e punidor, enquanto o “Deus do NT” é um Deus tolerante ao pecado e perdoador!!!  O Deus único e soberano a quem servimos é três vezes Santo, Puro e Justo; sempre amará o pecador e sempre condenará e punirá o pecado, quer seja imediatamente (AT), quer nos juízos que estão por vir (NT). Esse modus operandi de Deus, no NT, não significa indiferença frente ao mal, passividade quando triunfam a injustiça, a violência, a opressão aos mais fracos e o desprezo ao sagrado. Vale lembrar, ainda, que o nível de exigência no NT é superior ao do AT. Enquanto a lei enquadrava o ato consumado, Jesus revisitou o texto legal original “ouvistes o que foi dito” para enquadrar, como pecado, o pensamento ou a intenção do ato (Mt 5.21-22; 27-30 etc).

É importante ressaltar que tanto no AT como no NT há um “sistema de perdão”, de expiação de pecados. No AT, o pecador deveria confessar o seu pecado impondo as mãos sobre o animal, que, em seguida, era sacrificado. É muito interessante registrar aquele episódio em que o perverso rei Acabe sensibilizou a Deus, que adiou o juízo sobre sua casa, porque se humilhou perante ele (1Rs 21.29). No NT, Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Ele morreu, e com um único e perfeito sacrifício pode expiar o pecado que nos leva à morte eterna e os pecados cometidos e confessados após a conversão. Também é interessante lembrar que mesmo no contexto do NT, Ananias e sua esposa Safira foram punidos com morte imediata, no início da igreja, porque mentiram ao Espírito Santo (At 5.1-11). Podemos considerar que ocorrências como esta, ou a da punição com cegueira de Elimas, o mágico, pelo apóstolo Paulo (At 13.8-11) foram casos isolados, pois, a partir do NT, vivemos a era da graça e longanimidade de Deus, abrindo a oportunidade de salvação a todos e, deixando para o dia do juízo final a condenação e punição dos impenitentes. Entretanto, ninguém se iluda; o pecado sempre será odioso aos olhos de Deus: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14). Não custa lembrar que, apesar do juízo divino estar “temporariamente suspenso” Deus é soberano para realizar intervenções ou juízos pontuais, quando ele assim o desejar. Também não é demais lembrar que, mesmo que o juízo divino não ocorra imediatamente, cada um sofrerá compulsoriamente as consequências naturais dos atos que praticar!

9. Promessas e Profecias

 Nosso Deus é tão maravilhoso que se chega a nós, simples mortais, e faz alianças que contém preciosas promessas. Para os que permanecem fiéis no cumprimento de sua parte nesses pactos, a bênção é garantida. É confortante e motivador ler o AT e nos depararmos com as inúmeras promessas divinas ali registradas e, na linha do tempo, constatar o seu fiel cumprimento. O mesmo se pode dizer das inúmeras profecias reveladas e já realizadas ou cumpridas. Mas há, também, no AT, aquelas relevantes profecias previstas para os últimos dias, que ajudam a clarear o entendimento das profecias do NT, nesta mesma linha. O livro de Daniel é uma preciosidade, neste sentido. Os juízos e punições de Deus registrados no AT são “fichinha” se comparados com o que está por vir, registrado no NT!

 10.   Figura e Realidade

 No processo de educação infantil é comum trabalhar o concreto e depois o abstrato. De certa forma Deus trabalhou com Israel, o seu povo do AT, o concreto; para que a igreja, o seu povo do NT, entendesse o abstrato, as realidades espirituais. É impressionante a quantidade de figuras presentes no AT cuja realidade está expressa no NT; ou de tipos, no AT, cujos antítipos estão no NT.  A palavra antítipo literalmente quer dizer: correspondente ao tipo. Jesus fez várias referências a tipos do AT, sendo que em alguns casos, ele mesmo é o antítipo: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” (Mt 12.40) “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” (Jo 3.14-15). Como é abençoador comparar uns com os outros! Como o conhecimento de um ajuda a entender melhor o outro.

Conclusão:

Por que se contentar com menos? Por que perder o início do filme se você pode ver o filme todo e entende-lo melhor? Eu amo a Bíblia toda, a preciosa e incomparável Palavra de Deus!

Se você não tem tempo ou interesse na leitura e estudo de toda a Bíblia, de participar da Escola Bíblica Dominical ou de algum grupo de estudo bíblico, precisa urgentemente reavaliar sua vida espiritual, sua relação com Deus e até que ponto ama e está disposto a conhecer e obedecer a sua Palavra.


[1] Cânon hebraico: LEI (5 Livros), PROFETAS (8 Livros) e ESCRITOS (11 Livros) – Introdução Bíblica, J. Cabral, pgs. 75 e 76

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Sincronizando o “Chronos” com o “Kairós”

Chronos&Kairós

Calma, por que toda essa pressa? Você sabe a razão de Deus ter criado os céus e a terra em 6 dias e não em alguns segundos? Eu não tenho essa  resposta. Só sei que aprouve ao Deus Soberano usar esse tempo.

O ser humano moderno não tem muita paciência para esperar. Estamos adquirindo o hábito de apertar botões, teclas ou telas (touch screen) e as coisas acontecem imediatamente. Porém, quando Deus lida conosco é como aquele artífice que trabalha lenta e habilmente com suas mãos, na realização da obra. Enquanto uma mulher grávida aguarda longos nove meses pelo parto, para ter em suas mãos aquele novo ser tão querido e desejado, encontra tempo para planejar seu futuro, tomar todas as providências para o parto, preparar o ambiente que acolherá o bebê etc etc. Sem ter a intenção de igualar o desconforto de uma gestação e a dor do parto com as provações da vida, podemos considerar que, neste segundo caso, enquanto a bênção final não chega, o Senhor opera em nossas vidas, nas pessoas e circunstâncias ao nosso redor e, também, nos concede um tempo para exercitarmos a mais íntima comunhão com ele e para reavaliarmos nossa conduta.

Você já parou para pensar quanto tempo alguns conhecidos personagens bíblicos tiveram que esperar até verem as promessas ou propósitos de Deus realizados em suas vidas?

Noé, com mais de 500 anos de idade começou a construção da Arca, por ordem de Deus (Gn 6.14-22). Noé e sua família entraram na Arca quando ele tinha 600 anos (Gn 7.6). Pelas dimensões da Arca (C=137m, L=23m e A=14m) imaginem quanto tempo levou a construção e quanto ele sofreu de deboche do povo por conta “daquela loucura”. Se isso não bastasse, sua família passou um ano confinada naquele cruzeiro-zoológico, cuidando de animais, enquanto o Dilúvio destruía seus parentes, os demais seres humanos e todos os seres vivos não aquáticos, do lado de fora da Arca.

Abraão, já casado com Sara, recebeu o chamado de Deus ainda em Ur dos Caldeus (Gn 12.1; At 7.3) e, partindo dali, chegou até Harã (Gn 11.31). Em Harã, com 75 anos (Gn 12.4), teve seu chamado renovado para sair da sua terra e parentela, e recebeu promessas grandiosas, inclusive de que dele Deus faria uma grande nação; mas ele ainda não tinha filhos porque Sara era estéril. Algum tempo depois, já em Canaã, quando Ló se apartou dele, Deus vai até ele e renova as promessas (Gn 13.14-18). O tempo não para e as promessas não se concretizam. Agora, com 85 anos, Deus faz uma Aliança com Abraão e ele, impaciente, questiona o Senhor que ainda não lhe havia dado filhos (Gn 15). Sara, mais impaciente ainda, põe em execução o seu próprio plano e, através de Hagar, sua serva, Abraão torna-se pai de Ismael, com 86 anos (Gn 16). Quando o ser humano toma a frente de Deus, as consequências podem ser devastadoras. Até hoje judeus (descendentes de Sara, mãe de Isaque) e árabes (descendentes de Hagar, mãe de Ismael) vivem em constante conflito. E a bênção prometida não chega. Abraão está agora com 99 anos e Sara com 89 anos, quando Deus renova a Aliança e anuncia a gravidez de Sara (Gn 17). Eles riem, porém, um ano depois, finalmente nasceu Isaque (Gn 21), quando Abraão já estava com 100 anos. Foram 25 longos anos de muita espera e expectativa, mas Deus cumpriu sua promessa. É claro que ele não viu a grande nação, mas, pela fé, creu que ela viria a existir.

Isaque,  filho de Abraão e herdeiro das promessas do patriarca, se casou com Rebeca aos 40 anos (Gn 25.20). Diz o texto bíblico que Isaque orou por sua mulher, que era estéril e Deus ouviu suas orações e ela concebeu (Gn 25.21). Considerando que Isaque tinha 60 anos quando lhe nasceu Esaú e Jacó (Gn 25.26), não é improvável que ele tenha orado por quase 20 anos até receber a bênção já prometida.

José, bisneto de Abraão, teve sonhos proféticos aos 17 anos (Gn 37.6-9). Entretanto, precisou percorrer uma longa e sofrida trajetória, sendo exaltado por Faraó aos 30 anos (Gn 41) e tendo os seus sonhos cumpridos com 38 anos (1º sonho – Gn 42.6) e com 39 anos (2º sonho – Gn 47.11-12). Foram mais de 20 anos de espera!

Moisés nasceu num tempo de dura escravidão e infanticídio hebreu, mas foi cuidadosamente preservado por Deus para ser seu instrumento na libertação de Israel. Ele passou os primeiros 40 anos de sua vida no palácio de Faraó. Achando que ele era tudo, tentou agir por conta própria e nada conseguiu, tendo que fugir para o deserto (Ex 2.1-15). Passou outros 40 anos na terra de Midiã para aprender que ele nada era (Ex 2.15-25). Com 80 anos ele foi, finalmente, chamado por Deus para a grande missão (Gn 3 e 4). Nesses 40 anos que se seguiram, ele teve a certeza de que Deus era tudo. Ele libertou o seu povo das mãos de Faraó e o conduziu no deserto a caminho da terra prometida. Assim, ele teve que esperar 80 anos pelo chamado de Deus e somente com 120 anos chegou à entrada da terra prometida, mas não teve o privilégio de entrar, nem aquela geração incrédula e pecadora (Dt 34). Israel, o povo de Deus, teve que esperar 400 (ou 430) anos para se tornar uma nação, após o êxodo (Ex 12.40; Gn 15.13; At 7.6).

Calebe, um dos espias que confiou em Deus, aos 40 anos recebeu a promessa, por sua coragem e fidelidade ao Senhor. Apenas 45 anos depois, já com 85 anos de idade, alcançou a bênção prometida (Js 14.6-15).

Transportando-nos para o Novo Testamento….

Jesus foi prometido como o Salvador, o Messias, desde a queda dos nossos primeiros pais (Gn 3.15 – Proto-Evangelho). O mundo teve que esperar 4000 anos pelo seu nascimento.

Maria, recebeu o anúncio do anjo e não teve que esperar muito para engravidar do Espírito Santo e nem para dar a luz a Jesus. Porém, Simeão era um homem que a vida toda esperou pelo Messias e tinha a revelação do Espírito Santo de que não morreria sem antes ver o Cristo do Senhor e assim aconteceu (Lc 2.25). Ana, a profetisa, viveu uma vida inteira em adoração e jejuns e, na sua velhice, com 84 anos, teve como recompensa o privilégio de ver e testemunhar a respeito do menino Jesus, o Redentor de Israel (Lc 2.36-38).

E, assim, quantas pessoas passaram algum tempo, ou muitos anos, ou a vida toda à espera de um milagre, de uma cura, até que cruzaram o caminho de Jesus ou dos apóstolos, para enfim receberem a esperada bênção de Deus. A mulher com hemorragia há 12 anos (Lc 8.43); o enfermo à beira do Tanque de Siloé, 38 anos (Jo 5.5-9); Enéias, paralítico, há 8 anos de cama (At 9.33); o cego de nascença (Jo 9) e o coxo de nascença (At 3), a vida toda.

E nos dias atuais? De um modo geral as pessoas não têm paciência para esperar, querem respostas rápidas, influenciadas pela cultura do imediato. Entretanto, Deus não age no “chronos” humano (o tempo do relógio e do calendário), e, sim, no “Kairós” divino (o tempo oportuno, o momento certo), o tempo de Deus. Nossa atitude durante esse tempo de espera não é a de dar ordens a Deus, mas de descansar no poder e misericórdia do Senhor. É claro que precisamos sempre fazer a nossa parte, remover as pedras, mas só Deus pode trazer de volta a vida, como fez a Lázaro. Nesse tempo de espera é importante buscar e sentir sua presença, confiar nele de todo o coração, perceber o momento de agir e o momento de parar de agir, esperar com paciência. Conheço o caso de duas pacientes esposas que esperaram longos 18 e 21 anos, respectivamente, pela conversão e transformação total de seus maridos. Ainda hoje existe e sempre haverá inúmeros casos para testemunhar que o nosso Deus é vivo e no seu tempo nos dará a bênção. Às vezes será preciso viver com o espinho na carne, como o apóstolo Paulo. Em outras, a morte é o melhor presente de Deus. É a cessação de toda a dor e sofrimento para desfrutar da gloriosa presença do Pai Eterno. Para o crente a morte não é sinônimo de derrota; é o fim de um ciclo e o início de um novo tempo.

Console a sua alma e fortaleça sua fé com essas promessas de Deus, dentre tantas outras:

“Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” (Is 64.4)

“Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR.” (Sl 27.14)

“Jó, ainda que dizes que não o vês, a tua causa está diante dele; por isso, espera nele.” (Jó 35.14)

“Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” (Sl 42.5)

“Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.” (Sl 62.1, 5)

Fique na Paz!

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