O presente de Deus para você

Presente de Deus

O natal vai se aproximando e parece que crianças, adolescentes, jovens e adultos não conseguem deixar de pensar numa coisa, ou melhor, num pacote ou embrulho chamado de PRESENTE. Uns, ficam ansiosos para ganhar; outros, preocupados em comprar para dar. Quanta correria, atropelo e irritação desnecessários nas ruas e lojas da cidade! Quando criança, duas datas em particular me fascinavam mais: o dia do meu aniversário e o natal. O motivo é óbvio, os presentes que ganhava nessas ocasiões. Já que a maioria está focada em presente, vamos refletir um pouco sobre o presente de Deus para você.

Cada tópico que estamos desenvolvendo aqui daria assunto para se escrever um livro, se abordado em suas vertentes teológicas. Entretanto, nosso objetivo é ser claro, simples, objetivo e criativo nessa abordagem. Então, vejamos:

1. A motivação

Por que presentear? Em alguns casos e para algumas pessoas é mais porque a maioria faz, está na moda ou é politicamente correto. Felizmente, para tantos outros, dar presente é uma forma de demonstrar apreço pelo outro, porque o outro é importante para nós, porque queremos agradá-lo. Conta-se que para iniciar o contato com uma tribo indígena desconhecida, talvez hostil, a estratégia é você se aproximar um pouco, deixar alguns presentes num lugar visível e voltar depois. Se encontrar ali os presentes deles, isso é o sinal de que você é bem-vindo.

Como você bem sabe, muitas são as motivações para se presentear. Entretanto, motivação não é tudo. O presente precisa agradar; se for útil é melhor ainda!

Deus teria alguma razão ou motivação para nos dar algum presente especial? Assim como os pais estão cotidianamente dando alguma coisa para os seus filhos e, em ocasiões especiais, dão presentes especiais, Deus também age conosco. Em toda a Bíblia, Deus Pai se revela como um Deus que dá! Nos dá a vida, nos dá um planeta singular para habitar e cultivar, nos dá o domínio sobre as demais criaturas, nos dá os suprimentos para subsistência, sol, chuva etc. Tudo isso, entretanto, não era o suficiente. O pecado, a rebeldia do homem contra Deus, desde o Éden, desde de Adão, havia colocado todo ser humano numa condição de vida física temporária e morte eterna, isto é, eterna separação de Deus. Viu Deus que não havia humano capaz de reverter esse trágico quadro, reconciliando Deus com a raça humana, então, ele mesmo tomou a iniciativa: “Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve.” (Is 59.16)

2. O presente

O presente especial de Deus e o seu bem maior é o seu Filho Unigênito – Jesus Cristo. Ele é a expressão máxima do amor de Deus: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16). Jesus é o “presente” mais valioso, útil e necessário que um ser humano pode receber: “….a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.” (2Co 5.19).

No livro surpreendente, cheio de lances emocionantes, “O totem da paz”, Don Richardson narra com realismo a incrível transformação que o Filho da Paz, Jesus, trouxe ao coração dos Sawis. Entre os Sawis, uma tribo de canibais caçadores de cabeças, a traição era mais que uma filosofia de vida, era a maior virtude. Em 1962, Don Richardson e sua esposa Carol foram à terra dos Sawis levando a história de um herói diferente, cuja mensagem era amor, e não traição; perdão, e não vingança, a história do Filho da Paz, enviado por Deus. Entretanto, estava difícil comunicar a eles esta mensagem. Ocorreu ali uma cerimônia solene entre tribos em conflito para selarem um pacto de paz. O chefe guerreiro de uma tribo ofereceu o seu único filho, um bebê, ao chefe guerreiro da outra tribo. Enquanto a criança vivesse haveria paz entre eles. Assim, a tribo que cedeu a criança não poderia atacar a tribo que recebeu a criança, pois esta a mataria. Por outro lado, a tribo que recebeu a criança tinha que se esforçar para mantê-la viva, para não cessar o período de paz. Deus, então, inspirou aqueles missionários para apresentarem Jesus como o “totem da paz”, sendo que este jamais morrerá. Assim, estabeleceu uma paz permanente entre Deus e os homens.

3. A ocasião especial

Há, em cada sociedade, algumas datas mais significativas e mais comemoradas. A sociedade atual, inclinada ao consumismo, cada vez mais tem transformado essas datas em ocasiões para a troca de presentes. Assim, algumas datas têm sido cuidadosamente trabalhadas pelos marqueteiros para alavancar muitas vendas.

Que ocasião Deus escolheu para dar o seu valioso presente à raça humana? Tal intenção de Deus já havia sido manifestada há cerca de seis mil anos (Gn 3.15). Entretanto, diz a Bíblia: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,” (Gl 4.4). No “Kairós” divino (o tempo oportuno, o momento certo), o tempo de Deus, esse presente foi dado aos homens, cumprindo as profecias. Então, há cerca de dois mil anos atrás, se deu o “primeiro natal”.  Este era o momento certo, porque apresentava muitas condições favoráveis à propagação das boas novas do Evangelhos ao mundo conhecido de então.

4. A “embalagem”

Com a devida licença poética, podemos identificar nesse presente de Deus duas “embalagens”. A VIRGEM MARIA e a ENCARNAÇÃO. Ambas temporárias pois “revestiram” Jesus por breve tempo.

Primeiramente Deus escolheu Maria; seu útero e corpo. Sem dúvida, uma jovem simples, mas encontrada digna para tal missão e privilégio, que sempre soube muito bem o seu lugar e papel: “Então, disse Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas.” (Lc 1.46-49). Irônica e lamentavelmente tem muita gente por aí equivocada, atribuindo um valor a essa “embalagem” que ela não tem; chegando ao extremo de valorizar e cultuar mais a “embalagem” do que ao próprio presente!!!

A segunda “embalagem”, a encarnação, era a única forma de tornar visível e acessível o valioso presente de Deus. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Foi por obra e graça do Espírito Santo que esse presente de Deus, Jesus, foi gerado e cuidadosamente “embrulhado” no útero de Maria: “Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.” (Lc 1.35).

5. O preço

Você conhece bem aquela expressão publicitária “… não tem preço”. Pois bem, jamais teremos condições de avaliar ou quantificar o preço desse presente de Deus. Nessa breve abordagem, basta lembrar que esse preço passa pela doação de Deus do seu Filho único (Jo 3.16); que Jesus deixou a glória celestial para viver as limitações da vida humana (Jo 17.4-5), porém sem pecado (Hb 4.15); sofreu, foi humilhado e morto, fazendo-se maldição em nosso lugar (Gl 3.13). Sinta toda a força dessa expressão de Jesus, na sua oração: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.” (Jo 17.4-5). Mas todo esse esvaziamento e entrega não foram em vão: “vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem.” (Hb 2.9)

Por falar em preço, a quem foi pago? Alguns pensam que foi a Satanás. Certamente que não! Tal preço foi pago à santidade e justiça de Deus. A santidade de Deus impede a comunhão do homem pecador com ele; a justiça de Deus condena o pecador e exige a punição do pecado cometido. Só Jesus foi encontrado capaz de satisfazer a justiça de Deus, morrendo em lugar do pecador, possibilitando o homem caído de se aproximar de Deus, pela fé na obra redentora efetuada por Jesus, na cruz do calvário! “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.18-20)

6. A entrega

Um presente especial não pode ser entregue de qualquer maneira. Isso não significa que a entrega tenha que ser feita com luxo, pompa e sofisticação. A entrega desse presente de Deus tem confundido e desapontado muita gente, principalmente os judeus religiosos do tempo de Jesus, que aguardavam a chegada de um Messias Rei e Libertador. Para estes o Messias nasceria num palácio, por isso uns magos foram procurá-lo no palácio de Herodes, em Jerusalém.

Então, por que essa entrega foi especial? A resposta a essa pergunta nos revela mais uma das muitas belas mensagens e lições desse primeiro Natal, que deve ser lembrada em todos os outros natais. Vejam essas cenas da entrega:

  1. Os céus baixaram até a terra. O anjo se manifestou em glória e anunciou o ocorrido aos pastores no campo. As milícias celestiais louvaram a Deus (Lc 2.8-14). Uma estrela diferente brilhou no céu de Belém.
  2. O menino Jesus nasceu de gente simples, num lugar simples e incomum, numa estrebaria de Belém (Lc 2.7). Seu nascimento foi anunciado a simples pastores, no campo, que não tardaram a ir ao seu encontro e sendo os primeiros a divulgar a outros as boas novas.

Percebam a mensagem:

Natal é a mais extraordinária conexão entre: o eterno de Deus e o finito do homem; entre a grandeza e glória celestiais e a simplicidade e humildade do coração humano; entre o Príncipe da Paz e Salvador do mundo, Jesus, e o ser humano que se desnuda de todo e qualquer mérito próprio e autossuficiência para recebê-lo, amá-lo, obedecê-lo e servi-lo.

7. A recepção

Como as pessoas reagem quando recebem presentes? As vezes com muita alegria, outras vezes com o sorriso desconcertado da frustração velada. O nascimento de Jesus foi anunciado pelos anjos, aos pastores, como “boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo:” (Lc 2.10). Naquele primeiro natal, Jesus foi recebido com muita alegria e glorificação a Deus, pelos seus pais terrenos, pelos pastores no campo, por Simeão, por Ana, por uns magos do oriente e por todos aqueles que creram no quanto aquele presente de Deus era especial. Ao longo do seu ministério terreno essa alegria se repetia aonde Jesus chegava: “Ao regressar Jesus, a multidão o recebeu com alegria, porque todos o estavam esperando.” (Lc 8.40). Desde então, essa alegria tem se repetido na vida daqueles que o recebem.

8. Seus efeitos

Jesus dividiu a história humana em dois momentos, antes (aC) e depois da sua vinda (dC). Jesus também dividiu a minha vida e a de muitas pessoas em dois momentos: antes, criatura de Deus, pecador e perdido eternamente; depois, filho de Deus por adoção, salvo eternamente.

Jesus veio trazer paz e esperança a terra, no presente; e, vida eterna, que começa aqui e agora. Penso que o melhor presente que alguém pode receber é um futuro eterno e glorioso junto a Deus!

9. Nossa retribuição

Quando se ganha um presente é natural querer retribuir, se possível no mesmo nível de valor do presente recebido. Como você pode retribuir esse presente de Deus, que não tem preço? Aí vão algumas dicas:

  1. Entregue a Deus o que você tem de mais precioso: seu coração, sua vida por inteiro. Receba essa palavra vinda de Deus para você: “Dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos se agradem dos meus caminhos.” (Pv 23.26).
  2. Conheça melhor a Deus e o seu plano para tua vida, através da leitura da Bíblia e oração: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6.3)
  3. Celebre e louve a Deus diariamente através da tua vida e das tuas ações.
  4. No natal, enfeite o ambiente, mas não sofistique, nem discrimine pessoas! Lembre-se que natal é a conexão da glória divina com a simplicidade e humildade humanas. Deixe fluir o que há de mais puro e verdadeiro – o amor. Que o amor de Deus por nós humanos, promova e incentive o nosso amor pelo nosso próximo.

10. Mensagem Final

Neste natal e por toda a tua vida, não cometa o desatino de valorizar mais: a data do que o aniversariante, Jesus, o precioso presente de Deus; a “embalagem”, Maria, do que o presente, Jesus; a preparação, a decoração, a alimentação do que a celebração e louvor a Deus; o gasto desenfreado com a compra de presentes do que a alegre e abençoadora oportunidade de confraternização entre as pessoas.

Que Deus tenha misericórdia daqueles que ainda não entenderam o sentido do natal!

Achados e Perdidos (Lucas 15.1-32)

Achados&Perdidos

Há capítulos interessantes e diferenciados na Bíblia. Por exemplo:

Isaías 53: “O retrato falado de Jesus”

Mateus 24: “O pequeno apocalipse de Jesus”

Hebreus 11: “A galeria dos heróis da fé”

Nessa mesma linha, quero apresentar agora outro capítulo:

Lucas 15: “O departamento de achados & perdidos”

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Neste capítulo, Jesus nos apresenta quatro tipos de perdidos:

1. A OVELHA PERDIDA (Lc 15.3-7)
Um tipo de perdido que pede para ser encontrado.

Características:
Sabe que está perdido, não sabe como voltar, pede para ser encontrado.

2. A DRACMA PERDIDA (Lc 15.8-10)
Um tipo de perdido difícil de ser encontrado.

Características:
Não sabe que está perdido, não sabe como voltar, difícil de ser encontrado.

3. O FILHO PRÓDIGO (Lc 15.11-24)
Um tipo de perdido que precisa encontrar a si mesmo.

Características:
Sabe que está perdido, sabe como voltar, precisa tomar a decisão de voltar.

4. O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO (Lc 15.25-32)
Um tipo de perdido que precisa ser considerado.

Características:
Não sabe que está perdido, não sabe como voltar, precisa de ajuda para encontrar o caminho de volta.

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Quer saber os detalhes de cada um desses tipos de perdidos?

Veja o quadro comparativo no arquivo: Achados&Perdidos.pdf

E, por falar em AMOR…

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Li em uma publicação a seguinte história: “As crianças de um certo orfanato estavam muito excitadas porque uma delas ia ser adotada por uma pessoa rica. No entanto, a menina que ia ser adotada parecia não querer ir com seus pais adotivos. – Você não quer vir comigo, querida?  – perguntou a senhora. – Não, não quero ir. – Mas eu vou dar-lhe muitos vestidos novos e você terá um quarto só para você. A menina pensou um momento e disse: – E eu o que terei que fazer em troca de tudo isso? – Apenas amar-me com todo o seu coração como se fosse minha filha mesmo. Estas palavras quebraram o gelo da menina. Chorando, ela atirou-se nos braços da senhora. Amar e ser amado. Não é a melhor coisa que alguém pode obter? O melhor que qualquer cristão pode fazer é mostrar seu apreço pelas bênçãos que Deus lhe tem dado e amá-lo de todo o seu coração.”

Amor é mais do que sentimento de apreciação por alguém, mais do que insumo ou ingrediente para a produção literária ou cinematográfica. Ele tem que se materializar, se concretizar, desde pequenos gestos até grandes atos a favor daquele(a) que se diz amar! Nessa linha, Jesus Cristo é a expressão máxima do amor de Deus pela criatura humana (Jo 3.16; Ef 2.1-10).

O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5.5) e, assim, flui, através de nós, em direção ao nosso próximo (1Jo 3.16). Sua força e fluidez é tal que rompe barreiras e chega a alcançar os que não são merecedores, inclusive os próprios inimigos (Mt 5.44-48).

– Na perspectiva do CONCEITO, o significado do amor pode ser melhor entendido, através da observação atenta de suas múltiplas manifestações no cotidiano (1Co 13.4-7).

– Na perspectiva da PRECEDÊNCIA, o amor é a mais elevada e duradoura virtude cristã, sendo pré-requisito para as demais (1Co 13.1-3; 8-13).

– Na perspectiva da PRIORIDADE, a síntese da lei mosaica era: 1º) Amar a Deus, sobre todas as coisas (Mt 22.37-38); 2º) Amar ao próximo como a nós mesmos (Mt 22.39). Porém, Jesus, reformulou a segunda prioridade, a saber: 2º) Amar uns aos outros, assim como Jesus nos amou (Jo 13.34). Você já parou para refletir sobre o tamanho desse desafio da Graça? (1Jo 3.16)

– Na perspectiva da IDENTIDADE e FILIAÇÃO DIVINA, o cristão será conhecido como discípulo e seguidor de Jesus e filho de Deus, pela prática do amor (Jo 13.35; 1Jo 4.7).

– Na perspectiva do SERVIÇO CRISTÃO, só o amor cristão nos capacita e motiva a sermos servos uns dos outros (Gl 5.13b).

– Na perspectiva da OBEDIÊNCIA, guardar no coração e obedecer a Palavra de Deus é demonstração de amor a Deus (Jo 14.15).

– Na perspectiva do PERDÃO, “o amor cobre multidão de pecados”, ou seja, atua como “lentes de contato do amor” em nossos olhos, que dão mais nitidez à imagem daquele ser humano por quem Jesus morreu e desfoca os defeitos e aspectos negativos do seu jeito de ser, resultado da fraqueza e imperfeições humanas e, muitas vezes, das más heranças familiares adquiridas.

– Na perspectiva da RECIPROCIDADE, na verdade, nós amamos a Deus, porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19).

– Na perspectiva da COERÊNCIA, só faz sentido dizermos que amamos a Deus, se amamos o nosso irmão (1Jo 4.20).

– Na perspectiva ESCATOLÓGICA (estudo das últimas coisas), a palavra profética de Jesus revela que a iniquidade reinante nos últimos dias esfriará o amor de quase todos (Mt 24.12).

– Na perspectiva da LIBERDADE, o verdadeiro amor: cativa, sem aprisionar; aproxima, sem puxar; conquista, sem dominar; faz-se ouvir, sem gritar; cria dependência, sem anular o outro; libera da obrigação, para ter voluntariamente.

Finalmente, temos que admitir e proclamar que o amor é a essência de Deus, pois Deus é amor (1Jo 4.8). Assim sendo e por tudo o que foi mencionado acima, concluímos afirmando e apelando a todo cristão que o amor deve ser a prioridade da sua vida. “a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.21)

Um apelo irrecusável

Apelo

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm 12.1-2)

Na terceira parte da epístola aos romanos (Rm 12.1–15.3), o apóstolo Paulo faz exortações práticas à igreja. Particularmente em Romanos 12.1-2 o assunto é “o cristão e o seu dever para consigo mesmo”, ou seja, santidade de vida, consagração a Deus e dedicação pessoal ao seu serviço. Estes aspectos são recorrentes nos escritos de Paulo e em outros escritos do Novo Testamento. Aliás, este tema vem de muito mais longe. Desde o tempo de Abraão, “…apareceu-lhe o SENHOR e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito.” (Gn 17.1) e, mesmo antes dele. Deus sempre manifestou sua vontade de ter um povo separado, exclusivo e de boas obras.

1. A caracterização (Rm 12.1)

“Rogo-vos, pois, irmãos,…”

A expressão “Rogo-vos” que inicia o versículo caracteriza o apelo, sério e ardoroso, aos irmãos, aos crentes em Cristo. O assunto se revestia de tamanha importância que ele não apenas recomendou ou disse que era algo interessante. Ele se expressa da forma mais forte e convincente que podia encontrar, para demonstrar seu intenso e total interesse no sentido de que seus leitores levassem a sério a questão em foco. E, certamente, o seu apelo podia ser acreditado em função do seu próprio exemplo de vida. Ele tudo deixou e tudo sofreu por amor a Cristo. Vale lembrar que em outras questões de real importância para os crentes, nesta e em outras epístolas, ele também recorreu ao expediente de apelar às suas mentes e corações (“rogo-vos” – Rm 15.30; 16.17; 1Co 1.10; Ef 4.1).

2. A evocação (Rm 12.1)

“pelas misericórdias de Deus,”

O apelo do apóstolo não está fiado em si mesmo, nos seus próprios méritos, grandeza ou poder. Ele evoca o Deus altíssimo e sua maravilhosa e sublime Graça. Graça é favor imerecido. É Deus, na sua infinita misericórdia, não nos imputar o castigo merecido pelo nosso pecado. Pois Cristo levou sobre si este fardo e pagou o preço com sua morte, e morte de cruz. Então, esse grandioso feito de Deus por nós deve ser suficientemente motivador para atendermos ao apelo de vivermos uma vida santificada e dedicada ao Senhor! Em outra ocorrência do “rogo-vos” Paulo evoca explicitamente “o Senhor Jesus e o amor do Espírito Santo” (Rm 15.30).

3. O foco – o culto racional (Rm 12.1)

“que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”

O apelo de Paulo traspassa culturas e épocas e chega até nós, a igreja de qualquer tempo e contexto. Quando hoje se fala em culto, nossa mente nos remete imediatamente para aquele ajuntamento coletivo realizado nos templos ou em outro lugar. Porém, o culto aqui referido é um culto pessoal e espiritual. Deve ocorrer cotidianamente no contexto da “liturgia da vida”. Nossa participação no culto coletivo (da igreja) só será aceita nos céus se o nosso culto pessoal e individual também for aceitável diante de Deus.

Quando o apóstolo se refere ao corpo, está tratando da individualidade e totalidade do nosso ser. Esse ser deve ser apresentado ou oferecido a Deus de três maneiras: Em….

a) Sacrifício vivo

Para um povo tão familiarizado com os sacrifícios e rituais da lei mosaica, Paulo propõe uma abordagem comparativa. Nas ordenanças da lei mosaica, o pecador e transgressor deveria oferecer em sacrifício um animal para que o sangue deste cobrisse ou expiasse sua culpa. Tais sacrifícios eram repetitivos e imperfeitos. Na graça, Cristo, com o seu sacrifício único e perfeito já providenciou essa expiação, por nós, de uma vez por todas (Hb 9.28). Nos resta, agora, comparecer diante de Deus não com animais mortos, mas com o nosso corpo ou ser, muito vivo e lhe dizer: “Eis-me aqui, envia-me, a mim” (Is 6.8); “usa-me, Senhor”.

b) Sacrifício santo

Nas ordenanças da lei, o animal a ser sacrificado devia ser sem defeito e separado, isto é, santo (Ex 12.5). Era uma exigência que não admitia exceções. Semelhantemente, nosso culto pessoal só será aceito se nos apresentarmos a Deus em santidade de vida. Templo sempre foi lugar de santidade e nós somos o templo do Espírito Santo, santuário de Deus que também precisa ser santo: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16)

c)  Sacrifício agradável a Deus

Numa visão antropocentrista, o homem está sempre procurando algo que lhe agrade e satisfaça. Entretanto, o culto racional é realizado para agradar a Deus. Para tanto, tem que ser em conformidade com suas exigências.

Alguns crentes têm a ideia equivocada de que para agradar a Deus deve maltratar, desprezar e impor sacrifícios ao seu corpo. É preciso mortificar os feitos do corpo e não o corpo: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis.” (Rm 8.13). Vale lembrar que a verdadeira força do jejum não está simplesmente na abstinência de alimentos, mas sim no volver de todo o nosso ser para Deus durante aquele período e, antes de tudo, viver em santidade. “Seria este o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aceitável ao SENHOR? Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo?” (Is 58.5-6)

Finalmente, ao tratar de culto racional, precisamos nos referir aos escritos de Pedro. Em 1Pedro 2 o apóstolo também focaliza a individualidade e a coletividade deste culto. Cada remido é “pedra viva” e o conjunto dos remidos do Senhor são edificados “casa espiritual”, para dois ofícios:

  • Sacerdócio santo (1Pe 2.5)

Quando essas “pedras vivas” exercem o “sacerdócio santo” o alvo é bem definido: “a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo”. Os crentes-sacerdotes oferecem “sacrifícios espirituais” ao Senhor: individualmente e coletivamente. Individualmente, quando na intimidade de sua vida privada mantém intima comunhão com o Senhor: em oração, na leitura e meditação da sua Palavra, no louvor com os lábios, mente e coração etc. Coletivamente, quando os crentes-sacerdotes se reúnem para cultuá-lo em espírito e em verdade. Vale lembrar que sem a intermediação de Jesus, nada disso chega ao Pai Celestial.

  • Sacerdócio real (1Pe 2.9)

Quando essas “pedras vivas” exercem o “sacerdócio real” o alvo também é bem definido: “a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”. Certamente isso diz respeito ao IDE de Jesus, ao testemunho e evangelização dos de fora pelos crentes-sacerdotes.

4. A exigência – Diferenciação (Rm 12.2)

“E não vos conformeis com este século,”

O mesmo Deus de Israel, que exigia do seu povo um viver diferenciado das outras nações, agora, em tempos da Nova Aliança, da Graça, também requer dos cristãos um viver diferenciado em relação ao estilo de vida presente em cada época. É tão claro e tão óbvio, mas como é difícil para os crentes entenderem e obedecerem a essa inequívoca, inquestionável e inflexível vontade de Deus! A palavra “conformeis” ou “amoldeis” tem o sentido de “tomar a forma”, modelar, se ajustar a uma fôrma ou molde ou padrão. A modelagem de caráter, de comportamento, de princípios e valores, de motivação existencial, de linguajar etc etc do cristão se dá através da Bíblia, pelo agir do Espírito Santo que nele habita! O apóstolo Pedro também apela aos crentes, neste sentido: “Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância;” (1Pe 1.14). O apóstolo João acrescenta: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele;” (1Jo 2.15). E, Jesus, nos convoca: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24)

5. O desafio – Transformação (Rm 12.2)

“mas transformai-vos pela renovação da vossa mente,”

Não basta recusar a se ajustar ao molde social do presente século. Além de blindar a mente das más influências e comportamentos é indispensável moldá-la pela Palavra de Deus. O cristão precisa aprontar a sua mente para viver a nova vida sem dar espaço para a vida antiga, para as obras das trevas. Esse preparo da mente passa, primeiramente, por uma vida devocional disciplinada e, também, pela assimilação da Palavra de Deus, participando de uma igreja séria que não se presta à promoção de uma superficialidade cultual, entretenimento ocupacional e emocionalismo terapêutico. A mente precisa mesmo de atenção, pois dela procedem o pensar e o agir. Ela é a sede das concepções, que condicionam as percepções, que influenciam comportamentos. Tanto isso é verdade, que o Senhor Jesus dedicou atenção especial ao ensino dos seus discípulos, a preparar suas mentes. Uma mente renovada produz uma vida transformada que agrada a Deus!

6. A recompensa – Bênção (Rm 12.2)

“para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Deus não tem compromisso com ímpios, nem com “cristãos” que não estão dispostos a pagar o preço de “negarem-se a si mesmo”, nem “as paixões do mundo” e, que também não estão dispostos a dedicarem suas vidas ao Senhor. Mas aqueles que obedecerem e dedicarem seus talentos, sua vida, ao Senhor, receberão suas bênçãos aqui e agora, e por fim, a vida eterna. Podem até enfrentar provações, dificuldades e perseguições, mas desfrutarão sempre da preciosa presença, consolação e força do Senhor.

Que assim Deus nos ajude!

Os invernos e as primaveras da vida

Balança

Introdução

A vida é feita de contrastes. A primavera segue o inverno. São estações de grande contraste. Nas regiões mais frias, o inverno imobiliza, intranquiliza, congela, enrijece a face, destrói a natureza e descolore as paisagens. Na primavera voltam as folhas, as flores, o calor moderado, as cores e a alegria da continuidade da vida.

A vida é feita de invernos e primaveras, de tristezas e alegrias, de escassez e de fartura, enfim, de perdas e ganhos. O grão de trigo “morre” primeiro, para depois produzir muito fruto (Jo 12.24). O homem “perde” o sêmen da vida, a mulher o “ganha” e uma nova vida física é gerada. Deus “perdeu” o seu Filho unigênito, Jesus Cristo, o mundo “ganhou” o Salvador, o autor da nova vida, da vida espiritual e eterna (Jo 3.16).

1. As crises de passagem da vida

A vida é feita de perdas e ganhos contínuos, necessários e indispensáveis ao desenvolvimento da criatura humana.

a) Útero Materno → “Útero Familiar”

No Nascimento, deixamos o útero materno, com todo o seu aconchego e nutrientes, mas ganhamos o acolhimento do “útero familiar”. Tal processo envolve uma verdadeira e dolorosa crise de passagem, do mundo interior para o mundo exterior; entretanto, proporciona novos desafios, condições de crescimento, oportunidades de relacionamento.

b) “Útero Familiar” → “Útero Social”

Da infância à juventude, deixamos gradativamente o convívio no “útero familiar”, para participar do “útero social”. Tal processo, igualmente envolve crises de passagens, desde o primeiro dia quando a criança passa um bom tempo numa creche ou numa escola, longe da sua zona de conforto familiar. Na sua juventude, também tem que deixar para trás o aconchego da vida acadêmica e seus amigos, para participar dos desafios da vida profissional, em ambientes de muita competição e esforço para manter seu emprego.

c) “Útero Familiar” → “Novo Útero Familiar”

Em algum momento da juventude ou da vida adulta também é necessário deixar, definitivamente, o “útero familiar” para constituir um “novo útero familiar”, através do casamento. Mais uma crise de passagem acontece, mais crítica para uns do que para outros, mas que vem sempre acompanhada de novas e grandes responsabilidades e desafios, como pagar contas, se relacionar bem com o cônjuge, gerar e criar filhos.

d) “Novo Útero Familiar” → “Novo Útero Social”

Ainda na velhice as crises de passagem continuam a acontecer. São os filhos, a que estávamos tão apegados, crescendo e seguindo seus próprios caminhos. Perdemos sua companhia e ganhamos mais tempo para nós, mais liberdade para ir e vir. Alguns chegam a lidar com a Síndrome do Ninho Vazio. Profissionalmente, a carreira se encerra, chega a aposentadoria. É tempo de se envolver com novos grupos de afinidade e levar a vida sem deixar de se sentir útil. É tempo de cuidar dos pais até o último suspiro deles. Enfim, chega também o dia triste e agonizante de se despedir para sempre do cônjuge amado, lançando sobre o seu caixão a última flor. É chegada a hora de decidir o que fazer da vida, ou, dependendo da situação, de seguir o caminho que decidiram por nós.

e) “Útero Terrestre” → “Útero Espiritual”

Ninguém dura para sempre. Então, finalmente chega o dia em que se cumpre o que diz a Bíblia: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Ec 12.7) É tempo de deixar a carcaça neste “útero terrestre” e ser recebido na glória eterna, pelo Pai Celestial, privilégio esse reservado a todos os que creram e receberam a Jesus como seu Salvador e Senhor. É hora de mudar de dimensão e conferir de perto a promessa do Senhor: “mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1Co 2.9)

2.  Lidando com as perdas da vida

“Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol.” (Ec 4.2-3)

Certamente os últimos dias do Rei Salomão não foram tão radiantes assim. Basta ler o livro de Eclesiastes para perceber o sentimento de frustração de um rei que teve tudo o que um mortal poderia usufruir dessa vida terrestre: poder, sabedoria, riqueza, realizações, fama, sexo, prazer, conforto etc. etc. Sua conclusão é que os mais felizes são os que não nasceram, em segundo lugar os que já morreram e em terceiro e último lugar, os que ainda vivem, os que ainda estão respirando e lendo este artigo, por exemplo. Segundo ele, viver é ter que continuar assistindo e ao alcance de toda a maldade humana.

É preciso guardar todos os bons momentos proporcionados pela vida, para ajudar a contrabalançar os maus momentos que temos que passar. Na bíblia, na história, na sociedade, no nosso círculo de amizades, na nossa família, muitos são os exemplos de perdas que provam a existência desse lado sombrio da vida. Jó tinham muitos bens e uma grande família. De forma repentina foi esvaziado de tudo, inclusive de sua saúde. Jacó lutou muito, até com Deus, para realizar seus projetos pessoais. De repente foi privado de sua esposa amada, Raquel, e de seu filho predileto, José. Por pouco ele não sucumbiu a tamanha perda. Conheci uma serva de Deus que, depois de perder seu marido, repentinamente perdeu de uma só vez, num acidente, as três filhas jovens. Pela graça de Deus ela voltou a casar e a sorrir. Com Deus ao nosso lado, sempre é possível recomeçar. Já imaginaram quantas perdas as pessoas têm sofrido na história da humanidade? São pais com filhos desaparecidos, sequestrados ou mortos violentamente que nunca mais retornaram ao convívio da família. São famílias inteiras dizimadas em acidentes aéreos, terrestres e marítimos; em desastres naturais, catástrofes e epidemias. Não dá para seguir a vida com os olhos fixos no mal que nos cerca. Antes, porém, é bem melhor seguir o conselho do profeta de Deus: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21). É preciso contar as bênçãos e se fixar nelas!

Não é fácil aceitar a morte de um ente querido idoso; quando se trata de alguém jovem, muito menos ainda. Quando estamos numa embarcação que naufraga precisamos nos apoiar em algo para não afundar. Se não há botes ou coletes à disposição, os destroços disponíveis, apesar de paliativos,  são quebra-galhos bem-vindos. Quando se lida com uma grande perda é comum questionar a Deus: “Por que? Ou, Para que?” Isso está acontecendo… Como num naufrágio necessitamos avidamente de algo concreto em que nos apoiar, de uma resposta que faça calar nossos questionamentos e inconformismo com tão abrupta e inesperada perda. Um “destroço” qualquer já ajudaria. Pensei, então, em alguns “destroços”:

1º) O Senhor Deus o queria tanto que o tomou para si, como fez com Enoque e Elias.

2º) O Senhor o poupou do mal ou do mau que estava por atingi-lo (“Perece o justo, e não há quem se impressione com isso; e os homens piedosos são arrebatados sem que alguém considere nesse fato; pois o justo é levado antes que venha o mal”) (Is 57.1)

3º) Sua missão era curta e exigia um fim “trágico” para impactar vidas e alcançar os propósitos de Deus (Estêvão – At 7, missionários em terras hostis etc.).

4º) Ele não era tão bom e santo quanto aparentava ser e a mão de Deus pesou sobre ele. Conheci pessoalmente pelo menos dois casos (um era cristão e o outro não), de homens casados que viviam em adultério oculto, que foi revelado nas suas mortes trágicas. Jamais conseguiremos saber se essas mortes “prematuras” foram punição de Deus; entretanto, o fato é que com Deus não se brinca!

5º) Ele confiava exageradamente em si mesmo, na sua justiça própria; e Deus o derrubou da sua altivez. O Jó da bíblia era um pouco assim.

Em vez de ficar se apoiando num desses “destroços” acima citados, é melhor admitir que o Senhor está no controle e ele quis assim: “o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21b). Lembre-se de que os “destroços da embarcação” são meios temporários e paliativos de sobrevivência. Você não pode viver à deriva nas águas de um “naufrágio existencial”. Logo, logo você irá sucumbir também. Mova-se imediatamente para terra firme onde é o seu lugar!

3. Lidando com os questionamentos

a) Se uma pessoa honra a pai e mãe, como pode morrer jovem?

Como entender a promessa de Deus: “Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra.” (Ef 6.2-3). Encontro, pelo menos três explicações para esta promessa:

1ª) Não há aqui uma garantia total de longevidade. O assunto da longevidade é muito mais amplo e complexo do que se pode imaginar. Nossa vida não se resume a honrar pai e mãe, há muitas outras variáveis envolvidas. Jesus honrou os pais terrenos e o Pai Celestial e morreu jovem, com 33 anos.

2ª) Jesus disse: “Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.” (Mt 15.4; ver Ex 21.17 e Lv 20.9). Ou seja, quem destratasse a seu pai ou sua mãe, pela lei mosaica era sentenciado à morte. Assim sendo, poderia morrer como castigo, e não, mais adiante, por morte natural.

3ª) Finalmente, e para não me alongar muito, é fácil perceber que quem honra a pai e mãe, isto é, respeita-os e segue os seus bons conselhos tem muito maior probabilidade de viver mais do que quem os ignora.

b) Como contrair novas núpcias, sem culpa?

Se no dia do casamento você fez promessas ao cônjuge que se foi (morreu), lembre-se de que elas foram finalizadas assim: “até que a morte nos separe”. Assim, você foi fiel a ele(a) e agora está livre para assumir um novo relacionamento, se isso é exatamente o que você está precisando; se isso for o melhor para a sua vida. É bíblico (1Co 7.39); é previsto na lei de Deus e na lei dos homens e pode ser útil e necessário à sua sobrevivência. Como nas primeiras núpcias, é mais do que importante que isso seja feito com calma, maturidade e plena convicção do coração.

Guarde em sua mente a boa lembrança daquele(a) que se foi, mas retire-o(a) do seu cotidiano, caso contrário você viverá tropeçando em fantasmas e terminará sua vida na dependência de medicamentos ou num manicômio. Deixe o passado passar; diga “adeus” ou “até breve” ao(a) que se foi e vá em frente!

c) Como posso viver sem essa pessoa?

A vida precisa seguir ou retornar ao seu curso natural! Não coloque sobre si fardos que você não possa suportar! Deus dimensiona um fardo para cada um (Gl 6.5). Cuidado, pois o texto bíblico diz: “levai as cargas uns dos outros” (Gl 6.2) e não “Levai as cargas de todos os outros”!

Resiliência é uma palavra que se torna cada vez mais conhecida. É um termo que vem da física, como o fenômeno de retorno da mola, quando cessa a pressão sobre ela; é o retorno à posição vertical daquele boneco “João teimoso”. Na psicologia, significa o poder de recuperação do indivíduo após ser submetido a situações estressantes e dolorosas, a perdas, a calamidade. “O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de uma construção; se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males” (Dr. Alberto D’Auria). Precisamos ser como bambus e varas verdes, que se dobram sob a pressão do vento, mas não se quebram. A vida é feita de perdas e ganhos, não podemos paralisá-la diante das perdas. Em nome de Jesus é preciso se libertar do passado. Isso é doentio! Não vale a pena ficar no fundo do poço: “Então, disse eu: já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no SENHOR.” (Lm 3.18).

A depressão pode surgir do vazio da alma, pela perda de alguém ou de alguma coisa preciosa, que necessita ser preenchido imediatamente. Jesus nos ensinou isso. Quando ele estava para voltar para o Pai, sabedor do vazio que isso traria à almas dos discípulos, logo os confortou dizendo que quando ele fosse, enviaria o Consolador, o Espírito Santo. Não cultue o vazio; preencha-o com algo precioso!

Conclusão:

Não seja insensato nem insano, deixe o inverno passar e receba com ações de graças a primavera que Deus te oferece!


Nota: A motivação deste artigo foi a perda de um grande amigo, com 38 anos de idade, há um ano atrás (21/09/2012), de forma abrupta e inesperada. Um marido fiel, pai de três filhas, servo de Deus, executivo bem sucedido de uma grande empresa, carismático e espaçoso em nossos corações. Entretanto, cesse agora todo o choro e toda a lágrima porque ele está melhor do que nós, está com o Pai Celestial. E a vida precisa continuar. Nós iremos a ele, mas ele não mais virá a nós!

“o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21b)

O volver do rosto de Daniel

Daniel

“Voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza.” (Dn 9.3)(ARA)
“E eu dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração, e rogos, e jejum, e pano de saco, e cinza.” (Dn 9.3)(ARC)
“Por isso me voltei para o Senhor Deus com orações e súplicas, em jejum, em pano de saco e coberto de cinza.” (Dn 9.3)(NVI)

O personagem bíblico Daniel não passa despercebido nas muitas páginas do Antigo Testamento. As histórias contidas no livro de Daniel, um dos profetas maiores (não em importância, mas em quantidade de escritos) são muito contadas pelos professores de crianças, que, ao ouvi-las, vibram com cada cena. Ao lê-las ou ouvi-las, quando criança, eu era (e ainda continuo sendo) impactado por alguns aspectos:

  • Pela determinação de Daniel e seus três amigos, ainda jovens, de não se contaminarem naquela terra estrangeira onde estavam cativos. Um santo e radical compromisso de viver uma vida diferenciada, de obediência a Deus e a seus mandamentos.
  • Pela coragem inabalável de Daniel e seus três amigos, de arriscarem suas próprias vidas ao não se submeterem à idolatria ou à veneração de homens.
  • Pelo livramento milagroso de Daniel, da cova dos leões, e de seus três amigos, da fornalha ardente.
  • Pela capacitação dada por Deus a Daniel para interpretar sonhos e situações.
  • Por sua projeção na corte dos impérios Babilônico e Medo-Persa, mesmo sendo ele um estrangeiro, um judeu exilado. Ele foi e sempre será lembrado também como um estadista bem sucedido.

Passados, agora, muitos anos na minha vida, numa fase de mais maturidade, além daquilo que sempre me impactou, posso ir além e encontrar em Daniel mais alguns aspectos relevantes. O texto de Daniel 9.3 registra que este servo do “Deus do céu” (Dn 2.18-19; 2.37, 44), voltou seu rosto para o Senhor (ARA).  O verbo sugere a ação de “dirigir o rosto para” (ARC). Gosto, também, da expressão “volver o rosto para”, que tem tudo a ver com mobilidade, palavra tão popular nesta sociedade pós-moderna. Esse “volver o rosto” é muito mais do que um ato físico comandado pelo cérebro e articulado pelo pescoço. É direcionar o ser para alguém ou para alguma coisa. Com esta ideia em mente, passei os olhos no livro de Daniel com a intenção de descobrir para onde ele, Daniel, volvia seu rosto e, para onde ele não volvia seu rosto, e, assim, procurar extrair algumas lições de vida.

1. O rosto de Daniel se volvia para:

 a) O TEMPO
(O passado, o presente e o futuro)

Daniel era uma pessoa “antenada” no tempo. Talvez você ache isso uma característica corriqueira e justifique: “– qualquer ser humano normal é “ligado” no tempo; no passado-presente-futuro. Até certo ponto isso é verdade. Entretanto, vivemos numa época em que a maioria das pessoas está extremamente focada no presente, sendo seu principal interesse, aproveitar a vida. “Porém é só gozo e alegria que se vêem; matam-se bois, degolam-se ovelhas, come-se carne, bebe-se vinho e se diz: Comamos e bebamos, que amanhã morreremos.” (Is 22.13). Em se tratando de tempo, Daniel é uma pessoa diferenciada. Ele estudava e conhecia o passado, não somente através da tradição oral, como também pelos livros (Dn 9.2). Afinal, “a história é a mestra da vida”.  Estuda-se o passado, para se entender o presente e se evitar erros futuros. Ele não se contentava em simplesmente deixar o presente acontecer; ele o fazia acontecer. É como diz a letra da música: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Ele investia suas energias para que o presente fosse melhor do que o passado. A época desta oração de Daniel é cerca de 538 aC. O período de setenta anos de cativeiro estava terminando (605 a 535 aC) (Jr 25.8-11). Assim, ainda segundo a palavra profética era chegado o tempo da restauração, do retorno do povo de Israel à sua terra (Jr 29.10). O 1º retorno aconteceu sob a liderança de Zorobabel, em 538-537 aC (Ed 2.1-2). Em relação ao futuro, efetivamente Daniel foi um privilegiado. Deus lhe fez extensas e detalhadas revelações sobre o futuro próximo e o futuro distante, tanto de alguns impérios, como da humanidade. Isso é tão vasto e interessante que precisa ser estudado à parte.

Então, concluímos dizendo:

O passado alicerça e sedimenta o nosso chão; o futuro motiva e direciona a nossa energia; no presente se edifica e se preenche cada etapa entre ambos.

b) O QUE ELE DEVIA SER
(Íntegro de caráter, Confiante em Deus e Firme em seus propósitos)

Daniel era um homem de Deus, irrepreensível, um dos três presidentes do império Medo-Persa. Tomados por inveja, os outros presidentes e os sátrapas (governadores de províncias) tentaram desqualifica-lo para tirá-lo do poder, porém não encontravam falhas no seu caráter e proceder (Dn 6.4). Foi então que decidiram apelar para o seu modo diferenciado de cultuar a seu Deus e prepararam uma armadilha que o fizesse quebrar a lei do seu Deus, para não ser morto. Conseguiram que o rei editasse um decreto estabelecendo que durante 30 dias ninguém poderia fazer petição a qualquer deus ou homem, senão ao rei. Daniel tinha uma confiança tão firme e forte em Deus que tomou conhecimento, porém transgrediu o decreto. Abria as janelas de sua casa, se punha de joelhos e orava três vezes no dia. Como castigo foi lançado na cova dos leões, porém Deus o livrou (Dn 6).

Daniel era uma pessoa destemida, ousada, firme em suas atitudes e propósitos, porque sua vida estava alicerçada em Deus, que lhe dava forças e discernimento para agir retamente e jamais vacilar. Desde cedo ele ousou adotar uma dieta diferente na corte babilônica e foi bem sucedido. No seu primeiro desafio de revelar o sonho do rei e sua interpretação, coisa humanamente impossível, mesmo antes de obter de Deus a revelação, se apresentou ao rei, pediu mais um tempo e comprometeu-se a dar-lhe as respostas. A firmeza de propósitos de Daniel, incluía não apenas servir a Deus de todo o seu coração, como também buscar o bem-estar do seu povo de Israel.

c) O QUE ELE DEVIA FAZER
(Orar, buscar a Palavra de Deus e cumprir a sua Missão)

Daniel era um servo de Deus com total foco e compromisso nessas três áreas. Destaca-se por ter sido um homem de oração. Isso lhe proporcionou uma íntima comunhão com Deus. O Espírito de Deus estava sobre ele. O rei Nabucodonosor reconhecia isso e testemunhou, se expressando do seu jeito: “pois há em ti o espírito dos deuses santos” (Dn 4.18; ver tb Dn 5.11). Ele falava com Deus e Deus lhe respondia em visões (Dn 2.19; 7.1; 8.1; 10.1) ou enviando anjos (Dn 9.21) e, até mesmo antes dele se expressar diante de Deus (“No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado;” – Dn 9.23a). Na aflição ele buscava a Deus em oração (Dn 2.17-23; 6.10-11; 9.3-19).

Daniel tinha um apreço especial pelas Escrituras (Dn 9.2). Era nelas que se baseava para conhecer os mandamentos do Senhor e como viver uma vida que lhe agradasse. As Escrituras não eram mera teoria; ele buscava aplica-las ao seu dia a dia. Foi assim que encontrou “nos livros” o que Deus falara a Jeremias sobre aquele tempo.

Finalmente, pode-se observar que Daniel era totalmente comprometido com sua missão. Deus o chamou e o capacitou para a sua obra e Daniel, em todo o tempo, procurava corresponder a este chamado.

 2. O rosto de Daniel não se volvia para:

Já vimos os principais focos da atenção de Daniel. Agora veremos algumas coisas que não lhe atraiam a atenção, para as quais não volvia o seu rosto nem colocava nelas o seu coração.

a) Sua “bagagem pessoal”

Daniel tinha atributos físicos e intelectuais diferenciados. Ele estava entre os que foram selecionados e que atendiam os requisitos do rei: “Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus.” (Dn 1-3-4). E, como se isso fosse pouco, Deus ainda acrescentou: “Ora, a estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos.” (Dn 1.17). Apesar de toda essa “bagagem pessoal” não encontramos em todo o livro de Daniel qualquer indício de orgulho, vaidade, altivez e soberba por parte dele. Pelo contrário, ele direcionava para Deus toda a honra e glória (Dn 2.27-28, 30) e, em decorrência, Deus era exaltado também por outros (Dn 2.47).  
b) Regalias e bens materiais

Daniel foi levado para a corte e podia simplesmente se alienar da miséria do seu povo e aproveitar a vida. Entretanto, não trilhou esse caminho. Logo rejeitou participar das iguarias oferecidas pelo rei, e não quis se contaminar (Dn 1.5, 8). Em outra ocasião, já idoso, rejeitou presentes e prêmios oferecidos pelo rei Belsazar (Dn 5.17), tal qual o profeta Eliseu (2Rs 5.15-16). Teve uma vida inteira de desapego às coisas materiais.

c) Projeção e poder

Tal qual José no Egito, Daniel ocupou lugar de destaque na corte. Logo no início, foi promovido a governador da província de Babilônia e a chefe supremo de todos os sábios (Dn 2.49). Mesmo idoso, provavelmente com mais de 80 anos, já no império Medo-Persa, foi constituído um dos três presidentes sobre os 120 sátrapas ou assistentes do rei Dario (Dn 6.1-3). Nada disso lhe subiu à cabeça ou mudou seu jeito simples e humilde de ser.

Conclusão:

Temos na vida deste homem de Deus inúmeros e proveitosos exemplos de “para onde volver ou não volver nosso rosto”, isto é, direcionar nossa vida. Se, assim fazendo ele foi vitorioso, assim o imitando, também poderemos ser. Que o Senhor nos ajude e ilumine!

O cristão e a idolatria

Idolatria

Creio que o mais grave pecado que o ser humano pode cometer é aquele contra o Deus único e verdadeiro, contra a Trindade Santa: Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo. O segundo é aquele pecado cometido contra outro ser humano (e contra si mesmo, também). Não é sem razão que Jesus resumiu toda a lei mosaica da seguinte forma: “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.  Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22.36-39).

Não crer na existência de Deus é ateísmo; não prestar adoração exclusivamente a Deus, mas voltar-se para outros “objetos” de culto, isto é “coisas ou astros ou animais ou pessoas etc.” é idolatria. Idolatria é o ato de adorar, que tem os seguintes significados no dicionário:

Adorar: (lat adorare) vtd 1 Reverenciar, venerar. 2 Amar extremamente, idolatrar. 3 Gostar muito de. 4 Prestar culto a; cultuar. (Dicionário de Português Online – Michaelis)

Idolatria é o ato de adorar, ou reverenciar, ou cultuar, ou amar extremamente, a esses objetos,  ou “ídolos”, ou “imagens”, ou “seres”, ou “pessoas”, ou a algum elemento da natureza como se estes fossem deuses, e, não exclusivamente ao Deus único e verdadeiro, criador dos céus e da terra.

1)  Há quanto tempo há idolatria?

Desde os tempos mais remotos, há notícias de que os povos se curvavam diante de algo que consideravam ser deus. A Bíblia menciona o pai de Abraão (Terá) como alguém que servia a outros deuses (Js 24.2). Abraão foi tirado do meio dessa idolatria que era praticada não só pelos seus antecessores mas também pelos povos antigos, para servir a um Deus único e verdadeiro e ser o pai de uma grande nação, depositária da revelação divina – Israel. Os descendentes do seu tio Naor continuaram nessa prática pecaminosa, o que é revelado no incidente do furto dos “ídolos do lar”, por Raquel, filha de Labão, filho de Betuel, filho de Naor (Gn 31. 19, 30, 32-35).

Desde de sua origem, na chamada de Abraão (cerca de 2000 aC), o povo de Israel deveria ser diferente, isto é, monoteísta, enquanto os demais povos eram politeístas. Deus travou permanente batalha com o povo judeu, desde sua formação efetiva, após a saída do Egito, até o exílio (586 aC), para demovê-lo da prática do pecado da idolatria. Para que não houvesse dúvida, deixou registrado na Lei máxima, nos Dez Mandamentos, os dois primeiros mandamentos, nestes termos:

1º) “Não terás outros deuses diante de mim.” (Ex 20.3)

2º) “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, ….. (Êx 20.4-5)

A história do Antigo Testamento (AT) é a história da luta de Deus, através dos seus profetas, contra a idolatria.

2)  O que Deus pensa dos deuses e dos ídolos?

−  Os deuses dos povos não passam de ídolos, objetos sem qualquer valor (1Cr 16.26; Sl 96.5);

−  São apenas prata e ouro, obra das mãos dos homens (Sl 115.4; 135.15; Os 13.2);

−  São cargas mortas que só fazem cansar os animais de carga (Is 46.1-2);

−  Não podem livrar o homem, pois são tão frágeis que até o vento os carrega  (Is 57.13);

−  Os ídolos, seus artífices e os seus seguidores formam a “comunidade da nulidade” (Jr 2.5; Is 44.9; Hc 2.18-19).

3)  A quem Deus pode ser comparado?

Alguns profetas apresentaram uma comparação entre os ídolos e Deus para que o povo caísse em si e visse o quão insensata e ridícula é a adoração de ídolos (Is 40; 46; Jr 10, etc.).


ÍDOLOS


DEUS

“Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta, e coze o pão, e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela…Nada sabem, nem entendem; porque se lhes grudaram os olhos, para que não vejam, e os seus corações já não podem entender” (Is 44.14,15,18)“Os que gastam o ouro da bolsa, e pesam a prata nas balanças, assalariam os ourives para que façam um deus, e diante deste se prostram e se inclinam. Sobre os ombros o tomam, levam-no e o põem no seu lugar, e aí ele fica; do seu lugar não se move; recorrem a ele, mas nenhuma resposta ele dá, e a ninguém livra da sua tribulação” (Is 46.5-7)“Os ídolos são como um espantalho em pepinal, e não podem falar; necessitam de quem os leve, porquanto não podem andar. Não tenhais receio deles, pois não podem fazer mal, e não está neles o fazer o bem “ (Jr 10.5).“Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?” (Ex 15.11)“A quem me comparareis para que eu lhe seja igual? E que coisa semelhante confrontareis comigo?…Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade; que eu sou Deus e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam..” (Is 46.5, 9,10a)“Ninguém há semelhante a ti, ó Senhor; tu és grande e grande é o  poder do teu nome. Quem te não temeria a ti, ó Rei das nações? Pois isto é a ti devido; porquanto entre todos os sábios das nações, em todo o seu reino, ninguém há semelhante a ti…Mas o Senhor é verdadeiramente Deus; ele é o Deus vivo e o rei eterno; do seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação…O Senhor fez a terra pelo seu poder; estabeleceu o mundo por sua sabedoria, e com a sua inteligência estendeu os céus. Fazendo ele ribombar o trovão, logo há tumulto de águas no céu, e sobem os vapores da terra; ele cria os relâmpagos para a chuva, e dos seus depósitos faz sair o vento.” (Jr 10.6,7,10,12,13)

 −  Adorar a ídolos é trocar Deus por algo ridículo e desprezível (Sl 106.19-20).

 −  Os que carregam ídolos em procissões são ignorantes (Is 45.20).

 −  Os idólatras serão envergonhados (Is 45. 16).

 −  O ídolo do deus Dagom (filisteus) caiu duas vezes diante da arca (1Sm 5.1-5).

−  As vezes os ídolos “servem para alguma coisa” (1Sm 19.12-17).

−  As predições foram feitas por Deus para que o povo não atribuísse determinadas situações aos ídolos (Is 48.1-5).

−  Só o Criador tem poder sobre a criação (Jr 14.22).

4)  O que Deus ordenou a respeito de outros deuses e imagens?

A fabricação de qualquer escultura era proibida (Êx 20.23; 34.17; Lv 19.4; 26.1).  Apesar dessa proibição Deus mandou que se fizesse querubins de ouro (Êx 25.17-22; 1Rs 6.23-26) e uma serpente de bronze, para teste de obediência (Nm 21.8-9; comp. Jo 3.14-15) e não para adoração como o povo acabou fazendo (2Rs 18.4 – Neustã).

Nenhuma aparência de Deus foi vista quando o Senhor falou ao povo no monte Horebe, para que não se corrompessem, fazendo imagem na forma de ídolo (Dt 4.15-19).

Diante do segundo mandamento (Êx 20.4-6), como determinar a fronteira entre a Arte e a Idolatria?

5)  Como a idolatria era tratada no Antigo Testamento?

− Os reis idólatras foram avaliados como maus reis (1Rs 16.13 – Baasa, Elá; 16.26 – Onri; 1Rs 21.25-26 – Acabe; 2Rs 21.10-18 – Manassés; 2Rs 21.21; 2Cr 33.21-25 – Amon).

− A idolatria era considerada prostituição (espiritual) (Ez 16.35-52; 23.5-48; 36.16-21).

− O perigo dos ídolos levantados dentro do coração (Ez 14.1-11).

− Os ídolos profanavam o templo (Jr 7.30; Ez 8.10).

− O cativeiro de Israel teve como causa a quebra da Aliança, principalmente a idolatria (2Rs 17.7-23).

− Os idólatras são amaldiçoados por Deus (Sl 97.7).

− Os profetas denunciaram veementemente a idolatria e anunciaram a  consequente destruição da nação de Israel  e  de outras nações  por causa deste grave pecado contra a glória de Deus (Is 2.5-21; 10.10-11; Jr 9.13-16; 18.15-17; Ez 6.1-14; 7.20-21; 8.17-18; 20.1-32; 22.1-31; Os 13.1-3; Am 8.14; Mq 1.7; Sf 1.2-18 – Israel e Judá;  Is 19.1-3; Jr 43.12; Ez 30.13 – Egito;  Jr 50.2 – Babilônia).

− A renovação da Aliança exigia a remoção dos ídolos (Gn 35. 1-15;  1Rs 15.12-13 – A reforma de Asa; 2Rs 23.24  – A reforma de Josias; 2Cr 33.1-20 – Profanação e restauração por Manassés).

− Predição de uma reforma após o cativeiro (Ez 11.17-21; Ez 37.23; Zc 13.2). Pode-se dizer que após o cativeiro o povo de Israel abandonou os ídolos.

6)  Como Deus reagiu diante da idolatria?

− Os ídolos provocam a ira de Deus (Dt 32.16-21; Jr 8.19; 16.18).

− Deus executou juízo sobre os deuses do Egito (Ex 12.12).

− É tido por justo o matador de idólatras (Nm 25.1-18; comp. Sl 106.28-31).

− Deus mandou derrubar os altares dos povos dominados por Israel (Ex 34. 12-16; Nm 33.51-52; Dt 7.5; Jz 2.2).

− Deus mandou e Gideão derrubou o altar de Baal, do seu próprio pai, o que colocou em risco a sua vida (Jz 6.25-32).

− O Espírito do Senhor incitou Zacarias a reagir contra a idolatria. Este obedeceu e acabou sendo morto por mandado do rei Joás (2Cr 24.17-22).

7)  Como a Igreja primitiva se relacionou com as comunidades idólatras?

Paulo, em Atenas, se revoltava intimamente com a idolatria reinante na cidade (At 17.16). Ele não pregava diretamente contra os deuses gregos, mas a Jesus e a ressurreição (At 17.18). Teve a ousadia de dizer que o Deus que ele anunciava não era como o deles (At 17.24-28); nem era um ídolo fabricado pelos homens (At 17.29).

A mensagem de Paulo, em toda parte, era a respeito de um Deus vivo em contraste com a nulidade dos deuses feitos por mãos humanas. A repercussão disso era que muitos se convertiam e deixavam os ídolos. Isto chegou a provocar a reação violenta do ourives Demétrio, em Éfeso, e dos demais fabricantes de nichos de Diana. (At 19.23-40).

Uma questão que preocupava a igreja primitiva era a comida sacrificada aos ídolos (At 15.20; Rm 14.15-21; 1Co 8; 10.25-33).

Falando aos crentes de Corinto ele afirma que os ídolos nada são (1Co 8.4). Entretanto, a carne sacrificada a ídolos deveria ser evitada por causa da consciência dos irmãos mais fracos (1Co 8.10-13).

8)  Há idolatria na Igreja Cristã?

“Depois de Constantino (323dC), o cristianismo passou a assimilar práticas pagãs; isso porque muitos pagãos entraram na igreja sem conversão, passando a exercer grande influência no culto. O culto aos santos e a veneração aos mártires e a outros homens e mulheres famosos, passaram a ter plena aceitação. Foram criados rituais que eram um misto de cerimônias pagãs, herdadas de diversas religiões, com as cerimônias sacerdotais do Antigo Testamento. Os santos passaram a ser considerados como pequenas divindades, cuja intercessão era valiosa diante de Deus. Surgiu a veneração de relíquias e até mesmo de lugares. Antes do ano 500dC o culto da virgem Maria já estava vitorioso. O paganismo romano teve grande influência na formação do culto católico; daí dizer-se católico-romano.” (Religiões, Seitas e Heresias – J. Cabral)

Ainda que a igreja católica romana não queira admitir que os(as) santos(as) por ela canonizados(as), bem como as suas imagens, sejam ídolos, na realidade são assim tratados pelos seus fiéis. Os líderes católicos se tornam cúmplices desta idolatria na medida que promovem procissões e romarias para veneração e adoração aos(as)  santos(as)  e ainda incentivam as intercessões a estas “pequenas divindades”.

A Bíblia deixa muito claro que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Nenhum ser humano, já morto, poderá interceder por nós, os vivos, diante de Deus. Os que morreram estão simplesmente aguardando a ressurreição. É total insensatez e pecado gravíssimo recorrer a qualquer ser humano já morto, inclusive a Maria, a mãe humana de Jesus Cristo. Esta doutrina é básica e elementar na Bíblia. O único que pode interceder por nós é o Espírito Santo, conforme diz o apóstolo Paulo: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8.26)

9)  O que está acontecendo hoje?

Na antiguidade, os povos pagãos se apegavam intensamente aos ídolos, inclusive confiando e creditando a eles o sucesso de suas vitórias nas batalhas, o que por vezes influenciava o povo escolhido de Deus, Israel.

Hoje em dia, muitas pessoas não cristãs ainda continuam se apegando a todo tipo de amuleto, crendice e idolatria; outras, porém, preferem seguir seu caminho de descrença total no mundo espiritual, apegando-se ao materialismo. Nada disso nos surpreende, em se tratando de não cristãos.

E, quanto aos cristãos? O que se percebe na chamada igreja cristã de hoje é aquela forma de idolatria que se expressa no culto, veneração, apego excessivo a pessoas, a personalidades humanas. Podemos nos referir a isso como antropolatria. Na igreja católica romana isso começa com a “virgem Maria”, e continua com “os apóstolos”, “os santos canonizados”, “os papas” etc. etc. Na igreja evangélica, também há uma tendência de quase idolatria de ícones do passado e do presente, tais como Martinho Lutero, João Calvino, John Knox etc etc.

Os cristãos precisam entender e atender à voz de Deus quando diz: “Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura.” (Is 42.8). Deus jamais dividirá com outro a honra e glória que lhe são devidas! O Senhor Jesus Cristo é a expressão máxima da glória de Deus entre os homens! Quando ele falou em retornar ao Pai, jamais disse aos seus discípulos que deixaria em seu lugar, para conduzir a sua igreja e operar milagres, determinadas celebridades humanas que deveriam ser veneradas e buscadas como mediadores entre sua igreja e o Pai Celestial. Simplesmente ele anunciou a vinda do Espírito Santo, que habitaria em cada remido, para, desta forma, habilitá-los ao sacerdócio universal ­– sacerdócio santo e sacerdócio real (Jo 14.16-18).

Finalmente, vale enfatizar o ensino bíblico de que nenhuma figura humana morta, canonizada ou não, tem qualquer influência neste mundo a partir do mundo espiritual. Neste mundo físico, atuam somente duas forças provenientes do mundo espiritual: 1ª) Deus e seus anjos; e, 2ª) Satanás e seus demônios, que atuam sob a permissão de Deus (Jó 1.12). Portanto, se alguém recorrer, em oração, a essas figuras do passado, canonizadas ou não, e algo efetivamente milagroso e sobrenatural acontecer, fique certo de que isso teve origem em uma dessas duas forças do mundo espiritual!

Diga não a qualquer tipo de idolatria ou antropolatria! Curve-se apenas diante de Jesus Cristo, o nosso Senhor e Salvador!

Há alarido no arraial

Bezerro de Ouro

“Ouvindo Josué a voz do povo que gritava, disse a Moisés: Há alarido de guerra no arraial. Respondeu-lhe Moisés: Não é alarido dos vencedores nem alarido dos vencidos, mas alarido dos que cantam é o que ouço.” (Êx 32.17-18)

O capítulo 32 de Êxodo descreve um episódio desastroso na história do povo de Israel, ocorrido após uns três meses da saída do Egito. Foram 430 anos plantados no meio de um povo pagão e idólatra. Ao serem libertados dali tiveram o privilégio de presenciar manifestações extraordinárias – sinais, prodígios e maravilhas –  da parte do Deus único e verdadeiro, sob a mediação de Moisés e Arão: as dez pragas enviadas sobre os egípcios, enquanto eles foram poupados; a travessia, a pé enxuto, do Mar Vermelho que se abriu; a destruição dos exércitos egípcios no mesmo mar; a condução de Deus através da nuvem, durante o dia, e da coluna de fogo, durante a noite; a restauração das águas amargas de Mara; o pão que “chovia” diariamente do céu (maná e codornizes);  a vitória na guerra contra Amaleque etc. etc. Entretanto, bastou que Moisés se demorasse um pouco no monte para que a descrença e a insensatez dominassem os corações. Desta narrativa podemos extrair alguns ensinamentos:

1º) A cumplicidade da liderança (Ex 32.1-4a)

O povo de Israel estava sendo guiado por dois líderes, Moisés, o principal, e Arão, seu auxiliar. Estes dois líderes tipificam e representam dois tipos de liderança, duas posturas bem distintas. Moisés, tipifica aquele líder de igreja chamado por Deus para cumprir uma missão, que investe tempo na presença de Deus, para conhecer a sua vontade e para receber do Senhor a mensagem que deve transmitir para o povo. Arão, tipifica aquele líder de igreja que, de alguma forma, chegou àquela posição, mas está longe de agradar a Deus. É o tipo de líder que prefere ceder às pressões dos liderados a defender o Senhor e a sua Palavra: “Respondeu-lhe Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que o povo é propenso para o mal. Pois me disseram: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe terá acontecido. Então, eu lhes disse: quem tem ouro, tire-o. Deram-mo; e eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro.” (Êx 32.22-24). O rei Saul também era desta mesma escola: “Então, disse Saul a Samuel: Pequei, pois transgredi o mandamento do SENHOR e as tuas palavras; porque temi o povo e dei ouvidos à sua voz.” (1Sm 15.24).  Também é do estilo desse tipo de líder ceder às pressões das circunstâncias: “…. e, forçado pelas circunstâncias, ofereci holocaustos.” (1Sm 13.12b – Saul). E, ainda, prefere ceder às pressões do seu bom senso, desobedecendo deliberadamente às ordens de Deus (1Sm 15.3, 9, 15, 22 – Saul). É assim que agem os líderes progressistas de ontem e de hoje. Eles têm mais temor às pressões dos liderados, às circunstâncias e ao seu bom senso, do que a Deus e sua Palavra. Se consideram pequenos deuses aqui na terra. E mais, são capazes de rotular as lideranças do estilo de Moisés de fundamentalistas! Se buscar a direção do Senhor e obedecer à sua Palavra é ser fundamentalista, então eu sou um deles.

2º) A vulnerabilidade da natureza humana (Ex 32.4b-6)

Deus elegeu a Israel e Israel é chamado de povo de Deus. Até aí nenhuma novidade. Entretanto, é bom lembrar que esta eleição está circunscrita ao plano terreno. Deus tinha um plano, uma missão a ser cumprida através deste povo. O ápice desta missão era trazer Jesus Cristo ao mundo. Portanto, nascer judeu não significava receber passaporte com visto de entrada no céu ou direito à salvação eterna. Muitos israelitas saíram do Egito, mas não entraram em Canaã, tendo sido condenados e mortos pelos seus pecados. Somente neste episódio foram mortos uns 3000 homens (Êx 32.28). Deus também elegeu a igreja, mas muitos da igreja militante não entrarão na Canaã Celestial. Pois, “o Céu tem muitas almas que a igreja não tem e a igreja tem muitas almas que o Céu não tem.” (Sto. Agostinho). A vulnerabilidade da natureza humana pode ser vista nas constantes recaídas do povo: a) murmuravam a cada dificuldade (Êx 14.11-12; 15.24 etc.); b) tiveram saudade das comidas do Egito, apesar de toda a opressão e sofrimento (Êx 16.2-3). No episódio em análise, verifica-se que eles também tiveram saudade dos ídolos egípcios e das festas idólatras. O povo não apenas sacrificou ao bezerro fundido por Arão, como assentou-se para comer e beber e “levantou-se para divertir-se” (v.6).  O que aconteceu ali foi muita bebedice e orgia sexual, como nos velhos tempos. De fato, os israelitas saíram do Egito, mas o Egito não saiu do coração de muitos deles.

O Egito representa simbolicamente o mundo; Faraó, Satanás; Canaã, a Pátria Celestial do cristão; e a peregrinação até Canaã, a nossa caminhada neste mundo. O fenômeno ali ocorrido é recorrente na igreja atual. Como tem gente que viveu intensamente neste mundo sem Deus e, mesmo estando na igreja vez por outra tem “saudade do Egito”, de alguma coisa da sua vidinha de outrora. E, então, querem trazer algumas práticas ou festejos para dentro da igreja, muitas vezes alegando tratar-se de manifestação cultural ou folclórica. “- Que mal tem isso? Deixa de ser retrógrado!” É o discurso pronto destes. E o pior é que os líderes progressistas cedem às pressões! Não conseguem enxergar o fenômeno do efeito dominó: o mundo influencia o crente, o crente tenta influenciar a igreja. Mas, há também aqueles que efetivamente não cortaram o cordão umbilical com o “mundo pagão”; participam efetivamente de boa parte da agenda oferecida pelo mundão, pois temem assumir uma postura diferenciada diante de seu círculo de amigos incrédulos. Isso é típico do “crente equilibrista”: um pé no mundo e o outro na igreja; ou do “crente morno” ou “crente bolo alimentar”, aquele que Deus está a ponto de vomitar (Ap 3.15).

3º) Que alaridos se ouvem da sua igreja? (Ex 32.15-18)

Alertado por Deus da corrupção do povo, Moisés desceu do monte acompanhado por Josué. Este fala para Moisés de um alarido de guerra no arraial de Israel. Moisés, então, responde-lhe, citando outros três tipos de alarido. Temos aqui, portanto, quatro tipos de alarido:

a) Alarido de guerra

É o alarido ouvido de uma igreja que sai das quatro paredes e impacta o mundo: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui,” (At 17.6b). A proposta de Deus para sua igreja é de guerra espiritual: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16.18). O texto deixa claro que a posição da igreja é ofensiva, de ataque. E, mais: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.12). O mundo clama por socorro, a situação é caótica (corrupção generalizada, violência, delinquência juvenil, bebedices e alcoolismo, uso de drogas, imposição do homossexualismo, imoralidade, banalização do sagrado, secularismo, ataque a instituição familiar etc. etc) e a igreja não pode ser omissa. Precisa ser o braço do agir de Deus: orando, evangelizando, educando, fazendo ação social, protestando, denunciando, agindo e interferindo na sociedade, de todas as formas e meios legítimos disponíveis.

b) Alarido dos vencedores

Quando essa igreja combativa impacta eficazmente a sociedade, os intentos de Satanás são frustrados, os perdidos são alcançados, vidas são transformadas e assistidas, casamentos são restaurados etc. Então, o povo de Deus entrará no templo para glorificar e cultuar ao Senhor, louvá-lo e adorá-lo, com cânticos espirituais, um “alarido” de vitória que chega aos céus e agrada a Deus. É o alarido de vigílias de oração “bombando” e classes de Escola Bíblica Dominical repletas de alunos. Mas, a comunidade dos remidos não ficará estacionada no templo, sairá novamente para guerrear contra as trevas; entrará e sairá continuamente até Jesus Cristo voltar.

c) Alarido dos vencidos

Quando a igreja não está no foco da sua missão, no centro da vontade de Deus, o que se ouve ali é o alarido dos vencidos. De pastores se queixando das ovelhas, de ovelhas se queixando dos seus pastores e líderes, e das ovelhas se queixando das outras ovelhas. Do clamor das almas sedentas por mensagens ungidas, sem aquele ”teologuês” vazio e entediante que quase não chega à mente e muito menos desce ao coração. Do eco e reverberação de um templo esvaziado; do “bronze que soa, ou do címbalo que retine”; de lata vazia.

d) Alarido dos que cantam.

Não se engane, esse alarido não é aquele dos que louvam ao Senhor. É o alarido dos que promovem ou participam de shows golpel com muito fervor carnal e pouco fervor espiritual. É o alarido dos que promovem shows da fé, com farta propaganda de milagres e muito apelo financeiro. É o alarido dos que insistem em homenagens e honrarias aos homens quando deveriam focar a glória de Deus. Há líderes cristãos que estão vivendo a “Síndrome do Titanic”, isto é, estão confortavelmente curtindo a “primeira classe eclesiástica” enquanto a sociedade vai a pique e a terceira classe não tem acesso ao “bote da salvação”. É o alarido de igrejas superlotadas nos seus cultos-espetáculos, mas tolerantes a toda sorte de vícios e pecados. Já dizia o profeta Samuel: “o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1Sm 15.22). É o alarido de igrejas tipo “casa de festas” que só pensam em festas, festividades e festejos. Oferecem muita brincadeira e entretenimento, como se a igreja fosse um parque de diversões e não um centro de recuperação.

Finalizando, deixamos uma palavra de advertência: “Deus está vendo e não deixará impune o pecado!”. Também deixamos uma palavra que vem direto do Senhor para você que é líder: “Vai, pois, agora, e conduze o povo para onde te disse; eis que o meu Anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, vingarei, neles, o seu pecado.” (Êx 32.34)

Um com Deus é maioria!

Um com Deus é maioria

A expressão não traz nenhuma informação nova. Talvez, refletir sobre ela, também não trará. Entretanto, pode refrescar a nossa memória e nos dar novo alento, uma nova disposição para continuar.

O cântico diz assim:

Quando tudo diz que não
Sua voz me encoraja a prosseguir
Quando tudo diz que não
Ou parece que o mar não vai se abrir
Sei que não estou só
E o que dizes sobre mim não pode se frustrar
Venha em meu favor
E cumpra em mim teu querer
………………………

(Deus do impossível – Trazendo a Arca)

Às vezes, parece que a vida se apresenta dessa forma para nós – “tudo diz que não”. A impressão é de que estamos sós, numa luta solitária. E não quero me referir aqui à luta de qualquer mortal pela sobrevivência, para ganhar o pão de cada dia enfrentando as desafiantes rotinas da vida ou outra luta qualquer. Quero aproveitar este espaço para refletir sobre as lutas de Deus através de nós e às lutas decorrentes de se professar a fé em Jesus Cristo ou de zelar e praticar a verdade bíblica.

Se há afirmações equivocadas, uma dessas é: “VOX POPULI, VOX DEI”, ou, a voz do povo é a voz de Deus. Ao contrário, a afirmação correta vem do apóstolo João: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno.” (1Jo 5.19). Quem abraça a fé cristã tem que se preparar para viver como minoria em qualquer segmento da sociedade secular, que “jaz no maligno”. Ser minoria é pensar, se expressar e agir diferente da maioria e pagar o preço disso. Se há quem enfrente essa situação, eu sou um desses, que desde a infância tenho vivido como minoria, tendo sido muitas vezes criticado e zuado. Ainda bem que, desde cedo, fui ensinado e assimilei bem a ideia de não negociar valores e princípios. Desde então, já vivi o bastante para poder afirmar que isso é viável!

É interessante observar o modus operandi do comportamento humano. Há algum tempo atrás vi um dos episódios de um documentário denominado “Laboratório Humano”. Os experimentos se desenvolveram da seguinte forma. O ambiente era uma sala com várias carteiras de estudante, posicionadas de frente para uma porta fechada que dava acesso para outra sala (ou cozinha). No primeiro experimento, várias pessoas foram colocadas sentadas nas carteiras, preenchendo um formulário. Em certo momento, acima daquela porta fechada disparava um alarme  de incêndio (sonoro e luminoso) e, por baixo da porta, saía fumaça; tudo simulado, é claro. A reação daquelas pessoas (voluntários) foi de imediatamente se levantarem, em bloco, para ver o que estava acontecendo. No segundo experimento, todas as pessoas, exceto uma, foram informadas do incêndio simulado e orientadas a não reagir. Ao disparar o alarme e aparecer a fumaça, estes ficaram indiferentes e aquele que não fora avisado, tentou reagir, mas vendo a passividade dos demais, ficou alternando entre o preenchimento do seu formulário e o olho no “incêndio”. Assim, somente após uns 14 segundos, ele ignorou os demais e foi ver o que estava acontecendo. Esse segundo experimento foi repetido por várias vezes, substituindo-se a cada vez aquela pessoa que não era avisada, e a maioria reagiu da mesma forma. A conclusão é que o ser humano tem medo de esboçar uma reação ou defender uma posição diferente da maioria. De um modo geral ele se sente mais confortável e seguro acompanhando a maioria. Por falar nisso, tenho a impressão de que tem muita gente que se torna torcedor de um time de massa para não ter que se contrapor à maioria, reproduzindo exatamente essa tendência comportamental.

Por que ser igual a maioria? Por que pensar ou fazer o que muitos ou a maioria pensa ou faz (assistir o mesmo canal da TV, encher a cara numa festa, se tatuar, usar piercing, falar palavrões, avançar um sinal vermelho, jogar lixo no chão, debochar da virgindade, tripudiar da instituição do casamento, achar que é normal ter opção sexual etc etc)? Não tenha medo de ser diferente, desde que essa diferença não seja decorrente de um distúrbio ou anomalia da personalidade ou comportamental, o que certamente precisaria de tratamento! Não há aqui qualquer apologia ao isolamento social. Sabemos que o ser humano é um ser social e é muito bom viver em sociedade. Entretanto, quando a sociedade se distancia dos valores e princípios fundamentais, seu destino é a sucumbência e destruição. Em decorrência, ninguém escapa! Por isso, não há espaço para omissão, para o “deixa a vida me levar”. É preciso reagir, resistir e persistir!

Convido você agora a voltar o seu olhar para a história bíblica. É fácil verificar como Deus usou minorias, principalmente pessoas, individualmente. Usou Noé, um contra todos; usou Abraão e os patriarcas, inclusive José; usou Moisés, usou Davi contra o filisteu Golias e contra os “Golias judeus” que não acreditavam nele; usou Samuel e tantos profetas para denunciar o pecado da maioria; usou Neemias, um copeiro do rei, e tantos reis; usou a Pedro e demais apóstolos na formação da igreja e a Paulo, na sistematização das doutrinas bíblicas; etc. etc.

Não se pode desprezar o poder das minorias. A história comprova que minorias ou indivíduos, governantes ou não, com pouco ou muito poder, conseguem influenciar as massas, para o bem ou para o mal. Quando olhamos para a história do povo de Israel verificamos que muitos reis fizeram assim. Entretanto, às vezes, a maioria pressionava e prevalecia, como no caso de Arão e o bezerro de ouro requerido pelo povo (Ex 32), ou no caso dos doze espias enviados por Moisés, quando os dez prevaleceram contra os dois fiéis ao Senhor (Nm 13).

O que dizer do que acontece nas igrejas locais? Será que nelas a maioria é fiel ao Senhor ou é a minoria? Pergunta difícil esta, não? Então, tente responder a esta outra pergunta: quem lê a Bíblia diariamente (e a pratica) e ora em sua casa, a maioria ou a minoria? Ou, ainda: quem frequenta a EBD e as reuniões de oração na igreja, a maioria ou a minoria? Felizmente, mesmo quando as coisas não andam muito bem na igreja, sempre tem aquela velha conhecida figura do “remanescente fiel”. As minorias sempre têm um papel importante nas igrejas, pois, com Deus, se tornam maioria. Se lembra da famosa “Confissão de Fé de Westminster” (1643)? Na história da Assembleia que a elaborou, consta que esta era composta de 121 dos mais capazes pastores da Inglaterra. Consta também que os presbiterianos escoceses também puderam enviar representantes à Assembleia de Westminster; quatro pastores e dois presbíteros, que participaram dos trabalhos sem direito a voto. Diz a história que estes escoceses exerceram uma influência desproporcional ao seu número!

Então, se você faz parte da minoria (temente a Deus) da sociedade,  ou da minoria fiel da igreja, não desanime, não desista. Lembre-se da letra do cântico acima “Deus do impossível”. Ao contrário, prepare-se para se surpreender com o que Deus quer e vai fazer através de você! Não se esqueça de que, um com Deus, fiel à sua Palavra e não flexibilizando os ensinos bíblicos neste tempo mau, de crescente corrupção moral e espiritual, é maioria! Mas isso não se aplica a você se você faz parte de uma minoria arrogante e desvairada, guiada pelos seus próprios instintos e ideais e não pelo Espírito Santo de Deus, que não busca a paz, a unidade, a harmonia e o crescimento do corpo de Cristo, a Igreja.

Sincronizando o “Chronos” com o “Kairós”

Chronos&Kairós

Calma, por que toda essa pressa? Você sabe a razão de Deus ter criado os céus e a terra em 6 dias e não em alguns segundos? Eu não tenho essa  resposta. Só sei que aprouve ao Deus Soberano usar esse tempo.

O ser humano moderno não tem muita paciência para esperar. Estamos adquirindo o hábito de apertar botões, teclas ou telas (touch screen) e as coisas acontecem imediatamente. Porém, quando Deus lida conosco é como aquele artífice que trabalha lenta e habilmente com suas mãos, na realização da obra. Enquanto uma mulher grávida aguarda longos nove meses pelo parto, para ter em suas mãos aquele novo ser tão querido e desejado, encontra tempo para planejar seu futuro, tomar todas as providências para o parto, preparar o ambiente que acolherá o bebê etc etc. Sem ter a intenção de igualar o desconforto de uma gestação e a dor do parto com as provações da vida, podemos considerar que, neste segundo caso, enquanto a bênção final não chega, o Senhor opera em nossas vidas, nas pessoas e circunstâncias ao nosso redor e, também, nos concede um tempo para exercitarmos a mais íntima comunhão com ele e para reavaliarmos nossa conduta.

Você já parou para pensar quanto tempo alguns conhecidos personagens bíblicos tiveram que esperar até verem as promessas ou propósitos de Deus realizados em suas vidas?

Noé, com mais de 500 anos de idade começou a construção da Arca, por ordem de Deus (Gn 6.14-22). Noé e sua família entraram na Arca quando ele tinha 600 anos (Gn 7.6). Pelas dimensões da Arca (C=137m, L=23m e A=14m) imaginem quanto tempo levou a construção e quanto ele sofreu de deboche do povo por conta “daquela loucura”. Se isso não bastasse, sua família passou um ano confinada naquele cruzeiro-zoológico, cuidando de animais, enquanto o Dilúvio destruía seus parentes, os demais seres humanos e todos os seres vivos não aquáticos, do lado de fora da Arca.

Abraão, já casado com Sara, recebeu o chamado de Deus ainda em Ur dos Caldeus (Gn 12.1; At 7.3) e, partindo dali, chegou até Harã (Gn 11.31). Em Harã, com 75 anos (Gn 12.4), teve seu chamado renovado para sair da sua terra e parentela, e recebeu promessas grandiosas, inclusive de que dele Deus faria uma grande nação; mas ele ainda não tinha filhos porque Sara era estéril. Algum tempo depois, já em Canaã, quando Ló se apartou dele, Deus vai até ele e renova as promessas (Gn 13.14-18). O tempo não para e as promessas não se concretizam. Agora, com 85 anos, Deus faz uma Aliança com Abraão e ele, impaciente, questiona o Senhor que ainda não lhe havia dado filhos (Gn 15). Sara, mais impaciente ainda, põe em execução o seu próprio plano e, através de Hagar, sua serva, Abraão torna-se pai de Ismael, com 86 anos (Gn 16). Quando o ser humano toma a frente de Deus, as consequências podem ser devastadoras. Até hoje judeus (descendentes de Sara, mãe de Isaque) e árabes (descendentes de Hagar, mãe de Ismael) vivem em constante conflito. E a bênção prometida não chega. Abraão está agora com 99 anos e Sara com 89 anos, quando Deus renova a Aliança e anuncia a gravidez de Sara (Gn 17). Eles riem, porém, um ano depois, finalmente nasceu Isaque (Gn 21), quando Abraão já estava com 100 anos. Foram 25 longos anos de muita espera e expectativa, mas Deus cumpriu sua promessa. É claro que ele não viu a grande nação, mas, pela fé, creu que ela viria a existir.

Isaque,  filho de Abraão e herdeiro das promessas do patriarca, se casou com Rebeca aos 40 anos (Gn 25.20). Diz o texto bíblico que Isaque orou por sua mulher, que era estéril e Deus ouviu suas orações e ela concebeu (Gn 25.21). Considerando que Isaque tinha 60 anos quando lhe nasceu Esaú e Jacó (Gn 25.26), não é improvável que ele tenha orado por quase 20 anos até receber a bênção já prometida.

José, bisneto de Abraão, teve sonhos proféticos aos 17 anos (Gn 37.6-9). Entretanto, precisou percorrer uma longa e sofrida trajetória, sendo exaltado por Faraó aos 30 anos (Gn 41) e tendo os seus sonhos cumpridos com 38 anos (1º sonho – Gn 42.6) e com 39 anos (2º sonho – Gn 47.11-12). Foram mais de 20 anos de espera!

Moisés nasceu num tempo de dura escravidão e infanticídio hebreu, mas foi cuidadosamente preservado por Deus para ser seu instrumento na libertação de Israel. Ele passou os primeiros 40 anos de sua vida no palácio de Faraó. Achando que ele era tudo, tentou agir por conta própria e nada conseguiu, tendo que fugir para o deserto (Ex 2.1-15). Passou outros 40 anos na terra de Midiã para aprender que ele nada era (Ex 2.15-25). Com 80 anos ele foi, finalmente, chamado por Deus para a grande missão (Gn 3 e 4). Nesses 40 anos que se seguiram, ele teve a certeza de que Deus era tudo. Ele libertou o seu povo das mãos de Faraó e o conduziu no deserto a caminho da terra prometida. Assim, ele teve que esperar 80 anos pelo chamado de Deus e somente com 120 anos chegou à entrada da terra prometida, mas não teve o privilégio de entrar, nem aquela geração incrédula e pecadora (Dt 34). Israel, o povo de Deus, teve que esperar 400 (ou 430) anos para se tornar uma nação, após o êxodo (Ex 12.40; Gn 15.13; At 7.6).

Calebe, um dos espias que confiou em Deus, aos 40 anos recebeu a promessa, por sua coragem e fidelidade ao Senhor. Apenas 45 anos depois, já com 85 anos de idade, alcançou a bênção prometida (Js 14.6-15).

Transportando-nos para o Novo Testamento….

Jesus foi prometido como o Salvador, o Messias, desde a queda dos nossos primeiros pais (Gn 3.15 – Proto-Evangelho). O mundo teve que esperar 4000 anos pelo seu nascimento.

Maria, recebeu o anúncio do anjo e não teve que esperar muito para engravidar do Espírito Santo e nem para dar a luz a Jesus. Porém, Simeão era um homem que a vida toda esperou pelo Messias e tinha a revelação do Espírito Santo de que não morreria sem antes ver o Cristo do Senhor e assim aconteceu (Lc 2.25). Ana, a profetisa, viveu uma vida inteira em adoração e jejuns e, na sua velhice, com 84 anos, teve como recompensa o privilégio de ver e testemunhar a respeito do menino Jesus, o Redentor de Israel (Lc 2.36-38).

E, assim, quantas pessoas passaram algum tempo, ou muitos anos, ou a vida toda à espera de um milagre, de uma cura, até que cruzaram o caminho de Jesus ou dos apóstolos, para enfim receberem a esperada bênção de Deus. A mulher com hemorragia há 12 anos (Lc 8.43); o enfermo à beira do Tanque de Siloé, 38 anos (Jo 5.5-9); Enéias, paralítico, há 8 anos de cama (At 9.33); o cego de nascença (Jo 9) e o coxo de nascença (At 3), a vida toda.

E nos dias atuais? De um modo geral as pessoas não têm paciência para esperar, querem respostas rápidas, influenciadas pela cultura do imediato. Entretanto, Deus não age no “chronos” humano (o tempo do relógio e do calendário), e, sim, no “Kairós” divino (o tempo oportuno, o momento certo), o tempo de Deus. Nossa atitude durante esse tempo de espera não é a de dar ordens a Deus, mas de descansar no poder e misericórdia do Senhor. É claro que precisamos sempre fazer a nossa parte, remover as pedras, mas só Deus pode trazer de volta a vida, como fez a Lázaro. Nesse tempo de espera é importante buscar e sentir sua presença, confiar nele de todo o coração, perceber o momento de agir e o momento de parar de agir, esperar com paciência. Conheço o caso de duas pacientes esposas que esperaram longos 18 e 21 anos, respectivamente, pela conversão e transformação total de seus maridos. Ainda hoje existe e sempre haverá inúmeros casos para testemunhar que o nosso Deus é vivo e no seu tempo nos dará a bênção. Às vezes será preciso viver com o espinho na carne, como o apóstolo Paulo. Em outras, a morte é o melhor presente de Deus. É a cessação de toda a dor e sofrimento para desfrutar da gloriosa presença do Pai Eterno. Para o crente a morte não é sinônimo de derrota; é o fim de um ciclo e o início de um novo tempo.

Console a sua alma e fortaleça sua fé com essas promessas de Deus, dentre tantas outras:

“Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” (Is 64.4)

“Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR.” (Sl 27.14)

“Jó, ainda que dizes que não o vês, a tua causa está diante dele; por isso, espera nele.” (Jó 35.14)

“Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” (Sl 42.5)

“Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.” (Sl 62.1, 5)

Fique na Paz!