Cristão e Comunismo – Como conciliar?

Introdução

Vivemos, mais do que nunca, na era da informação. Se antes ela vinha essencialmente de veículos oficiais, hoje ela vem de toda a parte alcançando as pessoas, em todos os lugares. Não é mais possível ficar indiferente aos fatos, às narrativas sobre os fatos e às fake News que tão tenazmente nos assediam diariamente.  A polarização de ideias e ideologias ganha total relevância nas sociedades pós-modernas. Temas como Direita e Esquerda; Conservador e Progressista; Liberalismo econômico e Keynesianismo[1]; Capitalismo e Socialismo (sendo que o comunismo é geralmente considerado como o ápice do socialismo); dentre outros,  ganham fôlego, ocupam as agendas de debates da sociedade e estimulam a polarização que separa os cidadãos. O que está acontecendo no cenário nacional e mundial? Existe uma nova ordem mundial por trás de tudo isso, trabalhando em prol de algum objetivo específico? Como o cristão deve lidar e se posicionar? Quem é o adversário a ser enfrentado – pessoas ou ideias? Isso é o que procuraremos tratar neste artigo.

Desde já é preciso deixar claro que não há espaço para o confronto de pessoas, porém, o confronto de ideias é sempre válido e necessário, e isso precisa acontecer sempre com muita tranquilidade e respeito!

1. Os termos “Esquerda” e “Direita”

São termos que originalmente (há cerca de 231 anos) identificaram posicionamentos diferentes. “Os termos “esquerda” e “direita” apareceram durante a Revolução Francesa, de 1789, e o subsequente Império de Napoleão Bonaparte, quando os membros da Assembleia Nacional se dividiam em partidários do rei à direita do presidente e simpatizantes da revolução à sua esquerda.”[2] Portanto, os que estavam à direita apoiavam a autoridade real (o imperador) e os que estavam à esquerda, defendiam os representantes do povo. Assim, a direita passou identificar aqueles que defendem o status quo (ordem socioeconômica vigente), conservando as supostas desigualdades e privilégios sociais; enquanto a esquerda os que questionam o status quo e supostamente defendem uma sociedade mais justa e igualitária.

Na prática, atualmente, esses termos servem apenas de um rótulo, de uma forma reduzida e facilitadora para designar duas ideologias antagônicas e imperfeitas – capitalismo e socialismo – que de alguma forma pressionam-se mutuamente e, talvez, favoreçam a busca do equilíbrio social. Os extremos, isto é, tanto a tirania do capital quanto a ditadura do proletariado são danosas e não contribuem para uma sociedade justa e igualitária. Na verdade, esse assunto é demasiadamente complexo, pois tem como pivô o ser humano falível, imperfeito, egoísta e pecador. Como alcançar uma sociedade ideal se a sua base – o ser humano – tem uma natureza má e corrompida pelo pecado? Numa sociedade plural e diversa como conciliar tantos interesses, sensos (individuais e dos seus grupos de afinidade) de certo e errado tão variados, princípios e conceitos éticos lastreados em tantas religiões e filosofias de vida? O desafio é permanente e, provavelmente, insuperável.

2. O fiasco da Esquerda

Vale prestar atenção ao que diz o historiador e doutor em história da igreja Alderi Souza de Matos: “Mais de um século depois (da Revolução Francesa), graças a outra revolução, desta vez na Rússia, a esquerda veio a ser identificada com o comunismo ou socialismo, em sua luta contra o capital e em defesa dos trabalhadores. Essa ideologia tinha algumas características distintivas:

– otimismo quanto ao ser humano, ou seja , o homem como um ser naturalmente bom;

– racionalismo utópico – crença na capacidade da razão para construir uma sociedade ideal;

– determinismo histórico – a história é condicionada por forças econômicas e evolui inexoravelmente para um fim;

– igualitarismo e socialismo – luta pela eliminação das distinções sociais e da propriedade privada, almejando uma sociedade sem classes.

O século 20 testemunhou o fracasso do ´sinistro` experimento socialista, gerador que foi de um grande número de mazelas: ditaduras cruéis e opressoras, novas formas de elitismo e concentração de riquezas, estatismo, burocracia e corrupção, ineficiência administrativa, violação extensiva dos direitos humanos, práticas antidemocráticas (partido único, ausência de eleições, supressão de liberdades públicas). Isso sem contar os horrendos crimes contra a vida praticados na União Soviética, na China, no Camboja, na Coreia do Norte, em Cuba e outros países. Apesar dessas distorções em fracassos clamorosos , muitas pessoas continuam fascinadas pela esquerda com suas propostas socializantes .” [3]

Por outro lado, uma direita que esteja focada na defesa intransigente do capital e dos empresários, insensível às necessidades do povo e à redução das desigualdades sociais, acomodada com o desfrute de privilégios adquiridos de forma ilícita e a exploração dos desfavorecidos, em nada contribui para a melhoria da sociedade.   

3. Cristianismo versus Socialismo/Comunismo

Muitos intelectuais, acadêmicos e artistas em todo o mundo parecem se identificar e defender a ideologia de esquerda, associada a uma linha progressista de usos e costumes. São estes formadores de opinião que têm investido maciçamente para mudar a educação e a cultura vigentes, pois assim conseguiriam mudar os valores da sociedade e por extensão a política. É o que se conhece como marxismo cultural, segundo a visão do filósofo, Antonio Gramsci (1891-1937), que fez uma releitura das ideias de Karl Marx e formulou um marxismo diferente do “original”. É preciso interromper essa escalada de desconstrução da herança judaico-cristã nos países de maioria cristã. Os cristãos precisam estar vigilantes, entendendo que Cristianismo ou Fé Cristã é inconciliável com a Esquerda/Socialismo/Comunismo. Por exemplo:

A cosmovisão cristã tem uma forma própria e autêntica de amar o próximo e compartilhar bens espirituais e materiais, baseada na síntese que Jesus fez da Lei – Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

O comunismo defende o ateísmo, é materialista e persegue os cristãos bem como aqueles que dele discordam.

O compartilhamento de bens na igreja primitiva (Atos 4 e 5) nada tem a ver com a ideologia socialista/comunista. O que ali aconteceu foi tão somente o exercício prático e voluntário do amor fraternal num contexto muito específico de perseguições e dificuldades. Aquela experiência não se transformou em doutrina para a igreja nas epístolas do Novo Testamento.

O comunismo ignora o direito de propriedade individual, cerceia a liberdade e dita suas próprias regras decorrentes de um autoritarismo de raiz.

A Fé Cristã crê que o homem é pecador por natureza e somente o novo nascimento gerado pelo Espírito Santo pode transformar o seu ser e, em decorrência, o seu entorno.

O comunismo difunde a falsa crença de um ser humano bom e atribui todo o mal às estruturas econômicas capitalistas. Pretende impor a ideia de uma sociedade melhor pela coerção governamental, sem a transformação interior

4. Um exemplo real das consequências das duas ideologias

A comparação é interessante e oferece certo respaldo lógico considerando tratar-se de uma mesma região e de um mesmo povo dividido e separado geograficamente e ideologicamente. Se fosse usado como exemplo a Alemanha Ocidental e a Oriental, antes da reunificação, os resultados não seriam muito diferentes. Enfim, as informações e os números abaixo falam por si mesmos.

COREIA

História: Em 1910, a Coreia foi anexada pelo Império do Japão. Em 1945, após a rendição japonesa no final da Segunda Guerra Mundial, a Coreia foi dividida em duas zonas, com o norte ocupado pela União Soviética e o sul ocupado pelos Estados Unidos.

COREIA DO NORTE COREIA DO SUL
Ocupação (1945): União Soviética (comunismo)Ocupação (1945): Estados Unidos (capitalismo)
Governo: República popular totalitária socialista (Ditadura Stalinista Totalitária)Governo: República presidencialista (Democracia Multipartidária)
Religião: Irreligião (64,31%)Religião: Cristã (43,1%)
Área: 120.540 Km2Área: 100.339 Km2
População (2016): 25.368.620População (2017): 51.446.201
Densidade (2016): 198,3 hab./ Km2Densidade (2017): 507 hab./ Km2
PIB (Nominal – 2011): US$ 12,4 bilhões Per capita (2011): US$506,00PIB (Nominal – 2014): US$ 1,449 trilhão Per capita (2014): US$28.738,00
IDH (2014): 0,564 (médio)IDH (2018): 0,906 (muito alto)
O Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC), liderado por um membro da família governante, detém o poder e lidera a Frente Democrática para a Reunificação da Pátria, da qual todos os oficiais políticos são obrigados a ser membros.Desde o estabelecimento da república moderna em 1948, a Coreia do Sul debateu-se com sequelas de conflitos bélicos, como a Guerra da Coreia (1950-1953), e décadas de governos autoritários. Apesar de ser oficialmente uma democracia de estilo ocidental desde a fundação da república, as eleições presidenciais sofreram grandes irregularidades que só terminaram em 1987, quando ocorreram as primeiras eleições diretas e o país passou a ser considerado como uma democracia multipartidária.
Os meios de produção são de propriedade do Estado através de empresas estatais e fazendas coletivizadas.Sua economia tem crescido rapidamente desde a década de 1950. Hoje em dia, é a 13ª maior economia do mundo (por PIB PPA).
A maioria dos serviços, como saúde, educação, habitação e produção de alimentos, também é subsidiada ou financiada pelo Estado.Se encontra entre os países mais avançados tecnologicamente e um dos melhores em comunicações; é o terceiro país com o maior número de usuários de Internet de banda larga entre os países-membros da OCDE.
O país segue a política Songun, ou “militares em primeiro lugar”, com um total de 9.495.000 de pessoas entre soldados ativos, na reserva e paramilitares.Um dos líderes globais na produção de aparelhos eletrônicos, como dispositivos semicondutores e telefones celulares.
Várias organizações internacionais avaliam que graves violações de direitos humanos na Coreia do Norte são comuns e tão severas que não têm paralelo no mundo contemporâneo.Conta com uma das infraestruturas mais avançadas do mundo.
De 1994 a 1998, a Coreia do Norte sofreu uma crise de fome que resultou na morte de milhares de pessoas (entre 240 mil e 420 mil norte-coreanos), sendo que a população continua a sofrer de desnutrição.É o líder da indústria de construção naval, encabeçada por companhias proeminentes, entre elas a Hyundai Heavy Industries.

Fonte: Wikipédia

5. O que fazer diante do cenário político? Como votar?

Cada vez se torna mais difícil escolher candidatos ao legislativo e ao executivo. Torna-se mandatório conhecer um pouco sobre a competência, a ética e a ideologia dos candidatos. Também não basta analisar o candidato, há que se conhecer um pouco do seu partido; da sua ideologia e das suas bandeiras partidárias.

a) Quanto ao candidato, o cristão não tem muitas opções:

Os melhores: são aqueles com alta, média ou baixa competência para o bem.

OPÇÃOCOMPETÊNCIA PESSOALÉTICAIDEOLOGIA
1ªAltaConfiávelConservadora
2ªMédiaConfiávelConservadora
3ªBaixaConfiávelConservadora

Os piores: são aqueles com alta, média ou baixa competência para o mal.

OPÇÃOCOMPETÊNCIA PESSOALÉTICAIDEOLOGIA
–AltaNão ConfiávelProgressista
–MédiaNão ConfiávelProgressista
–BaixaNão ConfiávelProgressista

Vejam que no raciocínio aqui exposto sugere-se que, por exemplo, é extremamente melhor eleger um governante com inteligência mediana (que pode se cercar de auxiliares competentes), porém confiável (honesto) e de princípios conservadores, do que um governante superdotado intelectualmente, não confiável (ou corrupto) e de princípios progressistas, pois este último desviará os recursos públicos e investirá no desmonte dos valores judaico-cristãos.  Entenda-se aqui como conservador aquele que defende princípios e valores éticos, morais e sociais legados por incontáveis gerações, tais como o direito à vida, a liberdade, às crenças religiosas e a propriedade individual; a preservação da família tradicional. Apoia o progresso tecnológico e da ciência, com a modernização, desde que não conflita com seus princípios e valores. Jamais se abale quando os progressistas rotularem tudo isso de “retrocesso”!

b) Quanto ao partido, o cristão precisa ficar atento às suas bandeiras falaciosas/oportunistas/populistas e às de cunho progressistas, como por exemplo:

– Falsa defesa dos pobres, dos trabalhadores e da redução das desigualdades, apenas como pretexto para receber voto (chavão populista).
– Desconstrução da família e do direito de propriedade.
– Falsa preocupação com a preservação do meio ambiente (chavão populista).
– Defesa irracional das minorias (sem a consistente argumentação lógica e humana).
– Legalização do aborto.
– Descriminalização das drogas.
– Defesa irracional da igualdade de gênero (sem a consistente argumentação lógica e humana).
– Desconstrução da heteronormatividade.
– Defesa da ideologia de gênero, agênero, gênero não-binário etc.

Conclusão

Mais importante do que identificar-se ou designar-se como sendo de esquerda, ou de centro, ou de direita é conhecer, apoiar e votar em candidatos e partidos que mais se aproximem dos princípios e da ética cristã e bíblica. Que a função e papel do Estado deve ser de regulação e não de produção de bens e serviços.

Vale trazer para reflexão aqui o que efetivamente tem valor para o desenvolvimento de uma sociedade. Sem dúvida, para nós cristãos, o temor a Deus vem em primeiro lugar. O segundo aspecto relevante é a manutenção de famílias estruturadas e saudáveis. Daí nossa permanente defesa da família tradicional e repúdio à desconstrução da heteronormatividade. Podemos citar como terceiro aspecto a educação. Muito precisa ser feito nesta área e não estamos falando necessariamente de investimento financeiro, principalmente aqui no Brasil. Cremos que é através da educação de qualidade, desde o início da infância,  que podemos mudar a situação de uma pessoa, da sua família e de toda a nação. É a educação que irá preparar o cidadão para a vida; abrir oportunidade para bons empregos, com melhores salários, reduzindo as desigualdades. Na década de 1970 o Estado oferecia um ensino público básico de boa qualidade, melhor do que a maioria das escolas particulares daquele tempo. Não se trata de algo que ouvi falar, mas de experiência vivida. Pertencendo a uma família de imigrantes de poucas posses, recém chegada ao Brasil trazendo apenas uma vaga de emprego na bagagem, frequentei estabelecimento público no antigo primário, ginásio e escola técnica (hoje denominados de ensino fundamental e médio). Depois, trabalhando de dia e estudando à noite, paguei meu curso superior em escola particular e, assim, pude ter acesso a melhores condições no mercado de trabalho.  Infelizmente, no decorrer do tempo essa qualidade da escola pública caiu muito e as consequências estão aí. É preciso reverter essa situação se quisermos um país melhor, mais justo e mais igual. É preciso investir na formação do cidadão para o trabalho e parar de ficar enchendo a cabeça dele de ideologias marxistas e ligadas à sexualidade. Isso não só melhorará o nível funcional de todos os setores de produção e serviço, bem como o nível dos nossos representantes, principalmente no executivo e legislativo. É preciso romper com essa cultura do assistencialismo permanente e paternalismo do governo, promovendo a dignidade cidadã.

Que Deus nos ajude, pois a perseguição aos cristãos evangélicos vai aumentar em todo o mundo! “Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome.” (Mt 24.9)


[1] Keynesianismo: conjunto das teorias e medidas propostas pelo economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) e seus seguidores, que defendiam, dentro dos parâmetros do mercado livre capitalista, a necessidade de uma forte intervenção econômica do Estado com o objetivo principal de garantir o pleno emprego e manter o controle da inflação.

[2] Wikipédia

[3] Revista Ultimato – Nº 338 – Setembro-Outubro/2012


LEITURA ADICIONAL

“Para um entendimento mais aprofundado do significado do conceito ‘ser de direita’, proponho um raciocínio inicial para definir o polo oposto, isto é, ‘ser de esquerda’ ou ser comunista. Gostaria de fazer uma firme declaração de princípio político, que julgo fundamental para evitar quaisquer mal-entendidos quanto às minhas argumentações. Me declaro um anticomunista convicto, não somente em função da sua fundamentação filosófica ou ideológica, mas sobretudo por suas ações práticas.
Poderia apenas dizer que é um regime que não apenas oprime e persegue os cristãos, mas que proíbe a prática religiosa. Isto seria o suficiente para o meu posicionamento, mas como estamos em Grupo, onde pretende-se aprofundar a discussão sobre temas políticos, gostaria de enumerar, de forma sintética, pelo menos dez motivos que fundamentam esta minha declaração:
(i) Liberdade Religiosa – regime que não somente proíbe a prática, mas que persegue e oprime.
(ii) Direito de Propriedade – não reconhece o direito individual de propriedade e ao governo pertencem todas as propriedades da nação.
(iii) Iniciativa Privada – concentra no estado todos os serviços e meios de produção, não permitindo a livre iniciativa na condução da economia, matando a competitividade, a competência, o mérito e a produtividade.
(iv) Controle Comunitário – exerce o controle absoluto sobre toda a vida comunitária, como distribuição de residências, de terras, de empregos, de cargos e tudo o mais, a seu critério, gerando uma casta de privilegiados e corrupção.
(v) Ditadura – exerce o controle do país através do parlamento controlado pelo poder central, com decisões centradas em um governo ditatorial, mantendo o poder de forma autoritária, com base no medo e tortura.
(vi) Partido Único – monopoliza o pensamento através da centralidade do partido único, controlado pelo poder dominante;
(vii) Liberdade de Expressão – controla todas os meios de comunicação, divulgando apenas o que interessa ao regime.
(viii) Liberdades Individuais – são abolidas e os indivíduos são tratados em função dos interesses do Estado e não de uma justiça verdadeira.
(ix) Manipulação da Justiça – elaboração de leis, visando a concentração da justiça na mão do governo, sem independência dos poderes e sem julgamentos justos;
(x) Internacionalização do Modelo – exportação do modelo para outras nações, levando grandes instabilidades para os povos e a paz do mundo.
Por isto e muito mais, é que reafirmo minha declaração de, racionalmente, me declarar um anticomunista.” (Guaraci Sathler)

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Cristão e Política

Cristão e Política

Cristão e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se? Participar ou Distanciar-se?

Introdução

O assunto CRISTÃO ou IGREJA e POLÍTICA recebe os holofotes da mídia e ganha ainda mais notoriedade na sociedade em geral quando um candidato disputa as eleições presidenciais em 2018, no Brasil, e sai vencedor, empunhando a bandeira de “Deus acima de todos”. Não somente o ingrediente religioso, acompanhado do discurso conservador em defesa da família e dos usos e costumes da sociedade atraíram a atenção e impactaram a opinião pública e da grande mídia, mas, também, o uso maciço das redes sociais e da internet como elemento de convencimento para o voto. Os profissionais do marketing eleitoral, os partidos e políticos, ou seja, a sociedade brasileira como um todo, se surpreendeu perplexa e se deu conta de que dispor de muito dinheiro e tempo na grande mídia televisiva e radiofônica não são mais fatores determinantes para se ganhar uma eleição.

As redes sociais, através da internet, têm sido o palco de manifestações profusas, de discussões e debates candentes dos mais variados assuntos e temas, inclusive os de natureza política, isto é, tornou-se um verdadeiro espaço democrático de divulgação e debate de ideias. Para aqueles líderes alinhados com alguma ideologia totalitária e para aquelas autoridades públicas que não desejam que os seus malfeitos venham a público, as redes sociais se tornaram o inimigo da vez. Para aqueles governantes que compravam a grande mídia para divulgarem apenas o que lhes interessava, as redes sociais se tornaram o adversário a ser silenciado. Assim, viveremos tempos difíceis de combate feroz às redes sociais, à liberdade de expressão e manifestação, quer nas redes sociais, quer nos púlpitos das igrejas. Certas autoridades públicas brasileiras parecem estar muito preocupadas agora com a qualificação e legislação para punição de um tal “abuso do poder religioso”, como se pastores e padres pudessem ter afetado o resultado do pleito, convencendo ou coagindo seus fiéis a votarem no candidato que ganhou as últimas eleições presidenciais. Naturalmente que repudiamos qualquer ação neste sentido que possa ser exercida por  parte da liderança de uma igreja. Entretanto, sem dúvida, estão procurando brechas para poderem controlar o que é dito nos púlpitos das igrejas: política, homossexualidade etc.! Por que tais autoridades nunca se preocuparam com o discurso ideológico da esquerda sindicalista nas portas das fábricas e das empresas? E com a propagação ideológica da esquerda nas escolas e universidades? Por que não apoiam iniciativas como “Escola Sem Partido”? Por que não se dedicam mais a coibir o patrocínio de candidatos por gente fora da lei e sua investida nas comunidades carentes?

Reafirmamos aqui que a relação do Cristão com o Estado é diferente da relação da Igreja com o Estado. Sendo o Estado laico não há que se pensar em interferência direta da instituição Igreja na Instituição Estado. O inverso também não é aceito. Assim sendo, qual deveria ser o papel do cristão na política? Deve pronunciar-se ou silenciar-se? Participar ou distanciar-se?

1. Pronunciar-se ou Silenciar-se?

Há duas realidades relevantes e irrefutáveis na pátria brasileira que não podem ser desconsideradas numa abordagem como esta. A primeira é a crescente disponibilização das ferramentas virtuais vinculadas à internet, cada vez mais acessíveis a todos os cidadãos, de todas as faixas de renda, principalmente através dos aparelhos celulares (smartphones), com planos de dados mais baratos, resultante da grande competição entre as operadoras. A segunda é o crescimento da população evangélica que iremos abordar no final deste artigo. O acesso às notícias e informações disponíveis e que circulam no mundo virtual e o crescente número de usuários estão mudando o nosso cotidiano. Não é mais concebível ficar indiferente aos acontecimentos que nos chegam a cada instante, inclusive ao que acontece com as figuras públicas e com as autoridades constituídas, porque tudo isso produz consequências que afetam a todos.

Jesus nos deu o exemplo se pronunciando sobre temas “religiosos”, tais como, jejum, guarda do sábado, oração, falsos profetas, ressurreição, dízimo, escatologia, vida eterna, galardão no céu, Espírito Santo, dentre outros. Porém, também se pronunciou sobre diversos temas que dizem respeito ao cotidiano de qualquer pessoa, tais como: amar, praticar a caridade, ansiedade, julgamento alheio, perdão, ambição, senhores e servos, justiça, matar, adulterar, revidar, acúmulo de bens e riqueza, divórcio, pagamento de tributos, salário, dentre tantos outros.

É certo que não podemos viver alienados dos acontecimentos que nos cercam, inclusive na esfera política, nem vivermos como que dividindo e separando aquilo que supostamente é “espiritual” do que é “material” e focando somente o espiritual. Entretanto, para o cristão exercer esse direito e dever de pronunciar-se, deve levar em conta alguns aspectos, tais como:

a) É preciso buscar um crescimento integral e equilibrado em todas as dimensões da existência humana: física, mental, social e espiritual (Lc 2.52).

b) Um cidadão dos céus, precisa pensar nas coisas lá do alto, não nas daqui da terra (Cl 3.2). Isso significa que o seu foco e missão vão muito mais além das coisas efêmeras desta vida. Entretanto, ele foi chamado para ser sal da terra e luz do mundo, isto é, para afetar positivamente o seu entorno.

c) Um cristão ingênuo, despreparado, sem sabedoria e sem o conhecimento das coisas desta vida, além de dispor de reduzidas condições para agregar valor à sociedade, corre o risco de ser enganado e usado por pessoas vis e inescrupulosas, inclusive no campo da política partidária.

d) É preferível silenciar-se a pronunciar-se de forma equivocada ou inadequada. Ao invés de contribuir para elevar e dignificar a causa do evangelho e o bem comum, manchará a imagem da igreja. Se um cristão for se pronunciar sobre algum assunto que o faça com sabedoria e conhecimento de causa, usando os melhores argumentos e tendo a sensibilidade necessária ao se expressar.

Enfim, sendo o cristão um cidadão da pátria deve praticar uma cidadania responsável, exercendo os seus direitos constitucionais e legais, expressando-se de forma respeitosa, dentro dos limites da lei, com base em fatos e dados verdadeiros. Acima de tudo deve também cuidar de cumprir os seus deveres, sempre fazendo a diferença, dando um bom testemunho da sua ética cristã, para não ser traído e condenado por suas atitudes divergentes das suas palavras.

2. Participar ou Distanciar-se?

Qual deve ser o papel do cristão na política? Deve participar ou distanciar-se?

Essa ideia de fazer separação entre “vida eclesiástica ou cristã” e “vida secular”, entre “coisas espirituais” e “coisas materiais”, é, no mínimo, equivocada, sem base bíblica.  A vida que cada um tem para viver é uma só e deve ser vivida plenamente, ainda que alguns o façam com motivação carnal e outros com motivação espiritual. Cada cidadão, cristão ou não cristão, tem sua contribuição a dar para a sociedade, usando suas habilidades, dons e talentos. Um empregado ou empregador, um profissional (médico, advogado, operário, servidor público etc.) cristão serve ao Senhor, de “modo integral”, através do serviço que executa servindo ao próximo e à sociedade. O trabalho é um meio e não o fim em si mesmo. É o que Jesus nos ensinou quando disse “trabalhai, não pela comida que perece” (Jo 6.27). Trabalhar pelo sustento é regra da vida, conforme o apóstolo Paulo enfatiza: “se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2Ts 3.10). Entretanto, alguns são chamados e vocacionados para se dedicarem de “tempo integral” aos serviços da igreja e do reino de Deus.

Na história bíblica revelada no Antigo Testamento há dois exemplos clássicos da atuação de pessoas, indivíduos tementes a Deus e por ele chamados e vocacionados, junto a governos: José, no Egito; e, Daniel, na Babilônia.  E, merece destaque, o fato deles terem dado o seu melhor, direcionados e usados por Deus, em governos que não eram os da sua própria pátria, porém, que de certa forma contribuíram para o bem do seu povo. Também há o exemplo relevante de Neemias, que deixa sua zona de conforto junto à corte do Império Persa, para coordenar todo o esforço de restauração física e espiritual da sua nação.

Ao longo da história da igreja já se viu de tudo no que diz respeito a relação Igreja x Estado. Em certas épocas e lugares, reis, soberanos e governantes exerceram poder e controle sobre a igreja. Em outras, vê-se a elite religiosa influenciando e dominando os governos. Em outro artigo já tratamos de como deve ser  essa relação Igreja x Estado. Aqui queremos tratar do envolvimento do cristão com a política. De longa data vem uma ideia equivocada quanto à santificação. Foi assim que no monasticismo se defendia o isolamento e renúncia das coisas materiais para se obter essa verdadeira santificação e consagração. Desde longa época paira sobre a igreja a ideia de que os cristãos farão melhor quando se mantiverem distantes da política, com suas disputas pelo poder, intrigas e corrupções. Entendemos que santificação tem a ver com separação do pecado e não com isolamento social! Quando os cristãos verdadeiros deixam de participar ativamente da vida pública, deixam de agregar a ela relevantes contribuições para o bem comum.

Resumindo a resposta:

a) Empregue os seus dons e talentos para o bem da sociedade onde Deus te chamar e vocacionar para fazê-lo, dentro e fora da igreja, o que pode incluir envolvimento político ou o exercício de um cargo público.

b) Lembre-se do exemplo digno, ilibado e eficaz dos personagens bíblicos José, Daniel e Neemias (dentre outros). Se você se omitir de participar outros o farão, muitas vezes sem a ética cristã, acarretando muito prejuízo social.

c) Tenha em mente que santificação tem a ver com separação do pecado e não com isolamento social ou político.

d) Fuja à tentação de obter vantagens pessoais ou corporativas em detrimento do bem coletivo. Nunca perca de vista que o alvo é o bem comum, o que inclui todas as pessoas com suas diferenças de sexo, raça, classe social, crença etc.

e) Não se envolva ou assuma compromissos com partidos políticos e ideologias que violem a liberdade democrática e os princípios e valores bíblicos.

f) Considere que desvios de conduta de um cristão que exerce atividade pública (ou privada) é sempre motivo de escândalo e um desserviço à causa do Evangelho.

3. O crescimento evangélico e suas consequências

Pelos dados do IBGE na tabela abaixo, constatamos o seguinte, em dez anos (2000 a 2010):

– Crescimento da população brasileira: 12,29%
– Crescimento da população evangélica: 61,45%
– Decrescimento da população católica: – 1,36%
– Total de cristãos (católicos e evangélicos): 86,79%

Nota: Tabela gerada diretamente no site do IBGE.

Independentemente do grau de envolvimento e compromisso desses católicos e evangélicos com a fé cristã, o fato evidente é que o Brasil continua tendo uma maioria cristã, o que significa um certo grau de alinhamento com os princípios e valores cristãos, rotulados pelos progressistas de valores conservadores. Entretanto, o que mais tem chamado a atenção e gerado preocupação na ala progressista é esse relevante crescimento da população evangélica. É de se esperar uma investida cada vez maior do reino das trevas para tentar impedir a continuação desse crescimento. Por outro lado, os evangélicos têm diante de si a oportunidade, o desafio e a responsabilidade de saírem da sua zona de conforto e contribuir efetivamente, em todas as áreas da sociedade, para o desenvolvimento da nação. É mandatório participarem dos debates de temas relevantes, tais como, liberdade de expressão, aborto, ideologia de gênero, homossexualidade, justiça social, ética na política, combate a corrupção, cotas raciais, preservação do meio ambiente, dentre tantos outros.

Conclusão

Os cristãos têm muito a dizer, a se pronunciar. Precisam se engajar nas lutas legítimas por uma sociedade melhor. É muito cômodo se esconder nas máximas de que “o mundo jaz no maligno” e que está determinado que “o mundo vai de mal a pior” e, assim, cruzar os braços e reclamar da situação. Somos arregimentados pelo Senhor da Igreja para proclamar a sua tão grande salvação, nutrindo a esperança do desdobramento na transformação de vidas. Se a população evangélica cresce de forma tão relevante, se não houver influência efetiva desta que produza mudança na sociedade, esse crescimento será rotulado de inócuo e visto com muita desconfiança.

Não basta orar pelas autoridades, pois a nossa cidadania celeste não nos isenta dos labores terrenos. “Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mc 12.17)

Que Deus nos ajude!

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Veja também:
Igreja e Política – Mídia Tendenciosa
Igreja e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se?
Cristão e Comunismo – Como conciliar?

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Veja a experiência dessa jovem cristã na política:

Igreja e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se?

O assunto CRISTÃO ou IGREJA e POLÍTICA é muito amplo e requer abordagens sérias e elucidativas. A relação do Cristão com o Estado é diferente da relação da Igreja com o Estado. Sendo o Estado laico não há que se pensar em interferência direta da instituição Igreja na Instituição Estado. O inverso também não é aceito. Sendo o Cristão um cidadão da pátria deve praticar uma cidadania responsável, exercendo os seus direitos constitucionais e legais, expressando-se de forma respeitosa, dentro dos limites da lei, com base em fatos e dados verdadeiros, participando diretamente (ou não) das instituições públicas e da política, também cuidando de cumprir os seus deveres; mas sempre fazendo a diferença, dando um bom testemunho da sua ética cristã.

E a instituição Igreja? Qual deveria ser o seu papel na política, em relação a atuação do Estado? Deve pronunciar-se ou silenciar-se? Deve cuidar apenas do que diz respeito à ortodoxia e à ortopraxia, nos limites da sua membresia ou no campo da religião, ou avançar na direção do ambiente sócio-político? Como deve ser a relação entre Igreja e Estado, Fé e Política?

1. O que é política?

Antes de tudo torna-se necessário purgar e desmistificar o termo “política”. A estreita associação deste termo a vários políticos desqualificados ou a certos partidos políticos abjetos, contaminou-o de tal forma que passou a ser visto por muitos com algo repulsivo e repugnante.

O termo política pode ter vários significados diferentes, mas tem um significado principal. “O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à Pólis, ou cidade-Estado grega. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.”[1] Está intimamente ligado ao ato de governar, de tomar decisões em nível federal, estadual e municipal, para o bem comum de todos os cidadãos. O termo também pode ser estendido ao governo ou gestão de qualquer instituição ou organização ou empresa pública ou privada, que também devem visar o bem comum. Portanto, governantes e gestores precisam sempre ter em vista o atendimento dos interesses legítimos dos cidadãos, dos servidores, dos empregados. O termo também pode ser aplicado aos relacionamentos entre as pessoas, quando buscam um consenso ou objetivo em comum, atendendo assim os interesses das partes. Política é a arte do possível! A política se faz presente em todo o tempo e em todas as fases da nossa vida. Quando argumentamos, quando defendemos uma ideia, quando tentamos convencer alguém, estamos fazendo política. Vejam que o foco da política são as ações ou tomada de decisões para o bem comum. Neste sentido, até a investida num pedido de namoro ou de casamento podem ser considerados no conceito de política.

Retornando à questão do governo das cidades, se está em foco o bem comum dos cidadãos, torna-se necessário e é natural que este cidadão se faça representar no governo, o que ocorre num regime democrático através do voto do cidadão civilmente capaz.

“Política Eclesiástica” é uma expressão que as vezes pode ter um sentido pejorativo. Certamente será considerada de forma positiva quando buscar o convencimento, o senso comum, na tomada de decisões para o bem comum e que estejam totalmente alinhadas e alicerçadas na palavra de Deus, nossa regra infalível de fé e prática. Por outro lado, poderá ser um desastre na vida da igreja quando envolver interesses e caprichos pessoais e escusos, negociação de cargos em troca de benefícios, projeção humana em detrimento da glória de Deus, o bem de algum grupo de afinidade e não o bem comum,  a violação de princípios e valores bíblico-cristãos.

2. A trajetória do poder político na história.

A luta pelo poder político, os meios para se chegar ao poder e impor sua vontade e dominar comunidades tem sido uma prática constante desde o início da história. Várias são as formas que têm sido empregadas para se fazer política. A história humana começou com uma família. Então, ali prevalecia o poder político patriarcal familiar. As famílias se multiplicaram e constituíram tribos. Em cada tribo o poder político era exercido pelo líder e/ou o conselho tribal. Com o crescimento populacional, os povos primitivos, as sociedades humanas, as civilizadas, as bárbaras e as selvagens, foram se organizando, cada qual com seu poder político estabelecido ainda que rudimentar. Desde então, várias formas de governo têm sido praticadas no mundo.

Vale lembrar que o objetivo desse poder político é manter a ordem por meio de leis e regras, garantir a unidade e integridade combatendo levantes internos e a defesa contra invasões externas, e promover o desenvolvimento e bem-estar da sociedade.

Esse poder político tem sido exercido ao longo da história por líderes-ditadores (reis, imperadores etc.), às vezes assessorados por conselheiros próximos. Nesses casos o entendimento do tal “bem comum” é definido unilateralmente pelos tais governantes, sem a participação popular.  O povo de Israel inicialmente estava sob a liderança de um governo teocrático. Deus estabelecia o líder visível e governava através deste, orientando-o diretamente. Permaneceu assim até que o povo clamou por um rei e Deus o atendeu, estabelecendo a monarquia, sendo Saul o primeiro rei.

Os historiadores nos dão conta de que por volta do século V ou VI a.C. surgiu em Atenas, na Grécia Antiga, o regime de governo denominado de “democracia” ou “governo do povo” (demos=povo + kracia=poder). “Democracia é um regime político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governação através do sufrágio universal. Ela abrange as condições sociais, econômicas e culturais que permitem o exercício livre e igual da autodeterminação política.”[2]. Ainda que outras formas de governo coexistam no mundo, a sociedade moderna parece convergir no sentido de admitir que a democracia não é um sistema de governo perfeito, mas é o menos ruim. “O sistema democrático contrasta com outras formas de governo em que o poder é detido por uma pessoa — como em uma monarquia absoluta — ou em que o poder é mantido por um pequeno número de indivíduos — como em uma oligarquia. No entanto, essas oposições, herdadas da filosofia grega, são agora ambíguas porque os governos contemporâneos têm misturado elementos democráticos, oligárquicos e monárquicos em seus sistemas políticos. Karl Popper definiu a democracia em contraste com ditadura ou tirania, privilegiando, assim, oportunidades para as pessoas de controlar seus líderes e de tirá-los do cargo sem a necessidade de uma revolução.”[3]

Tudo o que tem sido exposto até aqui é apenas um verniz histórico e conceitual que cobre esse complexo tema do poder político para enfatizar as forças que atuam e exercem influência na sociedade e sobre os cidadãos, dentre eles os cristãos. Precisamos conhecer essas forças, bem como o regime ao qual os cidadãos e a igreja estão sujeitos, bem como nossos limites para ação ou manifestação cidadã ou institucional.

3. O papel da igreja frente ao Estado.

O poder político não é a única forma de poder e de autoridade existente na sociedade. Há, também, autoridade religiosa, familiar, econômica, dentre outras. Diversas são as associações que os cidadãos firmam, porém queremos destacar aqui, além da instituição Estado, a instituição Família e a instituição Igreja (ou religiosa). O Estado exerce o poder político sobre todas as áreas, instituições e pessoas, através dos poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário. Entretanto, deve haver limites na interferência do Estado sobre a Família e a Igreja. A recíproca também é verdadeira.

A grande questão que se coloca e que tem sido motivo de muita polêmica é o potencial de influência efetiva de cada uma dessas três instituições basilares sobre o cidadão! Estados totalitários, como os comunistas, farão de tudo para anular o poder de influência da família e da igreja sobre os cidadãos. Ideologias autodenominadas como “progressistas” farão de tudo para desconstruir as instituições família e igreja e, assim, anularem essas possibilidades de influência. Eles querem dominar as mentes dos cidadãos e sabem muito bem do obstáculo que igreja e família representam. Quando um governo se levanta com uma bandeira em prol da defesa da igreja e da família, de valores judaico-cristãos, sem dúvida provocará a reação de todas as forças alinhadas com as trevas e o inferno.

É fato inquestionável que desde o início dos tempos, no Éden, encontramos o propósito de Deus de inculcar na mente humana a sua “política existencial”, para o bem comum. Por outro lado, desde então encontramos, também, Satanás propagando a sua “política existencial” nefasta e destruidora, visando o afastamento da criatura do seu Criador. As formas e os meios utilizados para esses dois propósitos opostos variarão, mas prevalecerão até o final dos tempos.

Outro aspecto extremamente relevante nesses tempos de pós-modernidade é o “poder político” exercido pelos blocos econômicos e pelos veículos de comunicação de massa. Estes poderes são capazes de ultrapassar qualquer limite territorial, cultural, ético, moral, linguístico etc., e financiar ou propagar ideias, ideologias, usos e costumes que atendam seus interesses e moldem a mente dos cidadãos de qualquer nação. Daí a importância de um  Estado independente e honesto que atue eficazmente na regulação da ação das instituições, inibindo investidas que atentem contra os valores basilares da sociedade, preservando o bem comum.

Portanto, diante de tantos desafios e ameaças ao propósito divino para a humanidade, entendemos que a igreja, como instituição, deveria considerar seriamente os seguintes aspectos, dentre outros contemplados no documento do Supremo Concílio da IPB e transcrito no artigo “Igreja e Política – Mídia Tendenciosa” publicado neste blog em 11/02/2020:

a) Não se alienar dos acontecimentos e fatos que afetam a sociedade e os cidadãos, fechando-se e limitando-se aos aspectos teológicos e religiosos.

b) Sendo o Brasil um Estado laico, manter-se independente e distante do Estado e dos Partidos Políticos, jamais buscando aproximação que lhe renda benécias e vantagens, principalmente as financeiras ilícitas ou não convenientes.

c) Manifestar seu apoio àquelas iniciativas governamentais – propostas, pautas, bandeiras ou agendas – que estejam claramente definidas e alinhadas como os ensinos da bíblia e nossa herança judaico-cristã-reformada.

d) Pronunciar-se nos púlpitos e publicamente como voz profética, de forma lúcida, coerente e respeitosa, em tempo oportuno, quanto àquelas grandes questões que violem nossa herança judaico-cristã-reformada, contrariando princípios e valores de ética, da moral, da justiça, da liberdade, da igualdade, da dignidade humana e da fraternidade.  

Que assim Deus no ajude, iluminando nossas lideranças eclesiásticas a não se omitirem naquilo que precisa ser dito, e nem a extrapolarem se pronunciando em assuntos e áreas que não são de sua competência. Afinal, fomos chamados pelo nosso Mestre para sermos Sal da Terra e Luz do Mundo!


[1] Wikipédia
[2] Wikipédia
[3] Wikipédia

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Veja também:
Igreja e Política – Mídia Tendenciosa
Cristão e Política
Cristão e Comunismo – Como conciliar?

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Veja o que este jovem político tem a dizer:

Um governante perseguido

UM GOVERNANTE PERSEGUIDO

Um título mais hollywoodiano seria – Perseguição implacável

Introdução

Acompanhe, a seguir, as características de um governante e sua história de vida. Aguce sua percepção, refreie sua curiosidade e ansiedade para descobrir de quem estamos falando. Pense nas lições que podemos extrair desse texto.

Para sermos mais didáticos, vamos dividir a narrativa em capítulos.

Capítulo 1

Não, no início ele não era famoso, não era alguém de nobre nascimento, não era e não tinha a intenção de ser um intelectual influente, um filósofo ou alguém rebuscado e erudito no falar. Pode-se dizer que se trata de um homem simples, muito identificado com o seu povo, um patriota. Alguém que exercia sua função, no lugar onde fora posto, com muita dedicação. Um servidor fiel e confiável que tão somente desejava cumprir suas obrigações da melhor forma possível. Sua honestidade e sua reputação ilibada o mantinha naquela função.

Num certo dia as coisas começaram a tomar um novo rumo em sua vida. Tomando conhecimento e avaliando mais profundamente o estado de grande miséria em que sua pátria amada se encontrava ficou consternado, abalado e triste com tal situação. Ele tinha plena consciência das causas que levaram sua nação a este estado deplorável. O seu espírito se agitou e o inquietou pois percebia o quanto era difícil para qualquer ser humano reverter essa situação. Na sua angústia e inconformismo lembrou-se de que existe um Deus que está acima de tudo e de todos. Somente este Deus Criador e Sustentador poderia perdoar todas as transgressões do seu povo, todas práticas horrendas daqueles que haviam governado sua nação, todo o abandono das leis divinas, bem como princípios e valores.

Capítulo 2

Sua vida não seria mais a mesma, seu semblante mudou, sua inquietação interior não podia mais ser contida. Então, ele começou a compartilhar os seus sentimentos com os mais próximos a ele e se propôs a fazer algo para reverter aquele quadro desesperador e sombrio. Estava disposto, como qualquer bom soldado o faria, a lutar e até morrer pela causa maior de restaurar sua nação, de tirar o seu povo daquele estado de desprezo e abandono e devolver-lhe a dignidade e honradez.

A caminhada em direção à essa grande obra de reconstrução nacional estava começando. Ele não tinha muitos recursos próprios para levar a cabo tal empreendimento, mas esperava contar com a ajuda dos seus apoiadores e, sobretudo, com a boa mão de Deus. Ele cumpriu todas as formalidades legais e assumiu o governo da sua pátria amada. É claro que os seus inimigos e os inimigos da pátria ficaram tremendamente irritados com essa sua determinação de fazer o bem, de verdade, ao seu povo, bem como de promover a ordem e o progresso da sua pátria amada. Então, os seus inimigos maquinaram: – Como não foi possível evitar que ele assumisse o governo, vamos fazer tudo para impedi-lo de governar.

Antes de tomar posse ele trouxe para perto de si algumas poucas pessoas que começaram a analisar juntamente com ele a profundidade e a precariedade da situação, e a planejar os próximos passos.

No seu discurso de posse ele falou a todos deste estado de miséria nacional  e de como se sentia um escolhido de Deus e por ele investido dessa árdua missão de restaurar a nação. Assim, ele convocou a cada um compatriota a se unir a ele nesse propósito.

Os inimigos do bem da pátria zombaram de tudo isso e o desprezaram do mais profundo das suas almas. Não encontrando motivo para acusá-lo, vendo sua coragem e determinação em cumprir aquela missão, procuraram colar nele a imagem de rebelde à Ordem Superior, de autoritário ou fascista. Sua resposta aos inimigos era no sentido de mostrar-lhes que Deus estava nessa obra, a obra seria feita e que eles não teriam parte nela.

Capítulo 3

O trabalho de reconstrução nacional não se faz com apenas uma pessoa, um governante e seus auxiliares próximos. É obra para ser feita com a colaboração de todos, de toda a nação, pois é de interesse de todos. Se a nação for bem, todos serão beneficiados. Daí a convocação geral do nosso governante até agora oculto.

E o povo se engajou na obra, cada um no seu lugar. Os líderes religiosos colocaram as mãos na obra. Os grandes e pequenos empresários, os profissionais liberais e os autônomos, a classe trabalhadora, os ricos e os pobres, enfim, todos se uniram ao seu governante e fizeram a sua parte na obra. E a obra estava se desenvolvendo muito bem.

Capítulo 4

Tendo a obra progredido, como era de se esperar, despertou a ira e indignação dos inimigos do bem da pátria amada. E zombaram dos apoiadores do governante e duvidaram da solidez do trabalho que era realizado por eles, para desanimá-los e desmotivá-los, mas não lograram êxito.

Percebendo que a reconstrução nacional caminhava bem, que o establishment (a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado)  até então predominante estava sendo substituído por outro contrário aos seus interesses; que a nação estava fortalecendo as suas fronteiras; os inimigos do bem da pátria amada ficaram ainda mais irados e resolveram unir todas as forças de oposição ao governo e, de comum  acordo, ataca-lo e criar confusão ali.

Diante de cada nova ameaça dos inimigos, o governante não se abatia e não deixava de confiar em Deus e se preparava para o combate. Ele era a favor do armamento e fortalecimento das famílias, como forma de defesa ao ataque inimigo. Naquele cenário ele defendia não só a posse como também o porte de arma. Assim incentivou todo o povo a se armar e a lutar, cada um por sua família e a ajudar o seu vizinho se este fosse atacado. As pessoas de bem entendiam claramente que isso não era um discurso de ódio, mas apenas uma forma de prevenção e defesa ao ataque do inimigo.

Capítulo 5

Os desafios dessa reconstrução nacional eram muitos. O clamor do povo por causa dos altos impostos chegou aos ouvidos daquele governante que logo ficou sensibilizado. Ele próprio vivia uma vida simples e austera, o que lhe conferia autoridade para lutar contra toda a sorte de exploração do povo, principalmente por parte de algumas classes do próprio povo, como os magistrados. Ele tinha a coragem de enfrentar e repreender verbalmente essa classe de aproveitadores do Estado e as pessoas de bem também não viam nisso um discurso de ódio. E ele lembrava a todos que os governantes que vieram antes dele oprimiam e exploravam o povo, mas ele estava fazendo diferente, por temor a Deus e por respeito aos seus princípios.

Capítulo 6

Não foram poucos os planos arquitetados, pelos inimigos da pátria amada, contra aquele governante. Quanto mais a obra progredia, mas investidas aconteciam. Eles o chamaram várias vezes para conversar, quem sabe para negociar o “toma lá, dá cá”, mas ele se recusava a ir.

Tentaram de tudo para denegrir sua imagem de homem honesto e patriota, procurando tirá-lo do foco na missão, mas não obtiveram êxito. Armaram uma cilada para que ele transgredisse preceitos religiosos, à guisa de proteção da sua vida, mas não lograram êxito, porque a mão de Deus estava com ele. Os inimigos da pátria amada tinham contatos infiltrados e próximos ao governo, mesmo assim não tiveram sucesso.   

Capítulo 7

Por fim, terminada a parte inicial da missão, este governante, no exercício pleno da sua competência, nomeou pessoas muito próximas a ele, do seu relacionamento direto, de sua total confiança, para cuidarem da área de segurança pública. O povo não questionou e os magistrados não interferiram pois essa era e é uma prática comum em todos os tempos e nas nações.

E, assim, aquele governante partiu para a realização de novas etapas da missão, amparado pelo povo e com Deus acima de tudo e todos.

Conclusão:

Quais lições podemos extrair desta narrativa?

1. Deus está no controle e governo da história e quer o melhor para as suas criaturas.

2. A ruína de uma nação é consequência de governantes perversos e de povo depravado.

3. O bem-estar de uma nação depende de governantes e povo unidos em prol do bem comum, sob a bênção de Deus.

4. Sempre haverá opositores, mas estes nunca prevalecerão ou frustrarão os propósitos soberanos de Deus.

5. Se opor a um governante instituído pela vontade ativa ou permissiva de Deus pode significar uma oposição ao próprio Deus.

6. O que realmente importa não é gostar ou deixar de gostar de um governante, mas estar alinhado e apoiando tudo aquilo que o seu governo estiver realizando para o bem comum e que não contrarie a vontade de Deus expressa nas Sagradas Escrituras (Bíblia), bem como se manifestando de forma equilibrada e respeitosa quando do contrário.

7. É bom nunca perder de vista o que  Jesus Cristo disse, que uma casa dividida contra si mesma não subsistirá (Mt 12.25).


Nosso desafio:

Por fim, eu pergunto: descobriu qual o personagem de que trata a narrativa acima? Escreva o nome dele no campo de comentários. Daqui a 7 dias eu libero os comentários e revelo o nome dele.

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Resposta ao desafio:

O nome do governante neste artigo é NEEMIAS. No primeiro versículo, o livro de NEEMIAS já revela o nome do seu autor: “As palavras de Neemias, filho de Hacalias. No mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu na cidadela de Susã,” (Ne 1.1). O nome Neemias significa “Yahweh ou Javé consola”. Neemias era um judeu que teria nascido no exílio no ano de 475 aC. Tinha, portanto, aproximadamente 30 anos de idade quando foi nomeado governador de Judá (Ne 5.14; 8.9), exercendo até aquele momento a função de copeiro do rei Artaxerxes I (Ne 1.11). O copeiro-mor ou copeiro-chefe era o principal dos copeiros (Gn 40.9). É provável que Neemias fosse um copeiro-chefe. Sua função era comprovar que a bebida do rei não estava envenenada. Esta função de extrema confiança lhe oferecia a oportunidade de convívio direto com o rei e, dentre outros privilégios, o de ser mais um dentre os seus conselheiros. Neemias pode ser visto neste livro como um homem simples, humano, de caráter, temente a Deus e de oração, determinado, persistente, patriota, corajoso, empreendedor, de visão, hábil nas relações interpessoais, hábil na solução de problemas, agregador, articulado, hábil no quesito “fazer fazer”, disposto a realizar a vontade de Deus (Ne 2.12; 7.5).

Cada capítulo deste artigo corresponde a uma síntese do respectivo capítulo do Livro de NEEMIAS.

Qualquer semelhança desta descrição com a de outro governante é mera coincidência….ou será que não!?….

No link a seguir você poderá encontrar um comentário bíblico objetivo sobre o Livro de Neemias.

https://pauloraposocorreia.com.br/category/e-comentarios/neemias/

Crise ética e reações

Crise Ética

Introdução

A preocupação com a ética ou comportamento ético não é uma marca característica da sociedade pós-moderna. Desde o princípio da humanidade este é um assunto que nunca saiu da agenda diária. Particularmente aqui no Brasil, há muito somos bombardeados diariamente por notícias de falta de ética na gestão pública e privada. Nestes últimos anos só se fala em mensalão, petrolão, lavajato, e, agora, a corrupção no alto escalão da FIFA. Estamos ficando cansados de ouvir falar de produtos e serviços superfaturados, desvio de recursos públicos, notas frias, propinas pagas, cabide de emprego, falcatruas de todo o tipo na gestão da coisa pública em benefício de alguns. Executivo, legislativo e judiciário são vistos pela população como áreas carcomidas pelo câncer da corrupção, já em processo de metástase. Na gestão da coisa privada, também encontramos todo o tipo de falta de ética, desde produtos adulterados e serviços fraudulentos até conchavos com funcionários e autoridades que deveriam zelar pelo que é de interesse dos consumidores, mas que se vendem para auferir ganhos pessoais. De um modo geral, grande parte da população que tanto critica os governantes, os políticos, os juízes e desembargadores, os empresários etc, caminha na mesma linha da falta de ética: sonegando, fraudando, furtando, enganando, mentindo, até matando ou mandando matar, enfim, tentando levar vantagem em tudo, a qualquer preço. Recentemente a mídia repercutiu a notícia de um homem com habilitação para dirigir suspensa que pediu ao seu irmão gêmeo para tirar segunda via da sua carteira e estava dirigindo como se fosse o outro. Por acaso, ambos foram pegos na mesma blitz, com intervalo de uns quinze minutos e o infrator responderá por falsidade ideológica e por dirigir com habilitação suspensa. O próprio mundo virtual que é um reflexo do mundo real já reproduz toda essa falta de ética e corrupção! Com tudo isso acontecendo, as instituições estão ameaçadas e a sociedade tende ao colapso.

Na própria comunidade chamada igreja que deveria ser exemplo de conduta, infelizmente há registros de casos de falta de ética, desde os mais graves até aqueles que quase passam despercebidos, como, por exemplo, dizer para o outro que está orando por ele(a) e não orar, ou contar algo como um fato real, quando não passa de um caso fantasioso, a título de ilustração impactante para arrancar aplausos ou para aparentar mais espiritualidade. Alguns palestrantes e pregadores inescrupulosos costumam se valer deste expediente. Vale lembrar que em 1980, Fritz Ridenour, publicou o livro “Conte o fato como ele é” – Editora Vida, na tentativa de combater este tipo de falta de ética.

1. Conceituações (só pra lembrar):

Ética:

– Parte da Filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana. É ciência normativa que serve de base à filosofia prática;

– Conjunto de princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão; deontologia (deontos + logia = doutrina dos deveres);

– É a ciência da moral.

Ética Social:

– Parte prática da filosofia social, que indica as normas a que devem ajustar-se as relações entre os diversos membros da sociedade.

Moral:

– Parte da Filosofia que trata dos atos humanos, dos bons costumes e dos deveres do homem em sociedade e perante os de sua classe;

– Conjunto de preceitos ou regras para dirigir os atos humanos segundo a justiça e a equidade natural.

Moral Cristã:

– A moralidade que em si contém os preceitos evangélicos.

Moralidade Cristã:

– Conjunto de reflexões concordes com os princípios da religião Cristã.

Moralidade Pública:

– Conjunto de preceitos e de normas que regem os costumes sociais de determinada época.

Costume:

– Regras ou práticas que se observam nos diferentes países.

Deontologia:

– Parte da filosofia que trata dos princípios, fundamentos e sistemas de moral; estudo dos deveres.

Doutrina:

– Doutrina é definida como um conjunto de princípios que servem de base a um sistema, que pode ser literário, filosófico, político e religioso.

2. Doutrina bíblica e ética.

A falta de ética está no DNA do ser humano, desde a sua queda, no jardim do Éden. O profeta Jeremias assim se expressou: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9). E Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Sl 51.5). O cristianismo entende e prega que Jesus e sua obra redentora na cruz é o único caminho viável e eficaz para mudar verdadeiramente o comportamento ético do ser humano. Somente os regenerados e habitados pelo Espírito Santo têm condições especiais de lidar com o pecado, que não tem mais domínio sobre eles (Rm 6.14). Nesta linha, o apóstolo Paulo apela aos cristãos: “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados,” (Ef 4.1).

O Pr. João Arantes Costa[1] diz: “O que fazemos não pode estar desvinculado do que cremos. A doutrina bíblica mostra nossa posição em Cristo e a ética determina nosso comportamento em Cristo. Com base em nossa doutrina bíblica é que formulamos os deveres que temos em nosso contexto cultural.“ Assim, ele menciona três aspectos da ética:

1º) Ética individual: a que trata do dever do homem para consigo mesmo.

2º) Ética social: a que trata do dever do homem para com o seu próximo.

3º) Ética teísta: a que trata do dever do homem para com Deus.

A doutrina bíblica estabelece uma ética cristã, com valores morais e princípios de conduta que trazem paz interior e felicidade (Ética Individual), promovem o relacionamento pacífico e proveitoso entre as pessoas (Ética Social) e agradam a Deus (Ética teísta).

A Ética Cristã não deve ter qualquer comprometimento com o legalismo!

“Certo rabino frisa que existem 613 mandamentos de Moisés (248 afirmativos e 365 negativos), mas Davi reduziu-os a 11 conceitos principais (Sl 15.2-5), Isaías a apenas 6 (Is 33.15), Miquéias a 3 (Mq 6.8), Amós a 2 (Am 5.4) e Habacuque a apenas 1 (Hc 2.4). A Regra Áurea (Mt 22.37-39) é o mais perfeito desses sumários.” “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

3. Como a ética é transmitida?

O processo tem de ser iniciado de alguma forma e é reconhecido que a ética é transmitida por três modos: ensino, exemplo e sanção.

O ensino da ética não se resume à transmissão de algumas ideias gerais acerca do respeito ao próximo, por exemplo, ou da recordação de tradicionais códigos éticos. O ensino precisa ser transmitido em casa, na escola, na igreja etc. Jesus utilizou a maior parte do seu ministério para ensinar a mais sublime ética existencial, contida nos evangelhos.

O exemplo sempre teve papel fundamental, seja na mudança ética, seja na fundação de um espaço ético. O que entendemos por exemplo não são atos heroicos, mas o respeito claro as regras, especialmente por parte daqueles que estão na liderança, no lar, na escola, na igreja, na empresa, no governo etc.

A sanção, ou seja, a quebra de um ambiente de impunidade, constitui o outro elemento de mudança ética. Existe a tendência humana de seguir a maioria e isto não é exceção no campo da ética. Em uma organização em que alguns praticam os maiores desvios e nada lhes acontece, a maioria não se sente obrigada a seguir as práticas corretas. As sanções impostas aqueles que por assim dizer lideram o desvio tem um efeito fundamental no redirecionamento ético das organizações.

4. Ética nas organizações

As empresas mais bem estruturadas costumam empregar dois instrumentos que auxiliam na manutenção da ética:

O código de ética é um conjunto de regras sobre a vida organizacional. Pode ser muito amplo ou breve. O importante é que clarifique para os membros da organização quais os comportamentos adequados nas principais situações: frente a clientes, fornecedores, concorrentes, autoridades governamentais. Também nas relações internas e no que concerne a questões sobre informações privilegiadas, propaganda etc.

O conselho de ética é um grupo institucional, formado por pessoas de ampla experiência e maturidade, que vela pela ética da organização. Não tem um poder judicial ou policial. Serve para que os dirigentes sejam alertados quanto aos perigos éticos que estão ocorrendo. E servem para que qualquer membro possa discutir questões éticas que se estão apresentando, para esclarecer-se e buscar a melhor decisão.

É ética a organização quando respeita a vida, a verdade e os recursos.

5. Reações à falta de ética

Diante da falta de ética o cidadão ou cristão pode reagir passivamente, isto é, nada fazer, ou ativamente, boicotando ou denunciando, conforme síntese abaixo:

a) Síntese:

Reações

b) Situações de passividade:

Comodismo: Vai me dar trabalho…

Medo: Pode me prejudicar…

Insensibilidade: Não é tão grave assim…

Pessimismo: Não vai adiantar…

Conformismo: É assim mesmo…

Delegação: Alguém vai se manifestar…

Alienação: Agora sou cidadão dos céus…

Fuga: Não sou de confusão…

Insegurança: Não tenho como sustentar bons argumentos…

Timidez: Não gosto de me expor…

Divinização: Deus está no controle e vai agir…

c) Como Jesus reagiu, na sua época?

Jesus é o nosso referencial e exemplo maior. Portanto é importante observar nos evangelhos, como ele reagiu em sua época: aos Governantes, aos Religiosos, aos Costumes e Tradições, aos Comportamentos, ao Sistema Legal etc.

d) Análise de caso: Comercial veiculado na TV de “O Boticário” referente ao dia dos namorados 2015, incluindo um par gay masculino, um par gay feminino e dois casais héteros.

O boicote proposto pelo Pr. Silas Malafaia dividiu a opinião dos evangélicos. A visão do referido pastor que tem sido vítima do ativismo gay devido às suas posições firmes e contrárias à prática da homossexualidade é de que tal propaganda faz apologia e promoção da homossexualidade em larga escala, utilizando a mídia televisiva de forma ostensiva. Portanto, entendo que sua lógica de raciocínio, quando conclama os cristãos e todos os que defendem a família tradicional a boicotarem tal empresa se baseia nas seguintes premissas, dentre outras:

1ª) A homossexualidade é antinatural.

2ª) A homossexualidade é uma prática pecaminosa condenada por Deus. Deus e nós, cristãos, amamos os homossexuais, mas rejeitamos sua prática.

3ª) A homossexualidade agride o modelo de família instituído por Deus e é danosa às pessoas e à sociedade.

Sendo assim, tal iniciativa tem o meu apoio!

Quanto aqueles cristãos que são contrários ao boicote, alegando que o amor é lindo, na forma que for, e deve ser aceito e respeitado por todos, vale lembrar que tal entendimento não tem apoio na bíblia. Respeitar, sim, aceitar, depende! Nem toda a forma de amor é linda. O amor de um adúltero pela sua amante não é lindo. O amor de um pedófilo por uma criança também não.


Veja o que penso sobre homossexualidade, neste blog, no E-BOOK “HOMOSSEXUALIDADE”

http://pauloraposocorreia.com.br/2014/10/22/homossexualidade/


[1] Revista: O Comportamento do Crente, pag.8 (Ed. Cristã Evangélica)

Carta à Rede Globo

Carta Globo


Rio de Janeiro, 23 de novembro de 1985

À
Rede Globo de Televisão

Prezados Diretores

É de incontestável valor a contribuição prestada por essa conceituada emissora ao povo brasileiro.

As sociedades modernas não podem mais prescindir de informações sobre os fatos que interferem direta ou indiretamente em sua vida.

Sem sombra de dúvida o veículo de comunicação de massa de maior alcance e penetração, na atualidade, é a televisão. Se por um lado isto representa um aspecto facilitador da comunicação social, por outro lado impõe uma responsabilidade acentuada àqueles que preparam o conteúdo das comunicações que, por sua vez, devem se curvar aos interesses da sociedade e por ela serem vigiados.

Estamos vivendo os primeiros meses da tão propagada “Nova República”, nitidamente identificada com as propostas de mudanças há muito reclamadas pela sociedade. Surge então a grande dúvida: até que ponto esta e outras emissoras estão contribuindo para amenizar os problemas da nossa sociedade? Que tipo de participação terão para a construção de uma sociedade com personalidade definida, cientificamente evoluída, socialmente justa e humana, e culturalmente invejável?

Na atual fase de transição, é preciso que se façam colocações sérias acerca do “modus vivendis” da Nova República. Muitos confundem as mudanças propugnadas com a liberalização do comportamento, comprometendo assim a nossa já tão corrompida moralidade. Somos absolutamente intransigentes, quando indivíduos inescrupulosos, amantes da desgraça alheia e desejosos de lucro fácil, buscam aproveitar-se dos ventos democratizantes para transformar o nosso país em uma imensa terra de ninguém, onde a imoralidade seja o apa­nágio de todas as classes. De nada adiantarão todos os esforços para tornar o Brasil uma nação próspera, socialmente justa, se as bases forem carcomidas no que há de mais sagrado: os princípios éticos que devem reger o comportamento humano.

No tocante ao desempenho dessa conceituada emissora é com pesar que cumpro o dever de denunciar o crescente desrespeito aos valores éticos de nossa sociedade, principalmente a instituição do casamento e a família.

Temos percebido, num estado quase que de pânico, a liberalização moral, quer na novela ROQUE SANTEIRO, onde predominam os casais ilegais e a infidelidade conjugal, sepultando definitivamente a instituição do casamento; quer em comerciais que vêm explorando o nudismo feminino (JEANS CALVIN KLEIN, ELLUS, DUCHA LORENZETE etc) e, agora o seriado GRANDE SERTÃO VEREDAS que promete ser um es­timulante sem precedentes à já tão insuportável violência urbana, ao sexo barato e à vida sub-humana.

O problema se torna ainda mais grave, na medida em que as cenas retratam apenas uma parte da realidade, isto é, toda a ênfase é colocada nas cenas que excitam os desejos sexuais, enquanto que aquelas que revelam as consequências na vida profissional, na família, na sociedade etc, são levemente abordadas ou cuidadosamente encobertas. Certamente o público telespectador não estará muito interessado em assistir a cenas de doença venérea, desequilíbrio psicológico, insegurança, insônia, desespero, que são as consequências naturais da quebra dos valores éticos enfatizados.

Meu Deus! Democracia não significa conivência com a de­gradação. Enquanto, em outros tempos, o homossexualismo era sinônimo de indecência humana, hoje é considerado como um estilo normal de vida.

Que país desejamos legar aos nossos filhos? Como cons­truir um futuro melhor, se muitos dos que deveriam constituir-se como paradigma para a juventude preferem que o Brasil seja o país da liberdade sexual, do aborto voluntário e de outras práticas que degradam o homem?

Finalmente, gostaria de apelar à consciência dos senhores diretores quanto ao respeito aos espaços públicos e aos horários em que certos comerciais e programas são exibidos. Democracia é dar li­berdade aos cidadãos para exercerem a sua vontade, dentro da lei vigente, respeitando, porém, o espaço público. Todo o espaço privado está à disposição daqueles que optarem por outro tipo de moralida­de. É só verificar como as nações democráticas mais evoluídas uti­lizaram o espaço privado e seguir seus exemplos.

Atenciosamente,
Paulo Raposo Correia
Engenheiro

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Resposta da Rede Globo a esta carta: Resposta Rede Globo.pdf

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Obs.: Esta carta foi escrita há quase 30 anos, num outro contexto político-social. A intenção de publicá-la aqui é para incentivar outras pessoas a também exercerem seu dever de cidadão e cobrar da mídia televisiva uma postura adequada. Nessa cobrança é importante ressaltar os aspectos positivos da emissora e, ao denunciar os abusos, pronunciar-se como um cidadão comum. Não se deve envolver convicções religiosas nesse momento. Naquela época as manifestações surtiram algum efeito. A imprensa repercutiu rumores de que a programação ia mudar por causa de manifestações dos “moralistas”. Hoje, a coisa está feia! Além de reclamar, temos também a arma do boicote, inclusive para os produtos dos patrocinadores. Se a população fizer as duas coisas certamente será ouvida.  Fica aí a dica!

Manifestação SIM! Ofensa NÃO!

Manifestações

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”

Nestes últimos dias temos assistido a uma espécie de levante popular, pipocando por toda a parte desta imensa nação chamada Brasil e em várias partes do mundo onde há brasileiros residindo. O termo “pipocando” cai como uma luva. O cidadão brasileiro é a “pipoca” e o “óleo da pipoqueira” é o contexto político e social onde a comunidade está inserida. Ao longo de muitos anos o fogo da corrupção, da irresponsabilidade, da insensatez, da insensibilidade, do egoísmo de muitos governantes e representantes do povo, mas também de alguns empresários e cidadãos inescrupulosos, vem elevando a temperatura emocional até chegar ao ponto de arrebentar com a paciência até do cidadão mais pacato ou conformado.  Ninguém aguenta mais ficar passivo diante de tantas circunstâncias aflitivas e comportamentos lastimáveis e execráveis(*). Assim, o povo saiu do mundo virtual das redes sociais e foi para as ruas do mundo real para exigir as mudanças.

Diante dessa nova e surpreendente realidade das ruas, quase difusa e apartidária, os políticos e governantes ficaram perplexos. E, a liderança e liderados cristãos, ficaram divididos. Uns foram para as ruas e se uniram ao clamor popular e outros condenaram as manifestações. Quem está com a razão? O cristão deve ou não deve se manifestar contra o sistema dominante?

Nesses dias de manifestações nas ruas, também as redes sociais receberam uma avalanche de manifestações através de mensagens e imagens, umas criativas e bem humoradas e, outras, até ofensivas. Dentre estas a própria Bíblia foi citada, como Provérbios 29.2, 4 e o exemplo de Jesus expulsando os comerciantes do templo de Jerusalém.

Quero chamar sua atenção para a resposta de Jesus aos fariseus e herodianos da sua época: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22.21b).  Desta resposta podemos depreender que nós cristãos temos responsabilidades para com César, que representa o governo humano e, para com Deus e seu reino. Ou seja, nós, cristãos, somos cidadãos da terra e cidadãos dos céus. Como cidadãos dos céus, temos inúmeras responsabilidades e privilégios, no âmbito interno da igreja e também fora dela, na sociedade em que vivemos. Devemos, por exemplo orar pela paz da cidade e temos o privilégio de pregar o evangelho, porque é através de vidas transformadas e restauradas pelo Evangelho da Cruz é que podemos esperar por uma sociedade melhor. Como cidadãos da terra, temos que trabalhar, participar e ser útil à sociedade, pagar impostos e usufruir do retorno dos impostos pagos. Sabemos que não dá para esperar uma sociedade justa e próspera quando os seus governantes e representantes não têm o temor de Deus. Entretanto, quando o momento é de reagir e se manifestar pacificamente contra tanta corrupção e injustiça social, não podemos ser omissos. Também não podemos aderir a qualquer pauta ou bandeira, sem uma prévia análise dos fatos, das contestações e das proposições. Jamais devemos dar nosso apoio a proposições equivocadas ou nos deixar enredar por delírios anarquistas. Também, não podemos perder de vista, que não se muda todo um sistema torto e emperrado somente porque se fez um protesto. É importante fazer um pouco de barulho nas ruas que, obviamente não é o barulho da depredação ou destruição do patrimônio público ou privado. Entretanto, o que pode produzir resultados mais eficazes, profundos e duradouros são as mudanças estruturais e de modelos, como, por exemplo, o aumento da liberdade econômica e a redução do poder e tamanho do Estado defendido por alguns. Certamente a mudança de cultura e de atitude também precisam acontecer. Para tanto, é necessário investir positivamente nas crianças de hoje, na esperança de que se tornem os cidadãos diferenciados de amanhã.

Um aspecto que não podemos deixar de mencionar aqui é que a igreja, sendo laica, não pode se comprometer com partidos políticos ou governos, devendo-lhes favores.  É sábio e inteligente manter um relacionamento cordial e respeitoso com as autoridades, mas, em hipótese alguma pedir favores que impliquem em compromisso de ceder espaço para palanque eleitoral ou ficar em silêncio diante dos seus atos injustos ou inescrupulosos. A igreja precisa ter total independência para defender a ética, a moral e os princípios, questionando, quando necessário, as autoridades que deles se desviarem.

Portanto, manifestação sim, ordeira e pacífica, pois é um importante direito democrático do cidadão. Porém, feita de forma correta e sensata, no momento certo e local adequado. Interromper vias importantes aqui e ali, todo o dia, é coisa insana, é radicalismo, é querer aumentar o caos social, é atentar contra o direito de ir e vir das pessoas, é prejudicar empresas e empregados etc. etc. Não podemos perder de vista que a manifestação na rua é apenas e simbolicamente um “cartão amarelo” para os governantes e representantes do povo; o “cartão vermelho” é o voto consciente nas urnas. Este sim, o voto, é a maior e mais poderosa arma do cidadão, numa democracia.

Por que não devemos ofender os governantes e as autoridades superiores?

Porque é assim que nos ensina a Bíblia, particularmente os “códigos de conduta do cristão” escritos pelos apóstolos Paulo e Pedro. Vejamos o que dizem com relação aos governantes e autoridades:

“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação.  Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” (Rm 13.1-8)

“Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes, estejam prontos para toda boa obra,” (Tt 3.1)

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. (1 Pe 2.13-14)

“Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.” (1Tm 2.1-2)

Em síntese, esses textos nos ensinam que:

1º) Toda a autoridade procede de Deus.

2º) Devemos nos sujeitar, isto é, respeitar e obedecer as autoridades superiores. Vale lembrar que também devemos cumprir as leis estabelecidas, enquanto vigentes, o que não nos impede de lutar, democraticamente, para que sejam melhoradas.

3º) É errado falar mal das autoridades, ou difamar (caluniar, infamar).

4º) Os erros dessas autoridades não justificam os nossos erros. Pelo contrário, o nosso proceder precisa ser tal que engrandeça o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

5º) Devemos orar pelas autoridades.

Num próximo artigo procurarei desenvolver este assunto do relacionamento do cristão com as autoridades superiores.


(*) Veja no meu artigo “Apesar de você….”, de 07/12/2012, alguns dos motivos que fizeram e fazem elevar a “temperatura emocional” do cidadão brasileiro.

Apesar de você.

Apesar de você…

Apesar de você

Era quase manhã, de mais um dia ensolarado e quente que, como sempre, não pedia permissão para chegar. Chegava como tantas outras vezes, de mansinho, com infinitos raios, batendo na vidraça da varanda, se espremendo por entre as frestas do blackout da cortina da janela.  Mas, ainda não era hora de acordar. Longe disso, era hora de virar para o lado, fechar os olhos e voltar a dormir. Quem disso que isso seria tão fácil assim. Lá estava o criado mudo, com o relógio digital sobre ele, assinalando em números bem grandes, iluminados, a hora 5:05. De imediato esses números adentraram meus olhos semiabertos e meu cérebro, quase adormecido, viu ali um inexplicável SOS. Nenhuma razão aparente havia para tal associação, pois apenas as preocupações corriqueiras e normais da vida me faziam companhia quando fui para a cama. Além disso, inexplicavelmente e do nada,  ecoava, insistentemente, em minha mente o antigo e famoso refrão daquela música do Chico Buarque: “Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia”.  Que coisa estranha! Por que essa música, do tempo da ditadura militar em nossa pátria, perturbava agora o meu sono? Já fazia tanto tempo que a tinha ouvido pela última vez ou pensado no assunto; por que isso agora? Como não dava pra explicar, o melhor mesmo era tirar proveito da junção das duas coisas e refletir, mais tarde e bem acordado, sobre algo como “SOS humanidade”; ou, mais especificamente, “SOS povo brasileiro”.

“Apesar de você”…..

Você quem? Ou, você o que? Esse “você” da composição era muito real, era uma referência à ditadura. Mas, também pode significar um ser vivo ou uma coisa, uma situação; ou vários seres ou coisas e várias situações que, agindo sem pedir licença, transformam felicidade em tormento, alegria em dor, tranquilidade em complicação, enfim, vida em sofrimento. Por exemplo e desabafando….:

Apesar de você, democracia, que era cantada e exaltada como luz a irromper desalojando a escuridão da ditadura militar, nossas vidas continuam reféns dos mandos e desmandos dos poderes, das instituições e das situações cotidianas…. Amanhã há de ser outro dia.

Apesar de você, governo ou administrador público, irresponsável, incompetente ou corrupto, que não se satisfaz, em sua voracidade, com poucos impostos, enquanto nem de longe devolve à sociedade a contrapartida de serviços dignos de um cidadão…. Amanhã…

Apesar de você, político corrupto, que só está interessado em aumentar sua conta bancária, em vez de produzir resultados que efetivamente melhorem o dia a dia da população…. Amanhã…

Apesar de você, juiz ou desembargador corrupto, que ultraja a justiça, quando permite que o suborno dos poderosos, solapem o legítimo direito dos mais fracos….. Amanhã…

Apesar de você, policial irresponsável ou corrupto, que desampara ou achaca o cidadão, enquanto corre atrás apenas dos seus próprios interesses…. Amanhã…

Apesar de você, fiscal corrupto, que permite que impostos sejam sonegados, prejudicando o investimento no atendimento das nossas crianças e do nosso povo, porque o que lhe interessa mesmo é o seu conforto e bem-estar pessoal…. Amanhã…

Apesar de você, agente da vigilância sanitária irresponsável e corrupto, que permite que bens e alimentos que prejudicam a saúde da nossa gente estejam em circulação, e que serviços sejam prestados de forma precária, porque o que mais lhe importa é o enriquecimento ilícito….. Amanhã…

Apesar de você, burocracia infernal, que faz com que os inventários pareçam não ter fim e os processos se arrastem indefinidamente na justiça ou nos órgãos públicos, prolongando a agonia do cidadão…. Amanhã…

Apesar de você, empresário sem escrúpulos, que explora muitos trabalhadores, arruína nosso meio ambiente e ameaça nossa sobrevivência…. Amanhã…

Apesar de você, trabalhador negligente, que faz com que paguemos mais pelos produtos e serviços que consumimos, e faz com que a qualidade fique a desejar…. Amanhã…

Apesar de você, SAC*[1] desqualificado, que produz irritação, fazendo com que o que foi comprado para produzir satisfação, seja motivo de perturbação e estresse…. Amanhã…

Apesar de você, Plano de Saúde ineficiente, que faz com que nossas consultas médicas, exames laboratoriais e internações sejam adiados, nossa enfermidade prolongada e nossa qualidade de vida prejudicada…. Amanhã…

Apesar de você,  máquina pública emperrada, que não investe o suficiente na expansão de leitos hospitalares, principalmente em CTI, nem em salas de aula e em profissionais de saúde e de educação; entretanto, disponibiliza tantos recursos para os aparelhos esportivos da cidade por conta de uma Copa e Olimpíadas…. Amanhã…

Apesar de você, cemitério mal administrado, que permite que a população já esteja ameaçada de não encontrar vagas para sepultar os seus mortos…. Amanhã…

Apesar de você, líder cristão espertalhão, que engana gente simples com a estratégia do “é dando que se recebe”; que pratica política eclesiástica para conquistar seus objetivos e fazer prevalecer sua vontade e, depois diz à igreja que foi obra do Espírito Santo…. Amanhã…

Apesar de você, motorista irresponsável, que faz com que vidas sejam ceifadas ou quase inutilizadas por causa da sua embriaguez ou atos inconsequentes, que fecha cruzamentos com sua falta de educação e agrava os congestionamentos etc. etc. … Amanhã…

Apesar de você, síndico corrupto ou autoritário, que se utiliza do expediente de obras superfaturadas que oneram nossas taxas condominiais, que inventa obras bizarras que tiram nossa paz, que trata com descaso a convenção condominial, afrontando nosso direito, o que é agravado quando se tem que conviver com condôminos omissos que somente se mexem quando o leite já foi derramado…. Amanhã…

Apesar de você, vizinho incômodo, que tem vocação para fazer barulho, provocar irritação e criar problema…. Amanhã…

Apesar de você, parente complicado, que fala mal do seu parente, tira proveito de situações, mas, na hora do aperto vai buscar a ajuda deste…. Amanhã…

Apesar de você, cônjuge infiel ou irresponsável, que desrespeita a aliança matrimonial, arruinando sua família, ou que se dedica a qualquer coisa, menos à sua família…. Amanhã…

Apesar de você, falso amigo, que quer tirar proveito dessa relação, mas só Deus sabe o que você faz pelas suas costas…. Amanhã…

Apesar de você, ser insensível e hipócrita, capaz de fazer muito pelos animais e não mover uma só palha para ajudar os necessitados humanos…. Amanhã…

Apesar de você, covarde, incrédulo, abominável, assassino, ladrão, impuro, feiticeiro, idólatra, mentiroso, etc etc, que desagrada a Deus e torna a vida humana tão mais difícil e frágil…. Amanhã…

Apesar de você, “cada um de nós”, imperfeito e incapaz de viver uma vida permanentemente irrepreensível diante de Deus e dos homens…. Amanhã…

Finalmente, APESAR DE VOCÊ, isto é, de todos esses seres e situações acima mencionados e de tantos outros que você teria para adicionar a esta lista, AMANHÃ HÁ DE SER OUTRO DIA!

Sim, será outro dia! Mas, que dia será esse? Certamente com mais tecnologia, porém com os mesmos ou outros problemas que tornam a vida tão sofrida. É sempre bom e necessário cultivar a esperança de dias melhores. Desde há muitos séculos passados, pensadores, filósofos, sociólogos, religiosos etc. discutem e buscam encontrar a fórmula de uma sociedade justa, perfeita e feliz. Porém, humanamente isso é impossível, por uma simples razão. O vírus do PECADO se instalou na raça humana bem no início de sua trajetória. Pra esse vírus só há um antivírus, a obra de redenção realizada por Jesus Cristo na cruz do Calvário. Regenerado ou gerado de novo e habitado pelo Espírito Santo o ser humano tem a oportunidade de um novo começo; a criatura é feita filho de Deus. Entretanto, apesar das condições tão favoráveis proporcionadas pela nova vida em Cristo, continuamos reféns da natureza humana e do pecado que tão tenazmente nos assedia.

Assim, todos os remidos do Senhor Jesus, aguardam por outro dia, um dia realmente especial e diferenciado, quando Jesus Cristo voltará a este mundo para arrebatar a sua igreja, ressuscitando os salvos de entre os mortos e transformando o corpo dos vivos num corpo glorioso, igual ao do Jesus ressurreto. Este, sim, é o dia que tanto aguardamos! E, tudo isso, apesar de nós, porque é pela graça, o favor imerecido de Deus.

Nesse dia sim a poesia de Chico Buarque fará algum sentido:

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

“Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!  A graça do Senhor Jesus seja com todos.” (Ap 22.20-21)


[1] SAC – Serviço de Atendimento ao Cliente

O Brado Retumbante x Cordel Encantado

No meu post de 22/08/2011 fiz uma breve análise de conteúdo da novela Cordel Encantado sugerindo que, pelas mensagens sutis e explícitas passadas para a família brasileira, esta poderia ser melhor intitulada de “Bordel Encantado”, daí o trocadilho. Então, o que esta minissérie tem em comum com a novela Cordel Encantado além do ator Domingos Montagner, e com outras tantas produções da Rede Globo? É claro que tecnicamente não se pode negar que são produções bem elaboradas. Porém, nosso foco aqui é conteúdo passado para o público….

“É uma história fictícia que aborda política em qualquer lugar do mundo“, explicou o ator Domingos Montagner que vive Paulo Ventura, o protagonista de “O Brado Retumbante”.

Lá em Cordel Encantado ele foi o Rei do Cangaço, aqui, o presidente do Congresso Nacional de um Brasil fictício que inesperadamente assume a Presidência da República depois do acidente e morte do Presidente e seu Vice. A trama gravita em torno do combate à herança corrupta comandada pelos ministros nomeados pelo seu antecessor e a outros ferrenhos opositores pertencentes à banda podre da política. Sem dúvida este é um excelente ingrediente para aliviar tensões e encantar cidadãos que suspiram e clamam por medidas concretas, eficazes e definitivas de limpeza ética nos poderes legislativo, executivo e judiciário de um Brasil real! Até aqui, tudo bem… Entretanto, apenas a costumeira exploração da luta do bem contra o mal não seria suficiente. Era preciso, como sempre, apimentar, acrescentar o tempero forte do apelo sexual, que não pode faltar na telinha! Se fosse o tempero do amor romântico, legítimo e decente entre homem e mulher, nada contra! Considerando que ninguém é perfeito, o Sr. Paulo Ventura, apesar de idealista ético, era um mulherengo, adúltero e pegador, no linguajar de hoje. Ele poderia ter qualquer outra fraqueza a ser explorada, mas precisava ser essa. Devido a esse seu desvio de caráter estava separado da sua esposa Antonia (Maria Fernanda Candido).  Afinal, adultério é quebra da aliança do casamento. Devido a essa nova situação de Presidente, ele pede à sua ex-esposa Antonia para voltar a morar com ele e ela Ela “aceita voltar com ele porque, apesar de tudo, ela é muito parceira e existe um amor muito profundo entre a Antonia e o Paulo” (comenta a atriz Maria Fernanda Candido). Para encurtar esta análise, vejam como uma minissérie pode ser usada:

1. Desserviço à instituição do casamento e a família.

Tal qual na novela Cordel Encantado, temos aqui um desserviço prestado a instituição do casamento e a família. O Sr. Paulo Ventura tinha tudo para restaurar seu casamento e, ao lado da sua esposa e parceira, desenvolver um belo trabalho na presidência. Entretanto, enquanto combatia corajosamente os corruptos do Congresso não conseguia dominar sua libido, traindo e desrespeitando sua esposa e mãe de seus filhos, contando sempre com a tolerância e cumplicidade de seus aliados mais próximos e assessores que, por exemplo, deram cobertura a um encontro dele com uma amante, num cenário de alta produção que fracassou, pois a jovem passou mal. Nem hospitalizado o sujeito se aquietou; teve que de assediar uma enfermeira no exercício do seu digno trabalho. Depois da alta teve um caso com sua médica particular que, de igual forma, sem escrúpulos, traiu seu marido e família. Diante de tanta mentira e traição sua esposa Antonia volta a se afastar e tem um caso com um escritor argentino. Finalmente, o Presidente pegador também tem um caso com Fernanda (Mariana Lima), a responsável pela comunicação entre a Presidência e o Congresso que há muito tempo escondia sua paixão por ele. Outro casamento destruído é o da filha de Paulo Ventura que não resiste à traição política do seu marido, que armou contra seu próprio sogro e presidente.

Algumas mensagens sutis e perigosas são passadas nessa minissérie:

A primeira é a da “aparente inviabilidade” de um casamento duradouro e feliz. O casamento é frequentemente apresentado na telinha como problema e como cerceador da liberdade e felicidade do indivíduo.

A segunda é a da “aparente viabilidade” de uma conduta ética irrepreensível de um governante, que é capaz de resistir ao nepotismo ou deixar sua filha dormir na prisão para dar o exemplo de não fazer valer sua posição para resolver problemas particulares de seus familiares etc e, ao mesmo tempo, não é capaz de ser fiel e de falar a verdade com a sua esposa. A pergunta que não quer calar é: Pode, de fato, existir esse tipo de caráter ético capaz de ser fiel, justo e verdadeiro com a nação, com o povo e não o ser com a pessoa amada que vive debaixo do mesmo teto? Certamente que não! Isso é enganação! Acreditem que, no início cheguei até a pensar em “votar” no Paulo Ventura, mas mudei de idéia quando percebi que o seu caráter, tal qual a estória, também é ficção.

2. Prestação de Serviço à causa LGBT.

É impressionante a estratégia das emissoras de passar mensagens e conceitos através de novelas e minisséries. Dia após dia, em horário nobre ou fora dele, é empurrado goela abaixo do telespectador os desvios da sexualidade como sendo algo normal. Normal não é, mas, infelizmente, é cada vez mais comum. Aparentemente um episódio foi cuidadosamente inserido para colaborar com a causa LGBT. O Sr. Paulo Ventura teve a desventura de ter um filho efeminado e transexual. Então é mostrado como um pai de “caráter tão nobre”, mas “ultrapassado”, após várias sessões com seu analista, passou a “aceitar” a opção sexual do filho. Não tenho dúvida de que pais, familiares e a sociedade devem respeitar as pessoas como elas são, mas não necessariamente são obrigados a aceitar e concordar com o que fazem! Também fizeram questão de mostrar uma cena de um transexual (o tal filho do presidente) apanhando de um heterossexual para não deixar apagar na consciência coletiva a chama da “lei da homofobia”, a partir da qual uma minoria barulhenta quer impor à maioria a aceitação da sua causa, instituir privilégios e calar os contrários. Mais uma vez é preciso deixar claro que somos totalmente intolerantes a qualquer forma e prática de violência contra pessoas. Entretanto, para punir tais crimes já temos as devidas leis.

Um país próspero para todos com ética e libertinagem sexual só existe na ficção. Porém, um país sustentável se faz com famílias bem estruturadas, éticas e saudáveis, que temem ao Senhor Deus e praticam a sua vontade.

É isso aí! Fique alerta e resista firmemente! Não deixe que a mídia faça a sua cabeça!

O câncer de Lula – lições e aprendizados

Considerando o momento, aproveito para disponibilizar aqui um material interessante que recebi de uma amiga médica sobre o câncer de Lula.

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Disse ela:

Tenho sido abordada para dar minha opinião sobre o triste caso do ex-presidente Lula e sua enfermidade. Estes casos fazem parte do meu dia a dia como endoscopista respiratória. Optei por enviar uma cópia da opinião de um amigo e colega de profissão com o qual mantenho contato através de um fórum sobre tabaco e doenças relacionadas. Esta é uma opinião valiosa e faço minhas as palavras e explicações do colega. Creio que é momento de exercermos a intercessão por este cidadão que enfrentará luta difícil daqui para frente.

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 O câncer de Lula – lições e aprendizados

A notícia que pegou de “surpresa” o ex-presidente Lula, a mídia, políticos e a sociedade, de modo geral, a nós, profissionais de saúde, já não nos causa tanta perplexidade, pois o câncer de laringe tem como principais autores o fumo e o álcool, dos quais o ex-presidente e agora cidadão-paciente Lula era dependente como, aliás, uma parcela significativa da população brasileira.

Quando uma pessoa pública do porte e da história do ex-presidente Lula é atingida por uma doença que poderia ser evitada – como o câncer de laringe atribuído ao fumo e ao álcool (seus principais fatores de risco) – há toda sorte de manifestações, especulações, preocupações e outras ações, nem todas decerto, dentro de um patamar que condiga com o respeito e os princípios ético-valorativos que devem reger o trato com uma questão tão grave para um paciente, quanto o diagnóstico de um câncer.

E não importa se este paciente é o Lula, nem que ele tenha dito o que disse em 2008 sobre o “suposto direito a fumar” em sua sala de trabalho. O tabaco prova mais uma vez que ninguém é passível, independente da função ou classe social, de estar imune aos seus efeitos devastadores.

“Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.” (Albert Camus, escritor franco-argelino)

Estive lendo atentamente várias matérias na mídia e postadas nos espaços da grande rede, algumas de solidariedade e força para este momento, outras simplesmente com uma retórica de expiação, como disse Gilberto Dimenstein, jornalista da Folha de SP ontem:

“Senti um misto de vergonha e enjôo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula. Fossem apenas algumas dezenas, não me daria o trabalho de comentar. O fato é que foi uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano. Pode sinalizar algo mais profundo.”   

Também concordo com o Dimenstein em matéria postada no mesmo jornal, no dia 29/10/2011:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/998896-cancer-de-lula-vai-servir-de-licao.shtml

Penso que nós, ativistas pelo controle do tabaco e em defesa da vida poderíamos aproveitar – no estrito bom sentido – este fato: que nem o ex-presidente Lula foi poupado dos efeitos cancerígenos do fumo e do álcool.

Cora Coralina, grande poetisa de Goiás dizia:

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Entre as lições que toda a sociedade pode tirar deste episódio:

1º – O câncer atribuído ao fumo e ao álcool NÃO POUPA ninguém. Todas as pessoas que fumam – qualquer derivado do tabaco – ou fazem uso abusivo de álcool TEM RISCO ELEVADO para desenvolver Câncer ao longo da vida.

2º – A MELHOR PREVENÇÃO DO CÂNCER, particularmente este tipo de câncer – laringe – é evitar o consumo do Fumo e do Álcool.

3º – Além do temível Câncer, o tabaco pode levar ao desenvolvimento e/ou agravar 55 doenças.

4º – O tabagismo e o alcoolismo são causas evitáveis de adoecimento e morte na população.

5º – O diagnóstico do câncer de laringe no ex-presidente Lula poderá representar uma grande janela de oportunidade para a conscientização da população, particularmente as camadas de menor ingresso sócio-econômico (mais atingidas pela epidemia) na Campanha do Dia Nacional de Combate ao Câncer – Dia 21 de Novembro; Veja o link Boa Saúde do UOL com informações sobre:

http://boasaude.uol.com.br/especiais/cancer/

6º – No dia 21 de Novembro poderíamos fazer uma grande manifestação nacional sobre os riscos de fumar ativa e passivamente e o câncer, aproveitando, de forma positiva o fato ocorrido com o Lula, a favor de uma ampla conscientização da sociedade, quem sabe obtendo um Depoimento do Lula em prol da campanha.

7º – Também sugiro que encaminhemos informações baseadas em evidências sobre o câncer e outras doenças atribuíveis ao tabaco aos senadores, reforçadas com o destaque que a mídia vem dando ao tema, para barrarmos no Senado Federal, todas as mudanças feitas na Medida Provisória 540/2011 que favorecem a indústria da morte – as tabageiras.

Vou ficando por aqui, em luto por ter perdido ontem um  irmão muito querido – vítima de câncer por provável exposição ocupacional ao benzeno (trabalhou em uma Companhia Siderúrgica e nunca havia fumado ou bebido) que é liberado quando da combustão do carvão de coque que alimenta os altos-fornos – lembrando que é da mesma composição os alcalóides do alcatrão e o benzopireno liberados quando da combustão incompleta da folha do tabaco, às quais estão expostas, sejam fumantes passivos ou ativos.

Para o ex-presidente Lula – que já havia parado de fumar a alguns meses, segundo informações – devemos desejar que o tratamento seja exitoso e que possa recuperar-se plenamente para usar o dom e a grande capacidade de oratória que tem, para juntar-se a todos nós para defender o direito à VOZ que não se cale diante das injustiças sociais promovidas pelos escusos interesses da indústria do tabaco e seus interlocutores.

“Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos.” (Eduardo Galeano, escritor uruguaio)

Como outros ex-fumantes ilustres, Dr Dráuzio Varella e Oscar Niemeyer, por exemplo, um posicionamento a favor da luta antitabágica no Brasil, vinda do presidente Lula, agora ou mais adiante, seria uma grande demonstração de compromisso com saúde, e mais que isso, contra o império explorador e avassalador de uma INDÚSTRIA DO TABACO SEM LIMITES. Claro, que seja extensivo à indústria do álcool.

Será um sonho? Acreditar nos permite sonhar e lutar por nossas utopias (ou aquilo que para outros pareça utópico). (AjAraujo)

Saudações primaveris,
Alberto José de Araújo
Presidente da Comissão de Tabagismo – SBPT